quinta-feira, outubro 15, 2026
spot_img
spot_img
Início Site

Três leituras contra o Fascismo- contra todo tipo de fanatismo, sectarismo

0

@viniciocarrilhomartinez

Esse texto é baseado numa atividade pedagógica que vamos realizar em sala de aula. Tem por base o pensamento de Paulo Freire, o nosso Patrono da Educação, e que, a par da sua complexidade filosófica e sociológica, ainda hoje acarreta abordagens ou conclusões profundamente ignorantes dos conceitos.

Paulo Freire teve que sair do Brasil, no início da ditadura de 1964, porque seria morto se ficasse. Então, mesmo para fazer críticas tem que conhecer um pouco. Vou citar apenas dois tipos que cheguei a presenciar, infelizmente, e que se encontraram na reta final:

O primeiro faz uma leitura de esquerda sectária, sem leitura do autor, e conclui que, se ele defende a Liberdade, Paulo Freire é só mais um liberal. A minha pergunta para esse tipo foi direta: além dos tiranos, capitães do mato e supremacistas, quem mais é contra a Liberdade?

O segundo caso, ocorrido em 2021/22, retrata uma senhora que se autointitulava ex-aluna de Paulo Freire, garbosa, e ornamentou o seu estúdio com uma bandeira do bolsonarismo/fascismo. Nesse caso, nem pergunta houve, pois ela foi simplesmente desligada da transmissão.

Como veremos a partir de agora – a atividade que proponho –, nenhum dos dois tipos tem a menor noção do que falam ou pensam, se é que pensam, pois nunca leram ou, se chegaram a ler, não entenderam uma única palavra do que escreveu Paulo Freire.

A atividade segue abaixo.

…

Podemos fazer três leituras e três interpretações de um dos pontos cardeais do livro Pedagogia do Oprimido. Podemos supor muitas outras abordagens, mas essas três são básicas. Aliás, isso já nos lembra de um outro livro de Paulo Freire:

  • FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. São Paulo: Editora Autores Associados, 1986.

 

Nossa questão inicial, sobre a qual se sobrepõe todas as demais provocações intelectuais e morais, é a seguinte:

— Como podemos relacionar Liberdade, Autonomia e Emancipação em Paulo Freire?

É nesse ponto que temos três hipóteses centrais:

  1. A Liberdade do jugo, da opressão, da dominação pela chibata, é o ponto de partida, nada prospera sob o chicote, a não ser o ódio. E, assim, com a libertação (como luta) se afirmam a Autonomia e a Emancipação; sendo equivalentes na luta política que travam.
  2. A Liberdade está para a Autonomia, assim como a Autonomia está para a Emancipação. No Libertas quae sera tamen está inscrita a Liberdade, ou seja, a escolha, o movimento que se completa na luta pela própria libertação – entendida aqui como Autonomia que luta pela Emancipação do jugo, da tirania, da opressão.
  3. A Liberdade é fundeada na luta política, então, ninguém é livre para fazer qualquer coisa – só se é livre no processo de luta social e política. Logo, a Autonomia estaria dirigida, restringida, pela lógica afirmativa; qual seja: “Só ´podemos nos dar regras que garantam nossa libertação, participação e capacidade de decisão autônoma”. Inexiste o “direito de ser escravo/a”. Por sua vez, a Autonomia não corresponde ao “direito de comprar um tênis”. Autonomia é consciência e ação a fim de que a Emancipação – libertação, descolonização, independência, afirmação da soberania – possa ser identificada como um constructo coletivo, histórico, institucional, político.

 

Outra forma de abordagem seria essa: a Liberdade está no começo, no meio ou no final da conjugação política?

  • Liberdade → Autonomia → Emancipação
  • Autonomia → Liberdade → Emancipação
  • Autonomia → Emancipação → Liberdade

 

Seguindo a Revolução Francesa poderíamos ter mais variações possíveis, no livro Pedagogia do Oprimido: i) a Liberdade é sinônimo de libertação (descompressão do oprimido), portanto, é a origem do processo político; ii) a Liberdade está no meio de todo o processo, como uma referência intermodal para onde devem convergir a Autonomia e a Emancipação; iii) trata-se do todo, esse todo atua medium, um meio que também é catalisador, um encontro entre as três variáveis em busca de uma síntese – assim, só se distinguem Liberdade, Autonomia e Emancipação a fim de se destacar um ou outro fator, a depender do momento histórico em que se encontra a luta política.

—- Porém, para aqueles críticos sem letramento no autor, há mais uma provocação: Vocês deploram a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade? Negam a Revolução Francesa?

Agora você, como relacionaria Liberdade, Autonomia e Emancipação?

Constituição

0

Constituição

É a minha paixão
Mas, é mais
– é razão

Não é só Lei
– é Lei e movimento
– é a Reta Razão
(cálculo da emoção social)
(direção “reta” da paixão)

Vem de constituir
– verbo de ação

Democracia não é só uma palavra
– é constituição de algo
(por alguém)
(por nós)

Faça da Democracia um verbo
– verbo de ação
– tome-a como sua paixão

Constitua isso em você
– Força da Constituição em ação
– livre fruição
(de quem queria e vencia)

Faça disso a sua constituição
(Defenda-a)
(lute)
Derrote, em si, qualquer embuste

Ainda lhe falta razão?

É a sua vida
– é sofrida
– mas a Constituição é aguerrida

Basta você crer
– vote na Constituição
(pague pra ver)
– como quem ia e vencia

Há uma força na Constituição
E é você
– só falta se constituir

Entre ir e vir
– permaneça
– e se constitua

É a sua, a minha, a nossa
– Constituição
– sempre

O Sempre inclui o Agora

Eu choro
– mas, eu luto

Eu vejo, como quem vem de longe
E, de perto, me constituo na nossa Constituição

É admiração
E muito mais ação

@viniciocarrilhomartinez

Quaest divulga 1ª pesquisa sobre disputa Lula x Flávio Bolsonaro no 2º turno

Levantamento presidencial mostra o retrato do cenário eleitoral para a definição do dia 25 de outubro

Instituto Quaest divulga, nesta quarta-feira (14), sua primeira pesquisa de intenção de voto para o segundo turno da eleição presidencial de 2026, disputado entre o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

O levantamento, registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-06799, foi realizado entre os dias 8 e 11 de outubro, com 2.154 entrevistados em todo o país. A pesquisa chega ao público 11 dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro, e traz um mapeamento dos temas que devem dominar a reta final da campanha.

Trata-se do primeiro retrato quantitativo do instituto após a definição dos finalistas no primeiro turno, realizado no último domingo (4). A pesquisa, com margem de erro máxima de cerca de 3 pontos percentuais, medirá as intenções de voto e, além disso, investigará percepções e prioridades do eleitorado que podem moldar o resultado no dia 25 de outubro.

Cenário pós-primeiro turno

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno na liderança, com 47,03% dos votos, contra 45,16% obtidos por Lula.

A diferença de menos de dois pontos percentuais entre os dois candidatos no primeiro turno indica uma disputa extremamente equilibrada, o que torna o levantamento especialmente relevante para mapear o estado da corrida antes da reta decisiva.

Revista Fórum

Macaquices na política – vote certo!!

0

 

Sim, já tivemos um macaco politizado – ou mais de um. O caso mais célebre ocorreu no Rio de Janeiro. O macaco Tião foi candidato a prefeito, em 1988, e teve mais de 400 mil votos[1].

…

Hoje temos o Fascismo na rota da proa. No mundo, no Brasil.

Não faça como o Macaco Tião, não dê uma banana para o povo. Vote em defesa da nossa Constituição, da Democracia, vote a favor do povo pobre, negro e oprimido. Vote com lucidez, sem ressentimentos!

…

Talvez venha desse ressentimento a expressão “macaquices na política”. Exemplo notável disso nós verificamos entre candidatos que misturam religião e política, fé e poder temporal. Nem mesmo a outrora famosa Antropologia Filosófica, ou algo do gênero, chegaria a essas investidas desajustadas.

Por definição biológica, os chipanzés são muito parecidos com os humanos, com um antepassado em comum – algo como um primo distante na longa evolução das espécies.

Essa observação e mesmo o uso de analogias biológicas com relação às Ciências Sociais não podem ser tomadas sem consequências, indevidamente, pois, há o risco atual e crescente de naturalizarmos certos determinismos, como vimos com o “geneticismo” e como vemos com a neurociência.

O humano não se resumisse ao cérebro, órgão, dispendido da outra metade dessa equação: a mente. Não há cérebro sem mente, e vice-versa. Ou seja, não existe com validação científica algum tipo de Sociologia biológica. São construções antitéticas.

Portanto, o emprego dessa analogia de hoje não é pitoresca, nem é “biologicista”. É tão-somente um recurso didático, assim como ocorre com a licença poética, a liberdade criativa e com as figuras de linguagem. Porém, é um tema sério, tão sério quanto as “macaquices desenfreadas” de muitos políticos atuais.

Com essas observações em mente, passaremos a outras indagações acerca de alguma similitude que possamos ter com os nossos primos chipanzés – mais especificamente entre a política e a guerra.

A guerra é a continuação da política por outros meios? Essa questão não é nova, muito menos é uma ilação. É uma das afirmações clássicas da Ciência Política: Carl von Clausewitz, no livro Da guerra.

Neste sentido, foi registrada a primeira guerra civil entre chipanzés.

A reportagem retrata a primeira guerra civil entre primatas, registrada por cientistas, em Ngogo em Uganda. Em 2015, um grupo de mais de 200 chimpanzés começou a se dividir em dois grupos, que inicialmente ainda conviviam e caçavam juntos. A separação se intensificou até 2018, quando passaram a ocupar territórios distintos. Entre 2018 e 2024, foram registrados 24 ataques, que causaram a morte de mais de 20 chimpanzés, incluindo filhotes[2].

Os pesquisadores utilizaram o termo “guerra civil” como uma metáfora devido ao conflito por território através de uma violência letal, mas um elemento que merece destaque é o fato de que a divisão dos grupos precedeu o surgimento dos conflitos. Ou seja, com a polarização como premissa para desencadear conflitos, sendo compreendida como uma condição que favoreceu, é possível estabelecer uma aproximação à condição geopolítica humana durante a guerra fria, marcada pela oposição entre capitalismo e socialismo, e bem como observada durante o século XXI, sobretudo, com a crescente polarização político-partidária entre esquerda e direita.

Numa releitura provocativa, se a guerra é a continuação da política, ao fazerem guerra, os chimpanzés fazem política?

E se fazem política, os chimpanzés têm consciência de que são chimpanzés?

Não. Eles têm a consciência física de si, há testes com espelhos sobre isso, e até respondem de forma agressiva. Entretanto, a consciência “humana”, por exemplo, de autoconsciência, de projeção e afins, talvez ainda não ou, se a tem, nós não sabemos.

Essa verificação da guerra civil entre os chipanzés seria muito mais uma resposta “natural”, por impulso pra ter parceiras reprodutivas, ambiente com alimentos e questões de dominância, e não necessariamente passaria pela apresentação de projetos, transformações, embate de valores díspares ou por uma “melhoria social”. Portanto, essa verificada guerra civil é algo mais rompante.

A leitura sobre a política humana, sobre nossa condição humana de “fazer-se política” está indicada por Aristóteles (A Política)[3] e, mesmo que não se duvide muito dessa condição impositiva da política, sobre nós, transformando-nos de seres sociais em animais políticos, mesmo assim, é preciso temperarmos qualquer afirmação posterior com O Príncipe, de Maquiavel[4], e com a Antropologia Política, de Balandier[5]. E isso não é fácil, porque são referências distantes no tempo e na metodologia: não têm uma construção orgânica entre si.

A última consideração ocorre em função do Fascismo, uma vez que a primeira ação desse tipo de controle do poder é a desumanização, os ataques violentos ao “fazer-se política” e que, não poucas vezes, levam à guerra civil – como visto na Guerra Civil Espanhola.

Enfim, como aprendemos com o Macaco Tião, macaquices na política custam muito caro, seus efeitos são sentidos por décadas. O Macaco Tião passou, mas o Fascismo está aí, remando contra nós outra vez.

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

Izabela Victória Pereira – Orientanda de TCC/Filosofia/UFSCar

[1] https://super.abril.com.br/sociedade/um-macaco-ja-foi-candidato-a-prefeitura-do-rio-e-recebeu-mais-de-400-mil-votos/. Acesso em 29/09/2026.

[2] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvp09dyeljo. Acesso em 29/09/2026.

[3] ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

[4] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe: Curso de Introdução à Ciência Política. Brasília-DF: Universidade de Brasília, 1979.

[5] BALANDIER, Georges. Antropologia Política. São Paulo: Difusão Europeia do Livro & Editora da Universidade de São Paulo, 1969.

Veja tenta se defender, mas confirma que sua denúncia é uma fake news para eleger Flávio Bolsonaro e soltar Daniel Vorcaro

A revista Veja publicou neste sábado (10) uma resposta à repercussão de sua capa sobre supostos pagamentos de Daniel Vorcaro relacionados a um documentário sobre o presidente Lula. No esclarecimento sobre a fake news, a revista admite que suprimiu a voz do interlocutor do áudio divulgado e afirma que documentos e provas seriam entregues caso a colaboração premiada fosse aceita.

Esses esclarecimentos deixam uma questão central: a existência de uma declaração atribuída ao banqueiro não comprova, por si só, que os pagamentos tenham ocorrido. Ao que tudo indica, Vorcaro foi gravado por seu próprio advogado, para eleger Flávio Bolsonaro e conseguir ser libertado num eventual futuro governo.

Áudio foi editado

Veja justifica a retirada da voz do interlocutor como uma medida para preservar sua fonte. A publicação também afirma, citando uma nota da defesa, que a voz na gravação é de Vorcaro. Essa afirmação sobre a identidade de quem fala não equivale à comprovação das acusações.

Provas prometidas em troca da aceitação da colaboração

Ao responder aos questionamentos sobre a PGR, a revista sustenta que os advogados apresentaram o relato do banqueiro e que ele prometeu entregar documentos e provas se a delação fosse aceita. Segundo Veja, a proposta não foi acolhida pela Procuradoria. A revista também diz que não afirmou que o áudio integrava a delação.

A distinção é relevante: uma promessa de apresentação de provas não pode ser tratada como demonstração de que o suposto financiamento aconteceu.

PF nega depoimento e entrega de material

Na nota divulgada na sexta-feira (9), a Polícia Federal esclareceu que Vorcaro não prestou depoimento com o teor relatado na reportagem e tampouco entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo descrito.

A PF informou ainda que as propostas de colaboração apresentadas pela defesa foram rejeitadas por não atenderem aos requisitos legais, conforme decisão fundamentada de conhecimento dos advogados.

O comunicado também confirmou o recebimento de uma notícia-crime com pedido de providências urgentes sobre a publicação. O expediente foi encaminhado à área técnica para adoção das medidas de polícia judiciária.

Suspeita de operação eleitoral exige apuração

A campanha do presidente Lula nega as acusações e anunciou medidas judiciais contra a revista e Vorcaro. O senador Camilo Santana classificou a reportagem como “mentirosa”.

Segundo reportagem da CBN, o grupo Prerrogativas pediu uma investigação sobre a suspeita de que o banqueiro tenha sido incentivado a apresentar informações falsas em troca de benefícios judiciais. A história é simples. Basicamente, Vorcaro quer eleger Flávio Bolsonaro, com uma acusação falsa, para sair da cadeia.

Renan quer apoiar Lula mas o PT despreza aceno da janela e não o chama para a rua

Num gesto bem humorado, ex-candidato do Missão mandou fazer cortinas vermelhas para seu apartamento, mas o PT, até agora, despreza aceno da janela e não o chama para a rua

‘Outsider’, arrivista, oportunista, classifique-se como se queira. O certo é que, em número de votos – a questão central deste momento -, o ex-candidato a presidente Renan Santos teve 2.675.887 no mesmo primeiro turno em que a diferença a favor de Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula foi de 2.224.965. O capital eleitoral do empresário de 40 anos, um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre), tem uma sobra de 405.922 votos sobre o que teria sido necessário para empatar a disputa na primeira rodada da eleição. Em tese, Santos teve sobrando o que ficou faltando para o candidato à reeleição.

Nesta primeira semana de segundo turno, Renan trocou as cortinas de seu apartamento, renovando-as em vermelho. Foi um sinal claro e bem-humorado, admita-se, do desejo dele em anunciar o apoio ao líder popular. Para consumar o gesto, seria preciso apenas que algum representante do PT o procurasse, em nome da campanha, para discutir bases comuns e definir com ele um papel a cumprir no segundo turno.

Quem se habilita? Até agora, infelizmente, ninguém. O ex-candidato do Missão foi à janela se oferecer para apoiar Lula, mas a caravana do segundo turno está passando pela rua lá embaixo sem fazer qualquer chamado para que ele desça e reforce a marcha.

Está errado. Uma declaração formal de apoio de Renan Santos a Lula-Alckmin, neste momento, seria um fato político positivo e de ampliação da candidatura. Significaria, na prática, a quebra do paradigma ‘nós conosco’, que em tese muito criticam, mas que na prática não é praticado. Enquanto Flávio Bolsonaro vai amealhando apoios entre partidos que, inclusive, fazem parte do governo, a campanha ainda não conseguiu anunciar nenhum ganho de peso para o lado do presidente e do vice. As manifestações individuais que têm sido feitas até aqui, como a festejada declaração favorável do jurista Miguel Reale Jr., têm sido pontuais e, reconheça-se, escassas.

Está na hora de o PT romper com antigos dogmas. Da cúpula à militância, o partido precisa entender, neste momento dramático e, de preferência, de uma vez por todas, que simplesmente não detém a hegemonia política sobre a sociedade brasileira. A importância de compor com quadros que, em tese, situam-se à direita da agremiação, é vital para a democracia brasileira.

O paradoxo é que, para abrir espaço à esquerda, a grupos de plataformas confusas, com discurso arcaico e excludente, as portas do partido já se escancararam mais de uma vez. Mas quase em toda situação na qual um sinal surge do outro lado da mesa, a postura é de desprezo, ironia e rechaço. A prolongar esse comportamento histórico no momento que é o mais decisivo da vida nacional, quando o pior do que já foi produzido pela política brasileira está a um passo de assaltar o poder, corremos o risco, facilmente perceptível, de perder

‘Peça eleitoral irresponsável’, diz campanha de Lula sobre reportagem da Veja com acusações sem provas relacionadas a Vorcaro

A coordenação da coligação Brasil Pronto Para Mais, que apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), divulgou nota oficial nesta sexta-feira (9) classificando como “peça eleitoral irresponsável” a reportagem de capa publicada pela revista Veja com declarações atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

A campanha afirma que a publicação veicula acusações sem respaldo probatório a duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais.

“A reportagem é uma peça eleitoral irresponsável baseada em outra peça eleitoral: o suposto depoimento de Daniel Vorcaro, construído sobre acusações sem comprovação, com o evidente propósito de tumultuar o processo eleitoral e favorecer o adversário”, diz o comunicado da coligação.

A nota acrescenta: “Esse depoimento não existe, não há registro dele na Polícia Federal. Não há registro de delação com esse conteúdo que tenha sido aceita pelo Ministério Público e Polícia Federal. Portanto, uma farsa”.

A matéria da revista semanal cita áudio e anexos elaborados pela defesa de Vorcaro para uma proposta de delação premiada na qual o empresário alega ter repassado R$ 30 milhões em dinheiro vivo para custear despesas de um documentário sobre Lula dirigido pelo cineasta Oliver Stone, em troca de facilitação de negócios junto a fundos de pensão federais.

A própria reportagem registra que a Procuradoria-Geral da República (PGR) recusou o anexo e arquivou a proposta de acordo por ausência de elementos de corroboração.

Em manifestação enviada à publicação, a PGR confirmou que todas as tratativas com Vorcaro foram intermediadas exclusivamente por advogados e que a proposta foi rejeitada, ressaltando que “não houve depoimento oral do Sr. Vorcaro, justamente por conta da rejeição da proposta”.

À revista, o presidente Lula declarou que “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem financeira, nem autorizou terceiros a receberem recursos de Vorcaro em seu nome”.

Vingança e contradição
Na nota de repúdio, a coordenação petista pontua que foi durante a atual gestão federal que as instituições de fiscalização atuaram para decretar a liquidação do Banco Master e determinar a prisão de Vorcaro, em março.

O texto classifica a narrativa do banqueiro como uma “tentativa de vingança” com o objetivo de obter benefícios em uma eventual troca de comando no Palácio do Planalto e blindar o senador Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Lula no segundo turno.

“A contradição do relato é gritante. Vorcaro procura apresentar os pagamentos associados ao bolsonarismo como ‘patrocínio normal’, enquanto atribui crimes ao PT e ao governo sem apresentar prova das suas acusações. A narrativa tenta proteger Flávio Bolsonaro, citado em investigações sobre ligações e pedidos milionários ao banqueiro”, diz a nota da coligação, que anunciou a adoção de medidas judiciais contra calúnias e vazamentos seletivos.

O senador Flávio Bolsonaro e seu irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), são alvos de inquérito formal no Supremo Tribunal Federal (STF), sob relatoria do ministro André Mendonça, que apura o recebimento de cerca de R$ 61 milhões de Vorcaro para o financiamento do longa-metragem “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na quinta-feira (8), advogados do grupo Prerrogativas, incluindo Marco Aurélio de Carvalho, integrante da coordenação jurídica da campanha de Lula, protocolaram uma notícia de fato na Polícia Federal solicitando apuração urgente sobre suspeita de articulação entre Vorcaro e interlocutores da campanha bolsonarista.

A representação aponta indícios de tentativa de interferência no pleito eleitoral e de desvio de foco das investigações criminais sobre as fraudes financeiras do Banco Master.

Brasil de Fato

Articulação Vorcaro-Flávio Bolsonaro visa “embaraçar investigações do caso Master e interferir no 2º turno”, denuncia Prerrogativas

Manobra busca desviar o foco dos casos Master e Dark Horse e abrir caminho para a soltura de Vorcaro em eventual governo Flávio Bolsonaro

Os advogados Marco Aurélio de Carvalho e Reinaldo Santos de Almeida, integrantes do grupo Prerrogativas, apresentaram uma notícia de fato à Polícia Federal solicitando investigação urgente sobre uma “possível articulação destinada a embaraçar as investigações do caso Banco Master e a interferir no segundo turno da eleição presidencial”. A representação aponta o envolvimento de “Daniel Bueno Vorcaro, custodiado preventivamente no Distrito Federal, os interlocutores que atuam em seu nome e pessoas vinculadas à campanha do candidato Flávio Nantes Bolsonaro, senador da República”.

A iniciativa foi motivada pela informação de que “teria sido entregue a terceiros mídia com depoimento gravado contendo imputações a adversários do candidato Flávio Bolsonaro e a integrantes do governo federal”. Segundo os advogados, “essa movimentação reclama apuração imediata, a 17 dias do segundo turno, sobre a origem e a finalidade do material e sobre eventual coordenação entre o custodiado e a campanha do candidato com quem mantém relação financeira já submetida a inquérito”.

A petição relembra que “Daniel Vorcaro está preso preventivamente desde março de 2026, no âmbito da Operação Compliance Zero, sob a relatoria do Ministro André Mendonça”. O documento ressalta ainda que “as duas propostas de colaboração premiada que apresentou foram rejeitadas em junho pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, ao fundamento, segundo o noticiado, de que não continham informações relevantes nem revelavam disposição de colaborar de forma significativa”. Em setembro, o empresário prestou novo depoimento e manifestou interesse em colaborar, sem acordo firmado. “Especialista ouvido pela imprensa avaliou que sua estratégia pode ser prolongar as tratativas à espera de mudanças institucionais que o favoreçam”, aponta a peça.

De acordo com o texto destinado às autoridades, a mídia entregue fora dos canais formais é um HD que traria graves acusações direcionadas a adversários de Flávio Bolsonaro e a integrantes do governo federal, incluindo ministros de Estado. Contudo, os juristas alertam que “tais imputações não encontrariam respaldo em elementos de prova e teriam sido concebidas para produzir efeito político”. Para os representantes do Prerrogativas, “esses elementos indicam uma convergência de interesses que justifica a investigação”.

Ao detalhar os riscos envolvidos, a petição destaca que “o custodiado, cujas propostas de colaboração foram recusadas por falta de conteúdo, busca agora exposição pública de longa duração no momento mais sensível da disputa presidencial”, enquanto Flávio Bolsonaro disputa o segundo turno com o presidente Lula (PT) tendo como promessa o indulto ao pai, Jair Bolsonaro (PL). Os advogados explicam que “uma vitória do candidato alteraria o ambiente institucional em que se decidirá o curso das investigações do caso Master”.

A hipótese levantada pela representação indica que a entrega da gravação e a busca por espaço na televisão cumprem uma função dupla. “A primeira seria embaraçar as investigações, deslocando o foco dos repasses do ‘Dark Horse’ e das demais frentes do caso Master para imputações dirigidas a terceiros, e formar ambiente político favorável à soltura do custodiado e à impunidade dos envolvidos, entre eles o próprio candidato”, diz o texto. “A segunda seria interferir no pleito, levando ao eleitorado, nos dias que antecedem o segundo turno, acusações contra o Presidente da República candidato e ministros de seu governo, sem tempo para verificação ou resposta”, completam.

Os juristas advertem que “os fatos podem configurar, em tese: (i) embaraço a investigação de infração penal que envolva organização criminosa; (ii) imputação falsa, sob pretexto de colaboração com a Justiça, de infração penal a pessoa que se sabe inocente; (iii) divulgação, durante o período de campanha, de fatos sabidamente inverídicos em relação a candidatos e capazes de influir no eleitorado; (iv) a conduta de quem, ciente da inocência do imputado e com finalidade eleitoral, divulga o fato falsamente atribuído; e (v) denunciação caluniosa”.

Por fim, os noticiantes solicitam à Polícia Federal a apuração rigorosa sobre a existência, autoria, circunstâncias de gravação e destinatários do HD, além do levantamento dos registros de visitas dos últimos noventa dias. Pedem também a identificação dos interlocutores que procuraram as emissoras, o cotejo do material com os depoimentos oficiais de Vorcaro, a preservação dos registros de conexão e a devida comunicação ao Procurador-Geral Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal, resguardando sempre a atividade e o sigilo jornalístico.

PT: ‘Veja publica fake news para tumultuar as eleições e favorecer Flávio Bolsonaro’

A coordenação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgou uma nota nesta sexta-feira (9) em que acusa a revista Veja de publicar denúncias sem provas contra o governo e o PT, com base em um suposto depoimento do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A coligação Brasil Pronto Para Mais classificou a reportagem como uma tentativa de interferência no segundo turno das eleições presidenciais e anunciou que adotará medidas judiciais contra as acusações falsas.

A campanha contesta a existência de um depoimento formal com o conteúdo divulgado pela revista e afirma que não há registro de delação aceita pelas autoridades. Segundo a coligação, a publicação teria o objetivo de prejudicar eleitoralmente o presidente e beneficiar seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL).

“É estarrecedor que, a duas semanas do segundo turno das eleições presidenciais, a revista VEJA estampe em sua capa acusações gravíssimas sem apresentar uma única prova”, afirma o comunicado.

A coordenação da campanha sustenta que as informações atribuídas ao banqueiro não possuem respaldo em documentos oficiais. “Esse depoimento não existe, não há registro dele na Polícia Federal. Não há registro de delação com esse conteúdo que tenha sido aceita pelo Ministério Público e Polícia Federal. Portanto, uma farsa”, diz a nota.

A coligação também questiona a decisão da revista de publicar as acusações, alegando que a própria reportagem reconheceria a ausência de elementos suficientes para dar prosseguimento às denúncias na Procuradoria-Geral da República (PGR).

“A própria VEJA reconhece que a Procuradoria-Geral da República não deu prosseguimento às acusações por falta de provas. Mesmo assim, transforma uma mentira em capa da revista”, afirma o texto.

Campanha aponta tentativa de favorecer Flávio Bolsonaro

Outro ponto destacado pela campanha é o tratamento dado, segundo a nota, às relações de Vorcaro com integrantes do bolsonarismo. A coligação acusa o banqueiro de minimizar pagamentos associados a esse grupo político enquanto atribui irregularidades ao PT e ao governo federal sem apresentar comprovação.

“A contradição do relato é gritante. Vorcaro procura apresentar os pagamentos associados ao bolsonarismo como ‘patrocínio normal’, enquanto atribui crimes ao PT e ao governo sem apresentar prova das suas acusações”, afirma o comunicado.

A nota também menciona Flávio Bolsonaro, destacando que o candidato foi citado em investigações envolvendo contatos e solicitações de valores milionários ao banqueiro. Para a coordenação da campanha, a narrativa divulgada pela revista busca afastar o adversário de Lula das suspeitas relacionadas ao caso Master.

“A narrativa tenta proteger Flávio Bolsonaro, citado em investigações sobre ligações e pedidos milionários ao banqueiro. Uma farsa com objetivos eleitorais”, acrescenta a coligação.

As afirmações sobre a intenção eleitoral da reportagem e a suposta tentativa de proteger o candidato do PL são acusações da campanha de Lula.

Atuação das instituições no caso Master

A coordenação da campanha também defendeu a atuação das instituições federais nas investigações sobre o Banco Master. Foi durante o governo Lula, lembra a nota, que os órgãos de controle avançaram na apuração das irregularidades que culminaram na liquidação da instituição financeira e na prisão de seu controlador.

“Foi durante o atual governo que as instituições de controle atuaram para investigar as irregularidades, liquidar o Banco Master e levar seu controlador à prisão. Agora, surgem acusações contra as autoridades que enfrentaram suas irregularidades”, afirma o comunicado.

A campanha interpreta o surgimento das denúncias falsas contra integrantes do governo como uma possível retaliação às investigações conduzidas contra o banqueiro.

“Trata-se de uma tentativa de vingança que levanta uma pergunta inevitável: que benefícios Vorcaro espera obter de uma eventual mudança de governo?”, questiona a coligação.

A nota ainda sustenta que os episódios recentes indicariam uma articulação destinada a influenciar a disputa presidencial. A coordenação afirma que as acusações atribuídas a Vorcaro precisam ser acompanhadas de provas e contesta sua utilização no debate eleitoral.

Coligação anuncia reação na Justiça

Ao final do comunicado, a campanha de Lula informa que pretende recorrer ao Judiciário em resposta à reportagem. A coordenação afirma que não aceitará a divulgação de acusações que considera infundadas nem o uso de informações supostamente vazadas para influenciar o resultado das eleições.

“Não aceitaremos que acusações sem provas e vazamentos seletivos sejam usados como arma eleitoral. As medidas judiciais cabíveis serão tomadas contra as calúnias e eventuais irregularidades na divulgação dessas informações”, conclui a nota.

O comunicado não especifica quais ações judiciais serão apresentadas nem quando serão protocoladas. A manifestação ocorre na reta final da campanha presidencial, em meio à repercussão das investigações envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.

A Luta de classes na atual Sociedade de Controle

0

(leia-se Deleuze)[1]

– entre símios e sapiens

 

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 

Macunaíma nos trouxe até aqui, além de eleitoreiro é um embuste completo. Quer nos presentear com o fim do Heliocentrismo, se é que sabe o que é isso.

Afinal, o estágio atual da Sociedade de Controle contaria com sociedades sem classes sociais.

Essa é uma tese corrente, que faz certo sentido, mas que não desenvolvo e deprecio em seu desenvolvimento e, em especial, na conclusão que distorceu as premissas.

Parte de uma premissa histórica correta, porém, a distorce na primeira conjugação. Procede desse modo porque avalia com sectarismo e reducionismo – como se a premissa não devesse ser lida ao longo da história.

Vejamos: a premissa acertada por Marx & Engels sempre nos ensinou que no capitalismo há duas classes fundamentais: Burguesia e Proletariado. Penso que ainda sejam.

O que ocorre, e não é marca exclusiva desse século, é o esvaziamento da atividade fabril; também pode ser descrito como desindustrialização. No caso brasileiro, ainda temos que contabilizar o longo histórico da informalidade no Mundo do Trabalho.

Somente mais recentemente o trabalho informal ganhou certa visibilidade por causa da legislação e dos incentivos à criação da Pessoa Jurídica (PJ), para pessoas comuns: a chamada pejotização, que, por sua vez, trará problemas gigantescos à Previdência Pública.

Pois bem, com o crescimento da pejotização e da uberização, os idealizadores (reformistas) da “nova tese” passaram a entender que a “classe trabalhadora” – sinônimo engessado do Proletariado da Segunda Revolução Industrial – se desfez como as brumas.

Os sindicatos sumiram, o movimento estudantil inexiste, os movimentos sociais populares foram sequestrados pelos shoppings de lazeres atuais.

O sequestro pelos lazeres e distrações digitais faz todo sentido.

Esta é uma relação instada na Modernidade Líquida, como ensina Bauman, fase em que as relações líquidas causam uma organização social que tende, apesar do que se esperava há décadas, ao aprofundamento deníveis assustadores de Estranhamento. Há pouco mais de 15 anos, pensava-se que as redes sociais trariam uma aproximação tamanha que os sujeitos se manteriam conectados e acessados; hoje, pelo contrário, vemos relações de distanciamento.

As relações são mantidas via redes antissociais; e, consequentemente, temos pessoas conectadas e distantes simultaneamente, algo incoerente, mas que ocorre diariamente: pode-se pertencer a nichos, bolhas, mas nenhuma delas promove reconhecimento.

Outras consequências desse mundo conectado são a crescente ansiedade e a perda da capacidade de autonomia. Atualmente, quando mandamos um e-mail ou um WhatsApp, a ansiedade por uma resposta, que seja o mais rápido possível, nos torna, mesmo nos momentos de lazer, reféns de um mundo digital que cobra presença e responsividade e, ao mesmo tempo, demoniza o tal ócio, seja o ócio criativo ou apenas o descanso naturalmente necessário.

Basta lembrar do que prega o Marketing digital, com suas regras de engajamento, seja para as pessoas comuns ou influenciadores (a praga que acabou por demonizar a Educação e a Ciência) seja para políticos envolvidos em processo eleitoral.

O mundo digital nos é assemelhado a uma fonte de dopamina, portanto, nada soa melhor do que, deslizar infinitamente nas/para as redes antissociais e, assim, obter migalhas de dopamina e serotonina ao final de um dia cansativo e esgotante que cobra coisas sub-humanas. E isso nos oblitera a percepção e a persecução da consciência de que tratamos.

Sendo assim, o que não faz parte do roteiro é nivelar a atividade laboral pela mão de obra industrial e sindicalizada. No Brasil mesmo, quando foi que trabalhadoras e trabalhadores começaram a se organizar efetivamente?

Dá para dizer com segurança que os direitos trabalhistas básicos começaram a se desmantelar na Era FHC e de forma violenta – José Serra pondo cavalos e cães em cima de professoras em greve foi e é um ícone disso.

Em resumo, a classe trabalhadora mudou de perfil, não é agro (todo mecanizado) e nem fabril. A classe trabalhadora foi uberizada ou pejotizada.

Isso desconstrói a consciência de classe? Por óbvio que sim, o chão de fábrica sumiu, virou assoalho de automóvel usado.

Todavia, o que não mudou? Não mudou a relação entre as classes.

E aqui fica clara a distorção da análise baseada na inexistência de classes sociais. Pois, as classes dominantes – dos Capitães da Indústria, da Burguesia tradicional, ao rentismo – e as classes dominadas – sofrendo os mais graves abusos na exploração de mais valia uberizada –, essas apenas trocaram de roupa, mudaram seu perfil, mas permanecem mais vivas do que nunca. A relação é orgânica.

Tenho aqui uma breve discordância com o grande mestre Florestan Fernandes, pois entendo que nossas classes dominantes sempre rejeitaram o Estado de Direito – desde o golpe imposto na Declaração da República – e, assim, ao invés da precisão conceitual de uma Autocracia de classe (que é óbvia em sua existência), proponho pensarmos nossa atualidade com base na “Dominação de Elites Plutocráticas, mas ignorantes” (em sua oclocracia também) –, pois são as mesmas que elegeram Collor e Bolsonaro e que se associam ao crime organizado.

Portanto, neste caso, prefiro adotar a plutocracia e a oclocracia de Bobbio, à Autocracia de classe – se for tomar como conceito fechado.

Desse modo, se a consciência de classe regrediu, pela pulverização social e laboral das classes trabalhadoras, o mesmo não se verifica com a ação repressiva e letal das classes dominantes sobre as classes dominadas, subalternizadas.

Isto é, uma sociedade sem consciência de classe – ou em estágio de redução, bem à feição do capital especulativo, improdutivo – não é sinônimo de uma sociedade sem classes sociais.

A dominação, como dominus, nunca foi tão severamente imposta.

O contrário, se a premissa tivesse sido seguida com respeito à lógica (menos ideológica) e à História (que é vivência do presente e a construção da sua Ciência) nos traria a conclusão (posta na premissa válida) de que: “as sociedades divididas em classes sociais, por óbvio (quer dizer, logicamente), são sociedades em que há classes dominantes que se impõem às classes dominadas”. E o fazem com coerção ou coação.

Se temos maior ou menor consciência disso, se as classes dominadas (subalternizadas) são assim ou assado, sob o passar do tempo e das mudanças ocorridas no miolo do próprio modo de produção capitalista, esse é outro ponto. Se há mais ou menos consciência de classe na atualidade da Sociedade de Controle, do que no século XIX, esse também é outro ponto.

O ponto central segue validado pela lógica vista à luza de quem abre a janela de casa, voltada para a rua, e é decorrente da premissa válida, bem como se confirmaria em sua conclusão: Todas as sociedades divididas em classes sociais são, obrigatoriamente, organizadas em torno de classes dominantes e de classes dominadas.

Negar isso é tolice, equivalente do campo CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) produzir e praticar a anticiência. É o mesmo que defender tese divulgando o negacionismo, a fraude científica.

É importante observar o perfil, mas é fundamental olhar a essência da relação entre as classes sociais.

Isso não se modificou, do século XIX para cá.

E não se modificará enquanto houver Capitalismo – ou enquanto este for dominante, determinante.

Enfim, qual é a conclusão lógica que retiramos dessa “nova” tese?

Oras, se não há mais classes sociais, por óbvio, não há mais Luta de classes e, sem Luta de classes, nos rendemos ao capital, prontamente.

O que os defensores dessa tese desconhecem – ou preferem desconhecer, por causa da sua identificação ideológica – é que 90% da Ciência brasileira decorre da Luta de classes. Se deixássemos o capital para nos promover enquanto país, ainda estaríamos no plantation.

As universidades públicas foram a resposta encontrada por pessoas inteligentes. Assim como o SUS, pois, sem a pressão da Luta de classes, metade da população já teria morrido nas sarjetas.

No Brasil do patriarcado, a situação sempre foi pior.

Temos até hoje uma luta de classes e que é de gênero. Diz-se, pela força da misoginia, que o lugar da mulher é na cozinha da submissão.

Não sendo titular, é vice de qualquer poder inexistente.

Se tivermos o mínimo cuidado com a realidade, de todos os tempos, saberemos que na Oikós (como diziam os gregos) o poder nunca foi masculino.

O lugar da casa, que se irradia pra rua, nunca foi alfa.

É a mulher quem escolhe, quem define. Isso está na natureza que expulsa o macho alfa dentre os chimpanzés, tanto quanto é a regra entre nós.

Prestem atenção na frase:

“Aconteça o que acontecer, volte pra casa!”.

Quem estará te esperando, o pai ou mãe?

Aliás, quem disse essa frase?

Mas, tenho mais uma coisa a dizer:

Quando as regras da Oiķós são desrespeitadas é porque ali impera o pior machismo (nunca visto pela minha avó), a misoginia ou o feminicídio.

Esse é o Brasil de sempre.

Mas, quando elas se cansam da deseducação, acontece o quê?

Uma das formas de corroer a organização social ou as institucionalidades é agir por dentro delas, pelas suas próprias entranhas, contra elas. É sinônimo de reproduzir a opressão nas relações cotidianas, transformar a desigualdade em norma e fazer com que as próprias mulheres sejam levadas a reproduzir discursos que as oprimem. Não estará distante do que Arendt chamou de Banalização do Mal – ou apenas Normalização do Mal, como nós chamamos – com certa diferenciação conceitual.

Somos moléculas dispersas em tecidos disruptivos, o que também se vê em expressões mais antigas, mas que se ajustam aos dias atuais, como a famosa “ruptura do tecido social”, fato ou fenômeno que se observa quando uma crise muda de escala, numa “quebra institucional”. Estamos na beirada disso.

É este o preciso momento que estamos vivendo.

Esse Poder Nu – Einstein nos diria hoje -, sem o controle do pudor, despido de honra, validade, dignidade, nos choca e afronta desde 1500, indo e vindo.

Hoje estamos quase no marco zero do seu retorno.

Nessa última fase em que vivemos da Sociedade de Controle, não contam apenas os meios tecnológicos (materialidade), sem precisar repetir que contam muito mais as tecnologias sociais de controle absolutista.

Esse também é o caso em que a antiga piada diabólica parece nos cutucar, de forma letal, bem no fundo da nossa subjetividade:

  • “A maior expertise do Diabo foi fazer com que todos acreditassem que ele não existe”.

Assim ocorre com a Sociedade de Controle, só meia dúzia acredita em sua existência.

Penso, por fim, que esse texto é próprio das Ciências Sociais – e que, como vemos, é uma Ciência, um tanto diferenciada das demais.

Mas, com encaixe perfeito no campo CTS.

Aliás, é a Ciência que lhe deu origem, lá nos idos da Sociologia da Ciência e da Tecnologia.

Então, façamos bom uso desse conhecimento a fim de que o absolutismo não nos governe, não guie nossas ações, não se apodere de nossa alma.

 

[1] DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

CNT/MDA mostra Lula perto da vitória no primeiro turno

Na véspera do primeiro turno das eleições, a Pesquisa CNT de Opinião atualiza o cenário da disputa presidencial e apresenta um retrato do eleitor na reta final da campanha. A 171ª rodada, divulgada neste sábado (3) pela CNT, em parceria com o Instituto MDA Pesquisa, também aborda a percepção do eleitor em relação ao desempenho do governo.

Nos cenários analisados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se mantém à frente no primeiro e no segundo turnos. No levantamento estimulado de primeiro turno, Lula aparece com 43,1% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro, com 38,0%.

Na sequência, aparecem Augusto Cury, com 3,2%; Ronaldo Caiado, com 3,0%; Renan Santos, com 1,5%; e Romeu Zema, com 0,8%. Outros candidatos somam 0,5%, enquanto 4,0% dos entrevistados declararam voto em branco ou nulo e 4,7% permanecem indecisos.

Lula tem 47,8% dos votos válidos no 1º turno, enquanto Flávio Bolsonaro registra 42,1%. Para vencer no primeiro turno, é preciso mais de 50% dos votos válidos, que excluem brancos e nulos.

Em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, 47,3% dos entrevistados dizem que votariam em Lula, enquanto 43,1% escolheriam Flávio Bolsonaro. Brancos e nulos somam 7,6%, e 1,9% não souberam ou não responderam. A Pesquisa também testou cenários de segundo turno entre Lula e outros candidatos. O atual presidente aparece com 46,8%, frente a 37,9% de Augusto Cury; 47,0% para 37,3% de Ronaldo Caiado; 48,1% versus 34,3% de Renan Santos; e 49,2% ante 34,2% de Zema.

A 171ª rodada também traz a avaliação do governo do presidente Lula: 35,3% dos entrevistados consideram o desempenho do governo como positivo, enquanto 22,7% avaliam como regular e 41,1%, como negativo. Já em relação ao desempenho pessoal do presidente, 47,4% aprovam e 49,2% desaprovam sua atuação.

A Pesquisa também mostra que 87,6% dos eleitores afirmam que sua decisão de voto é definitiva, enquanto 12,4% ainda podem mudar de opinião até o dia da eleição.

Pesquisa CNT acompanha cenário eleitoral de 2026

A Pesquisa CNT de Opinião foi realizada entre 30 de setembro e 2 de outubro de 2026, com 2.007 entrevistas, margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%. A coleta ocorreu de forma presencial, em domicílios e pontos de fluxo, e o levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04756/2026.

Acesse aqui a 171ª rodada da Pesquisa CNT de Opinião na íntegra.

Do Brasil 247

Novo site detalha todos os casos de corrupção de Flávio Bolsonaro

Um novo site lançado recentemente reúne e detalha um levantamento amplo de investigações e escândalos envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL). A plataforma flavioemfatos.com apresenta ao público o “Mapa de Conexões de Flávio Bolsonaro”, um compêndio estruturado a partir de dados públicos, informam os criadores da iniciativa.

Ao todo, o portal contabiliza e organiza 31 conexões, nove casos principais e 215 fontes citadas para fundamentar o material. As apurações reunidas na ferramenta abordam episódios de ampla repercussão, entre os quais:

  • O envolvimento com o Banco Master e o filme Dark Horse;
  • A apuração sobre fraude no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS);
  • Transações imobiliárias e negócios mantidos com o advogado Willer Tomaz;
  • O esquema conhecido como “rachadinha” em seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro;
  • A aquisição da mansão avaliada em R$ 6 milhões, que foi quitada no período de apenas três anos;
  • A ligação com milicianos e os desdobramentos referentes ao caso do assassinato da vereadora Marielle Franco;
  • Aliados investigados no Rio de Janeiro por suposta ligação com a facção criminosa Comando Vermelho;
  • Atividades de lobby e advocacia associadas à compra de vacinas no âmbito do caso Covaxin;
  • As investigações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) motivadas por discurso proferido na cidade de Barretos e por postagens nas redes sociais.

Para organizar o volume de dados, os organizadores dividiram os casos por subtemas específicos, cobrindo tópicos como lavagem de dinheiro, crime organizado, tráfico de influência, uso de dinheiro público, uso da máquina pública e infrações no âmbito eleitoral.

O portal ressalta que o mapa “organiza informações publicadas pela imprensa e em documentos oficiais”. O texto de apresentação adverte ainda que a inclusão de um nome na plataforma não significa responsabilização automática. “Uma conexão no mapa não indica culpa. Até esta data, Flávio Bolsonaro é alvo de duas investigações criminais no Supremo Tribunal Federal: a do financiamento do filme Dark Horse e a de suposta calúnia contra Lula, ambas sem denúncia nem condenação. Na Justiça Eleitoral, há duas ações de investigação sobre a campanha de 2026, abertas em setembro”, explicam os responsáveis pelo projeto.

O processo de verificação e a checagem das informações seguem critérios de transparência citados no próprio endereço eletrônico. “Cada conexão reúne reportagens de veículos jornalísticos e, quando existem, documentos oficiais. A situação segue o que as fontes informam na data de atualização. Quando a pessoa citada contestou a informação, a contestação aparece no texto”, esclarece o site.

Do Brasil 247

Bruno Scheid participa de festa da piscina após encontro com Nikonha

Após evento Bruno Scheid cai na festa regada a tudo o que os evangélicos se abstém

No palanque, Deus, valores e discursos inflamados. Depois do evento, pessoas de roupas de banho, cerveja, cigarros e piscina. A comemoração de integrantes do grupo de Bruno Scheid, após o ato com Nikolas Ferreira em Ji-Paraná (RO), oferece um contraste que a propaganda eleitoral dificilmente escolheria para seus melhores vídeos.

Segundo informações e registros em vídeo reunidos, integrantes do grupo seguiram para uma confraternização em um clube depois da mobilização. O ambieunte de festa acrescenta outro cenário à narrativa de exaltação religiosa que acompanhou o encontro político.

É preciso colocar a questão no lugar certo: ninguém perde o direito de professar sua fé porque participa de uma festa, toma cerveja ou entra numa piscina. Tampouco o comportamento de apoiadores pode ser automaticamente atribuído ao candidato. A discussão relevante é sobre a régua moral que se apresenta ao público e sobre a disposição de aplicá-la com a mesma intensidade dentro do próprio grupo.

Quando uma campanha associa sua imagem à defesa dos valores cristãos, precisa aceitar perguntas sobre a coerência dessa apresentação. Sobretudo quando a linguagem religiosa ajuda a construir a impressão de que determinado lado da disputa representa uma virtude que faltaria aos demais. A fé merece respeito; a pretensão de monopolizá-la merece contestação.

O eleitor que compareceu ao evento por suas crenças e expectativas merece uma comunicação honesta. Não deve ser levado a confundir entusiasmo político com aprovação divina, nem identidade religiosa com garantia.

Internautas detonam Flávio Bolsonaro e ‘Deus, Pátria e orgia’ bomba nas redes sociais (vídeo)

Internautas fizeram duras críticas ao presidenciável da extrema direita brasileira, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), nesta terça-feira (29), após Alexandre Santini, ex-sócio do senador na chocolateria Kopenhagen do BarraShopping, revelar uma suposta rede de favores, prostituição, orgias, mimos de luxo e pressões contra o parlamentar.

Na rede social X, a expressão “Deus, Pátria e orgia” ficou entre os assuntos mais comentados da plataforma. “Bolsoruba Deus, Pátria e orgia. Flávio falso cristão”, escreveu um perfil em alusão à palavra “suruba”. “Católicos e evangélicos: tariflávio fazendo lobby, orgias com prostitutas e corrupção”, postou outro usuário.

Um perfil afirmou que “a putaria cristã” foi “exposta”. “Aqui, Deus entra não como princípio moral, mas como instrumento de negociação para salvar as aparências”, publicou.

Também no X, a expressão “Flavinho” chegou aos assuntos mais comentados. O jornalista Guga Noblat comentou sobre o tema. “E pensar que depois de mandar essa mensagem ao ex-sócio admitindo ter um passado sujo e se dizendo um novo homem família, Flavinho Milícia ainda foi se meteu com Daniel Vorcaro, o rei do camarote”.

“Flavinho nojento e sua bolsoruba”, criticou um internauta. “Flávio Bolsonaro é o retrato escancarado da hipocrisia”, acrescentou.

Outro usuário fez críticas ao campo da direita brasileira. “Essa direita é patética! José Serra candidato à presidência foi atingido por uma bolinha de papel e falou que era ameaça a sua vida”, observou.

“O Flavinho das orgias recebeu uma ovada e disse que era tentativa de homicídio. Direita frouxa e covarde”, complementou.

Do Brasil 247

Flávio Bolsonaro e seus segredos: Rolex de R$ 305 mil, lobby e orgias

Um Rolex de R$ 305 mil comprado por um advogado, relatos de orgias com garotas de programa e mensagens sobre uma suposta intermediação junto a Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), expõem os bastidores de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Publicada nesta terça-feira, 29, reportagem do PlatôBR, reúne documentos, áudios e conversas guardados por um antigo amigo e sócio do senador e candidato à Presidência.

O material foi reunido por Alexandre Ferreira Dias Santini, que dividiu com Flávio uma franquia da Kopenhagen na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A ruptura entre os dois desencadeou cobranças financeiras e ameaças de exposição. As revelações acrescentam questionamentos sobre as relações do senador, que, em outra frente, é investigado no STF por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas no caso dos recursos de Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse.

Um dos documentos apresentados pela reportagem é a nota fiscal de um Rolex Submariner Date em ouro branco, comprado em Brasília em 10 de fevereiro de 2022. O relógio custou R$ 305 mil e foi adquirido em nome do advogado Alan Belaciano. Segundo o PlatôBR, mensagens preservadas por Santini indicam que o destinatário era Flávio Bolsonaro.

Belaciano também pagou mais de R$ 90 mil em equipamentos de academia para a casa que o senador havia comprado por R$ 5,9 milhões em uma das áreas mais caras da capital federal. Quando essas notas vieram a público, Flávio afirmou que um amigo havia feito a compra como “empréstimo pessoal”, que estaria sendo quitado.

A lista de despesas atribuídas aos amigos vai além. Conforme a reportagem, mensagens mostram que reparos na residência eram providenciados e custeados pelo grupo. Santini também ficou responsável pela compra de uma televisão de 75 polegadas e chegou a pagar mensalidades da academia frequentada pelo senador e pela esposa.

O contexto desses pagamentos é um dos pontos centrais da apuração. Segundo o PlatôBR, Belaciano atuava em uma casa no Lago Sul frequentada por interessados em resolver pendências na administração federal. Flávio Bolsonaro visitava o endereço, e a proximidade com o filho do então presidente facilitava o acesso do grupo a integrantes do governo.

Sobre as cobranças de Santini, o senador havia declarado: “Ele tem mandado uns recados esquisitos para mim. Já me pediu dinheiro e eu não dei. Não quero dar linha para maluco. É um ex-sócio e ex-amigo”. Posteriormente, classificou as acusações como “infundadas”.

Encontros secretos e crise familiar

A reportagem também relata que Santini organizava encontros com garotas de programa dos quais Flávio participaria. O ex-sócio guardou mensagens e fotografias e, após o rompimento, apresentou parte desse material a Fernanda Bolsonaro, mulher do senador.

Em conversas com uma agenciadora, Santini combinava os encontros e se referia a Flávio como “meu filho”, segundo a identificação feita pelo PlatôBR. Um dos locais citados era o hotel Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, onde o grupo teria utilizado um apartamento com diária de R$ 3 mil.

Nas mensagens reproduzidas, o ex-sócio demonstrava preocupação com a exposição durante a campanha: “Precisa ser tudo sigiloso”.

De acordo com a reportagem, os encontros eram bancados com recursos que circulavam entre os antigos sócios desde o período da loja de chocolates. O estabelecimento foi investigado pelo Ministério Público do Rio sob suspeita de integrar um esquema de lavagem de dinheiro das rachadinhas. A apuração foi posteriormente arquivada por decisão judicial.

Após Santini procurar Fernanda, Flávio enviou uma mensagem ao antigo amigo pedindo que ele se afastasse de sua mulher. No texto, o senador reconheceu erros pessoais, sem detalhar a quais episódios se referia.

“Me arrependi, de verdade, de muitas escolhas erradas que fiz na vida e não vou errar nunca mais com a minha família”, escreveu. Em outro trecho, determinou: “Vá embora de Brasília, vai viver sua vida, vá ser feliz longe da gente”.

A crise familiar não encerrou a disputa financeira. Segundo o PlatôBR, Fernanda tentou intermediar uma conversa, e o escritório do advogado Willer Tomaz foi acionado para negociar. Em setembro de 2023, Santini enviou uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão por pendências relacionadas à sociedade. No documento, afirmou que Flávio havia investido R$ 200 mil em dinheiro vivo na abertura do negócio.

A mensagem para Kassio

O episódio envolvendo o Supremo surgiu no fim de 2023, após sucessivas tentativas frustradas de acordo. Santini escreveu a Flávio Bolsonaro, afirmando saber de uma intermediação feita pelo senador junto a Kassio Nunes Marques, indicado ao tribunal por Jair Bolsonaro.

Segundo o relato publicado, o interesse seria de um cliente de Alan Belaciano, o mesmo advogado que comprou o Rolex. A articulação teria incluído a marcação de um jantar com participação do chefe de gabinete do ministro.

“Você falou diretamente com o Kassio Nunes e intermediou um cliente em um processo para tratarem disso”, escreveu Santini. Na sequência, acrescentou: “Brasília não tem muros e seu amiguinho está sendo observado”.

Naquela mesma tarde, Flávio respondeu com um convite para conversar: “Terça às 15:00 no meu gabinete ok”.

A reportagem não identifica o cliente nem o processo mencionado. A mensagem registra uma acusação do ex-sócio, mas, isoladamente, não comprova que a intermediação tenha ocorrido ou que tenha produzido alguma decisão judicial.

Também não são conhecidos os termos do entendimento entre os antigos sócios. Segundo o PlatôBR, depois de marcar a conversa, Santini avisou aos interlocutores com quem havia compartilhado os registros que a disputa terminara: “Assunto está encerrado”.

O ex-sócio voltou a apoiar publicamente o presidenciável. A reportagem registra que seu perfil nas redes sociais passou a exibir a declaração: “Sou e sempre serei FLAVIO BOLSONARO”.

Quem sois?

0

@viniciocarrilhomartinez

 Não sei muito bem o porquê de fazer isso aqui. Também não tenho que fazer coisas sempre utilitárias. Não sei bem se me agradou fazer, mas também não desagradou. Só fiz porque quis fazer. E espero que você goste dessa minha pequena autodescrição.

 

  1. Fascistas não passarão! – essa é a minha frase predileta
  2. Poesia – meu poema preferido é o Analfabeto Político, de Brecht
  3. Sou Sagitário – a Liberdade e a imaginação são a minha morada
  4. Sou filho de Ogum – a paciência não é uma virtude
  5. Descendo de espanhóis – a gentileza pode (ou não) ser um guia. De vez em quando aplico o que chamo de “coice educado”
  6. Sou pai de pet – a Titi é a minha filha e sou tio adotado pela Ana Luiza (acho que já foi minha filha em outra passagem)
  7. Sou esquerdista – porém, a esquerda factoide, sectária, reducionista, pouco letrada, ou oportunista (com a mão na cumbuca), me cansa deveras
  8. Creio que sou racional – com a direita liberal e esclarecida (com Bom Senso e noção da realidade) consigo conversar; para a extrema direita eu recomendo que se aplique o Código Penal
  9. Sou advogado – detesto leis. Gosto muito da Constituição Federal de 1988
  10. Tenho deficiência física numa perna – e aprecio muito fazer “capacitismo reverso” contra capacitistas (uma conversa assim costuma durar um ou dois minutos)
  11. Sou cientista social – todavia, não gosto muito de gente. Conheço um milhão de pessoas e cada vez tenho menos amigos (de verdade)
  12. Faço ou acabei fazendo uma coleção de 19 diplomas (não certificados) – não é uma sugestão, apenas as ocasiões foram trazidas a mim
  13. Sou escrevente – não de profissão: publiquei trinta livros
  14. Não sou ateu – no entanto, tenho ojeriza de religião
  15. Acho que sou escolarizado
  16. Não sou pobre, mas queria ser rico – iria montar uma escola com minhas ideias
  17. Queria ter 20% a mais de inteligência – ou 30% a menos
  18. A intuição é cristalina para mim – inclusive, é o meu método preferido para pesquisar e escrever
  19. Adoro café (sem açúcar) – gosto de chocolate (evito ao máximo), bebo cerveja e chope: tenho reduzido
  20. Sou viciado em pensar e escrever – sobre qualquer coisa
  21. Penso que sou um Homem bom – mesmo não sendo santo; vi essa expressão num filme
  22. Não gosto de calor – prefiro o frio
  23. Tenho preconceitos – infelizmente não são poucos, como não suportar a burrice ou o negacionismo cognitivo
  24. Tomo todas as vacinas – especialmente contra o cinismo, o fanatismo e o boçalismo
  25. Não curto acordar de madrugada – consigo pensar depois das 14 horas
  26. Detesto ficar me repetindo
  27. Prefiro o salgado, ao doce
  28. Não suporto gente fraca, derrotista
  29. O ócio é o meu tempo de ter ideias – mesmo que deteste gente preguiçosa
  30. Tenho bom gosto – a combinação ideal é ajustar Ética e estética
  31. Não sou cheio de gostos – mas tenho os meus, como você viu
  32. Não gosto de médico ou dentista – vou empurrado, mas não gosto
  33. Só conheço uma academia
  34. Tenho família – e evito bastante
  35. Consegui proezas – uma delas foi me casar duas vezes com a mesma mulher
  36. Não gosto de coisas muito normais – e as anormais, demais, gosto menos ainda
  37. Tenho hiperfoco – por isso não parei essa autodescrição
  38. Não tenho que provar mais nada – também não espero a aprovação de ninguém
  39. Não me levem a mal – mas, costumo não me dar muito bem com a psicologia
  40. DR – tenho horror letal
  41. Infelicidade – não avalio muito bem as pessoas, acabo comprando gato por lebre
  42. Símbolos – advogo que a cor parda e o Caramelo sejam tidos como Símbolos Nacionais
  43. Profissão – sou professor há 37 anos, fiz três teses, e uma delas foi para o concurso de titularidade
  44. Hobby – tinha um que era escrever uns baratos e alguns acabavam virando música, com ajuda da IA na musicalização; pero, no lo se
  45. Luta – como homem branco, faço uma feroz luta contra o racismo
  46. Valores – nessa ordem: Liberdade, Igualdade, Fraternidade
  47. Princípios – nessa ordem também: Socialismo, Democracia, República
  48. Minha lógica – nessa ordem exata (pela racionalidade): Acessibilidade, Inclusão, Permanência
  49. Cor preferida – não tem uma cor. Sou vermelho, mas gosto mais do azul escuro, do verde bem escuro, da cor parda escura
  50. Vícios – um deles é o tabagismo (isso é um terror da ansiedade) e o outro não sei se é vicio, que é escrever, talvez seja compulsão
  51. Liberal – defendo todas as teses liberais da advocacia e vou além, como querer ver uma mulher negra no STF e um referendo, exclusivamente feminino, para deliberar sobre o aborto
  52. Chateação – os rumos do Brasil, o crescimento do neonazismo e do Obscurantismo medieval
  53. Sou cigano de alma – curto demais a Velha Cigana
  54. Fui fã – ouvi muito o mestre Vinicius de Moraes
  55. Grandeza do Brasil – pena que foram poucas, mas tive aulas com Florestan Fernandes
  56. Amores – posso dizer que me amo, sem egocentrismo, niilismo
  57. Desistência – quando as coisas dependem exclusivamente de mim, só desisto quando vejo que o meu esforço não compensa
  58. Livros – se tivesse que escolher uns poucos para a eternidade, levaria Vidas Secas e a série inteira do Realismo Mágico, de Gabriel Garcia Márquez.
  59. Remédios – além dos que eu tomo, por obrigação, aprecio por demais os remédios jurídicos e constitucionais
  60. Provimentos – já fiz seguro de vida
  61. Não queria – ter 20 anos neste mundo
  62. O menos é mais – contra a afetação pós-moderna, esse tem sido o meu mantra
  63. Meu ideal – nessa toada: Bom, Belo, Justo
  64. Espaço – meu espaço é sagrado
  65. Continuação – deixo um espaço em branco para você preencher, sobre você, ou me perguntar algo com lisonja…

Se achou legal, faça o seu mapa também.

Sai a pesquisa Quaest e Lula abre vantagem sobre Flávio Bolsonaro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno da eleição presidencial, cinco pontos à frente de Flávio Bolsonaro (PL), que registra 34%, segundo pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira (28).

O levantamento, encomendado pela Globo e pelo jornal O Globo e publicado pelo g1, mostra Lula dois pontos acima do resultado da pesquisa anterior, quando tinha 37%. Flávio Bolsonaro passou de 33% para 34%. As duas variações ocorreram dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Na pesquisa estimulada, Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD) aparecem em seguida, ambos com 4%. Cury tinha 6% no levantamento anterior, enquanto Caiado permaneceu no mesmo patamar.

Renan Santos (Missão) registra 3%, sem alteração em relação à pesquisa passada. Romeu Zema (Novo) aparece com 1%.

Samara Martins (UP), Clariana Barão (DC), Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias (PSTU), Rui Costa Pimenta (PCO), Veterinário Wilson Grassi (Democrata) e Leonardo Avalanche (PRTB) aparecem com 0%.

O percentual de entrevistados que se declararam indecisos caiu de 8% para 5%. Já a parcela que afirmou que votaria em branco, anularia o voto ou não compareceria passou de 7% para 10%.

Segundo turno tem empate entre Lula e Flávio

Em uma eventual disputa direta, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem numericamente empatados, com 42% das intenções de voto para cada um.

Na rodada anterior, divulgada em 21 de setembro, Flávio tinha 42% e Lula, 41%. Agora, o candidato do PL permaneceu no mesmo percentual, enquanto o presidente oscilou um ponto para cima.

Brancos, nulos e eleitores que afirmam que não votariam somam 13%, ante 14% anteriormente. Outros 3% se disseram indecisos.

A Quaest também testou outros quatro cenários de segundo turno.

Contra Ronaldo Caiado, Lula aparece com 43%, enquanto o governador de Goiás tem 40%. Na semana anterior, o placar era de 41% a 39%.

Nesse cenário, 15% dizem que votariam em branco, anulariam o voto ou não compareceriam, e 2% permanecem indecisos.

Em uma disputa com Augusto Cury, Lula marca 42% e o escritor, 33%. No levantamento anterior, eram 39% para o presidente e 35% para Cury. Brancos, nulos e abstenções declaradas somam 20%, enquanto 5% estão indecisos.

No confronto entre Lula e Renan Santos, o presidente registra 42%, contra 39% do candidato do Missão.

Na pesquisa anterior, Lula tinha 41%, enquanto Renan aparecia com 38%. Outros 17% dizem que votariam em branco, anulariam ou não compareceriam, e 2% estão indecisos.

A maior diferença entre os cenários apresentados pela Quaest aparece no confronto entre Lula e Romeu Zema. O presidente marca 46%, mesmo percentual registrado anteriormente, enquanto o governador de Minas Gerais aparece com 30%, ante 32% na rodada passada.

Nesse cenário, 19% afirmam que votariam em branco, anulariam ou não iriam votar, e 5% estão indecisos.

Metodologia

A Quaest entrevistou 2.004 pessoas com 16 anos ou mais entre os dias 24 e 27 de setembro.

A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança informado pelo instituto é de 95%.

A pesquisa está registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-06520/2026.

Pombos Politizados

0

 Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

Izabela Victória Pereira – Orientanda de TCC/Filosofia/UFSCar

 

Esses pombinhos urbanos, que rondam praças, as nossas casas e outros espaços urbanos são inofensivos enquanto animais. Contudo, podem transmitir piolhos ou outras zoonoses.

É interessante lembrar que, no Brasil, os pombos não têm predador natural. É um espécime invasor que veio com as Caravelas portuguesas lá pelos idos do século XVI.

Há muitas variedades, como essa pequena que se vê nas fotos. O filhote no ninho da garagem e com a mãe no vaso, praticamente do tamanho dela, quase alçando voo para construir uma vida independente.

Os animais de forma geral – essa pombinha doméstica, em especial – trazem a lição da Independência. Nos trazem à memória as lições de nossas avós e mães, de que devemos ter o maior cuidado com filhas e filhos, mas, uma atenção absoluta à ideia de que “devemos criar para o mundo lá fora”. Esse filhote logo terá um caminho próprio, com desafios e incertezas pela frente, porém, terá Independência para sobreviver mais um dia.

O que lembra a outra lição, já antecipada. Os pombos são a marca d’água da nossa Colonização; todavia, lembrando-nos de não apenas uma espécie invasora, e, sim, duas. Um é um animal, em si, inofensivo, e outro aqui aportou com apetite voraz de dominação e predação. Os portugueses aqui desembarcaram unicamente para conquistar e extrair o máximo possível e logo depois trouxeram a Escravidão, e todos os males sociais e humanos que possamos imaginar.

A Colonização passou, o Brasil se viu independente. As consequências não, pois, o racismo e a exploração do trabalho em condições análogas à escravidão permanecem como memória viva, traduzida em duráveis ações criminosas. Na constituição da nossa Modernidade Tardia, os piores males tardam a serem removidos das práticas sociais.

E isto nos leva à terceira lição possível para o dia de hoje: o sempre atual e atualizado Complexo de Vira-latas. Assim como a cor parda, nosso símbolo da “miscigenação natural” aparece nos cães, amorosamente, chamados de Caramelos. Em parte, a resposta da cultura nacional à Colonização foi o Caramelo. Contra as misérias humanas da Colonização, dê-lhe um Caramelo bem nacional – diz o povo consciente.

Por fim, e que não se confunda jamais o Complexo de Vira-latas com o lendário Caramelo, há espécimes políticas brasileiras carreando o fim da nossa Independência. Como um retrocesso imoral absoluto, em gestos indisfarçáveis de submissão a “novos” colonizadores, ainda mais vorazes – por riquezas, biodiversidade, minerais raros –, nossos atuais vira-latas complexados rezam para a bandeira dos EUA.

Essa reza lembra as piores características dos portugueses colonizadores, e mais, lembra que os povos tradicionais, os indígenas daquele tempo, não se renderam, não foram escravizados. Assim como muitos negros e negras que fugiram das senzalas, que lutaram e morreram em torno de Zumbi dos Palmares.

Sempre desafiamos a Colonização, com exceção dos complexados pelo viralatismo, do passado e do presente, porque sempre defendemos a vida – ao contrário de quem age para constranger ou aniquilar a Soberania Nacional.

Por fim, na última lição, sem olvidar dos piores males impostos no longo percurso da miscigenação – estupro e violência de barbárie total – pensemos, por um instante, que, assim como os Quilombos e os quilombolas, nossa história e cultura é de luta e de resistência.

Pensemos, no curso desta última lição, que os nossos pombos, os caramelos, o povo pardo – aliado do povo pobre, negro e oprimido (isso é um conceito sociológico) – sempre defendeu e defenderá nossa Liberdade e Soberania.

Quando for votar, daqui uma semana, lembre de quem defende a nossa Bandeira e de quem reza até hoje para o colonizador. A coisa é tão brava que alguns rezam até para pneus, pedindo por uma intervenção galática.

Do lado de cá, continuaremos a lutar por Liberdade, Independência, Soberania e Emancipação do povo, esse povo que trabalha de sol a sol, o povo pobre, negro e pardo, oprimido, e que mais sofre no dia-a-dia. É o povo quem paga a conta dos golpistas e entreguistas.

 

 

Qual candidato interessa à Universidade Federal? – e o que faz um professor de federal?

0

@viniciocarrilhomartinez

Inicio essa “exposição de motivos” (ou accountability) dizendo que não gosto de escrever sobre esse tipo de assunto ou desse modo. Farei hoje como uma espécie de vacina e, assim, uma vez que tenha feito não preciso me repetir.

Então, por partes, ataquemos o título: Se você único(a) leitor(a) souber o que significa a governança com a criação, a ampliação e os investimentos na Universidade Federal – sem esquecer dos Centos e dos Institutos Federais –, como foi o REUNI que praticamente duplicou nossa capacidade institucional, então, já sabe a resposta sobre qual é o nosso candidato nessa eleição de 2026. Portanto, se pensar que as universidades públicas, como um todo, produzem 90%, noventa por cento, das pesquisas e da Ciência desse país, você deveria votar no mesmo candidato que nós.

Respondida a primeira pergunta, vou ao subtítulo: O que faz um professor de Universidade Federal? Digo professor porque tomarei apenas o meu exemplo, que reconheço as implicações e controlo as ações. Inicialmente, deve-se saber que nosso contrato tem um tripé: Ensino, Pesquisa e Docência. Preferencialmente, com um percentual equilibrado entre as missões. Vou insistir nessa segunda resposta porque, mesmo me conhecendo, há quem pergunte “quantas aulas você tem por semana?”.

Alguns docentes também se ocupam da gestão. Estive nessa condição por duas vezes, duas coordenações e, faltando dois anos para me aposentar, não pretendo outra aventura dessa. No total, entre ensino público e privado, tenho quase 37 anos de magistério – acho que tá bom demais.

No meu caso, apenas de 2025 para cá, além da docência na graduação (que todos nós temos) e na pós-graduação (não sou obrigado por lei), organizei um curso de extensão – externo ao público universitário, que é como deve ser – fiz o concurso para professor titular – o ápice da carreira acadêmica, para cima não tem mais nada – e publiquei cinco livros. Listo abaixo:

  1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. Autoeducação política para a descompressão: institucionalidades da exceção. Educação para além da exceção da exceção. 83 p. Relatório (Pós-doutorado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, Marília, 2025a. Disponível em: https://www.amazon.com.br/stores/Dr.-Vin%C3%ADcio-Carrilho-Martinez/author/B0GCX84YC1?ref=ap_rdr&shoppingPortalEnabled=true.

 

  1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. Educação e Sociedade. São Carlos: Amazon, Ebook Kindle, 2025b. Disponível em: https://a.co/d/393SyBS.

 

  1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Teorias do Estado*: Estado Moderno e Estado Direito – A Teoria do Estado sob a ótica da Teoria Política. São Carlos: Amazon, 2025c. Disponível em: https://www.amazon.com.br/stores/Dr.-Vin%C3%ADcio-Carrilho-Martinez/author/B0GCX84YC1?ref=ap_rdr&shoppingPortalEnabled=true.

 

  1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025d. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.

 

  1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *O Romance da Estante*. São Carlos: KDP, 2025e. disponível em: https://a.co/d/1PcYNF6.

 

Neste ano de 2026, já publiquei três livros e tenho outro preparado para a edição de novembro.

  1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: KDP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
  2. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin*: São Carlos: Amazon, 2026. Disponível em: https://www.amazon.com.br/stores/Dr.-Vin%C3%ADcio-Carrilho-Martinez/author/B0GCX84YC1?ref=ap_rdr&shoppingPortalEnabled=true.
  3. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Pelê Um Livro-Crônica do Brasil:* Crônica, Saga, Conto, Mito, Lenda, Autobiografia, Artigo, Narrativa, Cordel Urbano ou Retrato da Vida do Pobre no Brasil. São Carlos: KDP, 2026. Disponível em: https://a.co/d/03Zh7ksm

 

Se não escrever mais nada, nem pesquisar qualquer coisa até 2027, tenho duas teses de doutorado que posso perfeitamente revisar e também publicar.

Do meu ponto de vista, as aulas são o menor dos meus encargos. E, se você somar essa crônica-acadêmica de hoje – que é basicamente diária –, como parte do esforço docente estimado à Difusão Científica, então, a docência é mesmo o menor dos meus problemas. Apenas em um site que mantenho uma coluna faz uma década, em 2026, publiquei 88 textos. Sem somar os artigos propriamente acadêmicos, com qualis A e B – não me lembro de quantos foram nos dois últimos anos.

Novamente no meu exemplo, digo que estudo, escrevo, pesquiso, produzo as aulas; não gosto de me repetir de um semestre para outro. Algumas pesquisas que enfrentei foram mais substanciosas e organizadas na forma de pós-doutorado. Não chegaram a 10, como pensei no início, mas está perto disso e muitas foram publicadas como livros – alguns até mais didáticos:

            Educação pela Constituição Federal de 1988

  • Link, com acesso gratuito:

file:///C:/Users/Lenovo/Downloads/EducacaoConstitucional_EducacaoCF88%20(1).pdf.

 

Outra pesquisa se encaixou melhor nas aulas da pós-graduação (mestrado e doutorado):

            Formas de destruição da Política

  • Link, com acesso gratuito:

file:///C:/Users/Lenovo/Downloads/ADestruicaoDaPolitica%20(7).pdf.

 

E também publiquei este abaixo, numa toada mais popular:

  • MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Manual de autoajuda política*: ou como ajudar você mesmo (a) na arena. Campina Grande: EDUEPB, 2022.
  • Link, com acesso gratuito:

file:///C:/Users/Lenovo/Downloads/Manual-de-autoajuda-politica%20(4).pdf.

 

Também tenho uma carta nesses dois livros:

  1. Cartas a Paulo Freire:

file:///C:/Users/Lenovo/Downloads/Cartas%20a%20Paulo%20Freire%20(2).pdf

  1. Diálogos CTS com Paulo Freire:

file:///C:/Users/Lenovo/Downloads/DI%C3%81LOGOS%20CTS%20COM%20PAULO%20FREIRE_EBOOK%20(1)%20(5).pdf.

Em 2026, oriento um TCC (trabalho de conclusão de curso), uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado e faço a supervisão de uma pesquisa de pós-doutorado. Como se diz, é o combo completo.

Além disso, ou para fazer tudo isso, tenho que pensar, refletir, e melhor seria se não tivesse que perder tempo respondendo a esse tipo de pergunta inútil.

Enfim, o que sumariei aqui é apenas um caso, dentre nós docentes de universidades federais, pois, com raríssimas exceções, todo mundo é ativo, produtivo.

Se alguém lhe perguntar o que fazemos aqui, mostre-lhe esse texto

‘Não cabem milicianos no Palácio do Planalto’, diz Lula em São Gonçalo, no Rio

Com Eduardo Paes, Benedita da Silva e Pedro Paulo, presidente defende a democracia, afirma que acabará com as bets e pede empenho de eleitores

“Da mesma forma que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, no Palácio do Planalto não cabe a representação de milicianos”, declarou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira, 24, após caminhada com apoiadores em São Gonçalo (RJ). “É importante vocês saberem que o que está em jogo é a democracia ou a barbárie”, afirmou.

Lula participou da caminhada de cima de uma caminhonete. Estavam junto com ele a primeira-dama, Janja, e os candidatos ao Governo do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), e ao Senado, Benedita da Silva (PT) e Pedro Paulo (PSD). O presidente estava animado durante o trajeto. Acenou e cumprimentou apoiadores, pulou ao som dos jingles, tirou fotos e pegou no colo um menino que estava vestido com uma camisa vermelha e um boné da campanha.

O presidente disse que havia pessoas receosas em sua equipe sobre a realização da caminhada em São Gonçalo, pela cidade ser governada por adversários e por ter regiões dominadas por milícias. Disse que foi avisado de que o evento poderia ser perigoso, e retrucou: “Era perigoso se não existissem vocês! Com a presença de vocês, não tem nada perigoso!”.

Eduardo Paes e Pedro Paulo lembraram que quatro milhões de pessoas vivem sob o controle do crime organizado na região metropolitana do Rio de Janeiro. Em São Gonçalo, segunda cidade fluminense mais populosa, é quase metade do território conflagrado. Eles também pediram votos em Lula para que a criminalidade organizada continue sendo combatida e o território dessas regiões seja recuperado pelo Estado.

O presidente também citou diversas realizações do seu governo em São Gonçalo e questionou: “Vocês conseguem lembrar de alguma coisa que o Bolsonaro fez aqui?”.

Pediu votos a Benedita da Silva e Pedro Paulo e reforçou a importância: “O voto no Senado para quem é eleito presidente é muito importante, porque senão a gente não aprova as coisas que precisa aprovar”. Disse que seus eleitores não podem permitir que a direita faça maioria no Senado.

“Esse país que a gente quer está na mão de vocês. […] No dia 4 de outubro, vocês são o Todo-Poderoso”, declarou o presidente. Ele pediu para que seus apoiadores se esforcem na campanha para que a eleição seja encerrada já no primeiro turno.

Lula também reafirmou a importância do voto das pessoas acima dos 70 anos. Essa faixa etária, que é a mais lulista, também é a que concentra a maior abstenção, já que o voto nessa idade é facultativo. “Nós precisamos convencer as pessoas de 70 anos a votar. Olha, se eu com 80 anos estou aqui pulando e sou candidato, por que é que um cara de 70 anos diz que não quer votar, que desistiu da vida? […] O Brasil precisa de você! Idade não é motivo para não votar. O que leva você a votar é a causa, é o país que você quer, são as coisas que você deseja”, afirmou.

O presidente também disse que as pessoas devem votar em candidatos que se parecem com elas: “Escolha o que você quer para o país. Pense o que você quer para o seu filho, pense o que você quer para o seu neto, para a sua esposa, para o seu pai e para a sua mãe. Quando você pensar no mundo que você quer construir, veja quem são os candidatos que pensam como você ou que vão fazer o que você pensa. E aí você não tem jeito de errar”.

Enfrentamento às bets

“Se preparem, porque eu vou acabar com as bets”, declarou Lula. Nesse momento, o presidente foi interrompido por aplausos e gritos de “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Disse que “não é possível a sociedade brasileira estar endividada até o pescoço por causa de bet”.

Ele criticou a postura dos clubes de futebol que assinaram uma carta dizendo que o fim das apostas esportivas online representaria o fim do futebol. Lembrou mais uma vez que os maiores títulos que esses clubes já ganharam, assim como os da Seleção Brasileira, vieram antes da existência das bets.

“O que eu acho estranho é um time de futebol não compreender o papel do torcedor. Quem é que vai no Maracanã ver o jogo? É o pessoal da periferia. Quem é que compra a camiseta do Flamengo para a mulher, para o filho? É o torcedor assalariado. E o time quer jogar nas costas do torcedor o pagamento do salário do jogador, apostando em jogo para pagar R$ 3 milhões para jogador, enquanto o povo ganha R$ 2.500. É justo isso?”, questionou Lula. E reforçou, se direcionando às “companheiras mulheres”, que vai acabar com as bets.

Combate ao feminicídio

Tema constante nos discursos do presidente, ele também reforçou o apelo aos homens para que tratem suas companheiras “com respeito e carinho”: “A luta em defesa da mulher não é dela, é nossa! Porque quem faz a violência normalmente é o homem. Então a gente precisa levar em conta que mulher não foi feita para apanhar e nós não somos os donos das mulheres”.

Lula reforçou os efeitos positivos do Pacto Contra o Feminicídio, com onze leis já aprovadas, quatro decretos e mais de 23 mil agressores presos. “Nós vamos ser muito duros. Agora tem tornozeleira eletrônica e a mulher que estiver sob proteção, ela vai saber se o cara está perto dela. E aí nós vamos prender de verdade”, declarou.

Ele também reforçou a importância de educar as crianças e adolescentes para a igualdade de gênero: “A gente não pode educar o homem como se ele fosse superior à mulher. Por isso é que eu acho que da creche à universidade nós temos que educar a menina e o menino a serem iguais”.

Combate à corrupção

O presidente também afirmou que seu governo está “brigando contra um time que montou uma quadrilha para roubar a Previdência Social”. Lembrou que o esquema foi montado no governo Bolsonaro e que foi com sua volta ao Planalto que a quadrilha foi descoberta: “Prendemos as pessoas, pagamos R$ 3,5 bilhões a 5 milhões de aposentados e ainda tomamos R$ 100 bilhões dos ladrões e vamos pagar a Previdência com o dinheiro que nós sequestramos deles. Eles criaram uma quadrilha, nós a desmanchamos e prendemos”.

Lula também citou o caso Master. O banco também foi aberto durante o governo Bolsonaro e fechado depois que Gabriel Galípolo, indicado por Lula, assumiu o comando do Banco Central. “Eles criaram um banqueiro que praticou a maior corrupção na história financeira deste país, e eu prendi o banqueiro deles. E ainda é pouco, porque falta muita gente ainda para ser presa”, declarou.

União contra a extrema-direita

Eduardo Paes usou parte de seu discurso para lembrar que a segurança pública, atualmente, é de responsabilidade dos estados e municípios, e que o Rio de Janeiro é governado há 8 anos pelo grupo de Flávio Bolsonaro, período em que a violência piorou gravemente: “Essa gente manda há 8 anos no estado e não faz nada, e quer culpar o presidente da República pela incompetência deles”.

Pedro Paulo também falou bastante sobre segurança pública. Disse que é preciso reeleger Lula e eleger Paes para que o Rio de Janeiro tenha União e estado unidos para vencer o crime organizado. Pediu votos para toda a chapa e disse que “os adversários estão morrendo de medo, mas estão unidos”, e que o lado de cá também precisa estar unido para fazer a diferença no país.

O candidato a senador também afirmou que é preciso lutar “pela defesa do campo democrático” e pela “continuidade das políticas públicas que olham para as pessoas que mais precisam”. Defendeu o fim da escala 6×1 e disse que com ele e Benedita no Senado o presidente Lula terá mais aliados na defesa do Brasil e dos brasileiros.

Benedita da Silva reforçou o pedido para que as pessoas não votem em candidatos de fora da aliança, para mudar o Rio de Janeiro e dar a Lula uma ampla bancada na Câmara e no Senado.

A juventude tem jeito: ex-bolsonarista conta como abriu os olhos

JOVEM EX-BOLSONARISTA RELATA COMO O CONTATO COM OUTRAS IDEIAS TRANSFORMOU SUA VISÃO DE MUNDO

O relato de Bruno Fonseca chama atenção pela forma como ele descreve sua própria mudança de visão política.

Ex-bolsonarista, o jovem conta que, durante muito tempo, reproduziu discursos e ideias sem compreender exatamente aquilo que estava defendendo.

Assista ao relato aqui

Segundo Bruno, a entrada na faculdade e a convivência com pessoas que pensavam de maneiras diferentes foram fundamentais para que ele começasse a questionar suas próprias certezas.

O contato com outras experiências e perspectivas teria feito com que percebesse que vivia, nas palavras de seu relato, dentro de uma espécie de “bolha”.

Mais do que uma mudança de posição política, o vídeo traz uma reflexão sobre a importância do convívio com o contraditório.

Discordar, ouvir, estudar e confrontar aquilo em que acreditamos também fazem parte da formação de uma consciência política.

O relato é pessoal e representa a experiência de Bruno Fonseca. Mas deixa uma pergunta que vale para qualquer posição ideológica: quantas das nossas convicções são realmente construídas por nós e quantas apenas repetimos porque sempre estivemos cercados pelas mesmas vozes?

 

‘Essa não é uma guerra, é uma decisão: nós vamos acabar com as bets’, diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, nesta quarta-feira, 23, que vai acabar com as bets e rejeitou o argumento de que o futebol brasileiro depende das plataformas de apostas para sobreviver. Durante encontro com artistas na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, Lula contrapôs os interesses financeiros dos clubes aos prejuízos sofridos pelas famílias e foi enfático: “Essa não é uma guerra, é uma decisão: nós vamos acabar com as bets”.

O presidente pediu reflexão aos dirigentes e lembrou que os torcedores já sustentam os clubes quando compram ingressos e camisas para suas famílias. Em sua avaliação, o financiamento das equipes pelas casas de apostas retira dinheiro desse mesmo público, com consequências que ultrapassam o orçamento doméstico.

“E fica financiando os clubes com quem? Com dinheiro do pobre. É o pobre que joga, é o pobre que fica doente, é o pobre que se mata”.

Lula cobrou alternativas de gestão e financiamento, mencionando o modelo das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs). Para ele, os times precisam se preparar para funcionar sem depender das bets.

O impacto das apostas ganhou dimensão concreta quando Lula descreveu os relatos que ouviu de pessoas endividadas.  “Não é possível a gente deixar essa doença chamada ludopatia tomar conta do povo brasileiro”, afirmou.

O presidente apresentou o enfrentamento ao vício como um compromisso com a sociedade e com a proteção da juventude. Também relacionou o tema à formação dos jovens, que precisam ser estimulados a construir perspectivas de futuro sem apostar dinheiro que não possuem.

“Então isso também é cultura. O jovem vai aprender que ele não tem que ficar jogando, apostando o que ele não tem”.

A manifestação contra as bets veio acompanhada da defesa da regulação das plataformas digitais. Lula citou o ECA Digital como referência de atuação para proteger crianças e adolescentes no ambiente virtual e criticou modelos de negócio que lucram com a exposição dos mais jovens a danos.

“Eu terei o imenso prazer de acabar com as bets”, declarou.

Ao lado de artistas no Rio, Lula propõe políticas permanentes e revolução cultural nas periferias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva propôs, na noite desta quarta-feira, 23, transformar as políticas culturais em compromissos perenes de Estado, protegidos das mudanças de governo, e fazer uma revolução no acesso à cultura em um quarto mandato. Durante encontro com artistas na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, Lula vinculou a continuidade dos investimentos à necessidade de levar teatro, cinema, bibliotecas e oportunidades de criação para perto de quem vive nas periferias.

“Para ter uma política perene, é preciso colocar na Constituição aquilo que queremos de cultura. É a forma mais segura contra mudanças de governo”, afirmou.

A preocupação com a continuidade responde ao desmonte das políticas culturais na gestão Bolsonaro e à necessidade de assegurar financiamento descentralizado para o setor. No encontro, a ministra Margareth Menezes e o secretário executivo Márcio Tavares recordaram o cenário encontrado na retomada do governo: Ministério da Cultura extinto, perseguição a artistas, criminalização da Lei Rouanet e cancelamento de editais.

O encontro reuniu no Rio nomes de diferentes gerações da música, do teatro, da televisão e do Carnaval, como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Lenine, Daniela Mercury, Zélia Duncan, Russo Passapusso, Fernanda Abreu, Zeca Pagodinho, Tony Bellotto, Chico César, Geraldo Azevedo, Pedro Luís, Xamã e Mestre Ciça. Também estiveram presentes Marieta Severo, Catarina Abdalla, Cissa Guimarães, Betty Gofman, Malu Mader, Julia Lemmertz, Caio Blat, Juliana Alves, Antonio Pitanga e Felipe Velozo, além da cantora e ministra da Cultura, Margareth Menezes.

Cultura onde o povo está

Para Lula, o acesso à produção artística não pode ser tratado como artigo de luxo ou privilégio de quem mora perto dos equipamentos culturais. Sua proposta é aproximar os investimentos da população e reconhecer a riqueza produzida nas comunidades, permitindo que os talentos desses territórios se desenvolvam e alcancem outros públicos.

“O mesmo vale para a cultura: ela precisa estar onde o povo está. Não dá para esperar que quem mora longe venha ao centro do Rio para ir ao teatro ou cinema”, declarou.

Segundo Lula, a presença deve valorizar a produção dos próprios moradores e abrir caminhos para que ela circule além da comunidade. O presidente associou o investimento cultural ao direito de existir, ser reconhecido e participar da vida do país.

“A cultura é o primeiro embate que a gente faz para devolver às pessoas o prazer de morar na comunidade, de morar numa vila e construir naquela vila uma cultura, não para ficar naquela vila, mas para ser levada para o mundo”.

Lula relacionou essa missão ao compromisso de inclusão social que marcou sua primeira eleição e orientou o Fome Zero. Recordou que, naquele momento, estabeleceu como objetivo garantir que cada brasileiro pudesse fazer três refeições por dia. A mesma compreensão, sustentou, deve orientar o investimento em educação e cultura.

Para um novo governo, o presidente apontou a ampliação do acesso e a descentralização das oportunidades como tarefas centrais. A proposta é romper a concentração nos grandes centros e fazer com que as diferentes expressões culturais do país tenham espaço, visibilidade e condições de se desenvolver.

“No quarto mandato, nós temos que fazer uma revolução cultural e espalhar a cultura pelo país”, afirmou.

Artistas contra o obscurantismo

O presidente convocou os artistas a usar sua capacidade de alcançar públicos e multiplicar mensagens na defesa da democracia. Para ele, a eleição coloca em disputa o modelo de país que os brasileiros querem construir, incluindo a escolha entre ampliar direitos ou retornar ao obscurantismo.

“E não tem ninguém com mais competência de gritar em defesa disto do que os artistas brasileiros no palco, no teatro, no cinema, na rua, no circo. Ou seja, vocês são vozes que se multiplicam com muita facilidade”.

Lula apresentou sua candidatura como uma forma de impedir a repetição de períodos de autoritarismo e ataques à cultura. “A minha quarta candidatura é para não permitir que este país volte ao passado tenebroso do regime militar ou aos quatro anos mentirosos da família Bolsonaro”.

O presidente também elogiou Fábio Porchat pelo trabalho sobre o caso de Daniel Vorcaro, em mais uma referência ao papel dos artistas no debate público. “Ontem eu passei a respeitar mais o Porchat por causa do documentário sério que ele fez sobre o caso do Vorcaro”.

ELEIÇÕES DE 2026 – o Brasil procurando suas tangas

@viniciocarrilhomartinez

 

Como ensinou o velho Marx, começarei pela conclusão e você entenderá o porquê. Então, concluindo inicialmente, digo que: A autonomia não atribui a ninguém o direito de propor, planejar, instigar ou agir contra a Emancipação.

Vamos ao tema: Ano eleitoral costuma ser conturbado e criativo. Em eleições como esta que temos agora não falta fogo no parquinho. Nesses períodos vemos de tudo, como a candidatura à prefeitura do Macaco Tião, no Rio de Janeiro de 1988. Tivemos por tempo demais o “rouba, mas faz”. Além de um Padre Kelvin, Kelson, ou algo do tipo. Quando via isso, Leonel Brizola, grande líder nacional, dizia que “estamos de tangas”.

Quando o povo olha para essas figuras, além do deboche obrigatório, pensa que há adoradores do poder. E o povo está certo nisso, assim como há pessoas viciadas em dinheiro, sexo, holofotes e no alimento diário do Narciso. Eu sou viciado em escrever e é por isso que às duas da manhã estou aqui.

Nessa “eleição do poder” de 2026 – mesmo passando anos luz de distância do Poder Constituinte Originário –, temos muitas questões em aberto e em jogo. Por exemplo as ameaças graves à soberania nacional e à própria democracia: há um grupo, na polarização inevitável, profundamente alinhado aos movimentos golpistas do 8 de janeiro de 2023. É fácil saber qual é.

O que me leva a pensar no “direito de voto”. Ainda que alguns símios contrários ao Macaco Tião preguem o fim do voto livre, fazendo uso da democracia que lhes resta, tentarei pensar em situações mais saudáveis. Não chamo mais de burrice crônica, agora apelidei de Negacionismo cognitivo.

Sem grandes análises históricas ou jurídicas sobre o direito ao voto livre, que faria facilmente, quero destacar uma confusão média que vemos em pessoas medianas. É a confusão entre Autonomia e Emancipação.

Para o raciocínio mediano, Autonomia, neste caso, explica-se por votar em quem quiser ou nem votar (abstenção). Também não vou explicar as diferenças que cabem entre abstenção e voto válido (regular, nulo ou branco); porém, a Autonomia, vista desse modo, pode ser a simples negação da requerida Autonomia. Pense que há candidatos, ao menos um, loucos para golpear e decretar o fim da democracia e dessa mesma autonomia eleitoral.

Autonomia não é fazer, deixar de fazer, falar, postar o que der na cabeça, sem nenhuma noção. Aliás, deveria ser crime falar e postar asneira – se é Fake News é, sim, crime – e o mesmo candidato a que me referi é expert em fazer isso. A família inteira, bem dizendo, é especialista em mentiras grosseiras.

Pois bem, Autonomia é participar ativamente (quer dizer, conscientemente) de um processo de autorregulação, uma vez que Autonomia vem do grego, “auto + nomos” (norma), “ato de atribuir normas a si mesmo”, desde que essas normas não acabem consigo e com os outros – como temos na Argentina. Neste caso, deveria ser crime hediondo pregar nos púlpitos da ignorância.

Já a Emancipação é muito mais complexa e radical. Veja-se que jamais seremos emancipados enquanto não obtivermos independência financeira. E isso é o básico, o essencial. A essência da Emancipação, por seu turno, passa longe desse inicial e essencial diagnóstico.

Quando tenho que falar sobre tais assuntos, ensinar sobre isso – o tempo de exposição não é o mesmo dessa crônica, é óbvio –, uso de exemplos. Particularmente, não vejo Autonomia no “trabalho uberizado” – ninguém é dono do seu tempo, se a plataforma é dona da sua sobrevivência –, como vejo a Emancipação real, maiúscula, em atividades desenvolvidas por pessoas ligadas à Cruz Vermelha, ao Greenpeace ou aos Médicos Sem Fronteiras.

Como está dito aí, a Emancipação está além das fronteiras, dos egos, dos interesses imediatos e mesquinhos. A Emancipação está para além da divisão política, das classes sociais. A Emancipação está para a Humanidade, assim como a Autonomia (se bem entendida como autorregulação) está para o indivíduo, para o exercício do direito ao voto livre que não ameace a democracia.

Então, sem pedir o seu voto, penso que não é difícil saber em quem irei votar.

 

A difícil tolerância – ou fácil intolerância

0

Tem reações, comportamentos ou gestuais, que são típicos. Vou pelo exemplo: chamei um Uber para voltar do shopping. Apesar de ser o santuário do consumismo – bem destoante de comunismo –, vou nos dias e horários em que não tem quase ninguém.

O piso sem desnível, sou PCD, o acesso rápido e prático ao que procuro, sempre bons cafés, a disponibilidade de comer algo e tomar um chope, é o que me leva lá umas poucas vezes por ano.

A primeira observação mais séria é de que não é possível tolerar a falta de educação.

Pois bem, na última viagem de Uber me atendeu um jovem de 20 e poucos anos. Falei que sentaria no banco da frente, por causa da minha perna. Tinha um casal na porta e pôde ouvir o diálogo – monólogo. O motorista não disse nada, mas “o corpo fala”, como se diz.

Antes de entrar, entrando, perguntei mais alto se estava incomodado. O casal ouvindo, o motorista os viu. Colocando o sinto, já em andamento, perguntei num tom que não gosto se ele é da chamada Geração Z. Estava na cara que sim, mas, queria que respondesse com um “sim”.

Foi a minha deixa para dizer que essa geração tem que aprender a conviver, que quem lida com público tem que ser mais, digamos, educado e gentil. Em seguida, falei que tenho inúmeros estudantes na mesma idade ou menos do que isso. E que, com o tempo, vão tomando jeito na vida, quando “abaixam a bola” – é assim que se falava até a pouco tempo.

Deixei o silêncio tomar o espaço por uns minutos e voltei a puxar conversa, agora sim, no ânimo de uma conversa. Antes fora apenas um discurso breve. No fim da história, acabou contando um bocado da sua vida, o drama que vive hoje – depois de ter sofrido um “golpe de amigo” –, até o quanto fatura por mês e o fato de não gostar da cidade, mesmo tendo nascido aqui. Falei que também não gosto: me incomoda bastante o provincianismo. Enfim, ao final, houve tolerância de parte a parte. Não ficamos amigos, mas não somos inimigos.

Dois dias depois, hoje, precisamente, ao (ou para) rabiscar essa crônica, pensei no que pode, deve ser a tolerância. Vi aqui na minha estante uma Pedagogia da Tolerância, de Paulo Freire, lembrei de alguns detalhes dessa viagem de Uber e pensei no traumatismo político, com as entranhas expostas, que vivemos atualmente.

Porém, pensei um pouco mais sobre a intolerância que vemos e sentimos. Agora, me refiro à incapacidade generalizada de convivermos com as diferenças, com a diversidade e a pouca, ou nenhuma, vontade de ouvir mais, ver mais, saber mais, conhecer melhor, antes de emitir opiniões e julgamentos.

Refiro-me a todos nós, mal-educados e emborcados nas nossas verdades, meias verdades, e comodismos em obter informação (ou mais claramente desinformação) nas redes sociais.

Na prática, atuam como redes antissociais porque só nos apresentam o que queremos ver, ouvir ou ler. O algoritmo foi treinado para nos enviar apenas o que não nos incomoda e, como sabemos, a diferença nos cansa e desarruma por demais.

Lembrei-me também do famoso Paradoxo da Tolerância e que, de forma absurdamente sábia, nos ensina a “não tolerar o intolerável”. Sendo este intolerável a violência (de qualquer tipo), os maus tratos com animais, os golpismos – maiores ou menores –, a desonestidade, os crimes, o dolo, a mentira política, a desigualdade, o racismo, a miséria humana, a opressão, a subjugação. Essa lista é infinita.

Não é fácil a tolerância, sem dúvida, porém, reparei no subtítulo do Pedagogia da Tolerância, que citei, um complemento obrigatório ao nosso raciocínio: A Tolerância Legítima me ensina que só consigo aprender, de fato, com a diferença.

Isso é óbvio, e ainda que o óbvio só seja óbvio depois que alguém o diga; pois, com a mesmice, a minha réplica quase perfeita, replicando o copia e cola de mim mesmo, tal qual o treinamento dos algoritmos, irei aprender o quê?

Nada, além de repetir os próprios erros, os mesmos erros, num looping infinito.

Com certeza vem daí uma parte da avaliação de especialistas em aprendizagem, concluindo que a “Humanidade está emburrecendo”. E, na segunda conclusão, digo que eu não quero isso para mim. Por isso fiz questão, insisti, em conversar com o jovem motorista de aplicativo.

Parece missa encomendada, só que não é: acabei de ganhar um voucher do Uber, da gerente do Banco do Brasil. O que me leva à terceira conclusão: Talvez seja merecimento por insistir na tolerância, ao que pode e deve ser tolerado e ensinado.

@viniciocarrilhomartinez

Negacionismo cognitivo

0

@viníciocarrilhomartinez

Todo mundo é cheio de opiniões; porém, os sábios guardam as suas para si, pois, têm receio, verdadeiro tormento, de falarem bobagem.

As opiniões podem ou não ser benvindas. Se são honestas e dispostas a colaborar – sem recair na ingenuidade, idealismo ou sectarismo – sempre podem ser apreciadas.

De outro modo, se são opiniões conexas ao senso comum – quase sempre eivado de discriminação, preconceito, indisposição à diversidade física, cultural, social – então, devem ser silenciadas.

Emitir opinião, sem fundamento lógico, histórico, científico, sociológico ou filosófico (não sendo elitista, capacitista), é apenas uma das roupagens da desinformação, outra forma de Fake News, e sempre garante uma aposta na ideologia racial ou dominante. Também chamaremos isso de Negacionismo cognitivo.

Vejamos duas análises ou abordagens:

Sobre o que é racismo, o que se pode entender, como combater, é algo comum a todo mundo e assim devemos participar do debate. Inclusive para “se ver melhor”, na práxis futura.

  • Porém, um homem branco (como eu) não tem a mínima legitimidade para avaliar se tal feito e contexto foi racista (ou não).

 

Do mesmo modo, todo mundo deve se envolver no debate sobre acessibilidade, inclusão e permanência, especialmente, no sentido do aprendizado e das reflexões seguintes.

  • No entanto, ninguém que não tenha deficiência (PCD), como eu, poderá emitir parecer sobre uma situação ser ou não inacessível e excludente.

 

É somente pela lógica quebrada das opiniões não embasadas (fantasiosas) e das ideologias que se voltam contra a obviedade que negamos os fatos, a realidade, “o que está na nossa cara”, e, assim, também explicamos um certo Negacionismo cognitivo – que é a pior forma de negação do raciocínio lógico-dedutivo.

Essas imagens e seus dizeres nos dizem que as coisas, as situações, as pessoas em suas ocorrências, os processos, têm um sentido e esse sentido precisa ser visualizado, pensado, refletido, diante da lógica mais simples.

Assim, fica o convite para que se reveja as inscrições nas fotografias.

 Afinal,

Como haver inclusão sem acessibilidade?

É óbvio, não há permanência sem inclusão.

Mas, como entrarei numa sala, se as portas estão trancadas?

A criança de 12 anos tem a resposta.

Se a permanência é o trânsito e o trâmite, a acessibilidade é a premissa.

É preciso “só” de boa vontade para abrir o sistema – trancado por dentro?

Isso é acessibilidade, inclusão e permanência.

Não podemos dar trégua ao negacionismo cognitivo.

Então, como entrar no ambiente – necessário ao nosso desenvolvimento – se quem trancou a porta não quer abrir?

 

 

 

 

Sob aplausos na ONU, Lula dispara recado a Trump: “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Durante discurso proferido nesta terça-feira (22) na abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), realizada em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou um duro recado às ambições hegemônicas das grandes potências mundiais, destacando que a soberania brasileira e a integração regional não podem ser submetidas a interesses externos, segundo pronunciamento do próprio chefe de Estado brasileiro.

Em sua fala perante os representantes multilaterais, o chefe do Executivo brasileiro abordou a posição geopolítica do país e da região frente ao cenário global. “Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo num contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomentem o desenvolvimento”, declarou Lula, ressaltando que as diferenças ideológicas não devem impedir a integração entre os países vizinhos.

O mandatário relembrou o histórico político do continente para alertar contra retrocessos antidemocráticos e ingerências externas em processos eleitorais. “Os países da região reconheceram os horrores do regime de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular. A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais”, apontou. Ele classificou como gestos anacrônicos a divisão do mundo em zonas de influência e as investidas neocoloniais por recursos estratégicos.

Nesse contexto regional, Lula passou em revista diferentes crises locais. O presidente afirmou que “o povo venezuelano merece decidir seu próprio destino” e ressaltou que “a Nicarágua não vai resolver seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições”. Sobre o Haiti, advertiu que a situação continua testando os limites da indiferença internacional. Já em relação a Cuba, criticou duramente as sanções econômicas: “o mundo assiste estarrecido à punição coletiva imposta a 10 milhões de pessoas por um embargo econômico e um cerco energético ilegais”.

Ao tratar da segurança pública e do combate ao crime organizado, o presidente rejeitou propostas de militarização estrangeira no território e defendeu parcerias baseadas no combate ao financiamento ilícito. “O Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas comunidades. Trabalhadores são roubados, mães perdem seus filhos, policiais não voltam para casa. As pessoas estão cansadas da violência. Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossa fronteira e garantir à população o direito de viver sem medo”, afirmou.

Lula enfatizou que a solução para a criminalidade transnacional não passa por exibições de força militar. “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e dinheiro que abastecem o crime organizado. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos”, revelou, apontando a necessidade de combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior.

Por fim, o chefe de Estado detalhou as ações estruturais tomadas pelo governo federal para enfrentar a criminalidade internamente e em cooperação com países vizinhos. Ele citou a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, reunindo autoridades dos nove países amazônicos, e ressaltou que em 2025 o país realizou a maior operação contra o crime de sua história, com recordes de apreensão de drogas, bens e recursos ilícitos. “Estamos enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime. A Lei Antifacção que acabamos de aprovar impõe ao crime penas superiores às previstas para o terrorismo”, concluiu Lula, destacando ainda que o combate à corrupção continuará implacável, pois “ninguém está acima da lei”.

Cuidadosamente

0

@viniciocarrilhomartinez

(cuidadoso)

Cuidar

– é obvio, vem de amar

 

Só escolhemos quem amar

– onde se insiste em desandar

 

Não existe cientista do amor

– mas, sim,

– da dor

 

Há arquitetos da vida

– que vem e vai

– e com o tempo se desvai

 

Há arquitetura na vida

– não só projeção

(Edificação – Emancipação)

 

A vida não é só curtição

– a vida não é científica

– só é empírica

 

Somos castores

– poucas vezes com amores

 

Nossa arquitetura

– muitas vezes, é obscura

 

Mas, somos castores

– quando nutrimos amores

É preciso cuidar

– fazer aflorar

 

Nunca a vida subestimar

 

Castores da vida

 

Somos arquitetos da vida

– que nem toda hora é amiga

– nessa sobrevida

 

Pois, sois o que sois

– Arquiteto da sua vida

– Mesmo que de ti escondida

 

 

Pesquisa aponta STF e clã Bolsonaro como os mais desgastados pelo caso Master

Levantamento indica maior impacto na imagem do Supremo e do clã Bolsonaro entre os eleitores entrevistados

O Supremo Tribunal Federal (STF) e o clã Bolsonaro figuram no topo das instituições e agentes políticos que sofreram o maior desgaste de imagem perante a opinião pública após as revelações envolvendo o escândalo do Banco Master. De acordo com o levantamento feito pelo instituto de pesquisa Palver, divulgado nesta segunda-feira (21), quando questionados sobre qual instituição se comprometeu mais gravemente por conta do episódio, 76% dos entrevistados apontaram o STF como o órgão de maior prejuízo em termos de imagem institucional.

O desgaste associado ao escândalo financeiro também atingiu com força o ambiente político. Para 44% dos eleitores ouvidos, o caso afetou de forma expressiva a imagem da família Bolsonaro. Logo na sequência, surge o presidente Lula (PT) e o seu partido, citados por 39% dos entrevistados como alvos do desgaste derivado da crise.

A percepção de desgaste estende-se ainda ao Poder Legislativo e ao sistema financeiro nacional. O Senado Federal aparece como a quarta instituição mais impactada na visão do eleitorado, sendo mencionado por 32% dos participantes da sondagem. Já a Câmara dos Deputados surge na quinta colocação da lista, assinalada por 25% dos entrevistados.

Por sua vez, o Banco Central (BC), órgão encarregado da fiscalização do sistema financeiro, acumula 17% das indicações dos eleitores que veem a autoridade monetária entre as prejudicadas em sua reputação por conta do escândalo.

A sondagem mostrou ainda uma parcela residual que não enxerga impactos institucionais ou que desconhece os fatos: 1% dos eleitores respondeu que nenhuma das instituições listadas sofreu prejuízo de imagem por causa do escândalo do Banco Master, enquanto 4% afirmaram não conhecer o caso ou não souberam responder ao questionamento feito pelos pesquisadores.

A pesquisa Palver foi realizada entre os dias 15 e 20 de setembro, mediante a oitiva de 5 mil eleitores distribuídos por todo o território nacional. A margem de erro máxima do levantamento é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, contando com um índice de confiança estatística de 95%. Conduzida com recursos próprios da empresa de pesquisa, a amostragem está devidamente registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-00860/2026.

Do Brasil 247

Campanha de Lula aciona TSE contra rede de desinformação do PL e Flávio Bolsonaro

A Coligação “Brasil Pronto Pra Mais”, responsável pela candidatura da chapa composta pelo presidente Lula (PT) e Geraldo Alckmin (PSB), protocolou mais de 20 pedidos de Direito de Resposta perante o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A ofensiva jurídica visa deter uma engrenagem sistemática de disseminação de desinformação e ofensas ilícitas que vem sendo promovida pelo PL e pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL) na rede social Instagram. As ações miram diretamente publicações projetadas para atacar a honra do chefe do Executivo e induzir o eleitorado a erro por meio de conteúdos comprovadamente manipulados.

Um dos pilares das denúncias levadas à Corte Eleitoral é o emprego ilegal de inteligência artificial (IA) e mídias sintéticas para a fabricação de ilações e acusações criminosas. Segundo a peça jurídica apresentada pela defesa, perfis vinculados ao PL utilizaram ferramentas de IA para gerar vídeos que associam falsamente Lula a práticas delitivas. Essas produções simulam questionários sobre corrupção e exibem animações criadas por computador sem apresentar o aviso visual obrigatório determinado pelas normas eleitorais para o uso de tecnologias gerativas.

Além do uso desautorizado de IA, as petições expõem a manipulação intencional de gravações reais de Lula por meio de edições tendenciosas e tiradas de contexto. A defesa demonstra ao TSE que entrevistas e pronunciamentos do presidente sofreram adulterações e foram veiculados em formato de repetição contínua (looping) para estruturar memes de deboche. O objetivo das edições era criar a falsa impressão de que o presidente estaria ridicularizando a inflação e a alta nos preços dos alimentos no país.

A coligação contesta ainda as tentativas da campanha adversária de atrelar a imagem de Lula a investigações envolvendo terceiros sem que exista qualquer indício, prova ou denúncia contra o candidato. Os advogados também apontaram o resgate deliberado de capas antigas de jornais da época da Operação Lava Jato. O artifício visual visava simular condenações vigentes, omitindo de forma proposital o fato público e notório de que todos esses processos foram anulados de forma definitiva pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Diante do alcance e da gravidade das publicações na plataforma, a defesa jurídica da chapa Lula-Alckmin solicitou a concessão de liminares urgentes para que a Justiça Eleitoral ordene a remoção imediata de todas as postagens do ar, sob pena de aplicação de multa. No mérito, quando do julgamento definitivo, a coligação pede o deferimento do Direito de Resposta para veicular notas de esclarecimento nos próprios canais oficiais do PL e de seus candidatos. A solicitação prevê que os esclarecimentos permaneçam visíveis pelo dobro do tempo em que as postagens ofensivas ficaram expostas aos usuários.

Do Brasil 247

A Emancipação do castor – mais castores, menos predadores

0

@viniciocarrilhomartinez

O Brasil já conheceu um Castor de Andrade. Esse texto não trata desse indivíduo, um dos maiores contraventores associados ao Jogo do Bicho.

Como se sabe, de acordo com a história que nos interessa hoje, não há geração espontânea ou autocombustão, porque tudo é processual. Para o bem e para o mal, como um pharmakón (remédio ou veneno), a política está no centro da sociabilidade humana e nada vem pronto e acabado. Como nos ensinaram os mais antigos, para melhorar, é preciso ir melhorando, melhorando-se. Este é o papel da Educação, fazendo-se ação política emancipadora (Freire, 2022).

E essa é a principal lição que tiramos da capacidade social e organizativa do Castor. Com vistas à Emancipação, o Castor[1] será o nosso guia hoje. As imagens falam por si, porém, vamos investigar alguma complexidade que os nossos olhos não veem.

Chamaremos o Castor de Arquiteto do ambiente. E o que nos ensinam os castores, conceitualmente?

  • Coletividade e força natural
  • Sociabilidade
  • Ajuda mútua
  • Organização
  • Capacidade projetiva
  • Interação criativa diante da complexidade
  • Criação de soluções ambientais
  • Soluções ambientais complexas e coletivas

 

Isso tudo é precisamente o que vemos nos seus diques e nas suas eternas lições. Associam-se à natureza para se socializarem. Em analogia, a Holanda, um país ilhado abaixo do nível do mar, só existe por causa dos diques.

Provavelmente, os holandeses aprenderam essa fabulosa estratégia de reorganização ambiental com os castores: a represar a água do lado de fora das suas ruas e casas. Não foi à toa que o predador nazista destruiu todos os diques após a invasão, na Segunda Guerra Mundial.

Do Castor, professor na Holanda, aprendemos que a emancipação ocorre quando a capacidade inventiva e interativa é capaz de organizar e “redescrever” – descrever outra vez, criativamente, as mesmas condições naturais –, redesenhar a sociabilidade e o ambiente, agora como exigência da afirmação, independência e complexidade social.

Conceitualmente:

  • Complexidade = diversidade, profundidade, alteridade (possibilidade exequível: Ética e projetiva).
  • Quando não há polaridade (amigo x inimigo).

 

É fácil, portanto, entendermos que os castores e os holandeses têm similaridades. Os Castores têm domínio ambiental para benefício social. A Holanda tem um Projeto de País e isso significa domínio territorial, societal. Ambos conhecem, em profundidade, qual é a complexidade envolvida nesse tipo de projeto de domínio estrutural.

Ambos constroem suas pontes para garantir a sobrevivência e, assim, apontam para o futuro como uma possibilidade exequível. Ambos projetam e assentam no presente as argamassas que garantem as estruturas do futuro.

Com vistas à Emancipação, os castores nos ensinam que precisamos de Reconhecimento (aceitação, promoção, efetivação) dos valores humanos e da Interação Social, em exata oposição à predação humana, social, ambiental.

São Arquitetos e Instrumentadores. Arquitetam e se instrumentam para arquitetarem a si como um só.

Conceitualmente:

  • Inter ação – agem a partir da ação do Outro
  • Co ordenação – ordenam-se na ordem construída com o Outro
  • Co operação – são instrumentadores de si, por meio do Outro

 

A mudança vem do planejamento e da investidura da Inteligência Social, da criação que permite a Emancipação diante do que até então fora mera impossibilidade e determinação exteriores[2].

Ao invés de flanarem nas águas da incerteza, ambos preferem não estocar, porém, ancorar as expectativas na realidade. Os sistemas peritos (organização, institucionalidades) asseguram não somente o domínio, mas, sobretudo, o predomínio social, institucional, ambiental.

A Inteligência Social permite que, ao se redesenhar o ambiente, também se redefinam socialmente[3]. É impossível não ver aqui a Ontologia e a Teleologia.

Conceitualmente:

Vigora o Princípio da organicidade sistemática, prevalecendo a ponderabilidade, a proporcionalidade, a responsabilidade social e ambiental. Sem que o Castor racionalize, esse é o maior aprendizado que tiramos do seu Sistema Perito, pois que são peritos na racionalidade social.

Afinal,

 

Não existe cientista do amor

– mas, sim,

– da dor

 

Há arquitetura na vida

– não só projeção

(Edificação – Emancipação)

 

Somos castores

– poucas vezes com amores

 

Nossa arquitetura

– muitas vezes, é obscura

 

Mas, somos castores

– quando nutrimos amores

 

Somos arquitetos da vida

– que nem toda hora é amiga

 

Pois, sois o que sois

– Arquiteto da sua vida

– Mesmo que de ti escondida

 

Referências

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

 

GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1991.

 

GIDDENS, Anthony. Mundo em Descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de Janeiro: Record, 2000.

 

[1] “O castor como animal de poder simboliza a construção, a perseverança e a cooperação, representando a capacidade de transformar ideias em realidade. No xamanismo, este animal ensina a arte de trabalhar em harmonia com os outros e de criar bases sólidas para a vida” (Gemini: 20/09/2026).

 

[2] “Exatamente onde os riscos são maiores […] a fortuna tende a voltar” (Giddens, 1991, p. 112-113 – grifo nosso).

[3] “Uma pessoa que segue uma prática tradicional não cogita de alternativas” (Giddens, 2000, p. 52 – grifo nosso).

Pequenas conquistas

0

 

De cada folha que cai
De cada broto que sobe
– há uma lição aprendida

A vida é sobre isso
Aqui todo mundo é mestiço
– Ninguém é puro

Assim a vida é feita
– de grão em grão
– nem sempre de vento em popa

A vida não vem feita
– pronta e acabada
– se fosse, seria desfeita

A vida é um feito
– sim, fantástico!

É um sobe e desce
– nasce e morre
– vem e vai
– de grão em grão

Sim, a vida é um feito
– sempre será um mito

Mas, é um feito de pequenas obras

A vida é feita de pequenas conquistas
– mesmo que cheia de armadilhas
– Às vezes é um ato desfeito

Por isso, o menos é mais

A vida é um grande feito
– Para todos os seres vivos

Até as máquinas rangem e resmungam

Nossas construções empenham, dobram sobre si

As folhas caem
A flor mais linda seca

Mas, há árvore milenar
De uma lição a nos lembrar

A vida é feita um dia após o outro
Uma missão depois da outra

É a sobrevivência da árvore milenar

Nossa vida é sim um feito
Quase milagre
É um feito para não esquecer

A vida é contínua, longa
Mas é feita de pequenas conquistas
Um dia após o outro

Por isso, o menos é mais
– a vida é mais,
(quando tudo o mais, não é de menos)

Mesmo que venha a doer
Não é para remoer
É só viver
– um dia após o outro

Cada minuto é uma conquista
– um breve minuto
(Uma grande conquista)

Do passado vem a memória
Mas a história está por ser feita

Nem tudo irá melhorar, um dia
Mas, é preciso estar lá pra saber

A vida é só uma coisa de cada vez
– nesse longo feito de sobreviver
– sempre mais ser
(Do que ter)

@viniciocarrilhomartinez

Deus, pátria e… pensão atrasada: a família segundo Bruno Scheid

Candidato ao Senado por Rondônia, Bruno Scheid não cansa de falar em Deus, pátria e família. Só que os autos de um processo de alimentos mostram que essa devoção toda tinha um teto bem baixinho: R$ 1.200 por mês, quando a Justiça mandava pagar mais que o dobro.

Todo político de direita tem o trio preferido. Bruno Scheid, pré-candidato ao Senado por Rondônia pelo PL, não foge da receita: colocou a família ao lado da liberdade no lançamento da candidatura, como quem mostra troféu. Só que troféu fica bonito na estante, pensão, para valer alguma coisa, tem que cair na conta todo mês.

Segundo documentos de um processo de execução de alimentos, o filho de Scheid, representado pela mãe, teve que ir atrás da Justiça pra receber o que já era garantido por lei. A 1ª Vara de Família de São José do Rio Preto (SP) fixou pensão de dois salários mínimos. Na prática, Scheid vinha pagando R$ 1.200, menos da metade do combinado. Entre julho de 2019 e fevereiro de 2020, a diferença já somava R$ 2.771,20. Em maio de 2020, a Justiça mandou intimá-lo pra quitar a dívida, sob as penas do Código de Processo Civil.

No palanque, família é discurso pronto e aplauso na certa. No fórum, é planilha de atraso.

Um processo, sozinho, não faz de ninguém vilão e seria golpe baixo transformar isso em sentença moral fechada. Mas cabe perguntar, sim: que “defesa da família” é essa que só funciona dentro de casa depois que um juiz manda? A própria petição fala em desamparo do filho, causado pelo pagamento insuficiente da pensão. É alegação da parte autora, tá certo, mas não é boato de rede social. Tem nome, sobrenome, data e número de processo.

Filho não pergunta o partido do pai antes de sentir fome. Isso não é pauta de direita nem de esquerda, é o básico. E quando vira processo, deixa de ser só responsabilidade moral e vira obrigação que o Judiciário reconheceu, coisa que um futuro senador devia levar a sério antes de subir em qualquer palanque.

Defender a família em comício sai barato: custa um microfone. Sustentar um filho é caro, é todo mês, e não tem desconto pra consciência pesada. Família no palanque é enredo bonito. Pensão em dia é que é vida real.

Pode ser uma imagem de texto

 

PELÊ Um livro-cordel sobre o Brasil

0

Neste texto, postado abaixo, você terá um pouco de Brasil:

– MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Pelê Um Livro-Crônica do Brasil:* Crônica, Saga, Conto, Mito, Lenda, Autobiografia, Artigo, Narrativa, Cordel Urbano ou Retrato da Vida do Pobre no Brasil. São Carlos: KDP, 2026. Disponível em:https://a.co/d/03Zh7ksm

No livro, você não verá respostas prontas sobre o pior escândalo moral do STF, não encontrará respostas prontas para entender o pior Congresso Nacional da nossa história, não terá respostas prontas acerca das bombas detonadas todos os dias em Brasília. Porém, poderá ler algo sobre os vírus que infestam a Formação social brasileira e que sempre eclodem no miolo da política nacional.

Como se sabe, não há geração espontânea ou autocombustão, porque tudo é processual. Para o bem e para o mal, como um pharmakón (remédio ou veneno), a política está no centro da sociabilidade humana e nada vem pronto e acabado. Como nos ensinaram os mais antigos, para melhorar, é preciso ir melhorando, melhorando-se. Este é o papel da Educação, “fazendo-se ação transformadora”.

Fique agora com o Prefácio.

PREFÁCIO

Há livros que a gente lê para aprender alguma coisa. Outros, para lembrar. E há aqueles que nos fazem parar no meio da leitura e pensar: “Eu conheço essa gente”.

Este é um desses livros.

PELÊ não é apenas um personagem. Ele é uma mistura de muitas pessoas, de muitos lugares e de muitas histórias que fazem parte do Brasil. É o sujeito da rua, da ladeira, do interior, da praia, do trabalho, da conversa, do cordel e da vida simples. É aquele que sabe muito sem necessariamente ter passado pelos livros. E talvez seja justamente por isso que tenha tanto a dizer.

Ao longo destas páginas aparecem PELÊ, João Grilo, Pedro Malazarte, Mazzaropi e tantos outros. Aparecem também escritores, personagens, ditados, histórias populares, lembranças e situações que parecem pequenas, mas que acabam dizendo muito sobre quem somos. O livro mistura tudo isso sem muita cerimônia, como acontece na própria vida.

Há humor, mas não é apenas humor. Há lembranças, mas não é apenas memória. Há literatura, mas não é somente literatura. Há reflexão sobre o Brasil, sobre o povo, sobre a pobreza, sobre a cultura, sobre a política, sobre a esperteza, sobre a cordialidade e, principalmente, sobre a capacidade de continuar vivendo apesar das dificuldades.

Talvez essa seja uma das maiores riquezas deste livro: olhar para o Brasil por meio daqueles que muitas vezes não aparecem nos grandes retratos. Gente comum, trabalhadora, sofrida, alegre, esperta, contraditória. Gente que inventa palavras, conta causos, faz graça, enfrenta a vida e encontra um jeito de seguir em frente.

PELÊ nasceu dessa mistura. Por isso, não é fácil dizer exatamente o que ele é. Talvez seja mesmo melhor não tentar. O próprio livro nos convida a aceitar essa mistura e a caminhar por ela.

Aqui, o leitor encontrará um Brasil contado de um jeito muito particular: com seriedade quando é preciso, mas sem abandonar o bom humor; com referências aos grandes intérpretes do país, mas também com a sabedoria das ruas; com literatura e memória, mas sempre com os pés no chão.

E talvez, no fim, a maior surpresa seja perceber que PELÊ não está tão distante de nós.

Ele pode estar no amigo, no vizinho, no trabalhador que passa todos os dias, naquele personagem que conhecemos desde criança ou até em nós mesmos.

É por isso que este não é apenas um livro sobre PELÊ.

É um livro sobre gente.

Sobre o Brasil.

E sobre as histórias que, de tanto serem contadas, acabam contando também quem somos.

E agora conclua sua leitura inicial com o Posfácio.

Posfácio

Este texto se constrói como um livro-crônica, ou Cordel Urbano, a partir de um olhar universitário que busca pensar a cidade e a cultura popular com afeto. Nele, os ditados, o humor e o folclore surgem não como elementos menores, mas como afirmação do “direito à cultura do bom humor” da gente simples e desafetada. Essa perspectiva se aproxima da apresentada por Luís da Câmara Cascudo, para quem o folclore é a psicologia coletiva e a verdadeira “História Normal do Povo”, construída paralelamente ao pensamento intelectual letrado.

É nesse contexto que surge PELÊ, apresentado como um novo tipo social e uma “miscigenação melhorada desde Macunaíma”. Essa tal “melhoria” não deve ser compreendida como uma virtude moral ingênua, mas como uma forma de evidenciar como a própria estrutura social condiciona e limita as possibilidades dos sujeitos. Se em Macunaíma a preguiça acabou se sobrepondo à astúcia, levando à vadiagem, PELÊ se consolida como um “trabalhador-batalhador”, marcado pela lida dura da rua e pela entrega de jornais na “Vila sem Vintém”.

Ao lado de João Grilo e Pedro Malazarte, a ginga de PELÊ e sua esperteza de “mussum ensaboado” funcionam como uma espécie de “método” de sobrevivência social diante das desigualdades. A partir disso, a obra tensiona a ideia de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, evidenciando o conflito entre o afeto pessoal e a impessoalidade das instituições. Essa contradição ajuda a compreender a permanência de práticas como o autoritarismo e o nepotismo, sintetizados no adágio de Graciliano Ramos: “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei!”.

Frente a esse cenário, destaca-se também a resistência da população trabalhadora, mais do que esperar passivamente por mudanças, trata-se de projetar possibilidades, persistir diante das dificuldades e construir uma perspectiva de dignidade. É uma prática que não ignora as dificuldades e a fome, mas recusa que essas condições definam por completo o futuro.

Assumido pelo autor como o “xodó do Brasil”, PELÊ se apresenta como uma criação marcada pelo afeto e pela identificação com a gente comum. Sua trajetória evidencia como a cultura popular também produz conhecimento sobre a própria realidade, mostrando que a simplicidade da fala cotidiana não significa ausência de profundidade. Pelo contrário, é também nessa linguagem que aparecem formas de compreender o país, suas desigualdades e suas contradições. Para quem desejar aprofundar essa leitura, a bibliografia a seguir funciona como um convite para continuar pensando as raízes da formação social brasileira.

Leitura Complementar

ALENCAR, José, de Alencar. Iracema. 2. ed. Fortaleza-CE: ABC editora, 2001.

CALLADO, Antonio. Quarup. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

CHACON, Vamireh. A construção da brasilidade: Gilberto Freyre e sua geração. São Paulo : Marco Zero, 2001.

COUTINHO, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre idéias ideias e formas. Belo Horizonte : Oficina de Livros, 1990.

DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo : Brasiliense, 1985.

DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 11. ed. Rio de Janeiro : Rocco, 2000.

FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 4. ed. São Paulo: Globo, 2001.

FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1986.

IANNI, Octávio. Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

LIMA, Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo : Objetivo, s/d.

MACHADO, de Assis. A sereníssima República e outros contos. São Paulo: FTD, 1994.

NAVARRO, Fred. Dicionário do Nordeste. São Paulo : Estação Liberdade, 2004.

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SILVA JUNIOR., Hélio. Anti-racismo: coletânea de leis brasileiras (federais, estaduais, municipais). 1. ed. São Paulo: Oliveira Mendes, 1998.

 

Marcela Schiavi

Doutora em Ciência, Tecnologia e Sociedade/UFSCar

Ester Dias da Silva Batista

Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 

PELÚCIA NACIONAL

0

Ornitorrinco Capitalista e Escravista

 Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

Aquático – país de costas grandes, mas desertificado

  • Apesar da grande disponibilidade de água doce no país, o acesso a saneamento básico, à água potável e à alimentação adequada ainda é muito desigual.

Mamífero – certamente, estamos longe do ápice da evolução

  • O agronegócio produz alimentos aos montes para exportação, mas alimenta o próprio povo a conta-gotas, aos poros quase que literalmente.

Alimenta por poros – poros de desenvolvimento e da desigualdade

  • Aquilo que é produzido no país nem sempre chega efetivamente à população; basta pensar, por exemplo, na produção de alimentos voltada à exportação.

Ovíparo – sempre há o risco de voltarmos ao mapa da fome (ausência da placenta social)

  • O problema não é apenas produzir; é criar as condições para que aquilo que é produzido nutra, proteja e sustente a população. Sustentabilidade social e ambiental.

Venenoso – há venenos na realidade e toxinas na ideologia

  • O veneno social nem sempre se desfaz. O racismo estrutural, por exemplo, permanece incrustado na sociedade brasileira e atravessa diferentes gerações. Portanto, não basta não ser racista, é obrigatório ser antirracista.

Bico de pato – nossa geolocalização indica os caminhos da submissão

  • Há capacidade para percepção, mas nem sempre é utilizado efetivamente.

Patas de lontra – não somos “fofos animais sociais”

  • O tal mito da cordialidade: a “fofura” do brasileiro muitas vezes esconde mazelas profundas, racismo, machismo, misoginia e tantas outras desigualdades. O próprio bordão “Deus, Pátria, Família e Liberdade” nos permite perguntar: qual Deus, qual pátria, qual família e qual liberdade? Só Deus sabe.

Cauda de castor – muitas vezes leme e mastro estão quebrados

  • Esse leme já estava alterado e completamente “perdido” quando o território ainda era ocupado pelos povos originários. Então vieram os portugueses, com o tal “erro” no caminho das Índias, e “descobriram” o Brasil. De lá para cá, foi ocupação, destruição, violação de corpos e extrações de pessoas e de riquezas nacionais. Pouco do que foi explorado aqui permaneceu no Brasil.

Depósito de melanina – o pardo é imbatível, assim como o caramelo

  • As questões relacionadas ao “depósito de melanina” do próprio povo brasileiro ainda são uma grande questão. Quem é negro ou pardo? Quais violências atingem pessoas “negras retintas” que podem não atingir pessoas pardas da mesma maneira? E, ao mesmo tempo, diante de uma pessoa não negra, o pardo pode ser racializado como negro e, consequentemente, estar sujeito ao racismo.

Eletrorreceptores – a percepção além dos olhos, mas que não garante acessibilidade para todos

  • Ter a capacidade de captar pequenas alterações no ambiente não garante acessibilidade, inclusão e permanência social.-

Endêmico da Austrália – há coisas no Brasil que são apenas do Brasil, seja para bem ou para o mal

  • O “jeitinho brasileiro” demonstra isso: somos capazes de encontrar saídas para problemáticas sociais enormes, mas a mesma lógica pode aparecer em situações de desvio de dinheiro, uso de recursos públicos para benefício pessoal e outras práticas que mostram como essa característica pode ser ambígua. A toxina ideológica nos “ensinou” que é normal haver a “privatização do público”.

O poder como antepasto da Ciência

0

 

É deseducado e pouco científico dizermos que praticamos uma Ciência boquirrota e rega bofe, porém, é urgente provarmos ao povo que a Ciência não se limitou ao antepasto.

Sendo assim, que se prove que o poder estabelecido – o poder da prescrição e do status quo – não é o antepasto da Ciência e dos seus glorificados atos elitistas.

Se a Ciência produzida não atende aos interesses populares, da sociedade, então, satisfaz a quem?

Quem pode se dizer satisfeito, por exemplo, com o desenvolvimento atual da Inteligência Artificial?

Qual Ciência é desenvolvida se não granjeia simpatias do mercado e aportes do capital?

Aliás, será que temos a devida percepção (honestidade intelectual) de que existem Humanidades, Ciências Sociais, e não somente a visão hegemônica das rubricas robóticas que estimulam as chamadas “Ciências duras”?

Como é de se esperar que a resposta seja não, pois, socialmente, o capital vem se encarregando há séculos em desfazer o status da Filosofia e da Sociologia – talvez remonte até mesmo à Física Social, de Comte –, no Brasil, o médico e o advogado viraram doutores, sem sequer terem feito mestrado.

Esse é, sem dúvida, um status advogado pelo poder e, o mais sintomático, é um status nobiliárquico atribuído a pessoas que jamais fizeram uma pesquisa científica – ou minimamente honesta e condizente com os requisitos científicos

Já quem tem doutorado em Humanidades ou Ciência Social se mantém com empregos uberizados, com salários sucateados, afinal, para o Brasil de 2026, fechando o primeiro quarto do século XXI, a Ciência Social não é científica. E por mais que o título (Doutor em Ciências Sociais) teime em provar o contrário.

Outra forma de explicar isso é pela metodologia, porque o Positivismo (“ordem e progresso”) se ajusta, sempre se justou, muito bem ao controle social e à extração de mais valia: alguém é o sujeito do mando, enquanto outros são objetos da produção. Um “cientista” da produção está na bancada, ao passo que outros são experimentos.

Não foi assim com o taylorismo?

Não fomos e somos objetos de experimentação social?

Então, qual cientista sente valorização, dignidade no esforço do seu talento e trabalho, se temos 40 mil doutores desempregados ou em caráter de subemprego?

Qual Ciência chega até às nossas escolas públicas, se do outro lado do balcão está a educação financeira, o ensino religioso e a motivação cívico-militar?

Esta será a Ciência da ordem unida?

Existirá algo mais ideológico e menos científico – pela força conceitual – do que essa “ordem unida” nas origens do pensamento (e que deveria ser livre)?

Diante da nossa sociedade de classes (“autocracia de classe”), quantos negros, indígenas, quilombolas chegam à universidade?

O quanto dessa vivência, história, cultura, conhecimento, de quem consegue furar a bolha eurocêntrica, é minimamente escutado, recebido, pensado?

Quantas mulheres negras são doutoras?

Quantas mulheres negras são docentes em universidades públicas?

Quantas doutoras negras completam a progressão da carreira docente?

Quantas doutoras negras ocupam postos de chefia nos centros de pesquisa, nos institutos federais e nas universidades públicas?

Quantas PCDs têm acessibilidade, inclusão e permanência, no ambiente acadêmico?

Quantas PCDs fazem doutorado e quantas conseguem furar o funil capacitista para se tornarem docentes em universidades públicas?

Se o conhecimento, a massa crítica da Ciência, requer inteligência, criatividade, astúcia e crítica capaz, por que a dupla excepcionalidade é punida, abafada, excluída?

É possível que a universidade pública tenha medo da inteligência? Ou será pavor diante da neurodivergência ao reprodutivismo, aliado do capital degenerativo?

Como é que cientistas brancos (escolarizados, elitizados), com algum bônus social, cultural e econômico, em sã consciência – no sentido de ethos, convivialidade –, podem se satisfazer (“cientificamente”) sendo mero reprodutores da Sociedade de Controle?

Não seria essa a mais descontrolada das Ciências, sem sociabilidade alguma?

E não advirá daí, também, a falta de entendimento mediano de sua importância social e que resulta na ausência de confiança popular nas universidades públicas?

O que fazer?

A primeira constatação está no reconhecimento (validação) das Ciências Sociais e da sua natural complexidade investigativa e analítica. Apartando-se do acolchoado positivista e complacente, determinado unicamente pelos ganhos de capital.

Definitivamente, não faremos Ciência sem entender as contradições processuais, as negações sistêmicas, as exclusões sistemáticas.

Pois, é neste sentido que se instituiu a ideia (dialética) de que uma Tese em Humanidades ou em Ciências Sociais só poder – por obrigação à lógica – ser uma antítese.

No popular, entendemos que não haverá uma “Ciência Social de direita”.

Mas, isso é no popular, uma vez que pela epistemologia meridiana, de alcance normal, não há Ciência que se justifique (valide-se) se continua a operar na sintonia da misantropia.

Tanto quanto, de modo específico, não haverá Ciência Social digna desse diploma se recebe em contentamento a injustiça social, a segregação, a negação do ser social. O racismo e todos os demais ismos entram aqui.

Portanto, estaríamos tratando da formação dos cientistas, das mulheres cientistas, e isto nos remete à educação de base – se não do berço. Falamos da Educação, maiúscula, destinada à Emancipação (maiúscula), e que não se contenta com a autonomia cognitiva de cientistas que, livremente, optam pelo desenvolvimento do capital, em negação à sociedade cindida em profunda luta de classes – e pressionada pela sobrevivência da imensa maioria do povo negro, pobre e oprimido.

É claro que estamos no campo da luta política.

A luta política pela descompressão não tem fronteiras e se apresenta como campo de luta (com suas especificidades) nos universos da Ciência, tanto quanto está nos espaços da Educação libertária e no Legislativo. Aliás, é no Legislativo que se destinam recursos (ou não) à Ciência e à Educação.

Portanto, é fácil perceber que se trata de uma única luta política. Foi apresentada em partes apenas para contribuir com o entendimento.

@viniciocarrilhomartinez

 

Pensamentos pensantes para pensarmos sobre “o que é Ciência!?”

0

Pensamentos pensantes para pensarmos sobre ““o que é Ciência!?””

 

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 

Trouxemos aqui alguns pensamentos pensantes sobre o que é, o que não deveria ser, e sobre o que pode vir-a-ser a Ciência, desde que a gente saiba minimamente o que é esta Ciência e também saibamos o que não queremos ser (cobaias bípedes). Colocamos em numeração para efeito dramático:

 

  1. Carl Sagan, astrônomo, físico reconhecido mundialmente, foi mais cientista publicando centenas de artigos ou agindo como divulgador científico e autor de ficção?
  2. Miguel Nicolelis (médico), um dos maiores cientistas brasileiros, é mais cientista quando trata do fracasso dos implantes cerebrais (que ele próprio foi precursor) ou quando analisa a falência da economia dos EUA e a hegemonia das Big Techs?
  3. Quem fez mais pela Ciência, D. Pedro II (século XIX) ou o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (“príncipe da sociologia”), que não abriu uma vaga sequer em universidades federais?
  4. Quem se aplica mais à Ciência do Direito, o jurista, desembargador, ministro de corte superior, que decide com uma Hermenêutica que só existe a partir da violação dos Princípios Gerais do Direito ou o Seu Zé quando afirma que “alguma coisa não está certa, naquilo que está errado”?
  5. Quem até agora explicou melhor os perigos sociais, políticos, humanos da Inteligência Artificial, o ficcionista Isac Asimov (Eu Robô) ou os magos do Vale do Silício?
  6. Quem compreende melhor a Ciência, o engenheiro que construiu uma rampa de acesso ou o cadeirante que não consegue acessar a rampa que o engenheiro construiu?
  7. Quem foi mais cientista, o Einstein da Bomba Atômica ou o Einstein escrevendo sobre política (O poder nu) e atormentando consigo mesmo?
  8. Quem conecta melhor a Ciência com consciência (Morin), o voluntarioso do Médicos sem fronteiras (ou Cruz Vermelha) ou os médicos que inundaram os EUA de dependentes químicos (opioides)?
  9. Quem separa melhor Ciência de ideologia, a filosofia que entende do que se trata com a “generalização do particular” ou o pseudocientista coach das redes sociais?
  10. Quem promove mais a Ciência, o estudante estudioso, que faz da reflexão a sua ação, ou o docente que faz do ego o porta-voz das citações?
  11. Quem produz Ciência, o biólogo ateu quando testa cosméticos humanos, em animais (cães Beagles escalpelados), ou o teólogo ao interpretar Atos 2-44, 45 (o comunismo bíblico)?
  12. Qual seria a melhor Ciência Social, aquela que vê o século XXI pelo para-brisa do século XIX ou aquela que põe o mesmo século XIX no retrovisor do século XXI?
  13. Quanta Ciência foi necessária para escrever o livro “Ciência Assassina” e o quanto tem de científico numa cadeira elétrica?
  14. Por que as “melhores escolas de filosofia” do Brasil não ensinam Filosofia Africana ou Filosofia Indígena (Krenak)?
  15. Por que grandes gênios da matemática decoraram a tabuada e não conseguem explicar, até hoje, que a multiplicação é o resultado da adição?
  16. Por que grandes cientistas despejam tanto senso comum em áreas ou Ciências das quais são ignorantes?
  17. Por que especialistas renomados (assim se dizem) não têm o menor Bom Senso dentro de casa ou diante de sua inacessível bancada?
  18. Como é que um médico(a) de universidade pública pode ser contrário ao ensino público e atacar o SUS?
  19. Se a Ciência é mesmo qualitativa, de uma suposta “melhor qualidade do conhecimento”, por que a Ciência é vendida aos montes, como fast-food?

20 Se a Ciência requer investimentos, aprofundamento, revisão e superação (do status quo) como explicar que cientistas sejam as pessoas menos criativas do mundo?

21 Se é verdade que “mentes jovens têm ideias novas”, como explicar que jovens cientistas (man)tenham ideias mais envelhecidas, do que têm os mais velhos?

*Não é verdade que sectarismo rima com fundamentalismo?

 

22 Se a Ciência positivista diz que só podem haver sujeito X objeto, então, cientistas não podem ser sujeitos de si mesmos?

*objetos do mercado são todos os dias.

23 Como é que se aplica inovação em Ciência (apesar da óbvia redundância), se é impossível explicar a Ciência que o GPT fez para nós?

*Será que não tem gato por lebre?

24 Qual é (ou pode ser) a definição científica de Ciência?

25 O que é Ciência, afinal? E o que poderia/deveria ser?

Portanto, a partir dos questionamentos sobre o que a Ciência é e o que deveria ser, verificamos que a prática científica tem sido legitimada quase exclusivamente por sua finalidade utilitária e aplicabilidade econômica. Se a Ciência é, em sua essência, uma elaboração humana fundada na investigação e na reflexão, por outro lado, a lógica mercantil a reduziu a uma engrenagem de consumo, vendida aos montes como fast-food.

Nesse processo, o tempo da criação e da revisão crítica é sufocado pela exigência da produtividade imediata, fazendo-se com que os pesquisadores deixem de ser sujeitos do próprio saber para se tornarem meros objetos do mercado. Não há Ciência sem crítica e a crítica, por óbvio, é sempre criativa.

Então, é fácil perceber que o fazer científico, desconectado do seu tempo de gestação e maturação crítica (o coração da produção científica), passa a ser encarado como improdutivo e desprovido do estatuto de trabalho real.

*O melhor exemplo vem das “opiniões” sobre a Ciência Política

 

Na próxima

0

Na próxima,
– você vem mansa
– eu vou trôpego

Na próxima
– você vem doce
– eu vou bobo

Na próxima
Chega assim
Vem devorar
Cantarolando
Se enrosca
Essa é a cor
Minha cor
Sua voz

Aguarde na próxima
– venha com amor
– irei com a flor

Venha suave
– na próxima, serei vento leve

Na próxima
– farei uma música
– seu amor será pura estima

Quem sabe,
Até à próxima, me perdoe
– não será amanhã
– só na próxima

Mas estaremos próximos
– Íntimos
– com amores íntimos

Sem pendor
– sem pudor
– só amor

Me espere na próxima
– vou te achar
– meu mundo equilibrar

A próxima, não é certeza de ser ótima

Mas me espere

Me espere
Te encontro

Não terei rede social
Pescador de mim
De você
Para que expor?
– se devo enredar o seu amor

Na próxima
– me conte seu conto, de Fadas
– te encantarei com Fados

Venha livre, iluminada
Não haverá sonho que eu não alcance

Me espere
Te encontro

@viniciocarrilhomartinez

Consciência

0

Consciência dura
– na vida bruta

Consciência abrupta
– uma hora a ficha cai
(Porque a dor é a moldura)

Consciência impura
– não vinga, não dura
– dobrável, não é amável

Consciência durável
– não que tenha que ser amável
– mas, tem que ser responsável

Consciência limpa
– muito ambientada
– socializável

Consciência seca
– das Vidas Secas
– levando a vida como bestas

Não há consciência cristalina
– porque a vida sempre muda
– Ensina

Não há consciência amigável
– sendo durável
– Tem mais “não” do que “sim”
(E é sem fim)

Consciência líquida
– é líquida e certa
– uma hora desperta
(Não é liquefeita)
– só se ajeita

Consciência fluída
– da fluidez vem a fruição
– no cumprimento de uma ação

Consciência política
– tem que ser pública
– Publicável
– Não é polida
– tem que ser realista

A vida não é polida
Mas, a política não pode ser poluída
– não há espaço para negacionista

Consciência é emoção
– no cordis
– nas cordas do coração
– tem amor, tem paixão

Consciência da vida
– não pode ser retida
– Dissolvida

Nem sempre a consciência é amorosa
– porque não é porosa

Mas, a consciência
– Tem amor, tem paixão
Não tem fim

@viniciocarrilhomartinez

Operação contra Dark Horse autorizada por Dino eleva pressão sobre André Mendonça no STF

A deflagração da Operação Make Up pela Polícia Federal, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, aumentou a pressão interna sobre o ministro André Mendonça no âmbito da Corte, segundo Matheus Leitão, do Metrópoles.

O ministro Flávio Dino é o relator da investigação que busca identificar se recursos públicos oriundos de emendas parlamentares foram destinados ao financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro (PL). Por outro lado, o ministro André Mendonça comanda outra frente de apuração ligada ao caso: a que investiga os recursos financeiros transferidos pelo empresário Daniel Vorcaro para financiar a mesma produção cinematográfica. Embora se tratem de inquéritos distintos, ambos apuram caminhos diferentes do dinheiro direcionado à mesma obra.

Na quarta-feira (9), Mendonça realizou um movimento inicial ao homologar o acordo de delação premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como Mineiro. Ligado a Vorcaro, Mineiro detalhou em seus depoimentos diversas transferências de valores efetuadas para o fundo norte-americano responsável pelo financiamento de Dark Horse. No entanto, ainda há outras decisões pendentes sobre o caso Master à espera de deliberação por parte do ministro. No Supremo, a avaliação de interlocutores é que a operação comandada por Dino torna mais difícil justificar o prolongamento dessa demora.

A ação executada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (10) não foi articulada como uma resposta direta à crise dos últimos dias. A investigação sob a relatoria de Dino já se desdobrava há meses. Em março deste ano, o ministro determinou que o deputado federal Mário Frias (PL-SP) prestasse esclarecimentos sobre o envio de uma emenda parlamentar no valor de R$ 2 milhões destinada ao Instituto Conhecer Brasil, entidade ligada à produtora do filme. Atualmente, as diligências da PF buscam responder à questão central das apurações: se o dinheiro público também abasteceu a cinebiografia de Bolsonaro.

A operação deflagrada pela corporação teve entre os seus alvos o próprio deputado federal Mário Frias e a empresária Karina da Gama, sócia da Go Up Entertainment, empresa que atua como produtora do longa-metragem.

O desdobramento das investigações também gerou reflexos diretos no cenário político. Segundo Milena Teixeira, do Metrópoles, integrantes da campanha do presidente Lula (PT) pretendem focar a atuação de André Mendonça para explorar politicamente a operação da Polícia Federal. O argumento principal a ser trabalhado por articuladores do PT é questionar a relação entre a postura do ministro e o ritmo de avanço das investigações do caso conhecido como ‘BolsoMaster’, cujas apurações se aproximam do senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Diante desse quadro, a equipe de campanha do governo prepara a elaboração de conteúdos e materiais explicativos para veiculação nas redes sociais sobre o assunto.

PT pede que Mendonça e Dino tirem sigilos de investigações do caso Master

O PT acionou o Supremo Tribunal Federal para pedir a retirada dos sigilos que ainda cercam investigações relacionadas ao Banco Master, caso apontado pelo partido como a maior fraude do sistema financeiro brasileiro.

A legenda protocolou na noite de quarta-feira (9) duas petições no STF, uma endereçada ao ministro André Mendonça e outra ao ministro Flávio Dino. Nos documentos, o partido pede que ambos tornem públicos os autos de apurações ligadas ao banco do empresário Daniel Vorcaro, que está preso.

O argumento central da equipe jurídica petista é que a manutenção parcial do sigilo, combinada com vazamentos seletivos, cria um ambiente de desequilíbrio no debate público e eleitoral. Para os advogados, a divulgação fragmentada de informações impede que partidos, candidatos e eleitores tenham acesso ao contexto completo das investigações.

“No regime de transparência brasileiro, vige o princípio da máxima divulgação, em que a publicidade é regra, e o sigilo, exceção”, afirmam as petições.

André Mendonça conduz no STF investigações relacionadas aos repasses de Vorcaro para o filme Dark Horse, biografia de Jair Bolsonaro, além de apurações sobre irregularidades no INSS vinculadas à instituição financeira liquidada. Flávio Dino, por sua vez, relata investigações sobre emendas parlamentares, algumas delas com possíveis conexões com o Banco Master. Também há apurações sobre a tentativa de aquisição do BRB pelo Master.

Na petição enviada a Mendonça, o PT afirma que a publicidade parcial dos autos tem produzido uma espécie de divulgação incompleta do caso. “O resultado é uma publicidade em mosaico: são públicos os feitos incidentais mais recentes e os documentos deles desentranhados; permanecem sigilosos os autos principais, que contêm o contexto. É sobre esses recortes – e sobre o que deles vaza – que se constrói, a menos de um mês do primeiro turno, o debate eleitoral”, diz o documento.

A legenda sustenta que a abertura integral e simultânea dos dados seria a forma mais eficaz de neutralizar o uso político de vazamentos. Para o partido, quando apenas trechos de investigações chegam ao público, a seleção do que será divulgado fica nas mãos de terceiros, sem que os demais envolvidos possam contestar as informações com base no conjunto dos autos.

“O vazamento seletivo é, por definição, descontextualizado: o fragmento é escolhido pelo efeito que produz, não pelo que explica. A divulgação oficial, integral e simultânea retira do vazador esse poder de edição. Quando o conjunto está disponível para todos, o recorte perde valor, porque pode ser imediatamente confrontado com o inteiro”, afirmam os advogados.

O PT também argumenta que a divulgação em etapas ou “em pílulas” interfere na disputa política ao criar condições desiguais entre os competidores. “Cria classes de competidores: quem tem acesso aos autos conhece o conjunto; os demais conhecem o que a imprensa publica. Transfere a terceiros a decisão sobre o que o eleitor saberá e quando o saberá, no momento de maior rendimento eleitoral. E impede a resposta, porque o candidato ou partido mencionado em um fragmento não pode contrapor o contexto que permanece reservado.”

Nas petições, a legenda afirma ter interesse direto e qualificado na derrubada dos sigilos, por participar das eleições com candidaturas em diferentes estados e também pela candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O partido lembra que Lula já havia defendido publicamente a abertura integral das informações relacionadas ao caso Master.

Os advogados citam a função constitucional dos partidos políticos de “assegurar, no interesse do regime democrático, a autenticidade do sistema representativo e a defender os direitos fundamentais definidos na Constituição Federal”. Segundo eles, Lula e candidaturas petistas ao Senado, governos estaduais, Câmara dos Deputados e Assembleias Legislativas são atingidos pela forma como o conteúdo das investigações tem chegado ao debate público.

O partido afirma que o acervo dos autos vem sendo divulgado “em fragmentos, por vias não institucionais, sem que os demais competidores possam conferir o contexto do que se divulga”.

Para reforçar o pedido, o PT invoca o artigo 93, inciso IX, da Constituição Federal, segundo o qual “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos”, admitindo restrição apenas quando “a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação”.

As petições também citam o precedente da Operação Spoofing, que envolveu mensagens trocadas entre o então juiz Sergio Moro e procuradores da Lava Jato. O material, segundo os advogados, tinha forte repercussão política e envolvia autoridades públicas. Em 2020, o então ministro Ricardo Lewandowski garantiu à defesa de Lula acesso às mensagens.

O PT afirma que, naquele caso, a Segunda Turma do STF entendeu que os diálogos divulgados não tratavam da vida privada ou da intimidade dos interlocutores, mas de conversas realizadas no exercício de funções públicas. Por isso, argumenta o partido, não estariam protegidos pelo sigilo.

Os advogados destacam ainda que, quando investigados exercem funções públicas, o interesse público deve prevalecer sobre a reserva dos envolvidos. “O interesse público na apuração da conduta de agentes do Estado prevalece sobre a preferência dos envolvidos pela reserva; e, tornada pública parte do acervo, o acesso ao restante não pode ser negado a quem invoca”, afirma a peça jurídica.

Com as petições, o PT tenta deslocar o debate sobre o caso Master da lógica dos vazamentos para uma divulgação institucional, integral e pública dos autos. A legenda sustenta que a transparência total é necessária para impedir que recortes descontextualizados influenciem a disputa eleitoral e para permitir que todos os atores políticos tenham acesso ao mesmo conjunto de informações.

PELÊ UM LIVRO-CRÔNICA DO BRASIL

0

Crônica, Saga, Conto, Mito, Lenda, Autobiografia, Artigo, Narrativa, Cordel Urbano ou Retrato da Vida do Pobre no Brasil

Por Vinício Carrilho Martinez

O texto é um livro-crônica, nem livro nem crônica, um tipo de Cordel Urbano, quer dizer, foi escrito por alguém que nasceu urbano e só conhece a cidade, e mais, por alguém que vê e pensa a cidade e sua cultura urbana pelos olhos universitários – certamente, isso não é pouca coisa, porque o Brasil tem muitos hábitos rurais e é claro que eles me escapam em inúmeros detalhes. Mas, foi feito de coração e ainda que o próprio autor nem sempre concorde ou aplique adequadamente essa coisa da cordialidade (cordis). Para convencer você a ler tudo, pensei em dizer o seguinte: Nos vemos ou lemos pelo Brasil.

No texto, de modo geral, tomaremos o cordel, o folclore, os ditados e a vivência pessoal como uma alegação popular do direito à cultura. É uma alegação de gente pobre, simples, humilde, não-empoada, mas é verdadeira, original e, o melhor, é sempre bem-humorada. O melhor, então, seria dizer do “direito à cultura do bom humor” — esse humor que é dialético, como todos sabem.

Nosso cordel ou saga (que também lembra sagacidade) é diferente dos demais porque procuramos tirar uma lição de vida da história desse cotidiano. Na verdade, a lição deve contar um pedaço de nossa cultura e, até certo ponto, de nossa psicologia social — especialmente de toda a “gente desafetada”. Não é um trabalho autobiográfico, porém, tem alguma experiência pessoal, do que vi, ouvi e vivi por aí.

 

Uma Crônica Brasileira: O Direito à Cultura com Bom Humor

 

O cordel e o folclore simbolizam aqui a sagacidade que está por trás dos “tipos nacionais” imortalizados pela cultura popular, pelo folclore e assim retratados pelos Contos Populares. Este nosso relato, meio em prosa, meio metido a acadêmico, nada mais é do que uma tentativa ou justificativa sociológica e cultural da galhardia que se revela na prosa do narrador popular. Mas o que é e para que serve o conto popular, o folclore. Qual seria a sua relevância cultural? Qual é o sentido desta literatura?

Vejamos com Luís da Câmara Cascudo:

 

Nenhuma ciência como o Folclore possui maior espaço de pesquisa e de aproximação humana. Ciência da psicologia coletiva, cultura do geral no Homem, da tradição e do milênio na Atualidade, do heroico no quotidiano, é uma verdadeira História Normal do Povo […] Ao lado da literatura, do pensamento intelectual letrado, correm as águas paralelas, solitárias e poderosas, da memória e da imaginação popular […] O conto popular revela informação histórica, etnográfica, sociológica, jurídica, social. É um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões e julgamentos[1].

 

Neste caso, nossa história deveria ir se enredando e, para isso, vamos iniciar criando um novo tipo social a que chamaremos PELÊ, um misto de tudo o que vamos ver, uma simbiose, uma mistura nativa, o resultado da miscigenação melhorada desde Macunaíma.

De certo modo, PELÊ será o típico narrador social da cultura continental brasileira, dessa brasilidade que invade a todos. Disso resultou um texto que não é puro, mas que, diferente disso, está invadido de expressões próprias e regionais, no melhor sentido indicado por Cascudo:

 

Conservei a coloração do vocabulário individual, as imagens, perífrases, intercorrências. Impossível será a ideia do movimento, o timbre, a representação personalizadora das figuras evocadas, instintivamente feita pelo narrador. Os colaboradores tinham os níveis culturais mais diversos. Foram desde a senhora do ginasiano, da cozinheira à ama analfabeta, da velha mãe de criação ao jardineiro efêmero, com as idades de doze a setenta e cinco anos, Frenado-Luís e Manuel Galdino Pessoa[2].

 

Contudo, PELÊ não conheceu a academia, só a gente da rua, da ladeira, do barraco, do pesqueiro, do cordel, do cortiço, do puteiro, das esquinas, do meio-fio da vida, desse tipo comum que tem muito nas cidades, nas muitas (em demasia) vilas sem Vintém. PELÊ nasceu na Vila sem Vintém e depois fez rastro no mundo, conheceu tudo o que é quebrada e encruzilhada – viu muita farinha d’água, frango e cachaça. Diz que nunca mexeu em nenhum pertence que não era seu, mas não sei não…

A família era típica; o retrato da vida de todos à volta era como o de PELÉ – sempre se resumiam mais ou menos assim: “era uma gente ‘esgaldida’, que via a saúde de tudo e de todos ‘destiorada’”. O Estado era como o Diali (Diabo), “o sujo”, porque pegava o povo na maldade, “de corrupção”: “num bando que vinha de monte”. Na linguagem de sua gente: “a maldade tinha tomado conta do Estado”. PELÊ não tinha maldades demais, mas nada afastava o preconceito contra a “burrice” – dizia assim: “esse é jegue de pai e mãe”. Com o pai aprendeu a não desejar o que não convinha, ou seja, cresceu detestando a corrupção e a avareza.

Porém, fora disso ou além da “estripulia da política”, PELÊ era um sujeito matuto e do brejo, do interior e da roça, mas não era Jeca Tatu, nem “abestado” – aliás, PELÊ era muito esperto como “mussum ensaboado” (um cara escorregadio, de quem não se extrai nem opinião), era um cabra de quem se dizia que “não vale merda!” (um legítimo e simpático cafajeste), na opinião de especialistas em cearês[3]. Outra coisa engraçada que diziam era “bizorro” no lugar de besouro — ninguém sabe se era gíria ou defeito da língua local.

PELÊ não teve muita escola na infância, mas era do tempo em que um dos castigos era “segurar um ponto imaginário, na parede, com o dedo indicador”. Nesse tempo e muito tempo depois, conheceu gente que não acreditava que o homem tinha ido à Lua: “era coisa de cinema americano”, diziam. Em muitas de suas andanças por aqui e por lá, conheceu de perto essa tal de “miscigenação”, essa troca de gente de um lugar para outro, em que se casam tipos bem diferentes. Conheceu um mais de perto que chamava de gringo: o sujeito era dono de uma loja no mercado central e se dizia meio-espanhol, porque todos os seus avós teriam vindo da Espanha (Sevilha, Galícia, Almeria). O curioso é que adorava as morenas e as mulatas — “têm uma pele firme”, dizia para quem quisesse ouvir.

Mas sua maior herança familiar e cultural consta que veio de um lugarejo chamado “A Volta” ou só “Volta”, um distrito de uma cidade maior, a cidade dos “bons ventos”. Diz o povo que esse estranho nome se deve aos tempos em que o Divino criou tudo, quando ia passando pelos lugares e ia soltando apelidos regionais. Portanto, conta a cantiga popular que, ao passar por aquelas bandas, o Divino nem notou esse lugar: é tão pobre que se diz, até hoje, abandonado por Deus. Mas o mesmo povo que ali vivia logo notou o descuido e, então, fez o pedido de um nome de referência. Mais para enfastiado com a tagarelice, o Divino teria se desculpado: “ — Na volta eu dou”. E como não houve retorno, o nome A Volta foi dado logo na ida mesmo. Desconfiados disso, dessa “arrumação”, o povo criou um provérbio e ainda se diz assim: “Rápido no fiofó no padre”. “Em menos de fósforo” era o sinal de que devia ser rápido na saída, porque já tinha reinado demais. O Divino parece não ter perdoado esse povo que tomou tantas liberdades com o padre.

Então, quem foi esse diabo de gente?

 

PELÊ: como nasce o mito brasileiro

 

Alguns amigos diziam que PELÊ tinha um talento nato, um tino, uma sina, um quê muito especial para inventar modas, coisas e verbos. Era uma criação que não tinha fim, adorava trocadilhos, piadas, contos e causos do povo, histórias dos confins e ainda gostava muito de criar, só por criar (procriar também) – sabia que não ia vender nada daquilo. Quem sabe um dia, pensava sozinho em casa, pudesse publicar um cordelzinho, uma historieta lá da sua terra.

Com isso, com suas criações (malcriações só com gente casca mesmo) e, mesmo sem querer, PELÊ ia ajudando a definir o tipo social do brasileiro da caatinga, do mangue, do interior, do sertão, o caipira, o cabra marcado, o amarelo, o vaqueiro, o calango, o caboclo, o pescador, o roceiro, o peão, o trabalhador que vivia da boia-fria e ainda aquele outro que virou catador e já nem lembra mais do próprio nome – esse tipo que vai e se esvai pela rua da ladeira da vida — só para baixo.

Esse tipo PELÊ também conhecia; até esteve à beira de estar com eles na lida do dia a dia do desempregado. Não se sabe como, era tudo gente feliz, talvez até onde desse para ser, não é mesmo? Talvez fossem felizes porque não tinham medo de assalto à mão armada…PELÊ dizia meio ao léu que o importante era enredar a vida e olhar firme para o destino, para o destino se lembrar de você na hora certa de se apresentar o novelo de tudo o que se fez de bom e de mal: a soma ou negação é que é o fim do destino. PELÊ também era desse tipo que não enjeitava nenhum tipo de trabalho, mas se pudesse deixava a sombra pegar, é lógico, porque não era bobo nem nada. Mas, no fim da vida, esses amigos sumiram porque a fome esqueletizou todos.

Teve um tempo em que PELÊ foi ser entregador de jornal. Cá entre nós, penso que não é um trabalho fácil, nem prazeroso, nem de enorme remuneração ou reconhecimento, nem mesmo do público leitor, ainda que seja uma profissão digna, como tantas outras. Somemos ao caso específico o fato de que ele deveria subir uma ladeira que fica quase em pé, a Avenida Santo Antônio, nas bandas da Serra do Berimbau. A tal rua, avenida ou alameda era uma rampa infernal, mas lá vinha PELÊ com muitos quilos de encomenda e ainda encontrava fôlego para assobiar, cantarolar e ver algo de bom na vida.

Acho que não teríamos essa galhardia toda, pois por muito menos já estamos reclamando, resmungando e, dependendo de casos ou situações mais graves, já vamos logo xingando, gritando, espumando. Mas nosso grande companheiro de madrugada, ao entregar o jornal, vinha feliz com sua vida, com sua meta e seu destino à frente.

Longe de se fazer apologia desse tipo de trabalho – manual, embrutecedor, limitado –, é de se reconhecer que, se você ouve esse assobio há anos a fio, isso é mais do que uma circunstância. É preciso estar de bem com a vida, feliz com algo que muitas vezes é muito simples, como acordar cedo e ver o dia clarear. Todavia, é preciso esse algo a mais que, admitamos, particularmente não temos, e não teremos.

Bom, como não é o caso de fazer apologia à vida simples, sem luxo, de sofrimento, de privações, de restrições, porque um trabalho como esse não pode oferecer muito mais; um dia, quem sabe, consigamos perguntar ao nosso amigo o que se passa. Aliás, se um dia o nosso entregador perceber que há luzes acesas ou barulho por perto, que dê uma pausa, um alô e veja se tem alguns minutos para explicar o que é esse sentimento, do que é feita a alegria de algumas coisas simples da vida. É muito bom aprender com alguém que tem um quê a mais do que você. É o que o povo sempre achou.

PELÊ era simples, até demais, mas alguns de preconceito em punho não gostavam dele: sempre faziam algum tipo de objeção. Mas, PELÊ era confuso? Não, nadinha, em nada mesmo (nem em “mulher-embrulhada”, como ele dizia). Era bom de bola e de capoeira – só não gostava de almofadinha (hoje se diz Patricinha e Mauricinho) ou cabra metido a besta. Para algum valentão, ia logo dizendo que conhecia um ainda mais valente, logo ali, na rua de cima (e não é que era verdade??). Com isso, tirava a rinha de cima da conversa. E quem queria brigar com um cara assim? Era um gente-boa, sarrista, mas respeitador da dor do amigo. Como todo o povo, PELÊ era valente, mas não era valentão. A versão feminina desse tipo de valentia era chamada por PELÊ de “mulé-macho matador”. Para todo tipo de valentão, PELÊ dizia que “se não voasse dali, ia pedalar pra dentro do cabra”. PELÊ era um craque na defesa e mais ainda quando partia para o ataque.

PELÊ só conhecera um amigo diferente, um que ele fazia uma forcinha para ser amigo, porque o sujeito era Doutor das Letras e PELÊ tinha um pé atrás com essa gente. O “doutorzinho”, que PELÊ também chamava de “sinhozinho”, para provocar, era simples e não aparentava os títulos, mas para PELÊ e seu povo, era gente de outro mundo. PELÊ não via gente que não fosse a sua; tinha um “quê” que o atraiam. Mas, o que é esse “quê” em comum, do povo?

PELÊ sempre ouvira dizer que era “quebradeira no corpo e alguma fome no estômago”. Geralmente quem dizia isso era quem entendia do “riscado”: “mulher-mãe de 11 ou 12, avô ou avó de não sei bem quantos, trabalhador que veve com muita precisão”. É um povo de luta que só vendo: “Ora, ora, Pedrina também é Pedra de nascença, com ‘e’ fechado. E pedra, com ‘e’ aberto, quando atola o sapato dos poderosos”[4]. Um povo, esse do PELÊ, que já se vendo parte do século XXI, começa a pressionar para ter melhor educação, para não ficar confinado na mesmice ou não ter vida miserável na cidade grande. Alguns ou muitos são quilombolas, gente astuta e pronta para se defender com cara de “mico-leão-da-cara-preta”.

Dessa relação entre os dois, o que restou foi uma carta que o “doutorzinho” lhe enviou e algumas lembranças da água fria do mar e da areia bem quente. De vez em quando, PELÊ relia a cartinha tentando entender melhor aquele amontoado de nomes difíceis — e é aí que se perguntava por que se escrevia difícil uma coisa fácil: ora, à praia ia qualquer um, não tem dono. Por que dificultar? Até há pouco tempo, PELÊ tinha a carta consigo e dizia mais ou menos assim…

 

A Literatura que Cansa a Consciência

 

“PELÊ, sei que não gosta de gente muito boa, mas sou doutor e escrevi para você, que posso eu fazer? Não posso mudar o que sou. Por favor, meu caro amigo, leia isto como uma lembrança de um grande amigo, de alguém que lhe quer muito bem, mesmo quando dá uma de moleque travesso (mesmo velho) e “começa a reinar”. Pense em mim como amigo e não como Doutor, está bem? Espero que goste e que lhe sirva para matar as saudades do bom amigo…

 

Muitas vezes levei “O Poço”, de Mário de Andrade, para ler na praia. Li aqui, antes de ir até você, PELÊ, e aí reli umas duas vezes completas (a terceira foi parcial). Penso: seria uma tentativa inconsciente de levar água doce para a beira-mar? Não sei ao certo se é para matar a sede, mas digo com certeza que voltava para casa com a consciência cansada.

Não que me torturasse com as imagens ou com a ideia de que muitos trabalhadores morreram e morrem naquelas condições desprezíveis de trabalho. Não traçava esse raciocínio, essa comparação tão evidente e clara. Não tinha uma leitura premeditada, engajada, tão politicamente correta, apenas me recostava na cadeira, abria a cerveja e me punha a ler. Ou seja, nada de cansaço à vista, pois à frente estava o mar limpo, cheio de ondas e uma brisa que me faz inveja até agora – quando me aposentar, é para aí que vou. Aí só falo com o povo daqui por e-mail. (Como mando e-mail com sotaque?).

Quer dizer, não me importunava com nada – nem dinheiro, nem o tempo, nem a memória dos que ficaram me chateava, porque o sol e a brisa não deixavam. Mas assim mesmo tinha a mente cansada, os parafusos sem eixo ou em rota de colisão com o frescor do mar. Hoje penso que era consciência pesada – mas a leitura é leve, quase macia, você viaja naquele regionalismo do Mário de Andrade e pensa que está em Minas. Aliás, estava lendo o texto no Ceará e me sentia em Minas. Será que é por isso que ficava cansado? A distância teria importância neste caso? Seria um tipo de distância literária?

Depois dessa minha tentativa de retratar o mar, o cotidiano, as tardes intermináveis em que apenas observava os jangadeiros apontando para o continente e vindo em nossa direção, ao final do dia ou da semana de pesca, penso na distância dos três mundos: o daí, o do Mário e o meu de hoje. Escolhi uma passagem que descreve bem o autoritarismo, o mando dos coronéis que ainda estão de vigília – aqui e aí – para você sentir o drama:

“Joaquim Prestes era assim. Caprichosíssimo, mais cioso de mando que de justiça, tinha a idolatria da autoridade. Pra comprar o seu primeiro carro fora à Europa, naqueles tempos em que os automóveis eram mais europeus que americanos. Viera uma “autoridade” no assunto. E o mesmo com as abelhas de que sabia tudo. Um tempo até lhe dera de reeducar as abelhas nacionais, essas “porcas” que misturavam o mel com a samora […] Mas se mandava nos homens e todos obedeciam, se viu obrigado a obedecer às abelhas que não se educaram um isto”[5].

A certeza que tenho é que Mário de Andrade foi um modernista com muita densidade/profundidade de sentimentos, e talvez seja esse o choque com os dias atuais. Como se diz, é muita nuance entre política social e sentimentalidade. Agora, imagine você que eu lia esse Mário de Andrade e em seguida ia comprar camarão direto do pescador, sem intermediários ou que fossem camarões de criação. Será que essa contradição é que me deixava com as pálpebras e com o senho pesado? (Mas, não pense nisso como vista cansada ou sono). Ainda estou pensando nas hipóteses, mas certamente Hemingway estava mais à vontade nas praias de Cuba do que me senti ao fazer essa leitura.

De certo modo, isso pode ser uma demonstração do descompasso que temos no Brasil? Nossa alienação é tão grande que o choque cultural traz dor de consciência, quase dor de cabeça? Parece que as ironias da vida não fazem muito bem à saúde…

PELÊ, confesso, de novo, a você e aos amigos que fizemos juntos, que não tenho respostas prontas – vou ficar aqui pensando nisso por muito tempo. Esta semana quero ler Iracema (ainda não li), que é a própria saga do Estado do Ceará. Agora vou para o romantismo. Será que o herói nordestino é capaz de enfrentar o Joaquim Prestes?”

 

PELÊ não entendia esse negócio de dor de cabeça se a cabeça realmente não doía. Como era então? Dor de cabeça sem ter cachaça ou mulher encrencada era algo de novo para aquela gente e, certamente, para PELÊ também.

Longe disso de “cabeça inchada por nada”, sem dúvida, PELÊ era um trabalhador-batalhador, então, nada dessa coisa de classe média que só fica sentada, lendo e escrevendo… do tipo do “Doutor das Letras”, da carta. PELÊ era forte e queria ação. Seus amigos também não eram diferentes.

PELÊ, assim como João Grilo e Pedro Malazarte, fazia bem o papel de tipo social do brasileiro — alguns ainda diziam que ele se parecia com um personagem da TV: Mazzaropi. Mas o que é esse tipo social que PELÊ encarnava?

Tipo social é um tipo de gente que quer dar conta do Brasil. Vive não se sabe muito bem onde, mas sabe-se que vive. Também é social porque não é um só. É um tipo que tem aqui e acolá, está por aí, como se diz no interior. É um explicador das coisas e conta tudo em histórias que muitos outros também contam. É um tipo misto de gente, nem quente, nem frio, nem chique, nem brega — não é um tipo puro. Na prosa do povo, é gente de “sangue bom”, mas que ferve se invocar: “dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair”. Tem um jeitão comum, nada disso de “estilo ou design”, como fala o gringo americano. O tipo social é mais homem, mas a mulher tinha lá o seu lado bem forte. Basta ver como eram a mãe e a esposa de PELÊ.

PELÊ era meia-feição do pai e meia da mãe. Antes, poderia ter dez filhos, agora só quatro. O pai era muito simples, muito humano – dizia-se dele, quando vivo e mesmo depois de morto – e a mãe levava tudo em conserva, parece que nem mudava as panelas de lugar – “para c o n s e r v a r”, frisava ela, soletrando a palavra chique que conhecera faz pouco.

Assim, nessa conversa, a mãe (sogra) dizia à mulher de PELÊ (que acreditava): “Mulé-mãe tem de prendê as filhas-cabra, proquê os bode-macho tão sorto”. Mas a mulher de PELÊ já lhe ralhava quando este bolia com as filhas-meninas e mimava demais os filhos-homens: “era a mudança”, dizia ela. PELÊ tinha um drama na vida, e esse drama de PELÊ se fez quando conheceu e perdeu a paixão de sua vida: foi um grande amor na vida e na morte, da Severina.

Também foi nessa época que PELÊ ganhou o apelido de amarelo (só amarelo, porque “soldado amarelo” era de outras bandas, era gente do seu Graciliano). Mas era amarelo de amarelidão mesmo, nada de roupa nova, iluminada de amarelo. Nessa época quem o conheceu bem foi o João Cabral:

 

O cassaco de engenho

É o amarelo tipo:

— É amarelo de corpo

e de estado de espírito.

— De onde a calma que às vezes

parece sabedoria:

— Mas não é calma, nada,

é o nada, é calmaria[6]

 

De onde veio, tinha parentes, amigos, e de onde vinha esse “conhecimento” afinal? É claro que PELÊ também conhecera Grilo.

 

Um pouco mais de imaginário

 

Antes dessa história, porém, vamos relembrar um pesadelo que PELÊ teve, quando sonhou com o dia do seu julgamento final. Pois bem, no dia do seu julgamento final, nos autos, como se dizia entre os bacharéis presentes — PELÊ já havia sido julgado mil vezes, mas sem sucesso para seu advogado ou para a promotoria —, acabou que foi dito que:

“Era negro, mas não muito” (branco, mas não alvo): “certo que era o amarelo dos amarelos”, gostava muito de futebol (batia com as duas, na bola e na capoeira), seus dentes eram como pérolas (guardava os poucos), sambava mais do que a mulher e tinha gingado para ensinar a qualquer gaiato (vendendo, é claro, mas para a mulher do cara era de graça). Não era alto, nem magro, nem gordo, nem faminto, um tipo do meio a meio, mais para o “quase lá em cima” (se visto do alto, é lógico). Ler, até que lia para o gasto, mas separava o que gostava e pulava o resto; agora, o que mais gostava mesmo de fazer eram cinco coisas: fazer promessas para os outros cumprirem; beber e dar para o santo; rezar para “Padre Ciço”; botar gambiarra em todo bico de luz, da casa e da vizinhança; “dar um jeitinho nas obrigações, junto aos conhecidos e conhecimentos que tinha e que vinha curtindo há séculos”.

NÃO SE SABE BEM POR QUE, MAS SEU NOME (PELÊ) FOI GRAFADO EM CAIXA ALTA, QUANDO DO BATISMO. COISA ESTRANHA…

Mas, o mais estranho é que, depois disso, nós é que ficamos imaginando como é ver o mundo em caixa alta… será que se tem a sensação de grandeza, um nome continental, apesar de pequeno, como um país continental: BRASIL!!!

Vem daí a ideia de que “Deus é brasileiro, o país do futuro, o maior e melhor país do mundo”? Ou será só o país do futebol?

Por outro lado, sua acusação real fora emprestada de outros autos, de outra pessoa, lá do Auto da Compadecida, e estava escrito (inspirando o juiz de PELÊ) que:

 

João Grilo

Porque…não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado […]

Manuel

Muito obrigado, João, mas agora é sua vez, você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários.  Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?[7]

 

Nesta chicana, se um era racista, o outro era meio, só meio preconceituoso.

Também ficamos sabendo nesses autos (ou arautos?) que PELÊ tinha um jeito carinhoso, tinhoso, até prudente (se dizia) de ser machista. Aquele machismo que se esconde na galhofa, no falso elogio, prontamente disparado para apenas satisfazer o jogo da sedução. PELÊ conhecera um gringo do sul que lhe dizia assim: “tiquitito, pero rompedor”.

PELÊ, porém, tinha sua própria versão e andava cantarolando, para cima e para baixo, essa sua bravata para toda “dona que desse mole, menos as casadas…” (é o que ele dizia, mas quem confia?). Vamos à conversa mole:

 

PELÊ (O Arauto do Sertão)

Mulher deveria ser como frasco de perfume; dos miúdos, os melhores. Nós as guardaríamos no bolso do casaco, estariam perto dos nossos olhos; nunca estaríamos sós e sempre nos dariam o melhor cheirinho. Quando estivéssemos com saudades, era só dizer e abrir a tampinha que elas voltariam ao tamanho normal, fresquinhas, adoráveis e prontas para beijar – e dizia mais: “— que mulher não nasceu para beijar?”. Depois, quando estivessem falando mais alto do que nossa resistência auricular (era metido a letrado), aí era só colocar no frasquinho de volta, fechar bem, para nada se perder, nem uma só gota do perfume de amor de nossa querida. Quem não quer o amor e o perfume de uma mulher amada?

 

Safado como só, tinha sempre um perfume consigo… e olha que se viu, por aí, muita gente providenciando, e era homem e mulher… Que mulher aguentaria esse chamego???

PELÊ dizia isso, em verso e prosa, porque, como poeta-cantador e seresteiro, era encantado pela “vida bela, boa e barata”.

Mas, do mesmo modo como João Grilo, PELÊ é tido como o mais brasileiro dos brasileiros, um tipo puro-sangue, da gema, com tudo que tem de direito – está com tudo e não está prosa. Era um desses caras que tinham “sesteza” do que vinha depois de amanhã.

Só vendo para crer, como diz Suassuna, que, aliás, os conheceu bem:

 

Severino

Chega então agora a vez de Sua Desgracência, o Senhor João Grilo, o amarelo mais amarelo que já tive a honra de matar. Pode ir, a casa é sua[8].

 

Agora, toda a sorte de reinações e traquinagens, João Grilo aprendera com o Saci, do Seu Monteiro Lobato:

 

O saci … é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. A força dele está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravo. Mas que reinações ele faz? Quantas pode…Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça[9].

 

Quando ouvia essa estória de gente pobre e crente do interior, PELÊ dizia: “nada é bom por natureza, então, é preciso cuidado”. Mas, o que de mais importante João Grilo aprendera foi a virtude sem fim de ter astúcia e inteligência, e isso também aprendera com o saci:

 

Os que não conseguem ser fortes, tratam de ser espertos. Na maior parte dos casos, a esperteza vale mais do que a força. Os sacis, por exemplo, não são fortes — mas ninguém os vence em esperteza … A astúcia, principalmente, é uma grande coisa na floresta[10].

 

Quando se tratava da Cuca, bicho feio-peçonhento, saci vivia aconselhando João Grilo, que era temente aos mistérios da vida:

O que é preciso é não desanimar. Se ela é poderosa, eu sou mais astucioso. A astúcia inúmeras vezes vence a força[11].

 

O povo sabido chamava isso de virtú, e que era uma virtude bem grande.

Ou então, como nos dirá Paulo Dantas (na capa de fundo, desta edição citada), João Grilo aprendeu tudo com o Saci, mas esse é gente mesmo, e não diabinho, como o outro: “O tipo de João Grilo, ‘amarelo’, nordestino, cujas proezas são contadas em abc. Dentro da peça de Ariano Suassuna simboliza e representa muito bem o engenho popular da nossa raça, gente intuitiva e telúrica, imaginosa e sofrida”[12].

Nessa sabedoria de gente comum, PELÊ ouvira desde sempre que a experiência vinha com a vida: “que era um jeito de gente velha, que ia ficando mais velha”.

Já sabemos muitas coisas dessa gente bem normal, mas podemos perguntar a quem os conheceu em outros carnavais.

Revelação: “Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro, este tão astucioso e vadio que o chamavam Pedro Malazarte […] João trabalhou quase um ano e voltou quase morto. O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera. Pedro ficou furioso e saiu para vingar o irmão”[13].

Realmente, para qualquer brasilianista que vem a ter no Brasil, sobre o que é ou foi o Brasil, de sua origem até hoje, nenhum que seja sério deixará de mencionar a amizade nutrida por esses três companheiros. Mas, agora falemos mais de PELÊ.

 

PELÊ

 

Para o bem e para o mal, PELÊ representa nossa “brasilidade”. A “(ir)racionalidade brasileira” que seria formada pela somatória de esperteza, destreza, sagacidade (criatividade) e resistência ou, como se diz tecnicamente, “vontade de justiça”. Neste sentido, a malandragem (essencial como a ginga) não equivale a banditismo, é uma máscara individual (um kit, uma caixa de ferramentas) para a sobrevivência social, assim como a tão falada “cordialidade”. Quase sempre sofrendo do racismo, tinha dia que PELÊ era miscigenado, meio cafuzo, meio mameluco.

Nesta cordialidade (cordis = coração), não há real solidariedade social, mas sim “efêmeros e passageiros acessos de fraternidade”. Para os mais ácidos não se trata de outra coisa que não a tão conhecida hipocrisia social (pequeno-burguesa) daqueles meias-caras: “Faça o que falo; mas não faça o que faço” Essa cordialidade não é exatamente uma coisa boa, nem mesmo virtuosa por excelência (ou é virtuosa como mecanismo de defesa), porque tem lá seus lados bem ruins:

 

Formado nos quadros da estrutura familiar, o brasileiro recebeu o peso das “relações de simpatia”, que dificultavam a incorporação normal a outros agrupamentos. Por isso, não acha agradável as relações impessoais, características do Estado, procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afetivo. Onde pesa a família, sobretudo em seu molde tradicional, dificilmente se forma a sociedade urbana de tipo moderno […] O “homem cordial” não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos de polidez. O “homem cordial” é visceralmente inadequado às relações impessoais que decorrem da posição e da função do indivíduo, e não da sua marca pessoal e familiar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários[14].

 

Como quase-todo bom brasileiro, PELÊ é esse tipo cordial e esperto, faz aquele tipo retratado por João Grilo e Pedro Malazarte: “enegrecido” pelo preconceito social e racial (tão ao estilo da “democracia racial”: “no Brasil, não há preconceito de cor”). PELÊ devia muito de si a Malazarte.

O que se diz de Malazarte, encaixa nesse veio da “brasilidade”, no jeitinho que dá em tudo (ou quase tudo)[15]. (Ter astúcia é, justamente, o que recomendava Maquiavel ao Príncipe). No Brasil, faz o típico “herói sem fronteiras”, certamente, mas que também forma um par muito bom com o herói sem caráter — tal qual PELÊ. Malazarte, Grilo e PELÊ são os arautos e os príncipes do sertão, do interior, da periferia e do centro velho, da lateral e da casa dos fundos, do litoral que vive do que pesca. Um clichê afirmava que é gente que detesta política ou que, pelo menos, tem memória curta: “— Nem sabem em quem votaram”, era a alegação mais comum.

Só para comparar com os demais “heróis sem fronteira”, PELÊ era muito cordial e, também muito “bonzinho”, nem desejava mal a qualquer um ou sequer praguejava em voz alta. Porém, ainda meio racista, nem custava para cuspir e lascar: “seu coiso tá na minha lista negra”. Era destemido como só; dizia não temer nada, nem ninguém, principalmente “coisa feia”: “cara feia é assombração com fome”, disparava. As crianças que o conheceram, por outro lado, talvez por verem tanta valentia num só, diziam corriqueiramente, a toda hora: “medi, tem medi”. E Pedro Malazarte, seu amigo, é quase um eco disso tudo, para o bem e para o mal, é lógico.

 

Pedro Malazartes é figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, como exemplo de burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes e de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos […] É o tipo feliz da inteligência despudorada e vitoriosa sobre os crédulos, os avarentos, os parvos, os orgulhosos, os ricos e os vaidosos, expressões garantidoras da simpatia pelo herói sem caráter […] O episódio mais tradicional é a venda de uma pele de cavalo, de urubu ou outro pássaro vivo, tido como adivinho, por anunciar o jantar escondido pela adúltera e expor o amante como sendo um demônio[16].

 

A maldade de Malazarte, por exemplo, deve servir de compensação financeira ao trabalho do irmão, este que não fora pago e que ainda teve “uma lasca de couro tirada do lombo”. A atitude malsã, na primeira crônica sobre Malazarte, é ainda uma resposta à humilhação sofrida no trabalho, em razão do princípio da hierarquia e da subordinação (quanto a este princípio, não se sabe se mudou da escravidão, para cá).

Por isso tudo, PELÊ representa mais do que um hiato, é uma certa mistura (bem-sucedida) entre Homem Cordial (Sérgio Buarque de Holanda) Macunaíma (Mário de Andrade), Pedro Malazarte (Luís da Câmara Cascudo), João Grilo e Jeca Tatu (Monteiro Lobato).

 

Alguns estudos e algumas narrativas são bastante representativas dessas inquietações e interrogações. Vale a pena relembrar alguns: Tavares Bastos, A Província; Silvio Romero, História da Literatura Brasileira; Joaquim Nabuco, O Abolicionismo; Raul Pompéia, O Ateneu; Euclides da Cunha, Os Sertões; Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma; Oliveira Vianna, Evolução do Povo Brasileiro; Mário de Andrade, Macunaíma; Paulo Prado, Retrato do Brasil; Graciliano Ramos, Vidas Secas; José Lins do Rego, Fogo Morto; Caio Prado Jr., Evolução Política do Brasil; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil; Gilberto Freyre, Interpretação do Brasil; Raimundo Faoro, Os Donos do Poder; Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa; Clovis Moura, Rebeliões da Senzala; Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira; Alfredo Bosi, Dialética da Colonização; Celso Furtado, Brasil: A Construção Interrompida[17].

 

Certamente, não é tarefa simples nem pode haver uma simples justaposição, por exemplo, entre as Vidas Secas de Gaciliano Ramos e o Macunaíma de Mário de Andrade – essa mistura da miscigenação não é uma mera justaposição de personagens e/ou de atores sociais. Em Graciliano, o que está em foco é o atraso político (coronelismo) e a desigualdade social (miséria do povo). Sua análise se iniciou muito cedo, desde que fora prefeito de Palmeira dos Índios e enviara relatórios de sua administração ao Governo do Estado. É um verdadeiro raio X sucinto, direto, de escrita limpa e muito bem humorada: “Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam”[18].

Agora, o humor também sempre estivera presente: “No cemitério enterrei 189$000 — pagamento ao coveiro e conservação”[19]. É curioso notar que investira mais em música do que na polícia, coisa de gente de coração bom. Enfrentou uma mini Revolta da Vacina, quando obrigou a limpeza pública e o recolhimento dos bichos: “Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no ciclo preciosamente guardado em fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças”[20].

Sempre se colocara contra o nepotismo e a corrupção: “Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados”[21].

Sem dúvida, é um retraso do atraso que aguardava a modernidade, como na queixa de que não encontrou nada parecido com o Estado de Direito: “Em janeiro do ano passado não achei no Município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite. Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”[22]. Também percebia que o povo não admira demais o princípio da probidade administrativa: “…há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal…”[23].

A educação, quiçá como a de hoje, era uma lástima: “As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância […] Não creio que os alunos aprendam grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros”[24]. Com a educação recebida, o povo correspondia à cultura da mediocridade: “E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada”[25]. Porém, é certo que mais alguém nesse país imenso deveria ter sua sina de honestidade, mesmo que pagando um preço alto: “Esforcei-me por não cometer injustiças […] se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me”[26].

Os dois relatórios foram produzidos entrando nos anos 30, quando, por fim, Graciliano Ramos renunciou ao cargo de prefeito.

Em sentido diverso, e para uma leitura torta, Macunaíma, em outro exemplo, só teria revelado alguns dos preconceitos do brasileiro: a preguiça que destronou a astúcia; a opção deliberada pela vadiagem[27]; a exuberância (extremada) da sensualidade, como mera veneração sexual da mulata (objeto); o mesmo e velho machismo que impede a ascensão social e profissional do negro (dos mais pobres).

 

Uma explicação do Brasil

 

Para Oliveira Vianna, por exemplo, não se formou um sentido de urbanidade nem um sentimento comunitário e solidário no Brasil. Nossas aldeias, vilas ou cidades foram formadas por imposição do Estado ou da corte. Seus moradores eram aqueles vadios (no sentido empregado por Lúcio Kowarick) ou inúteis à república: “Era o que se chamava uma ‘convocação’. Na Vila de Lages, por exemplo, os ‘convocados’ foram os carijós infixos e vagabundos, que erravam pela Capitania…”[28].

Ao primeiro instante de descuido, por parte de seu “capitão-mor regente”, os povoadores voavam de volta a seus sítios e lugares de origem. Este patamar de organização social e de urbanização pressupunha um sentimento de cidadania que não poderia ser forjado onde não houvesse um sentido de comunidade ou de Estado-aldeia, como definia Vianna. Daí a própria atividade política ser definida como um atributo essencialmente urbano, ainda que a política fosse aplicada em pequenas aldeias ou vilas.

A diversidade de nossa formação fica ainda mais evidente quando comparada aos Estados-aldeia portugueses, espanhóis ou suíços, que elevaram a iniciativa política de seus povos, pela chamada democracia direta dos cantões. Entretanto, o que importa ressaltar é a desenvoltura popular na área da administração pública, na atividade judiciária, na organização política, na economia escravista e segregadora. A esta altura, no Brasil, o citizen inglês era só um sonho — e que no futuro traria pesadelos.

Assim, no Brasil, ao revés da lógica, por disposição legal e política, desde a colonização, fomos instados à ordem por latifúndios que se distanciavam uns dos outros em muitas léguas e sem que pudessem ser habitadas. Esta opção de colonização acabava por inibir qualquer aglomeração humana e forçava seus proprietários a se distanciarem “politicamente” uns dos outros. Como se vê em Vianna[29]:

 

Concediam-se quadras de 3 léguas, mas com uma intermediária, dentro da qual era proibido construir moradias ou residências: — ‘De 3 léguas das sesmarias — diz o escritor anônimo do Roteiro do Maranhão a Goiás — forma uma fazenda: na dita légua entram igualmente vizinhos à procura dos seus gados, sem contudo poderem nela levantarem casas e currais.

 

A dispersão obrigatória seria a responsável pelo diminuto espírito público naquele momento, criaria um ser arredio, dispersivo, aclimatado às matas e florestas e repulsivo à cidade. Além de um espírito individual e personalista, e que nem mesmo em proveito próprio poderia se aliar a outro:

 

De onde nasce que nenhum homem nesta terra é Repúblico, nem vela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras cousas públicas, é uma piada, porque atendo-se uns aos outros, nenhum as faz, ainda que bebam água suja, e se molhem ao passar os rios e se orvalhem ao passar os caminhos’, já dizia, há trezentos anos, o cronista Simão de Vasconcelos[30].

 

O velho espírito individualista ainda seria observado por Vianna em 1949 (data de publicação de Instituições políticas Brasileiras):

 

O retrato de Simão de Vasconcelos, desenhado há trezentos anos, ainda está perfeito e os traços descritos estão vivos ainda” […] Nosso complexo cultural e político era atomista: “E criou o homo colonialis, amante da solidão e do deserto, rústico e antiurbano, fragueiro e dendrófilo, que evita a cidade e tem o gosto do campo e da floresta. Homem de que a expressão mais acabada e representativa é o paulista do bandeirismo — telúrico, eruptivo, abrupto, tal como as rochas de gnaisse e manganês do meu habitat formador[31].

 

O homo colonialis, o cidadão brasileiro, o nosso PELÊ, tinha por referência de sociabilidade o próprio núcleo em que vivia. Cada família era uma república, mas uma república que já nascera partidária, privatizada. Os poucos exemplos de organização espontânea eram exceções para confirmar a regra, e a cada dia era mais vibrante no interior da sociedade a cultura clânica. O cidadão grego não era conhecido nem mesmo na literatura: “No Brasil, só o indivíduo vale e, o que é pior, vale sem precisar da sociedade — da comunidade”[32].

O sentimento que Vianna buscava no povo, mas que encontrou nas elites, era o de um “complexo democrático de nação”. No entanto, excluindo-se os pequenos grupos, no restante, sempre houve um sentimento satrapista, ou seja, senhorial e patriarcal, também responsável pela paralisia da história política brasileira:

 

São estes, com efeito — ainda hoje, como outrora — os elementos fundamentais da nossa vida política. Sem eles, é-nos impossível compreender e explicar a realidade do funcionamento das nossas três estruturas democráticas: — a local, a provincial e a nacional. Clãs e partidos não diferem substancialmente uns dos outros: nem uns, nem outros representam, do ponto de vista do Estado, organizações ou estruturas para fins de interesses coletivos, ao modo das pequenas organizações administrativas das ‘aldeias agrárias’[33].

 

Para poucos é revelado o verdadeiro lado negro da escravidão, a luta feroz contra o coronelismo e o mandonismo que nos habitam até hoje: “amém e sempre”, dirão algumas pobres almas, para quem é melhor deixar como está, para ver como fica! Sempre no sentido de dar uma justificativa para o fisiologismo e nepotismo (especialmente o filhotismo). Porém, além da tal pacificação social, deveríamos ver nisso uma profunda sátira: uma rotinização da mentira e um deboche constante da formalidade vazia. Pode-se dizer que tivemos muito dessa mesmice burocrática e vazia na Proclamação da República e depois na Revolução de 1930 – a revolução dos mesmos. Nessa nossa história de faz de conta, já havíamos visto isso em 1822 e em 1888. Conhecemos bem essa forma de dominação do mesmo, que é política, social, econômica, cultural, mental e que se poderia chamar de “dominação tradicional-legal”. Essa corruptela das formas de dominação sugeridas pelo sociólogo alemão Max Weber foi muito compreendida por PELÊ, quando sentiu na pele o vigor do adágio popular: “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei!”.

Não se vê que nossas elites tinham (ou têm) modelos de urbanidade tradicional, com interiores ainda pré-modernos, convivendo com enormes áreas de fronteira (bem devastadas e como terra sem-lei). O que se esconde, via de regra, é que (sobre)vivemos num modo de vida dissoluto: uma mistura de muitos preconceitos sociais e culturais. Esse samba do crioulo doido encobre nossa visão para a negação sistemática de acesso aos principais equipamentos sociais. Sobrevivemos imersos nessa negação sistemática, estrutural, enraizada e que gera a sensação de que somos muito mais que imperfeitos, míseros resultados de uma cultura mutilada. Outro clichê, então, dirá que por aqui só globalizamos a miséria, mas o certo é que o pobre honra seus compromissos, até porque só conta com sua palavra — sem o crédito na “praça” não lhe resta mais nada, isto é, para estes vales o ditado de que é melhor amigo na praça, do que dinheiro no bolso. Aliás, quando o assunto é pobreza e miséria sempre está interposto um “isto é….”.

 

Mudando o disco

 

Mas não teremos tido alguma expressão de resistência, além desse realismo político chocante? Na certa que sim.

Um baiano lendário é Jorge Amado — não há brasileiro que não tenha lido ou assistido a algo baseado em sua extensa obra (por isso, até repetitiva), assim como é clássico na literatura de resistência e de denúncia um escritor como Graciliano Ramos e seu Vidas Secas[34]. Mesmo após a fase considerada comunista, Jorge Amado (que escrevera Os subterrâneos da Liberdade) continuou a defesa da “causa social” e, como consequência, teve livros queimados, como Capitães de Areia, no ano de sua publicação, em 1937[35].

Histórias de resistência e de revolução semelhantes nós lemos, em outro exemplo, em Osório Alves de Castro[36] — um alfaiate-escritor-comunista e baiano, que fugiu da morte certa pelo coronelato, passou pelo Rio de Janeiro e se viu radicado em Marília —, em romances como Porto Calendário. Nesta cidade do Estado de São Paulo, entre tantas coisas, pode constatar que os chamados pioneiros exterminaram todos os índios (coroados) da região.

Nossa cultura é realmente esse cadinho de falas, afazeres, cores e gostos que só a miscigenação pode produzir — ou samba do crioulo doido, para os mais elitistas, racistas. Entretanto, para poucos, esse carnaval cultural sinaliza uma possibilidade de metamorfose, se não na vida real, ao menos no imaginário. Roberto Damatta (em Carnavais, malandros e heróis) analisa esse momento como um processo de “sátira social”, em prol da trégua e do contrato social:

 

Essa teatralização salienta o caráter domesticado da transmutação de pobre em nobre, quando essa transmutação é realizada em momentos programados, tal como ocorre no Carnaval. Assim, os ricos (dominantes) não são vistos como ricos […] mas como nobres. Se fossem olhados como ricos (ou seja, burgueses), seriam satirizados e o desfile provavelmente perderia seu caráter domesticado, sinal de fato de uma trégua entre dominados e dominantes […] Abandona-se, como consequência, a sátira para se permanecer na trégua e na inflação do bom comportamento[37].

 

Vimos um milagre cultural ocorrer com o carinhosamente chamado Velho Osório, um alfaiate-escritor, e PELÊ também imagina que isso pudesse lhe ocorrer. Inclusive disse que queria ler todos esses explicadores do Brasil com afinco. PELÊ também queria reler Teresa Batista Cansada de Guerra (Jorge Amado) porque se dizia amargamente, amarguradamente envolvido, enlutado, apaixonado pela personagem — a personagem que criara vida após a tristeza do despertar da sexualidade da menina-moça e que não passava de valor de uso. Nesse esforço cultural, PELÊ certa vez ficou extasiado, contemplando um quadro muito belo, inusitado, forte e engraçado, em uma exposição que achou por acaso. Tempos depois, viria a saber que se tratava do famoso Abaporu[38], de uma moça de nome também bonito: Tarsila do Amaral[39]. É curioso, mas PELÊ tanto pode ser explicado pela formação da cultura brasileira quanto é um tipo de explicador popular do Brasil.

Mas quem são esses explicadores do Brasil, além de PELÊ, Grilo e Malazarte…??

A história é de longa data, mas sempre que se pensa nas origens, pensa-se nos clássicos e nos porquês de serem relidos constantemente. Descrevendo a publicação de outros livros de origem, a historiadora Mary Del Priore é enfática:

 

A historiadora diz que o objetivo principal é o de fisgar o leitor não acadêmico, convidá-lo a conhecer uma história do Brasil além dos livros didáticos. ‘É uma estória de amor pela história’, resume. ‘Penso que os livros podem ser uma porta de entrada para qualquer pessoa que não tenha intimidade com a história do país[40].

 

Na famosa introdução (O significado de ‘Raízes do Brasil’, de 1967) ao livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Cândido cita os clássicos da chamada “Geração de 30” como os grandes explicadores do Brasil, como os responsáveis pelos fundamentos analíticos da política e da sociedade brasileira. Para Antonio Candido, são três os autores e três são os livros que marcaram essa geração:

 

Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Pardo Júnior, publicado quando estávamos na escola superior. São estes os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalidade intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, abafada pelo Estado Novo[41].

 

Antonio Cândido, analisando a Casa Grande, destaca o tratamento da vida sexual do patriarcalismo e a importante participação do escravo no modo de ser brasileiro. Diz que: “é uma ponte entre o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e mesmo Oliveira Vianna, e os pontos de vista mais especificamente sociológicos que se imporiam a partir de 1940”[42]. Gilberto Freyre[43], porém, ainda estaria restrito aos aspectos biológicos, como raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilíbrio ecológico e alimentação. Freyre, assim como os demais autores de 1930, carrega a marca do clássico, o tipo genial, inaugural de suas análises revolucionárias do cotidiano:

 

É possível dizer do passado o mesmo que Proust escreveu sobre o mundo: ele está sendo sempre recriado pela arte. E, assim como a arte, a história que Gilberto Freyre conta tem muito de narrativa, estética, impressão, memória e romance […] jeito de palpite, adivinhações e poesia […] um autor que dá a seus textos um ar de cinema, tal a quantidade de imagens que vão sendo evocadas[44].

 

O livro Raízes do Brasil surgiu 3 anos depois de Casa Grande e, como “clássico de nascença”, identificava a necessidade de novas soluções de entendimento para as posições políticas da época, movido pela descrença no liberalismo tradicional ou simplesmente pela busca do novo: à direita, com o integralismo; à esquerda, com socialismo e comunismo. A abordagem trazida pelo livro estava respaldada na nova história social dos franceses, na sociologia da cultura alemã e em certos elementos teóricos da sociologia e etnologia ainda desconhecidas no Brasil. Para Octávio Ianni (em A ideia de Brasil moderno), a formação de Sérgio Buarque de Holanda contrasta com a de Caio Prado Júnior — este marxista:

 

A interpretação de Sérgio Buarque de Holanda tem raízes no pensamento alemão moderno, principalmente Dilthey, Rickert e Weber. Desenvolve-se em um conjunto de tipos ideais, configurando épocas, estilos de sociabilidade. Percebe de modo aberto a sociedade civil e o Estado, no passado e no presente. O ‘homem cordial’ sintetiza uma parte expressiva da forma pela qual apanha momentos da história, em moldes supra-históricos. Uma interpretação bastante presente em meios universitários e artísticos […] E a interpretação de Caio Prado Júnior tem raízes no pensamento marxista. Analisa a formação social brasileira em termos de forças produtivas e relações de produção, expropriação do trabalho escravo e trabalhador livre, desigualdades sociais e contradições de classes. Apanha a história como um caleidoscópio de ‘ciclos’ e épocas, diversidades e desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais, complicadas pelas diversidades e desigualdades raciais e regionais. Desvenda as lutas, as reformas e rupturas que demarcam épocas e perspectivas da história social brasileira[45].

 

Apesar da controvérsia em torno dos representantes do pensamento político brasileiro a partir de 30, os três autores mencionados são tratados como unanimidades nessa representação. Octávio Ianni, por exemplo, apenas acrescenta outros dois nomes, sem questionar os anteriores:

 

Uma síntese das interpretações desenvolvidas por esses autores se encontra nos seguintes livros: Evolução do Povo Brasileiro, de Oliveira Vianna; Interpretação do Brasil, de Gilberto Freyre; A Evolução Industrial do Brasil, de Roberto C. Simonsen; Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Júnior; e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. A despeito da ênfase social, econômica, política ou cultural, evidente em cada um, empenharam-se em apresentar explicações abrangentes, globalizantes […] suas interpretações do Brasil tornaram-se paradigmáticas […] Conservadores, autoritários, liberais, democratas e socialistas já têm ao seu dispor um esquema básico, uma referência coerente, um paradigma para pensar e agir. Assim, Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Roberto C. Simonsen e Caio Prado Júnior adquirem a aura de clássicos[46].

 

É oportuno destacar também que, todos os clássicos justificam-se porque surgem sempre em momentos de grandes e graves transformações, crises sociais, revoluções e grandes descobertas no nível do conhecimento analítico, com as consequentes mudanças de rumo nos paradigmas analíticos, alterando as relações sociais e as visões de mundo. De acordo com Ianni, no caso do pensamento político brasileiro, a transformação histórica manteve a mesma ordem de fatores. O que denota um significado especial para a análise desses clássicos, ressaltando-se a ótica da história política que os pressupunha, isto é, as transformações advindas da Revolução de 30:

 

Foi na década de 30 que se formularam as principais interpretações do Brasil Moderno, configurando ‘uma compreensão mais exata do país’. Muito do que se pensou antes se polariza e se decanta nessa época. E muito do que se pensa depois arranca das interpretações formuladas então […] Mas naquela época formularam-se algumas matrizes do pensamento social brasileiro, no que se refere a questões básicas: a vocação agrária e as possibilidades da industrialização, o capitalismo nacional e associado, o federalismo e o centralismo, o civilismo e o militarismo, a democracia e o autoritarismo, a região e a nação, a multiplicidade racial e a formação do povo, o capitalismo e o socialismo, a modernidade e a tradição […] Uns preconizam a modernização em moldes democráticos; outros em termos conservadores, ou simplesmente autoritários. Há aqueles que reivindicam reformas sociais amplas; outros até mesmo a revolução social. Um outro chega a idealizar o escravismo, o regime monárquico, o colonialismo lusitano, o alpendre da casa grande[47].

 

Como se vê, não é possível alcançar um plano mais generalista da época do que o fornecido pelos clássicos da Geração de 30.

Então, o que se queria alcançar neste texto, com essa mistura de estilos (nem literatura, nem depoimento, nem ciência social), é exemplificar a ideia de que a cultura é uma mescla, uma sopa de letrinhas com algum sentido — mas não um sentido pronto e acabado, simplesmente porque é resultado atual da miscigenação secular. O que se procurou relatar foi a ideia de que aí se forma um misto, porque em PELÊ há o bom brasileiro e o mau brasileiro também: há uma livre troca de caráter, como aqui há uma livre troca de estilos, no melhor sem estilos que se pode almejar. Pois, mesmo que PELÊ “tenha dado certo” dentro de campo (foi mais do que um “saci-pererê” com a bola nos pés), infelizmente, tem histórias bem ruins sobre sua ética pública e privada. Aliás, esse é um poderoso traço da cultura nacional, misturam-se a ética privada com a pública e arruínam-se as duas.

 

Sim, o que se depreende dos múltiplos tipos que povoam o pensamento social brasileiro, em suas versões científicas, literárias e dos diferentes setores sociais, em suas atividades e fabulações, é que levam consigo uma forte conotação cultural, com acentuados ingredientes psicossociais. Aí entra o “homem cordial”, no sentido de fortemente determinado pelas emoções, a subjetividade, o coração (córdis), um tanto alheio ou mesmo avesso ao “racional”. Aí também entram o “bandeirante”, o “índio, o “negro”, o “imigrante”, o “gaúcho”, o “sertanejo”, o “seringueiro”, o “colonizador”, o “desbravador”, o “aventureiro”, “Macunaíma”, “Martim Cererê”, “João Grilo”, a “preguiça”, a “luxúria”, “Jeca Tatu”, as “três raças tristes”, a política de “conciliação”, a tese das “revoluções brancas”. Assim também florescem as figuras e as figurações, os mitos e as mitificações de “Lampeão”, “Padre Cícero”, “Antonio Conselheiro”, “Tiradentes”, “Zumbi” e outros, reais e imaginários. São muitos os tipos e os mitos que povoam os estudos e as narrativas, as realidades e as fantasias, compondo uma vasta cartografia[48].

 

Como explicadores populares do brasileiro, PELÊ, Grilo e Malazarte não deixam de expressar a cultura de modo estranho, porque, além de atores, também são porta-vozes de uma cultura muito mais contraditória do que coerente. São atores que expressam uma cultura complexa, sem dúvida, mas igualmente esquisita, para o bem (como dizem os espanhóis) e para o mal.

Com tudo isso, às vezes mais para o mal do que para o bem, PELÊ era um cara muito cordial; no carnaval, usava uma máscara estranha, mas que dizia ser a cara do brasileiro. Mas será que nossa história só é feita dessas caras que se escondem em máscaras sociais? Não, felizmente, há outras histórias de Pedro Malazarte e de João Grilo, aliás, bem próximas de todos nós…

 

Outras Proezas de João Grilo

 

Agora, sem as máscaras ou não apenas como sombras de si mesmos, quem são ou podem ser PELÊ, João Grilo, Malazarte, Mazzaropi?

Pode ser muita gente, mas certamente são José, Pedro, Paulo, Wagner, Célia, Nilva, Dalva, Fátima, Vinício, alguns dos seus/meus amigos(as), inimigos(as), você, todos nós que nos percebemos e nos vimos revelados nos relatos e nas crônicas de nossas vidas.

Mas vamos pensar na crônica/saga do João Grilo, do sertanejo, do caranguejeiro, da gente pobre, do chamado Zé Ninguém, da Maria Trabalhadora (que, de tanto trabalhar, incorporou o trabalho ao nome). Agora, trabalho é o seu nome, Trabalho é nome próprio.

O João Grilo, como todo e qualquer João Ninguém (de acordo com os dicionários), significa exatamente “gente da gente”, gente como você e eu, isto é, se você se considera gente simples – do tipo sem milongas e sem dinheiro.

João Grilo é uma das histórias mais antigas da Literatura de Cordel, do Nordeste brasileiro – remonta aos idos de 1940-1950. A saga narra aventuras de um pobre miserável que faz da esperteza, da sagacidade, da desconfiança do formal excessivo o meio de vida ou o melhor jeitinho brasileiro que lhe garante a sobrevida. Sua sobrevivência se dá tripudiando o autoritarismo, o servilismo, o coronelismo, todos os “ismos” da opressão.

Mas quem foi João Grilo? João Grilo não é bonito, nem feio; nem branco, nem negro; mais pobre do que remediado; não é homem-gabiru, mas não é alto. João Grilo é homem médio, mas grande na alma. João Grilo é gente encantada com o que restou de bom, esquecendo-se por um minuto do que há de mau.

 

João grilo foi um cristão/Que nasceu antes do dia/Criou-se sem formosura/Mas tinha sabedoria/E morreu depois das horas/Pelas artes que fazia…Assim mesmo ele criou-se/Pequeno, magro e sambudo/As pernas tortas e finas/A boca grande e beiçudo/No sítio aonde morava/Dava notícia de tudo[49].

 

A saga de João Grilo combate a ideia da fraternidade ou da solidariedade vazia, porque essa cordialidade é só um faz de conta para prejudicar a Casa Grande e/ou os sobrados. As Proezas de João Grilo é o título do livreto que deveríamos (re)ler, assim como o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna – obra claramente inspirada nesse cordel. Aliás, devemos lembrar que a Compadecida é Nossa Senhora, entoada como a advogada dos pobres, na oração Salve-Rainha.

Há muito que se procura entender melhor essa tão rica e bela cultura popular brasileira. Muitos são admiradores de sua “literatura dos varais”, dos cordelistas que nos ensinam tão alegremente o real significado de tudo o que é sem eira, nem beira. A visão dessa “eira”, uma saliência na parte superior dos sobrados dos coronéis, ainda sinaliza seu poderio econômico.

Enfim, essa é uma das leituras que se pode fazer nas férias, nas praias em que João Grilo se banha. Esse João Grilo que sintetiza a inteligência, a criatividade, a imaginação, o conhecimento natural do mundo que o nosso povo tem. É como ter na memória, sentir a intensidade da cultura, ter sempre perto a beleza do bronzeado natural da cor jambo, as cores, o cheiro, o sabor das coisas comuns e simples da vida que se leva naquela região.

À beira-mar, o sonho é doce e não há outra brisa que nos traga maior conforto. E quem mais gosta disso? Raquel de Queiroz também…

 

“Futurar o Direito”

 

Na última conversa/entrevista com PELÊ, aprendi algumas novas expressões – como ditos populares – que, além de típicas, parecem revelar significados e sentidos da vida do povo. Tempos depois, fui ler “O Quinze” de Rachel de Queiroz e penso que é possível reunir todas essas imagens em um texto que nos falasse dos “direitos do povo”.

Só que, com referência a PELÊ, trata-se mais do povo trabalhador, oprimido, sofrido, que passa fome, morre de quase tudo e “vive cheio de precisão”. Não precisamos ir tão longe e basta lembrar que a maioria de nós só viu esse quadro social à distância – larga distância.

Nessa história de vida, é fácil perceber que o sofrimento faz perseverar, isto é, insistir, continuar, lutar, persistir – e este é o verbo mais comum da região Nordeste, interior e sertanista. Dentre o povo, alguns dos mais desesperados, sem perspectivas, sedentos de ventos melhores (Aracati), lotam os caminhos rumo ao Sul e ao Sudeste – não há novidade nisso que é “o êxodo rural e regional”. Aliás, até presidente já arribou de lá em pau de arara. Mas a expressão mais interessante que se ouve, dizia que fulano “rompeu desembestado de lá pra cá”. Pois bem, esta é a força real e semântica da migração.

Porém, se o futuro se fecha de vez, sem que haja um mísero clarão a irradiar um caminho menos abrasivo, o que resta é “maldar o que não ocorreu como esperado”. Ou seja, os que trabalham podem maldar o chefe e a burocracia; os demais devem maldar o insucesso, o infortúnio, as injustiças sociais, o desemprego, a periferia da vida e a fome. Neste caso, que é o pior dos casos, só restaria “futurar pelo destino”.

Como se diz por lá, quem não espera pelo desamparo sai em busca de “futurar pelo direito”, isto é, lançar os dados; sondar e manter vivas e acesas as expectativas; projetar para além do imediato. No mau sentido, alguém poderia lembrar que isso é “jogar o verde, para colher o maduro”. Mas não é bem assim, porque se trata de supor, desejar e promover ações em prol do objetivo. O verbo combina com perseverar, que é se manter firme no caminho proposto, tomando atalhos, mas sem perder o prumo.

Nesta busca, primeiro devem-se “futurar as possibilidades”, “perquirir as chances”, para só depois, aí sim, “perseverar pelas finalidades” mais viáveis e previamente erigidas. Vemos claramente que são verbos próprios de quem tem de lutar incessantemente pela vida; verbos intransigentes com a dureza da vida; verbosidade cujas diversidades vêm sempre antes das oportunidades – esta que lhes é uma lei quase inexorável, irredutível. São verbos que combinam com quem tem uma força para viver igualmente inexorável. Na saga d’O Quinze, Raquel de Queiroz (2002) é genial ao resumir em quatro linhas o mesmo sentido.

Em sua clarividência de clássico da literatura, Raquel de Queiroz parece dizer a todos nós, ainda hoje: “A gente precisa criar seu ambiente, para evitar o excessivo desamparo…Suas ideias, suas reformas, seu apostolado…Embora nunca os realize… nem sequer os tente…, mas ao menos os projete e mentalmente os edifique…”[50].

Por fim, ao contrário do que também se possa pensar, futurar o direito é mais do que a “expectativa do direito”; pois, é a demonstração de uma gana suficiente para a fruição (acontecimento) do próprio direito. Trata-se de esperar, mas esperar pondo-se em movimento, promovendo ações em busca do fim que se requer. Portanto, é um propósito, uma crença mais do que razoável, é a saga de um povo na luta contra sua realidade. Como nos diz Raquel de Queiroz, é a gramática dos que não admitem que “o comer era quando Deus fosse servido”. Esse é o próprio sentido de fome eterna ou eternamente miserável.

Além disso tudo, PELÊ repetia um bordão francês (não sabia o nome do “caboclo”[51]) e dizia que “o Brasil não é um país sério”. Repetia isso, mas logo dizia que o brasileiro é um povo alegre e feliz — talvez até demais[52] —, mas não achava que todos fossem bobos. Agora, uma coisa o deixava muito irritado, quando diziam que “o povo corrupto merece o governo que tem”. Aí se enfezava e rebatia dizendo que: “são os pobres que pagam suas contas em dia ou, então, não dormem — cadê que o rico perde seu sono com as dívidas?”.

Nesse sentido, estava certo, porém, acabaria por dar vazão a outro adágio: “o povo brasileiro tem memória curta” (especialmente em política). No geral é isso mesmo, como diz o ditado dos ignorantes: “história é coisa de museu”. O próprio Graciliano Ramos e sua obra brasileiríssima não escapariam a essa regra antissocial brasileira, como retrata Audálio Dantas no livro O chão de Graciliano: “Na vida de Quebrangulo, a escola, cujo nome antes homenageava seu filho mais ilustre, foi renomeada de Escola Mirta Correia da Costa, tributo a uma professora local. Enquanto parentes de Graciliano se revoltaram, os mais novos demonstraram não ter a mais vaga ideia de quem seja o escritor […] A falta de conhecimento se estende para os adultos também, até daquele que ocupa hoje a casa que já foi moradia do escritor”[53]. Deve-se ter claro que esta falta de memória não é uma espécie de vingança ou de desleixo do povo em relação a sua própria cultura. Na verdade, o que ocorre é que aí também se verifica o acento do elitismo cultural e da ausência do Estado nas regiões empobrecidas do país. Mas, tanto lá, quanto cá, o povo segue firme em sua maneira de ser genuína e culta: “Todos os personagens me sensibilizaram, eles têm uma maneira de falar simples, mas uma forma de pensar erudita”[54].

Contudo, quando se trata de política e de eleição, não é tão simples como parece, pois o povo se habituou a ser mineiro, revelando-se mais sábio do que os poucos ditados malfalados: “em eleição e mineração, é melhor esperar a apuração”.

Por fim, vimos com Ianni e, de certo modo, com Cascudo, que Grilo e Malazarte são tipos explicativos da formação da cultura e da sociedade brasileira. Ambos serão, também, uma versão popular do que já foi indicado como os “explicadores do Brasil”.

E PELÊ? Bem, esse é ainda mais achegado, porque agora, no fim da crônica alongada, considero-me seu criador, tenho-o como filho, nesse “matriarcado invertido” também é condição – e é?

Como disse no começo, trata-se de Crônica, Saga, Cordel ou o Retrato da Vida , mas também pode ser um conto: O Conto de PELÊ. Tudo bem, não importa em demasia, desde que você não pense que se trata de mais um conto do viário.

Aliás, você reparou como a história do povo é cheia de “mas” e de “aliás”?

De qualquer modo, a partir de já, PELÊ é o xodó do Brasil: “ame-o ou deixe-o”.

O povo brasileiro me emociona sempre, quando fiz esses rabiscos mais de uma década passada, e hoje, em 2026.

 

Leitura Complementar

 

ALENCAR, José, de Alencar. Iracema. 2. ed. Fortaleza-CE: ABC editora, 2001.

CALLADO, Antonio. Quarup. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

CHACON, Vamireh. A construção da brasilidade: Gilberto Freyre e sua geração. São Paulo : Marco Zero, 2001.

COUTINHO, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre idéias ideias e formas. Belo Horizonte : Oficina de Livros, 1990.

DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo : Brasiliense, 1985.

DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 11. ed. Rio de Janeiro : Rocco, 2000.

FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 4. ed. São Paulo: Globo, 2001.

FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1986.

IANNI, Octávio. Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

LIMA, Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo : Objetivo, s/d.

MACHADO, de Assis. A sereníssima República e outros contos. São Paulo: FTD, 1994.

NAVARRO, Fred. Dicionário do Nordeste. São Paulo : Estação Liberdade, 2004.

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SILVA JUNIOR., Hélio. Anti-racismo: coletânea de leis brasileiras (federais, estaduais, municipais). 1. ed. São Paulo: Oliveira Mendes, 1998.

[1] CASCUDO, Luís da Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004, p. 11-12.

[2] Id., 2004, p. 16,

[3] GADELHA, Marcus. Dicionário de Cearês: termos e expressões populares do ceará. 3. ed. Fortaleza: RBS, 2003.

[4] GREENHALGH, Laura. Pedrina, a quilombola. Jornal O Estado de S. Paulo, São Paulo,  2007, p. j8. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/pedrina-quilombola. Acesso em: 9 set. 2026.

[5] ANDRADE, Mário de. Contos Novos. 17. ed. Belo Horizonte : Rio de Janeiro : Itatiaia, 1999.

[6] MELO NETO, João Cabral. Morte e vida Severina. 7. imp. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 98.

[7] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 34. ed. Rio de Janeiro : Agir, 2002, p. 148-149

[8] Id., 2002, p. 121.

[9] LOBATO, Monteiro. O saci. São Paulo : Brasiliense, 2005, p. 14.

[10]  Ibid., 2005, p. 22.

[11] Id., p. 37.

[12] Suassuna, op. cit.

[13] Cascudo, op. cit., 2004, p. 174.

[14] CANDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 16-17.

[15] Cascudo, op. cit., 2004, p. 174.

[16] CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 10. ed. São Paulo: Global, 2001, p. 351-352.

[17] Ainda podemos lembrar que: “Drumond e Murilo Mendes tiveram poemas publicados na Revista de Antropofagia, de Oswald de Andrade e Alcântara Machado, em 1928 e 1929 […]A literatura de 30 teve caráter néo-realista e voltou-se principalmente para os temas regionais, mas não deixou de chegar também às grandes cidades que começavam a se esboçar como metrópoles. A linguagem ousada dos modernistas foi sendo substituída pela direta, com ênfase ao coloquial e popular. Grandes romancistas dessa geração: José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Cyro dos Anjos e Jorge Amado”. Veja-se em: http://www.folhetim.com.br/geracaode30.php. IANNI, Octávio. Tipos e mitos do pensamento brasileiro. Sociologias, Porto Alegre, v. 7, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-45222002000100008&script=sci_arttext. Acesso em: 9 set. 2026.

[18] RAMOS, Graciliano. Relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios. Col. Entre Livros. São Paulo: Record: Duetto, 2006, p. 24.

[19] Ibid., p. 27.

[20] Id., p. 30.

[21] Id., p. 34-35.

[22] Id., p. 36.

[23] Id., p. 37.

[24] Id., p. 50-51.

[25] Id., p. 55.

[26] Id., p. 57.

[27] KOWARICK, Lúcio. Trabalho e vadiagem: a origem do trabalho livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.

[28] VIANNA, Oliveira. Instituições Políticas Brasileiras. (2 volumes). Belo Horizonte : Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Niterói, RJ : Editora da Universidade Federal Fluminense, 1987, p. 95.

[29] Ibid., p. 100.

[30] Id., p. 110.

[31] Id., 102.

[32] Id., p. 110.

[33] Id., p. 254.

[34] Publicado em 1936. AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 110. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. ; RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 91. ed. São Paulo: Rio de Janeiro : Record, 2003.

[35] Mais uma publicação da chamada Geração de 30, como se poderá ver a seguir.

[36] CASTRO, Osório Alves de. Porto Calendário. São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1961.

[37] DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro : Zahar Editores, 1983, p. 46.

[38] Em 1928, em seu atelier de São Paulo, Tarsila esboça uma grande tela (Abaporu), com uma figura solitária, esquisita, pés imensos, sentada numa planície verde.

[39] Não por acaso, o livro estampa a capa de Raízes do Brasil.

[40] VILLALBA, Patrícia. Um Brasil repassado em detalhes. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno D, p. D8, 2007.

[41] É preciso frisar que esta década é a mais rica da história brasileira, uma “década clássica”, que ainda contaria com a chamada Revolução de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas. É desse período, por exemplo, a inauguração do Aeroporto de Congonhas (1936). Na educação é lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (Candido, op. cit., 1995, p. 9).

[42] Candido, op. cit., 1995, p. 10.

[43] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. In: Intérpretes do Brasil. v. 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2002.

[44] SCHWARCZ, Lillia Moritz. Sobrados e Mucambos – obra para ser lida comendo pipocas. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno D, p. D11, 2007.

[45] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 41-42.

[46] IANNI, Octávio. A ideia de Brasil moderno. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 41.

[47] Id., p. 29-47.

[48] Ianni, op. cit., 2002.

[49] LIMA, João Ferreira de. Proezas de João Grilo. Fortaleza/CE: Academia Brasileira de Cordel: Ban Gráfica, 2002, p. 1.

[50] QUEIROZ, Raquel de. O quinze. 73. ed. São Paulo: ARX, 2002, p. 125.

[51] Foi o general francês Charles De Gaulle.

[52] Aqui adora-se o sexo, o carnaval e o futebol. Aliás, não haveria problema nenhum nisso, desde que também adorássemos a Justiça, a Ética, a Educação…

[53] DEL RÉ, Adriana. Seguindo os passos de Graciliano. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno D, p. D6, 2007.

[54] Ibid.

Lista de músicas que trazem a Formação Social Brasileira

0

 

 Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

Abaixo, indicamos algumas músicas que fazem referência à Formação Social Brasileira, numa lista bem eclética, para cada pessoa escolher e organizar sua trilha sonora. Aliás, se tem outras músicas que esquecemos, monte outra lista e nos envie, vamos completando nosso mapa conceitual, cultural e social.

Lista preliminar

  1. Trem das onze – Adoniran Barbosa
  2. Pedro pedreiro – Chico Buarque
  3. Admirável gado novo – Zé Ramalho
  4. Construção – Chico Buarque
  5. Asa Branca – Luiz Gonzaga
  6. Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa
  7. Apesar de Você – Chico Buarque
  8. Cálice – Chico Buarque e Gilberto Gil
  9. O Bêbado e a Equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc / Elis Regina
  10. Pra Não Dizer que Não Falei das Flores – Geraldo Vandré
  11. Aquarela do Brasil – Ary Barroso
  12. País tropical – Jorge Ben Jor
  13. Garota de Ipanema – Antônio Carlos Jobim
  14. O que é, o que é – Gonzaguinha
  15. Brasil – Cazuza
  16. Zé ninguém – Biquíni Cavadão
  17. Que país é esse – Legião Urbana
  18. O terno – Brazil
  19. Maria, Maria – Milton Nascimento
  20. É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo – Erasmo Carlos
  21. Como nossos pais – Elis Regina
  22. Diáspora – Tribalistas
  23. Alegria, Alegria – Caetano Veloso
  24. Sampa – Caetano Veloso
  25. Diário de um detento Racionais MC’s
  26. Brasília
  27. Triste, louca, ou Má – Francisco, El Hombre
  28. A Novidade (Gilberto Gil / Os Paralamas do Sucesso)
  29. A Carne (Elza Soares)
  30. Roda viva (Chico Buarque)
  31. Aluga-se (Raul Seixas)
  32. Teoria das Tangas (Vinício e Márlon)[1]

As músicas inseridas acima demonstram, dentre várias coisas, como a população brasileira expressa suas vivências e experiências de diferentes formas, transformando-as em letras e melodias. A música é também uma característica humana, uma forma de expressar sentimentos, narrar realidades e, muitas vezes, encontrar maneiras de resistir e sobreviver às dificuldades.

Além disso, algumas canções tornam-se essenciais como registros de determinados períodos históricos, carregando consigo as marcas de seu contexto social e político e, por essa razão, mantendo-se vivas entre as gerações. Cálice, por exemplo, tornou-se símbolo da resistência à ditadura militar brasileira, utilizando a música como forma de expressar aquilo que não podia ser dito abertamente.

[1] Acesse por aqui: Divulgue e se inscreva no nosso canal.

Maria

0

@viniciocarrilhomartinez

Minha mãe não era a Maria

Era Dalva

(Uma professora muito alva)

A primeira que tive

– Da primeira lição que vi

(sem sequer um olho se abrir)

 

Maria era a tia

– da inteligência para todo dia

 

Maria foi tia, amada

– uma das mulheres mais inteligentes que conheci

 

Mariquinha é super mãe

– é mãe da Fátima

(mas que adotei, sem pensar)

 

O coração não pensa

É como bolo, que cresce pra nos alimentar

 

Para quem não sabe,

– para mim,

Mariquinha é Maria

– e quem não sabe, não sobe

 

Mariquinha é do Aracati

– onde sempre estive, e sempre me envolvi

 

Maria não é minha mãe

– é amiga do coração

– das Minas, dos amores Gerais

(mundo das mulheres mais cordiais)

 

Maria não é mãe

– é filha, de uma mãe de coração

(de Ester Delveaux)

Outra mãe que adotei nesse Brasil de imensidão

 

Outra Maria também adotei

– Benevides

(e que nunca olvides)

– para sua vida apenas convides

 

De quantas Marias é feito esse país

– o meu mundo é cheio

 

Para as Marias, o amor não é um meio

 

Mas, em tudo, há um meio de se ver

(e mesmo sem querer, o amor tem que se envolver)

 

Carolina MARIA de Jesus

– não está no seu Quarto de despejo

 

Quantas ainda são?

– quantas Carolinas, quantas Marias…

– não é, nunca foi o nosso desejo

 

Assim vão as Marias inominadas

– pelo Brasil não são amadas

 

Mas, na nossa ironia sem fim

– é a Maria que sempre roga por mim

 

MARIA de Jesus

– ainda acha que não rima com luz?

Lula usa 7 de Setembro para confrontar agenda bolsonarista: “Não baixaremos a cabeça”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não aceitará interferências de potências estrangeiras nem voltará à condição de colônia. A declaração foi feita em pronunciamento transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão na noite de domingo (6), véspera do Dia da Independência.

“Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem transformar o Brasil novamente em colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém”, afirmou Lula.

Sem citar diretamente Donald Trump, o presidente também rebateu as pressões comerciais dos Estados Unidos e defendeu a autonomia brasileira para negociar com outros países. “Nenhum governante estrangeiro tem o direito de dizer de quem podemos comprar e para quem podemos vender”, declarou.

O pronunciamento ocorre em meio à ofensiva comercial do governo estadunidense contra produtos brasileiros e à disputa entre Estados Unidos e China pelo acesso a minerais estratégicos na América Latina. Lula destacou que o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo e defendeu que esses recursos sejam usados para produzir tecnologia e empregos no próprio país.

O presidente também mencionou a descoberta de uma nova reserva de petróleo e a aprovação do marco legal dos minerais críticos e estratégicos. Segundo ele, as riquezas naturais devem financiar o desenvolvimento brasileiro e melhorar as condições de vida da população, em vez de atender prioritariamente a interesses estrangeiros.

Lula ampliou o conceito de soberania para incluir independência financeira, acesso à educação e à saúde, liberdade de escolha profissional, combate à fome e redução das desigualdades. Afirmou ainda que o Brasil trabalha pela paz, pelo livre comércio, pela transição energética e pelo enfrentamento da emergência climática.

O discurso teve duração de pouco mais de três minutos e adotou a soberania como eixo central das celebrações oficiais do 7 de Setembro. O tema também funciona como uma das principais bandeiras da campanha de Lula à reeleição.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não aceitará interferências de potências estrangeiras e não voltará à condição de colônia. A declaração foi feita em pronunciamento transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão na noite de domingo (6), véspera do Dia da Independência.

“Não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem transformar o Brasil novamente em colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém”, afirmou Lula.

Sem citar diretamente Donald Trump, o presidente também rebateu as pressões comerciais dos Estados Unidos e defendeu a autonomia brasileira para negociar com outros países. “Nenhum governante estrangeiro tem o direito de dizer de quem podemos comprar e para quem podemos vender”, declarou.

O pronunciamento ocorre em meio à ofensiva comercial do governo estadunidense contra produtos brasileiros e à disputa entre Estados Unidos e China pelo acesso a minerais estratégicos na América Latina. Lula destacou que o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo e defendeu que esses recursos sejam usados para produzir tecnologia e empregos no próprio país.

O presidente também mencionou a descoberta de uma nova reserva de petróleo e a aprovação do marco legal dos minerais críticos e estratégicos. Segundo ele, as riquezas naturais devem financiar o desenvolvimento brasileiro e melhorar as condições de vida da população, em vez de atender prioritariamente a interesses estrangeiros.

Lula ampliou o conceito de soberania para incluir independência financeira, acesso à educação e à saúde, liberdade de escolha profissional, combate à fome e redução das desigualdades. Afirmou ainda que o Brasil trabalha pela paz, pelo livre comércio, pela transição energética e pelo enfrentamento da emergência climática.

O discurso teve duração de pouco mais de três minutos e adotou a soberania como eixo central das celebrações oficiais do 7 de Setembro. O tema também funciona como uma das principais bandeiras da campanha de Lula à reeleição.

Abaixo, a íntegra do pronunciamento:

“Minhas amigas e meus amigos,

Amanhã, 7 de setembro, é dia de comemorar a Independência do Brasil. Para além do grito de Dom Pedro I às margens do rio Ipiranga, a Independência do Brasil foi uma dura conquista de homens e mulheres que deram suas vidas nas batalhas contra a tirania, a escravidão e a injustiça social.

De Tiradentes, herói da Inconfidência Mineira, a Maria Quitéria, Maria Felipa e Joana Angélica, heroínas do 2 de Julho na Bahia.

Defender a Independência do Brasil é defender nossa soberania e nossa democracia.

Mais do que nunca, é preciso lutar pelo que é nosso. Temos a segunda maior reserva de terras raras do mundo e a maior fonte de água doce. No último mês, descobrimos uma nova e rica reserva de petróleo. Nossas riquezas devem servir ao futuro do povo brasileiro.

Foi aprovado no Congresso Nacional o marco legal que permitirá ao Brasil transformar as enormes reservas de minerais críticos e terras raras em desenvolvimento e riqueza para o povo brasileiro. Recursos naturais que, da mesma forma que o nosso petróleo, devem ser usados para o desenvolvimento de tecnologia de ponta e geração de empregos de qualidade no Brasil.

Por isso, não podemos baixar a cabeça diante de potências estrangeiras que querem transformar o Brasil novamente em colônia. Não somos colônia e não seremos colônia de ninguém.

Minhas amigas e meus amigos,

Um país soberano é aquele capaz de defender seu território, suas fronteiras, seu meio ambiente, suas riquezas e seu povo de quaisquer interesses estrangeiros.

Um país soberano é aquele capaz de criar as oportunidades que o seu povo precisa para conquistar a própria independência.

A independência financeira, a independência de poder estudar e pensar livremente, escolher a melhor profissão e o melhor emprego, ter mais tempo para si mesmo e para sua família.

A independência de contar, como previsto na Constituição Federal, com saúde pública de qualidade e a melhor educação gratuita para seus filhos. E de viver em um país livre da fome, da pobreza e de todas as formas de desigualdade, com direitos para todos, em vez de privilégios para poucos.

Minhas amigas e meus amigos,

O Brasil trabalha pela paz mundial e pela harmonia entre as nações. Defendemos o livre comércio. Nenhum governante estrangeiro tem o direito de dizer de quem podemos comprar e para quem podemos vender. Somos um país soberano e nossas decisões pertencem a nós e a mais ninguém.

Temos motivos de sobra para nos orgulharmos do nosso país. Temos na Amazônia uma das maiores biodiversidades do planeta. Somos exemplo na defesa do meio ambiente. Nossa riqueza cultural encanta o mundo.

Somos referência mundial em transição energética e no enfrentamento da emergência climática que ameaça o futuro da humanidade.

E temos cada um e cada uma de vocês, que formam o extraordinário povo brasileiro, um dos mais admirados em todo o planeta.

Um feliz Dia da Independência e que Deus continue abençoando o nosso Brasil.”

DCM

Brasil de tangas

0

Alguém disse, lá na casa do Zagaia, que o Brasil não é para amadores.
Deveria ter dito que também não é para especialistas.
Quem não mudou para as montanhas ou pro sertão, onde não tem sinal de TV ou Internet, está chocado.
Até quem usa chapéu de alumínio, no lugar dos neurônios funcionais, está em confusão (mesmo que nesse caso seja redundância).
Com esse tormento, fizemos dois textos sobre a Teoria das Tangas.
1. Estamos de tangas: https://ademocracia.com.br/2026/09/04/estamos-de-tangas/
2. Teoria das Tangas:
https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/uma-traducao-da-teoria-das-tangas-algumas-das-nossas-piores-chagas

E duas músicas que explicam perfeitamente a teoria jocosa das tangas:
1. Teoria das Tangas:
https://youtu.be/n_PPc7o3Je0?is=Krnb3IxYFzArcdn8
2. O povo:
https://youtu.be/wHB53O_MPI8?is=h82TMhgQojBTlkI-

O estilo de sátira, paródia, crônica caipira, é insuperável na exposição do conceito.
Aliás, a Teoria das Tangas já é conhecida da IA, como você vê nesta foto.
Ouça nossa música caipira sobre o Brasil de tangas e deixe sua opinião.

@viniciocarrilhomartinez

Uma tradução da Teoria das Tangas – Algumas das nossas piores chagas

0

@viniciocarrilhomartinez

 

O Brasil tem muitas chagas e uma delas é o atuante, reincidente diário, Pensamento escravista; aqui o racismo se nutre na sociedade, ganha impulso no capital e se aninha no Estado. Florestan Fernandes, o criador da sociologia brasileira, nos contou isso.

O Capitão do Mato é a história viva, assim como os feitores pós-modernos e os seus senhores pré-modernos. Qualquer pessoa vê isso, abrindo sua janela, tendo ensolarado um pouco sua própria visão de mundo: tirando as viseiras e fugindo das falácias do “mata-burro”, mesmo que por alguns segundos.

No Brasil, o passado é presente. Os jecas, o povo humilhado por Monteiro Lobato, têm mais direitos hoje, mas nunca teve garantido o direito de pensar. Aliás, com a educação pública que serve à rotina da opressão, nem pensar nessa história de que o povo possa pensar por si.

Aptos à formação capitalista muito pouco pura, mais parecida com um Ornitorrinco (na análise de Francisco de Oliveira) e que passa a “navalha na carne” dos rebeldes (no teatro de Plínio Marcos), capitalismo e escravismo sempre foram tipicidades alvissareiras.

No meio, no entrechoques, o coronelismo se afirmou como ponta de lança, ferina e mortal. Jorge Amado não fez apenas Meninos de Areia – ainda que seja lapidar sua contação de histórias sobre o abandono classista, racista, institucional, medíocre, na condução pública da vida popular.

Esse é o Ornitorrinco brasileiro.

Nosso Ornitorrinco é uma Hydra que Abaporu revelou em partes. Tem a cabecinha amassada pela opressão e os pés enterrados no chão escaldante da fábrica de moer ossos, porém, tem outra cabeça pontiaguda: provinda e provedora das saliências nada pudicas das hostes hostis do poder. Dos dois modos, o público é privatizado e colonizado. O efeito é o Patrimonialismo, no entanto, essa é somente a crista da onda: o redemoinho da submissão está submerso.

O corporativismo é outra das chagas históricas do estamento estatal brasileiro, também responsável pela síndrome do pequeno poder: servidores do baixo clero se julgam donos daquela minúscula parcela do negócio público que lhes cai às mãos e ali colocam seus pequeninos polegares. Suas digitais criam rotinas sem sentido, para se sentirem empoderados.

O Corporativismo torna o Estado empoeirado, atrasado, atendente apenas dos interesses escusos dos donos do poder. Dono das paróquias do pequeno poder, o Judiciário é inabalável na condução paroquial, provinciana, cartorial, da desmotivação republicana nacional.

Temos Raimundo Faoro (jurista clássico) para entender isso.

No caso do Judiciário, pensamos que é pior; pois, as posições são mantidas como nas castas, com tudo que o sistema de castas permite. Especialmente o foro privilegiado, apaniguado pelos amigos num eterno “toma lá, dá cá”.

Portanto, no miolo de uma das piores crises morais do Supremo Tribunal Federal, hoje, nós só fulanizamos o que é uma das piores e mais densas distorções institucionais geradas por séculos de escravismo institucional, ao longo da formação social brasileira.

O foro privilegiado, assim como os penduricalhos judicados, não funciona como foro das garantias constitucionais, protetivas em favor do juízo republicano, mas, sim, instituem o seu oposto, mantendo-se a rotina da distorção funcional, os abusos de poder, o enriquecimento ilícito.

Essa é uma explicação conceitual da Teoria das Tangas[1], muito evidenciada desde a permissiva reeleição de FHC e a negação da fruição dos direitos sociais fundamentais: o primeiro golpe à Constituição (veja-se o iluminado Paulo Bonavides).

Depois, seguimos pela Lava Jato e o Golpe de 2016: o ápice da quietude incondicional do mesmo STF (cúpula da casta) e que agora se arrasta na lama do julgamento popular.

Afinal, amigos que julgam amigos mantém os rabos presos.

A identidade desses podres poderes sempre vem depois da célebre frase: “Sabe com quem está falando?”. É claro que, quem nunca fala é o povo ou, quando fala, é absolutamente ignorado.

Pois bem, assim vigora a sina do “Sabe com quem está falando?”. O reverso dessa frase é o “salve-se quem puder”. Porque, é óbvio, a regra de ouro do Estado de Direito que nunca existiu ensina que, “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Machado de Assis sempre nos disse que este é o lema da nossa inabalável “Sereníssima república” (paródia antirrepublicana) e prestadora de serviços indizíveis publicamente. Mas que são comezinhos no antepasto da antessala de qualquer julgador sem honra, escrúpulos e princípios.

Os marajás e os “caçadores de maracujás” sempre existiram, com ou sem impeachment, e sempre existirão, enquanto vigorar o “Espírito Público” de que: “Se a regra é dura, passo por baixo; se a regra é frouxa, passo por cima”.

Não é difícil ver, de modo mimético ao boi e à gadaiada quando furam as pastagens, que o Brasil vai na contramão e ladeira abaixo.

Por fim, na saideira de quem é o último a apagar as luzes, fiquemos com a maestria da canção de Zé Ramalho:

“Oh, boi!

Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber

           …

           Eh, oh, oh, vida de gado

Povo marcado, eh!

Povo feliz!”

(Admirável Gado Novo)

 

E também a nossa, que é do Povo – prescrito para ser proscrito: https://www.youtube.com/watch?v=wHB53O_MPI8.

 

[1] https://ademocracia.com.br/2026/09/04/estamos-de-tangas/.

Estamos de tangas

0

 

@viniciocarrilhomartinez

Joaquín é um espanhol que nasceu em outro país.

Joaquín tem algumas parcerias, um é a Pepa – que a história abraçou faz um tempo – e a moça que chama Joaquín de véi: a moça também foi alcançada pela história. Assim eles vão.

Nesta semana os três trocaram opiniões sobre causos daqui. Uns babados, alguns cabeludos, outros não, como se diz. Joaquín mesmo não tem cabelo algum.

Os causos envolvem “otoridades” que se lascaram um tanto. Eram autoridades, por algum motivo meio aleatório do poder e da sorte. Hoje são apenas otoridades, como falam os pobres caipiras e sertanejos.

O trio da amizade, Joaquín, Pepa e a moça, ficou chocado, um pouco mais, um pouco menos, com a sujeira que as otoridades estão fazendo. As estripulias são daquelas que lembram brigas de crianças – quando todas as crianças de tangas apanham, para nenhuma rir da outra.

Joaquín, depois de mastigar a informação malcheirosa, lembrou de outro babado – desses de gente que baba mesmo –, de uns tempos atrás, acontecido nesse país que não é a Espanha. Lá acontece também, mas não foi dessa vez.

Naquele babado antigo, das gentes que babam e não usam babador – iguais a hoje –, um sujeito indignado com tanta baba, pegou um microfone em praça pública e gritou bem alto: “Estamos de tangas!!!”.

“ESTAMOS DE TANGAS!!!”.

As tangas, como todos sabem, simbolizam o causo do indivíduo ser pego de calças curtas, meio arriadas, numa visão de mundo popular. De calças arriadas, normalmente até os joelhos, o sujeito pode fazer muitas coisas, mas não pode correr, nem se defender. E fica preso em sua própria imagem. Convenhamos que não é uma imagem muito agradável.

Joaquín disse – e perguntou – para Pepa e para a moça, que chama ele de véi, se as nossas otoridades não foram, também elas, pegas de calças curtas, arriadas até à canela.

Nesse caso, que a visão de mundo popular não recomenda que se veja, estariam todas essas otoridades de tangas curtas e enlameadas. Parece até que ligaram o ventilador de coisa ruim.

Joaquín pensa que “estamos de tangas”, talvez nem tenhamos trocado de tangas. Talvez ainda sejam as tangas surradas, engomadas pelas coisas feias do passado, lastimosas porque assim não há futuro.

“ESTAMOS DE TANGAS!”.

Não que tenha pesadelos, mas Joaquín acorda com essa frase na cabeça. Diz para a Pepa e para a moça, que atormenta ele chamando de véi, que precisamos de uma Teoria das Tangas.

A explicação sociológica do país passaria pela boa fundamentação dessa Teoria das Tangas, pois seria a história nacional das calças curtas e enlameadas. Isso acontece quando não mais se pode esconder a sujeira dentro dos bolsos. Ou porque a tanga é curta demais.

Nessa cena que desagrada qualquer visão de mundo, o indivíduo fica se parecendo com o Rei nu. (A música diz que está com a mão no bolso – vai saber…).

Em todo caso, Joaquín também acredita que não há tangas para todo mundo e, em algum momento, poderemos ter uma briga de cachorro louco para ver quem domina o mercado das pulgas e das tangas. Há quem prefira tangas com miçangas.

Joaquín, o espanhol que nasceu em país errado, teria uma receita imediatista, paliativa, mas que pode funcionar. Como se fez com o imposto das blusinhas, é preciso fazer com as tangas. É preciso zerar a tributação das tangas, importar algumas da Argentina – lá tem bastante – e abastecer o nosso mercado. Seria tipo zerar, acabar com o “imposto das tangas”.

Não se sabe se essa teoria será algum dia melhor esmiuçada, talvez seja, talvez se desista da empreitada porque haveria muita roupa suja para lavar. Essas roupas dos países baixos são da alcunha de cada ser. Não é razoável que o povo ainda tenha que lavar a sujeira dos outros.

É, pensando bem, talvez não se fale mais da Teoria das Tangas – não há benefícios populares –, mas, uma coisa é certa: o país passou a acordar de tangas e enfezado.

 

 

Milhões cobrados por Flávio Bolsonaro a Vorcaro foram enviados a aliados de Eduardo Bolsonaro, aponta delator

Dezenas de milhões de dólares que teriam sido solicitados pelo senador Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, foram enviados a uma estrutura financeira nos Estados Unidos administrada por um advogado ligado a Eduardo Bolsonaro. As informações constam da delação premiada de Antônio Carlos Freixo Júnior, operador financeiro de Vorcaro, segundo o blog de Fausto Macedo.

De acordo com o relato do delator, Flávio Bolsonaro teria solicitado US$ 24 milhões a Vorcaro para o financiamento da produção. Conversas e documentos entregues às autoridades indicariam que pelo menos US$ 10,6 milhões foram efetivamente pagos por meio do fundo Havengate, sediado no Texas.

Freixo Júnior afirmou que os recursos transferidos ao fundo americano tiveram origem em Vorcaro e que sua participação teria consistido em executar as operações determinadas pelo banqueiro. O delator declarou não saber qual foi a utilização final do dinheiro depois que os valores chegaram aos Estados Unidos.

Dinheiro teria passado pelas Bahamas antes de chegar ao Texas

Os documentos apresentados pelo delator descrevem um caminho financeiro complexo. Segundo as informações fornecidas às autoridades, os recursos teriam saído da Entrepay, passado pelas Bahamas e posteriormente chegado ao Texas.

Freixo Júnior teria apresentado registros de transferências internacionais e operações de câmbio relacionadas aos pagamentos. A movimentação chamou a atenção das autoridades e está sob investigação diante da suspeita de possíveis irregularidades, incluindo eventual evasão de divisas.

O fluxo atípico de recursos do Brasil para os Estados Unidos também teria entrado no radar do Banco Central. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar os pagamentos, seu enquadramento legal e o destino efetivo do dinheiro.

Uma das linhas de apuração é saber se parte desses valores pode ter sido utilizada para custear despesas relacionadas à permanência e às atividades de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

Delator diz que apenas cumpriu ordens de Vorcaro

Freixo Júnior, apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro, firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República. O acordo ainda aguarda homologação pelo Supremo Tribunal Federal.

Em seu relato, ele procura delimitar sua participação nas operações. Afirma que executou determinações de Vorcaro e apresentou documentação sobre as transferências, mas sustenta que desconhecia a destinação final dos recursos depois de sua chegada aos Estados Unidos.

As declarações do colaborador ainda precisam ser confrontadas com provas independentes. Pela legislação brasileira, uma delação premiada, isoladamente, não basta para comprovar uma acusação, e os fatos narrados pelo colaborador dependem de investigação e corroboração documental.

Prestação de contas do filme permanece sob questionamento

O caso também envolve a produtora responsável por Dark Horse. Segundo Andreazza, a perícia realizada sobre a produtora não confirmou a prestação de contas que havia sido prometida por Flávio Bolsonaro em relação ao financiamento do filme.

Esse ponto ganha importância diante dos valores mencionados nas conversas entregues às autoridades. A investigação deverá estabelecer quanto efetivamente foi transferido, quem foram os beneficiários dos pagamentos, como os recursos foram contabilizados e qual relação existia entre as transferências e a produção cinematográfica.

Também caberá aos investigadores esclarecer por que os valores teriam percorrido estruturas financeiras em diferentes jurisdições antes de chegar ao fundo no Texas e se todas as operações cambiais e remessas internacionais obedeceram à legislação brasileira.

As revelações acrescentam uma nova frente às investigações relacionadas a Daniel Vorcaro e ao Banco Master. Agora, além da origem dos recursos, as autoridades procuram reconstruir o caminho percorrido pelo dinheiro e determinar quem foram seus beneficiários finais nos Estados Unidos.

Lula anuncia que zerou fila do INSS

Estoque de pedidos caiu de 3,1 milhões no início do ano para 1,252 milhão em agosto; casos acima de 45 dias recuaram de 1,9 milhão para 235 mil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta quinta-feira (3) que o governo considera zerada a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A declaração foi feita no Palácio do Planalto, durante a apresentação dos resultados das medidas adotadas para acelerar a análise de aposentadorias, pensões, auxílios e benefícios assistenciais.

O anúncio utiliza um novo critério para definir o fim da fila. Em 31 de agosto, o INSS contabilizava 1,252 milhão de requerimentos pendentes, número inferior aos 1,394 milhão de novos pedidos recebidos naquele mês. O governo sustenta que essa relação demonstra que o instituto passou a administrar um fluxo regular de atendimento.

Isso não significa, porém, que todos os requerimentos tenham sido analisados. O balanço apresentado na cerimônia registrava 235 mil processos sem resposta havia mais de 45 dias, prazo anteriormente utilizado para classificar os pedidos atrasados. Outros 640 mil eram solicitações recentes e 378 mil dependiam da apresentação de documentos pelos segurados.

Os pedidos com mais de 45 dias caíram 87% desde janeiro, quando chegaram a aproximadamente 1,9 milhão. O estoque total alcançou 3,1 milhões no início de 2026. Em julho, o instituto recebeu 1,4 milhão de solicitações e concluiu 1,6 milhão, enquanto o tempo médio de análise recuou para 34 dias.

“A gente não quer acabar com a fila, porque isso significaria que ninguém mais reivindica o direito. O que a gente quer é humanizar a fila, garantindo o tempo correto para dar entrada, esperar e receber o benefício”, afirmou Lula.

O presidente disse que a prioridade deve ser oferecer uma resposta rápida, inclusive quando o segurado não reúne os requisitos exigidos. Para Lula, esperar meses por uma negativa prolonga o sofrimento e impede que a pessoa procure os documentos necessários ou recorra da decisão.

A redução foi impulsionada por mutirões, pagamento de bônus, reforço do quadro de servidores, teleatendimento e análise documental de benefícios por incapacidade. O governo também priorizou pedidos iniciais no Programa de Gerenciamento de Benefícios e ampliou o uso do Atestmed.

Lula aproveitou o evento para rejeitar a responsabilização da Previdência pelo déficit público. O presidente contrapôs as despesas previdenciárias ao pagamento de juros da dívida e contestou o argumento de que aumentos reais do salário mínimo ameaçam as contas do sistema.

“Eu nunca aceitei jogar a responsabilidade do déficit em cima da Previdência Social e não vou aceitar. Se houver incompatibilidade entre receita e despesa, a gente discute e acerta”, declarou.

Ao defender o BPC, o Bolsa Família e as aposentadorias, Lula afirmou que a proteção social não deve ser tratada apenas como despesa. “Isso não é gasto. É obrigação de um Estado civilizado garantir que todos possam tomar café, almoçar e jantar todos os dias”, disse.

O Tribunal de Contas da União reconheceu avanços, mas manteve a concessão e o pagamento de benefícios na Lista de Alto Risco da administração pública. O órgão apontou problemas de tecnologia, automação e capacidade de processamento, além da dependência de programas extraordinários, e determinou a continuidade da fiscalização em um novo processo.

Do Brasil 247 e

Toffoli suspende Renan Santos em debates, propaganda na TV e veta verbas do fundo eleitoral

O ministro Dias Toffoli, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), suspendeu a propaganda eleitoral da chapa de Renan Santos, do Missão, em perfis de redes sociais que não foram informados à Justiça Eleitoral. A decisão, tomada no domingo (30) e divulgada nesta segunda (31), também bloqueou repasses do Fundo Eleitoral e a participação da candidatura em debates de rádio, televisão, podcasts e outros meios de comunicação.

A medida alcança Renan Santos e o candidato a vice-presidente Aroldo Medina. Toffoli é o relator do pedido de registro da chapa e já havia adiado o julgamento da candidatura no fim de semana por indícios de irregularidades na indicação das contas usadas para propaganda digital.

O ministro apontou uma “omissão estratégica” dos candidatos ao demorarem a apresentar todas as redes sociais utilizadas pela campanha. A legislação exige que postulantes informem, no pedido de registro, as contas que pretendem usar para divulgar conteúdo eleitoral.

Renan e Medina enviaram à Corte documentos com 18 contas em redes sociais em 19 de agosto. No pedido de registro apresentado no dia 7, porém, a chapa havia informado somente uma conta na rede X e um site.

O ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli. Foto: Andressa Anholete/STF

Toffoli aponta risco ao controle da propaganda digital

Para o relator, a entrega tardia das informações não equivale a uma simples correção documental. “Cabe, então, explicitar que a omissão estratégica da informação sobre as redes sociais, fundante de toda a legitimidade da campanha digital a ser desenvolvida, denota, por si, descompromisso com aqueles bens jurídicos”, afirmou.

Toffoli avaliou que o candidato que omite perfis de campanha e apresenta os dados depois do prazo desvia a finalidade da regra eleitoral. A norma busca permitir a fiscalização pública e legal das contas que impulsionam ou distribuem conteúdo em nome das candidaturas.

O ministro afirmou que redes não declaradas podem se beneficiar de “algoritmos opacos” e escapar do controle previsto para a disputa. “Dissimulam-se como usuários comuns, transitando à margem do espaço legítimo de disputa no ambiente digital”, escreveu.

Na decisão, Toffoli destacou que a campanha dura cerca de 45 dias e que as redes sociais permitem a divulgação contínua de conteúdo para um número elevado de usuários. Renan Santos cumpriu agenda em São Paulo nesta segunda-feira (31) e convocou uma coletiva de imprensa para a tarde, mas ainda não havia se pronunciado publicamente sobre a suspensão.

DCM

Hang é investigado por assédio eleitoral após discurso defendendo escala 6×1

O Ministério Público do Trabalho (MPT) abriu uma Notícia de Fato para investigar uma possível prática de assédio eleitoral após receber uma gravação de Luciano Hang, dono da Havan e apoiador de Jair Bolsonaro, falando a funcionários da rede sobre a proposta de fim da escala 6×1. O encontro ocorreu em uma loja de Caldas Novas, em Goiás.

No vídeo, Hang afirma que a mudança na jornada elevaria os custos trabalhistas, reduziria o poder de compra dos empregados e os levaria a procurar outra fonte de renda. Ao atacar a proposta, ele a chama de “estelionato eleitoral” e associa o debate à disputa pelo voto dos trabalhadores nas eleições de outubro.

O MPT tomou conhecimento da gravação na segunda-feira (31) e determinou a abertura do procedimento. O órgão informou que a apuração ainda está na fase inicial e não divulgou outros elementos sobre o caso.

Em sua fala, o empresário calcula que o custo de mão de obra da Havan poderia subir 15% se a proposta avançar. “Se você ganhar a mesma coisa e os produtos vão subir 10 a 15%, vocês vão ter um poder de compra menor”, disse aos trabalhadores.

 

Hang disse que empregados teriam de buscar outra ocupação

Hang afirmou que os funcionários teriam de procurar “outro emprego” caso não pudessem trabalhar mais de cinco dias por semana na empresa. Ele também mencionou a hipótese de um “subemprego”, sem registro em carteira e sem direitos como 13º salário e férias.

A fala ocorreu às vésperas da votação, nesta quarta-feira (02), na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de seis dias de trabalho para um de descanso. A medida integra as bandeiras defendidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição.

A defesa de Hang não respondeu ao pedido de manifestação. A Havan e o empresário já enfrentaram decisões da Justiça do Trabalho por episódios ligados à influência política sobre empregados durante as eleições de 2018.

Em janeiro de 2024, a Justiça do Trabalho de Santa Catarina condenou Hang e a Havan por assédio eleitoral naquele episódio e fixou R$ 1 milhão por dano moral coletivo, além de R$ 1 mil para cada empregado que tinha vínculo com a empresa até 1º de outubro de 2018. Mais recentemente, em fevereiro de 2025, a Havan recorreu de uma condenação que determinou indenização de R$ 5.960 a uma funcionária de uma unidade em Jacareí, no interior paulista.

DCM

Posfácio Ciência com consciência 

0

Ao longo deste livreto, buscou-se discutir algumas das principais reflexões desenvolvidas por Edgar Morin em Ciência com Consciência, obra originalmente publicada em 1990 e posteriormente revisitada em diferentes edições. O percurso aqui realizado procurou ir além de uma simples revisão de conceitos, buscando compreender a ciência como uma atividade profundamente humana, histórica e social, não apenas o conhecimento pelo conhecimento, mas como uma aventura humana, atravessada por escolhas, valores, responsabilidades e consequências.

Reside aí uma das maiores contribuições da obra. Ao questionar a fragmentação do conhecimento, a excessiva especialização dos saberes e a pretensão de neutralidade frequentemente associada ao discurso científico, Morin nos convida a reconhecer que a ciência não se desenvolve à margem da cultura, da política ou da ética. Ciência e sociedade não ocupam territórios distintos; influenciam-se mutuamente, em uma relação contínua de construção, transformação e reinvenção. Nesse sentido, a obra ultrapassa os limites de uma reflexão estritamente epistemológica para propor uma atitude de vigilância crítica sobre os modos pelos quais produzimos, organizamos e utilizamos o conhecimento.

Ao longo das discussões aqui apresentadas, procurou-se destacar justamente essa defesa de uma ciência capaz de refletir sobre si mesma. Não uma ciência sacralizada ou convertida em dogma, mas consciente de seus limites, de suas incertezas e de seus impactos. Em um mundo marcado por problemas cada vez mais complexos e interdependentes, tal perspectiva permanece não apenas relevante, mas necessária.

Após essa breve retomada, parece oportuno compartilhar também algo sobre o próprio processo de elaboração deste livreto. Afinal, assim como a ciência descrita por Morin, este texto também foi construído em movimento, entre leituras, revisões, diálogos e dúvidas. À medida que os capítulos eram produzidos, versões preliminares foram sendo compartilhadas para leitura e discussão, permitindo avaliar não apenas a consistência das interpretações apresentadas, mas sobretudo a clareza do texto e sua capacidade de comunicar ideias complexas a leitores em diferentes estágios de formação.

Tal preocupação surgiu de uma inquietação simples: quantas vezes trabalhos acadêmicos de grande relevância tornam-se inacessíveis justamente pela linguagem que utilizam? Não porque lhes falte qualidade, mas porque acabam aprisionados em uma verdadeira selva de letras, que dificultam sua circulação para além dos espaços especializados. Tornar um texto epistemologicamente rigoroso mais acessível sem reduzir sua complexidade revelou-se um desafio constante ao longo deste percurso.

Durante uma dessas leituras preliminares surgiu um comentário despretensioso: “a ciência vai transparecendo na linguagem”. A observação foi breve, quase casual, mas permaneceu ecoando, talvez por sintetizar algo que o próprio Morin procurou demonstrar em sua obra: a ciência não existe separada dos sujeitos que a produzem. Ela aparece nas palavras que escolhemos, nas perguntas que formulamos, nos silêncios que preservamos e até mesmo na maneira como organizamos nossos pensamentos. A consciência, nesse sentido, não se restringe aos conteúdos científicos, mas atravessa a própria forma de pensar e de habitar o mundo.

Esta experiência esteve diretamente vinculada à disciplina Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS 001), ofertada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) durante o primeiro semestre de 2026. Ao longo da disciplina, diferentes autores e perspectivas foram mobilizados para discutir as múltiplas relações entre ciência, tecnologia e sociedade.

A leitura da obra desenvolveu-se por meio de seminários e discussões semanais que possibilitaram o diálogo entre as proposições de Morin e outros referenciais estudados ao longo do curso. Mais do que um exercício individual, tratou-se de uma construção compartilhada de interpretações, inquietações e descobertas. Por essa razão, gosto de pensar este livreto como uma obra feita a muitas mãos. O autor do livreto costuma dizer que alguns trabalhos são escritos “a quatro mãos”, quando elaborados por duas pessoas, ou “a seis mãos”, quando construídos por três autores. Este, porém, escapa a qualquer cálculo preciso. Embora a escrita tenha partido de um único autor, suas páginas carregam contribuições de vários diálogos e reflexões compartilhadas ao longo do percurso.

Considerando os aspectos para além do racional, como acontece com muitas experiências intelectuais, a elaboração deste livreto acabou encontrando também a dimensão afetiva. Sua conclusão coincidiu com um momento marcante: o falecimento de Edgar Morin, em maio de 2026. Durante os meses que antecederam esse acontecimento, sua obra esteve presente em leituras, debates e conversas que frequentemente ultrapassavam os limites da sala de aula. Entre cafés, refeições, chocolates e momentos cotidianos, Morin tornou-se uma companhia constante. Por alguns meses, suas ideias passaram a habitar o cotidiano daqueles que se dispuseram a percorrer suas páginas, para pessoas que nem mesmo o conheciam.

A coincidência temporal entre o encerramento desta leitura coletiva e a despedida de seu autor convida à reflexão sobre a permanência das obras para além da existência daqueles que as escreveram. Embora a morte marque o término físico de uma vida, ela não encerra necessariamente os diálogos que um pensamento é capaz de suscitar. Pelo contrário, algumas ideias permanecem vivas justamente porque continuam produzindo questionamentos.

Talvez resida aí uma das maiores contribuições de Ciência com Consciência. Em um mundo atravessado por transformações tecnológicas aceleradas e por disputas em torno da produção e da legitimidade do conhecimento, as reflexões propostas por Morin mantêm sua capacidade de provocar questionamentos e estimular novas formas de compreender a relação entre ciência, sociedade e humanidade.

Nesse contexto, a defesa de uma ciência dotada de consciência permanece como um convite à reflexão crítica, à responsabilidade coletiva e ao compromisso com formas mais integradas e humanas de compreender e transformar realidades. Afinal, a humanidade não se constituiu apenas por sua capacidade de criar ferramentas ou desenvolver técnicas, mas também pela possibilidade de refletir sobre suas próprias criações, reconhecer seus limites e assumir responsabilidade por suas consequências, como uma grande simbiose. Talvez seja justamente essa consciência, em constante construção, que continue representando um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores potencialidades das gerações presentes e futuras.

 

Ester Dias da Silva Batista – bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

5

Laranjas ou bananas – qual é a preferência do cientista?

0

@viníciocarrilhomartinez

“A cada escolha uma renúncia. Isso é vida” (Charlie Brown).
Isso é fato. Como 2 e 2 são 4.
Afinal, se somos capazes de escolher entre laranjas e bananas, mesmo gostando de ambas, é sinal claro de que entendemos as diferenças básicas entre as duas frutas. Por exemplo, a laranja é uma fruta cítrica e pode não fazer bem a todos.
Porém, seja qual for a escolha, laranjas ou bananas, há resultados e é preciso viver com isso. Bons ou maus.
Todo e qualquer resultado é consequência das nossas escolhas, e sobre isso não gostamos de passar.
Assim, se com a ciência não pode ser diferente, porque as escolhas dos cientistas segue a mesma lógica simples das coisas (laranjas ou bananas?), como falar de ciência sem consequência, sem resultado?
Não faz sentido – e mesmo que tal cientista não goste de laranjas ou de bananas, suas escolhas irão impor renúncias.
Por isso, sem saber das consequências, não há consciência e entendimento de como as coisas funcionam. Neste caso, o empreendimento científico pode ocorrer sem que saiba adequadamente (até de olhos vendados) o que é uma laranja e o que é uma banana. E isso não seria caótico, seria desastroso.
Desse modo, sem saber disso, das próprias regras do jogo, aquelas regras que definiram na nossa infância, é impossível saber qual é o objeto: laranjas ou bananas?
Aqui, é possível arriscar duas perguntas simples: Se não sabemos qual é o nosso objetivo, como é que faremos escolhas minimamente racionais, lógicas? Como pode haver objetivo se não temos clareza do objeto – é laranja ou banana?
Ou seja, sem consciência do que move nossas escolhas, do que se escolhe, porque se aceita outras renúncias, e depois sobre como se age a partir das escolhas (um “saber reconhecer as consequências”), não há sequer sentido no objeto – esse objeto que sempre advirá desse jogo da vida, entre escolhas e renúncias.
Sem conhecer o objeto, sem domínio dos objetivos (consequências), resta um saber vazio, sem controle das suas funções e dos significados básicos.
É um saber sem poder.
Especialmente porque não se sabe o que pode acontecer.
Portanto, sem consciência (das consequências = conhecimento do objeto) não há ciência.
Essa capacidade de jogar a partir das regras do jogo, ter consciência mínima do que fazemos – em função do que escolhemos entre bananas ou laranjas, se essas escolhas nos fazem bem ou mal –, resulta em outra capacidade: a avaliação das escolhas feitas e das suas consequências.
Isso é parte essencial da vida adulta e é claro que não se exige das crianças a mesma visão de mundo.
Mas, então, será que temos consciência das consequências das nossas escolhas (dos nossos atos)?
Se sim, podemos pensar em termos de uma “consciência da consciência”.
Mas, será que todos que se aplicam à ciência têm essa consciência acerca da sua própria consciência?
No limite das nossas vidas, estamos sempre escolhendo entre laranjas e bananas – especialmente para que não haja confusão entre alhos (atos) e bugalhos (consequências).
Entre o bem e o Mal haverá uma dialética forçada pelo imponderado, inesperado, que vem do caos.
Assim como há o mal que vem para o bem e um inferno poluído de boas intenções, “há ciências e ciências”.
Mas, esse é outro assunto.
Primeiro precisamos saber com alguma precisão o que diferencia a laranja da banana.
Nem sempre a salada de frutas é uma opção e, mesmo que seja, talvez alguém ainda tenha que retirar a laranja ou a banana…

Bolsonaristas tentam impedir votação do fim da escala 6×1 no Senado

Presidente Lula firmou com Motta e Alcolumbre acordo para votação da ‘taxa das blusinhas’, da regulamentação dos minerais críticos e do Redata, além da PEC da Segurança

Parlamentares de oposição ao presidente Lula (PT) e aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tentam articular uma reunião com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). A iniciativa visa impedir que o Congresso Nacional avance na votação de propostas defendidas pelo governo federal, segundo o jornal O Globo

A movimentação oposicionista ocorre às vésperas do último esforço concentrado de votações antes do pleito. Na quarta-feira (26), Lula, Motta e Alcolumbre fecharam um acordo abrangente para destravar iniciativas prioritárias para o Palácio do Planalto. Em resposta, a bancada bolsonarista busca agendar um encontro com os chefes das duas Casas Legislativas na próxima semana para tentar conter os avanços das matérias.

“Vamos falar com os presidentes na semana que vem”, afirmou o líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ).

O acordo entre governo e cúpula do Congresso

No acerto firmado entre o Executivo e os presidentes da Câmara e do Senado, ficou definido que a Medida Provisória que encerra a chamada “taxa das blusinhas” terá toda a sua tramitação concluída no Congresso na próxima semana.

Além disso, os líderes selaram pacto para levar ao plenário do Senado o projeto de lei que regulamenta a exploração de minerais críticos e a proposta que cria o Redata, o plano nacional de incentivos voltado ao setor de centros de dados (data centers).

No tocante às duas propostas de maior impacto popular — a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1 e a PEC da Segurança Pública, que reforça a atuação da União no setor —, o entendimento firmado prevê a análise dos relatórios na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, sem compromisso imediato de votação em plenário.

Estratégias da oposição contra as PECs

O foco principal dos parlamentares de oposição é barrar o andamento das duas PECs. Evitando o confronto direto contra o mérito das matérias por conta do apelo popular das pautas, os oposicionistas sustentam a tese de que os temas são complexos e não deveriam ser analisados de forma célere durante o período eleitoral.

O próprio presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ponderou após a reunião com o presidente Lula que as duas propostas “merecem, sim, o debate, o diálogo, a discussão e a deliberação”, sem cravar prazos de votação em plenário.

Para alterar o escopo das propostas, senadores aliados de Flávio Bolsonaro já formalizaram diversas emendas:

  • PEC do Fim da Escala 6×1: O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) apresentou emenda que replica o texto alternativo de autoria do senador Rogério Marinho (PL-RJ), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro. Pelo texto sugerido, a redução da jornada e a compensação de horários seriam flexibilizadas por meio de convenção coletiva.
  • PEC da Segurança: A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) propôs alteração para fortalecer a autonomia dos estados, sugerindo descentralizar a legislação penal para permitir que os governos estaduais legislem sobre direito penal e processual no combate ao crime organizado.

Além de apresentar emendas, parlamentares bolsonaristas avaliam destacar trechos das propostas para votação em separado no plenário.

Posição dos relatores e peso eleitoral

Mesmo com as pressões da oposição, os relatores designados na CCJ do Senado — o senador Omar Aziz (PSD-AM) para a PEC da Escala 6×1 e o senador Rogério Carvalho (PT-SE) para a PEC da Segurança — declararam que pretendem manter integralmente os textos aprovados na Câmara dos Deputados. A medida visa conter mudanças regimentais que forçariam o retorno das matérias à análise dos deputados.

Tanto a reforma na escala de trabalho quanto o novo modelo de segurança pública são constantemente destacados pelo presidente Lula em seus compromissos públicos. A PEC do fim do 6×1 é vista como um importante ativo junto aos trabalhadores, enquanto a PEC da Segurança é apontada pelo governo federal como a resposta institucional necessária ao enfrentamento das facções criminosas.

Do Brasil 247

Lula mantém liderança na pesquisa BTG/Nexus, com 41%, contra 37% de Flávio Bolsonaro

 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mantém a liderança na disputa pela Presidência da República, segundo nova rodada da pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (24). No cenário estimulado de primeiro turno, Lula aparece com 41% das intenções de voto, contra 37% de Flávio Bolsonaro (PL).

Os números indicam estabilidade de Lula em relação à rodada anterior do levantamento. O presidente permanece com os mesmos 41%, enquanto Flávio Bolsonaro oscilou um ponto para cima, de 36% para 37%. Com isso, a diferença entre os dois principais candidatos passou de cinco para quatro pontos percentuais.

A pesquisa reforça também a forte concentração da disputa presidencial em torno das candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro. Somados, os dois alcançam 78% das intenções de voto no cenário estimulado, enquanto nenhum dos demais candidatos supera a marca de 5%.

Caiado aparece em terceiro lugar

Ronaldo Caiado (PSD) aparece na terceira posição, com 5%, um ponto percentual acima da rodada anterior. Renan Santos (Missão) tem 3%, após recuar um ponto, mesmo percentual registrado por Romeu Zema (Novo), que também perdeu um ponto.

Augusto Cury (Avante) aparece com 2%, um ponto acima do levantamento anterior, enquanto Samara Martins (UP) registra 1%, mantendo seu percentual.

Os eleitores que dizem votar em nenhum candidato, branco ou nulo representam 5% da amostra. Outros 3% não souberam ou não responderam.

O levantamento mostra, portanto, uma corrida fortemente polarizada. Lula e Flávio Bolsonaro ocupam um patamar muito distante dos demais concorrentes, enquanto as candidaturas alternativas continuam sem demonstrar, até o momento, capacidade de romper a barreira de um dígito.

Na espontânea, Lula abre sete pontos

A liderança de Lula fica mais ampla quando os entrevistados são questionados sobre sua preferência sem que os nomes dos candidatos sejam apresentados.

Na pesquisa espontânea, Lula registra 38% das intenções de voto, mantendo o mesmo percentual da rodada anterior. Flávio Bolsonaro aparece com 31%, dois pontos acima da pesquisa passada.

Assim, mesmo com o avanço do candidato do PL, Lula conserva uma vantagem de sete pontos percentuais na espontânea, modalidade considerada relevante para medir o grau de consolidação das candidaturas na memória do eleitor.

Renan Santos aparece com 2%, após recuar um ponto. Ronaldo Caiado também registra 2%, mantendo-se estável, e Romeu Zema chega a 2%, um ponto acima da rodada anterior. Outros candidatos, somados, recebem 4% das citações.

Brancos, nulos ou eleitores que espontaneamente dizem não escolher nenhum candidato representam 6%. O percentual de entrevistados que ainda não sabem ou não responderam é de 15%, dois pontos abaixo da rodada anterior.

Lula demonstra estabilidade

A nova rodada indica sobretudo estabilidade do presidente na corrida eleitoral. Lula mantém exatamente os mesmos percentuais tanto na pesquisa estimulada, com 41%, quanto na espontânea, com 38%.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, registra crescimento numérico nas duas modalidades: passa de 36% para 37% na estimulada e de 29% para 31% na espontânea.

Na rodada anterior do BTG/Nexus, divulgada em 17 de agosto, Lula tinha 41% e Flávio Bolsonaro, 36%, enquanto Caiado aparecia com 5%, Renan Santos com 4% e Zema com 4%.

A sequência dos levantamentos mostra que a eleição presidencial segue estruturada em torno dos dois principais polos, mas Lula permanece à frente. A capacidade dos demais candidatos de conquistar espaço entre os eleitores será um dos fatores decisivos para determinar a dinâmica da campanha até o primeiro turno.

“Minha conversa com o Trump é muito civilizada, mas o segundo escalão toma atitudes impensáveis”, diz Lula

Ao detalhar os bastidores da recente interlocução diplomática com a Casa Branca, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou o tom pragmático e respeitoso mantido no diálogo direto com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em entrevista exclusiva à Record, o mandatário brasileiro fez questão de diferenciar a postura do líder norte-americano da conduta adotada pela burocracia e pelos assessores de Washington, aos quais atribuiu decisões desproporcionais e ruídos desnecessários na relação bilateral.

O contraste entre a cúpula e a assessoria

Lula relatou ter conversado por cerca de 1 hora e 20 minutos com Donald Trump para tratar de temas cruciais da pauta econômica e geopolítica, incluindo barreiras tarifárias, minerais críticos e cooperação contra o crime organizado. Segundo o presidente brasileiro, o entendimento no nível presidencial foi produtivo e imediato, contrastando com as ações tomadas pelos escalões inferiores:

“Eu não sei se é o governo americano, se é o Trump ou se é a assessoria do Trump. Eu às vezes tenho a impressão de que o Trump é bem melhor na relação política do que a assessoria. A minha conversa com o Trump é muito civilizada, é muito respeitosa, tanto da minha parte quanto da parte dele. Mas depois o segundo escalão toma atitudes que são impensáveis. E aí nós não podemos aceitar intromissão de um país, quem quer que seja, nas coisas do Brasil.”

O presidente enfatizou que a soberania nacional é inegociável e rechaçou qualquer tentativa de tutela ou imposição externa.

Reação ao tarifaço e argumentos infundados

Durante a conversa com o presidente norte-americano, Lula contestou diretamente os pretextos utilizados por setores do governo dos Estados Unidos para justificar a imposição de tarifas contra as exportações brasileiras:

  • Sustentabilidade Comprovada: O mandatário apontou a redução histórica nos índices de desmatamento no Brasil, rebatendo alegações infundadas sobre a política ambiental do país.
  • Direitos Trabalhistas: Lula refutou categoricamente narrativas de que o comércio brasileiro estaria vinculado a práticas abusivas de trabalho, ressaltando sua trajetória histórica na defesa dos direitos trabalhistas.
  • Canais Diretos: Como resultado imediato da ligação com Trump, os canais de comércio exterior de ambos os governos foram acionados para uma rodada técnica de negociações, buscando reverter entraves e distorções tarifárias.

Minerais críticos: fim do modelo colonial de exportação

Além das questões tarifárias, Lula apresentou a Washington uma proposta estratégica para a exploração de terras raras e minerais críticos, estabelecendo uma clara linha vermelha: o Brasil não aceitará atuar como mero exportador de matéria-prima bruta.

“Nós entregamos um documento por escrito. Estamos dispostos a trabalhar na questão da exploração de minérios críticos e terras raras, só que desta vez a gente não vai ser exportador de matéria-prima. Nós queremos transformar aqui dentro para produzir celulares, baterias elétricas e semicondutores.”

Com essa diretriz, o presidente reiterou que a relação com os Estados Unidos deve ser orientada pelo respeito mútuo, pelo desenvolvimento industrial compartilhado e pela afirmação altiva dos interesses estratégicos do Brasil no cenário global.

]
Brasil247

Ideologia da Opressão – a negação do pensamento inclusivo

0

@viniciocarrilhomartinez

A ideologia tem muitos significados, e um deles se confirma como um pensamento intrusivo e inconclusivo. Como intruso, esse pensamento vem sendo depositado há séculos; ou é admitido, aceito pacificamente, como pensamento egoísta.

É um pensamento inconclusivo porque nunca se fecha em torno do que efetivamente interessa à “verdade dos fatos”; sempre girando em torno de si, consegue emitir alguma claridade, entretanto, é sempre insuficiente para iluminar os “sentidos dos fatos”.

O pensamento do oprimido[1], neste cenário, também é ideológico, ou seja, intrusivo (importado do opressor) e inconclusivo – ao menos inicialmente –, porque quase nunca põe a si no centro dos problemas que são de todos. Consegue-se compartilhar os dilemas, mas, sem se organizar e expandir os efeitos comuns à intrusão e opressão.

O pensamento do oprimido, quando se põe nesse circuito, círculo vicioso, gira em torno de si, aparece isolado ou pouco conectado aos problemas e dilemas de tantos outros indivíduos afetados pelo mesmo pensamento ideológico: intrusivo e inconclusivo.

Trata-se de um pensamento importado, porém, não é apenas isso, aleatório e externo a si, pois, é importado de quem traz a opressão. É um pensamento inconclusivo porque raramente chega à raiz dos fatos, das origens e das maquinações da opressão. É um pensamento que não se conclui, girando em círculos cada vez menores e sem que se veja qualquer ponto de partida (denúncia) ou de chegada (superação).

A descompressão, então, passa necessariamente por entendermos essa primeira dinâmica, esse primeiro elo do ciclo que leva à negação do sujeito e das condições reais da opressão. É claro que estamos tratando de um aspecto do pensamento, da subjetividade do indivíduo num estágio inicial e também inercial: o círculo de intrusões e de incompletudes e de como é recebido e reproduzido pelo oprimido. As condições materiais em que se encontra o ser oprimido, as décadas ou séculos de opressão, a materialidade de sua vida concreta, compõem a outra contraparte.

Hoje, nos deteremos a esse tipo específico de pensamento obstruído (também obliterado), circundante, aprisionado, redundante – pensamento circular, mas sem circular. Por ser intrusivo e inconclusivo, esse pensamento sinaliza o limite do ser restrito, do “ser menos do que si”. Não é que não se some, apenas que se soma numa conta que pouco sobressai ao zero.

Não é que não se sonhe, o fato é que não se sonha fora da circunscrição negadora de si. Não é que não se projete, apenas não se projeta para além do círculo vicioso em si. Não é que não se navegue, só não é navegante para além do que está ali. É um pensamento reprimido, comprimido e pouco complexo.

Também é conhecido como senso comum, uma vez que não se alcança nenhum senso que se manifeste de maneira incomum. O juízo dos fatos, da realidade, não é seu. O senso comum não vê como suas limitações não são incomuns, celulares, mas sim coletivas, difundidas entre outros seres negados pelos pensamentos intrusivos da opressão. O senso comum não se vê preso ao círculo da negação e da exclusão.

Por isso, o pensamento intrusivo é um pensamento negado – ao oprimido; também por isso, o pensamento inconclusivo é um pensamento reduzido – ao círculo do oprimido. Portanto, jamais será, dentro desse círculo de negação, um pensamento inclusivo.

O pensamento inclusivo é aquele que se desvencilhou da condição concêntrica da opressão e da negação. Por óbvio, o pensamento inclusivo é aquele capaz de incluir a quem sempre esteve excluído e, assim, se inclui no processo comum de desobstrução e descompressão. Quem inclui, por certo, já está incluído.

O pensamento inclusivo é próprio da capacidade do “ser mais”. No entanto, como vimos, não é um pensamento isolado, concêntrico, uma vez que se inclui no mesmo processo que desobstrui a exclusão dos demais. O pensamento inclusivo, por definição, é um pensamento coletivizado, expansivo, capaz de romper o círculo impostor do pensamento intrusivo.

Desse modo, o pensamento inclusivo, além de humanizador, é dotado de um saber especial, emancipador, e, assim, é conflitante ao pensamento intrusivo. É este o saber militante.

É um saber que, como outro qualquer que mereça essa denominação, sendo liberto dos limites impostores, é militante a fim de que muitos outros e outras participem de sua construção – enquanto saber que é de interesse de todos. É um saber liberto – sendo liberto da ideologia que infesta o pensamento intrusivo.

O saber militante é exportador. É o saber que se exporta para além dos casos incomuns, das condições incomuns, do senso comum, importando-se prioritariamente com o que há de comum na opressão, exclusão, negação; ocupando-se, basicamente, com os meios de desopressão, inclusão e Emancipação, este saber só pode ser militante e emancipador.

O pensamento intrusivo é simples. O pensamento inclusivo é complexo. O pensamento intrusivo é concêntrico: “não sai de si”. O pensamento inclusivo é expansivo: “faz de si o Outro”. E é daí que vem a súmula do saber militante: é um saber conclusivo acerca existência da opressão e é expansivo quanto à urgência da Emancipação.

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

“Mas, você só dá aula?”: a invisibilização do trabalho docente

Por Ester Dias da Silva Batista

Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCAR

 Não é incomum que, ao recordar a trajetória escolar, uma pessoa mencione um professor ou uma professora que marcou sua vida, incentivando-a, acolhendo suas dificuldades ou acreditando em suas possibilidades. Essas memórias evidenciam uma dimensão importante do trabalho docente: seu caráter humano e formativo. Ao mesmo tempo, revelam que o ambiente escolar é socialmente construído, não se restringindo a uma sala de aula situada em um prédio, mas constituindo-se a partir dos sujeitos que nele estão inseridos. Por tal razão, a educação envolve relações, estruturas e sujeitos.

Se a escola é constituída por essa rede de interações, há também um trabalho que a sustenta e que ultrapassa aquilo que é imediatamente visível. A aula, embora seja uma das expressões mais evidentes do trabalho docente, constitui apenas parte de um conjunto mais amplo de atividades necessárias ao processo educativo. Planejar, estudar, elaborar materiais, corrigir atividades e avaliações, acompanhar estudantes, participar de reuniões, dialogar com as famílias e mediar conflitos são ações que integram esse trabalho, ainda que muitas vezes permaneçam fora daquilo que socialmente se reconhece como “dar aula”.

A educação não se resume à aula, tampouco sua responsabilidade pode ser atribuída exclusivamente àqueles que ensinam. Educar envolve uma rede de sujeitos, instituições e relações que ultrapassa os limites físicos da escola, aproximando-se da ideia expressa no conhecido provérbio africano: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Famílias, comunidade, Estado e demais instituições participam, ainda que de formas distintas, das condições nas quais crianças e jovens aprendem, convivem e se desenvolvem. A responsabilidade pela educação pode ser compreendida também como uma responsabilidade social, uma vez que a vida em sociedade pressupõe determinadas formas de compromisso diante do outro, especialmente em situações que envolvem proteção e garantia de direitos.

Em situações de violência ou acidentes, por exemplo, a obrigação de agir torna-se uma responsabilidade conjunta daqueles que estão presentes, exigindo a interrupção da agressão e a busca por auxílio (MARTINEZ; BATISTA, 2026)[1]. Embora a situação não se refira diretamente ao contexto educacional, essa reflexão permite deslocar a questão: se a vida em sociedade produz responsabilidades diante do outro, a formação de crianças e jovens poderia ser compreendida como uma tarefa restrita àqueles que ocupam profissionalmente o espaço escolar?

É nesse ponto que se evidencia uma das contradições centrais da educação contemporânea: sua responsabilidade é construída coletivamente, mas sua cobrança tende a ser individualizada. O professor torna-se, muitas vezes, o sujeito mais imediatamente responsabilizado pelos resultados da aprendizagem, pelo comportamento dos estudantes, pela participação das famílias e até mesmo por problemas que ultrapassam os limites de sua atuação profissional. Questões sociais, estruturais e institucionais acabam sendo deslocadas para aquele que está diante da turma, como se a sua presença em sala de aula fosse suficiente para responder pela complexidade do processo educativo.

A própria forma de distribuir responsabilidades no campo educacional revela que a educação não é uma prática neutra. Em Paulo Freire, a educação é inseparável de sua dimensão política: ensinar e aprender envolvem formas de compreender o mundo e possibilidades de intervenção sobre ele. Pensar a educação como prática política significa reconhecer que aquilo que se ensina, como se ensina, quem pode falar, quem é ouvido e quais conhecimentos são legitimados não são questões meramente técnicas, mas atravessadas por relações de poder. A escola, nesse sentido, não apenas transmite conhecimentos; também participa da produção de determinadas formas de compreender e ocupar o mundo.

Se a educação é uma prática política, ela também pode constituir-se como espaço de questionamento e transformação da realidade. Em Freire (2023, p. 42 – 43)[2], a compreensão da opressão e a busca pela libertação passam pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela, em um processo no qual os próprios sujeitos se constituem como agentes de sua transformação. Nesse sentido, a educação pode ultrapassar a reprodução de conhecimentos e formas de organização já estabelecidas, possibilitando aos sujeitos reconhecer, questionar e transformar as condições nas quais estão inseridos.

A política, compreendida como dimensão da própria condição humana, não se restringe ao domínio do “político profissional”, mas envolve o “fazer-se política” dos próprios sujeitos. A educação, enquanto prática política, pode assumir um caráter transgressor, justamente por possibilitar aos sujeitos questionar criticamente e participar de sua transformação. A educação, enquanto prática política, pode assumir um caráter transgressor, justamente por possibilitar aos sujeitos questionar criticamente e participar de sua transformação. Nesse sentido, em diálogo com a afirmação de Martinez (2026)[3], de que “a apropriação da política é a sua deturpação”, a educação pode ser compreendida, a partir de hooks (2017)[4], como espaço de participação e de transgressão.

A questão da responsabilidade na educação, portanto, não está simplesmente na existência de conflitos, dificuldades ou desorganização no interior da escola, porém, na forma desigual como as responsabilidades pelo processo educativo são distribuídas. Quando a educação é reconhecida discursivamente como responsabilidade de todos, mas seus problemas são atribuídos individualmente a professores e professoras, estudantes ou famílias, produz-se uma contradição que contribui para a invisibilização do trabalho e para a desvalorização daqueles que o realizam. Todos são chamados a falar sobre educação, mas poucos são efetivamente convocados a assumir, coletivamente, as condições necessárias para produzi-la.

[1] MARTINEZ, Vinicio Carrilho; BATISTA, Ester Dias da Silva. Educação e sociedade – sociedade, Estado e capital. Cadernos Panópsis, 2026. DOI: 10.5281/zenodo.22017951. Disponível em: https://panopsis.com.br/index.php/ojs/article/view/22/23. Acesso em: 23 ago. 2026.

[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 85. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

[3]MARTINEZ, Vinício Carrilho. O homem é o único animal social sensível à política. A Democracia, 22 ago. 2026. Disponível em: https://ademocracia.com.br/2026/08/22/o-homem-e-o-unico-animal-social-sensivel-a-politica/. Acesso em: 23 ago. 2026.

[4] HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

O HOMEM É O ÚNICO ANIMAL SOCIAL SENSÍVEL À POLÍTICA

0

Fichamento comentado

Pedagogia do Oprimido

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

@viniciocarrilhomartinez

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

“A consciência é a consciência da consciência”

Paulo Freire

O principal objetivo desse texto é visualizar algumas passagens do livro Pedagogia do Oprimido que nos enderecem à ideia da Emancipação – e não somente à Liberdade e à Autonomia. Temos duas premissas que se conectam: (i) A Autonomia é individual e a Emancipação é humana e processual; (ii) O Homem é o único animal social sensível à política. Desconsiderando-se, no fichamento, os perigos da Inteligência Artificial (IA) à condição humana, na fase final do processo de hominização o Homo Sapiens – sobretudo, no Neolítico – é a conclusão da síntese entre sociabilidade e politicidade. Nesse escopo, nossa compreensão tem por base a lógica de que se trata de Emancipação social[1], enquanto a Autonomia pode estar restrita ao âmbito individual; uma condição que visualizamos nesta outra afirmação: Autonomia sem auditoria é autocracia. Neste sentido amplo da Emancipação social, também podemos entender a afirmação de Paulo Freire de que “consciência é a consciência da consciência”. Ou seja, entre objetividades (condições materiais de vida) e subjetividades (o “ser mais”, em Paulo Freire), há Emancipação social quando se tem consciência de que “consciência é a consciência da consciência” e, assim, a práxis é efetiva. O fichamento segue uma perspectiva das Ciências Sociais e não da Pedagogia, mais especificamente de uma Sociologia Política da Educação[2].

Tese I: A Autonomia é individual e a Emancipação é humana e processual

→       “Ao se instalarem na quase, senão trágica, descoberta do seu pouco saber de si, se fazem problema a eles mesmos. Indagam. Respondem, e suas respostas os levam a novas perguntas” (Freire, 2022, p. 39).

  • Comentário do professor: Trata-se da primeira consciência, do primeiro estágio, quando “acordamos” com um entendimento novo, diferente, muito mais claro, sobre nós mesmos. Assim nos colocamos problemas fundamentais: “Quem sou eu, o que estou fazendo!?”. Certamente, esse questionamento levará a outros, como: “Diante de tais fatos, o que posso fazer?”. “Fazer-se problema”, sem dúvida, é parte inaugural do “fazer-se política” – e que, resumidamente, entendemos como o Processo Civilizatório (hominização) em que o ser isolado na incompreensão de si se torna social, por força da necessidade, e em sequência se organiza para decidir. A política está presente nesses dois atos, na organização e na capacidade de decidir. O “fazer-se política” é a expressão do zoon politikón. O Homem é o único animal social sensível à política. É essa compreensão da ontologia que começa a se avolumar no indivíduo oprimido, pois, não se trata de casos isolados, mas sim do andamento da longa história de formação da Humanidade. “Fazer-se política”, então, é também ver-se como parte da história humana. Portanto, o conhecimento político é essencial ao esforço da Emancipação social (humana).

→       “Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos” (Freire, 2022, p. 41).

  • Comentário do professor: Se o “ser mais” é o espectro ou conjunto social que unifica a Liberdade, a Autonomia e a Emancipação, a sua distorção é tudo o que provém do “ser menos”. Desse modo, é partindo-se do “ser menos” (a realidade em si, as coisas como são) que se vai agir em razão do “ser mais”. A negação da negação é uma afirmação (menos com menos, nos dará um ser mais).

 

→       “Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos” (Freire, 2022, p. 41).

  • Comentário do professor: Como se mede o poder, a força, a energia social dispendida por um movimento social, radical, com profunda consciência de si, trazendo-se visibilidade, aptidão e disposição para agir? Como se mede a capacidade da transformação total quando são milhões que se põem em marcha não somente para denunciar, mas, sim, para exigir e praticar a transformação do status quo opressor? Não há outra força (reacionária) que segure a força revolucionária. Veja-se a Revolução Francesa, a Revolução Mexicana, a Revolução Russa, a Revolução Chinesa. Num sentido cultural, podemos ver a luta antirracista, antimachista, a cultura Wolke e os fluxo dos direitos civis.

 

→       “Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? […] Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegaram pelo acaso, mas pela práxis de sua busca: pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela” (Freire, 2022, p. 42-43).

  • Comentário do professor: A consciência não segue um receituário médico à espera de um especialista, de um “profissional da política”, a nos dizer o que devemos ou não pensar e fazer. A Política (Polis) é a própria condição humana; portanto, quem terá maior consciência – no andamento do processo de libertação e de afirmação – do que quem se vê atado/a aos grilhões da negação? É quando o “ser menos” (oprimido/a) ganha consciência e força na luta política para “ser mais” (afirmativo em sua omnilateralidade). A Política é o palco do humano-genérico e não reduto de interesses privados do “político profissional”. Aliás, a corrupção política começa na adulteração interpretativa do seu vocabulário. Quando o chamado “político profissional” toma a política para si, apropriando-se, em conclusão lógica, estará nos desapropriando da condição humana, que é o “fazer-se política”. Portanto, a apropriação da política é a sua deturpação.

 

→       “Muitos dos oprimidos que, direta ou indiretamente, participaram da revolução, marcados pelos velhos mitos da estrutura anterior, pretendem fazer da revolução a sua revolução privada. Perdura neles, de certo modo, a sombra testemunhal do opressor antigo” (Freire, 2022, p. 45).

  • Comentário do professor: Muitos, movidos pelo desejo de vingança, vendetta – uma consciência incompleta, quase primitiva –, podem permanecer limitados no sentido da “ação pela ação”, sem análise ou reflexão necessária e, desse modo, os oprimidos de ontem podem se tornar os opressores de amanhã.

 

→       “Um dos elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a prescrição. Toda prescrição é a imposição da opressão de uma consciência a outra. Daí o sentido alienador das prescrições que transformam a consciência recebedora no que viemos chamando de consciência “hospedeira” da consciência opressora. Por isso, o comportamento dos oprimidos é um comportamento prescrito. Faz-se à base de pautas estranhas a eles – as pautas dos opressores” (Freire, 2022, p. 46 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: Toda organização social conhecida na história da Humanidade – e, muito provavelmente, toda formação social que ainda surgirá também – tem (teve) um tipo de dominação (controle social). a questão sempre foi sabermos de qual tipo de dominação estamos tratando, se é justa e legítima ou, ao contrário, se é opressora e abusiva. A dominação que se presta a oprimir (a prescrição da dor) nós a chamaremos, no sentido do antigo Direito Romano, de dominus. É sob o ideal da desarticulação dos efeitos do dominus, contrato de posse e propriedade de alguém (como coisa), que estamos falando da proscrição da prescrição.

 

→       “Ninguém tem liberdade para ser livre; pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire, 2022, p. 46).

  • Comentário do professor: O mesmo raciocínio se aplica ao Direito, afinal, se tivéssemos a fruição das condições essenciais à Liberdade, à Autonomia e à Emancipação, o Direito não teria que ser promulgado, declarado. Pensemos na punição a quem pratica o crime hediondo da exploração do trabalho em condições análogas à escravidão. A Constituição assim define esse crime hediondo porque isso ocorre na realidade de milhares de pessoas – ou milhões, se pensarmos a uberização do trabalho, mais amplamente, como negação dos direitos básicos ao Mundo do Trabalho. Do mesmo modo, defende-se as regras do jogo democrático porque a democracia é sempre ameaçada – e é preciso conhecer as regras para poder participar e defender o jogo e os participantes: qualquer jogo tem regras a serem seguidas. Em suma, a liberdade só se faz concreta com o “ser mais”, ninguém é liberto sendo menos.

 

→       “Daí a necessidade que se impõe de superar a situação opressora. Isso implica o reconhecimento crítico, a ‘razão’ desta situação, para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais” (Freire, 2022, p.46).

  • Comentário do professor: Neste momento da consciência, já amplamente política – no sentido de se buscar meios de afirmação, da tomada de decisões, enquanto encaminhamento de outra práxis (reflexão e ação) –, a crítica social se faz presente quanto ao organograma de poder prescrito para as classes sociais (“razão desta situação”) e, por meio dessa crítica que tende a ser avassaladora, a transformação social mais profunda tende a ocorrer. É oportuno destacar que consciência e práxis caminham em reto sentido, não são um duplo e, por isso, ambas devem ser radicais, indo à raiz dos fatos, dos problemas mais contundentes das “coisas como são”. A revolução é razão (consciente, engendrada, articulada) do “ser mais” – tendo-se que o “ser menos” é o indivíduo alienado (de si), oprimido, subalternizado. No Brasil, pode-se dizer que o Pensamento escravista tenha se perpetuado na opressão do povo negro, pobre e oprimido. Entendendo-se o Pensamento escravista como a somatória entre racismo e exploração do trabalho mantido em condições análogas à escravidão.

 

→       “Descobrem que, não sendo livres, não chegam a ser autenticamente” (Freire, 2022, p. 47).

  • Comentário do professor: Sem a Liberdade, sem opções, meios de escolhas e de afirmação, por óbvio, não podem ser senão aquilo que os meios de exclusão/negação lhes determinaram ser. Refere-se à dialética do senhor-servo (escravo).

 

→       “Sua luta se trava entre serem eles mesmos ou serem duplos” (Freire, 2022, p. 47-48).

  • Comentário do professor: Quem são eles mesmos? São oprimidos/as que descobriram o peso da opressão, da negação, das prescrições excludentes dos significados da vida sem Liberdade, Autonomia e Emancipação. Por que seriam indivíduos duplos? Porque ainda não encontram condições para serem o que o “ser mais”, colocando-se entre a sociedade organizada pelo capital, pelo poder do senhorio, das classes dominantes (o próprio não-ser), e são apenas o que “conseguem ser” diante da prescrição da negação (o “ser menos”).

 

→       “Entre seguirem prescrições ou terem opções. Entre serem espectadores ou atores” (Freire, 2022, p. 48).

  • Comentário do professor: trata-se das prescrições do status quo, das imposições de senhorio, como oprimidos, sem direitos, garantias, possibilidades, opções. Diante desse quadro, ter a “consciência em si”, e que é o primeiro estágio da “lucidez” – quem se é, como se vive, o que encontra disponível para si –, é essencial para se dirigir as ações, mudar o enfoque no que se refere ao como “se vinha sendo, fazendo até então”. Portanto, é a passagem da consciência e da ação, para quem quer definir-se enquanto espectador/a (sobrevivente) ou ator social efetivo/a.

 

→       “A libertação, por isso, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos” (Freire, 2022, p.48 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: O Homem novo é praticamente um degrau afirmativo no evolutivo processo civilizatório e não se verá essa transformação de maneira passiva, contemplativa, como mera aquiescência. É necessário que se interponham e se integrem a consciência profunda e o agir radical. Esse Homem político é, quase, um Homem antropológico, uma vez que seria a primeira vez que esses seres seriam libertos, colocando-se mais próximos da condição humana. Seria o Homo sapiens liberto e politizado, visto como ser social pleno de significado. Porém, o parto dolorido virá com a ressignificação.

 

→       “É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora” (Freire, 2022, p.49).

  • Comentário do professor: Trata-se da força política descomprimida, da regra histórica que se viu mobilizar para a ação, desde, por exemplo, a revolta dos escravos na Roma antiga liderada por Spartacus. Diante da brutal opressão restam dois caminhos: encolher-se diminutamente enquanto ser ou organizar-se para a luta política emancipatória. Ou humanizar-se pela práxis, pela política organizada, ou se ajustar à negação, tal qual uma “abdução social”.

 

→       “A solidariedade, exigindo de quem se solidariza que ‘assuma’ a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical” (Freire, 2022, p.49).

  • Comentário do professor: Ninguém poderá ocupar o “lugar de fala” do oprimido/a, isso está pacificado. O que se requer, além disso, é que quem tomou (para si) consciência da negação de outrem se coloque ao seu lado como ator social que faz a política da libertação e da afirmação. Ao nos repostarmos ao lado de outrem (violentado/a na condição de “ser mais”), agindo em sua função, na descompressão de outrem, nos colocamos no “lugar do Outro”, isto é, vemos a Humanidade, por meio da Alteridade. E isto é profundamente radical, revolucionário, pois, em outro exemplo, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.

 

Tese II: O Homem é o único animal social sensível à política

 

→       “Roubados na sua palavra, por isto no seu trabalho comprado, que significa a sua pessoa vendida” (Freire, 2022, p.50).

  • Comentário do professor: Fazer a si, enquanto se pratica o fazimento de outrem. “Fazer-se política”, fazer-se na/pela política, fazer-se humano enquanto se faz política; fazer a si, humanizar-se, enquanto se faz a política; fazer-se enquanto se faz. Fazer a si, enquanto se é atuante no cenário político em que o Outro também é feito. Por isso, A Emancipação é inerente à condição humana, assim como é resultante do “fazer-se política”, no bojo do milenar e contínuo processo de hominização, e não sendo pacífico é resultado de forças contraditórias, opostas, excludentes. A questão é: A consciência possível em determinada época, em um contexto delimitado, será determinante ao “ser mais” ou ao “ser menos”? A resposta a essa questão é o resultado final da luta política.

 

→       “Da mesma forma como é em uma situação concreta – a da opressão – que se instaura a contradição opressor-oprimidos, a superação desta contradição só se pode verificar objetivamente também” (Freire, 2022, p.50).

  • Comentário do professor: É uma constatação histórica. Nunca houve uma transformação societal aguda sem que as condições, os meios, as contradições sistêmicas não fossem convulsionadas na sua infraestrutura: historicamente, implica em dizer que a revolução deve se opor às condições materiais de vida em que os meios de produção e de opressão se mantiveram até então.

 

→       “Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Não há uma sem a outra, que não podem ser dicotomizadas” (Freire, 2022, p.50).

  • Comentário do professor: Por uma constatação lógica, óbvia, se as condições materiais de opressão, os grilhões, já não existem ou estão sendo convulsionados pela imposição de forças decisivas da libertação, isso implica em dizer que está em curso um processo de autoafirmação: objetividade e subjetividade.

 

→       “A realidade social, objetiva, que não existe por acaso, mas como produto da ação dos homens, também não se transforma por acaso. Se os homens são os produtores desta realidade e se esta, na ‘inversão da práxis’, se volta sobre eles e os condiciona, transformar a realidade opressora é tarefa histórica, é tarefa dos homens” (Freire, 2022, p.51).

  • Comentário do professor: A tarefa histórica é a da libertação do jugo opressor, é a tarefa histórica de homens e mulheres que se querem como seres livres e, sendo livres, não veem os demais de modo não-livre. Novamente, impõe-se a regra de ouro do “fazer-se política”, pois, em se fazendo, se faz à imagem do Outro. A realidade não é imaginária, é objetiva, e ainda que possa ser ilusória.

 

→       “A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (Freire, 2022, p.52).

  • Comentário do professor: Não haveria melhor definição do que é “fazer-se política”: a força da práxis, da revolução que transforma o/a oprimido/a no Outro (afirmado em si, com a força da Alteridade).

 

→       “Desta forma, esta superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela. Por isto, inserção e ação já são a mesma coisa” (Freire, 2022, p.53).

  • Comentário do professor: Trata-se da inserção consciente na mesma realidade que, até pouco tempo, era desconhecida; trata-se de voltar para agir, exigindo-se que se supere a fase da denúncia: é ação não apenas convincente (que convence da lisura), mas, além disso, é ação que impõe reconhecimento. É o momento do “concreto-pensado”.

 

→       “Quanto mais as massas populares desvelam a realidade objetiva e desafiadora sobre a qual elas devem incidir sua ação transformadora, tanto mais se ‘inserem’ nela criticamente” (Freire, 2022, p.54).

  • Comentário do professor: É o famoso “conhecer para mudar”, é o momento do encontro profícuo entre reflexão e ação, do conhecimento à práxis, da investigação à reinvenção. É a fase em que o “saber militante” se instaura com acurácia, a par da “rigorosidade metódica”. Neste caso, é a ação, a práxis, advinda do método do Materialismo Histórico-dialético (não ortodoxo).

 

→       “De qualquer forma, o dever que Lukács reconhece ao partido revolucionário de ‘explicar às massas a sua ação’ coincide com a exigência que fazemos da inserção crítica das massas na sua realidade através da práxis, pelo fato de nenhuma realidade se transformar a si mesma. A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí” (Freire, 2022, p.55).

  • Comentário do professor: A questão passa por definir o que é, e qual é a função da vanguarda, da direção: o movimento social de libertação atua em compasso com o partido revolucionário, nem à frente e nem muito atrás. Atua em conformidade, em que as “massas” não estejam massificadas, distantes, das lideranças e nem se sobrepondo às mesmas lideranças.

 

→       “Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção” (Freire, 2022, p.56).

  • Comentário do professor: Quem poderá descrever melhor quem é oprimido/a e o que é a opressão? Guardadas as proporções das naturezas e dos significados específicos, trata-se de constar o óbvio, uma vez que ninguém dirá melhor o que é uma situação de racismo do que quem a sofreu, tanto quanto o PCD poderá lhe dizer com propriedade o que é a acessibilidade ou a sua restrição, negação.

 

→       “No primeiro momento, por meio da mudança da percepção do mundo opressor por parte dos oprimidos; no segundo, pela expulsão dos mitos criados e desenvolvidos na estrutura opressora e que se preservam como espectros míticos, na estrutura nova que surge da transformação revolucionária” (Freire, 2022, p.57).

  • Comentário do professor: Diria que são três momentos e não apenas dois: o primeiro quando se percebe parte da realidade opressora; o segundo quando se consegue vislumbrar uma realidade de coisas não opressivas; o terceiro quando se denuncia a primeira realidade e se age para a consecução da segunda. Isso também é se afastar dos mitos: por exemplo, o Mito da cordialidade, o Mito da democracia racial (miscigenação pacífica).

 

→       “Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão” (Freire, 2022, p.59).

  • Comentário do professor: Novamente, está atuando a dialética senhor-servo (escravo), uma vez que ninguém é por inteiro se depende a sua vida da ação de outrem. O senhor opressivo, neste sentido, depende muito mais do servo (escravo) do que o contrário. Na verdade, sem o senhor opressivo o servo não é mais servo, é liberto. Porém, o senhor deixa de viver enquanto tal, porque depende totalmente da servidão de outras pessoas. Sem a opressão, opressores e oprimidos deixam de ser o que são, e passam a ser o que devem ser: homens e mulheres livres.

 

→       “Os oprimidos de ontem, que detêm os antigos opressores na sua ânsia de oprimir, estarão gerando, com seu ato, liberdade, na medida em que, com ele, evitam a volta do regime opressor. Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que o cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser” (Freire, 2022, p.60).

  • Comentário do professor: Historicamente, as ações por libertação foram violentas: o opressor não deixa de sê-lo (enquanto classe dominante) por vontade própria. A libertação do jugo é uma conquista da luta política, da ação humana construtora do “ser mais”. E, tal qual a mudança subjetiva de cada um(a), essa mudança objetiva, revolucionária, terá de se impor aos opressores. É a negação da negação e isso não se viu, historicamente, por meio de resultado pacífico. É a ação violenta da Libertação, Emancipação, dirigida contra as ações violentas da opressão.

 

→       “É que, para eles, pessoa humana são apenas eles. Os outros, estes são ‘coisas’ […] Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando […] Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal” […] Por isso tudo é que a humanização é uma “coisa” que possuem como direito exclusivo, como atributo herdado. A humanização é apenas sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão” (Freire, 2022, p.62-63 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: É a descrição da própria prescrição, em que o dominus prescreve quem é e quem não é, impondo-se o pior resultado possível do processo de coisificação.

 

→       “Se a humanização dos oprimidos é subversão, sua liberdade também o é” (Freire, 2022, p.64).

  • Comentário do professor: A lógica, como cursor consequencial, nos impõe uma sequência inevitável: a Liberdade se fará Autonomia na práxis e esta será materializada na Emancipação (global, sistêmica, completa, omnilateral). Num pensamento extremo, a Emancipação somente será completa quando se alcançar todo o humano-genérico.

 

→       “…visão necrófila do mundo. Por isso é que o seu amor é um amor às avessas – um amor à morte e não à vida […] Os oprimidos, como objetos, como quase ‘coisas’, não têm finalidades. As suas, são as finalidades que lhes prescrevem os opressores” (Freire, 2022, p.64 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: Como a desumanização não é unilateral, o dinheiro acaba por tomar o lugar de todas as coisas, colocando-se como a medida entre as pessoas. Esta é a linha de frente da objetificação.

 

→       “Os que passam têm de assumir uma forma nova de estar sendo; já não podem atuar como atuavam; já não podem permanecer como estavam sendo” (Freire, 2022, p.66-67).

  • Comentário do professor: “Os que passam” a linha contingenciada da consciência insegura, limitada, reduzida, a uma faixa de consciência ampliada pelos reais problemas da Humanidade, é lógico, não serão mais os mesmos e nem seus pensamentos e ações serão como eram, antes disso. Ninguém será o mesmo que era, se já viu (viveu) diferente.

 

→       “…ninguém se liberta sozinho…” (Freire, 2022, p.74 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: Trata-se da luta política, em que a Emancipação não será construída por uma única pessoa, menos ainda por quem foi alforriado e logo se tornou amigo próximo do escravizador.

 

→       “A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (Freire, 2022, p.93 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: Além de ser um processo, portanto inconcluso, a humanização – só possível com a libertação, autoafirmação – é coincidente com a Emancipação. Não só libertação do jugo, mas construção constante da humanização, porquanto seja processo consequente da afirmação da Emancipação.

 

→       “…a consciência é consciência de consciência…” (Freire, 2022, p.94 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: Essa é uma das afirmações mais enigmáticas que podemos depreender do texto. Como tal, não é facilmente apreendida. Por um lado, não é difícil apelarmos para a ideia de que nem sempre – ou mais raramente – temos consciência sobre nossos atos, interesses, motivações. Com isso, também não é difícil remontar às memórias pessoais a fim de encontrarmos ações, decisões, que não foram devidamente ponderadas. De certa forma, portanto, o Princípio da Racionalidade está presente nessa argumentação – “a consciência é a consciência da consciência –, porque nos remete ao constructo da racionalidade como processo humano-genérico.

 

→       “Como situação gnosiológica, em que o objeto cognoscível, em lugar de ser o término do ato cognoscente de um sujeito, é o mediatizador de sujeitos cognoscentes, educador, de um lado, educandos de outro, a educação problematizadora coloca, desde logo, a exigência da superação da contradição educador-educados. Sem esta, não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em torno do mesmo objeto cognoscível” (Freire, 2022, p.94-95).

  • Comentário do professor: Além de se inserir a dialogicidade como eixo do processo dialético, afirma-se a superação da dicotomia, contradição, apontada pela educação bancária – e pelo Positivismo – em que sujeito e objeto são apartados entre si, diante da mesma realidade que lhes dá forma. Pois, na realidade processual, sujeito cognoscente (mais consciente de si e do entorno) e objeto cognoscível – a ser desvendado, como elo com o sujeito que lhe conhece – pertencem ao mesmo plano, ao mesmo contexto. Ninguém, nada, nesse processo de afirmação do conhecimento – e da consciência – está pairando nas nuvens ou é soterrado demais no mundo concreto.

 

→       “Nenhuma ‘ordem’ opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: ‘Por quê?” (Freire, 2022, p.106).

  • Comentário do professor: “O por que?” nos traz diretamente ao porquê da situação e nos leva a questionar se não haveria um porque diferente.

 

→       “No processo revolucionário, a liderança não pode ser ‘bancária’, para depois deixar de sê-lo” (Freire, 2022, p. 106).

  • Comentário do professor: O processo precisa ser coerente, do começo ao fim. Se é certo que, na revolução, alguns têm de ser convencidos de sua necessidade, legitimidade – “forçar à liberdade”, como se dizia –, a política do fazer-se liberto tem que vir da práxis e não de algum receituário. A revolução social não segue cartilhas.

 

→       “Os temas, em verdade, existem nos homens, em suas relações com o mundo, referidos a fatos concretos” (Freire, 2022, p. 137).

  • Comentário do professor: É bastante comum, ao menos nas Ciências Sociais não reféns do Positivismo (separação entre sujeito e objeto), a ideia de que “a pergunta traz a resposta”. Isso implica em dizer que estamos sempre imersos na realidade que nos provoca com temas e dificuldades.

 

→       “Não posso investigar o pensar dos outros, referido ao mundo, se não penso. Mas, não penso autenticamente se os outros também não pensam. Simplesmente, não posso pensar pelos outros nem para os outros, nem sem os outros. A investigação do pensar do povo não pode ser feita sem o povo, mas com ele, como sujeito do seu pensar” (Freire, 2022, p. 140-141).

  • Comentário do professor: Inclusive, ou especialmente, para que as vanguardas não tenham descolamento de retina, a ponto de não mais enxergarem a cultura, o povo, a própria realidade que os dá métrica e forma. Por outro lado, é obrigatório, essencial, saber que o “pensar o povo, com o povo e para o povo” – Como diria Cícero – traz a certeza gnosiológica de que o senso comum precisa ser ultrapassado, a fim de se reconstruir como Bom Senso.

 

→       “Mas, se os homens são seres do quefazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo” (Freire, 2022, p. 167).

  • Comentário do professor: O que é o quefazer? É práxis, ação transformadora radical. É ação (consciente, fértil) e reflexão (rigorosamente metódica: sem espaços para o espontaneísmo ou o sectarismo).

 

→       “O que fazer é teoria e prática” (Freire, 2022, p. 168 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: É a própria síntese da ideia de Práxis, a articulação, o vínculo inquebrável entre teoria e prática.

 

→       “O que não se pode realizar, na práxis revolucionária, é a divisão absurda entre a práxis da liderança e a das massas oprimidas, de forma que a destas fosse a de apenas seguir as determinações da liderança” (Freire, 2022, p. 169).

  • Comentário do professor: Se as massas oprimidas são apenas lideradas na sua libertação, sem Autonomia, sem que sejam participantes ativas, o próprio processo de afirmação perde o seu sentido. É preciso que da consciência da opressão, por parte de quem é oprimido/a, advenha a ação política organizada para a afirmação: Emancipação.

 

→       “Estamos convencidos de que o diálogo com as massas populares é uma exigência radical de toda revolução autêntica. Ela é revolução por isto” (Freire, 2022, p. 172).

  • Comentário do professor: Ninguém será mais revolucionário/a, exigente transformador da realidade opressiva, do que o/a oprimido/a. Por isso, no diálogo sobre as condições de opressão, a revolução será autêntica. Pelo viés da epistemologia política, a consciência social se fará ação política.

 

→       “Se, na educação como situação gnosiológica[3], o ato cognoscente do sujeito educador (também educando) sobre o objeto cognoscível não morre, ou nele se esgota, porque, dialogicamente, se estende a outros sujeitos cognoscentes, de tal maneira que o objeto cognoscível se faz mediador da cognoscibilidade dos dois, na teoria da ação revolucionária se dá o mesmo” (Freire, 2022, p. 173).

  • Comentário do professor: Observa-se a superação imperiosa do senso comum, em transformação na forma do Bom Senso. O efeito extrator da lucidez processual faz convergirem objeto e sujeito: o objeto entendido, apreendido, e a ser transformado sucessivamente. De tal forma que, na ação revolucionária se transformem tanto o objeto (a realidade) quanto o sujeito da ação. Percebe-se que o Positivismo não é o método analítico adequando, porquanto se apartam sujeito e objeto.

 

→       “É que a liderança não pode pensar sem as massas, nem para elas, mas com elas” (Freire, 2022, p. 176).

  • Comentário do professor: A melhor liderança do amanhã (visionários, utópicos no melhor sentido) é aquela que surgirá das massas, as lideranças da libertação que sabem perfeitamente o que é a opressão, por terem sido, precisamente, os oprimidos e oprimidas de ontem.

 

→       “A revolução se gera nela como ser social e, por isto, na medida em que é ação cultural, não pode deixar de corresponder às potencialidades do ser social em que se gera” (Freire, 2022, p.183).

  • Comentário do professor: A ação consciente, política – diretiva, organizada – é ação cultural, sob o escopo de que a mudança radical impõe a ultrapassagem das condições de negação/opressão e, no seu revés, são construídas as bases de uma “cultura libertária”, verdadeiramente humanista.

 

→       “É que todo ser se desenvolve (ou se transforma) dentro de si mesmo, no jogo de suas contradições” (Freire, 2022, p. 183 – grifo nosso).

  • Comentário do professor: Somos seres sociais incompletos, em contínuo aprendizado e transformação, quer seja de nós mesmos, quer seja do ambiente e do entorno. É em torno do Outro que cada um/a faz o melhor de si. A transformação é de dentro para fora, de baixo para cima.

[1] Estágios muito avançados da consciência, neste sentido, nós veríamos em ações como Médicos Sem Fronteira, Cruz Vermelha, Greenpeace e outros.

[2] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.

[3] Como teoria do conhecimento de forma irrestrita – no sentido de Educação Permanente –, a gnosiologia não se limita ao conhecimento científico (epistemologia). É a parte ativa (consciente) do que conhecer-se, para, então, reconhecer o próprio conhecimento.

Negacionismo: O cabresto que impede a visão de uma educação de qualidade e a emancipação do indivíduo

0

 

 

Jonathan Martins da Silva – Licenciando em Matemática/UFSCAR

 

O presente trabalho parte da sistematização de reflexões produzidas a partir de uma atividade avaliativa, dissertativa, proposta a estudantes de graduação do curso de Matemática, elaborada com base nos conteúdos, debates e discussões desenvolvidos ao longo das aulas. A atividade teve como questão norteadora a seguinte questão: “Como a licenciatura pode corroborar com a luta política contra os processos de negação da Educação, sobretudo, se pensarmos nos ataques à ciência, à epistemologia, à cultura e ao conhecimento, além da precarização do trabalho e da uberização? Pensemos que o ideário da Educação é a constituição de sujeitos, especialmente quando se dirige à autonomia em busca da emancipação”.

A partir dessa questão, este texto toma uma das produções discentes como objeto de reflexão, buscando-se compreender os sentidos mobilizados pelo estudante em relação à temática abordada na avaliação. Nesse sentido, a produção apresentada a seguir constitui o material a partir do qual são desenvolvidas as reflexões propostas neste texto.

As redes sociais corroboram com o negacionismo criando uma bolha social para o indivíduo, a sensação de pertencimento numa certa bolha específica acarreta na disseminação de informações falsas, e essa sensação também pode levar ao idolatrismo quase religioso em figuras políticas, que usam o “conservadorismo” como máscara, pregando os “bons costumes”, costumes esses que muitas vezes tratam com desdém o rigor científico, alimentados por um algoritmo vicioso e altamente prejudicial, filtrando seu conteúdo apenas para causar conforto e cria um “cabresto” social para a verdade, onde a verdade só é verdade se me conforta. O indivíduo se isolando dessa forma nessa “armadura social tecnológica” se priva, mesmo sem saber, da sua habilidade de interpretação crítica do mundo.

Esse desfalque de indivíduos verdadeiramente “formados” para a sociedade se dá pela precarização da educação, como o exemplo de ensino do estado de São Paulo, governado pelo Tarcísio de Freitas. O novo ensino médio que o governo, na tentativa de “inovar”, usa de vários meios digitais como slides na educação – e que até podem ser um meio de democratização da informação –, no entanto, falha em encontrar fontes confiáveis, e cria um convívio de ensino vazio, onde o professor passa o conteúdo de uma forma passiva, onde não há diálogo, apenas um método “decoreba”, semelhante à educação bancária de acordo com Paulo Freire. Isso distancia-se de uma educação verdadeira onde há rigor científico, metódico, a valorização do diálogo, acessibilidade, autocrítica e coerência entre discurso e ação, e que permita uma educação de qualidade com compromisso ativo em busca da emancipação dos estudantes.

Sem essa educação, o indivíduo de classe subalterna tende à incompreensão da uberização e acaba encontrando esperanças falsas de ser um rompimento do status, que na “pejotização”, por exemplo, põe o indivíduo completamente à mercê de uma Big Tech, onde quase não há negociação, tendo-se assim um desmonte dos direitos trabalhistas. Se entregando à “inovação”, se tornando um trabalho vivo com uma ligação precária e vertical com a Big Tech, sem direitos trabalhistas, uma vítima da própria “autonomia informal”, acaba por crer que o “servilismo voluntário” é um direito da empresa, onde muitas vezes nem se sabe que ele mesmo é o produto, e que plataformas digitais são “de graça”.

A licenciatura praticada com embasamento e ideias freireanas, como a educação omnilateral, torna-se uma boa prática para combater essa precarização da educação, pautando o diálogo, o rigor científico, a acessibilidade, o embasamento humano e científico, a autocrítica e a coerência entre discurso e ação. Com esses conceitos podemos praticar a verdadeira escola, onde o indivíduo encontra ali um espaço real de formação e de colaboração como o rompimento do status quo e assim negando-se à alienação.

Desse modo, pode-se concluir que o governo e o Estado, como entidades fortes, devem garantir a cooperação em prol de uma educação omnilateral com a transposição didática e uma educação de qualidade para todos, com comprometimento total à emancipação do indivíduo e à práxis nessa era de “fetiche tecnológico“.

 

 

 

 

 

Educação sem indulgência

0

@viniciocarrilhomartinez

Na premissa da indignação de sua pedagogia, Paulo Freire já nos incita a mover todas as cordas e condições de nossa intuição para pensarmos uma educação sem indulgências. Sem indulgência diante de escolas cívico-militares, educação financeira (para jovens pobres), ensino religioso (no Estado Laico) e as plataformas de educação que ou eliminam docentes ou os escravizam.

Assim, novamente, nos ensina:

… a capacidade crítica, jamais “sonolenta” sempre desperta à inteligência do novo […] Não haveria cultura nem história sem inovação, sem criatividade, sem curiosidade, sem liberdade sendo exercida ou sem liberdade pela qual, sendo negada, se luta […] O que quero dizer é que, como ser humano, não devo nem posso abdicar da possibilidade que veio sendo construída, social e historicamente, em nossa experiência existencial de, intervindo no mundo, inteligi-lo e, em consequência, comunicar o inteligido. A inteligência do mundo, tão apreendida quanto produzida e a comunicação do inteligido são tarefas de sujeito, em cujo processo ele precisa e deve tornar-se cada vez mais crítico. Cada vez mais atento à rigorosidade metódica de sua curiosidade, na sua aproximação ao objeto (Freire, 2000, p. 30-31).

Vemos Paulo Freire recupera a noção elementar de que não há Ciência, conhecimento, sem crítica, pois, sem a capacidade crítica só se verifica um eterno copiar e colar. Assim, a crítica necessária, apontada para a movediça realidade, se constrói, afirma-se com a capacidade humana resiliente na sua condição curiosa e criativa. O ser humano é tanto o ser social mais adaptável, a ponto de se tornar o zoon politikón, quanto é o mais criativo – em que pese os gatos sejam extremamente curiosos.

O que no diferencia neste sentido da curiosidade é a obrigatória direção imposta pela rigorosidade metódica, ou seja, há que haver um suporte, uma concepção forte, mesmo que inicialmente, a fim de nos guiar nesta aventura – trata-se da teoria elaborada, da massa crítica também construída pela experiência e que se manifesta na clara Intuição: o Bom Senso vai assim se fortificando como filosofia da vida prática. Essa Intuição, aqui destacada, também é método: entre a liberdade, a consciência atribuída à vivência, a observação meridiana da realidade, a visão de mundo herdada e reformulada.

Igualdade e desigualdade

Uma das construções que deram base a esses pressupostos – além da isonomia, equidade, isegoria – é a distinção entre igualdade e desigualdade. O século XX viu essa discussão florescer, especialmente no pós-Segunda Grande Guerra, com a Europa devastada e a implementação do Plano Marshal de recuperação econômica – o que criaria o conhecido Welfare State.

A partir de então os princípios constitucionais foram sendo modificados, passando-se a incorporar por exemplo uma série de políticas públicas: a própria ideia de política pública deriva da Revolução Francesa, quando se criou o desenho universal da escola pública e do livro didático; porém, em meados do século XX, o significado ganhou muita amplitude.

O sentido de Constituição Social também precede, a contarmos os marcos da Constituição Mexicana, oriunda de um intenso processo de revolução e transformação social; mas, somente após a Constituição de Bom, na Alemanha de 1949, e de outras, é que o ritual da igualdade passaria a se destacar. No sentido mais específico, apontamos esse dado inclusive como desconstrução da xenofobia e punição dos crimes nazistas: a supremacia branca não mais poderia ser autorizada pela cultura e pelo próprio Estado.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), de 1948, seria o insumo da Constituição alemã de 1949 e do ideário global. Neste caso, atentamos para a salvaguarda de terem alistado a Democracia como um Direito Humano – artigo 21 da DUDH[1]. Agora, como igualdade, certamente que o sentido base remonta ao Iluminismo, uma vez que a pedra angular fora inscrita na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França) de 1789. Se pensarmos em termos de reciprocidade, o alcance é milenar, com destaque para o Código de Hamurabi.

A título de exemplo nacional que performa todo esse inventário da igualdade, como construção de um pensamento racional, temos o artigo 206 da CF88 – sobre igualdade e educação: “Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Por sua vez, esse artigo se destaca, assim como a Saúde Pública (SUS – artigos 196 a 200 da CF88), pois não se anuncia apenas o direito, a possibilidade, a entrada no sistema, mas, acima de tudo, conta-nos a história de como as políticas públicas se convertem em Políticas de Estado.

Por seu turno, a desigualdade também não tem nenhuma novidade, a não ser que apontemos a extrema concentração de renda, a destruição das garantias institucionais do Mundo do Trabalho – como ocorre na uberização, pejotização – e, mesmo assim, ainda deveríamos observar os tempos sombrios da grande depressão econômica de 1929.

Na definição bastante primária da IA, a desigualdade é assim recortada:

  • A desigualdade social é a diferença no acesso a recursos, renda e direitos entre pessoas de uma mesma sociedade. Os principais tipos são a desigualdade econômica, a racial e a de gênero. Ela é medida por ferramentas como o Índice de Gini do IBGE e afeta a qualidade de vida dos grupos mais pobres e vulneráveis (Fonte: Gemini – 04/08/2026).

Não muito distante dessa concepção, ainda que em sentido oposto e afirmativo, vemos o dicionário especializado:

Por igualdade social entende-se a ideia de que as pessoas devem ser tratadas como iguais em todas as esferas institucionais[2] que afetam suas oportunidades de vida: na educação, no trabalho, nas oportunidades de consumo, no acesso aos serviços sociais, nas relações domésticas e assim por diante. Mas que significa ser tratado com igualdade? Falando de maneira ampla, houve duas respostas a essa pergunta altamente controvertida, que podemos rotular, respectivamente, de igualdade de oportunidades e igualdade de resultados (Outhwaite & Bottomore, 1996, p. 373).

 

De imediato, vê-se que as classes sociais fundamentais em antagonismo, uma luta política ferrenha pela emancipação e afirmação de uns (Proletariado) e controle social e hegemonia societal de outros (Burguesia em todas as suas intercorrências, subclasses ou frações de classe), estão fora da análise. O conceito se concentra na ideia de distribuição de renda, essencial, por óbvio, todavia, não adentra à essência da problemática.

Como afirmam Marx e Engels, no Manifesto:

A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos, em constante oposição, têm vivido numa guerra ininterrupta, ora franca, ora disfarçada; uma guerra que terminou sempre por uma transformação revolucionária da sociedade inteira, ou pela destruição das duas classes em conflito (Marx & Engels, 2010, p. 40 – grifo nosso).

O Manifesto foi escrito em 1848, período em que a França passava por convulsões – indo parar na Comuna de Paris, de 1871 – e novas classes sociais (Burguesia e Proletariado) se pronunciariam, afirmariam, como classes sociais hegemônicas (opostas e contrárias), agora no período pós-Revolução Industrial, estritamente a partir de 1850. O Brasil convivia com a escravidão e mal se animava a sair do sistema de plantation.

Na citação do manifesto, há inicialmente dois aspectos a serem grifados. O primeiro condiz com a visualização da luta de classes sociais: “A história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes”. A referência à luta de classes antecede a Vico, mas é com Marx e Engels que se afirmara enquanto base conceitual e referência instrumental de análise das sociedades modernas. O segundo ponto destaca as principais classes sociais até então conhecidas: “Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor feudal e servo, mestre de corporação e companheiro, em resumo, opressores e oprimidos”. E a oposição contraditória, insolúvel, entre elas.

Esta é uma leitura histórica e, então, a Burguesia e o Proletariado – na formação social capitalista do século XIX – estavam apenas se alinhando no jogo de poder. É apenas uma curiosidade, entretanto, vemos que Marx e Engels indicam a presença das classes sociais mesmo sob a égide do escravismo e do feudalismo – quiçá no mundo do Estado Antigo (“opressores e oprimidos”[3]). Depois, no bojo da 2ª Grande Guerra, Gramsci (2000) construiria o significado amplo de subalternidade[4].

Com o capitalismo em curso, a partir do século XIX, a desigualdade estrutural do sistema produtivo se imporia – contraditoriamente, antagonicamente – ao mesmo ideário de racionalização do Princípio da Igualdade, lastreado no Iluminismo e afirmado desde a Revolução Francesa. Portanto, esta poderia ser uma das conclusões iniciais dessa nossa breve apresentação conceitual.

Apêndice A

Num mapa conceitual muito básico do Manifesto, teríamos a seguinte demonstração.

Manifesto do Partido Comunista

(Marx & Engels)

“De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”

…

“De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo seu trabalho”

– É uma afirmação ética, na transição socialista, que Marx chamava de primeira fase do comunismo, no qual ainda rege o direito burguês e a meritocracia em transição.

…

 “De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”

(no comunismo avançado)

– Olhando o futuro: prospecção

Referências

OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

DELROIO, Marcos. Gramsci e a emancipação do subalterno. S. Paulo: Editora da Unesp, 2018, p. 241-256.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Editora UNESP, 2000.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. (Org. Carlos Nelson Coutinho). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

MARX, Karl; ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010

 

[1] Artigo 21

  1. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.
    2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
    3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; essa vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto.

[2] Neste sentido muito específico da “igualdade institucional” ressaltamos a afirmação do Princípio do não-retrocesso social/moral.

[3] Não será sem esse vínculo que Paulo Freire teria no Pedagogia do Oprimido seu principal escrito. Vem, obviamente, daqui sua inspiração: “Toda prescrição é a imposição da opção de uma consciência a outra […] Por isto, o comportamento dos oprimidos é um comportamento prescrito” (Freire, 1985, p. 34-35 – grifo nosso).

[4] (…) a emancipação do subalterno supõe que a unificação passe também pela emancipação cultural, pela percepção de que o econômico e o político (e o filosófico) são expressões de uma mesma realidade em movimento: a emancipação do subalterno passa pela construção de um novo bloco histórico, uma nova forma de hegemonia e, como constitutivo desse processo, de uma reforma moral e intelectual (uma revolução cultural gerada na autoeducação das massas). Eis a razão da grande importância do estudo do folclore, da religiosidade, do senso comum, das formas de organização das classes subalternas. É o socrático “Conhece-te a ti mesmo” como condição da transformação (Del Roio, 2018, p. 182).

”VOCÊ SÓ DÁ AULA?” Licenciatura para que?

0

Vinicio Carrilho Martinez – Bacharel em Ciências Sociais e Professor titular da
UFSCAR
Ester Dias da Silva Batista – Licenciada em Biologia e mestranda pelo
PPGCTS/UFSCAR

O texto a seguir não foi confeccionado por especialistas. É uma
provocação no melhor sentido, uma vez que recupera e procura relacionar
conhecimentos mais técnicos, teóricos, com experimentações de vida pessoal
ou profissional. Também ganha destaque a sua feitura de forma livre, não-
individual e sem instrumentalização. Com esse intuito, listamos algumas
questões iniciais relacionadas à formação em Licenciatura e algumas
reflexões que já iniciamos, além de outras 40 perguntas que se
complementam.

Vejamos algumas:
● O que é Licenciatura?
É claro que se trata de uma questão complexa e, por isso
mesmo, deve ser o ponto de partida na reflexão de quem se
abriga nessa conjuntura. De todo modo, a reflexão deve estar
além das formalidades ou tecnicalidades.
● Qualquer pessoa pode cursar Licenciatura?
Se cumpridas as condições formais, sim. Contudo, qualquer
pessoa pode exercer a medicina, praticar o Direito ou a
engenharia, como profissionais? Todo mundo se dá bem criando
gatos ou cachorros?
O que podemos esperar é que cada ator social, profissional da
Educação ou em formação, formule suas reflexões, reflita sobre o nosso
arrazoado e faça da sua práxis um campo de luta política ainda mais eficaz.

1. As ementas das disciplinas são revistas ou, pelo menos, atualizadas na
sala, no início do semestre?
– A realidade, os contextos, a carga de trabalho docente e as condições em
que ocorrem são muito distintas, desiguais, pelo país afora – especialmente
para docentes que são horistas em instituições de ensino privadas, sem
estabilidade alguma. Portanto, não se pode exigir e nem esperar que se
responda positivamente. Porém, nas instituições públicas esse seria o
desejado. Neste sentido, listamos em rodapé uma reflexão que fizemos no
início de 2026 1 .

2. Qual é a principal função discente, na construção das práticas e saberes
técnicos e teóricos envolvidos na formação em Licenciatura?
– A principal função discente, pensamos, é aquilo que se pode denominar
como “estar atento e disponível”. Se buscarmos nos meios digitais,
provavelmente encontraremos como resposta mais recorrente a ideia de
“participar ativamente”. Entretanto, compreende-se a participação como uma
ação que pressupõe outra anterior: estar atento e disponível para aquilo que
está sendo trabalhado. Antes de participar, formular questionamentos ou
realizar intervenções, o indivíduo, enquanto estudante, precisa estar
disponível para que o conhecimento seja percebido, elaborado e incorporado
à sua experiência. A mobilização desses aprendizados, seja em uma
avaliação ou na vivência efetiva das práticas, constitui um momento ainda
posterior. São dimensões que nem sempre acontecem simultaneamente:
atenção/disponibilidade → participação/ação → mobilização dos
conhecimentos → aprendizagem. A função discente nessa perspectiva não se
resume à participação, mas envolve também a disposição para estar
presente, escutar, observar, elaborar e, posteriormente, mobilizar aquilo que
foi construído ao longo do processo formativo.

3. Qual é a principal função docente, na construção das práticas e saberes
técnicos e teóricos envolvidos na formação em Licenciatura?

– De modo direto, prático, inclusive noticiando tratativas pessoais, é possível
recortar em dois planos que se complementam: levar adiante a seriedade com
que se deve tratar o conhecimento (político, científico, social, ético) e as
experiências pessoais docentes e discentes. O objetivo, por óbvio, é fazer
todas as experiências intelectuais, funcionais, pessoais, ultrapassarem a
barreira do “experimentado senso comum”.

4. Pensando-se em “boas práticas“, como deve ser a relação entre
docentes e discentes?
– Não há espaço para preconceito, discriminação, soberba, ego frustrado,
Bullying. Isso já sabemos, ainda que na vida prática a falta de Educação, de
respeito (inclinando-se muitas vezes para formas de violência), não sejam
ocasionais ou exceções. Precisamos estar vigilantes quanto às macro e
microagressões 2 .

5. Qual é o conhecimento científico, teórico, educacional, ético, filosófico
que o discente almeja ao cursar as disciplinas de Licenciatura?
– Essencialmente, não sabe se grande parte dos estudantes que estão na
Licenciatura sabe porque está ali, especialmente nas Ciências da Natureza.
Pode-se ver diferenças na nota de corte entre Licenciatura e Bacharelado em
Ciências Biológicas, e muitos acabavam ingressando na Licenciatura sem
necessariamente desejarem a docência, mas sim porque “foi o que deu”. Isso
se reflete no envolvimento com as disciplinas educacionais e com projetos
como o PIBID, que muitas vezes enfrentavam dificuldade para encontrar
participantes justamente por envolverem a sala de aula. Assim, acaba-se
construindo um conhecimento científico bastante significativo, especialmente
por meio dos laboratórios e das iniciações científicas, enquanto os aspectos
educacionais, filosóficos e pedagógicos podem permanecer em segundo
plano.

6. Pensando-se em liberdade, autonomia, Emancipação, o que a
Licenciatura deveria oferecer em termos gerais e específicos?
– Esse questionamento jamais terá respostas objetivas, conclusivas, uma vez
que nos remete ao âmago da Educação. Num aspecto mais político e jurídico,
pouco explorado, temos uma contribuição não recente sobre alguns pontos, como se vê no rodapé 3 . No entanto, é preciso destacar que esse sempre foi o
maior esforço de Paulo Freire 4 , o nosso Patrono da Educação, em toda a sua
vida.

7. Docentes sem formação em pedagogia e nem licenciados, apenas
bacharéis, não deveriam receber instruções gerais das instituições?
Quais, por exemplo?
– Muitos docentes não tem a formação pedagógica necessária, tendo cursado
somente o Bacharelado. Esse não é um impeditivo, se o/a docente bacharel
se dispõe a se qualificar minimamente para atividades de ensino. De modo
prático, é muito inusual que alguma instituição de ensino, pública ou privada,
tenha demonstrado interesse em levar reflexões, diretrizes, estímulos às/aos
docentes bacharéis. São tão raros os casos que merecem destaque positivo.

8. O que podemos entender como “boas práticas“ no âmbito da Educação
e da Licenciatura, especificamente?
– Dada a diversidade cultural, social, econômica do país, entre suas próprias
regiões, é absolutamente natural que as respostas, ponderações, sejam muito
diversas. No nosso caso, movidos por uma necessidade de urgência, em
determinado momento, organizamos um pensamento básico que se encontra
no rodapé 5 .

9. Seria possível priorizar entre conhecimento científico, técnico, prático e
ético?
– Não é possível estabelecermos um corte ou recorte desse modo. O que os
nossos tempos hiper conectados, digitalizados, imediatistas nos oferecem,
por seu lado, é uma formação cada vez mais rápida, pragmática,
mercadológica, de resultados. O que desejamos, por nosso turno, é uma
formação que sempre pactue com a práxis, entre reflexão e ação, teoria e
prática, de forma criativa, investigativa, crítica.

10. O que podemos entender por Ética na formação em Licenciatura?
– Sempre é viável, desejável ou obrigatório, recorrermos um pouco aos
clássicos. Neste caso, tomemos de empréstimo que Ética provém de ethos,
do grego antigo, e nos é traduzido por Costumes. Entendendo-se como práticas sociais reiteradas, socialmente construídas, podemos associar com o princípio sociológico da Interação Social e, assim, chegaríamos a um sentido
generalista de algumas condições para a incidência e o aprofundamento de
um mínimo de sociabilidade, convivência e ajuda mútua.

11. Mais claramente, do seu ponto de vista, as disciplinas relacionam
Política e Educação?
– De modo geral, as disciplinas relacionam Política e Educação, mesmo que
de forma implícita. A disciplina de Metodologia para o Ensino de Biologia, por
exemplo, embora não tenha “política” em seu nome, atravessa questões
relacionadas às práticas e metodologias de ensino, bem como às ações
políticas que cercam a estrutura educacional. Uma instituição de ensino não
se constitui apenas por docentes e estudantes, mas também por estruturas
sociais e políticas, tornando esses aspectos indissociáveis. A própria práxis
em Paulo Freire (ação + reflexão) pode remeter a isso, a reflexão produzida
em sala de aula precisa também encontrar possibilidades de ação, inclusive
por meio das políticas públicas.

12. Como podemos definir, inicialmente, o que seria o conteúdo político da
Educação?
– Toda ação humana, por definição aristotélica – feita à base da Condição
Humana – é política, carregada de intencionalidades, propósitos e
proposições políticas. A política é aqui entendida enquanto ação formativa da
nossa espécie, pois somos os únicos animais sociais que se afirmam por
meio do “fazer-se política”: zoon politikón. A Educação, portanto, seja
libertária ou bancária, terá os mesmos registros políticos, porque toda ação
humana é política. Resta-nos saber onde estamos e para onde queremos ir.
Como ensinou Paulo Freire: “É esse o momento também em que o educador
progressista percebe que a claridade política é indispensável, necessária,
mas não suficiente, como também percebe que a competência científica é
necessária, mas igualmente não suficiente“ 6 .

13. Como podem ser descritos, mesmo que genericamente, os principais
pontos de contato entre Educação e Sociedade?

– A primeira noção a se retirar daqui é: de qual sociedade estamos tratando,
qual é a sua forma básica, quais as forças sociais e os agentes, instituições,
constructos sociais e institucionais em vigência e de maior incidência social e
política? A partir daí veremos o papel esperado e desempenhado pela
Educação no escopo da sociedade em questão. Temos um mapa, um tanto
mais complexo do que esse texto, que nos remete a questões gerais e mais
específicas 7 .

14. Há alguma disciplina que procure promover uma reflexão atual e
aprofundada acerca da Filosofia e da Sociologia, no século XXI?
– Disciplinas como Educação e Sociedade têm ou devem ter esse objetivo;
porém, é preciso destacar que nada substituirá as tradicionais (pela força dos
clássicos) Sociologia Geral e Sociologia da Educação.

15. Quais as características mais evidentes que a Licenciatura deveria
demonstrar, na formação de jovens do século XXI?
– É igualmente impossível restringir ou listar o que interessaria ou deveria
interessar, sobremaneira. Do ponto de vista sociológico, as relações postas
pelo Capitalismo digital e pela inesgotável uberização social, por certo,
ganham relevo 8 .

16. O que é Política, o que é Educação?
– Não é plausível buscarmos respostas prontas, simples. Nem a Política
(prática política na Pólis) e nem a Educação são traduzíveis de imediato,
contudo, podemos sugerir referências que buscam facilitar a compreensão
popular como associar a Política ao poder, à governança, à negociação, à
direção 9 . Da mesma forma, quantas perspectivas podem ser apontadas ou
destacadas acerca da Educação? Não há listagens, mas há remédios, guias,
nortes 10 .

17. O que é Sociedade?
– É adequado pensarmos em termos de um conjunto social complexo,
orgânico, mais ou menos organizado, em constante transformação, maior ou
menor mutação, considerando-se a forma política determinante, a cultura
prevalecente. É possível dizer-se que as sociedades modernas são contraditórias, industriais ou pós-industriais, em que se praticam formas de
exploração, expropriação capitalista mais ou menos acentuada. Neste sentido
geral e inicial é correto pensarmos que a Sociedade é composta por
comunidades, estratos, grupos, camadas e classes sociais. Para quem teve
apenas pouco contato com esse tipo de reflexão, o auxílio de um dicionário
especializado é sempre proveitoso 11 .

18. O quanto e de que modo a formação de cada pessoa envolvida nos
processos de formação em Licenciatura deve se apresentar na sala de
aula?
– Essa sempre será uma questão central, porém, nunca esperemos por
respostas ou soluções mágicas e definitivas, assim como nós estamos em
constante processo de ensino-aprendizagem. Dito isso, devemos ter clareza
meridiana que se ficarmos narrando somente nossas experiências o curso
mais se assemelharia a uma “roda de conversa”, com História de Vida (aliás,
trata-se de um método e não é exatamente sinônimo de Memorial). Não é
isso que se espera, diante de todo o conteúdo mínimo que a formação exige.
Outro ponto essencial a se indicar aqui é a obrigatória – como objetivo central
– ultrapassagem do senso comum.

19. Em tempos de total digitalização, como é que podemos, devemos pensar
o princípio da honestidade intelectual?
– Não se resume à discussão da inclusão, usos e abusos, da Inteligência
Artificial (IA) no ambiente escolar; entretanto, é certo que atualmente se usa
de modo errado, sem nenhuma consideração com a chamada honestidade
intelectual e, por derivação, assim também caminham os princípios
republicanos (da coisa pública). Não só no Brasil, mas aqui, sobretudo, em
razão de nossa formação social.

20. O projeto da Licenciatura, em si, está ajustado com as necessidades,
objetividades, subjetividades postas no século XXI?
– Questões pungentes como aquecimento global, mudanças profundas no
Mundo do Trabalho – uberização, pejotização – e nas formas acirradas da
exploração social, da força de trabalho, certamente, tem grande inflexão na
vida de todos. Salvo poucas exceções, que apenas confirmam a regra geral, não há refúgio ou formas de vida social que estejam imunes a esses
processos.

21. Os discentes são convocados para participar dos processos
institucionais que envolvem a reformulação dos cursos e da
Licenciatura?
– As estruturas burocráticas da atualidade são cada vez mais
horizontalizadas, fechadas em torno de grupos de poder – com interesses
específicos – e seguem refratárias a proposições que não sejam
mecanizadas, memorizadas desde sempre por quem cria e dita normas e
padrões. A universidade pública, ainda em 2026, tem enorme dificuldade em
lidar efetivamente com a acessibilidade, inclusão e permanência. A paridade
da universidade segue sendo um tabu, em sequência ao movimento que
redimensionou a burocracia de um meio, a um fim em si mesma.

22. Os discentes compreendem a amplitude de não participar ou participar
de forma incoerente nos processos que tratam da reformulação dos
cursos de Licenciatura?
– Possivelmente não. Assim como grande parte das pessoas não compreende
a relevância da participação política, a participação nos processos
acadêmicos também parece ser, para muitos estudantes, um grande
nevoeiro. A academia muitas vezes se apresenta como um sistema deslocado
da realidade dos estudantes e, por isso, a não participação ou a participação
incoerente nos processos decisórios acaba sendo pouco compreendida.
Quando um estudante não participa das decisões internas do seu curso, mas
posteriormente reclama da falta de recursos para determinado laboratório ou
da ausência de incentivos a uma pesquisa, também demonstra
desconhecimento sobre os próprios processos institucionais. Os centros
acadêmicos evidenciam essa contradição: há mobilização enquanto ela não
exige participação efetiva e contínua. Há um certo nível de incoerência entre
cobranças e ações com relação à participação dentro da universidade.

23. Há uma clareza sobre a condição profissional de quem faz Licenciatura?
– Ainda podemos constatar duas percepções bastante (de)marcadas sobre o
profissional da Licenciatura. De um lado, está a figura do “coitado” que ingressa em um sistema educacional considerado colapsado e sem futuro.
Muitas experiências em sala de aula só podem ser descritas preconceituosas,
referindo-se a “pibidianos/as”, (participantes do projeto PIBID), quando era
comum ouvir frases como “passou na federal, pena que escolheu ser
professora” ou “tem certeza que vai conseguir trabalhar nesse caos até se
aposentar?”. Por outro lado, quando observamos a relação com os
estudantes, especialmente no ensino fundamental, a professora muitas vezes
é colocada no lugar de “mãe” ou “tia”, associada a papéis de cuidado e
carinho. Assim, somos desvalorizadas pelo aspecto profissional e, ao mesmo
tempo, reduzidas pelo aspecto pedagógico a papéis que não correspondem à
complexidade da atuação docente.

24. Os espaços destinados à Licenciatura e ao Bacharelado são os
mesmos? Poderiam ou deveriam ser diferentes, apropriados a cada
formação específica?
– Sem contar a exigência, por exemplo, de laboratórios específicos, se são
construções teóricas distintas, então, conclusivamente, Bacharelado e
Licenciatura podem compartilhar alguns momentos, mas é claro que exigem
espaços especializados.

25. Como podemos formar licenciandos/as que sejam mais engajados/as
nas práticas pedagógicas?
– Inicialmente, seria importante compreender porque a Licenciatura ainda é
vista como demérito em muitos contextos, seja pela deterioração do sistema
de ensino, seja pela falta de reconhecimento social da Educação como
elemento fundamental para o desenvolvimento do país. O engajamento nas
práticas pedagógicas, nesse caso, precisa ser construído desde o ingresso na
universidade, por meio de projetos e oportunidades que aproximem os
estudantes da área. Em cursos como Biologia, por exemplo, a área
laboratorial costuma receber maior procura e reconhecimento, inclusive pelas
oportunidades de iniciação científica, enquanto iniciativas voltadas à
docência, como o PIBID, nem sempre possuem as mesmas condições de
financiamento. Há, portanto, um duplo movimento: os estudantes são pouco
incentivados a se aproximar da área pedagógica e, simultaneamente, ela
ainda é historicamente menos valorizada no campo acadêmico.

26. A Licenciatura pode ser obrigatória em determinados cursos ou sempre
deveria ser optativa?
– Essa também será uma questão em aberto, muitas vezes a depender dos
grupos de poder envolvidos e do corpo gestor em ação – quer sejam
instituições públicas, quer sejam privadas – ou a depender das necessidades
trazidas pelo mercado de trabalho. O ideal, por outro lado, estaria na oferta
das duas modalidades e que fossem de livre escolha discente 12 .

27. A Licenciatura deveria ser oferecida no final da formação, no início, ou
isso não importa?
– Quem já teve a experiência do acesso à Licenciatura ocorrer no início ou no
final do ciclo de formação discente, como profissionais da Educação, muito
provavelmente dirá que o impacto é muito diferente, a depender de onde seja
ofertado. Na fase final da formação discente é correto esperar por uma
maturidade maior, com experiências agregadas e que contribuam para um
melhor posicionamento no decorrer da fase final de formação em
Licenciatura.

28. Em tempos de Fake News e negacionismo, há discussões, debates,
aulas sobre Educação em Ciências?
– Atualmente é difícil afirmar, mas, no pós-pandemia, em grande parte das
disciplinas educacionais e pedagógicas, as discussões sobre negacionismo e
Fake News apareciam como um nevoeiro passageiro dentro de algumas
temáticas, mas não como questões efetivamente desenvolvidas. Em uma aula
sobre vacinas, por exemplo, o negacionismo aparecia associado ao
movimento antivacina ou, historicamente, à Revolta da Vacina, mas
geralmente como consequência ou contexto, e não como objeto de discussão.
Pouco se discutia sobre os processos de construção e propagação das Fake
News, suas razões de permanência e suas dimensões sociais e políticas. Ou
seja, o tema aparece, porém, raramente ocupa um lugar central na formação
em Educação em Ciências.

29. Os cursos de Licenciatura na área de ciência da natureza são vistos com
o mesmo status dos cursos de Bacharelado?

– Vindo de um curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e tendo convivido
com ambos os cursos por quatro anos, pode-se dizer que não. As diferenças
entre Licenciatura e Bacharelado não estão apenas na grade curricular, como
também nas condições de formação. Enquanto a Licenciatura frequentemente
apresenta uma carga horária extensa, que dificulta a participação em
laboratórios, a produção científica, publicações e atividades extracurriculares,
essas mesmas experiências são cobradas como diferenciais importantes para
a formação. Há, portanto, uma contradição entre aquilo que é exigido e as
condições oferecidas para que os estudantes possam realizar essas
atividades. Essa diferença também aparece na valorização das próprias
experiências formativas. No PIBID, por exemplo, não é incomum ouvir que a
experiência “não chegava aos pés” de uma iniciação científica. Isso evidencia
uma problemática mais ampla: a prática docente ainda é menos valorizada
dentro da própria universidade. O “só dar aula” permanece como um rastro
dessa desvalorização, embora se tenha algo que a docência não faz, é “só
dar aula”.

30. Por que, via de regra, as mulheres se dirigem mais à formação em
Licenciatura, do que os homens?
– Porque, simplificadamente, essa prática social reflete a formação social do
patriarcado: no limite está a ideia de que a criação dos filhos é tarefa
doméstica (Oikós) e cabe às mulheres a sua execução. Obviamente, trata-se
de um recorte machista, pois, as tarefas externas, políticas (Pólis) caberiam
aos homens.

31. A formação em Licenciatura é valorizada da mesma forma que a
formação em Bacharelado?
– Definitivamente não possuem o mesmo status. A desvalorização da
Educação claramente desemboca na formação em Licenciatura. Sem
contabilizarmos a inclinação do Bacharelado para atividades profissionais
“mais rentáveis”, além da ocorrência do machismo na esteira da herança
sistêmica do patriarcado, é preciso vermos a crescente automação,
digitalização dos processos educacionais. Portanto, é incrível pensarmos que
D. Pedro II teve mais clareza do que a maioria dos governantes, quanto ao
papel da Educação e da Ciência.

32. A formação oferecida nos cursos de Licenciatura em Ciências da
Natureza prepara os estudantes para lidar com os desafios concretos da
prática docente?
– No momento atual, talvez nem mesmo parte dos docentes universitários
conheça suficientemente as problemáticas e os desafios concretos da prática
docente na Educação básica. Não se diz como uma crítica individual aos
docentes, mas como reflexo de uma formação acadêmica que, muitas vezes,
leva diretamente da graduação ao mestrado, doutorado e à universidade, sem
uma experiência efetiva na escola pública. Isso pode produzir tanto
preconceitos sobre a realidade escolar quanto dificuldades para compreender
a complexidade de uma escola e de uma turma da Educação básica. Há um
certo deslocamento entre universidade pública e escola pública. Nesse
sentido, os estágios obrigatórios acabam sendo tão formativos quanto às
disciplinas teóricas. São desafios que, muitas vezes, nem mesmo os
estudantes, estando inseridos nas escolas, imaginam que poderiam existir.

33. Há uma preocupação, maior atenção, com os clássicos na atualidade, ou
somente se apresentam como realidades e tempos desconexos?
– Certamente, temos de refletir seriamente se os chamados clássicos ainda
são revisitados. Normalmente escritos, formulados em outras épocas, em
tudo díspares da modernidade atual, e em atendimento ao pensamento que
tudo deve ser facilitado, não é incomum que surjam formulações modistas,
passageiras, simplificadoras, porque não nos exigem maiores reflexões. É o
equivalente a perguntarmos se todo mundo lê ou já leu Machado de Assis.

34. Pensar algumas questões gerais relativas à Licenciatura é equivalente à
reflexão sobre a função social de professoras e de professores no
Brasil?
– Não há dúvidas quanto a essa questão: a resposta é sim. Levando-se em
séria consideração as condições ofertadas para a efetivação da formação em
Licenciatura. Além disso, deve estar no nosso horizonte de eventos as
condições de trabalho, o esforço docente, as garantias e os direitos dos
profissionais em Educação, a luta política em torno do campo da Educação.

35. O que, efetivamente, o país, as políticas públicas, os governos, os
poderes constituídos, devem ofertar para uma mudança significativa na
Educação e na formação em Licenciatura?
– Em decorrência da questão anterior, a resposta a esse questionamento
advém da visão de mundo que tenhamos. De modo direto e simplificado,
podemos pensar que a Educação Pública deve ser gratuita, de qualidade,
laica, republicana, emancipadora, em período integral, com vistas a aproximar
o Homo sapiens do Homo faber.

36. Por que a ideia de apenas “dar aula” ainda é uma expressão recorrente,
inclusive dentro da própria academia?
– Também em decorrência da questão anterior, a pergunta já traduz o que a
cultura nacional pensa sobre a Educação. A pergunta associa a Educação a
práticas de hobby, complemento de salários, vaidade intelectual. Se a
Educação fosse levada a sério no país, pelos governantes de forma geral,
esse tipo de pergunta sequer seria feita.

37. O que o país, historicamente, reserva (reservou) para os professores e
professoras?
– Como dizia o antropólogo e senador da República, Darcy Ribeiro: “a crise da
Educação não é uma crise, é um projeto”. O projeto de país herdado da
formação colonial, patriarcal, coronelista, senhorial e elitista, tem na Educação
um projeto de dominação que passa a milhares de quilômetros de distância
da Emancipação social.

38. A Licenciatura permite refletir de modo aprofundado a Educação como
luta política no bojo da luta de classes?
– A primeira questão que devemos ter em mente seria assim: todo mundo
sabe o que é luta de classes? Estamos aptos a ensinar o que é luta de
classes e a função motriz dos meios de produção na relação entre a luta de
classes? Quanto a vivenciarmos, cotidianamente, as forças e as implicações
derivadas da luta de classes, nisso não há dúvida.

39. Inspirando-se em Morin 13 e Paulo Freire, quais seriam os 10 saberes
necessários (obrigatórios) ao futuro?

– É muito difícil limitar a um número mágico, tantas são as necessidades,
entretanto, por outro lado, não é fácil escolher a primeira sugestão. Como
temáticas gerais, poderíamos pensar num alinhamento claro, estruturado,
entre a Educação e o Pensamento científico: teórico, técnico, ético, político,
emancipador. De modo elementar listaríamos disciplinas como Sociologia,
Filosofia, História, Geografia, Matemática, língua portuguesa, Ciências e
Biologia. E de forma mais diretiva podemos limitar a algumas entradas,
especialmente se tratarmos da escola pública em tempo integral, como:
Educação ambiental, Educação digital, Educação constitucional.

40. A Licenciatura no século XXI tem lugar para “tia ou professora“?
– O Paulo Freire referido na bibliografia, em rodapé 14 , não deixa dúvidas para
essa pergunta?– O Paulo Freire referido na bibliografia, em rodapé[14], não deixa dúvidas para essa pergunta?

[1] Acesso em 11/08/2026: https://ademocracia.com.br/2026/03/21/educacao-e-sociedade/.

[2] Acesso em 15/08/2026: https://diplomatique.org.br/as-microagressoes-chegam-as-universidades-brasileiras/.

[3] Acesso em 11/08/2026: https://jus.com.br/artigos/73306/dicionario-politico-juridico-da-educacao-publica.

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

[5] Acesso em 11/08/2026: https://jus.com.br/pareceres/70016/orientacoes-e-boas-praticas-contra-a-censura-previa-em-sala-de-aula.

[6] FREIRE, Paulo. Política e Educação. São Paulo: Cortez, 1993, p. 54.

[7] Acesso em 11/08/2026: https://www.rehcol.com/index.php/rehcol/article/view/82.

[8] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: KDP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.

[9] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Manual de autoajuda política*: ou como ajudar você mesmo (a) na arena. Campina Grande: EDUEPB, 2022.

[10] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

[11] OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

[12] – Ester: Complementando, acredito que a oferta aberta das duas modalidades fosse o ideal, dando a oportunidade de escolha, como ocorre na UFSCar. Mas me lembro de algo que ouvi de um colega de profissão antes mesmo de entrar na universidade, enquanto ainda estava em dúvida sobre qual área seguiria, Licenciatura ou Bacharelado. Em uma conversa, ele disse: “Ambos são essenciais, mas a Licenciatura tem algo a mais, ela pode formar seres humanos.” Ao final de quatro anos de curso, consegui entender o que ele quis dizer. Não se trata de melhor ou pior, mas de como a Licenciatura nos leva aos extremos: nos leva a disciplinas das 08h00 às 23h00, mas também a escolas e salas de aula em que a preocupação nem sempre era se o estudante havia feito a tarefa do dia anterior, mas o suspiro de alívio ao abraçá-lo e sentir o cheiro de amaciante em sua blusa, o que significava que ele havia conseguido tomar banho e trocar a roupa por uma limpa. Não é apenas formar profissionais; a Licenciatura também forma humanos.

[13] A título de exemplificação, indicamos uma produção de 2026, nascida das necessidades e do aprofundamento de experiências em sala de aula: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin*: São Carlos: Amazon, 2026.

[14] FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. Olho d’Água, 1997.

Petróleo na Foz do Amazonas pode reposicionar Brasil entre potências do setor

A Petrobras anunciou em 14 de agosto de 2026 que encontrou petróleo no poço Morpho, no bloco FZA-M-59, na Margem Equatorial brasileira. A descoberta, na bacia da Foz do Amazonas, abre uma etapa de avaliação para verificar o tamanho, a qualidade e a viabilidade econômica das reservas.

O poço fica a 175 quilômetros da costa de Oiapoque, no Amapá, e a quase 500 quilômetros da foz do Rio Amazonas. A estatal detém 100% de participação no bloco, adquirido sob o regime de concessão, e mantém as operações de perfuração para avançar na avaliação exploratória.

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que a descoberta pode “reposicionar o Brasil na geopolítica global”. Ele atribuiu o resultado ao trabalho do governo em defesa da soberania energética e disse que a região pode atrair centenas de bilhões de reais em investimentos, empregos e renda, caso seu potencial se confirme.

Para David Zylbersztajn, professor do Instituto de Energia da PUC-Rio e ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, a incidência de óleo é uma grande notícia mesmo sem estimativa da reserva. Ele lembrou em entrevista ao Estadão que a Exxon perfurou 64 poços na porção da Margem Equatorial situada na Guiana antes de encontrar petróleo.

Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia. Foto: reprodução

Especialistas pedem cautela sobre o volume da reserva

O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, disse ao Estadão que ainda não há números da Petrobras que permitam classificar a descoberta como relevante. Para ele, o anúncio evidencia a importância de o Ibama agilizar a análise de licenças ambientais para a atividade na região.

O Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás afirmou que a confirmação de hidrocarbonetos em águas ultraprofundas reforça as perspectivas de produção de petróleo e gás em outras áreas do país. A entidade avaliou que uma nova fronteira no extremo Norte pode fortalecer a segurança energética brasileira no médio e no longo prazo.

Fábio Lemos, sócio da Fatorial Investimentos, afirmou que o resultado reduz o risco geológico da Margem Equatorial. “Se os próximos poços confirmarem escala e qualidade, aí sim podemos estar diante de uma nova fronteira capaz de ter importância estratégica para a Petrobras na próxima década”, disse.

O gestor Hugo Queiroz, da Soho Capital, estimou que a primeira produção levaria ao menos de seis a oito anos. Na avaliação dele, a área pode ajudar a Petrobras a recompor reservas e ampliar sua produção futura, enquanto a companhia poderia vender ativos em águas rasas para concentrar recursos na nova fronteira exploratória.

DCM

‘Volto do futuro e digo que é possível’, diz coordenadora de projetos do Brasil de Fato após visita à China

Modernidade com tradição, economia de mercado com planejamento estatal, investimento em educação e tecnologia. São vários os aspectos destacados pelos jornalistas entrevistados pela TV 247, que participaram do “Workshop de Mídias do Sul Global”, com uma viagem promovida pelo governo chinês para comunicadores e veículos de comunicação da América Latina.

“Chegar em um país como a China foi realmente muito impressionante e muito emocionante de ver que é possível, né? Eu volto do futuro e digo: ‘É possível’”, disse a coordenadora de projetos do Brasil de Fato, Caroline Apple, no programa Estação Sábia, comandado pela jornalista Regina Zappa.

“A viagem abriu realmente um universo novo de percepção política, cultural e de narrativas de bem-estar, de organização social. Eles não falam em cópia do modelo, mas nos inspiram a buscar os nossos caminhos. Eles já se molharam e cederam o guarda-chuva para que outros não se molhassem.”

Nesse sentido, o editor do site Outras Palavras, Antonio Martins, que esteve na China pela segunda vez, analisa o modelo chinês como um sistema híbrido. “Eu não chamaria o sistema nem de capitalismo, nem de capitalismo de Estado. É, na verdade, um sistema híbrido, no qual, num certo sentido, vigora a lei do capital, com a grande maioria de empresas privadas, onde estão 80% dos trabalhadores. No entanto, essas empresas estão submetidas a um planejamento central, com uma coordenação. O que ela vai produzir, o tom geral que ela vai seguir, um plano que depois se descentraliza.”

Ao comparar com o sistema soviético, Martins lembra a análise do economista Ladislau Dowbor, que entende o sistema anterior como um outro tipo de alienação. “Mas, no estágio em que a gente está, dizem eles [os chineses], é preciso deixar as pessoas tomarem iniciativa. É, é preciso deixar as pessoas aprenderem por conta própria a imaginar o que elas vão produzir e como elas vão ter uma renda.”

Antonio lembra também que, apesar de ter um ou outro banco privado, o sistema financeiro todo está subordinado ao Banco do Povo da China, o banco central do país. “Há um sistema bancário cuja essência é pública. Não tem rentismo na China. Não tem um trilhão de dólares como aqui no Brasil, que é riqueza social desperdiçada e capturada por uma classe parasitária.”

Os jornalistas estiveram em várias regiões, inclusive no Tibete, onde tiveram oportunidade de conhecer as mudanças ocorridas em uma das regiões mais pobres do continente, que, até 1949, vivia sob um regime feudal. Entre os projetos visitados está uma indústria para processamento de carne produzida por pastores, pequenos produtores, que podem comercializar e assim ganhar para além da criação para subsistência.

Martins destaca ainda a forma como a China tem lidado com a questão da inteligência artificial, com a mobilização do governo tanto no incentivo às startups e mobilização das universidades, não só para a utilização da tecnologia, mas para se preparar para o impacto sobre o trabalho.

A jornalista Dhayane Santos, da TV 247, conta que 35 universidades já estão pensando a inteligência artificial, mostrando o papel que investimento público tem como indutor do desenvolvimento. Santos considera que essas ações estão ligadas ao modo como a sociedade chinesa pensa o conhecimento. “Eles não têm uma atitude arrogante como gente tipo: ‘Olha como a gente é bom; olha aqui, a gente consegue fazer’. Não, a atitude era: ‘Como vocês podem contribuir para a gente melhorar ainda mais isso’”.

Com um trabalho de pesquisa sobre manifestações de espiritualidade em povos tradicionais, Apple destaca a profundidade da prática no Tibete. “A gente tem no Brasil essa miscelânea de religiões, de filosofias. Entre elas, estão muito presentes no caminho universalista as linhas do Oriente, como o budismo. Só que, por meio das lentes ocidentais, a gente peca muito aqui ao falar no orientalismo, porque pega aquilo e transforma em algo divinal, algo para fora da realidade material. E não é. A questão do budismo tibetano é intrinsecamente conectada com a política e com o bem-estar.”

Luciana Oliveira explica por que a cúpula de IA em Xangai foi histórica

Luciana Oliveira, na ChinaCorrespondente da TV 247 destaca que encontro liderado por Xi Jinping marcou o nascimento de uma nova governança global para a inteligência artificial, com participação do BRICS e adesão inicial de 29 países

A correspondente da TV 247 na China, Luciana Oliveira, afirmou que a Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC 2026), realizada em Xangai, representa um marco histórico para a governança da inteligência artificial. Em análise publicada pela emissora, a jornalista destacou que o evento consolidou a liderança chinesa na formulação das regras que deverão orientar o desenvolvimento da tecnologia nas próximas décadas.

Segundo Luciana, a importância da conferência vai muito além da apresentação de novos sistemas de IA. O encontro simboliza a construção de uma nova arquitetura internacional para regulamentar a tecnologia, tendo como eixo central a cooperação entre países, a ética no uso da inteligência artificial e a proteção da soberania nacional diante do avanço das grandes plataformas tecnológicas.

Xi Jinping lidera novo movimento internacional

Na análise exibida pela TV 247, Luciana Oliveira explica que o presidente chinês Xi Jinping está conduzindo um amplo movimento de cooperação internacional para estabelecer padrões globais de regulamentação da inteligência artificial.

Segundo a jornalista, a proposta chinesa busca criar regras comuns sobre o desenvolvimento, o uso ético e o compartilhamento de sistemas de IA, oferecendo uma alternativa a modelos que concentram tecnologia e poder em poucas empresas ou países.

Até o momento, 29 países aderiram ao acordo internacional de governança da inteligência artificial apresentado durante a conferência, número que evidencia o crescente apoio à proposta liderada por Pequim.

Com informações do Brasil de Fato e Brasil 247

“Vaza daqui”: o que PMs disseram ao motorista de Haddad durante abordagem

O candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) relatou que seu motorista foi seguido por uma viatura da Polícia Militar depois de deixá-lo em casa, na noite da última terça (11). O petista disse que o acompanhamento ocorreu por muito tempo e de forma “ostensiva e intimidadora”.

O advogado Hélio Silveira afirmou que o motorista percebeu a aproximação da viatura na Avenida 23 de Maio, ligação entre a zona sul e a região central da capital. Ao se aproximarem do carro, os policiais apagaram as luzes, segundo o relato apresentado pela equipe de Haddad.

Por segurança, o motorista decidiu entrar em um hotel, onde havia câmeras de vigilância. Silveira contou que ele saiu do local para questionar os agentes sobre o que havia ocorrido, mas não recebeu resposta amistosa: “Vaza daqui”.

O motorista voltou ao hotel, esperou a saída da viatura e acionou a equipe de campanha. Haddad afirmou que o episódio durou cerca de 40 minutos e deixou o trabalhador abalado, pois havia três fuzis dentro do veículo policial.

 

SSP determina identificação das equipes da PM

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) determinou que a Polícia Militar identifique as equipes que passaram pela área onde o carro de campanha foi acompanhado. A pasta abriu apuração para verificar se houve desvio de conduta.

O secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, telefonou para Haddad e pediu informações complementares sobre o trajeto e a situação relatada. A secretaria afirmou que vai apurar qualquer eventual irregularidade.

Haddad e seu advogado disseram que procurariam o governo paulista e outras autoridades para esclarecer a motivação da abordagem. O ex-ministro classificou a situação como “fora do padrão” e afirmou esperar que tenha ocorrido alguma confusão.

Câmeras de segurança registraram uma viatura da PM passando pela rua antes da chegada do carro que transportava Haddad à residência, na zona sul de São Paulo. Nas imagens, o veículo do petista estaciona diante do prédio, acompanhado por um carro preto, e o então candidato entra no imóvel.
DCM

Dino denuncia “agressões e injustiças” em meio a perseguição no Maranhão

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que sua função como magistrado o obriga a suportar “agressões e injustiças” sem responder com frequência no debate público. A manifestação no Instagram ocorre durante a repercussão de uma investigação sobre uma campanha de perseguição, monitoramento e difamação contra ele e familiares no Maranhão.

“Como já tive oportunidade de esclarecer, a minha atual função de juiz impede-me de participar cotidianamente de ‘apaixonados’ debates públicos”, escreveu Dino. Ele disse que essa limitação inclui “assistir a distorções monumentais quanto a fatos” e acompanhar “interpretações absurdas”.

A Polícia Federal realizou uma operação contra o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida e o ex-deputado estadual Raimundo Cutrim, delegado federal aposentado apontado como fonte do repórter. A apuração trata de suspeitas de monitoramento de Dino e de sua família e da divulgação de informações sobre a segurança do ministro.

Luís Pablo nega ter monitorado Dino e sustenta que suas reportagens se basearam em informações recebidas de uma fonte. O jornalista também criticou a decisão que autorizou as medidas contra ele e afirmou que o caso pode afetar a liberdade de imprensa e o sigilo das fontes jornalísticas.

 

Entidades de jornalistas questionam impacto da investigação

Entidades representativas de jornalistas manifestaram preocupação com a investigação. A reação se concentrou nos possíveis efeitos das medidas sobre a atividade de reportagem e a proteção constitucional ao sigilo da fonte.

Dino não mencionou diretamente Luís Pablo ou Cutrim em sua publicação. O ministro vinculou sua posição ao dever de reserva imposto a integrantes da magistratura, sem comentar os detalhes da investigação conduzida pela Polícia Federal.

Antes de ingressar no STF, Dino atuou como governador do Maranhão, senador e ministro da Justiça. Ele tomou posse na Corte em fevereiro de 2024, após indicação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ao encerrar o texto, o ministro citou sua trajetória no serviço público: “A minha biografia e a minha atuação profissional, em 37 anos de serviço público, são a minha maior defesa”.

O colunista Moisés Mendes escreveu sobre o caso nesta quinta-feira (13). Leia na íntegra:

Globo e ANJ defendem informante que caçava Flávio Dino

Jornalistas são cercados, ameaçados e assediados na Justiça todos os dias por poderosos fascistas em todo o Brasil. Mas não merecem notas de apoio da Associação Nacional dos Jornais e, como aconteceu na terça-feira, do Sindicato dos Jornalistas do Maranhão, em defesa de um vigarista que monitorava os movimentos do ministro Flávio Dino e da família dele.

Um blogueiro e influencer, operador da extrema direita, abastecido por informações de um ex-delegado bolsonarista, para que o fascismo maranhense ficasse sabendo dos passos do ministro e até dos seus seguranças. São os dois protegidos pela entidade dos jornais e pelas corporações de mídia.

Uma gangue organizada para aterrorizar Flávio Dino alega agora quebra do sigilo da fonte, por causa de busca e apreensão determinada pelo ministro Alexandre de Moraes.

O caso clássico é o de Walter Delgatti Neto, que entrou no sistema de mensagens dos lavajatistas, expôs o que acontecia em Curitiba e foi condenado. Alguém sabe se alguma vez a Globo lavajatista defendeu a proteção de Delgatti como fonte?

Mas a Globo acha que, quando é para abastecer a extrema direita, esse tipo de gente pode tudo, porque jornalista às vezes rima com vigarista.

ARSENAL

Esta é a ‘fonte’ que a Associação Nacional dos Jornais e a Globo entendem que deve ser protegida, em nome das liberdades absolutas. A notícia está agora no DCM:

A Polícia Federal apreendeu 26 armas e mais de 700 munições na casa do ex-deputado estadual e delegado federal aposentado Raimundo Cutrim, de 72 anos, durante busca autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), segundo a coluna de Carlos Madeiro no UOL. Ele entrou na investigação que apura perseguição e difamação contra o ministro Flávio Dino.

O mandado alcançou Cutrim na terça-feira (11), no inquérito sobre stalking (perseguição) contra Dino. A PF chegou ao ex-parlamentar após analisar materiais recolhidos em março com o blogueiro maranhense Luís Pablo, também investigado no caso.

(Cutrim está em prisão domiciliar por coação de testemunhas e obstrução de processo no caso do assassinato do empresário João Bosco Sobrinho no Maranhão, em 2022, no Maranhão, por Gilbson Cutrim. Há suspeitas de que a perseguição a Flávio Dino tenha relação com esse homicídio, já que o ex-delegado teria tentado proteger Gilbson, que é seu parente distante. Dino está cuidando de desdobramentos desse caso no STF.)

DCM

PT contesta Flávio Bolsonaro no TSE e aponta uso ilegal de deepfake

Partido afirma que vídeo com imagem e voz de Jair Bolsonaro viola regra eleitoral, mesmo identificado como conteúdo produzido por inteligência artificial

 O PT apresentou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) uma manifestação na qual sustenta que o vídeo produzido por inteligência artificial com a imagem e a voz do ex-presidente Jair Bolsonaro, exibido pela campanha de Flávio Bolsonaro, deve ser considerado ilegal mesmo com a identificação do conteúdo como uma simulação. As informações são do g1.

Protocolado na noite de quarta-feira (12), o documento rebate o argumento da defesa do candidato da extrema direita de que a irregularidade dependeria da intenção de enganar o eleitor. Para os advogados do partido, a classificação como deepfake decorre das características técnicas do material, independentemente da finalidade atribuída à produção.

“O deepfake de uso legítimo continua sendo deepfake. A licitude do uso é juízo normativo externo; a natureza da coisa não muda conforme o rótulo que se lhe aponha”, afirmaram os representantes do PT.

Deepfakes são conteúdos produzidos ou manipulados digitalmente para reproduzir ou alterar a imagem e a voz de uma pessoa. No processo eleitoral, o debate envolve os limites para o emprego dessa tecnologia em materiais destinados a beneficiar ou prejudicar candidaturas.

PT cita proibição prevista em resolução eleitoral

A manifestação destaca que o TSE já regulamentou o tema por meio da Resolução nº 23.732/2024, que trata da propaganda eleitoral. A norma proíbe o emprego de conteúdo sintético em áudio, vídeo ou em uma combinação dos dois formatos para criar, substituir ou modificar a imagem ou a voz de pessoas vivas, falecidas ou fictícias com finalidade eleitoral.

Segundo a equipe jurídica do PT, a divulgação institucional realizada pelo próprio tribunal após a aprovação da resolução deixou explícito o alcance da proibição.

“A comunicação institucional do Tribunal não deixou margem a dúvida sobre o que se aprovava. A notícia oficial registrou que a candidata ou candidato que usar deepfake poderá ter o registro ou o mandato cassado”, declarou a defesa do partido.

Os advogados também argumentaram que Nunes Marques, presidente e relator do processo no TSE, preservou a redação da regra durante a elaboração das resoluções destinadas a orientar as eleições deste ano.

A petição acrescenta que o tribunal não acolheu uma proposta da Academia Brasileira de Direito Eleitoral que buscava diferenciar, de maneira mais precisa, os conceitos de deepfake e inteligência artificial generativa.

“O que o parecer pede a este Juízo por via hermenêutica é, precisamente, o que o Plenário desta Corte, em sede regulamentar própria e provocado a tanto, recusou há cinco meses”, sustentou a equipe jurídica do PT.

Ministros discutem inteligência artificial nas eleições

A contestação foi apresentada às vésperas de uma reunião interna dos ministros do TSE sobre o uso de inteligência artificial no processo eleitoral. O encontro está previsto para esta quinta-feira (13), no gabinete de Nunes Marques, depois da sessão plenária marcada para as 10h.

O debate foi impulsionado pelo vídeo exibido em 25 de julho, na convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. O material recorreu à inteligência artificial para simular um pronunciamento de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar.

Do Brasil 247

Emenda de vice de Flávio Bolsonaro integra lista de repasses suspeitos enviados por Dino à Polícia Federal

7 – Uma emenda parlamentar no valor de R$ 6,2 milhões destinada pelo deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), está entre os casos suspeitos apontados pelo Tribunal de Contas da União (TCU) que agora serão investigados pela Polícia Federal. A determinação para a abertura da apuração policial foi assinada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que encaminhou o relatório de auditoria à corporação para verificar indícios de crimes e possíveis danos ao erário.

A auditoria do TCU mapeou uma série de irregularidades graves na execução das chamadas “emendas Pix” no país entre 2020 e 2024, calculando um prejuízo potencial ao erário de R$ 49,1 milhões. Entre os casos de maior repercussão colocados na mira da Polícia Federal está a transferência efetuada por Alfredo Gaspar para a cidade de São José da Laje (AL), município situado a 100 quilômetros de Maceió. De acordo com os técnicos do órgão de controle, o montante enviado pelo parlamentar perdeu completamente a rastreabilidade depois de ter sido seguidamente transferido entre diferentes contas bancárias da própria administração municipal.

Além do sumiço da rota do dinheiro público nas contas municipais, a fiscalização identificou a falta do relatório de gestão no sistema Transferegov, documento exigido por lei para a prestação de contas desse modelo de transferência especial.

Quando o diagnóstico do TCU foi divulgado, o deputado Alfredo Gaspar sustentou que não figura como investigado no procedimento focado no acompanhamento dos recursos públicos no município alagoano. “As emendas parlamentares foram destinadas de forma regular ao município, conforme a legislação, cabendo exclusivamente à prefeitura a execução dos recursos e a respectiva prestação de contas”, declarou na ocasião, acrescentando que “confia no trabalho dos órgãos de controle”. A prefeitura de São José da Laje foi procurada na época, mas não apresentou resposta.

Irregularidades atingem 82% das transferências auditadas

O levantamento conduzido pelo TCU revelou um quadro amplo de opacidade e falta de controle. A auditoria identificou irregularidades em 82 das 100 transferências especiais fiscalizadas — o equivalente a 82% da amostra examinada pelo tribunal. As falhas alcançaram 61 dos 74 estados e municípios auditados (82,4%), abrangendo um total de R$ 198,1 milhões em repasses examinados pelos técnicos.

O processo no Tribunal de Contas da União é relatado pelo ministro Walton Alencar Rodrigues. No último dia 31, o documento foi entregue a Flávio Dino, relator no STF da ação que versa sobre a obrigatoriedade de transparência e rastreabilidade na aplicação das emendas parlamentares ao Orçamento da União.

Em decisão proferida nesta sexta-feira, Dino destacou que os dados levantados comprovam não apenas desvios e problemas pontuais, mas também “fragilidades estruturais” na operação do sistema. De acordo com o ministro, as descobertas do TCU atestam a persistência de um “estado de inconstitucionalidade” na gestão das emendas Pix, tornando imperativa a adoção de novas regras para ajustar o repasse de verbas individuais às exigências de transparência pública.

Em razão disso, Dino assinalou o prazo de dez dias para que o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos preste esclarecimentos sobre as inconsistências operacionais indicadas. A pasta deverá informar ao STF quais medidas já foram tomadas ou quais soluções técnicas precisam ser implementadas para sanar as brechas no sistema.

Desvios envolvem fraude, superfaturamento e falhas na saúde

De acordo com o parecer técnico dos auditores, o ecossistema das transferências especiais padece de “falhas de natureza sistêmica”, traduzidas em fraca rastreabilidade, falta de transparência e episódios variados de má aplicação de recursos do Estado.

O montante acumulado de prejuízo potencial — R$ 49,1 milhões — equivale a quase 25% de todo o dinheiro auditado na amostragem. Esse valor contempla prejuízos associados à ausência de rastreamento bancário, erros na execução orçamentária e falta de cumprimento físico das obras e serviços contratados.

O relatório lista as principais irregularidades constatadas no processo de fiscalização:

  • Utilização de contas bancárias inadequadas operadas como “contas de passagem”;
  • Inexistência de prestação de contas registrada na plataforma Transferegov;
  • Pagamentos efetuados sem a devida comprovação documental de despesa;
  • Alocação de verbas em finalidades estranhas ao objeto original da emenda;
  • Indícios de fraudes em processos de licitação e contratação de empresas inidôneas;
  • Práticas de superfaturamento e abandono ou inexecução de obras e serviços públicos.

A falta de transparência mostrou-se especialmente grave nos repasses voltados à área da saúde. Segundo os auditores do TCU, a ausência do relatório de gestão obrigatório no Transferegov foi verificada em 100% das prefeituras auditadas na categoria destinada à aquisição de materiais hospitalares.

O expediente de transferir o dinheiro recebido por emenda para outras contas da própria prefeitura — transformando a conta original em uma “conta de passagem” — foi um dos métodos mais apontados para obstruir o rastro das verbas. O TCU pontuou que esse tipo de manobra tende a ser reprimido nos repasses recentes, após a publicação de instrução normativa em 2024 que obriga a criação de conta bancária específica e exclusiva para cada transferência especial.

Apesar de reconhecerem que as atualizações normativas feitas a partir de 2024 trouxeram avanços no acompanhamento dos repasses, os auditores do TCU concluíram que o passivo e as fragilidades observadas na execução das emendas entre 2020 e 2024 continuam a comprometer gravemente a fiscalização e a transparência do dinheiro público no país.

O BRASIL QUER SABER AONDE ESTÁ O MINISTRO ANDRÉ MENDONÇA?

OS R$ 61 MILHÕES ENVOLVIDO NO CASO “DARK HORSE”
CONTINUA SENDO UM MISTÉRIO..
O ministro do (STF) Sistema Tribunal Federal,André Mendonça está “desmoralizado” por estar atuando para blindar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). As críticas ganharam força após o ministro relatar e julgar processos sensíveis que envolvem o senador, levantando debates sobre suspeitas de parcialidade. Fortes críticas e questionamentos políticos,sobre sua imparcialidade, na condução do caso banco Master/Operação”Dark Horse”.
Assimetria nas medidas judiciais: Setores da oposição e parlamentares, como o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e Glauber Braga apontam que André Mendonça utilizou “dois pesos,duas medidas”. O ministro autorizou operações de busca e apreensão contra adversários políticos do clã Bolsonaro, mas se mostra parcial nas investigações que pode levar Flávio Bolsonaro a ser condenado.
Principais Pontos da Controvérsia
  • Decisões no TSE: O ministro André Mendonça, na vice-presidência do TSE, negou pedidos para retirar do ar vídeos de Flávio Bolsonaro (produzidos com Inteligência Artificial) que associavam o Partido dos Trabalhadores (PT) a facções criminosas. Ele defendeu o princípio de mínima interferência da Justiça Eleitoral e a liberdade de expressão política. 
  • Controle de Conteúdo nas Redes: Mendonça também determinou a remoção de postagens que associavam Flávio Bolsonaro a propostas de alteração na escala de trabalho, acatando pedidos da defesa do senador. 
  • Inquéritos da Polícia Federal: O magistrado foi alvo de contestações por gerir inquéritos envolvendo figuras ligadas ao clã Bolsonaro e ao setor financeiro (como o caso do Banco Master). Críticos apontam que decisões do ministro beneficiariam o entorno do senador, enquanto a oposição questiona a suposta seletividade das apurações.
O Debate Público
As alegações de “desmoralização” institucional ou parcialidade são amplamente alimentadas por divergências ideológicas e disputas partidárias. Enquanto aliados do governo e partidos de esquerda acusam o ministro de atuar como “advogado de defesa” do clã Bolsonaro, apoiadores do senador defendem a imparcialidade técnica das decisões sob o argumento de proteção à liberdade de expressão e ao ambiente democrático de debate.

Em tempos de fake news e ideologias fascistas, obra discute ciência como pilar da sociedade

0

Com base em Morin, obra discute ciência como pilar da sociedade

Professor da UFSCar lança “Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin”

Denise Britto/UFSCar – MTb 42684/SP

@de.britto

Não há nada menos racional, científico e ético do que as fake news, o negacionismo, a apropriação cultural empenhada pelas ideologias racistas e supremacistas, propriamente fascistas. A fala é do professor Vinício Carrilho Martinez, do Departamento de Educação (DEd) da UFSCar. Ele acaba de lançar a obra “Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin”, na qual destaca como o filósofo francês Edgar Morin defende o Pensamento científico como um pilar político “ou, como preferem, societal”, destaca Martinez.

A obra está disponível, em formato digital, no site da Amazon

https://share.google/6ShgDmxZycnlgPfHo

O mais novo lançamento do professor da UFSCar se debruça especificamente sobre o livro “Ciência com consciência” de Morin.  “É um chamado à consciência, como consciência de quem se põe no mundo não apenas para entendê-lo, mas também transformá-lo. Espero que o meu texto não o desaponte”, afirma autor. “O tema gerador do meu livro, se tivesse que escolher apenas um conceito, seria a prevalência necessária (ética e científica) de um Pensamento científico crítico e dialético”.

Origem do livro

O autor conta que a ideia da obra surgiu “exatamente dentro da sala de aula, da minha necessidade de estudar e montar sempre aulas novas. A todo semestre faço isso, pouco recupero ou repito dos semestres anteriores”, explicou.

O livro, conta o autor, foi arquitetado no primeiro semestre de 2026. “Começou com a preparação das aulas na disciplina obrigatória ‘Ciência, Tecnologia e Sociedade’, junto ao Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PPGCTS) da UFSCar. Após o término do curso, fui reler e percebi que se investisse mais tempo e cuidado poderia gerar algo mais”.

 

Homenagem em vida

Uma curiosidade, segundo o professor, é que “quando iniciamos a leitura e os debates acerca de Morin, na disciplina, ele ainda estava vivo. Morin viria a falecer, aos 104 anos, na fase final das nossas aulas. De certo modo, foi uma homenagem em vida”.

 

Segundo ele, “a escolha de Morin foi por aproximação intelectual, notadamente pelo efeito atrator que tem em mim a complexidade, a dialética e o princípio do contraditório. Atualmente, nos últimos cinco anos, tenho me dedicado mais a temas ligados à educação e, por isso, um viés do meu livro é uma espécie de convite a Morin para que converse com futuros educadores e educadoras brasileiras”.

 

Público-alvo

O trabalho foi redigido para um público específico – estudantes dos cursos de mestrado. Porém, o autor conta que tentou o cuidado de torná-lo acessível a um público vasto. “Não se trata de um livro de crônicas, então, sempre há necessidade de se levar alguma reflexão para quem visita as páginas que escrevemos. É um livro acadêmico, no entanto, foi escrito para não ser hermético”.

 

Diferencial da obra

O professor da UFSCar tem diversos livros publicados, entre eles, “Educação Crítica à Uberização” (https://www.ufscar.br/noticia?codigo=17020&id=livro-aborda-uberizacao-social-e-capitalismo-digital), “Educação para além da exceção” (https://www.ufscar.br/noticia?codigo=16825&id=professor-analisa-a-naturalizacao-da-excecao-nos-processos-historicos),

“Educação e Sociedade” ( https://www.ufscar.br/noticia?codigo=16391&id=livro-aborda-elos-entre-educacao-e-sociedade-no-brasil ) e “Educação constitucional: Educação pela Constituição de 1988″ ( https://www.ufscar.br/noticia?codigo=16314&id=livro-reforca-importancia-do-ensino-da-constituicao-na-educacao-publica). Mas qual o diferencial do novo livro em relação às demais obras lançadas pelo professor recentemente?

“Essa é sempre uma ótima indagação, pois, muitas vezes produzimos em torno de temas e objetos conhecidos por nós. Neste caso, não. Apesar de conhecer o pensamento de Morin desde quando fiz o mestrado em Educação, o livro que utilizei foi tão novo para mim quanto para os discentes do curso. Foi novidade, mais claramente no que se refere ao que entendo ser o ponto central desse trabalho de Morin, que é o que ele denomina de ‘Pensamento científico’ – e como deve prevalecer sobre o próprio conhecimento científico. É uma questão complexa que não posso resumir aqui, porém, isso nos ajuda a ver como minha produção se distingue de tudo que vinha fazendo: uberização, pressupostos da exceção, Educação e Sociedade – para referenciar as minhas últimas publicações”.

Organização do livro

A publicação “Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin”, com 108 páginas, tem uma apresentação, um prefácio e um posfácio, além de 10 capítulos.

“Os capítulos são todos centrados em Morin, especialmente no livro ‘Ciência com consciência’ (Bertrand Brasil, 1996). É um texto denso, tem traços marcantes, fundantes, brilhantes. É claro que toda obra precisa ser contextualizada e criticada, no que não se encaixa mais em nossos tempos, e completada com as necessidades e adversidades atuais. Em todo caso, como sempre falo, não é um livro para ser lido, mas, sim, estudado. Em parte, foi o que me propus na minha leitura para o curso, além de ter resgatado Morin do mergulho nas ciências exatas para confrontá-lo um pouco com as Ciências Sociais e a educação que queremos para nós”.

O livro está disponível em formato online no site da Amazon, em

https://share.google/6ShgDmxZycnlgPfHo

Contato com o professor: @viniciocarrilhomartinez

 

Educação crítica à uberização -Os novos tempos

0

Vinicio Carrilho Martinez – Professor titular da UFSCAR

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCAR

Izabela Victória Pereira – Graduanda em Filosofia pela UFSCAR

 Há dois conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade: o Capitalismo digital e a uberização social. Qualquer decisão institucional ou ação política tem que passar por essa análise. Depois, enquanto esforço docente, por exemplo, nossa obrigação, além de entender melhor a nossa realidade, é pensar na proposição de uma Educação crítica a esses processos, especialmente a uberização social – uma vez que está presente na vida de todos nós, sem que tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o “servilismo voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou quando acessa alguma rede social.

Esses “dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito à perda total de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma de uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e empreendedorismo, e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a autonomia frente à plataforma que também atua como meio de controle social e punição.

Júdice da uberização –, quanto lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje. A margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode facilmente vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em cada corrida ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe 10 reais destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de cancelamento de uma corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se o/a passageiro/a assim o desejar – recebe pouco mais de três reais. Isso a depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela prestação de serviço uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo cancelamento talvez nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas plataformas, todas elas, só vigora porque está listada nas prioridades hegemonizadas do “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.

A maior pesquisa empírica se verifica – e ainda permanecerá por muito tempo, para quem não dirige – nas viagens de Uber, nas conversas insistentes que se tenha com essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade fragmentada). Sempre quando se pergunta sobre as condições de trabalho, destacando-se o quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem nenhuma contrapartida, as respostas são constrangedoras. Neste sentido, um dos apêndices de um livro recém publicado traz precisamente algumas narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de Uber[1], na forma de crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena etnografia nessa conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas histórias narradas no livro são verdadeiras “lições de vida”.

Foi com esse espírito que, no primeiro livro de 2026, esse pequeno livro foi abordado em sala de aula, especialmente esses dois aspectos da realidade, esses dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o Capitalismo digital e a uberização social. Esse livro foi, literalmente, construído em sala de aula. Com a proposição do tema, de algumas intercorrências que vínhamos pensando desde 2025, e com a participação dos alunos e alunas, promovendo-se provocações na forma de pensar, pudemos encontrar pontos que ainda estavam obscuros.

Nas aulas de Licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças entre o capitalismo clássico do pós revoluções industriais, do advento da chamada Maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao Toyotismo – as células de produção, ao invés da linha de produção: o notável Fordismo dos Tempos Modernos, de Charles Chaplin – e os nossos “novos” Tempos Modernos, sempre esteve no repertório conceitual a incidência do Capitalismo de dados: a monetização a partir das redes sociais, a compra e venda de dados pessoais digitalizados. Porém, em seguida, nos deparamos com a insuficiência dessa base analítica. A massa crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o presente, no Brasil, e isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no escopo do capitalismo brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo. Além disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto com o setor financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB (bancadas da bíblia, do boi e da bala), a hegemonia do capital mudou de cara, hoje está assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o novo BBB”).

Da forma como pensamos e tentamos descrever, o livro não se dirige a um público específico, pois pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação, reaparição do passado brasileiro e que sempre atua como fantasma do presente: a mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão (prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao gosto da nossa classe média ou do “novo rico”.

A contribuição do livro para a ciência, além de todo o exposto, está na necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”. Muitos outros aspectos poderiam, deveriam, ser somados a esse conceito (refundado) de Capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados componentes façam parte do corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em termos de Ciência Social dirigida ao século XXI. Comparativamente, não há como tratar o Mundo do Trabalho, na China, sem destacar em primeiro plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6 (trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana). Ironicamente, ao menos partes desse inventário é copiado pelo Anarcocapitalismo de Milei, na Argentina. E o segundo conceito, que é a uberização social. Neste caso, no entanto, abre-se parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o intuito de transcender a exploração brutalizada do Mundo do Trabalho (neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a Ciência Social que se propôs a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um café expresso.

 

Da fábrica ao algoritmo

Atualmente, a tecnologia encontra-se literalmente na palma das mãos, integrando-se quase de forma simbiótica[1]. Se, no século XX, a mecanização estava no chamado chão de fábrica, hoje ela assume novas configurações mediadas por algoritmos e sistemas automatizados, que extrapolam o ambiente produtivo. No uso de cada aplicativo gratuito, “o produto é você”.

Os algoritmos passam a influenciar decisões relacionadas ao consumo e até mesmo às oportunidades de trabalho. Em muitos processos seletivos, por exemplo, a presença e o comportamento dos candidatos nas redes sociais tornaram-se elementos relevantes na avaliação profissional, evidenciando-se como a lógica algorítmica interfere em diferentes dimensões do cotidiano.

Como mencionado, uma obra clássica que demonstra esse movimento histórico é o filme Tempos Modernos (1936)[1], de Charles Chaplin, cuja narrativa denuncia os efeitos da mecanização industrial, ao evidenciar como a organização mecanizada do trabalho o transforma em uma extensão da máquina, submetendo-o à repetição constante de movimentos e ao controle do ritmo produtivo.

Curiosamente, outra obra de mesmo nome percebe essa relação de uma forma diferente. Enquanto Chaplin evidencia os efeitos da mecanização sobre a condição humana, a canção Tempos Modernos (1982)[2], de Lulu Santos, expressa o otimismo e a expectativa a fim de que o avanço científico e tecnológico conduziria ao progresso social, à liberdade e à melhoria das condições de vida.

Essa dualidade entre o avanço científico e seus impactos sociais permite compreender como isso não ocorre, necessariamente, de forma linear. Uma ideia de que o avanço científico conduziria ao desenvolvimento tecnológico, este produziria crescimento econômico e, consequentemente, maior bem-estar social (PALACIOS et al., 2001)[1], mostra-se insuficiente quando confrontada com a realidade, especialmente ao se comparar as expectativas construídas em torno do progresso tecnológico com o atual contexto[2].

Os meios digitais, por mais inovadores que sejam, se tornaram uma forma de exploração ampliada. Se, no âmbito laboral, a exploração se manifesta pela intensificação da produtividade e pela flexibilização das relações de emprego, no ambiente digital ela alcança o tempo, os dados e as formas de interação social. A exploração deixa de restringir-se à extração da mais-valia e passa a incorporar aspectos da própria experiência humana, transformando elementos da vida privada em recursos economicamente exploráveis.

É nesse contexto cada vez mais predatório que se torna essencial uma educação capaz não apenas de apresentar aos indivíduos o contexto tecnológico, algo que, diga-se de passagem, pouco se faz necessário para uma geração que já nasce imersa nas tecnologias, mas que, sobretudo, seja capaz de problematizar o fato de que as tecnologias não são neutras, nem, por si só, emancipadoras. Para além da formação de sujeitos aptos a utilizar os meios digitais, faz-se necessária uma educação crítica que possibilite compreender e questionar as formas contemporâneas de exploração, controle e desigualdade que permeiam o desenvolvimento tecnológico. Edgar Morin, célebre filósofo da Ciência e da tecnologia, falecido recentemente, merece destaque quanto ao escopo dessa análise[1].

A ilusão do empreendedorismo

Desta forma, a uberização do trabalho nasce durante o século XXI, configurando as relações de trabalho. De forma mais flexível, o indivíduo trabalha conforme a demanda. Entretanto, o sistema vende a ideia de que o trabalhador terá sua emancipação, em que pese se torna uma moeda na relação de trabalho deteriorada. Dialogam com a lógica de estar empreendendo, no entanto, camufla-se a precarização do trabalho. Desse modo, o indivíduo imerso neste cenário não é amparado pela

legislação trabalhista (CLT), por não fazer parte do regime formal de trabalho. Sob a uberização, presta-se serviço às empresas sem atribuir-se valor à mão de obra, que por sua vez é barata: a classe trabalhadora arca com o ônus do trabalho e a transferência de riscos. Um exemplo recente dessa realidade ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando milhares de motoristas de aplicativos continuaram exercendo suas atividades para assegurar sua renda, apesar da elevada exposição ao vírus e da ausência de garantias trabalhistas que lhes permitissem interromper o trabalho com segurança.

Na obra Filosofia, um modo de vida (2025)[1], a filósofa Marilena Chauí apresenta-nos como os valores éticos eram enxergados no pré-capitalismo, o que antes era considerado virtuoso – o indivíduo de coragem e glória –, e, inversamente, na sociedade capitalista é a produção: trabalho e expropriação. A classe trabalhadora é integrada à perspectiva de que o trabalho o engrandece, e com o avanço do capitalismo digital semeia-se a ilusão do empreendedorismo. O que não se revela é a ausência total das garantias políticas, a contínua e acelerada venda da força de trabalho e a dependência economicamente, crônica, da plataforma extratora de mais-valia.

É possível visualizar esse controle social e o rompimento da consciência crítica dos indivíduos diante dos fatos, especialmente quando observamos o enfraquecimento da educação básica pública, subsumida numa condição em que a carga horária de disciplinas da área de ciências humanas foi reduzida, enfraquecendo-se a formação do pensamento crítico, e, de modo contrário, ao passo em que matérias inconsistentes (por exemplo, educação financeira para jovens pobres) e cursos técnicos são implementados e priorizados. A escola passa a priorizar a formação de mão de obra adaptada às exigências do mercado, em vez de promover a reflexão crítica e a capacidade dos indivíduos de compreender e questionar as estruturas sociais que os cercam.

Portanto, aqui vai uma homenagem e dedicação de agradecimento a todos que participaram, no intuito de elevarmos os marcos iniciais dessa discussão.

A referência bibliográfica, para uma leitura mais atenta, segue abaixo:

  • MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e da uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.

[1] CHAUÍ, Marilena. Filosofia, um modo de vida. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.

[1] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996.

[1] PALACIOS, Eduardo Marino García., et al. (orgs.). Ciencia, tecnología y sociedad: una aproximación conceptual. Madrid: Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura (OEI), 2001.

[2] Outro vínculo havido entre Ciência, tecnologia e condição social, na esteira do pensamento de Morin, está na linha de que é mais complexo explicar a dinâmica da luta de classes, hoje, do que a complexidade do universo observável. Se não houver reducionismo às formulas tradicionais, dos séculos XIX e XX, a missão não é simples, tanto quanto é custoso interpretarmos as principais atribulações entre Ciência e tecnologia na atualidade: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin*: São Carlos: Amazon, 2026. Disponível.

[1] Utiliza-se o termo simbiose para caracterizar a relação de interdependência entre os indivíduos e as tecnologias digitais, na qual as plataformas integram o cotidiano e influenciam comportamentos, ao mesmo tempo em que dependem da atividade constante dos usuários para seu funcionamento.

[1] CHAPLIN, Charles (direção). Tempos modernos. Estados Unidos: United Artists, 1936. 1 filme (87 min.), son., preto e branco.

[2] SANTOS, Lulu. Tempos modernos. In: SANTOS, Lulu. Tempos modernos. Rio de Janeiro: WEA, 1982. Disponível em: https://youtu.be/me2Xv_Np9xA?si=m3zq0l9Flxrm-TeD.

 

 

Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin

0

O texto a seguir refere-se à capa do livro Ideias para uma Educação do século XXI, de Vinício Carrilho Martinez. A capa, por certo, expressa o sentido composto no livro.

            A referência correta é esta:

    1. MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin*: São Carlos: Amazon, 2026. Disponível em:

 Ciberporu

Inspirado na obra Abaporu, de Tarsila do Amaral, Ciberporu propõe uma reflexão sobre as transformações da identidade brasileira diante do avanço tecnológico. Ao reinterpretar um dos maiores ícones do modernismo nacional, a obra desloca o debate antropofágico para o contexto contemporâneo, em que natureza, cultura, tecnologia e diversidade humana se entrelaçam.

O elemento central da composição é a substituição de uma das pernas por uma prótese robótica, cujas engrenagens e mecanismos permanecem expostos. Além de representar a integração entre o humano e a máquina, esse membro mecânico estabelece um diálogo com a experiência das pessoas com deficiência, reconhecendo as tecnologias assistivas e as próteses como extensões do corpo e expressões da diversidade humana.

O corpo

O elemento central da composição é a substituição de uma das pernas por uma prótese robótica, cujas engrenagens e mecanismos permanecem expostos. Além de representar a integração entre o humano e a máquina, esse membro mecânico estabelece um diálogo com a experiência das pessoas com deficiência, reconhecendo as tecnologias assistivas e as próteses como extensões do corpo e expressões da diversidade humana. O corpo híbrido rompe com a ideia de um corpo único ou normativo e evidencia diferentes formas de existir, mover-se e ocupar o mundo.

A cabeça é substituída por um relógio marcando cinco para a meia-noite, referência ao romance Inferno, de Dan Brown. Nesse contexto, o horário simboliza a iminência de uma transformação decisiva. As sombras de outros ponteiros sugerem múltiplas temporalidades — passado, presente e futuros possíveis — indicando que diferentes caminhos permanecem em aberto.

A paleta de cores remete à bandeira brasileira. O verde, o amarelo e o azul evocam não apenas o território nacional, mas também a criatividade, a riqueza cultural e a capacidade inventiva do povo brasileiro. Ao lado da figura, o mandacaru se ergue como símbolo de resistência, adaptação e esperança, representando a força da terra brasileira e a capacidade de florescer mesmo em contextos adversos.

Ao preservar elementos visuais essenciais do Abaporu e inseri-los em uma narrativa contemporânea, Ciberporu estabelece um diálogo entre o legado modernista e os desafios do século XXI. A obra convida o espectador a refletir sobre o tempo presente e sobre o futuro que está sendo construído, sugerindo que o verdadeiro progresso depende da capacidade de integrar inovação tecnológica, inclusão, diversidade, identidade cultural e respeito às diferentes formas de ser humano.

Dra. Josana Carla Gomes da Silva

Crônica de uma vadiagem intelectual – o famoso tempo ocioso

0

 

@viniciocarrilhomartinez

 

Nos estertores do fim de recesso escolar, o que faz o professor?

Se tem dinheiro (e juízo) pode viajar, e se não tem inventa moda.

É o caso dessa Série *Contém ironia que recolhi aqui.

Fiz uma por puro passa tempo e envie no whatsapp de algumas pessoas – acho que não gostaram muito.

Enfim, depois, perdendo parte do tempo ocioso, aumentei a lista.

Veja o que acha dessa série bombástica e me diga.

 

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta inteligente:

– por que você (no caso, eu) não é capitalista?

 

Resposta boba:

– porque não sou rico!

===

 

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta bugada:

– por que você não faz ostentação para ganhar seguidores

?Resposta tímida:

– porque livro e muleta não são rentáveis.

===

 

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta genial:

– por que você não faz apologia política?

 

Resposta estudada:

– porque prefiro ler Ciência Política.

===

 

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta esquelética:

– por que você não é mais inteligente e produz mais?

 

Resposta explorada:

– porque já faço muito além do meu contrato e porque isso não tem nada a ver com inteligência.

===

 

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta cínica:

– por que você não ganha mais dinheiro?

Resposta irônica:

– porque não sei onde encontrar essa resposta.

===

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta azarada:

– por que algumas pessoas correm atrás do prejuízo?

 

Resposta sem acreditar na pergunta:

– porque não devem ser muito inteligentes ou porque têm pressa para encontrar o azar.

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta estilosa:

– por que você tem camisa vermelha?

 

Resposta sem estilo:

– porque é minha, eu comprei e paguei.

  1. (Da série *Contém ironia)

Pergunta braba:

– por que você não vai fazer o que eu quero?

Resposta infantil:

– porque eu quero fazer outra coisa.

===

 

‘Vá à merda vocês’: candidato ao Senado, Bruno Scheid ‘sente o golpe’

O latifundiário e candidato ao Senado Bruno Scheid (PL-RO) grunhiu, em vídeo recentemente publicado em sua plataforma digital, em resposta direta à publicação do AND. “Inclusive, tem um jornaleco aí que fez uma publicação minha há uns três dias atrás, me chamando de latifundiário bolsonarista. Vá à merda vocês, pô! Tão achando que vão me intimidar?”, esbravejou Scheid em vídeo publicado nas próprias plataformas digitais. Não, Bruno. A imprensa popular e democrática não está tentando intimidá-lo.

O autoproclamado “05” da Bolsonaro, homem que faz questão de colocar “Bolsonaro” no seu sobrenome, só poderia estar se referindo à publicação ‘LCP porta fuzil em Rondônia’: tiete bolsonarista Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra, que foi ao ar em 25 de junho, pois, trata-se da única matéria que faz menção a si.

‘LCP porta fuzil em Rondônia’: tiete bolsonarista Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra – A Nova Democracia
“Vocês conhecem a LCP tão bem quanto eu”: autoproclamado “05” do clã Bolsonaro, Scheid revive sua suposta “história de superação” de 2018, chama a LCP de “facção criminosa” e prega cadeia para camponeses pobres.

Quem é mesmo Bruno Scheid?

A reportagem do AND, publicada em 25 de junho, mostrou como Scheid vem reutilizando uma suposta ação ocorrida em 2018 para atacar a luta pela terra, criminalizar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) e apresentar-se como protetor dos latifundiários de Rondônia.

Diante de uma plateia de proprietários rurais, o então pré-candidato contou que teria encontrado “15 caras encapuzados portando fuzil, pistolas, tudo que vocês possam imaginar”. Depois, declarou que pensa diariamente em como “pisar no pescoço de vagabundo como a LCP fez comigo”. Não há provas de que a LCP esteve envolvida nessa ação.

Em outros vídeos, Scheid classificou a organização camponesa como “facção criminosa”, ao arrepio da lei, e defendeu que os camponeses que lutam pela terra deveriam “puxar cadeia”. Apesar da gravidade das acusações, não apresentou nas gravações qualquer prova de que as torturas que diz ter sofrido tenham sido praticadas pela LCP.

‘Fazenda invadida pela LCP’: Braguin choraminga por ex-NorBrasil e tenta criminalizar Área Tiago Campin dos Santos – A Nova Democracia
Ex-comandante da PM-RO publicou vídeo para defender a “Operação Dominus”, falsificar o caráter da Área Tiago Campin dos Santos e tentar ligar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) ao chamado “bando do Jed”.

Embora a história, repetida várias vezes, dê a ideia de que Scheid agora é uma “liderança ruralista”, os próprios latifundiários não reconhecem muito bem essa sua “condição”. Em 2022, o então secretário de Agricultura de Rondônia, Evandro Padovani, afirmou que Scheid não representava o setor agropecuário na Região Norte e que, apesar de atuar há 22 anos no estado, o desconhecia.

Aliás, o esquisito hábito de incluir “Bolsonaro” em seu próprio sobrenome já foi interpelado pela própria Procuradoria Regional Eleitoral; em pronunciamento, o órgão sustentou que o artifício poderia induzir o eleitor a acreditar numa relação familiar inexistente, construir artificialmente notoriedade política e configurar tentativa de fraude à legislação eleitoral. O judiciário chegou a proibir o uso e fixar multa diária de R$ 5 mil, mas a decisão foi posteriormente revogada por vícios processuais e limitações do procedimento utilizado.

Reportagem especial de AND sobre a autodefesa camponesa das áreas camponesas que hoje ocupam a ex-fazenda NorBrasil, em Rondônia.

Do curral ao Palácio do Planalto

A entrada de Scheid na política ocorreu agarrada às botas de Jair Bolsonaro, homem por quem Scheid acumula peculiar admiração. Segundo o próprio pecuarista, o episódio de 2018 chamou a atenção da campanha bolsonarista, que passou a utilizar sua história para atacar movimentos camponeses e defender o armamento dos proprietários rurais.

A partir daí, começou uma ascensão política marcada por acessos privilegiados ao antigo governo militar de Bolsonaro e generais.

Em 2022, Scheid foi apontado como um dos integrantes de um grupo que buscava contribuições de pecuaristas para impulsionar a campanha de reeleição de Bolsonaro, o que ele negou. Registros obtidos pela imprensa por meio da Lei de Acesso à Informação mostraram que ele esteve no Palácio do Planalto em 11 dias diferentes entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, embora oficialmente só houvesse registro de três visitas.

O “05” desconhecido circulou pelo gabinete pessoal da Presidência, pelo Gabinete de Segurança Institucional e por outras dependências do Planalto. Também viajou com a comitiva presidencial entre Brasília e Porto Velho e posou ao lado de Bolsonaro “O Fraco”, Carlos, Eduardo “Bananinha” e Flávio “Rachadinha” Bolsonaro, além do general Augusto Heleno e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

‘Guerrilha em curso em Rondônia’: bolsonaristas tentam demonizar a LCP para acabar com o direito à luta pela terra – A Nova Democracia
Policial e militar bolsonaristas usam de operação do Bope que assassinou camponês em Rondônia para tentar criminalizar a LCP.

Na mesma época, uma reportagem revelou que Scheid possuía duas dívidas tributárias inscritas em dívida ativa da União, que somavam R$ 482.191,46. Questionado sobre o assunto, não respondeu e bloqueou o contato do repórter do Metrópoles. Não há confirmação pública de que essa situação permaneça inalterada atualmente.

A devoção de Scheid ao clã ganhou contornos ainda mais caricatos em 2025. Durante viagens e eventos ao lado de Jair Bolsonaro, o pecuarista passou a circular portando um distintivo com a inscrição “agente de segurança”. Scheid não é policial nem integrante de qualquer força oficial de segurança. Segundo ele, o objeto servia para “facilitar a circulação” e evitar “embaraços” durante os deslocamentos da comitiva. Afinal, aparentemente, o “05 do Bolsonaro” não era reconhecido por seus pares como tão associado a Bolsonaro quanto gostaria de ser.

Scheid também convocou manifestações pela “anistia” dos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, divulgou atos em favor dos “galinhas verdes” condenados e transformou a defesa de Bolsonaro e dos chamados “presos do 8 de janeiro” numa das marcas de seus perfis públicos. Em janeiro de 2026, foi autorizado a visitar o capitão golpista na chamada Papudinha.

Editorial semanal – O terror de Bolsonaro – A Nova Democracia
No dia 1º de maio, enquanto ocorria a Marcha do Genocídio organizada pelo Governo – sim, convocada e dirigida diretamente por Bolsonaro

LCP rechaça acusações de ‘facção criminosa’

Enquanto Scheid repete acusações sem apresentar provas de que a LCP tenha praticado os crimes que afirma ter sido vítima, a organização camponesa já se pronunciou diversas vezes contra a campanha movida pela extrema direita e por agentes secretos da polícia infiltrados na falsa esquerda de que o movimento seja associado ao Comando Vermelho, “facção criminosa”, “organização terrorista” e “guerrilha”.

Em comunicado divulgado em novembro de 2025, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres afirmou categoricamente que a LCP “não é organização criminosa, muito menos terrorista”, mas uma organização “classista e combativa dos camponeses pobres do Brasil”. Segundo o movimento, seu objetivo é desenvolver a Revolução Agrária, entregar as terras dos latifúndios aos camponeses pobres e organizar a autodefesa das massas diante da violência do latifúndio e das forças policiais colocadas a seu serviço.

LCP nega que camponeses executados pela PM-RO sejam da organização e denuncia ‘queima de arquivo’ – A Nova Democracia
Liga dos Camponeses Pobres rebate versão policial publicada pela “imprensa lixo” de Rondônia e acusa ação de encobrir esquema contra camponeses da Área Tiago Campin dos Santos.

A posição tampouco surgiu agora. Em nota de maio de 2021, divulgada depois de ataques de Jair Bolsonaro à luta pela terra, a LCP rebateu a acusação de que seria contrária à propriedade privada. A organização afirmou defender os pequenos e médios proprietários e a entrega das grandes propriedades latifundiárias aos camponeses sem terra ou com pouca terra. “Somos contra a criminosa concentração de terras”, declarou.

A LCP também diferencia a pequena e média produção camponesa do latifúndio. Para a organização, os pequenos e médios camponeses são responsáveis por produzir alimentos para a população, enquanto grandes propriedades se sustentam na concentração fundiária, na grilagem, no roubo de terras públicas e na exploração do trabalho rural. Sua luta, conforme afirma, não se dirige contra qualquer produtor, como tentam fazer crer Scheid e seus companheiros de berraria, mas contra o monopólio da terra por um punhado de grandes proprietários.

LCP responde a Bolsonaro: ‘Não vão conseguir parar a luta pela terra’ – A Nova Democracia
“Para os camponeses, sobreviver significa conquistar um pedaço de terra para trabalhar. Buscam tachar essa luta como guerrilha, pois bem, se assim querem,

Em ocasiões nas quais foi responsabilizada por episódios armados concretos, a LCP também negou publicamente acusações, que considerou falsas. Em abril de 2026, por exemplo, a Comissão Nacional negou a autoria de um ataque ocorrido na antiga fazenda NorBrasil e afirmou que a atribuição imediata do caso à organização buscava “criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP”.

A organização sustenta que a violência no campo parte, historicamente, dos latifundiários, de grupos de pistoleiros e de agentes policiais utilizados como segurança privada. Em sua resposta a Bolsonaro, declarou que os responsáveis pelo verdadeiro terror rural são os grandes proprietários que promovem massacres, despejos, perseguições e assassinatos contra camponeses. Ao mesmo tempo, a LCP declara que “não abre mão da sagrada autodefesa armada de massas” contra a secular violência do latifúndio.

Fonte https://anovademocracia.com.br/

PENSAMENTO GRÁTIS

0

Dr. Vinicio Carrilho Martinez

@viníciocarrilhomartinez

Dra. Josana Carla Gomes da Silva – revisora

@josafotos

 

Algumas destas sugestões, orientações – quase tudo – aprendi sofrendo na vida acadêmica. Praticamente, apenas a abertura dos capítulos me foi compartilhada, porém, no final do mestrado. Então, quer dizer que sofri bastante, e sem que fosse necessário aprender sozinho. Por isso, tentarei resumir aqui. É só uma síntese, porque a orientação se dá no dia a dia, num processo. Enumerando fica mais didático:

  1. Cursem todas as disciplinas obrigatórias, o quanto antes.
  2. Façam o exame de proficiência em língua estrangeira, o quanto antes.
  3. Procurem bastante publicações, em periódicos, revistas, sites. O PPGCTS exige uma publicação A1, A2, B1 ou B2, então, tirem essa obrigação o quanto antes. Porém, nada impede que participem publicando em blogs, sites, jornais, portais e outros, pois, além de contribuir para a difusão da ciência (como ato político), ainda recheiam o Lattes. Hoje já não coloco mais no meu Lattes essas publicações, mas é possível contar mais de mil.
  4. Já são ou serão intelectuais e nenhum/a intelectual pode se furtar ao seu dever: produzir pensamento, reflexão séria e combativa ao negacionismo, à falsificação dos ideais e dos pressupostos. E isso se materializa, também, nessas publicações em outros veículos de comunicação – sobretudo, pela primazia atual da Internet e das redes sociais. Comece colocando seu objeto na sua conta do Instagram / Linkedin / ResearchGate.
  5. Conversem constantemente com orientador/a, aprimorando o diálogo acadêmico, pois a empatia será necessária, primordial, na construção daquele Pensamento científico indicado por Morin. Sem empatia, quando ocorrer distanciamento desnecessário, a pesquisa sofre, você sofre. Porque aqui também é fácil ver “como” o Pensamento científico suplanta o tradicional conhecimento científico.
  6. Quanto ao objeto, ninguém saberá melhor do que você, afinal, não é a nossa escolha – a escolha é sua. No entanto, a sugestão é para olhar, ler, ver, sentir o objeto de pesquisa em tudo, seja lá onde você estiver. Por exemplo, já utilizei muito a literatura como referência de apoio, mas também alguns filmes, como O labirinto do fauno, e o Mito do Fauno, de Goethe. Apenas cuide de referenciar corretamente.
  7. Quanto à metodologia: é difícil determinar uma. Em alguns momentos, no TCC, no mestrado, por exemplo, a organização sistematizada evita alguns dissabores – por exemplo, organizando um capítulo por vez. Pense sempre que estará escrevendo corretamente, do ponto de vista lógico, se, em tudo que escrever, houver “começo, meio e fim”. Siga esse roteiro em cada parágrafo escrito.
  8. Pode-se fazer um trabalho rizomático, ensaístico, entre a Ciência e a literatura. Isso dependerá do pensamento e do estilo de cada pessoa: no exemplo aqui, pode-se escrever todos os capítulos ao mesmo tempo. O mais importante é que a metodologia produza um trabalho científico e que não seja uma camisa de força ou violação dos interesses pessoais.
  9. Também cabe a sugestão da economia de tempo e esforços: abra 6 arquivos Word. No primeiro, escreva Introdução: coloque o resumo, a Introdução, o mapa conceitual, se houver. No segundo, intitule Referências: coloque todas que já usou efetivamente e atualize assim que acrescentar uma nova ao seu texto. Nos próximos arquivos, escreva Capítulo I, Capítulo II, Capítulo III, Capítulo IV. Às vezes, muitas vezes, estamos lendo, pensando em algo específico, mas esbarramos em outra coisa, e que pode ser útil, melhor utilizado, em um capítulo diferente do que vínhamos construindo. Vá lá no arquivo específico e deposite. Não se preocupe em alinhar o texto, apenas deposite a informação já com a referência ABNT. Será apenas depósito, a redação virá depois.
  10. Quando fizer um texto, aplique o “método da gaveta”, ou seja, deixe descansar por pelo menos uma semana, antes de fazer a última revisão e aí encontrar suas incongruências.
  11. Comece pelo Resumo, mais breve, direto ao ponto. Depois deixe pronto um resumo expandido – este você utilizará tanto em comunicações, em eventos, quanto nas considerações finais. O Resumo, bem resumido, como se diz, será o seu guia, o norte da sua pesquisa, da sua vida pelos próximos anos. Será a primeira tarefa hoje e depois será a última parte que você lerá, antes da qualificação (defesa). Porque saberá se o resumo, as suas promessas, foram atendidas no decorrer da escrita. Isso aprendi lendo Marx – que começava seus trabalhos pela conclusão, após investigar e refletir muito sobre o tema.
  12. O mestrado não exige originalidade, como ocorre no doutorado, portanto, partes dos trabalhos que venha a apresentar em eventos, artigos publicados, podem/devem ser recuperados, guardados, naqueles quatro arquivos Word (um para cada capítulo). Faça quatro capítulos, é mais dirigente e prático, garantido.
  13. Procure ler, inteirar-se sobre o seu objeto – em suas interfaces, com filmes, literatura, música, se for o caso – todos os dias. Procure ler algo sobre sua pesquisa todo dia e já desenvolva algum texto, nem que seja um parágrafo, cinco linhas, diariamente. Sim, todos os dias! No final, irá nos agradecer.
  14. A regra é: leia todo dia, pesquise todos os dias, pense no objeto e escreva todos os dias. Mesmo que sejam 20 minutos, quando a situação estiver complicada – no ônibus, no Uber, em casa, no intervalo do trabalho. Anote no bloco de notas, no notebook, no caderninho, no celular. Isso é o que chamaria de “viver o objeto”.
  15. Quando ler obras clássicas, referenciais, faça algum tipo de fichamento (segue um modelo neste rodapé[1]), digite separadamente. A ideia aqui é simples também: daqui a 20 anos, quando procurar o sentido da Emancipação em Paulo Freire, ou o que é o Pensamento científico em Morin, você terá as citações prontas, corretas, ao alcance da mão.
  16. Nunca esquecer de que fazer Ciência, pesquisa, colaborar com o pensamento racional e crítico, no Brasil, por si só, é um ato político, de resistência. É parte do nosso dever político/social e institucional retornar à sociedade o financiamento social da própria universidade.
  17. Cuide da saúde mental, o ambiente universitário é tóxico, não se apegue ao ego de quem quer que seja, vigie a própria vaidade. A ambição é natural, necessária, mas o ego deve ser domesticado.
  18. Se assegure se salvar cópias de seus documentos – rascunhos, fichamentos, capítulos/sessões, referências, vídeos, áudios, transcrições, dados –, tenha tudo salvo em pelo menos três fontes separadas. Com a pós-graduação aprendi arduamente que ter tudo salvo vale mais que ter tudo em um único aparelho, ele pode estranhar, ou simplesmente reiniciar o sistema apagando tudo: passei por isso também. Então, mande para seu e-mail, Drive, salve em pendrive, nuvem, HD externo, mas tenha sempre três bases de dados salvas.
  19. Leia mais que apenas artigos e livros para sua pesquisa, faça arte, tenha um hobby[2], cante, dance, faça academia, o que lhe aprouver, a sua saúde mental vai lhe agradecer. Participe das atividades culturais da universidade.
  20. Seja responsável com seus estudos e pesquisa, seu futuro depende apenas de você, e sua pesquisa também.
  21. Tenha, na medida do possível, amizade, camaradagem, com seu/a orientador/a; a pós-graduação é um casamento, às vezes dura 7 anos, e essa parceria é fundamental.
  22. Se atente aos prazos e deveres caso seja bolsista, leia sempre o manual do estudante ou de bolsista quando houver dúvidas.
  23. Use a IA com cuidado e parcimônia, ser pesquisador é produzir conhecimento, é ser capaz de escrever de modo autoral e individual. O uso da IA, embora permitido, legalmente a partir de 2026 deve ser especificado detalhadamente no corpo do trabalho e na metodologia, não é sensato usar ferramentas generativas para criar um texto, nem ético.
  24. Faça um mantra para você, “ler, ler, ler; escrever, escrever, escrever” porque não há Pensamento científico validável sem forte base cultural e massa crítica atuante. Use o tempo gasto com redes antissociais para exercitar o seu mantra.
  25. E por último, seja ético/a, sempre.

 

Fizemos o texto pensando no mestrado, no PPGCTS/UFSCar especificamente, no entanto, pensando bem, algumas sugestões se encaixam em vários momentos de nossas vidas.

[1] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/fichamento-pedagogia-do-oprimido.

[2] Aqui segue um exemplo: https://www.youtube.com/@MusicalizAI. Acesso em 28/07/2026.

A palhaçada de Milei no Brasil explica por que a Argentina é o país mais odiado do mundo hoje

Javier Milei veio ao Brasil para participar da convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República e fez exatamente o que dele se esperava: transformou um evento partidário em um espetáculo de insultos contra as instituições brasileiras.

Durante meia hora de discurso, o fascista argentino chamou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “presidiário”, atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, xingando-o de “lixo careca”, estimulou o público a entoar gritos de “Lula ladrão” e apresentou Flávio Bolsonaro como o único político capaz de “parar o socialismo” no país.

A cena ajuda a explicar por que a imagem internacional da Argentina sofreu um desgaste sem precedentes, num processo que ganhou força durante a Copa do Mundo de 2026 e ultrapassou em muito os limites do futebol.

Milei e a seleção da Argentina estão irremediavelmente ligados num pacote de racismo, xenofobia, violência, arrogância e estupidez.

Milei é um jagunço de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu. É o primo pobre, o otário que, por ser o mais baixo da hierarquia, é capaz das piores vilanias para agradar os tios valentões — que sabem que ele é uma “basura”, mas fingem que é da turma porque suja as mãos com gosto.

A derrota merecida para a Espanha na final apenas tornou tudo mais claro. Em vez de reconhecer o clima hostil criado ao longo da competição, Milei reagiu dizendo que “o mundo verá até onde pode chegar um país cheio de argentinos”.

 

Casos de racismo envolvendo argentinos se repetem há anos em competições, especialmente na Libertadores. Em 2024, jogadores da seleção argentina entoaram cânticos discriminatórios contra atletas franceses de origem africana, provocando repercussão mundial. Mbappé foi classificado de “cometrabas” (“comedor de travestis”) e de francês “só no passaporte”.

Na final, jogadores argentinos protagonizaram episódios patéticos de antidesportividade, incluindo agressões e atitudes desrespeitosas durante a cerimônia de premiação. Os canalhas viraram as costas para os espanhóis.

A Argentina, admirada outrora por sua produção cultural, seu futebol e sua história de lutas — ainda que com figuras folclóricas como Eva Perón — passou a ser associada a um palhaço de cabelos desgrenhados e a onze maus perdedores, incluindo Lionel Messi.

Havia uma lenda segundo a qual a Argentina era o país com o maior número de psicólogos do planeta. Eis uma profissão de futuro num país quebrado não só economicamente, mas em sua alma e seu caráter.

Diario do Centro do Mundo

Ministros do TSE citam cassação e inelegibilidade após fake news de Flávio Bolsonaro contra as urnas

Declaração de senador a embaixadores faz magistrados resgatarem precedente de 2021 que puniu ataques ao sistema eleitoral

As declarações do senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em reunião com embaixadores, nas quais citou dados falsos sobre as urnas eletrônicas e levantou suspeitas sem fundamento contra o sistema eleitoral brasileiro, geraram repercussão no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e fizeram ministros da Corte resgatarem o precedente da cassação do ex-deputado estadual Fernando Francischini (PSL-PR), ocorrida em 2021, informa reportagem do jornal O Globo.

Diante de uma plateia de diplomáticas e representantes estrangeiros, Flávio Bolsonaro repetiu uma informação falsa já desmentida anteriormente pelo TSE: a de que a empresa venezuelana Smartmatic teria fornecido urnas eletrônicas para o Brasil. A mesma companhia é mencionada em documentos da CIA divulgados pela gestão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na semana passada.

Durante o discurso, o parlamentar defendeu a linha adotada por seu pai, Jair Bolsonaro, em encontro com diplomatas realizado em 2022, no qual o ex-presidente atacou o sistema eletrônico de votação. “Uma das suspeitas é que uma empresa chamada Smartmatic, de origem venezuelana, é que tenha uma programação para alteração das votações naquele país”, disse Flávio Bolsonaro durante a reunião. Ele acrescentou: “Não vou entrar em mais detalhes, mas só para deixar registrado que muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”.

O posicionamento do pré-candidato ao Palácio do Planalto levou integrantes do TSE ouvidos reservadamente a traçarem um paralelo direto com o julgamento de Fernando Francischini, e não com a condenação de Jair Bolsonaro em 2023. Na avaliação de ministros do tribunal, a condenação de Francischini é considerada o marco da mudança de entendimento e a jurisprudência inaugural da Corte para a punição de ataques ao sistema eletrônico de votação.

Foi naquele processo que a Justiça Eleitoral passou a admitir de forma inédita que ataques deliberados às urnas poderiam configurar abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação, abrindo caminho e fundamentação para decisões posteriores do tribunal.

O caso Francischini e o entendimento do TSE

O precedente recordado pelos ministros remonta a outubro de 2021, quando o TSE cassou o mandato de Fernando Francischini devido a uma transmissão ao vivo realizada no dia do segundo turno das eleições de 2018. Na ocasião, o então deputado estadual afirmou falsamente que as urnas eletrônicas estariam impedindo a computação de votos em Jair Bolsonaro e sustentou, sem apresentar provas, a existência de fraude na votação.

Por seis votos a um, o tribunal concluiu que a conduta do parlamentar representou uso indevido dos meios de comunicação e abuso de poder político, comprometendo a normalidade e a legitimidade do pleito. Além da cassação do mandato, Francischini foi declarado inelegível pelo período de oito anos.

A decisão foi considerada histórica por se tratar da primeira condenação eleitoral motivada pela disseminação de desinformação contra o sistema eletrônico de votação. À época, o relator do caso, ministro Luis Felipe Salomão, afirmou em seu voto que a liberdade de expressão não protege a divulgação deliberada de fatos sabidamente inverídicos capazes de comprometer a confiança da população nas eleições, consolidando uma nova diretriz jurisprudencial na Corte.

Diferenças entre os episódios de Flávio e Jair Bolsonaro

Dois anos após o caso Francischini, essa mesma construção jurídica serviu de base para a ação que tornou o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível por oito anos, em razão da reunião que realizou com embaixadores estrangeiros em julho de 2022.

Apesar de guardarem pontos em comum — como o levantamento de suspeitas sobre as urnas diante de representações diplomáticas —, ministros do tribunal observam que os episódios envolvendo pai e filho possuem diferenças relevantes. No julgamento de Jair Bolsonaro, o TSE entendeu que, além da propagação de informações falsas sobre o sistema eleitoral, houve uso da estrutura da Presidência da República, uma vez que o evento ocorreu no Palácio da Alvorada, foi custeado com recursos públicos e transmitido pela emissora oficial TV Brasil, configurando abuso de poder político.

No caso de Flávio Bolsonaro, ainda não existe qualquer procedimento aberto na Justiça Eleitoral em relação ao encontro promovido nesta terça-feira. Eventuais apurações ou medidas judiciais dependeriam da provocação de partidos políticos, candidatos ou do Ministério Público Eleitoral (MPE), que podem questionar na Justiça se houve infração à legislação eleitoral ou abuso.

Discurso sobre observadores e contexto do seminário

Ao tratar do sistema de votação no evento, Flávio Bolsonaro afirmou que não estava questionando as urnas eletrônicas brasileiras, mas defendeu o envio de observadores internacionais para acompanhar o pleito no país.

“Não estou questionando o sistema de votação brasileiro. Mas gostaria que todos os países mandassem a maior quantidade possível de observadores para as nossas eleições, como sempre fazem, assim como pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e sobre como o Brasil pode ter eleições mais seguras e transparentes”, declarou o senador.

O seminário em que o parlamentar fez as declarações inverídicas sobre as urnas fez parte do ciclo “Debatendo o Brasil”, organizado pela Novo Selo Comunicação em parceria com o veículo The Brazilian Report. O encontro reuniu representantes diplomáticos e organismos internacionais de mais de 40 países, incluindo delegações dos Estados Unidos, China, Argentina, Alemanha, Reino Unido, Espanha, Japão, Israel, Canadá, México, Paraguai e Ucrânia, além de representantes da União Europeia e da Liga dos Estados Árabes.

Do Brasil 247

Sem fazer guerras, China constrói a melhor e mais moderna infraestrutura do mundo para seu povo

Enquanto os Estados Unidos destinam centenas de bilhões de reais a conflitos militares, a China amplia sua rede de rodovias, ferrovias de alta velocidade e aeroportos

Enquanto os Estados Unidos já gastaram cerca de R$ 192 bilhões na guerra contra o Irã e agora buscam autorização do Congresso para destinar mais R$ 462 bilhões à escalada militar, a China segue um caminho diametralmente oposto. Em vez de concentrar recursos em conflitos armados, Pequim continua direcionando investimentos para a construção da mais moderna infraestrutura do planeta, fortalecendo sua economia e elevando a qualidade de vida de sua população.

Os números apresentados nesta terça-feira pelo vice-ministro dos Transportes da China, Xu Chengguang, durante entrevista coletiva em Pequim, ajudam a explicar essa transformação. Ao fazer um balanço do 14º Plano Quinquenal (2021-2025), o dirigente revelou que o país ampliou sua malha de infraestrutura em ritmo sem precedentes, consolidando uma das maiores redes de transportes do mundo.

Quase 200 mil quilômetros de autoestradas

Segundo Xu Chengguang, a extensão da rede de autoestradas expressas (expressways) da China alcançou 199 mil quilômetros ao final do 14º Plano Quinquenal.

Trata-se da maior rede desse tipo no planeta. Ela conecta praticamente todas as grandes cidades chinesas e reduz drasticamente os custos logísticos, facilitando o transporte de pessoas e mercadorias em um país com dimensões continentais.

A expansão da malha rodoviária é considerada um dos pilares da estratégia chinesa para integrar regiões menos desenvolvidas ao dinamismo econômico das áreas costeiras.

Maior rede de trens de alta velocidade do mundo

Outro dado impressionante é o crescimento da ferrovia de alta velocidade.

A China já possui mais de 50 mil quilômetros de linhas ferroviárias de alta velocidade em operação, uma extensão muito superior à de qualquer outro país. A rede liga centenas de cidades e permite viagens rápidas entre os principais polos econômicos, reduzindo o tempo de deslocamento e fortalecendo o mercado interno.

Além do conforto para milhões de passageiros, o sistema tornou-se um importante instrumento de desenvolvimento regional e de redução das emissões de carbono, ao substituir parte do transporte aéreo e rodoviário.

Rede aeroportuária continua crescendo

O país também ampliou sua infraestrutura aeroportuária.

Segundo o Ministério dos Transportes, a China conta atualmente com 270 aeroportos de transporte em operação, garantindo maior integração nacional e internacional.

Os investimentos fazem parte da estratégia de ampliar a conectividade entre grandes centros urbanos e cidades do interior, favorecendo o turismo, os negócios e a circulação de cargas de maior valor agregado.

O maior sistema postal do planeta

Outro destaque apresentado pelas autoridades chinesas é a consolidação do maior sistema postal do mundo, tanto em escala quanto no número de pessoas atendidas.

A rede tornou-se fundamental para sustentar o extraordinário crescimento do comércio eletrônico chinês, garantindo entregas rápidas em praticamente todo o território nacional e fortalecendo gigantes da economia digital.

A integração entre rodovias, ferrovias, aeroportos e logística postal transformou a infraestrutura em um dos principais fatores de competitividade da economia chinesa.

Investir em desenvolvimento, e não em guerras

O contraste com os Estados Unidos torna-se ainda mais evidente diante dos números recentes.

Enquanto Washington amplia seus gastos militares em meio ao conflito com o Irã, consumindo centenas de bilhões de reais em operações bélicas, a China direciona recursos para obras permanentes capazes de gerar riqueza, aumentar a produtividade e melhorar diretamente a vida de sua população.

Os resultados aparecem em indicadores concretos: quase 200 mil quilômetros de autoestradas, mais de 50 mil quilômetros de ferrovias de alta velocidade, 270 aeroportos e o maior sistema postal do planeta. Em vez de destruir infraestrutura em guerras, a estratégia chinesa tem sido construir infraestrutura para sustentar o desenvolvimento econômico, integrar seu vasto território e oferecer melhores condições de vida a mais de 1,4 bilhão de habitantes.

Indexa Pesquisas: Lula tem 41% e Flávio Bolsonaro marca 30% no primeiro turno

Terceira rodada mostra pouca oscilação, vantagem de Lula em todos os cenários de 2º turno e eleitorado decidido

A terceira rodada da pesquisa Indexa Pesquisas, divulgada nesta terça-feira (21/7), mostra estabilidade na corrida presidencial de 2026. No principal cenário de primeiro turno, Lula (PT) lidera com 41% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro (PL), com 30%. O levantamento também indica um eleitorado com voto cada vez mais consolidado.

Na sequência, estão:

  • Ronaldo Caiado (PSD) – 6%
  • Romeu Zema (Novo) – 3%
  • Renan Santos (Missão) – 3%
  • Joaquim Barbosa (DC) – 1%
  • Augusto Cury (Avante) – 1%
  • Samara Martins (UP), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram.
  • Brancos e nulos somam 8%, e 7% dos entrevistados estão indecisos ou preferiram não responder.

A série histórica da consultoria mostra poucas mudanças ao longo dos últimos três meses. Lula passou de 39% em maio para 42% em junho e 41% em julho. Flávio Bolsonaro marcou 30% em maio, subiu para 32% em junho e voltou a 30% na rodada mais recente.

Entre os demais nomes, Caiado avançou de 5% para 6%, Romeu Zema oscilou de 3% para 5% e retornou a 3%, enquanto Renan Santos permaneceu estável em 3% durante todo o período. Brancos e nulos ficaram em 8% em todas as rodadas, e os indecisos variaram entre 6% e 10%.

Segundo Arilton Freres, CEO da Indexa Pesquisas, as variações observadas ao longo dos últimos três meses não alteraram o quadro da disputa. “As oscilações registradas entre maio, junho e julho são pequenas e não alteram a configuração da disputa, que continua concentrada em torno de Lula e Flávio Bolsonaro”.

Lula lidera todos os cenários de segundo turno

Nas quatro simulações de segundo turno testadas pela Indexa, Lula aparece à frente de todos os adversários.

Contra Flávio Bolsonaro, o presidente registra 46% das intenções de voto, ante 39% do senador.

Diante de Romeu Zema, vence por 46% a 32%. Contra Ronaldo Caiado, lidera por 45% a 37%. Já no confronto com Renan Santos, marca 47%, contra 27% do adversário.

Maioria afirma que já decidiu o voto

Hoje, 66% afirmam que já decidiram em quem votar para presidente. Outros 26% dizem que ainda podem mudar de candidato, enquanto 8% não souberam responder. O indicador praticamente não se alterou desde maio, quando 65% diziam ter o voto definido. Em junho, o percentual chegou a 67%.

Entre os eleitores de Lula, 77% afirmam que o voto é definitivo. Entre os apoiadores de Flávio Bolsonaro, esse índice é de 75%.

Votabilidade

O levantamento mostra que Lula e Flávio Bolsonaro concentram tanto os maiores núcleos de apoio quanto os maiores índices de rejeição. Enquanto 49% dos entrevistados afirmam que jamais votariam em Lula, esse percentual chega a 50% no caso de Flávio Bolsonaro. Os demais candidatos apresentam rejeição inferior: 35% para Ronaldo Caiado e 40% para Romeu Zema e Renan Santos.

A pesquisa ouviu 2.000 eleitores em todo o Brasil entre 16 e 19 de julho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-02904/2026.logo-jota

Fonte: https://www.jota.info/

Crônica sobre o direito de falar abobrinha

0

@viniciocarrilhomartinez

Se para a microgeração “Zillennials” [1], entre o adulto e o jovem demais, tem uma conta que não fecha, imagine para quem tem mais tempo de vida analógica do que digital…

É o meu caso.

Não se trata exatamente da diferença ou discrepância tecnológica, eu nunca tive todos os equipamentos do passado, por exemplo, mas sim o estranhamento com a cultura gerada.

De vez em quando, talvez por masoquismo da curiosidade que parece querer comprovar seu argumento, vejo algum comentário nos chats.

Mesmo que sejam desdobrados de material jornalístico, com certa seriedade na apuração de fatos, ou científicos, sempre estará presente o show de horrores.

Essa “necessidade de exposição”, uma tentativa de sair do anonimato, do limbo social, talvez explique esse tipo de manifestação digital cheia de total ignorância, insignificância, educação básica, e, certamente, desinteresse moral em passar vergonha.

Umberto Eco, grande pensador italiano do século XX, nos dizia que antigamente a estupidez ficava na mesa de bar e, com as redes antissociais, a mesma boçalidade migrou para o Instagram e quetais.

Isso reforça a ideia de que o espaço público não existe mais, como invasão do privado, mas a exposição ao ridículo, à mentira deslavada, a adesão ao falso e à falsificação (falsidade, enfim), é algo que provoca muito estranhamento.

E digo isso vendo indivíduos da direita para a esquerda, de todas as idades, profissões, sexos, etnias e cores.

Na verdade, não suporto muito sequer escrever sobre isso.

Provavelmente seja o meu tempo de vida analógica se manifestando, porém, não sei se é somente uma questão geracional.

Como disse, não me refiro hoje às tecnologias, mas sim às pessoas – no que se tornaram, sem a presença e atuação de qualquer “freio de contenção”.

O digital e sua sociabilidade ácida, corrosiva, é esse mato alto.

Usei a expressão mato alto no sentido de se perder, sem uma ideia do que está ali, do perigo que realmente pode ameaçar.

Na infância brinquei em área rural, sítio.

Aliás, esse é um dos temas de muita saudade – se fosse escrever sobre saudade.

A fadiga digital eu também sinto.

Por outro lado, há uma Ironia da história.

Por tudo que de mais lastimável que tenha sido a pandemia, incluindo o período pós, até 2023, foi uma fase de extrema produção.

Conheci pessoas, digitalmente, que são amigas e parceiros até hoje.

Tive dias trabalhando em três períodos, em três situações remotas.

Era tudo muito estimulante, empolgante.

Agora, voltando àquele lado obscuro, na volta ao presencial, encontrei pessoas com quem convivi desde 2017 e que hoje prefiro tomar café em lugares diferentes.

Não sei muito bem se avançaram nas análises do tal “novo normal” – falei disso naquela época –, mas, sinto que perdemos algo de nós nesse retorno.

Um exemplo dessa “anormalidade” vem da Copa: um advogado de mais de 40 anos, de esquerda, sendo racista contra a Argentina, e sem pudor nenhum para expor a própria “ignorância futebolística” – no Whatsapp. Não sabe nada de futebol, nem o que é jogar entre linhas (Messi, com 40 anos, no caso), mas o advogado virou analista, especialista em xenofobia e etarista.

Esse típico comportamento também me leva a desfazer o convite para um café e qualquer tentativa de outra conversa. Como se diz, não tenho tempo, paciência e nem idade para esse tipo desviante.

Além disso, é também um ótimo case de “analfabetização”. Dia desses voltarei a esse “analfabetismo especial”, quando o indivíduo é alfabetizado, estuda, aprende e, em seguida, promove, ele próprio, uma perda significativa de sua alfabetização, dos ganhos cognitivos, morais e sociais.

É óbvio que se vê aí um retrocesso, mas não deixa de ser uma situação auto infligida. É certo, numa tipificação bem simples, que o advogado citado recebeu dos pais a educação básica, “do berçário”, para respeitar os mais velhos – ainda mais porque não é um jovenzinho. Voltarei a isso.

Enfim, estamos falando de esquerda em 2026. Exemplos da direita e de sua extremadura, então, são de arrepiar os mais finos filamentos de inteligência.

Por essas e por outras, é fácil dizer que nos falta o Direito ao Estranhamento, de achar muito sem noção a falta de Bom Senso. Além da revolta cognitiva diante de um suposto “direito de falar abobrinha”.

Será que estou viajando?

Em todo caso, se for uma viagem, garanto que é desbravando lugar inóspito, tipo uma festa estranha, com gente muito esquisita.

Então, se for viagem, é muito bom voltar bem rápido à racionalidade meridiana.

[1] https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2026/07/7464311-o-limbo-dos-zillennials.html. Acesso em 21/07/2026.

APRESENTAÇÃO Ideias para uma Educação do século XXI

0

 

Ler Ideias para uma Educação do século XXI é como acompanhar um pensamento em movimento. Essa é uma característica da escrita do autor Vinício Carrilho Martinez, que descrevi como rizomática no prefácio de Educação e Sociedade (Martinez, 2025). Recorro novamente à formulação de Deleuze e Guatarri (1995) para falar sobre a presente publicação. O livro articula múltiplas ideias que se interconectam; não é um texto linear, mas traz diferentes ângulos de campos distintos do conhecimento que se atravessam continuamente.

A interdisciplinaridade da publicação não é um recurso metodológico apenas, mas constitui a própria condição da proposta. O caminho entre Sociologia, Filosofia, Educação, Direito, Ciência Política e História demonstra uma ruptura do autor com as fronteiras disciplinares. Se a realidade não se organiza de modo estanque, por que a análise sobre ela deveria ser confinada aos limites de uma única disciplina? Contudo, não é uma reflexão dispersa, pelo contrário. Há um eixo que organiza esse percurso: a permanente inquietação frente aos problemas do presente e a convicção de que pensar vem justamente do estabelecimento de relações entre aquilo que, à primeira vista, parecia desconectado.

Martinez conduz o leitor por uma experiência singular de elaboração do pensamento. Conceitos como ciência, pensamento, consciência, política, subjetividade, objetividade, tecnologia e educação reaparecem ao longo da obra não como repetição, mas como um deslocamento do ponto de vista anterior, incorporando novas referências. É esse o movimento que acompanhamos: não um percurso linear, mas um que parece retornar ao mesmo lugar apenas para revelar que esse “lugar” já não é o mesmo.

A noção de consciência, por exemplo, aparece em distintos momentos do livro, retornando sempre com uma ampliação de seu significado; inicialmente, é apresentada como uma exigência ética da atividade científica, para depois reaparecer como consciência histórica, epistemológica, política e crítica, sem, de modo algum, romper com o percurso anterior. Assim como os demais conceitos, não se trata de uma repetição, mas de uma redescoberta. A primeira definição de ciência, de consciência ou de educação já não pode ser lida da mesma maneira, pois o caminho percorrido lhes atribuiu novas camadas de significado.

É essa arquitetura da escrita de Vinício que permite pensar a educação sem isolá-la da política, da ciência, da história, da tecnologia e das formas contemporâneas de produção da vida social. A reflexão proposta é mais sobre as condições atuais da produção do conhecimento do que apenas sobre os rumos da educação. A ciência aparece como uma prática histórica permanentemente atravessada por disputas políticas, compromissos éticos e pelas condições institucionais de sua própria existência, nas quais sociedade, universidade e Estado ocupam papel central.

Embora tenha em Edgar Morin seu principal interlocutor, a obra ultrapassa os limites de uma leitura comentada de Ciência com consciência (Morin, 1996). O diálogo com Morin constitui o ponto de partida de um percurso intelectual autoral sobre a produção de conhecimento na contemporaneidade, mobilizando as categorias do filósofo francês para refletir sobre temas que marcam o século XXI.

A mercantilização da universidade, a financeirização da pesquisa, o predomínio da tecnociência, o avanço da inteligência artificial, o negacionismo científico, os debates sobre soberania e Estado não aparecem isoladamente, mas sim como expressões de uma mesma inquietação: qual lugar pode ocupar uma ciência comprometida com a emancipação humana em uma sociedade orientada cada vez mais pela lógica do mercado e da eficiência técnica?

O argumento que se lê nas próximas páginas é que o acúmulo de conhecimento não necessariamente representa a compreensão crítica da realidade. O conhecimento científico pode permanecer restrito à acumulação de informações, à especialização técnica ou à produção instrumental do saber. No pensamento científico, por seu turno, há outro movimento: a transformação do conhecimento em consciência crítica, da técnica em responsabilidade e da informação em capacidade de compreender historicamente a realidade. A distinção entre conhecimento científico e pensamento científico, apesar de ser um tema já tratado por autores das mais diversas áreas e orientações epistêmicas, é uma das contribuições mais instigantes do livro, pois Martinez a converte em eixo organizador de sua construção analítica.

O caráter rizomático desta obra se manifesta justamente pois cada conceito conduz a outro, cada problema abre novas possibilidades de interpretação e cada retorno amplia aquilo que parecia já compreendido. As ideias de Martinez se multiplicam em inúmeras conexões e, ao final do livro, o leitor terá participado de um exercício de construção do pensamento. Aquele que entra em Ideias para uma Educação do século XXI não é o mesmo que sai. Assim como os conceitos que atravessam a obra, também sua compreensão se desloca. É nesse retorno que se produzem novos sentidos que ampliam o horizonte da reflexão, e é aí que reside uma das maiores potências deste livro.

Tainá Reis

Doutora em Sociologia, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professora na Universidade do Estado da Bahia (UNEB)

 

 

Caso Dark Horse: cresce o temor de busca e apreensão contra Flávio Bolsonaro

 Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) demonstraram forte preocupação nas últimas semanas com a possibilidade de o parlamentar se tornar alvo de uma operação de busca e apreensão autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A apreensão entre interlocutores do senador decorre dos desdobramentos das investigações que envolvem o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), detalha Igor Gadelha, do Metrópoles.

O temor no entorno do parlamentar se intensificou após o avanço das apurações conduzidas pela Polícia Federal sobre o pedido de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, de dinheiro para financiar o filme. Há ainda a suspeita de que o patrocínio tenha sido desviado para outras finalidades.

 

A preocupação de interlocutores políticos foca no impacto de potenciais medidas cautelares, como mandados de busca e apreensão, no cenário eleitoral e nas articulações da oposição no Congresso Nacional. Além disso, o receio se estende aos efeitos de eventuais quebras de sigilo ou apreensões de dispositivos eletrônicos nas apurações em andamento perante a Suprema Corte.

Cordisburgo

0

A gente nasce,
Cresce, respira…
De repente,
Se inspira.

Terra sertaneja,
Terra vermelha,
Terra rosiana,
Terra mineira.

Então surge Guimarães Rosa,
Com sua sutileza,
Retrata, com toda certeza,
Essa imensidão.

Em prosa, literatura e fantasia,
Descreve com toda a maestria
O regionalismo, o vaqueiro e sua praxe,
Viagens, paragens e filosofia.

As boiadas,
As veredas,
Natureza,
Buritizais,
Causos,
Pausas,
Fogueiras,
Poeirais.

Registros na caderneta,
Neologismos, inovações,
Momentos vivenciados,
Transformando-se em erudição.

Grande Sertão: Veredas,
Manuelzão, Miguilim,
Sagarana, Magma,
Riobaldo, Diadorim.

De lugar singular
Ao mundo transpareceu:
Gruta do Maquiné,
Academia, Casa de Leitura, Museu.

Contadores de histórias,
Embaixador do sertão,
Artesanato, bordadeiras,
Terceira idade, associação.

“Tudo se desencerra aqui”, em Cordisburgo,
Pequenina terra sertaneja,
“Trás-montanhas no meio de Minas Gerais”,
Onde Guimarães Rosa nasceu.
Ninguém esquece jamais.

Priscilla Barbosa de Carvalho Costa
31/08/2024
[20:13, 19/07/2026] Vinício Carrilho Martinez: Priscila Barbosa

Esqueça a tontería, Messi é um gênio

Por Vinício Carrilho Martinez

Messi é um gênio. Ponto.

Uma lenda dizia (diz) que Messi é autista.

Buenas, problema nenhum se fosse.

Só ocorre que não é.

Messi tem um olhar estranho e faz caras estranhas, não cumprimenta os outros jogadores etc. etc.

Buenas, Messi faz a cara de um gênio, todos os gênios são estranhos ao senso comum, comportam-se de modo “errático” aos olhos desse senso comum. E ainda bem que é assim. Já pensou se todo mundo fosse chapado na mesmice? A pedra ainda seria lascada.

Messi é só gênio mesmo. E não trocou a camiseta com outro jogador, prometida em campo, para preservar o seu rival. Teve esmero até nisso.

Muito bem, voltando ao gênio do Messi, além da absurda “inteligência futebolística” (aí precisa de um pouco mais de profundidade conceitual), tenhamos em conta que Messi é um Borges da bola.

Prefiro Garcia Márquez ao Borges, talvez pelo impacto que tive na fase meio adulta; mas, só essa comparação tiraria o ar de muita gente.

Na verdade, acho que não se comparam.

Messi é um Picasso pintando quadros de gols, assim como Pelé desenhou o arco do Heliocentrismo da Bola. Depois disso, todo mundo conheceu a circunferência da pelota.

Mas, isso é passado. Pelé foi o gênio dos gênios, e é insuperável, mas é passado.

O presente é do Messi – e se você curte ver um gênio vivo, assista aos últimos momentos do Messi em campo.

No rebote, pense no quanto a nossa educação e cultura precisam aprender com Los Hermanos e com La Pulga.

Aliás, até para apreciar o que é bom demais – coragem, força, garra do outro –, é preciso abaixar a sua bola.

O Messi abaixa a bola para ter performance. Messi, como gênio, não é performático.

Eu assistirei até o último minuto.

Sabe Deus quando irá aparecer outro gênio.

Enfim, terei o luxo de dizer que vi e curti um gênio em vida.

O resto é, bem, o resto é a nossa inveja.

 

Futebol e política (e cerveja)

0

– sem fanatismo
– sem crendices

Sempre penso que é possível (e até desejável) fazermos ligações entre futebol e política. Principalmente porque estamos falando de Brasil: todo bebê já ganhou sua bolinha.
Mas, sempre com inteligência e educação, é preciso pontuar bem a rixa entre futebol e política. Nem sempre dá pra ver esse jogo na poltrona da torcida.
Por exemplo: que Neymar não agrada por suas atitudes antirrepublicanas, é fato que divide o país.
Eu acho deplorável o que fez com sua própria carreira; indubitavelmente, poderia ser um gênio da bola. Hoje é somente um ex-jogador em campo e há uns três anos já.
Outro exemplo: Messi é um gênio da bola, só não é maior porque houve um tal de Pelé. Messi passou Maradona, Messi é o segundo melhor jogador, desde que o futebol foi inventado. Mas, Messi é o antípoda político de Maradona – amigo de Fidel.
Messi é Milei assim como Neymar é bolsonarista. Note-se, porém, uma questão: a qualidade política de ambos os tornam menos craques da bola? É óbvio que não, basta ver onde e como está um e outro.
Mais um exemplo: o Brasil foi tricampeão em 1970. Quem é profissional da bola, e não é o meu caso, diz que jamais haverá outra seleção igual, no mundo todo.
Tivemos uma grandeza técnica absurda em 1982, com o gênio Telê, e não ganhamos. Teria sido o selecionado mais próximo de 1970, apesar de longe da qualidade de Pelé e companhia.
Certo.
Agora, voltemos à política, aos galhos e bugalhos da política: em 1970 havia uma terrível ditadura no país.
Algum jogador tricampeão ocupou o gramado para denunciar o AI-5?
Não, até porque não eram loucos.
A omissão ou conivência de muitos os transformam em pernas de pau?
Jamais.
Nunca mais veremos tanta qualidade num só selecionado nacional. No mundo todo.
Pelé, no último exemplo, o gênio entre os maiores craques do futebol (talvez o único gênio da bola) era pra lá de sofrível quando falava.
Esse mesmo Pelé não reconheceu filha ou filhas. Foi obrigado judicialmente.
Pelé, um homem negro, nascido muito pobre, tornado ícone mundial, nunca, jamais, levantou o punho para incitar a luta antirracista.
Aliás, quantos/as de nós teve essa coragem?
Então, e por fim, alguém torceu contra Pelé e sua trupe em 1970?
Se isso aconteceu, não passou de cinco abobados e abandonados pelo futebol.
No final das contas, penso e insisto em relacionar futebol e política (e cerveja), mas, nunca, jamais, misturar alhos e galhos com bugalhos.
Cerveja, política e futebol. Coloque na ordem que você quiser, só não esqueça da regra de ouro: “Aprecie com moderação”. Como tudo na vida…
A bola pune (Muricy Ramalho) quem joga pra torcida.
(PS: no pódio sagrado, temos um medalhista, Pelé com o ouro. Mas, a Argentina tem dois lugares: Messi com a prata e Maradona com o bronze. Temos uma medalha a menos).

Vinício Carrilho Martinez

FICHAMENTO PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

0

 

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

@viniciocarrilhomartinez

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

 

“A consciência é a consciência da consciência”

Paulo Freire

 

Essa leitura, recortada, tem a perspectiva de uma epistemologia mais específica, que é atrelada a uma Sociologia Política da Educação. O Objetivo é destacar a Emancipação. Este fichamento é diferente em alguns aspectos – surgiu para um propósito e agora serve a outro e, por isso, há duas referências, foram utilizadas duas publicações do livro Pedagogia do Oprimido. O fichamento teve por base, originariamente, atender à necessidade de duas pesquisas de pós-doutorado em Ciência Política[1] e, agora, objetiva compor um lastro de material didático na disciplina de Educação e Sociedade. Além disso, não foi realizado por especialista em Paulo Freire, mas sim, por um cientista social.

O fichamento tem palavras-chave como título, as mesmas que orientaram o autor em suas pesquisas iniciais: as citações diretas, os recortes, não seguem a cronologia costumeira, pois estão alinhadas em relação às temáticas das palavras-chave. Procurou-se seguir a lógica da reversão, da negação à negação da negação: do “menos Homem, para o mais Homem”. Por fim, após uma longa citação acerca da ideia da Emancipação, trazemos a sugestão para que se construa um texto autoral, interpretativo e propositivo. Portanto, pode-se dizer que o fichamento é híbrido desde a origem e que foi realizado em vários momentos.

 

Nenhuma ordem opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: “Por quê”? (Freire, 1985)

 

  • Violência societal

“É que, para eles, pessoa humana são apenas eles. Os outros, estes são coisas. Para eles, há um só direito – o seu direito de viverem em paz, ante o direito de sobreviverem, que talvez nem sequer reconheçam, mas somente admitam aos oprimidos” (Freire, 1985, p. 48).

“Esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressores uma consciência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens” (Freire, 1985. p. 48).

 

“Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando” (Freire, 1985, p. 49).

  • Objetificação

“Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo em seu poder de compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal (Freire, 1985. p. 49 – grifo nosso).

 

  • Consciência indireta

“Este fatalismo, às vezes, dá a impressão, em análises superficiais, de docilidade, como caráter nacional, o que é um engano. Este fatalismo, alongado em docilidade, é fruto de uma situação histórica e sociológica e não um traço essencial da forma de ser do povo” (Freire, 1985, p. 52).

 

“Ordem’ que, frustrando-se no seu atuar, muitas vezes os leva a exercer um tipo de violência horizontal com que agridem os próprios companheiros. […] Ao agredirem seus companheiros oprimidos estarão agredindo neles, indiretamente, o opressor também ‘hospedado’ neles e nos outros. Agridem como opressores, o opressor nos oprimidos” (Freire, 1985, p. 53).

 

“Dentro dos marcos concretos em que se fazem duais é natural que descreiam de si mesmos […]. Têm uma crença difusa, mágica, na invulnerabilidade do opressor […]. Nisto reside sua ‘conivência’ com o regime opressor” (Freire, 1985, p. 54-55).

 

  • Contradição insolúvel

“Seria uma contradição se os opressores, não só defendessem, mas praticassem uma educação libertadora” (Freire, 1985, p. 43).

 

  • Da opressão

“A situação de opressão em que se ‘formam’, em que ‘realizam’ sua existência, os constitui nesta dualidade, na qual se encontram proibidos de ser” (Freire, 1985, p. 4 – grifo nosso).

 

“[…] Numa atitude em que manifestaram o seu ‘medo da liberdade’, se referem ao que chamam de ‘perigo da conscientização’. ‘A consciência crítica […dizem…] é anárquica’. Ao que outros acrescentam: ‘Não poderá a consciência crítica conduzir à desordem [?]” (Freire, 1985, p. 19).

 

“Talvez seja eu, entre os senhores, o único de origem operária. Não posso dizer que haja entendido todas as palavras que foram ditas aqui, mas uma coisa posso afirmar: cheguei a esse curso, ingênuo e, ao descobrir-me ingênuo, comecei a tornar-me crítico. Esta descoberta, contudo, nem me faz fanático, nem me dá a sensação de desmoronamento” (Freire, 1985, p. 20).

 

  • Injustiça social/moral

“A ‘ordem’ social injusta é a fonte geradora, permanente, desta ‘generosidade’ que se nutre da morte, do desalento e da miséria” (Freire, 1985, p. 31).

 

“Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo” (Freire, 1985, p. 34).

 

“Nos oprimidos, o medo da liberdade é o medo de assumi-la. Nos opressores, é o medo de perder a ‘liberdade’ de oprimir” (Freire, 1985, p. 34).

 

  • Prescrição

“Toda prescrição é a imposição da opção de uma consciência a outra […]. Por isto, o comportamento dos oprimidos é um comportamento prescrito” (Freire, 1985, p. 34-35 – grifo nosso).

 

“Não é ideia que se faça mito” (Freire, 1985, p. 35).

 

“Querem ser, mas temem ser. São eles e ao mesmo tempo são o outro introjetado neles, como consciência opressora […] Entre seguirem prescrições ou terem opções […]. A libertação, por isto, é um parto. E um parto doloroso […]. A superação da contradição é o parto que traz ao mundo este homem novo não mais opressor; não mais oprimido, mas homem libertando-se” (Freire, 1985, p. 36 – grifo nosso).

 

“Não basta saberem-se numa relação dialética com o opressor – seu contrário antagônico – descobrindo, por exemplo, que sem eles o opressor não existiria [Hegel] para estarem de fato libertados. É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora […]. A solidariedade, exigindo de quem se solidariza, que “assuma” a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical” (Freire, 1985, p. 37 – grifo nosso).

 

“Da mesma forma como é, em uma situação concreta – a da opressão – que se instaura a contradição opressor-oprimidos, a superação desta contradição só se pode verificar objetivamente também” (Freire, 1985, p. 38 – grifo nosso).

 

“É que a realidade opressora, ao constituir-se como um quase mecanismo de absorção dos que nela se encontram, funciona como uma força de imersão das consciências” (Freire, 1985, p. 39-40 – grifo nosso).

 

“Arquivados, porque, fora da busca, fora da práxis, os homens não podem ser” (Freire, 1985, p. 66).

 

  • Sectarização

“É que a sectarização é sempre castradora, pelo fanatismo de que se nutre […]. A sectarização, porque mítica e irracional, transforma a realidade numa falsa realidade, que, assim, não pode ser mudada. Parta de quem parta, a sectarização é um obstáculo à emancipação dos homens […]. Não são raros os revolucionários que se tornam reacionários pela sectarização em que se deixam cair, ao responder à sectarização direitista” (Freire, 1985, p. 22 – grifo nosso).

 

“E esta não é a dos homens [verdade] na luta para construir o futuro, correndo o risco desta própria construção […] o homem de esquerda que se sectariza e também se encerra, é a negação de si mesmo […]. “Sofrem ambos da falta de dúvida” […]. Se a sectarização, como afirmamos, é o próprio do reacionário, a radicalização é o próprio do revolucionário” (Freire, 1985, p. 23-24 – grifo nosso).

 

  • Dialética

“É que, para ele, o aspecto subjetivo toma corpo numa unidade dialética com a dimensão objetiva da própria ideia, isto é, com os conteúdos concretos da realidade sobre a qual exerce o ato cognoscente. Subjetividade e objetividade, desta forma, se encontram naquela unidade dialética de que resulta um conhecer solidário com o atuar e este com aquele. É exatamente esta unidade dialética a que gera um atuar e um pensar certos na e sobre a realidade para transforma-la” (Freire, 1985, p. 23 – grifo nosso).

 

  • Dialogicidade

“O diálogo crítico e libertador, por isso mesmo que supõe a ação, tem de ser feito com os oprimidos, qualquer que seja o grau em que esteja a luta por sua libertação” (Freire, 1985, p. 56 – grifo nosso).

 

  • Hominização

“O problema de sua humanização, apesar de sempre dever haver sido, de um ponto de vista axiológico, o seu problema central, assume, hoje, caráter de preocupação ineludível” (Freire, 1985, p. 29).

 

“Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem, a si mesmos, como problema” (Freire, 1985, p. 29 – grifo nosso).

 

“Humanização e desumanização, dentro da história, num contexto real, concreto, objetivo, são possibilidades dos homens como seres inconclusos e conscientes de sua inconclusão” (Freire, 1985, p. 30).

“E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertarem-se a si e aos opressores” (Freire, 1985, p. 31).

 

  • Ação política

“Estamos convencidos […] de que a reflexão se realmente reflexão, conduz à prática. Por outro lado, se o momento já é o da ação, esta se fará autêntica práxis se o saber dela resultante se faz objeto da reflexão crítica” (Freire, 1985, p. 57).

 

“A ação política junto aos oprimidos tem de ser, no fundo, ‘ação cultural’ para a liberdade, por isso mesmo, ação com eles” (Freire, 1985, p. 57).

 

“Não podemos esquecer que a libertação dos oprimidos é libertação de homens e não de ‘coisas” […]. Não se pode realizar com os homens pela metade” (Freire, 1985, p. 58).

 

“Há uma quase enfermidade da narração. A tônica da educação é preponderantemente esta – narrar, sempre narrar” (Freire, 1985, p. 65).

 

“Há uma quase enfermidade da narração. A tônica a educação é preponderantemente esta – narrar, sempre narrar” (Freire, 1985, p. 65).

 

“Só existe saber na invenção, na reivindicação, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. Busca esperançosa também” (Freire, 1985, p. 66).

 

  • Práxis

“Somente na sua solidariedade, em que o subjetivo constitui com o objetivo uma unidade dialética, é possível a práxis autêntica […]. A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transforma-lo” […]. Por isto, inserção crítica e ação já são a mesma coisa (Freire, 1985, p. 40 – grifo nosso).

 

“O que lhe interessa […] é a permanência delas [pessoas] em seu estado de ‘imersão’ em que, de modo geral, se encontram impotentes em face da realidade opressora, como ‘situação limite’, que lhes parece intransponível” (Freire, 1985, p. 41).

“Mas, a ação só é humana quando, mais que um puro fazer, é um que fazer, isto é, quando também não se dicotomiza da reflexão […] ‘ativar conscientemente o desenvolvimento ulterior da experiência” (Freire, 1985, p. 42).

 

  • Pedagogia libertadora

“Somente na medida em que se descubram ‘hospedeiros’ do opressor poderão contribuir para o planejamento de sua pedagogia libertadora” (Freire, 1985, p. 32).

 

“A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí […]. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção” (Freire, 1985, p. 43).

 

“A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação” (Freire, 1985, p. 44).

 

“Quem inaugura a negação dos homens não são os que tiveram a sua humanidade negada, mas os que a negaram, negando também a sua. Quem inaugura a força não são os que se tornaram fracos sob a robustez dos fortes, mas os fortes que os debilitaram” (Freire, 1985, p. 45).

 

“Não haveria oprimidos, se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão” (Freire, 1985, p. 45).

 

“Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão. Por isso é que, somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores” (Freire, 1985, p. 46).

 

  • Revolução

“Implica na revolução que, estagnando-se, volta-se contra o povo, usando o mesmo aparato burocrático, repressivo do Estado, que devia ter sido radicalmente suprimido, como tantas vezes salientou Marx” (Freire, 1985, p. 47).

 

Citando a nota de rodapé: “Implica na revolução que, estagnando-se, volta-se contra o povo, usando o mesmo aparato burocrático, repressivo do Estado, que devia ter sido radicalmente suprimido, como tantas vezes salientou Marx” (Freire, 1985, p. 47).

 

“Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser […]. No momento, porém, em que o novo poder se enrijece em ‘burocracia’ dominadora, se perde a dimensão humanista da luta e já não se pode falar em libertação” (Freire, 1985, p. 47).

 

  • Educação e sociedade

“Pelo contrário, refletindo a sociedade opressora, sendo dimensão da ‘cultura do silêncio’, a ‘educação’ ‘bancária’ mantém e estimula a contradição” (Freire, 1985, p. 67).

 

“Daí que tal forma de educação implique na superação da contradição educador-educandos, de tal maneira que se façam ambos, simultaneamente, educadores e educandos” (Freire, 1985, p. 67).

 

“Como marginalizados, ‘seres fora de’ ou ‘à margem de’, a solução para eles estaria em que fossem ‘integrados’, ‘incorporados’ à sociedade sadia de onde um dia ‘partiram’, renunciando, como trânsfugas, a uma vida feliz […]. Na verdade, porém, os chamados marginalizados, que são os oprimidos, jamais estiveram fora de. Sempre estiveram dentro de. Dentro da estrutura que os transforma em ‘seres para outro” (Freire, 1985, p. 69).

 

“Por isso mesmo é que reagem, até institivamente, contra qualquer tentativa de uma educação estimulante do pensar autêntico, que não se deixa emaranhar pelas visões parciais da realidade, buscando sempre os nexos que prendem um ponto a outro, ou um problema a outro” (Freire, 1985, p. 69).

 

“Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos […]. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador” (Freire, 1985, p. 71).

 

“Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos […]. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador” (Freire, 1985, p. 71).

 

  • Alienação

“Sugere uma dicotomia inexistente homens-mundo. Homens simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros. Homens espectadores e não recriadores do mundo” (Freire, 1985, p. 71).

 

  • Superação

“Sem esta [superação], não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em torno do mesmo objeto cognoscível” (Freire, 1985, p. 78- grifo nosso).

 

  • Libertação

A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica na ação e na reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo […] a consciência é consciência da consciência (Freire, 1985, p. 77 – grifo nosso).

 

  • Libertação/emancipação

“Neste sentido, em si mesma, esta realidade é funcionalmente domesticadora. Libertar-se de sua força exige, indiscutivelmente, a emersão dela, a volta sobre ela” (Freire, 1985, p. 40).

 

  • Emancipação

“Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora?” (Freire, 1985, p. 32).

 

“No primeiro momento, por meio da mudança da percepção do mundo opressor por parte dos oprimidos; no segundo, pela expulsão dos mitos criados e desenvolvidos na estrutura opressora e que se preservam como aspectos míticos, na estrutura nova que surge da transformação revolucionária” (Freire, 1985, p. 44).

 

“A luta por esta reconstrução começa no auto reconhecimento de homens destruídos” (Freire, 1985, p. 60).

 

“Não podem perceber, na situação opressora em que estão, como usufrutuários, que, se ter é condição para ser, esta é uma condição necessária a todos os homens […]. Por isso tudo é que a humanização é uma ‘coisa’ que possuem como direito exclusivo, como atributo herdado. A humanização é apenas sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão” (Freire, 1985, p. 49 – grifo nosso).

 

“Se a humanização dos oprimidos é subversão, a sua liberdade também o é” (Freire, 1985, p. 50).

 

“Daí que vão se apropriando, cada vez mais, da ciência também, como instrumento para suas finalidades. Da tecnologia, que usam como força indiscutível de manutenção da ‘ordem’ opressora, com a qual manipulam e esmagam. Os oprimidos como objetos, como quase ‘coisas’, não têm finalidades. As suas, são as finalidades que lhes prescrevem os opressores” (Freire, 1985, p. 50).

 

“Fazer esta adesão e considerar-se proprietário do saber revolucionário, que deve, desta maneira, ser doado ou imposto ao povo, é manter-se como era antes” (Freire, 1985, p. 51).

 

“Isto implica no reconhecimento crítico, na ‘razão’ desta situação, para que através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra” (Freire, 1985, p. 35).

 

“É como homens que os oprimidos têm de lutar e não como coisas” (Freire, 1985, p. 60 – grifo nosso).

 

“Os freios que os antigos oprimidos devem impor aos antigos opressores para que não voltem a oprimir não são opressão daqueles a estes […]. Por esta razão, estes freios, que são necessários, não significam, em si mesmos, que os oprimidos de ontem se tenham transformado nos opressores de hoje” (Freire, 1985, p. 46-47 – grifo nosso).

 

A seguir tentaremos indicar a construção da ideia de Emancipação, não muito bem distinta por Paulo Freire em relação à Liberdade e à Autonomia, a partir de uma longa citação do próprio autor.

 

  • A emancipação é humana e processual

Ao se instalarem na quase, senão trágica, descoberta do seu pouco saber de si, se fazem problema a eles mesmos. Indagam. Respondem, e suas respostas os levam a novas perguntas […]. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos […]. Só o poder que nasça da liberdade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos […]. Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegaram pelo acaso, mas pela práxis de sua busca: pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela […]. Ninguém tem liberdade para ser livre; pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem […]. Daí a necessidade que se impõe de superar a situação opressora. Isso implica o reconhecimento crítico, a ‘razão’ desta situação, para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais […]. Descobrem que, não sendo livres, não chegam a ser autenticamente […]. Sua luta se trava entre serem eles mesmos ou serem duplos […]. Entre seguirem prescrições ou terem opções. Entre serem espectadores ou atores […]. A libertação, por isso, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos […]. É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora […]. A solidariedade, exigindo de quem se solidariza que ‘assuma’ a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical […]. Roubados na sua palavra, por isto no seu trabalho comprado, que significa a sua pessoa vendida […]. Da mesma forma como é em uma situação concreta – a da opressão – que se instaura a contradição opressor-oprimidos, a superação desta contradição só se pode verificar objetivamente também […]. Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Não há uma sem a outra, que não podem ser dicotomizadas […]. A realidade social, objetiva, que não existe por acaso, mas como produto da ação dos homens, também não se transforma por acaso. Se os homens são os produtores desta realidade e se esta, na ‘inversão da práxis’, se volta sobre eles e os condiciona, transformar a realidade opressora é tarefa histórica, é tarefa dos homens […]. A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo […]. Desta forma, esta superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela. Por isto, inserção e ação já são a mesma coisa […]. Quanto mais as massas populares desvelam a realidade objetiva e desafiadora sobre a qual elas devem incidir sua ação transformadora, tanto mais se ‘inserem’ nela criticamente […]. De qualquer forma, o dever que Lukács reconhece ao partido revolucionário de ‘explicar às massas a sua ação’ coincide com a exigência que fazemos da inserção crítica das massas na sua realidade através da práxis, pelo fato de nenhuma realidade se transformar a si mesma. A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí […]. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção […] No primeiro momento, por meio da mudança da percepção do mundo opressor por parte dos oprimidos; no segundo, pela expulsão dos mitos criados e desenvolvidos na estrutura opressora e que se preservam como espectros míticos, na estrutura nova que surge da transformação revolucionária […]. Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão […]. Os oprimidos de ontem, que detêm os antigos opressores na sua ânsia de oprimir, estarão gerando, com seu ato, liberdade, na medida em que, com ele, evitam a volta do regime opressor. Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que o cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser […]. Se a humanização dos oprimidos é subversão, sua liberdade também o é […]. Os que passam têm de assumir uma forma nova de estar sendo; já não podem atuar como atuavam; já não podem permanecer como estavam sendo […] ninguém se liberta sozinho […]. Nenhuma ‘ordem’ opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: ‘Por que?’ […]. No processo revolucionário, a liderança não pode ser ‘bancária’, para depois deixar de sê-lo […]. Mas, se os homens são seres do quefazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo […]. O que fazer é teoria e prática […]. O que não se pode realizar, na práxis revolucionária, é a divisão absurda entre a práxis da liderança e a das massas oprimidas, de forma que a destas fosse a de apenas seguir as determinações da liderança […]. Estamos convencidos de que o diálogo com as massas populares é uma exigência radical de toda revolução autêntica. Ela é revolução por isto […]. Se, na educação como situação gnosiológica[2], o ato cognoscente do sujeito educador (também educando) sobre o objeto cognoscível não morre, ou nele se esgota, porque, dialogicamente, se estende a outros sujeitos cognoscentes, de tal maneira que o objeto cognoscível se faz mediador da cognoscibilidade dos dois, na teoria da ação revolucionária se dá o mesmo […]. É que a liderança não pode pensar sem as massas, nem para elas, mas com elas […]. A revolução se gera nela como ser social e, por isto, na medida em que é ação cultural, não pode deixar de corresponder às potencialidades do ser social em que se gera […]. É que todo ser se desenvolve (ou se transforma) dentro de si mesmo, no jogo de suas contradições (Freire, 2022, p. 39-183).

 

Uma experiência pedagógica e necessária, neste momento, levaria à construção de um texto autoral, como reflexão pessoal de quem se apoderou do fichamento; se não fosse do fichamento todo, já seria muito válido refletir e escrever sobre a emancipação nesta última e mais longa citação de Paulo Freire. A chave de toda a compreensão está na passagem em que afirma que “a consciência é a consciência da consciência” (Freire, 2022, p. 94). Ou, como diz longamente Paulo Freire, trata-se de uma epistemologia política da Emancipação:

 

Os temas, em verdade, existem nos homens, em suas relações com o mundo, referidos a fatos concretos […]. A investigação temática se faz, assim, um esforço comum de consciência da realidade e de autoconsciência, que a inscreve como ponto de partida do processo educativo, ou da ação cultural de caráter libertador […]. A investigação temática, que se dá no domínio do humano e não no das coisas, não pode reduzir-se a um ato mecânico […]. Não posso investigar o pensar dos outros, referido ao mundo, se não penso. Mas, não penso autenticamente se os outros também não pensam. Simplesmente, não posso pensar pelos outros nem para os outros, nem sem os outros. A investigação do pensar do povo não pode ser feita sem o povo, mas com ele, como sujeito do seu pensar (Freire, 2022, p. 137-141).

 

Este é o convite, pensar o povo com o povo.

E você, qual pergunta faria ao povo brasileiro? O que lhe diria?

[1] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Educação e Sociedade. São Carlos: Amazon, Ebook Kindle, 2025a. Disponível em: https://a.co/d/393SyBS.

MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025b. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.

[2] Como teoria do conhecimento de forma irrestrita – no sentido de Educação Permanente –, a gnosiologia não se limita ao conhecimento científico (epistemologia).

Lula lidera com folga pesquisa espontânea de 1° turno e empata com Flávio no 2°, diz Futura/Apex

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lidera a corrida presidencial de 2026 tanto na pesquisa espontânea quanto nos quatro cenários estimulados de primeiro turno apresentados pela Futura Inteligência em parceria com a Apex Partners. No segundo turno, Lula aparece numericamente à frente de todos os adversários testados, mas está tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro (PL) e Michelle Bolsonaro (PL).

Divulgado nesta terça-feira (14), o levantamento ouviu 2 mil eleitores com 16 anos ou mais, entre os dias 7 e 11 de julho, em 697 municípios. As entrevistas foram realizadas por telefone. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.

Na pesquisa espontânea, quando os entrevistadores não apresentam uma lista de nomes, Lula alcança 36,5% das intenções de voto. Flávio Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 28,1%. A diferença entre os dois é de 8,4 pontos percentuais.

O levantamento também mostra que 18,8% dos eleitores ainda não sabem em quem votar ou preferiram não responder. Outros 6,2% afirmaram que votariam em branco, anulariam o voto ou não escolheriam nenhum dos nomes. Os resultados são:

  • Lula (PT): 36,5%
  • Flávio Bolsonaro (PL): 28,1%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 2,1%
  • Renan Santos (Missão): 1,7%
  • Jair Bolsonaro (PL): 1,4%
  • Romeu Zema (Novo): 1,3%
  • Augusto Cury (Avante): 0,4%
  • Ratinho Júnior (PSD): 0,2%
  • Joaquim Barbosa (DC): 0,1%
  • Cabo Daciolo (Mobiliza): 0,1%
  • Outros nomes: 3,1%
  • Ninguém, branco ou nulo: 6,2%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 18,8%

Lula lidera os quatro cenários de primeiro turno

Lula também aparece numericamente na frente em todos os cenários estimulados, nos quais os entrevistados recebem uma lista com os nomes testados. Na simulação mais ampla, o presidente registra 40,1%, diante de 36,8% de Flávio Bolsonaro.

A diferença de 3,3 pontos percentuais coloca os dois em situação de empate técnico, considerando a margem de erro. Os demais nomes aparecem com percentuais de apenas um dígito.

Cenário 1

  • Lula (PT): 40,1%
  • Flávio Bolsonaro (PL): 36,8%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 5%
  • Romeu Zema (Novo): 3,7%
  • Renan Santos (Missão): 2,6%
  • Joaquim Barbosa (DC): 1,4%
  • Augusto Cury (Avante): 1,1%
  • Cabo Daciolo (Mobiliza): 0,7%
  • Ninguém, branco ou nulo: 5,1%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 3,6%

No segundo cenário, sem Joaquim Barbosa, Augusto Cury e Cabo Daciolo, Lula fica com 37,8%, enquanto Flávio Bolsonaro marca 35,7%. A distância entre os dois cai para 2,1 pontos percentuais.

Sem Flávio Bolsonaro na lista, Lula amplia a liderança e chega a 42,1%. Ronaldo Caiado aparece em segundo lugar, com 16,5%, seguido por Romeu Zema, com 14%. No quarto cenário, sem Caiado, Lula tem quatro pontos de vantagem sobre Flávio.

Cenário 2 — sem Joaquim Barbosa, Augusto Cury e Cabo Daciolo

  • Lula (PT): 37,8%
  • Flávio Bolsonaro (PL): 35,7%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 7,9%
  • Romeu Zema (Novo): 5%
  • Renan Santos (Missão): 3,4%
  • Ninguém, branco ou nulo: 7,3%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 2,9%

Cenário 3 — sem Flávio Bolsonaro, Joaquim Barbosa, Augusto Cury e Cabo Daciolo

  • Lula (PT): 42,1%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 16,5%
  • Romeu Zema (Novo): 14%
  • Renan Santos (Missão): 6%
  • Ninguém, branco ou nulo: 16,4%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 5%

Cenário 4 — sem Ronaldo Caiado, Joaquim Barbosa, Augusto Cury e Cabo Daciolo

  • Lula (PT): 42,6%
  • Flávio Bolsonaro (PL): 38,6%
  • Romeu Zema (Novo): 6,2%
  • Renan Santos (Missão): 3,9%
  • Ninguém, branco ou nulo: 6,3%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 2,4%

Segundo turno tem empate entre Lula e Flávio

O cenário mais apertado de segundo turno é justamente o confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro. O presidente registra 46,3%, enquanto o senador do PL aparece com 46,1% — uma diferença de apenas 0,2 ponto percentual.

Lula também fica tecnicamente empatado com Michelle Bolsonaro: são 46,1% para o petista e 44,3% para a ex-primeira-dama. Contra Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, o presidente aparece à frente por diferenças superiores à margem de erro.

Lula contra Flávio Bolsonaro

  • Lula (PT): 46,3%
  • Flávio Bolsonaro (PL): 46,1%
  • Ninguém, branco ou nulo: 6,5%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 1,1%

Lula contra Michelle Bolsonaro

  • Lula (PT): 46,1%
  • Michelle Bolsonaro (PL): 44,3%
  • Ninguém, branco ou nulo: 8,1%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 1,5%

Lula contra Ronaldo Caiado

  • Lula (PT): 45,1%
  • Ronaldo Caiado (PSD): 38,9%
  • Ninguém, branco ou nulo: 13,6%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 2,3%

Lula contra Romeu Zema

  • Lula (PT): 46%
  • Romeu Zema (Novo): 38,1%
  • Ninguém, branco ou nulo: 13,8%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 2,1%

Lula contra Renan Santos

  • Lula (PT): 46,4%
  • Renan Santos (Missão): 33,1%
  • Ninguém, branco ou nulo: 17,3%
  • Não sabe, não respondeu ou está indeciso: 3,2% 

Revista Forum

Fim da escala 6×1 completa dois meses parada no Senado, com resistência de Alcolumbre

O fim da escala 6×1 está travado no Senado há quase dois meses, sem previsão para o início da tramitação, enquanto o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), resiste às pressões para acelerar a análise e amplia o impasse com o governo do presidente Lula (PT), segundo o Metrópoles.

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC), aprovada pela Câmara dos Deputados em dois turnos no dia 27 de maio, chegou ao Senado no dia seguinte. Desde então, o texto aguarda o despacho de Alcolumbre, etapa necessária para que seja encaminhado à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

A proposta reduz de 44 para 40 horas o limite da jornada semanal e garante aos trabalhadores dois dias de descanso remunerado por semana. Na prática, a mudança impede a adoção do modelo no qual o funcionário trabalha durante seis dias consecutivos e descansa apenas um.

Embora tenha obtido ampla maioria entre os deputados, a PEC encontrou um ambiente mais resistente no Senado. Além das divergências sobre o conteúdo da proposta, a tramitação passou a fazer parte das disputas políticas entre Alcolumbre e o Palácio do Planalto.

Alcolumbre rejeita pressão sobre a PEC da escala 6×1

A tensão aumentou depois que o líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirmou que o presidente do Senado poderia ser tratado como “inimigo” caso continuasse sem enviar a PEC para análise da CCJ.

Em resposta, Alcolumbre divulgou uma nota na qual defendeu que a definição da pauta é uma atribuição exclusiva da Presidência do Senado. O parlamentar afirmou ainda que não se submete a “ultimatos ou pressões político-eleitorais”.

A declaração foi interpretada como uma reação à estratégia de setores do PT que defendem ampliar a cobrança pública sobre o Congresso. Entre as iniciativas discutidas pela legenda está a retomada da campanha “Congresso inimigo do povo”, voltada a pressionar deputados e senadores a votar propostas consideradas populares.

Dentro do governo, no entanto, há preocupação com os possíveis efeitos dessa ofensiva. Interlocutores do Planalto avaliam que o confronto direto pode deteriorar ainda mais a relação com Alcolumbre e dificultar a aprovação de outras matérias consideradas prioritárias.

Proposta é tratada como bandeira social de Lula

Aliados de Lula enxergam o fim da escala 6×1 como uma das principais bandeiras sociais para a campanha presidencial. A redução da jornada de trabalho seria apresentada como uma medida voltada à melhoria da qualidade de vida e à ampliação do tempo de descanso dos trabalhadores.

A possibilidade de a proposta não avançar antes das eleições preocupa integrantes do governo e dirigentes petistas. A avaliação é que, quanto maior a demora no Senado, menores serão as chances de conclusão da votação ainda durante o calendário eleitoral.

Alcolumbre, por outro lado, tem sinalizado que não pretende conduzir uma análise acelerada. O presidente do Senado argumenta que a Casa não deve apenas “carimbar” o texto aprovado pelos deputados.

A posição defendida por ele é que a PEC passe por pelo menos uma comissão e seja submetida a um debate mais amplo. A discussão deverá envolver representantes dos trabalhadores, parlamentares e integrantes do setor produtivo.

Aliados de Alcolumbre consideram improvável que a proposta seja votada antes das eleições. A tramitação dependeria não apenas da disposição da Presidência do Senado, mas também da construção de um acordo sobre possíveis alterações no texto.

Mudanças podem obrigar PEC a retornar à Câmara

O presidente do Senado também defende mudanças no conteúdo aprovado pelos deputados. Uma das possibilidades discutidas nos bastidores é incorporar pontos de outra proposta apoiada por setores empresariais e por integrantes da oposição.

Entre as ideias mencionadas está a criação de mecanismos que permitam o pagamento com base nas horas efetivamente trabalhadas. Essa alternativa, porém, enfrenta resistência de representantes dos trabalhadores e de parlamentares favoráveis ao texto aprovado pela Câmara.

Qualquer modificação realizada pelo Senado obrigaria a PEC a retornar para nova votação entre os deputados. Como se trata de uma emenda constitucional, as duas Casas precisam aprovar exatamente o mesmo texto, em dois turnos, com o apoio de pelo menos três quintos de seus integrantes.

A eventual devolução à Câmara ampliaria o tempo necessário para a promulgação e poderia empurrar uma decisão definitiva para depois do período eleitoral.

Recesso parlamentar reduz possibilidade de votação

O calendário do Congresso também dificulta o avanço da proposta. O recesso parlamentar começa em 18 de julho e interrompe as atividades legislativas regulares.

Após a pausa, a tendência é que a presença de deputados e senadores em Brasília diminua devido às campanhas eleitorais nos estados. O esvaziamento pode impedir a realização de votações que exigem quórum elevado, como ocorre com as propostas de emenda à Constituição.

Mesmo que Alcolumbre despache a PEC para a CCJ, o texto ainda precisará passar pela escolha de um relator, pela apresentação de um parecer e pela votação no colegiado. Somente depois dessas etapas a matéria poderá ser encaminhada ao plenário do Senado.

Relação entre Alcolumbre e Planalto se deteriorou

O impasse em torno do fim da escala 6×1 se soma a outros episódios de tensão entre Alcolumbre e o governo Lula. A relação se deteriorou após a indicação e a rejeição de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF).

O afastamento entre o presidente do Senado e o Palácio do Planalto teria afetado a tramitação de pautas consideradas prioritárias pelo Executivo. Nesse cenário, a PEC da jornada de trabalho passou a ocupar o centro de uma disputa que combina divergências sobre o texto, pressões eleitorais e dificuldades de articulação política.

Sem o despacho de Alcolumbre, a proposta permanece formalmente parada no Senado. A proximidade do recesso e a resistência a uma votação acelerada tornam cada vez mais distante a possibilidade de aprovação do fim da escala 6×1 antes das eleições.

SANGUE POR SANGUE! Novo líder do Irã jura vingança implacável contra o terrorismo dos EUA após assassinato de Ali Khamenei

O líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, elevou a temperatura geopolítica ao limite neste sábado (11) ao cravar que a vingança pela morte de seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, não é apenas uma promessa, mas uma exigência irrevogável do povo iraniano. Em uma declaração contundente, publicada poucos dias após o gigantesco funeral do líder histórico assassinado por um bombardeio ordenado por Washington, Mojtaba mandou um recado direto aos algozes de seu país. Com a lista dos culpados em mãos, ele garantiu que os responsáveis pelo derramamento de sangue pagarão caro e viverão sob o terror da retaliação.

“A vingança pelo mártir do Irã é a exigência do nosso povo e, com toda a certeza, deve ser realizada. Esses criminosos, cuja lista completa — do primeiro ao último — está em nossas mãos, levarão para o túmulo o desejo de ter uma morte tranquila, em sua própria cama” — Mojtaba Khamenei.

O peso da agressão imposta pelo eixo Washington-Tel Aviv deixou marcas profundas e literais no novo líder. Desde a ofensiva militar promovida pelos Estados Unidos e por Israel no final de fevereiro, Mojtaba não foi visto em público, ausentando-se até mesmo dos quatro dias de cerimônias fúnebres que pararam o país em homenagem ao seu pai. Fontes da imprensa iraniana revelam que a reclusão tem um motivo drástico: Mojtaba teria ficado com o rosto severamente desfigurado pelas explosões dos ataques inimigos, transformando suas cicatrizes no mais novo símbolo da resistência nacional contra o imperialismo.

A promessa de retaliação assombrou o presidente Donald Trump, que reagiu com sua habitual truculência e desespero. Apavorado com os gritos das multidões iranianas exigindo sua morte durante as marchas fúnebres do aiatolá, o extremista norte-americano ameaçou destruir a nação persa, bravateando ter mil mísseis “prontos e carregados” contra o território iraniano. Mesmo sob o alvo do arsenal bélico norte-americano, o Irã mantém a soberania e rechaça qualquer submissão. Fontes diplomáticas em Teerã já avisaram que a mesa de negociações está completamente interditada: o país só voltará a conversar quando os Estados Unidos curvarem-se aos acordos firrmados, garantirem a normalização das exportações de petróleo e respeitarem o livre trânsito no Estreito de Ormuz.

Plantão Brasil

Pastor do PL que pregava a moralidade é preso por torturar bebês e animais

Foi no celular dele que a polícia encontrou o material que levou até os outros suspeitos de envolvimento nos crimes

BAGÉ (RS) — O discurso público de moralidade, a retórica religiosa e a defesa ferrenha dos valores tradicionais ruíram de forma avassaladora na cidade de Bagé, no interior do Rio Grande do Sul. Tiago Ximendes, conhecido amplamente na região como pastor evangélico e atuante como vereador suplente pelo Partido Liberal (PL), foi preso preventivamente pela Polícia Federal. Por trás da fachada de “cidadão de bem” e líder comunitário, as investigações da Operação Contra Barbariem revelaram a face de um homem apontado como peça-chave em uma das redes de tortura mais cruéis e chocantes descobertas recentemente no país.

A Polícia Federal deflagrou, nesta quinta-feira (2/7), a Operação Contra Barbariem, para cumprir 12 mandados de busca e apreensão e 9 de prisão preventiva, expedidos pela 2ª Vara Criminal da Comarca de Bagé, no âmbito de investigação que apura a suposta prática de crimes de tortura contra crianças e de maus-tratos a animais.

As medidas foram cumpridas nos municípios sul-rio-grandenses de Bagé, de Candiota e de Canoas, com o objetivo de cessar a continuidade da prática desses crimes, de identificar vítimas e de colher provas para esclarecer a dinâmica dos fatos e eventual comercialização dos registros audiovisuais.

Entre os presos está o pastor evangélico e vereador suplente do PL, Tiago Ximendes (foto), da cidade de Bagé. Foi no celular do pastor que a polícia encontrou o material que levou até os outros suspeitos de envolvimento nos crimes.

Investigam-se indícios de reiterados episódios de violência física e psicológica praticados contra vítimas em situação de vulnerabilidade, incluindo bebês, crianças e animais domésticos. Parte dos fatos investigados teria ocorrido no município de Bagé e sido registrada e compartilhada por meios digitais.

Segundo as apurações, os investigados teriam desempenhado diferentes funções na dinâmica dos fatos, incluindo a produção e o compartilhamento de registros audiovisuais relacionados às condutas sob investigação.

Os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, prática de crimes de imposição intencional de sofrimento físico ou mental contra crianças ou adolescentes, de maus-tratos a animais e de organização criminosa. (Fonte: Polícia Federal do Rio Grande do Sul)

Michelle volta a ser alvo de ataques bolsonaristas após elogiar programa do governo Lula

TariFlávio: Flávio Bolsonaro queria sangrar o Brasil para prejudicar imagem de Lula, afirma especialista

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enviou um ofício ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) pedindo o adiamento do tarifaço sobre produtos brasileiros em 180 dias e alegando que as tarifas poderiam beneficiar o presidente Lula (PT) em ano eleitoral.

O tarifaço estadunidense, assim como os ataques ao Pix, a revogação de vistos de autoridades brasileiras e a aplicação das sanções econômicas da Lei Magnitsky, foi estimulado pelo irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), na tentativa de evitar a condenação de Jair Bolsonaro no processo da trama golpista. Eduardo foi condenado pelo STF pelo crime de coação.

Para o cientista político Mateus Albuquerque, professor na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a estratégia utilizada pela família Bolsonaro foi equivocada, mas faz sentido dentro do contexto da extrema-direita. “Ela tem um sentido interno. Flávio Bolsonaro queria sangrar o Brasil e, ao sangrar o Brasil, prejudicar a imagem do governo Lula. Esse é o cálculo. E prejudicar a imagem do governo Lula pela questão da responsabilidade do incumbente. O eleitor brasileiro, muitas vezes, tem dificuldade de atribuir culpa. Então, se a escola do bairro não funciona, a culpa é do presidente. Existem alguns estudos que mostram isso. O eleitor brasileiro ia ver a economia indo mal e, portanto, ia evitar o voto em Lula. Acho que esse era o cálculo do bolsonarismo”, explica.

Por outro lado, continua Albuquerque, o governo Donald Trump imaginou que daria para aplicar no Brasil o mesmo tipo de estratégia de “diplomacia de baioneta” que se aplicou em outros países. A avaliação, contudo, se mostrou equivocada. “Para o trumpismo, o Brasil seria um país subalternizado, com uma economia menos complexa, dependente de setores. Os dois lados estavam errados. E, no caso do Flávio Bolsonaro, ignorou-se completamente o fato de que boa parte da população brasileira não gostou dessa medida. Inclusive do empresariado e da burguesia brasileira”, destaca.

Na avaliação do cientista político, a manobra de Flávio expõe que ele compreendeu o quanto a estratégia foi equivocada. “Compreendendo que o tarifaço agora não enfraquece, mas fortalece Lula, ele está tentando conter a sangria e jogar para a frente num hipotético governo Flávio, que, segundo as pesquisas, está cada vez mais difícil de acontecer“, pondera.

Mateus Albuquerque também destaca que Flávio errou na avaliação de que poderia, eventualmente, usar o tarifaço e uma eventual negociação dele como prova de poder e influência nos EUA. “O Brasil é o país da América Latina em que a população tem a melhor visão sobre os Estados Unidos em relação a outros países. O sentimento anti-ianque é mais fraco aqui do que em outros países. Mas parece que a família Bolsonaro testou muito o limite desse sentimento. A população brasileira — que não incorre muito em ufanismo, não é muito uma característica dela — não gostou do fato de que nossos governantes estão favorecendo outro país. Isso cria um sentimento de revanchismo”, explica.

Brasil de Fato

Lula manda recado a Flávio Bolsonaro: “eu quero saber o que você fez”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez críticas indiretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) durante cerimônia realizada nesta sexta-feira (3), no Palácio do Planalto, para anunciar investimentos nas áreas de educação, saúde e habitação. Sem citar nominalmente seus adversários políticos, Lula insinuou que houve promessas não cumpridas durante a campanha eleitoral de 2022 e afirmou que a disputa eleitoral de 2026 será marcada pelo confronto entre fatos e discursos.

O programa Minha Casa, Minha Vida foi retomado pelo governo federal em 2023, no início do terceiro mandato do presidente petista, após a extinção do Casa Verde e Amarela.

Em outro momento do discurso, Lula também enviou um recado indireto ao senador Flávio Bolsonaro, apontado como um dos pré-candidatos da direita à Presidência da República em 2026. Sem mencionar nomes, o presidente declarou que o próximo ano eleitoral será pautado pela avaliação do histórico dos candidatos.

“2026 é o ano da verdade. Eu não quero saber o que você vai fazer, eu quero saber o que você fez”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “A gente não vai permitir que a mentira prevaleça neste país”.

Pacote de investimentos

As declarações ocorreram durante cerimônia em que o governo federal anunciou um conjunto de ações nas áreas de educação, saúde e habitação em diversos estados brasileiros. O evento foi realizado um dia antes do início do período de restrições impostas pela legislação eleitoral, conhecido como defeso eleitoral, que passa a vigorar a partir deste sábado (4), limitando a publicidade institucional e o anúncio de novas ações governamentais.

Na área da educação, foram inaugurados dez novos campi da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica nos estados de São Paulo, Amazonas, Espírito Santo e Piauí. Segundo o governo, os investimentos somam R$ 206,6 milhões, sendo R$ 196,5 milhões provenientes do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Durante a cerimônia, Lula agradeceu aos prefeitos que colaboram com o governo federal para a expansão da rede de institutos federais.

“Tenho dito em quase todos os lugares a que vou: se o prefeito oferecer o terreno ou o prédio, todas as cidades vão ter um instituto. A razão é simples: não há outra possibilidade de o Brasil dar o salto de qualidade que todo mundo sonha se a gente não colocar a educação como prioridade do nosso governo”, declarou.

O presidente também afirmou que, em sua gestão, investimentos em educação não devem ser tratados como despesas. Segundo Lula, a palavra “gasto” é incompatível com a política educacional defendida pelo governo.

R$ 464,8 milhões para a Saúde

Na área da saúde, o governo anunciou investimentos de R$ 464,8 milhões destinados à ampliação e qualificação da rede pública em estados como Bahia, Ceará, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e no Distrito Federal. Os recursos serão aplicados na aquisição de equipamentos, habilitação de serviços especializados e fortalecimento do programa Agora Tem Especialistas.

Já na área habitacional, foram entregues 1.620 unidades do programa Minha Casa, Minha Vida nos estados da Bahia, Ceará, Maranhão, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e no Distrito Federal.

Revista Forum

TariFlávio: Flávio Bolsonaro queria sangrar o Brasil para prejudicar imagem de Lula, afirma especialista

‘LCP porta fuzil em Rondônia’: tiete bolsonarista Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra

‘LCP porta fuzil em Rondônia’: Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra

“Vocês conhecem a LCP tão bem quanto eu”: autoproclamado “05” do clã Bolsonaro, Scheid revive sua suposta “história de superação” de 2018, chama a LCP de “facção criminosa” e prega cadeia para camponeses pobres.

O latifundiário bolsonarista Bruno Scheid (PL-RO) publicou, em 15 de junho, um vídeo em que reencena, diante de latifundiários de Rondônia, o que apresenta como o grande trauma de sua vida: uma suposta ação da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), em 8 de agosto de 2018, na fazenda de sua família, em Alvorada do Oeste (RO). Segundo o valente, ele e sua esposa chegavam à propriedade às 17h30 quando teriam se deparado com “15 caras encapuzados portando fuzil, pistolas, tudo que vocês possam imaginar”.

“Vocês conhecem a LCP tão bem quanto eu. Tá aqui, ó, atuando nessa região aqui há muitos anos”, afirmou Scheid, dirigindo-se a outros latifundiários que também têm dores de cabeça com a LCP. Segundo ele, os supostos homens armados “entraram numa propriedade que eu jamais imaginei que fossem entrar”, renderam ele e sua esposa e o mantiveram “sob cárcere”.

A apresentação avançou para o dramalhão: “Ali, naquele dia, quando fizeram aquilo comigo, me mataram”. Mas a plateia de latifundiários não precisava se preocupar: “No dia 8 de agosto mataram um cara e pariram o outro no dia 9. Fui eu que tô aqui hoje”. A frase de efeito, do tipo ensaiada, foi o ápice do vídeo, divulgado nas plataformas digitais de Scheid.

O “novo” Scheid, segundo ele mesmo, acordaria diariamente pensando no que faria para “defender pessoas como vocês”, em referência aos latifundiários presentes, homens acostumados a proporcionar violência e toda sorte de ilegalidade contra posseiros em Rondônia. Logo depois, explicou como pretende defendê-los: “Como é que eu vou fazer pra pisar no pescoço de vagabundo como a LCP fez comigo?”.

‘Guerrilha em curso em Rondônia’: bolsonaristas tentam demonizar a LCP para acabar com o direito à luta pela terra – A Nova Democracia
Policial e militar bolsonaristas usam de operação do Bope que assassinou camponês em Rondônia para tentar criminalizar a LCP.

‘Cárcere de tortura, humilhação e medo’

Scheid já havia recitado o mesmo drama no Podcast Resenha Política, onde apareceu como pré-candidato ao Senado pelo Partido Liberal (PL). Com mais floreios, afirmou que passou “quase 20 horas num cárcere privado” por obra da LCP.

“Ali eu sofro um cárcere privado pesado de uma história que marcou a minha vida, marcou a memória da minha família. Um cárcere de tortura, um cárcere de humilhação, um cárcere praticado com o intuito único de ferir na alma e por medo, impor medo”, afirmou. No relato, Scheid disse ter sido “amarrado, despido, torturado” e ameaçado “psicologicamente, fisicamente durante a madrugada inteira”, causando incredulidade em que ouve a estória. Disse ainda que tudo teria ocorrido diante de “funcionário, mãe, filho, esposa”.

Nas gravações, Scheid não apresenta qualquer prova de suas acusações contra a LCP, nem mesmo que tenha ocorrido tais torturas por obra de outro agente. O latifundiário, contudo, aproveitou o relato para louvar a Polícia Militar de Rondônia (PM-RO), que realizou a “reintegração de posse” e devolveu a fazenda ao bolsonarista no dia seguinte. “Graças à honrosa Polícia Militar”, disse. Para ele, a PM-RO tem “um peso para a sociedade muito grande no ponto positivo” e seria “uma das mais confiáveis do Brasil”. Há controvérsias.

‘Fazenda invadida pela LCP’: Braguin choraminga por ex-NorBrasil e tenta criminalizar Área Tiago Campin dos Santos – A Nova Democracia
Ex-comandante da PM-RO publicou vídeo para defender a “Operação Dominus”, falsificar o caráter da Área Tiago Campin dos Santos e tentar ligar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) ao chamado “bando do Jed”.

Realmente, para latifundiários como Scheid, o serviço tenaz e subserviente das forças oficiais vem muito bem a calhar. Na Área Tiago Campin dos Santos, camponeses denunciam ameaças da PM-RO e paramilitares a soldo de latifundiários contra famílias, destruição de ponte construída coletivamente, ataques à balsa usada pelas famílias e tiros disparados para aterrorizar mulheres e crianças. Policiais de uma corporação que que aterroriza os pobres do campo também servem como seguranças privados de latifundiários como João Martins – sobrinho de “Galo Velho”, acusado formalmente de ser de uma organização criminosa para grilagem de terras no estado –, que admitiu, em entrevista ao AND, contratá-los para proteger seus patrimônios.

Ademais, o recente Tribunal Popular Contra os Crimes do Latifúndio em Rondônia, realizado em março deste ano, condenou uma série de outros delitos no estado, como a apropriação de terras públicas por fraude, violência e grilagem, além de responsabilizar coronéis da PM-RO por crimes contra camponeses. Dias depois, PF e MPF abriram investigação sobre o assassinato de oito trabalhadores rurais e lideranças camponesas, entre 2009 e 2016, bem como sobre a atuação de “milícias privadas” (paramilitares) do latifúndio no estado.

Reportagem especial de AND sobre a autodefesa camponesa das áreas camponesas que hoje ocupam a ex-fazenda NorBrasil, em Rondônia.

‘Isso é movimento social ou facção criminosa?’

Em nova rodada de assaques, a “imprensa lixo” O Observador reproduziu a gritaria do caudatário rondoniense do clã Bolsonaro, Scheid, segundo o qual a LCP “porta fuzil em Rondônia”. O bolsonarista perguntou: “Isso é movimento social?”. E respondeu ele próprio, colérico: “Isso é facção criminosa”. No mesmo berreiro, Scheid atacou os camponeses que lutam pela terra: “Mas estes vagabundos que vivem da invasão de propriedades, todos têm que é ‘puxar’ cadeia”. Irônico é que tal frase, disparada por Scheid, se levada “ao pé da letra”, conduziria à cadeia não os camponeses, mas sim os latifundiários ladrões de terras da União.

O alarido de Scheid acompanha a campanha da extrema direita latifundista para enquadrar a luta pela terra no vocabulário de “facções” e “terrorismo”. Em maio, o latifundiário Ronaldo Caiado, ex-dirigente do grupo paramilitar de extermínio União Democrática Ruralista (UDR), defendeu classificar Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “organizações terroristas” para viabilizar o emprego permanente das Forças Armadas reacionárias na Amazônia, sem decreto de Garantia da Lei e da Ordem, enquanto a PM-RO e seus delatores (alguns dos quais da falsa esquerda oportunista) normalizam a retórica da LCP como “organização criminosa ligada ao CV”, acusando-a de não ser movimento camponês, etc., no sonho podre de destruir a organização camponesa.

‘LCP enfrenta o aparato do Estado com armas de guerra’: ex-comandante da PM-RO ressurge das cinzas para atacar camponeses – A Nova Democracia
Em nota, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres (LCP) negou a autoria do ataque de 14 de abril à sede da fazenda NorBrasil. O ataque foi “orquestrado pela extrema direita latifundiária de Rondônia, com a participação do defenestrado comandante geral da PM, o matador de pobres Coronel Braguin, ainda assim ativo nos grupos de extermínio de camponeses e pobres”, no objetivo “de criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP”.

No Senado, tramitam medidas tipicamente fascistas, peças do arcabouço jurídico punitivo da contrarrevolução. Entre elas está o projeto apresentado por Eduardo Girão (Novo-CE), que dispensa a decretação de Garantia da Lei e da Ordem para mobilizar tropas contra o chamado “domínio de áreas urbanas ou rurais”, fórmula que coloca na mira ocupações camponesas, comunidades indígenas e quilombolas.

A ofensiva recebe a bênção da falsa esquerda oportunista no governo: além de declarar que “facções e milícias” praticam “terrorismo” e de afirmar que “qualquer colaboração internacional” para combatê-las será bem-vinda, o governo de Luiz Inácio (PT) propôs endurecimento penal contra grupos que supostamente “dominem territórios”. Não por acaso, serviçais do latifúndio em Rondônia, como o ex-comandante da PM-RO Régis Braguin, já tentam aplicar a mesma fórmula à LCP, acusando a organização camponesa de “controlar territórios” nas áreas tomadas do latifúndio.

‘LCP ataca fazenda com armas de guerra’, acusam PM-RO e imprensa reacionária rondoniense, em nova peça da campanha de demonização – A Nova Democracia
A LCP reafirmou, em seu último comunicado público: “Repetimos: enganam-se pensando que seus ataques vão parar a luta pela terra!

Amor platônico pelo capitão do mato

Scheid afirma que a suposta ação da LCP de 2018 foi sua porta de entrada no bolsonarismo. Segundo ele, um ex-assessor de Jair Bolsonaro entrou em contato para perguntar se o então candidato à Presidência poderia usar o caso na campanha.

“Ali nasceu o primeiro contato com o presidente Bolsonaro”, afirmou Scheid, em tom romântico, quase adolescente. Para o tiete, aquele telefonema de campanha virou uma espécie de certidão de batismo político. Desde então, ele se agarra ao episódio como quem exibe uma migalha de curiosa intimidade com o clã Bolsonaro.

Segundo ele, Bolsonaro pediu que relatasse o caso e enviasse imagens. “Ele usou isso em algumas campanhas”, vangloriou-se. Scheid diz que Bolsonaro explorava seu caso como exemplo de “superação” à violência no campo: “Esse caso aqui lá de Rondônia, esse cara aqui, quase mataram esse cara, é isso que eu defendo, que não aconteça mais”.

Bolsonaro também fez da LCP alvo de palanque. Em outubro de 2020, publicou imagens de confrontos entre camponeses e policiais em Rondônia e escreveu: “Tenho a minha opinião, qual a sua?”. A publicação serviu de senha para nova ofensiva reacionária contra a LCP. Em 1º de maio de 2021, diante de uma plateia formada por latifundiários e bois zebus, durante a abertura da 86ª ExpoZebu, voltou a atacar os camponeses pobres e a organização.

Desde então, Scheid passou a autointitular-se o “05” do clã Bolsonaro, tornou-se vice-presidente do PL em Rondônia e tenta converter sua fidelidade rastejante à família de bandidos em cacife político e eleitoral para o Senado. Recentemente, foi autorizado a visitar Bolsonaro na Papudinha, onde o ex-presidente genocida e golpista está preso, e apresenta-se como seu assessor.

Quando vieram a público os áudios e mensagens sobre as relações do clã Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, Scheid apressou-se a defender seus amores. Em maio, atacou os que chamou de “oportunistas” e “falsos bolsonaristas”, acusando-os de “correr da canoa” nos momentos de crise e depois tentar “reescrever a história”. O chilique ocorreu quando o caso Master expunha as relações de Flávio “Rachadinha” Bolsonaro com Vorcaro e o financiamento milionário de uma operação de propaganda eleitoral de extrema direita para reabilitar a imagem do capitão do mato.

Extrema direita acusa LCP de ‘novo ataque armado’ e tomada de latifúndio em Rondônia – A Nova Democracia
O herdeiro do latifúndio disse que a situação na região é grave, com a morte de quatro pessoas, entre elas o “gerente” do latifúndio e um “prejuízo que passa de R$ 100 milhões”. “Eles ficam dando tiro de fuzil toda noite. A gente não dorme mais”, disse.

Batalhas do Norte fizeram latifúndio tremer

A cruzada de Scheid contra a LCP recicla a mesma gritaria que tomou conta do latifúndio em 2021, quando os camponeses das Áreas Tiago Campin dos Santos, Dois Amigos e Ademar Ferreira enfrentaram a operação de guerra “Nova Mutum”. A ofensiva foi lançada pelo governo militar de Bolsonaro e generais, por meio da Força Nacional, e pelo governo de Rondônia, com a PM-RO, contra cerca de 800 famílias que vivem e produzem nas áreas. Mais de 3 mil homens foram mobilizados para desalojar as famílias numa operação que consumiu mais de R$ 1 milhão por dia para sustentar o cerco policial e militar contra os camponeses pobres.

As forças de repressão cercaram os acampamentos, atacaram famílias, destruíram casas e lavouras e buscaram impedir o abastecimento das áreas. Os camponeses resistiram com destruição de pontes e armadilhas para impedir o avanço das tropas, promoveram resistência política, enfrentaram a operação de guerra e retomaram seus lotes. Em 27 de novembro de 2021, as famílias retornaram às áreas de onde haviam sido expulsas.

LCP nega que camponeses executados pela PM-RO sejam da organização e denuncia ‘queima de arquivo’ – A Nova Democracia
Liga dos Camponeses Pobres rebate versão policial publicada pela “imprensa lixo” de Rondônia e acusa ação de encobrir esquema contra camponeses da Área Tiago Campin dos Santos.

Em maio deste ano, a campanha contra a Área Tiago Campin dos Santos voltou a se intensificar após a execução de dois camponeses pela PM-RO nas imediações da área. A LCP afirmou que os dois “não são e nunca foram da LCP” e denunciou o caso como “queima de arquivo” ligada ao chamado “bando do Jed”, ao ex-comandante da PM-RO Régis Braguin e ao superintendente do Incra-RO, Flávio.

Já em 1º de junho, uma decisão da 2ª Unidade de Conflitos Agrários de Porto Velho suspendeu a reintegração de posse coercitiva que ameaçava cerca de 400 famílias dos Acampamentos Tiago Campin dos Santos 1 e 2. A medida foi obtida após pedido de reconsideração da Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (Abrapo), e o conflito foi remetido à Comissão Regional de Soluções Fundiárias.

LCP responde a Bolsonaro: ‘Não vão conseguir parar a luta pela terra’ – A Nova Democracia
“Para os camponeses, sobreviver significa conquistar um pedaço de terra para trabalhar. Buscam tachar essa luta como guerrilha, pois bem, se assim quere

LCP responde: ‘Não vão conseguir parar a luta pela terra’

Em maio de 2021, antes das Batalhas do Norte, a Comissão Nacional das LCP divulgou uma nota em resposta aos ataques de Bolsonaro contra a luta pela terra. O texto destacou quem são os verdadeiros responsáveis pelo terror no campo: “Terroristas são os latifundiários ladrões de terra”, que agem com bandos de pistoleiros ou utilizam “as próprias forças policiais a seu serviço”, causando “verdadeiro terror no campo, cometendo toda sorte de crimes e atrocidades, assassinando impunemente camponeses e demais lutadores do povo”.

A nota afirmou que, para os camponeses pobres, sobreviver significa conquistar um pedaço de terra para trabalhar. Reafirmou que a LCP não é contrária à pequena e média propriedade, ao contrário, defende “a entrega das terras dos latifúndios para os camponeses pobres sem terra ou com pouca terra”. Ao mesmo tempo, denunciou a concentração fundiária, a grilagem e o roubo de terras da União, de indígenas, posseiros e camponeses em benefício dos grandes latifundiários.

LCP emite comunicado: ‘Os paramilitares bolsonaristas estão levando sua guerra covarde ao campo, é guerra o que eles vão ter!’ – A Nova Democracia
“Nós camponeses somos os palestinos do Brasil e lutamos contra um inimigo armado até os dentes; mas assim como o Povo Palestino, nossa luta é justa e venceremos inevitavelmente! Há exatos 75 anos, o povo chinês, em mais de 27 anos de guerra popular prolongada, derrotou três grandes inimigos que pesavam sobre o povo e a nação chinesa: o imperialismo, o capitalismo burocrático e o latifúndio feudal e semifeudal. Do mesmo modo, o povo palestino e o povo brasileiro, assegurarão a sua completa libertação, mesmo que a luta cobre muito tempo para se cumprir, nossa causa triunfará inevitavelmente!”, declara a LCP
anovademocracia.com.br

Em outubro de 2024, a LCP apontou que a reação latifundiária bolsonarista organiza bandos paramilitares financiados pelo latifúndio e amparados pelo “suporte militar das PMs e Polícias Civis”. O texto recordou que a extrema direita bolsonarista criou o “Invasão Zero” depois das derrotas impostas pela LCP em Rondônia e advertiu: “Esta horda paramilitar bolsonarista está levando sua guerra covarde ao campo, é guerra que eles vão ter!”.

Mais recentemente, em novembro de 2025, a organização respondeu à mesma cantilena ventilada hoje por Scheid. Afirmou que a LCP “não é organização criminosa, muito menos terrorista”, mas “organização classista e combativa dos camponeses pobres do Brasil”. Reafirmou a luta pela Revolução Agrária, pela entrega da terra aos camponeses pobres e pela autodefesa das massas diante da violência reacionária e terrorista do velho Estado.

Moraes revoga registro de CAC e manda apreender arsenal de Bolsonaro

Alexandre de Moraes mandou apreender armas registradas em nome de Jair Bolsonaro e revogou o porte e o registro de CAC do ex-presidente. A defesa terá 48 horas para entregar o armamento à Superintendência da Polícia Federal no Distrito Federal.

A decisão inclui a Glock 9 mm apreendida com o sargento do Exército Estácio Leite da Silva Filho durante uma blitz em Brasília. Bolsonaro admitiu à Polícia Civil ser dono da pistola e disse que mantinha a arma em casa porque havia “três mulheres” no imóvel onde cumpre prisão domiciliar.

A lista inclui pistolas Taurus .380 e .40, Glock 9 mm, Caracal 9 mm, Arex 9 mm e SIG Sauer 9 mm. Também aparecem carabinas/fuzis Caracal 5,56 mm e Springfield Armory 7,62 mm, além de espingardas Typhoon calibre 12 e Maestro Arms Company calibre 12.

Bolsonaro
O ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

A Glock é o item com maior peso simbólico na lista, tratada como a escolha número um da família. Bolsonaro já havia relatado publicamente um assalto sofrido em 1995, quando era deputado federal no Rio de Janeiro, em que teve uma pistola Glock levada.

Moraes manteve a prisão domiciliar humanitária de Bolsonaro, mas considerou incompatível a permanência de armas sob posse do ex-presidente. O ministro também advertiu que o descumprimento das cautelares pode levar à revogação do benefício e ao retorno ao regime fechado.

DCM

Lula manda recado a Flávio Bolsonaro: “eu quero saber o que você fez”

Michelle volta a ser alvo de ataques bolsonaristas após elogiar programa do governo Lula

Declaração sobre programa do MEC provocou reação de bolsonaristas e ocorre em meio à crise com Flávio Bolsonaro

Michelle Bolsonaro elogiou nesta sexta-feira (3) a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, lançada pelo governo federal, e acabou sendo alvo de críticas de apoiadores do bolsonarismo. Em publicação nas redes sociais, a ex-primeira-dama classificou a iniciativa do Ministério da Educação como um “sonho realizado”. As informações são da CNN Brasil.

Ela também afirmou que continua trabalhando por um Brasil “mais acessível” e parabenizou a comunidade envolvida com a política pública. O programa do Ministério da Educação busca assegurar a oferta, o acesso e a permanência de estudantes que utilizam a educação bilíngue para surdos.

Após a manifestação da ex-primeira-dama, parte da base bolsonarista reagiu negativamente nas redes sociais. De acordo com a apuração, deputados, senadores e outras lideranças do Partido Liberal (PL) passaram a compartilhar, em grupos de WhatsApp, uma figurinha de Michelle vestindo uma camisa do Partido dos Trabalhadores (PT).

Além disso, militantes direitistas divulgaram reportagens sobre o elogio ao programa acompanhadas de mensagens com acusações de “traidora”.

Crise interna no PL

O episódio ocorre em meio ao desgaste político entre Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na semana passada, a ex-primeira-dama publicou um vídeo em que afirmou ter recebido uma “punhalada” e tornou público o conflito que mantém há meses com o enteado.

Na mesma noite, Flávio respondeu às acusações de que teria desrespeitado e humilhado Michelle durante uma conversa telefônica. Em suas redes sociais, pediu desculpas publicamente à esposa de seu pai e afirmou estar “de coração aberto” para ela.

A disputa aprofundou divergências dentro do Partido Liberal, dividindo parlamentares entre apoiadores de Flávio e de Michelle. Em 30 de junho, a ex-primeira-dama anunciou sua saída do comando do PL Mulher, mantendo indefinida sua atuação no cenário interno da legenda.

Encontro com Valdemar Costa Neto

Nesta sexta-feira (3), Flávio Bolsonaro participou de um encontro com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, durante um seminário do partido realizado no Rio de Janeiro. De acordo com o jornalista Gustavo Uribe, da CNN Brasil, a conversa abordou a crise provocada pelo vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro.

Segundo a apuração, Valdemar defende uma reunião presencial entre Michelle e Flávio para tentar encerrar o impasse. No entanto, a ex-primeira-dama tem resistido à proposta.

Pastor do PL que pregava a moralidade é preso por torturar bebês e animais

Moraes revoga registro de CAC e manda apreender arsenal de Bolsonaro

‘LCP porta fuzil em Rondônia’: tiete bolsonarista Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra

Lula risca o chão: disputa será entre quem fez e quem destruiu

Na última cerimônia de inaugurações antes da proibição legal, presidente antecipa o eixo da campanha pela reeleição

O presidente Lula transformou esta sexta-feira, último dia antes do chamado “defeso eleitoral”, que proíbe sua presença em inaugurações até o fim da campanha presidencial, em uma supercerimônia de entregas nas áreas de educação, saúde e habitação.

Lula recordou o cenário de destruição em que se encontrava o país quando assumiu novamente o governo, em 2023, destacou a retomada de investimentos, especialmente naqueles três setores, e antecipou um dos eixos fortes de sua campanha: a comparação entre quem fez e quem destruiu o país.

Diante de um telão no Palácio do Planalto, Lula comandou à distância a abertura de dez novos campi de Institutos Federais, a entrega de 1.619 unidades do Minha Casa Minha Vida, a inauguração de um hospital regional em Pernambuco, de equipamentos de oncologia no Rio de Janeiro e em São Paulo e de dezenas de ambulâncias em diversas regiões do país.

Ele lembrou os cortes de orçamentos no governo passado e o abandono de programas como a Farmácia Popular e o Minha Casa Minha Vida, em contraste com sua retomada e com a criação do Pé de Meia e do Aqui Tem Especialistas, para ficar em poucos exemplos.

“Chegamos na hora da verdade”, disse Lula. “Nessa campanha cada um vai ser medido pelo que fez e pelo que deixou de fazer”.

Ficou claro que a campanha da reeleição não vai se limitar ao destaque dos feitos de Lula no governo. Vai reviver os pesadelos do desgoverno Bolsonaro, como a fila do osso, o desemprego, a destruição de programas sociais e, certamente, as 700 mil mortes na pandemia.

No discurso desta sexta, Lula afirmou que pelo menos metade dessas vidas poderiam ter sido poupadas se o governo anterior não tivesse “negado a vacina e negado a ciência”.

Apontar para o futuro é sempre necessário numa campanha eleitoral; é o que dizem os manuais da política. No caso brasileiro, recordar o pesadelo também é essencial. Para que não se repita

Do Brasil 247

O xadrez na minha vida

Faz muito tempo que não jogo, muito tempo, mas, penso agora que o jogo foi decisivo para ser quem sou.

Se você continuar a ler, vou te contar o início dessa parada: a minha história junto com o xadrez, que, em si, é história pura.

Não sei o que me trouxe a compulsão para escrever. Não vejo um dia ou um fato específico. Sei que às vezes é só um fardo, por exemplo, quando quero dormir e a ideia não sai da cabeça – ou quando estou conversando ou em aula e não posso parar para anotar um assunto qualquer que brotou na cabeça. Já fiz isso, algumas vezes: parei de falar e fiz uns garranchos.

Talvez o histórico da família, talvez a querida Tia Cármen (bibliotecária de formação) nos estimulando numa feliz competição para escrevermos um pequeno conto, numa tarde, em São Paulo. Talvez tudo isso junto, com algo mais.

O que me lembro, parecido nessa história “duas coisas que me educaram para a escrita”, é de uma infância doída, indo e vindo ao Hospital do Servidor Público, na capital, aos cinco anos.

Igual à história “duas coisas que me…”, foi literalmente doído, depois, quando me quebrei sozinho também.
Porém, não tive uma infância infeliz, a imaginação não permitiu. Mesmo no hospital.

Aos seis anos aprendi a jogar xadrez, com gesso até o peito. Um enfermeiro ensinou a todas as crianças daquele pavilhão, e eram muitas, essa nobre arte da logística e da conquista de território: xadrez é política e poder. Não é à toa que tem Rei, Rainha, bispo e torre – e peões. Aliás, xadrez também é luta de classes – com seus peões descartáveis.

O lado mais legal dessa história, mais criativo, muito mais, está no “como” aquele enfermeiro fazia as peças do xadrez. Cada quarto de crianças tinha seu conjunto.

Ele reutilizava, depois de totalmente higienizadas, seringas plásticas. Cortava para que se parecessem com Reis ou cavalos, Rainhas ou peões.

Por causa das idas e vindas, fui alfabetizado aos 8 anos. Mas, com tantas aventuras de Reis e Rainhas na cabeça, não percebi que o tempo tinha passado. Eu estava jogando, brincando, viajando. As crianças jogaram e brincaram, construindo seus próprios castelos imaginários e no tabuleiro.

Fui alfabetizado em dois meses, novembro e dezembro, quando estava em casa, mas com tantas histórias tudo já parecia velha companhia.

Acho que o enfermeiro enxadrista é o culpado da minha escrita.

Dedico essa breva crônica a ele, e a todos que fizeram ou fazem a vida de crianças serem uma feliz e interminável aventura.

De lá pra cá, escrevendo isso no WhatsApp, acho que posso dizer: a vida é um eterno jogo de xadrez. E nesse jogo começa a ganhar quem cuida e protege melhor os seus peões. Contra bispos, Reis e Rainhas. E assim o xadrez vira Sociologia e História.

@viniciocarrilhomartinez

Ação na PGR vai pedir atuação “célere e contundente” de André Mendonça contra Flávio Bolsonaro no caso Master

Os deputados Rogério Correia (PT-MG), vice líder do PT na Câmara, e Lindbergh Farias (PT-RJ) vão protocolar uma ação junto ao Procurador-Geral da República (PGR) Paulo Gonet pedindo que ele cobre uma atuação “célere e contundente” do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após a revelação de que o senador manteve encontros recorrentes com Daniel Vorcaro.

“Há provas como mensagens, áudios e visitas ao banqueiros, além do depósito dos milhões de dólares em um fundo administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro nos EUA. As provas são fartas e é necessário que aja uma ação contundente e célere de André Mendonça sobre Flávio Bolsonaro, que não vimos até agora”, disse à Fórum o vice líder do PT na Câmara.

 

A análise dos governistas e de fontes da PF é que está havendo uma blindagem de Mendonça sobre o grupo político de sua origem, ligado ao clã Bolsonaro, na relatoria das ações do Caso Master.

No entanto, há um consenso de que, após a ação contra Wagner, haverá constrangimento se Mendonça for provocado e negar uma ação da PF contra Flávio Bolsonaro, visto que as provass contra o senador são muito mais contundentes e os valores, comprovadamente transferidos pelo banqueiro, bem mais vultosos.

Uma suposta negativa de Mendonça em agir contra Flávio Bolsonaro abriria espaço para um pedido de suspeição do ministro, que foi alçado à Suprema Corte por Jair Bolsonaro após substituir Sergio Moro no comando do “super” Ministério da Justiça.

Homem de confiança do ex-governo Bolsonaro, Mendonça assumiu o posto após Sergio Moro deixar o comando da pasta atirando, acusando Jair de interferência na Polícia Federal justamente para proteger o filho Flávio nas investigações do caso de corrupção das rachadinhas.

Após a briga com o clã, Moro submergiu e acabou reatando com Bolsonaro nas eleições contra Lula em 2022. A reaproximação resultou em uma nova parceria, com o ex-juiz se filiando às hostes do PL para ser candidato ao governo do Paraná com apoio de Flávio Bolsonaro.

Ataque de nervos

Neste domingo, Flávio Bolsonaro defendeu a postura de Mendonça, que vem sendo acusado de blindá-lo nas investigações, em ataque à jornalista Eliane Cantanhede, que cobrou o ministro de avalizar uma ação da Polícia Federal (PF) contra o filho “01” de Jair Bolsonaro em artigo no Estadão.

“Não há absolutamente nada de errado. Pelo seu raciocínio, deveria haver busca e apreensão em cima dos donos Estadão (com o que eu não concordo)”, disparou Flávio, que voltou a mentir dizendo que “possibilidade de crime só há na relação do líder do governo e fiel escudeiro de Lula com o Augusto Lima e o Master, e não no caso do filme”.

No entanto, o senador ignorou as novas denúncias e não se explicou sobre os diversos encontros com Vorcaro, insistindo na mentira de que só manteve contato com o banqueiro em razão do suposto patrocínio ao filme sobre o pai.

Mentiras fazem derreter nas pesquisas

Após Silas Malafaia abandonar Flávio Bolsonaro (PL-SP), dizendo que não passa a mão na cabeça de “corrupto de direita“, foi a vez do bispo Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, largar a mão do filho “01” de Jair Bolsonaro (PL) e defender abertamente o nome de Michelle Bolsonaro para substituir o candidato como representante do clã na chapa presidencial.

Rodovalho, que visitou Bolsonaro na prisão e substituiu Malafaia como conselheiro do ex-presidente após rusgas com o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo (Advec), explicou o derretimento de Flávio nas pesquisas após o caso Master pelas mentiras ditas pelo senador sobre a relação com Daniel Vorcaro.

“Acho que foram duas questões. A primeira delas, o vazamento da conversa com o Daniel Vorcaro, e ele ter dito antes que não tinha nenhuma relação com o banqueiro. Está custando muito caro para o Flávio isso. O evangélico pensa: às vezes é melhor votar num candidato que não é cristão do que um que diz ser, mas não mantém a coerência”, afirmou ao ser indagado por Thiago Prado sobre as pesquisas, em entrevista ao jornal O Globo nesta sexta-feira (19).

Rodovalho, que já aclamou Michelle como “grande líder” após visita ao ex-presidente, disse que pior que a revelação da relação íntima com Vorcaro, foram as mentiras ditas pelo senador sobre o caso.

“Evangélico é intransigente com mentira. A pior coisa que tem é uma coisa ser dita e a realidade ser outra. Ele deveria ter falado sobre o assunto desde o início”, afirmou, ressaltando que se o dinheiro é privado e para o filme não teria razões para mentir.

O bispo defendeu que Flávio Bolsonaro abra “imediatamente as contas de Dark Horse para tentar estancar a debandada evangélica e tentar reverter o quadro diante das mentiras em série.

“Ele está perdendo a confiança do segmento, as pessoas estão achando que, se mentiu desta vez, pode mentir na próxima. O copo de cristal trincou, e ele vai precisar reconhecer isso. Mostrar arrependimento, pedir desculpas. Não dá para ficar camuflando o assunto, achando que o tempo vai fazer os evangélicos esquecerem porque o Lula tem mais escândalos”, disse.

LEIA TAMBÉM

Revista Forum

Lula convoca ministros para discutir situação de Jaques Wagner e Planalto pressiona por troca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a calcular o impacto político da operação da Polícia Federal contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado. Ao longo desta quinta-feira (18), Lula conversou com ministros palacianos no Palácio da Alvorada para tratar dos efeitos da nova fase da Operação Compliance Zero, que mira suspeitas envolvendo o Banco Master.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, segundo a CNN Brasil, uma ala avalia que a operação prejudica a imagem do governo federal e afeta diretamente a articulação política no Senado. Esse grupo defende que Wagner seja substituído da liderança do governo na Casa. Por enquanto, porém, prevalece a avaliação de que Lula só deve tomar uma decisão após uma conversa pessoal com o parlamentar e outros aliados.

Lula falou por telefone com Jaques Wagner ainda na quinta-feira, mas auxiliares afirmam que o presidente prefere aguardar uma reunião presencial antes de deliberar sobre o assunto. Como o petista terá compromissos no Sudeste nos próximos dias, o encontro deve ficar para a próxima semana.

Interlocutores do presidente dizem que o Planalto já estava preparado para responder a questionamentos sobre possíveis conexões do PT baiano com o caso Banco Master. A operação contra Wagner, no entanto, surpreendeu integrantes do governo.

Jaques Wagner e familiares foram alvos de busca e apreensão. O senador é suspeito de ter recebido vantagens indevidas do Banco Master. Em nota, ele nega ter atuado em favor desta ou de qualquer outra instituição financeira.

Senador Jaques Wagner. Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

Após a operação, o PT alinhou o discurso interno. A principal orientação é individualizar eventuais responsabilidades de Wagner ou de qualquer outro aliado citado nas investigações, tentando preservar Lula, que disputa a reeleição neste ano.

Segundo apuração da CNN, o partido pretende manter o caso Banco Master em sua comunicação política e nas redes sociais. A estratégia será destacar que Lula deve enfrentar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na corrida presidencial e que o adversário também aparece ligado a personagens investigados no caso.

Nos próximos dias, parlamentares e dirigentes petistas devem intensificar publicações sobre a visita de Flávio a Daniel Vorcaro e sobre o áudio em que o senador cobra recursos do banqueiro para o filme “Dark Horse”. O partido também deve lembrar que Flávio chamou Vorcaro de “mermão”.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que Wagner é “depositário de confiança”, mas declarou apoio às apurações sobre o Banco Master. “Os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados. Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que o Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência”, escreveu.

O secretário de comunicação do PT, Éden Valadares, também reforçou a “confiança” do partido em Wagner. Ele afirmou que “uma tentativa de equiparar relações e falsamente criar a ideia de que o escândalo atinge igualmente todos os campos políticos brasileiros é inócua”.

DCM

Se Jaques Wagner é mesmo amigo de Lula, é ele quem tem que pedir para sair

O atual líder do governo não tem o direito de colocar em risco a reeleição do presidente Lula e o futuro do Brasil em nome de interesses pessoais

Por Leonardo Attuch

O senador Jaques Wagner tem todo o direito à presunção de inocência. Esse é um princípio fundamental do Estado Democrático de Direito e deve valer para todos, inclusive para adversários políticos. Ele deve ter o direito de se defender, de apresentar suas explicações e de demonstrar, se for o caso, que não cometeu qualquer irregularidade no episódio envolvendo o Banco Master.

Mas uma coisa é a esfera jurídica. Outra, completamente diferente, é a esfera política. E, politicamente, a permanência de Jaques Wagner como líder do governo Lula no Senado se tornou insustentável.

A operação da Polícia Federal contra Wagner e seus familiares produziu um desgaste evidente para o governo. Não apenas porque Wagner é um senador do PT. Não apenas porque é um aliado histórico de Lula. Mas porque ele ocupa uma função estratégica: como líder no Senado, fala em nome do governo, negocia com bancadas, articula votações e representa o presidente em uma das Casas mais importantes do Congresso Nacional.

Nesse cargo, não basta ser inocente. É preciso também não se tornar um problema político para o governo que se representa. E Wagner, neste momento, virou um problema político para Lula.

Se Jaques Wagner é, de fato, amigo de Lula, é ele quem deveria tomar a iniciativa de entregar o cargo de líder do governo no Senado. Não para admitir culpa. Não para abrir mão de sua defesa. Não para se submeter a uma condenação antecipada. Mas para evitar que o presidente Lula, o governo federal e o projeto político que hoje enfrenta a extrema direita sejam arrastados para uma crise que não lhes pertence.

A manutenção de Wagner na liderança virou um presente para a oposição. É tudo o que os adversários de Lula desejam: um líder do governo sob investigação, sendo obrigado a se explicar, enquanto o Planalto tenta sustentar sua articulação política no Congresso e preparar a disputa pela reeleição.

Para quem apoia Lula, como é o caso do Brasil 247, essa não pode ser uma questão pessoal. O Brasil é muito mais importante do que Jaques Wagner. A reeleição de Lula é muito mais importante do que a permanência de qualquer aliado em qualquer cargo. E a defesa do atual projeto de desenvolvimento e inclusão social não pode ficar refém da biografia de ninguém.

Wagner tem uma história relevante. Foi governador da Bahia, ministro, dirigente importante do PT e interlocutor de Lula por décadas. Mas justamente por conhecer a dimensão da responsabilidade que carrega, deveria compreender que há momentos em que o único gesto possível é sair.

Sair para preservar o governo. Sair para não criar novos constrangimentos. Sair para não dar munição diária à oposição. Sair para permitir que Lula reorganize sua liderança no Senado com alguém que não esteja no centro de uma crise policial e política.

Diante do caso Wagner, o governo Lula, é preciso reconhecer, tem um ponto importante a seu favor neste caso: a Polícia Federal atua com autonomia. Não há blindagem política. Não há interferência indevida. Não há tentativa de sufocar investigação. Isso diferencia o atual governo do antecessor, de Jair Bolsonaro, e reforça o compromisso institucional com a apuração dos fatos.

Mas justamente por isso Wagner deveria compreender que sua permanência na liderança se tornou ainda mais difícil. Se a Polícia Federal tem autonomia para investigar, o governo também precisa ter autonomia política para se proteger dos efeitos de uma investigação que atingiu seu líder no Senado.

O PT tenta, corretamente, individualizar responsabilidades. Se houver qualquer revelação envolvendo Wagner ou qualquer outro aliado, a responsabilidade deve ser de quem eventualmente praticou atos irregulares, não do presidente Lula. Mas essa estratégia só será convincente se vier acompanhada de gestos políticos claros.

Não basta dizer que o caso é individual se o investigado continua ocupando uma posição de representação direta do governo.

Também é correto lembrar que o caso Banco Master atinge fortemente o campo bolsonarista, especialmente pelas relações de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro e pelas cobranças relacionadas ao filme Dark Horse. É legítimo que o PT explore essas conexões e mostre à sociedade onde estão as relações mais comprometedoras no escândalo. Mas isso não elimina o problema Wagner. Uma coisa não anula a outra.

Flávio Bolsonaro deve dar explicações sobre suas relações com Vorcaro. Hugo Motta deve dar explicações sobre o empréstimo de R$ 22 milhões pedido à cunhada. Mas Jaques Wagner também precisa entender que, neste momento, sua presença na liderança do governo prejudica o presidente Lula. E prejudicar Lula, neste momento histórico, significa prejudicar o Brasil.

O país vive uma disputa decisiva. De um lado, está a tentativa de reconstrução democrática, de defesa da soberania nacional, de retomada de políticas sociais e de reposicionamento do Brasil no mundo. De outro, está a extrema direita, que já demonstrou desprezo pela democracia e segue tentando voltar ao poder com Flávio Bolsonaro.

Nesse contexto, não há espaço para vaidades pessoais, apego a cargos ou argumentos baseados em amizade. Se Wagner é amigo de Lula, deve demonstrar esta amizade de forma concreta. E, neste momento, ajudar Lula significa sair com dignidade. Sair para não colocar em risco um projeto político muito maior do que ele.

O sentimento de muitos apoiadores do presidente é claro: Wagner deve entregar o cargo. Não porque esteja condenado. Não porque tenha perdido seus direitos. Mas porque a política exige responsabilidade, senso de oportunidade e capacidade de colocar o coletivo acima do interesse individual.

O Brasil é maior do que Wagner. O projeto representado pelo presidente Lula é maior do que Wagner. E a reeleição é decisiva demais para ser colocada em risco por um constrangimento que pode e deve ser resolvido com um gesto simples: pedir para sair.

Se Jaques Wagner é mesmo amigo de Lula, ele tem a obrigação de pedir para sair. pic.twitter.com/Ugsdvw3i3C

Do Brasil 247

Em proposta de delação, Vorcaro diz ter pago US$ 30 milhões a Alcolumbre

Ex-banqueiro afirma que valor teria sido depositado em conta no exterior

 O escândalo envolvendo o Banco Master ganhou um novo capítulo com as recentes revelações atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso há cerca de três meses e em negociação para firmar um acordo de delação premiada. Segundo a revista Veja, a proposta cita supostas relações entre o ex-controlador da instituição financeira e figuras de destaque da política nacional e do Judiciário.

A proposta de colaboração, porém, foi rejeitada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (11). A justificativa foi de que o depoimento do ex-controlador do Banco Master não trouxe novidades à investigação nem indicou outros envolvidos nos crimes investigados.

Acusação envolve Davi Alcolumbre

De acordo com a reportagem, um dos relatos apresentados pelo ex-banqueiro envolve o presidente do Congresso Nacional, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Segundo Vorcaro, teria sido realizado um pagamento de 30 milhões de dólares ao parlamentar, o equivalente a cerca de R$ 155 milhões. O ex-controlador do Banco Master afirma que o valor teria sido depositado em uma conta no exterior em troca de apoio a interesses da instituição financeira.

A operação, ainda de acordo com o relato, teria sido intermediada por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. As alegações integram parte da proposta de colaboração apresentada às autoridades,

Judiciário também aparece nos relatos

As declarações do ex-banqueiro não se limitam ao meio político. Segundo a Veja, Vorcaro também mencionou integrantes do Judiciário que teriam recebido pagamentos milionários ou atuado em favor dos interesses do Banco Master em momentos decisivos para a instituição.

Um dos relatos menciona um suposto pagamento de R$ 15 milhões efetuado por Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado pelas investigações como operador financeiro de transações consideradas ilegais.

O ex-banqueiro também teria prometido detalhar a atuação de outro integrante do Judiciário que, segundo ele, atuou em defesa dos interesses do banco quando a instituição enfrentava risco de liquidação pelo Banco Central.

Impasse sobre a delação premiada

As revelações surgiram em meio às negociações para um acordo de colaboração premiada com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República. As duas primeiras propostas apresentadas pela defesa foram rejeitadas pelos investigadores, que consideraram as informações insuficientes ou sem elementos novos relevantes para o avanço das apurações.

Os advogados de Vorcaro sustentam, porém, que algumas denúncias teriam sido descartadas sem análise adequada e afirmam possuir provas para sustentar os relatos apresentados.

STF acompanha o caso

Relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça não comentou especificamente as acusações. Segundo interlocutores ouvidos pela reportagem, o magistrado tem defendido que as investigações sejam conduzidas com “independência, imparcialidade e de forma não seletiva”. A defesa de Vorcaro afirma ter levado ao Supremo questionamentos sobre a condução das negociações para a delação premiada.

Considerado um dos maiores escândalos financeiros do país, o caso Banco Master envolve um prejuízo estimado em mais de R$ 50 bilhões. As investigações já revelaram relações da instituição com diferentes agentes públicos e autoridades políticas, mas especialistas ressaltam que os relatos apresentados em acordos de colaboração precisam ser acompanhados de provas para produzir efeitos judiciais.

Do Brasil 247

Vai ter censura? Lula abre 10 pontos para Flávio Bolsonaro em 1° turno e vence todos no 2°, diz Quaest

Pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na liderança do primeiro turno da disputa presidencial, com 39% das intenções de voto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece em segundo lugar, com 29%.

O levantamento é o primeiro divulgado pela Quaest desde a revelação de diálogos em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso por lavagem de dinheiro e fraudes financeiras, para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A pesquisa AtlasIntel, que também mediu o impacto do escândalo sobre a campanha de extrema-direita, foi censurada pelo ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A pesquisa também ocorre depois de Flávio se reunir com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Washington.

Na rodada anterior, divulgada em maio, Lula também tinha 39%, enquanto Flávio registrava 33%. O cenário, porém, não é idêntico: em maio, a pesquisa testava 10 pré-candidatos; agora, são 13 nomes. Pela primeira vez, a Quaest incluiu o deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa.

Depois de Lula e Flávio, aparecem o fundador do MBL, Renan Santos (Missão), e o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), ambos com 3%. Aécio Neves e o ex-governador Romeu Zema (Novo) pontuam com 2% cada. Augusto Cury (Avante), Joaquim Barbosa (DC) e Samara Martins (UP) têm 1% cada.

Cabo Daciolo (Mobiliza), Edmilson Costa (PCB) e Heró Bezerra (PRTB) não pontuaram. Brancos, nulos e eleitores que dizem não votar somam 9%, ante 10% em maio. Os indecisos subiram de 5% para 10%.

Créditos na imagem

Segundo turno

Nos cenários de segundo turno, Lula aparece numericamente à frente dos adversários testados. Contra Flávio Bolsonaro, o petista marca 44%, ante 38% do senador. Brancos, nulos e eleitores que não pretendem votar somam 14%, e 4% estão indecisos.

Contra Zema, Lula tem 45%, diante de 35% do ex-governador. No cenário contra Caiado, o presidente também aparece com 45%, contra 35% do ex-governador de Goiás. Na simulação contra Renan Santos, Lula registra 45%, e o empresário tem 31%.

Para Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional e Comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o cenário é de otimismo para o campo da esquerda. Ele avaliou as vantagens nos quatro cenários como um indicativo de que a vitória petista “é logo ali”.

A pesquisa também mediu a avaliação do governo Lula. Segundo a Quaest, 48% desaprovam a atuação do presidente, enquanto 47% aprovam. A gestão é considerada ótima ou boa por 34% dos entrevistados, regular por 26% e ruim ou péssima por 38%.

Outro fator no cenário político foi a decisão do governo estadunidense de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas e impor uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. As duas medidas foram criticadas por Lula.

A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos. A Quaest ouviu 2.004 pessoas entre os dias 5 e 8 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número BR-07661/2026.

O instituto também perguntou sobre a firmeza do voto. Para 63% dos entrevistados, a escolha do candidato é definitiva. Outros 36% afirmaram que ainda podem mudar de ideia até a eleição.

DCM

PT lança carta a evangélicos, critica manipulação da fé e busca ampliar diálogo com igrejas

O Partido dos Trabalhadores (PT) lançou nesta segunda-feira (8), em Brasília, uma carta aberta direcionada ao público evangélico, em uma iniciativa que busca fortalecer o diálogo com igrejas e fiéis em meio ao cenário eleitoral de 2026.

O documento foi apresentado durante o 4º Encontro Nacional do Núcleo Evangélico do Partido dos Trabalhadores e traz reflexões sobre temas sociais, democracia e ações do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pretende disputar a reeleição.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a carta representa um aceno especialmente a setores neopentecostais e procura aproximar valores da fé cristã de pautas defendidas pelo partido.

O texto aborda questões como combate à violência contra a mulher, defesa da democracia, proteção social e enfrentamento da desinformação. Ao mesmo tempo, evita temas que historicamente geram divergências entre parte do eleitorado evangélico e setores da esquerda, como direitos da população LGBTQIA+, questões de gênero e a descriminalização do aborto.

Em um dos trechos centrais, a carta critica o uso político da religião e faz referência a passagens bíblicas dos livros de Isaías, Tiago, Mateus, Efésios e Pedro.

“Rejeitamos toda tentativa de transformar a religião em instrumento de manipulação política, e denunciamos aqueles que usam do Evangelho como negócio”, afirma o documento.

A carta também manifesta preocupação com a disseminação de notícias falsas e discursos de ódio, defendendo que a religião deve ser um instrumento de união social.

“A religião não deve ser utilizada para dividir o povo brasileiro, mas para promover esperança, solidariedade e compromisso com o bem comum”, destaca outro trecho.

Evangélicos e política

O documento ressalta ainda que os evangélicos não constituem um grupo político homogêneo e afirma não ter a intenção de representar todas as denominações religiosas existentes no país. A proposta apresentada pelos organizadores é associar a fé cristã a pautas como justiça social, proteção das populações vulneráveis e reforma agrária.

De acordo com integrantes do núcleo evangélico petista, essas bandeiras estariam alinhadas aos ensinamentos de Jesus e à tradição evangélica.

A aproximação com o eleitorado evangélico é considerada estratégica para o PT. Nas últimas eleições presidenciais, pesquisas de intenção de voto mostraram vantagem recorrente de candidatos ligados ao campo bolsonarista entre os eleitores desse segmento religioso, tornando o grupo um dos maiores desafios eleitorais para a legenda.

Edinho Silva elogia Lula

O encontro realizado na capital federal teve como tema “Mishpat: Fé, Justiça, Democracia e as Eleições 2026”. A palavra “Mishpat”, de origem hebraica, pode ser traduzida como “justiça”.

Durante o evento, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, fez elogios à relação do presidente Lula com a comunidade evangélica.

“O presidente que mais de forma efetiva respeitou a comunidade evangélica foi o presidente Lula. Nenhum presidente fez tanto para reconhecer a comunidade evangélica quanto o presidente”, declarou.

Janja critica Silas Malafaia

Também presente ao encontro, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, criticou o pastor Silas Malafaia, um dos principais apoiadores políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro e integrante da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Ao comentar declarações feitas por Malafaia em redes sociais, Janja respondeu:

“Eu também não chamo ele [Malafaia] de pastor. Ele teve a cara de pau de ir em uma rede social e falou que eu estava conversando com mulheres insignificantes. Insignificante é ele, porque toda mulher para mim é importante.”

A manifestação ocorreu em meio às discussões sobre o papel das lideranças religiosas no debate político nacional e reforçou o tom de confronto adotado por integrantes do governo e do PT em relação a figuras influentes do campo conservador evangélico.

Estratégia para 2026

O lançamento da carta ocorre em um momento de intensificação das articulações políticas visando as eleições presidenciais de 2026. Ao buscar aproximação com lideranças e fiéis evangélicos, o PT tenta reduzir resistências históricas dentro de um dos maiores grupos religiosos do país e ampliar sua presença em um segmento considerado decisivo para o resultado eleitoral.

O documento aposta em temas como democracia, solidariedade, combate à desigualdade e valorização da fé como elementos de convergência entre a atuação política do partido e parte da comunidade evangélica brasileira.

Do Brasil 247

PF deve rejeitar nova delação de Daniel Vorcaro

Polícia Federal avalia que nova proposta de Daniel Vorcaro não traz fatos inéditos e deve recusar colaboração pela segunda vez

A Polícia Federal deve rejeitar a nova proposta de delação premiada apresentada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por avaliar que os termos enviados na semana passada não acrescentam elementos relevantes à investigação. A decisão deve ser comunicada aos advogados ainda nesta semana, possivelmente nesta terça-feira (9), segundo Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.

Será a segunda vez, em menos de um mês, que a PF recusa uma tentativa de colaboração de Vorcaro. Em maio, a primeira proposta já havia sido considerada insuficiente pelos investigadores, que apontaram ausência de fatos novos e a omissão de informações que já eram conhecidas pelas autoridades.

Na nova tentativa, Vorcaro teria apresentado detalhes sobre situações envolvendo políticos e autoridades. Para os investigadores, no entanto, o material continuaria sem indicar novidades concretas em relação ao que já foi apurado e também não apontaria crimes atribuídos a parceiros do ex-banqueiro.

Autoridades avaliam que a estratégia de Vorcaro pode estar ligada a uma tentativa de ganhar tempo. A leitura entre integrantes da investigação é que o ex-banqueiro estaria aguardando sinais do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre uma eventual flexibilização das medidas impostas contra ele e seus familiares.

O tema ganha relevância em uma semana em que o Supremo deve retomar o julgamento sobre a manutenção da prisão de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro. A decisão da Corte é acompanhada de perto pela defesa e pelas autoridades envolvidas no caso.

Apesar da nova rejeição, a recusa da PF não impede que Vorcaro apresente outra proposta de colaboração no futuro. Pela legislação, investigados podem voltar às autoridades com novos termos caso tenham informações consideradas relevantes para o avanço das apurações.

Na prática, porém, integrantes da PF avaliam que a insistência em propostas sem elementos inéditos tende a ter pouco efeito sobre a situação do ex-banqueiro. Um membro da corporação afirmou que “ficar nesse vai e vem” não deve contribuir para melhorar o quadro enfrentado por Vorcaro.

A Procuradoria-Geral da República também estaria insatisfeita com os novos termos apresentados pelo dono do Banco Master. O órgão, contudo, tem adotado postura distinta da PF: em vez de recusar formalmente a delação, mantém as negociações abertas na expectativa de que a proposta seja aprimorada.

Do Brasil 247

O medo de aliados de Flávio Bolsonaro para a próxima pesquisa Quaest

A nova pesquisa Genial/Quaest sobre a disputa presidencial de 2026 será divulgada a partir de quarta-feira (10) sob forte expectativa entre partidos e aliados dos principais pré-candidatos. O levantamento é tratado nos bastidores como um dos principais termômetros da corrida ao Planalto, ao lado do Datafolha, e deve medir o impacto de temas recentes sobre o cenário eleitoral.

A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 eleitores entre sexta-feira (5) e segunda-feira (8).

Segundo o Globo, a avaliação reservada entre assessores de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é de que o senador pode registrar uma ligeira queda em comparação com a rodada de maio, ainda sob efeito do novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil. Também há expectativa de pequena alta de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos, sem alteração relevante no desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O levantamento será divulgado após as revelações sobre a relação entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A Quaest vai medir a percepção dos eleitores sobre áudios e mensagens envolvendo o senador, além da visita feita por ele à casa do banqueiro e dos repasses de R$ 61 milhões para o filme “Dark Horse”, produção sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Outro tema incluído na pesquisa será o encontro de Flávio Bolsonaro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O instituto também perguntará sobre as medidas anunciadas pelo governo estadunidense em relação ao Brasil, incluindo a inclusão do PCC e do Comando Vermelho na lista de organizações terroristas e a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros.

Pela primeira vez, a Quaest testará o nome do deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG) entre os possíveis candidatos à Presidência. O tucano conta com apoio do PSDB e do Cidadania para uma eventual candidatura ao Palácio do Planalto.

O levantamento também trará simulações de primeiro e segundo turno. Contra Lula, serão testados Flávio Bolsonaro, o empresário Renan Santos, do Missão, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD).

Na pesquisa anterior da Quaest, divulgada em 13 de maio, Lula liderava o primeiro turno com 39% das intenções de voto. Flávio aparecia em segundo, com 33%. Caiado e Zema marcavam 4% cada, Renan Santos tinha 2%, enquanto Augusto Cury (Avante), Cabo Daciolo (Mobiliza) e Samara Martins (UP) registravam 1% cada. Aldo Rebelo (DC) e Hertz Dias (PSTU) não pontuaram.

Na mesma rodada, 5% dos entrevistados estavam indecisos e 10% declararam voto branco, nulo ou disseram que não votariam. Em abril, Lula tinha 37%, enquanto Flávio registrava 32%, o que indicava oscilação positiva dos dois nomes na comparação mensal.

No segundo turno, Lula e Flávio apareceram tecnicamente empatados em maio. O petista marcou 42%, contra 41% do senador. Contra Zema, Lula tinha 44% a 37%. Contra Caiado, o placar era de 44% a 35%. No cenário contra Renan Santos, Lula aparecia com 45%, diante de 28% do empresário.

A nova rodada deve indicar se a crise envolvendo Vorcaro, o filme sobre Bolsonaro e as medidas de Trump contra o Brasil alteraram a disputa ou se o quadro permanece próximo ao registrado em maio. Nos bastidores, partidos aguardam os números para recalibrar discursos, alianças e estratégias de comunicação.

DCM

Flávio Bolsonaro, “irmão” de Vorcaro, faz campanha na Marcha para Jesus ao lado de André Mendonça, relator do caso Master; vídeo

Incluído na segunda proposta de acordo de delação do “irmão” Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro falou em “guerra espiritual” e classificou governo Lula como “mundo do mal”. Relator do caso Master, Mendonça pediu “sabedoria para fazer justiça a todos”.

Incluído na segunda tentativa de acordo de delação premiada do “irmão” Daniel Vorcaro, que destinou mais de 10 milhões de dólares ao clã supostamente para financiar o filme Dark Horse, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez um discurso em tom de campanha ao lado do ministro André Mendonça, relator do escândalo do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na Marcha para Jesus, em São Paulo, nesta quinta-feira (4).

Em curto discurso, anunciado pelo bispo Estevam Hernandes – que já foi preso nos EUA e respondeu com a esposa, bispa Sônia, por crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e estelionato no Brasil -, Flávio falou sobre “guerra espiritual”, em um recado direto sobre as eleições aos milhares de evangélicos presentes no ato.

“Bom dia, São Paulo, povo abençoado de Deus. Vamos orar pelo nosso Brasil. Essa guerra é espiritual e hoje é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo do mal que vai ser expulso do governo desse Brasil esse ano”, afirmou o senador, que costuma dizer que ele está com Deus e “Lula com o diabo”.

Com camisa polo da marca Lacoste, com emblema da Marcha, usada pela nata do evento, Flávio deu entrevista ao canal do Youtube que transmitia o ato.

“Eu queria muito que o meu pai tivesse com a gente aqui presente, mas vamos lutar por ele”, disse o senador, interrompido pela entrevistadora que diz que “ano que vem, se Deus quiser, a gente profetiza que o Flávio vai voltar aqui”.

“Grandes casos”

No mesmo trio elétrico com Flávio, André Mendonça também deu entrevista e foi indagado sobre “os grandes casos” que enfrenta no Supremo. O “terrivelmente evangélico” ministro indicado por Jair Bolsonaro (PL) ganhou protagonismo justamente por relatar o caso Master na corte.

“É enfrentar de um lado com serenidade, ao mesmo tempo com responsabilidade diante de Deus, e diante dos homens, crendo que Deus provê todas as coisas e pedindo a ele sabedoria para fazer justiça a todos“, respondeu.

Além deles, estavam presentes no ato o governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), que é alvo de denúncia sobre o elo do caso Master com a privatização da Sabesp, e o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que financiou a ONG de Karina Gama, que controla a produtora Go Up Entertainment Ltda, responsável pela cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Nova proposta de delação

Nesta quarta-feira (3), a defesa de Daniel Vorcaro apresentou à Polícia Federal (PF) e à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma nova proposta de delação premiada. A decisão caberá ao ministro André Mendonça, relator do caso.

A nova proposta de delação premiada de Vorcaro traz personagens que não estavam presentes na primeira versão, como o senador Ciro Nogueira (PP-PI).

Outra história que estará presente na nova delação de Vorcaro é o filme “Dark Horse”, viabilizado pelo próprio banqueiro, que teria investido R$ 61 milhões na cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

De acordo com informações da CNN Brasil, Vorcaro incluiu todos os detalhes das transações financeiras que fez com Flávio Bolsonaro (PL) para investir no filme “Dark Horse”.

Revista Forum

Escárnio: chefão da Marcha para Jesus admite que evento é palanque de Flávio Bolsonaro

É um escárnio. O presidente da Marcha para Jesus no Brasil, Apóstolo Estevam Hernandes, admitiu nesta quinta-feira que o maior evento evangélico do país funciona, na prática, como plataforma política para os Bolsonaros.

Ao declarar que sua “tendência natural” é apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em função do “quadro polarizado que temos hoje”, Hernandes desmontou o discurso de que a Marcha seria um espaço exclusivamente religioso.

O que há de “natural” em um líder religioso antecipar apoio a um candidato a meses da eleição? E o que a suposta “polarização” tem a ver com um evento que deveria ter caráter de fé?

Flavio Bolsonaro na Marcha para Jesus. Foto: Reprodução

A legislação eleitoral brasileira impõe limites claros ao uso de espaços de uso comum para propaganda política. Igrejas, templos e eventos religiosos não podem ser transformados em instrumentos de campanha eleitoral. A própria Justiça Eleitoral reconhece a figura do abuso de poder religioso quando a influência de lideranças de fé é utilizada para favorecer candidaturas.

Apesar disso, Flávio Bolsonaro ocupa posição de destaque na Marcha para Jesus, cercado por aliados políticos como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o prefeito Ricardo Nunes, deputados bolsonaristas e outras lideranças conservadoras.

 

Hernandes tentou negar o óbvio. Disse que Flávio não estaria em um “palanque político”, mas apenas participando do trio elétrico como qualquer cristão.

Ao Valor, o religioso também minimizou os questionamentos envolvendo a proximidade deFlávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, afirmando que cabe ao senador explicar à sociedade o que considerar conveniente.

Talvez a declaração mais reveladora tenha sido outra. Ao destacar o peso eleitoral dos evangélicos, Hernandes reconheceu que o segmento “decide eleições” e ajuda a definir posicionamentos políticos associados ao conservadorismo.

Mais uma vez, Jesus não foi convidado para a patacoada.

 

Eduardo Bolsonaro vai a julgamento no STF por articulação do tarifaço dos EUA

Oministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), liberou para julgamento a ação penal em que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) é réu pela acusação de promover o tarifaço dos Estados Unidos contra as exportações brasileiras. O julgamento do caso foi marcado para terça-feira (16).

O caso será julgado pela Primeira Turma da Corte, que também é formada pelos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia, além de Moraes, relator do processo.

Em novembro do ano passado, o STF aceitou denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) no inquérito que apurou a atuação do ex-parlamentar junto ao governo dos Estados Unidos para promover o tarifaço contra as exportações brasileiras, a suspensão de vistos de ministros do governo federal e de ministros da Corte. Ele responde pelo crime de coação no curso do processo.

Desde o ano passado, Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos e perdeu o mandato de parlamentar por faltar às sessões da Câmara dos Deputados.

Antes de liberar o caso para julgamento, Alexandre de Moraes determinou a notificação do ex-deputado por edital, mas ele não foi encontrado nem indicou advogado particular.

Diante da situação, o ministro autorizou que a defesa fosse realizada pela Defensoria Pública da União (DPU).

Nas alegações finais apresentadas ao Supremo, órgão defendeu a anulação do processo e disse que Moraes não pode julgar o caso poder ter sido vítima do cancelamento de vistos e das sanções financeiras oriundas da Lei Magnitsky.

“Aqui o Julgador é, ao mesmo tempo, a principal vítima das condutas que é chamado a julgar”, disse a DPU.

De acordo com a acusação feita pela PGR, Eduardo fomentou as ações dos Estados Unidos para tentar impedir o Supremo de condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro no processo da trama golpista.

“Comprovou-se que o réu deliberadamente se utilizou de graves ameaças contra as autoridades responsáveis pelo julgamento da AP 2.668, algumas concretizadas, a fim de favorecer o interesse de seu pai, livrando-o de qualquer responsabilização criminal”, argumentou a procuradoria.

Revista Forum

ebcebc

Violência contra indígenas avança na Amazônia e preocupa lideranças

MANAUS (AM) – A violência contra os povos indígenas voltou a crescer no Brasil em 2024 e atingiu níveis preocupantes especialmente na Amazônia brasileira, onde conflitos territoriais, avanço de economias ilegais e expansão de organizações criminosas continuam pressionando comunidades tradicionais. Os dados constam no Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

A situação motivou uma manifestação pública da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), que classificou o cenário como resultado de violações estruturais de direitos e da insuficiência histórica da proteção estatal. O levantamento mostra que a taxa de homicídios de indígenas alcançou 24,6 mortes por 100 mil habitantes em 2024, crescimento de 5,1% em relação ao ano anterior.

O índice supera em 22% a taxa nacional de homicídios, estimada em 20,1 por 100 mil habitantes. Quando são incluídos os chamados homicídios ocultos, identificados por meio de técnicas de aprendizado de máquina aplicadas às Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI), a taxa indígena sobe para 27,3 por 100 mil habitantes.

Embora o Brasil tenha consolidado nos últimos anos uma trajetória de redução da violência letal na população em geral, os dados indicam que os povos indígenas seguem percorrendo um caminho oposto. O Atlas aponta que a violência permanece concentrada em regiões marcadas por vulnerabilidades territoriais, presença de atividades ilegais e baixa capacidade de atuação do Estado.

Pode ser uma imagem de textoDados revelam aumento dos homicídios indígenas em áreas de conflito territorial (Reprodução/Atlas da Violência)

Amazônia concentra áreas mais críticas do País

Entre os Estados que compõem a Amazônia Legal, os indicadores mais alarmantes aparecem no Amazonas e em Roraima. No Amazonas, o número de homicídios indígenas passou de 36 para 73 casos entre 2023 e 2024. A taxa de mortalidade alcançou 47,8 mortes por 100 mil indígenas, representando aumento de 123,4% em apenas um ano.

Já Roraima registrou taxa de 172,9 homicídios por 100 mil indígenas em 2024. Apesar da redução em relação ao pico observado no ano anterior, o índice permanece como um dos mais elevados do País e coloca a população indígena local em uma situação de risco muito superior à média nacional.

A Coiab avalia que a violência observada na Amazônia não pode ser compreendida apenas pelos números de homicídios. “A violência não ocorre de forma isolada, mas integra um contexto permanente de ameaças, intimidações, perseguições e violações territoriais”, afirma a organização em sua análise jurídica do Atlas.

Segundo a entidade, comunidades indígenas vêm enfrentando impactos crescentes da presença de grupos ligados ao garimpo ilegal, à exploração ilegal de recursos naturais, ao narcotráfico e a outras atividades ilícitas que avançam sobre territórios tradicionais e áreas de fronteira.

A organização destaca que lideranças indígenas, comunicadores, vigilantes territoriais e defensores de direitos humanos estão entre os grupos mais expostos aos riscos decorrentes desse cenário. A insuficiência das ações de fiscalização e proteção em regiões remotas também contribui para ampliar a vulnerabilidade das comunidades.

“A violência praticada contra lideranças, comunidades e defensores indígenas possui relação direta com a ausência de efetiva proteção territorial e com a morosidade dos processos de demarcação de terras indígenas”, sustenta a Coiab.

A análise jurídica da entidade afirma ainda que a violência contra povos indígenas está relacionada a fatores históricos e estruturais, incluindo conflitos fundiários persistentes, expansão de economias ilegais, fortalecimento de organizações criminosas e dificuldades operacionais enfrentadas pelos órgãos responsáveis pela proteção territorial na Amazônia.
Violência contra mulheres indígenas cresceu de forma expressiva na última década (Reprodução)

Suicídios e violência contra mulheres ampliam quadro de vulnerabilidade
O Atlas da Violência também identificou um cenário preocupante relacionado à saúde mental das populações indígenas. Em 2024, a taxa de suicídio indígena chegou a 20,9 mortes por 100 mil habitantes, índice 2,7 vezes superior ao registrado para a população brasileira em geral.

Na Amazônia, o Amazonas atingiu seu maior número histórico de suicídios indígenas, com 83 registros oficiais. Os pesquisadores apontam que fatores como pressões territoriais, desestruturação de modos tradicionais de vida e processos prolongados de vulnerabilização social ajudam a compreender o agravamento do problema.

Outro aspecto destacado pelo estudo é o crescimento da violência contra mulheres indígenas. As notificações de violência sexual passaram de 115 registros em 2014 para 669 em 2024, aumento de 480% em uma década. No mesmo período, os registros de violência física cresceram de 359 para 1.330 casos.

Os dados mostram que os agressores são predominantemente parceiros íntimos das vítimas. O Atlas utiliza o conceito de interseccionalidade para demonstrar que a condição de mulher indígena reúne múltiplos fatores de vulnerabilidade relacionados ao gênero, à origem étnica e às desigualdades socioeconômicas.

A Coiab ressalta que o enfrentamento desse cenário exige respostas permanentes e articuladas entre órgãos indigenistas, instituições ambientais, forças de segurança, sistema de justiça e mecanismos de proteção aos direitos humanos. A organização também defende a participação direta dos próprios povos indígenas na formulação das estratégias de proteção territorial. “A proteção dos povos indígenas constitui obrigação constitucional e internacional do Estado brasileiro”, afirma a entidade.

Fonte:nRevista Cenarium

Eduardo Bolsonaro fala em trocar Pix por sistema dos EUA e reforça chantagem contra o Brasil

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro admitiu em um vídeo nas redes sociais que sua família está disposta a negociar o Pix para atender às exigências do governo de Donald Trump.

“Os Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos. Aqui é o Zelle. Então dá para você ir para uma mesa de negociação com os americanos”, afirmou.

A declaração foi feita após o governo dos Estados Unidos intensificar seus ataques ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Na terça-feira (2), Washington concluiu uma suposta investigação comercial baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo utilizado para apurar práticas consideradas prejudiciais aos interesses econômicos americanos.

O relatório elaborado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirma que o Brasil estaria favorecendo o Pix em detrimento de empresas americanas que atuam no setor de pagamentos digitais.

“O Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas que favorecem seu campeão nacional, o Pix”, diz o documento.

Os Estados Unidos também acusam o Banco Central de atuar simultaneamente como regulador e operador do sistema, o que, segundo Washington, configuraria um conflito de interesses.

“O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix”, afirma o relatório.

Entre os pontos questionados pelos americanos estão a obrigatoriedade de participação no Pix para instituições financeiras com mais de 500 mil contas e a exigência de que o sistema apareça em posição de destaque nos aplicativos bancários.

Ao defender o Zelle como referência para uma negociação com os Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro sinaliza subjugação à ofensiva de Washington contra uma das principais inovações financeiras das últimas décadas.

O Zelle é uma plataforma privada controlada por grandes bancos americanos e restrita a usuários que possuam conta bancária nos Estados Unidos. Já o Pix é uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central, disponível para toda a população e responsável por revolucionar os pagamentos eletrônicos no país.

DCM

Escândalo com Vorcaro afasta eleitores independentes de Flávio Bolsonaro

Pesquisas qualitativas da Genial/Quaest indicam perda de credibilidade do senador entre independentes e reaproximação desse eleitorado com Lula

As revelações envolvendo a relação entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro provocaram desgaste junto ao eleitorado independente e comprometeram uma das principais apostas da estratégia política do parlamentar para a corrida presidencial de 2026. É o que apontam pesquisas qualitativas realizadas pela Genial/Quaest e obtidas com exclusividade pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo os levantamentos, embora o episódio não tenha alterado a dinâmica de polarização que tende a marcar a disputa presidencial, ele afetou diretamente a percepção de credibilidade de Flávio Bolsonaro entre eleitores que não se identificam nem com o lulismo nem com o bolsonarismo. Esse segmento é considerado decisivo por especialistas em opinião pública por seu potencial de definir os rumos da eleição.

A pesquisa acompanhou, desde agosto do ano passado, um grupo fixo de 20 eleitores independentes. Além disso, foram realizados cinco grupos focais em diferentes regiões do País com participantes do mesmo perfil. Os resultados convergiram para uma mesma conclusão: as informações sobre o financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro afastaram parte dos eleitores que vinham demonstrando aproximação com Flávio Bolsonaro.

Eleitores voltam a demonstrar indecisão

De acordo com os estudos, alguns entrevistados que cogitavam votar no senador como alternativa para impedir uma vitória do PT passaram a se declarar indecisos. Outros retomaram a preferência por Luiz Inácio Lula da Silva, ainda que mantenham críticas ao governo federal e ao próprio presidente.

Entre os participantes dos grupos qualitativos, o conteúdo do áudio em que Flávio Bolsonaro cobra pagamentos milionários de Vorcaro foi recebido com forte reprovação. Para muitos, o episódio comprometeu a imagem de renovação política que o senador buscava consolidar.

“(O áudio) foi uma bomba para mim. Só comprova que a gente precisa pensar muito antes de votar”, afirmou um eleitor independente da região Sudeste ouvido na pesquisa.

Perda da imagem de alternativa moderada

Outro entrevistado, morador de Santa Catarina, relatou que pretendia votar em Flávio Bolsonaro, mas reconsiderou sua posição após a divulgação do caso.

“No Brasil, a gente se surpreende a cada dia e tem cada vez menos certeza do que vai decidir. Quando acha que vai para um lado, surge uma notícia. A princípio eu ia votar no Flávio, mas, depois desse áudio vazado, a gente não tem mais em quem acreditar”, declarou.

O mesmo participante acrescentou que considera difícil acreditar que não exista alguma motivação adicional por trás da relação entre o senador e o banqueiro. “Não tem como defender (o Flávio)”, afirmou.

Segundo a análise da Quaest, o episódio atingiu atributos considerados fundamentais para a construção da imagem eleitoral do parlamentar, especialmente entre os independentes. A percepção de que Flávio representaria uma alternativa moderada, renovadora e antissistema perdeu força após a divulgação das informações.

Desconfiança sobre explicações dadas pelo senador

Os participantes dos grupos focais também demonstraram incômodo com a forma como o senador reagiu ao caso. Muitos citaram o fato de ele ter negado inicialmente sua relação com Daniel Vorcaro.

“Por que não falou logo sobre a relação com o Vorcaro? Então estava mentindo…”, questionou um dos entrevistados.

Uma eleitora do Paraná afirmou que o episódio prejudicou a imagem do parlamentar. “Ele já sabia que isso podia acontecer. Sabia que não estava imune.”

A visita feita por Flávio Bolsonaro ao banqueiro durante o período de prisão domiciliar também gerou questionamentos entre os participantes da pesquisa.

Visita ao banqueiro gera novas críticas

“Você não vai visitar alguém preso se não for uma pessoa próxima ou se não tiver algum negócio sólido com ela. Impacta no meu voto, sim. É mais um motivo para eu não votar nele”, declarou uma eleitora de Porto Alegre.

Para Luciana Andrade, coordenadora de pesquisas qualitativas da Quaest, a frustração foi particularmente intensa entre os eleitores que enxergavam no senador uma possibilidade de renovação política.

“Parte desse eleitor que depositou em Flávio uma esperança de renovação na política, de rompimento com práticas do que eles denominam como a velha política, ficou muito frustrada ao ouvir o áudio”, afirmou.

A pesquisadora acrescentou que o episódio alterou a forma como esse grupo compara os principais candidatos da disputa. “O episódio fez com que, para esse eleitor independente, o Flávio Bolsonaro perdesse o discurso de combate à corrupção e se igualasse a Lula nesse quesito. Com isso, o eleitor independente passou, em vez de olhar para a corrupção como algo que diferencia, a comparar as entregas e as propostas de cada candidato.”

Medidas do governo ajudam Lula

A reaproximação de parte dos independentes com Lula não ocorreu apenas em razão do desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro. Segundo a pesquisa, algumas iniciativas recentes do governo federal tiveram repercussão positiva entre esse segmento.

Entre elas está o programa Desenrola 2.0, visto por muitos participantes como uma oportunidade para renegociar dívidas e recuperar o acesso ao crédito. Apesar disso, alguns entrevistados argumentaram que a medida busca corrigir problemas econômicos que atribuem ao próprio governo.

A proposta de redução da jornada de trabalho com o fim da escala 6×1 também recebeu apoio expressivo entre os participantes dos grupos focais.

“A briga está feia sobre a redução da escala 6×1. Eu estava vendo uma entrevista do Flávio Bolsonaro, que eu acho que ele é contra isso, falando que vai ter desemprego. Eu acho que vai dar é mais emprego porque vai abrir mais vaga. Acho que é porque ele nunca trabalhou de CLT, então não sabe como é a vida do trabalhador”, afirmou um eleitor do Amazonas.

Escala 6×1 tem forte apelo entre independentes

Outro participante, do Rio Grande do Sul, associou diretamente o desgaste eleitoral do senador ao caso Vorcaro e ao debate sobre a jornada de trabalho.

“Eu acho que ele se queimou com o negócio da pauta da redução da escala 6×1 e com o financiamento do filme. Ele estava indo bem, mas agora ele deu uma rateada e deu liberdade para o Lula passar ele.”

Segundo Luciana Andrade, a defesa da redução da jornada semanal tem se mostrado especialmente atraente para eleitores independentes, influenciando inclusive mudanças de posicionamento político observadas durante o acompanhamento do grupo fixo realizado pela Quaest.

“O que a gente vê é uma avaliação mais pragmática desse eleitor, que busca soluções não apenas para o bolso, mas para a qualidade de vida. Uma participante que pretendia votar em Flávio no segundo turno por uma questão de renovação e mudança passou a apoiar Lula por acreditar que ele será capaz de levar adiante a redução da jornada.”

Eleitores mantêm críticas ao governo Lula

O encontro entre Lula e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também teve repercussão positiva entre parte dos entrevistados. O gesto foi interpretado como uma demonstração de pragmatismo político e de defesa dos interesses brasileiros na relação bilateral.

Apesar disso, os eleitores independentes continuam demonstrando insatisfação com diversos aspectos da atual gestão federal. A principal reclamação identificada pela pesquisa está relacionada à percepção de que as condições de vida da população não melhoraram de forma significativa durante o terceiro mandato de Lula.

“Em comparação aos dois governos anteriores, esse deixou a desejar bastante. Ele (Lula) culpa o Bolsonaro e não faz as coisas. Ele tinha que fazer, mostrar serviço. Me desapontei. Pode ser porque ele pegou o Brasil endividado, pode ser que piorou um pouco as coisas, mas deixou a desejar”, afirmou um eleitor da região Norte.

Luciana Andrade destacou que a expectativa de retomada da ascensão social observada durante os primeiros governos petistas não se concretizou para muitos brasileiros. Segundo ela, a percepção predominante é de que o aumento do custo de vida impede ganhos efetivos de bem-estar, mesmo quando há crescimento da renda.

“Especialmente os eleitores com mais de 35 anos lembram que, nos governos Lula 1 e 2, tiveram ganho de poder de compra e ascensão social. Hoje, o custo do básico consome uma parcela tão grande da renda que, mesmo quando ela aumenta, o status social não muda. A expectativa de que o Lula 3 trouxesse uma melhora de vida não se confirmou. Em todo os grupos sociais a promessa da picanha na mesa é citada. A picanha virou o símbolo dessa decepção”, concluiu.

o Brasil 247

 

 

80% dos que se manifestaram sobre o Pix veem Flávio Bolsonaro como ameaça ao sistema de pagamentos mais usado pelos brasileiros

Levantamento da Palver em grupos públicos de WhatsApp e Telegram mostra forte desgaste do pré-candidato do PL

O senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, é apontado como responsável por ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos em 8 de cada 10 mensagens opinativas sobre o tema que circularam em grupos públicos de WhatsApp e Telegram. O dado indica forte desgaste do parlamentar em um debate que envolve o sistema de pagamentos mais usado pelos brasileiros e a política comercial do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos.

Segundo levantamento da empresa de análise de dados Palver, divulgado pela Folha de S.Paulo, a responsabilização direta ou indireta de Flávio Bolsonaro corresponde a 81% das publicações opinativas analisadas em mais de 100 mil grupos públicos monitorados. A empresa excluiu da análise mensagens consideradas neutras, como links compartilhados sem comentários e disparos automáticos de clipping que apenas replicam notícias sobre o assunto.

O monitoramento abrangeu o período de 27 de maio a 2 de junho e está relacionado à viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, onde o senador se reuniu com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca em 26 de maio. Desde então, aliados do presidente Lula (PT) passaram a sustentar em redes sociais e aplicativos de mensagens que a aproximação do parlamentar com o governo norte-americano representaria uma ameaça ao Pix.

A pressão sobre Flávio se intensificou na segunda-feira (1º), quando surgiu uma nova ameaça de tarifa contra produtos brasileiros. A decisão final sobre a eventual imposição das taxas depende do aval de Trump. Nas redes, apoiadores de Lula passaram a tentar emplacar o termo “Tariflávio” para associar o senador à crise comercial entre Brasil e Estados Unidos.

A associação entre Flávio, Pix e tarifaço

De acordo com o levantamento da Palver, as mensagens predominantes acusam Flávio Bolsonaro e a família Bolsonaro de “traição à pátria” e de alinhamento a interesses estrangeiros. Parte das publicações descreve a ofensiva norte-americana como um ataque a uma conquista da população brasileira, em referência ao Pix, sistema amplamente utilizado por trabalhadores, consumidores, pequenos empreendedores e empresas.

Uma das mensagens identificadas no levantamento afirma: “Bolsonarismo se consolida como principal movimento de traição à pátria da história”. O tom das publicações críticas se aproxima do discurso adotado por Lula em manifestações públicas recentes, nas quais o presidente tem defendido o Pix e criticado pressões externas contra instrumentos de soberania econômica do Brasil.

O recorte analisado reuniu mensagens que citavam o Pix em combinação com menções a Bolsonaro, Flávio, Trump ou Estados Unidos. A Palver ressalta, no entanto, que o levantamento mede o teor das mensagens que circulam em grupos públicos de WhatsApp e Telegram, e não a opinião da população brasileira como um todo.

Flávio tenta conter desgaste após ameaça de novas tarifas

O episódio passou a ser visto como um revés para a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Políticos do centrão e até aliados do senador avaliam que a possibilidade de novas tarifas contra produtos brasileiros cria um problema político para o parlamentar, especialmente por ocorrer logo após sua visita aos Estados Unidos e sua reunião com Trump.

Na terça-feira (2), Flávio afirmou ter enviado uma carta ao governo Trump pedindo que os Estados Unidos não imponham tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, como recomendou uma investigação comercial conduzida pelo país norte-americano. O documento foi endereçado ao secretário de Estado Marco Rubio.

Na carta, Flávio afirma que o Brasil “atravessa um período de grave deterioração fiscal e econômica” e que a imposição de novas tarifas “causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro”. A iniciativa foi uma tentativa de reduzir o desgaste político provocado pela associação entre sua atuação nos Estados Unidos, a ameaça ao Pix e o tarifaço contra o Brasil.

Governo Lula vê chance de evitar tarifa e ampliar desgaste do adversário

Segundo a Folha de S.Paulo, o governo brasileiro pretende manter as negociações com os Estados Unidos e avalia que ainda há chance de evitar a imposição das taxas sugeridas pelo USTR, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA. Ao mesmo tempo, integrantes do governo Lula enxergam espaço para potencializar o desgaste de Flávio Bolsonaro, considerado o principal adversário do presidente nas eleições de outubro.

A decisão negativa para o Brasil ocorre em meio ao aumento da pressão do governo republicano de Donald Trump sobre o governo Lula. O movimento também acontece na esteira da decisão dos Estados Unidos de designar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas, medida que ampliou a tensão diplomática e política entre os dois países.

Do Brasil 247

Após TariFlávio trair o Brasil e colocar o Pix em risco, Lula pode vencer no primeiro turno, apontam trackings

Levantamentos internos da oposição indicam queda de até 6 pontos do senador após tarifaço de Trump, associado ao sucesso do Pix

A campanha presidenciais já possuem novas atualizações de trackings internos que indicam uma forte queda de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial. Segundo informações que circulam nos bastidores, o senador teria perdido entre 4 e 6 pontos após tentar justificar o tarifaço de 25% imposto pelo governo Donald Trump contra produtos brasileiros, que tem como um dos motivos principais o uso do Pix pelos brasileiros, que afeta bandeiras de cartões como Visa e Mastercard.

De acordo com esses levantamentos internos da própria oposição, com margem de variação de ±1% em relação aos dados de ontem, a associação de Flávio Bolsonaro ao ataque comercial dos Estados Unidos contra o Brasil teria se consolidado de forma negativa. O apelido “TarifLávio” teria colado no senador, e aliados já avaliam que não há, neste momento, uma estratégia capaz de reverter o desgaste.

Tarifaço de Trump atinge Flávio Bolsonaro

A crise se agravou depois que Flávio Bolsonaro tentou atribuir ao presidente Lula a responsabilidade pela tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. A declaração foi vista por setores políticos como uma tentativa de defender o presidente Donald Trump, mesmo diante de uma medida que afeta empresas nacionais, exportadores e empregos no Brasil.

A situação ficou ainda mais sensível porque, entre as justificativas apresentadas pelo USTR, o Representante Comercial dos Estados Unidos, aparece o papel do Banco Central do Brasil como regulador e operador do Pix. O órgão estadunidense classificou essa função como possível conflito de interesse, colocando o sistema de pagamentos brasileiro no centro da ofensiva comercial dos Estados Unidos.

A leitura nos bastidores é que Flávio Bolsonaro passou a ser associado não apenas ao tarifaço de Trump, mas também a uma ameaça externa contra o Pix, uma das ferramentas financeiras mais populares do país. A combinação entre ataque comercial, prejuízo potencial às empresas brasileiras e risco ao Pix teria produzido forte reação negativa contra o senador.

“TarifLávio” cola e preocupa a oposição

Segundo os trackings internos, o apelido “TarifLávio” ganhou tração e passou a sintetizar a percepção de que o senador teria ficado ao lado de Trump em uma disputa contra interesses brasileiros. A avaliação feita por integrantes da oposição é que a narrativa se espalhou rapidamente e dificultou qualquer tentativa de reposicionamento.

O desgaste atinge um ponto sensível da campanha: a imagem de Flávio Bolsonaro como pré-candidato presidencial. Ao defender que “não são as empresas brasileiras que estão sendo tarifadas” e que “quem está sendo tarifado é o presidente Lula”, o senador acabou abrindo espaço para ataques de adversários, que passaram a acusá-lo de minimizar os efeitos econômicos da medida dos Estados Unidos.

Flávio também afirmou que a tarifa seria resultado do que chamou de “sentimento anti-americano” de Lula. Para críticos, a fala reforçou a percepção de alinhamento automático com Trump, mesmo diante de uma decisão considerada hostil aos interesses do Brasil.

Lula cresce e pode vencer no primeiro turno

Enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta queda nos trackings, Lula teria registrado crescimento entre 2 e 4 pontos, segundo as mesmas informações de bastidores. Os novos números indicariam um cenário de vitória do presidente já no primeiro turno, caso a tendência se confirme nas próximas rodadas de pesquisas.

A melhora de Lula estaria ligada à reação do governo brasileiro ao tarifaço e à defesa da soberania nacional diante da pressão dos Estados Unidos. Nesta terça-feira, o presidente afirmou que está “esperando um telefonema de Trump” para tratar diretamente do tema.

“Você me deve uma reunião e eu devo uma pra você. Porque demos 30 dias para nossos ministros negociarem. Então, eu to esperando um telefonema seu para me explicar o que aconteceu na sua ausência e na minha ausência”, afirmou Lula.

A fala reforçou a estratégia do Planalto de apresentar o presidente como líder disposto a negociar, mas sem aceitar imposições externas que prejudiquem o Brasil.

Pix vira centro da disputa política

O envolvimento do Pix nas justificativas dos Estados Unidos adicionou um novo componente à crise. O sistema, utilizado diariamente por milhões de brasileiros, tornou-se símbolo de soberania tecnológica e inclusão financeira. A simples possibilidade de o Pix ser questionado por autoridades estadunidenses provocou reação política imediata.

Para aliados de Lula, Flávio Bolsonaro acabou se colocando em uma posição politicamente vulnerável ao tentar justificar a ofensiva de Trump. A avaliação é que qualquer ataque externo ao Pix tende a ser interpretado pela população como uma ameaça direta ao cotidiano econômico dos brasileiros.

Nos bastidores da oposição, o temor é que a crise deixe de ser apenas uma disputa diplomática ou comercial e passe a ser percebida como uma escolha entre defender o Brasil ou defender Trump. Nesse cenário, o apelido “TarifLávio” funciona como síntese do problema enfrentado pelo senador.

Do Brasil 247

Sem citar Flávio Bolsonaro, Lula critica “imbecil” que tenta levar vantagem eleitoral com tarifaço

 O presidente Lula (PT) criticou, nesta quarta-feira (3), brasileiros que, segundo ele, estariam incentivando o novo tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil com o objetivo de obter vantagem eleitoral. Sem citar Flávio Bolsonaro, Lula afirmou que a tentativa de usar uma punição ao país para atingir uma candidatura à Presidência prejudica o povo brasileiro, e não o próprio presidente.

A declaração foi feita por Lula durante a abertura de uma reunião ministerial. Ao comentar a nova taxação anunciada pelos Estados Unidos contra o Brasil, o presidente disse ter sido surpreendido pela medida, já que havia discutido com Donald Trump uma agenda de negociação entre os dois países.

Lula relatou que, em reunião anterior com Trump, teve uma conversa de três horas e entregou documentos com temas que o Brasil desejava tratar com o governo norte-americano. Segundo ele, a área comercial registrou divergências entre ministros dos dois países, o que levou o presidente brasileiro a propor um prazo de 30 dias para que as equipes buscassem um entendimento.

“Na área comercial houve uma divergência entre o meu ministro com o ministro deles e eu propus ao Trump: já que não tem acordo entre os dois ministros, vamos dar 30 dias para que os dois se entendam. Se o Brasil estiver errado, eu sei voltar atrás. Mas se vocês estiverem errados, vocês voltam atrás”, afirmou Lula.

O presidente disse que a reunião ainda não havia produzido uma conclusão definitiva, o que tornou a nova taxação ainda mais inesperada para o governo brasileiro. “Essa reunião ainda não concluiu nada. Por isso nossa surpresa com a decisão de mais uma taxação com relação ao Brasil”, declarou.

Lula afirmou ter entregado quatro documentos a Trump com assuntos considerados estratégicos pelo Brasil. Entre os temas citados estão o combate ao narcotráfico, a questão comercial, o acordo envolvendo Brasil, Turquia e Irã sobre enriquecimento de urânio, além de um relatório sobre terras raras e minerais críticos.

“Eu entreguei quatro documentos ao presidente Trump dizendo os assuntos que gostaríamos de discutir com eles. Desde o combate ao narcotráfico, a questão comercial… O acordo que nós tínhamos feito com o Irã, Brasil e Turquia com relação ao enriquecimento de urânio, que é melhor que o que eles fizeram, entreguei para o Trump também. E entreguei também nosso relatório sobre terras raras e minerais críticos”, disse.

Segundo Lula, os documentos foram entregues diretamente a Trump para evitar que o conteúdo se perdesse em meio aos trâmites entre assessores. O presidente afirmou ter pedido ao norte-americano que lesse os textos por considerar os temas importantes para a relação bilateral.

“Vou lhe entregar o documento porque muitas vezes a gente faz uma conversa e esquece e muitas vezes os assessores tomam os documentos da sua mão; por isso vou entregar pessoalmente para você os quatro documentos. Leve para casa e leia, porque é muito importante para a relação com o Brasil”, relatou Lula.

O presidente disse ter deixado a reunião convencido de que Brasil e Estados Unidos estavam iniciando uma nova lógica de relacionamento. A decisão norte-americana de aplicar nova taxação, porém, foi recebida como surpresa pelo governo brasileiro.

“Saí de lá convencido de que a gente estava estabelecendo uma nova lógica no relacionamento entre Brasil e Estados Unidos. Fui pego de surpresa ontem e anteontem a decisão dele”, afirmou.

Ao tratar da repercussão interna do tarifaço, Lula criticou duramente brasileiros que, em sua avaliação, estariam estimulando o conflito com os Estados Unidos para tentar prejudicar uma candidatura presidencial.

“E mais ainda: o que é triste é que tem brasileiros fomentando essa briga, na perspectiva de que, se ele taxar a gente, ele vai prejudicar uma candidatura à Presidência da República. Um imbecil desse não percebe que o prejudicado é o povo, não é o Lula”, disse o presidente.

Lula afirmou que pedir uma punição contra o Brasil para obter ganhos eleitorais é uma atitude grave. “Ou seja, pedir uma punição ao país na perspectiva de derrotar uma candidatura ou de levar vantagem… É de uma grosseria que eu não posso encontrar outro nome a não ser dizer: em qualquer outro país do mundo e em qualquer outro momento histórico isso seria chamado de traição à pátria. É o que eles fizeram”, declarou.

O presidente também classificou como irresponsável o comportamento do grupo que, segundo ele, atua para alimentar a crise. “Não tem explicação. Não tem na sociologia explicação para o comportamento de um grupo de irresponsáveis como eles”, concluiu.

Do Brasil 247 

VÍDEO – Secretário de Trump exclui Brasil da lista de países “amigáveis”

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou nesta terça (2) que o continente americano vive um momento de aproximação com Washington, mas deixou o Brasil fora da lista de países que classificou como “amigáveis”.

Durante audiência no Congresso americano, ele declarou: “É fantástico que, tirando Nicarágua, Cuba, Venezuela e, claro, Brasil, embora esteja no meio de um ciclo eleitoral, e, em alguma extensão a Colômbia, temos uma região cheia de aliados e amigos dos Estados Unidos”.

A declaração ocorreu no mesmo dia em que o presidente Lula detonou Rubio ao comentar a proposta do governo de Donald Trump de aplicar uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. “Faz pouco tempo que fui aos EUA, o tal do Marco Rubio é anti-América Latina. Já disse ao Trump que ele não gosta do Brasil. Ele não estava na reunião”, afirmou o petista.

Na audiência, Rubio também abordou a guerra no Oriente Médio e afirmou que as negociações entre Estados Unidos e Irã continuam em andamento.

O programa nuclear iraniano segue sendo o principal ponto de divergência entre Washington e Teerã. Segundo Rubio, o governo iraniano concordou em discutir aspectos do tema, enquanto autoridades do país apontam que a continuidade das negociações depende do respeito ao cessar-fogo.

A audiência também foi marcada por questionamentos sobre o envolvimento dos Estados Unidos na guerra. Rubio recebeu críticas de parlamentares democratas pela condução do conflito sem autorização prévia do Congresso, embora continue contando com apoio da maior parte dos republicanos.

Nos últimos meses, alguns integrantes do Partido Republicano passaram a demonstrar preocupação com os custos financeiros da guerra e seus efeitos econômicos. O tema gerou debate às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato previstas para o segundo semestre.

DCM

Lula relembra agradecimento de Flávio Bolsonaro a Trump por ataques ao Brasil (vídeo)

Presidente afirma que aliados de Bolsonaro comemoraram tarifaço dos EUA e diz que Brasil defenderá minerais e terras raras

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva relembrou, nesta terça-feira, (2), o agradecimento atribuído a Flávio Bolsonaro a Donald Trump no dia em que os Estados Unidos anunciaram uma taxação contra o Brasil. A declaração foi feita durante a inauguração da nova sede definitiva do campus Catalão do Instituto Federal Goiano (IF Goiano), em Goiás.

O evento marcou a entrega de uma obra vinculada ao Novo PAC, com custo total de R$ 8,9 milhões, dos quais R$ 6,5 milhões vieram do programa federal. Segundo o IF Goiano, a nova estrutura substitui o imóvel anteriormente alugado, que custava R$ 23 mil por mês, e amplia a capacidade de atendimento da unidade.Em seu discurso, Lula afirmou que o Brasil respondeu às pressões do governo norte-americano por meio da diplomacia e da defesa da verdade. O presidente disse que, diferentemente dos Estados Unidos, o país não atua com instrumentos militares, mas com argumentos políticos, econômicos e institucionais.

“Como eu não tenho navio para fazer as guerras de Trump, bomba atômica ou poderio militar, a minha guerra é da verdade contra a mentira, contra as narrativas. Quando o Brasil foi taxado em 50% mandei cartas ao governo americano dizendo que eles estavam mentindo, porque eles não têm déficit com o Brasil. Quem tinha que aumentar a taxação somos nós, e não eles”, afirmou Lula.

O presidente também criticou integrantes da família Bolsonaro e afirmou que seus filhos comemoraram a taxação norte-americana contra o Brasil. Lula citou Flávio Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro ao tratar do episódio.

“O que fizeram os meninos do Bolsonaro? Um deles, que é candidato a presidente, disse em 9 de julho de 2025, no dia em que Trump taxou o Brasil: ‘Obrigado, Trump. Faça o Brasil livre de novo’. Hoje Flávio diz que não dfalou nada, mas ele está mentindo, assim como Eduardo Bolsonaro também agradeceu quando o Brasil foi taxado”, declarou.

A postagem:

Ao mencionar o tarifaço, o presidente apresentou o episódio como um ataque à economia nacional e criticou aqueles que, segundo ele, teriam celebrado a decisão do governo norte-americano.

Lula também afirmou ter mantido uma conversa de cerca de três horas com Trump. Segundo o presidente, o diálogo não contou ainda com a presença de Marco Rubio, a quem chamou de “inimigo da América Latina”. Lula disse ter usado a reunião para defender os interesses brasileiros e argumentar que as políticas do país também podem beneficiar os Estados Unidos.

Outro ponto abordado pelo presidente foi a soberania brasileira sobre minerais estratégicos, especialmente as terras raras. Lula afirmou que o país não aceitará a exploração de seus recursos naturais sem controle nacional, comparando a situação atual ao histórico de retirada de riquezas minerais do Brasil no passado.

“Não vamos permitir que levem nossos minerais e terras raras, assim como levaram nosso ouro no passado, enquanto ficamos lambendo os beiços”, afirmou Lula.

A defesa das terras raras foi apresentada pelo presidente como parte de uma estratégia de proteção dos recursos naturais e de fortalecimento da soberania nacional. Lula indicou que o Brasil deve evitar repetir ciclos históricos em que riquezas foram retiradas do país sem garantir desenvolvimento, agregação de valor e benefícios duradouros para a população.

Nova sede

A inauguração da nova sede do campus Catalão do IF Goiano também foi tratada pelo governo como uma ação de expansão da educação pública federal no interior do país. A unidade conta atualmente com 1.210 matrículas, incluindo cursos de qualificação profissional.

Com a nova estrutura, o campus teve sua tipologia ampliada de IF Campus 20/13 para IF Campus 40/26. A mudança acompanha a expansão da capacidade institucional e permite o fortalecimento das atividades de ensino, formação técnica e qualificação profissional na região.

Hoje, o campus Catalão tem 32 professores e 12 técnicos administrativos. A previsão é de contratação de mais oito docentes e 14 técnicos administrativos até o fim do ano, o que deve ampliar a capacidade de atendimento da unidade.

Do Brasil 247

Governo Lula cita “provocação da família Bolsonaro” e diz que tarifaço é “tentativa de ingerência” dos EUA no Brasil

Em nota divulgada nesta terça-feira (2), o governo brasileiro afirmou que a investigação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil, que resultou numa proposta de taxação de 25% sobre a importação de produtos do país, foi motivada por interesses eleitorais e associou o processo a uma “tentativa de ingerência” em assuntos internos.

No comunicado, o governo do Brasil manifestou “indignação” com a conclusão preliminar anunciada pelo USTR, escritório do governo dos Estados Unidos responsável por temas comerciais, no âmbito da investigação da Seção 301 sobre supostas práticas desleais atribuídas ao Brasil.

Segundo o governo Lula, a investigação foi aberta em 15 de julho de 2025 “por provocação da família Bolsonaro” e estaria ligada a movimentos de pressão externa sobre temas nacionais. A nota cita a recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington e afirma que essas ações contam com o apoio de “falsos patriotas que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”.

O texto também afirma ser “lastimável” que o diálogo construído pelo governo brasileiro com os Estados Unidos, inclusive com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Donald Trump, seja prejudicado por “interesses meramente eleitorais e familiares”.

Governo defende Pix e nega justificativa para tarifas

O governo brasileiro afirmou que não há justificativa para medidas unilaterais contra o país nem contra patrimônios brasileiros, como o Pix, citado nas recomendações preliminares dos Estados Unidos. A nota destaca que o sistema de pagamentos instantâneos é uma infraestrutura pública, gratuita, operada pelo Banco Central do Brasil, com regras uniformes e participação de empresas estrangeiras, inclusive norte-americanas.

De acordo com os dados apresentados no comunicado, os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil entre 2011 e 2025, segundo estatísticas do Bureau of Economic Analysis. Apenas no ano passado, o superávit comercial de bens dos EUA com o Brasil foi de US$ 14,46 bilhões. Considerando bens e serviços, o valor chegou a US$ 40,52 bilhões.

A nota também afirma que, em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação. Oito dos dez principais produtos norte-americanos importados pelo Brasil tiveram tarifa efetiva zero, incluindo petróleo e derivados, aeronaves, gás natural e carvão. A alíquota média efetivamente cobrada sobre produtos dos EUA foi de 3,1%.

EUA perdem participação nas exportações brasileiras

O governo brasileiro sustenta que as tarifas unilaterais, classificadas como politicamente motivadas, têm causado prejuízos à economia nacional, à geração de emprego e renda e ao papel dos Estados Unidos como parceiro comercial do Brasil.

Segundo a nota, no primeiro trimestre de 2026, a participação dos EUA nas exportações brasileiras caiu para 9,4%, o menor nível da série histórica.

O comunicado informa ainda que seguem em curso negociações tarifárias entre os dois países, conforme acordado por Lula e Trump em reunião realizada em Washington no dia 7 de maio. O objetivo, segundo o governo, é buscar uma solução que leve ao encerramento da investigação da Seção 301, previsto para 15 de julho, sem imposição de medidas contra o Brasil.

Brasil ameaça recorrer à Lei de Reciprocidade

O governo brasileiro afirmou que se reserva o direito de usar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para enfrentar situações consideradas injustas contra o Estado brasileiro e sem respaldo nas regras do comércio internacional.

Apesar da reação, a nota diz que o governo ainda espera que as recomendações preliminares dos Estados Unidos não se convertam em tarifas efetivas. Ao mesmo tempo, afirma que adotará “toda e qualquer medida” para reduzir eventuais danos à economia, aos empregos e à renda da população brasileira.

No fim do comunicado, o governo defende atenção contra o que chamou de “traidores da pátria” e afirma ser necessário trabalhar “em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”.

Argumentos do Brasil na investigação

No anexo da nota, o governo apresentou um resumo dos argumentos encaminhados às autoridades norte-americanas durante reuniões técnicas com o USTR. Segundo o Brasil, a documentação enviada demonstra que a política comercial brasileira não discrimina os Estados Unidos, não prejudica o comércio norte-americano e não viola normas internacionais.

Sobre comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, o governo afirmou que a legislação brasileira assegura tratamento equilibrado a empresas nacionais e estrangeiras. O texto destaca que o Brasil é um grande mercado para as big techs dos Estados Unidos e o segundo maior mercado mundial das duas principais redes de cartão de crédito norte-americanas.

Em relação a tarifas preferenciais, o governo afirmou que acordos do Mercosul com países como México e Índia não restringem o acesso de produtos dos Estados Unidos ao mercado brasileiro.

Na área de combate à corrupção, o Brasil destacou que integra os principais instrumentos internacionais sobre o tema, possui estrutura legal e institucional consistente e, desde 2017, celebrou mais de trinta acordos de leniência. A nota também menciona que, em abril de 2026, o governo brasileiro apresentou ao Departamento de Estado uma proposta de enfrentamento ao crime organizado e de combate à corrupção.

O governo também afirmou que os Estados Unidos são os principais beneficiários do sistema brasileiro de propriedade intelectual, respondendo por cerca de 30% dos pedidos de patente e liderando contratos de licenciamento e cessão de ativos. Segundo a nota, os pagamentos de royalties ao mercado norte-americano somaram US$ 1,38 bilhão em 2024, o dobro do valor registrado em 2020.

Etanol, açúcar e desmatamento

No caso do etanol, o governo brasileiro afirmou que o Programa Nacional de Biocombustíveis é aberto a produtores estrangeiros em condições não discriminatórias e que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis desenvolve diretrizes técnicas para a participação de produtores dos Estados Unidos.

A nota também compara as tarifas aplicadas no setor. Segundo o governo, os EUA cobram tarifa de 12,5% sobre o etanol brasileiro, enquanto o Brasil aplica 18% sobre o produto norte-americano. Em contrapartida, o açúcar brasileiro tem cota considerada reduzida, de cerca de 150 mil toneladas, e, acima desse limite, está sujeito a tarifa de US$ 340 por tonelada, equivalente a 80%.

Sobre desmatamento, o governo afirmou que, desde 2023, estabeleceu e vem cumprindo a meta de zerar o desmatamento até 2030. O comunicado diz que o desmatamento na Amazônia Legal caiu cerca de 50% em comparação com 2022, enquanto a área queimada no país recuou cerca de 40% em 2025 frente à média do período entre 2017 e 2024.

A nota também cita dados divulgados na semana passada pelo MapBiomas, segundo os quais o desmatamento no Brasil, considerando os seis biomas, atingiu em 2025 o menor nível em sete anos.

Do Brasil 247 

‘Filhos do Bolsonaro encontraram um jeito de enriquecer: ficar amigo do Vorcaro’, diz Lula

Presidente também cita “senadores e deputados” que teriam enriquecido ao lado do ex-banqueiro e dono do Banco Master

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (2) que os filhos de Jair Bolsonaro (PL) teriam enriquecido após se aproximarem de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do liquidado Banco Master.

Em declaração pública, Lula citou o Banco Master, os filhos de Bolsonaro e também parlamentares ao criticar o que classificou como uma forma de enriquecimento ligada à proximidade com Vorcaro. “Tem outra forma de ficar rico, o Banco Master encontrou uma forma de ficar rico. Os filhos do Bolsonaro encontraram um jeito de ficar rico, alguns senadores e deputados encontraram um jeito de ficar rico. O que que é? Ficar amigo de Daniel Vorcaro. Aí é fácil, mas é muito complicado roubar, porque você pode ser preso, você pode cair, você pode ser morto”, afirmou Lula.

A declaração do presidente amplia o tom político em torno do caso Banco Master e coloca Daniel Vorcaro novamente no centro do debate público. Ao mencionar filhos de Bolsonaro, senadores e deputados, Lula vinculou a crítica à relação de agentes políticos com o ex-banqueiro.

A manifestação ocorre em um contexto de forte disputa política em torno das relações entre figuras públicas e o ex-dono do Banco Master.

Do Brasil 247

Redenção

Há momentos na história em que um povo precisa reencontrar a própria voz. São momentos de esperançar. Momentos em que a esperança deixa de ser espera passiva e se transforma em ação no mundo, em compromisso coletivo com a construção de um futuro melhor. A esperança, quando se faz prática, assume seu papel na história, exercendo a humanidade por meio dos sonhos, das utopias e da ação.

Temos esperança na reeleição e e esperançamos por ela: Queremos um país que priorize o trabalhador, a dignidade, a educação, a saúde e a justiça social – acima dos interesses que tantas vezes tentam determinar os rumos da democracia, afastando-a das necessidades reais da população.

O verdadeiro patriotismo não se mede por palavras de ordem, mas pelo compromisso com a soberania nacional e com o bem-estar do povo brasileiro. Amar o Brasil é defender sua independência, sua cultura, suas riquezas e sua capacidade de decidir o próprio destino sem submissão a interesses estrangeiros. É recusar a condição de vassalo de outras nações e afirmar, com dignidade, que o futuro do país deve ser construído pelos brasileiros, para os brasileiros.

O melhor caminho que temos hoje? A reeleição como esperança para o amanhã.

Marlón Pessanha – professor da UFSCar

A epidemia de loucura da extrema direita bolsonarista

Depois de atacar vacinas, o bolsonarismo transforma uma decisão técnica da Anvisa sobre produtos Ypê em conspiração política — e revela sua fábrica de votos

A frase do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, deveria ser óbvia. Mas, no Brasil intoxicado pelo bolsonarismo, até o óbvio precisa ser repetido em voz alta.

Padilha foi direto ao ponto: a acusação de perseguição política à empresa Ypê “não faz nenhum sentido”. A inspeção que encontrou irregularidades na fábrica foi feita por técnicos da Anvisa, com participação da vigilância sanitária do governo do estado de São Paulo — que não é governado pelo PT — e da prefeitura de Amparo. Além disso, o diretor da Anvisa responsável pela área que determinou a suspensão dos produtos foi indicado pelo governo Bolsonaro.

É uma questão sanitária.

A extrema direita bolsonarista quer transformá-la em perseguição lulista-petista-comunista.

É nesse ponto que o caso Ypê deixa de ser uma curiosidade grotesca das redes sociais e passa a revelar algo mais profundo: a extrema direita brasileira já não disputa apenas versões sobre a política. Ela disputa a própria realidade.

Uma bactéria vira conspiração. Uma inspeção técnica vira ataque ideológico. Um alerta sanitário vira prova de perseguição. Um detergente vira bandeira eleitoral.

Foi assim na pandemia.

Está sendo assim agora.

Da cloroquina ao detergente, o produto mudou. A loucura induzida permaneceu.

A nova epidemia

O Brasil já viveu uma epidemia de loucura política com consequências trágicas.

Durante a pandemia de Covid-19, Jair Bolsonaro, seu governo, seus parlamentares, influenciadores e militantes transformaram a maior crise sanitária do século em guerra ideológica.

Atacaram vacinas. Ridicularizaram máscaras. Sabotaram medidas de isolamento. Transformaram cloroquina em amuleto político. Espalharam a suspeita criminosa de que imunizantes produzidos com participação chinesa serviriam para inocular a morte nos brasileiros.

O resultado foi devastador. O Brasil figurou, em vários períodos de 2021, entre os países com maior número de mortes diárias por Covid-19 no mundo. A máquina de desinformação bolsonarista contribuiu, e muito, para esse desastre.

Agora, em maio de 2026, o país assiste a uma versão menor, grotesca, mas reveladora do mesmo método.

A Anvisa suspendeu a fabricação, comercialização, distribuição e uso de lotes específicos de produtos da marca Ypê, incluindo lava-louças, lava-roupas líquidos e desinfetantes. A medida atingiu apenas produtos com lote final 1 e foi tomada após avaliação técnica sobre falhas no processo de fabricação, controle de qualidade e garantia sanitária.

Uma decisão sanitária virou guerra cultural.

Nas redes bolsonaristas, a medida passou a ser tratada como perseguição política. O argumento era delirante: como os donos da empresa teriam feito doação à campanha de Jair Bolsonaro em 2022, a Anvisa estaria agindo para punir uma empresa “de direita”.

A realidade, para a extrema direita, é apenas matéria-prima para a mentira.

Não bebam detergente

A cena é tão absurda que parece caricatura. Mas é real.

O ministro da Saúde — médico infectologista e doutor em Saúde Pública pela Unicamp — precisou vir a público para fazer uma advertência elementar a adultos politicamente intoxicados pela máquina bolsonarista: Não bebam detergente.

Um ministro da Saúde precisou alertar pessoas para que não ingerissem produto de limpeza em vídeos de protesto contra uma decisão sanitária.

Não eram crianças desavisadas. Eram militantes políticos tentando provar, diante das câmeras, que a Anvisa, o governo, a ciência ou “os lulistas-petistas-comunistas” estariam mentindo.

Na pandemia, a cloroquina funcionava como senha de pertencimento. Não importava o que diziam médicos, pesquisadores, universidades ou hospitais. O importante era demonstrar fidelidade ao líder. Resultado: 700 mil mortos, 400 mil dos quais poderiam ser salvos da Covid se o governo Bolsonaro tivesse adquirido vacinas em tempo.

Agora, o detergente cumpre função semelhante.

Não importa se a Anvisa identificou risco em lotes específicos. Não importa se o alerta é técnico. Não importa se produtos de limpeza jamais devem ser ingeridos.

O que importa é desafiar o “sistema”, a “esquerda”, a “Anvisa”, “Lula”, “os comunistas”. Sobretudo em plena campanha eleitoral ainda em empate técnica entre Lula e o filho de Jair Bolsonaro, o 01 Flávio Bolsonaro.

A loucura não é acidente. E continua sendo método da extrema-direita bolsonarista contra a possibilidade de reeleição de Lula.

Quando o delírio vira política oficial

O caso ficou ainda mais grave quando a insanidade saiu da margem e entrou no centro do poder político.

O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, do PL — o partido da extrema-direita bolsonarista — gravou vídeo defendendo a Ypê, lavando louça com produtos da marca e dizendo que era preciso “acabar com essa sacanagem” contra uma empresa “100% brasileira”.

O deputado federal Fernando Máximo(PL-RO), desafiou as determinações da Anvisa e gravou vídeo incentivando o uso do produto proibido. E olha que ele é cristão, casado, defensor da família e médico cirurgião.

Não estamos falando apenas de militante anônimo em busca de curtidas. Estamos falando de uma autoridade pública, vice-prefeito da maior cidade do país, transformando uma decisão sanitária em peça de propaganda política.

A mensagem enviada à base é clara: desconfiem da Anvisa; desconfiem da fiscalização; desconfiem da ciência; fiquem do lado “dos nossos”.

É assim que o delírio deixa de ser espontâneo e passa a ser organizado.

Um órgão técnico identifica um risco. Um político sugere perseguição. Um influenciador transforma a suspeita em meme. Um militante radicaliza o gesto. Os algoritmos amplificam.

Em poucas horas, uma medida sanitária sobre lotes específicos vira conspiração comunista.

Foi assim com a Covid. Está sendo assim com o detergente.

Da loucura ao possível crime

A irresponsabilidade chegou a tal ponto que o caso saiu das redes sociais e bateu à porta da Procuradoria-Geral da República.

O deputado federal Rogério Correia, do PT de Minas Gerais, acionou a PGR para pedir investigação criminal contra o senador Cleitinho Azevedo, o deputado federal Nikolas Ferreira, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o empresário Luciano Hang.

Segundo a representação, eles podem ter cometido crimes de perigo para a vida ou saúde de outrem, incitação ao crime e infração de medida sanitária preventiva ao estimular o uso e a compra de produtos atingidos por alertas sanitários da Anvisa.

A peça descreve com precisão o método bolsonarista: transformar a cautela em fraqueza, a fiscalização em perseguição e o consumo do produto em prova de identidade política.

É exatamente isso.

A extrema direita pegou uma medida sanitária preventiva e a converteu em palanque eleitoral. Pegou uma agência técnica e a apresentou como inimiga política. Pegou um alerta de saúde pública e o transformou em gesto de fidelidade ideológica.

Quando uma autoridade pública, liderança política ou figura de grande audiência digital desqualifica a Anvisa e estimula a população a ignorar alertas técnicos, ela não está apenas fazendo militância.

Está desmontando a barreira mínima de proteção coletiva que separa uma sociedade civilizada do vale-tudo da desinformação.

A loucura, agora, pode ter consequência jurídica.

O que leva milhares de pessoas a acreditar, defender e espalhar tamanha sandice?

A resposta não está apenas na ignorância. Está na captura política da realidade.

O bolsonarismo construiu, ao longo de anos, uma comunidade emocional baseada na desconfiança permanente. Contra a imprensa. Contra universidades. Contra a Ciência e cientistas. Contra o Supremo. Contra as urnas. Contra a Anvisa. Contra qualquer instituição que imponha algum limite entre a fantasia política e o mundo concreto.

Quando uma agência sanitária diz que determinado lote pode representar risco, a reação normal seria prudência.

A reação bolsonarista é outra: suspeitar de perseguição, enxergar comunismo, transformar bactéria em conspiração.

A extrema direita ensinou sua base a desconfiar de tudo que protege a vida e a confiar em tudo que confirma sua identidade política.

Foi assim na pandemia.

A vacina virou ameaça. A máscara virou submissão. A cloroquina virou coragem. O isolamento virou ditadura. A ciência virou inimiga. A morte virou estatística incômoda.

Agora, em escala menor, mas com a mesma lógica, o detergente virou novo totem da militância.

Não é apenas produto de limpeza. É prova de obediência. É ritual de pertencimento. É demonstração pública de que o militante aceita qualquer absurdo, desde que o absurdo venha embalado como desafio à esquerda, ao governo, à ciência ou ao Estado.

Escravos do absurdo

Há uma pergunta ainda mais incômoda: até onde a extrema direita bolsonarista é capaz de ir para manter milhões de pessoas aprisionadas numa realidade paralela?

A resposta já foi dada.

Foi capaz de estimular desconfiança contra vacinas. Foi capaz de sabotar medidas sanitárias. Foi capaz de transformar remédio ineficaz em símbolo de fé política. Foi capaz de tratar a morte como efeito colateral de uma guerra ideológica.

Agora, é capaz de transformar uma decisão técnica da Anvisa sobre lotes específicos de produtos de limpeza em conspiração comunista.

Não se trata apenas de ignorância.

Trata-se de dominação.

A extrema direita não quer apenas eleitores. Quer fiéis cativos. Quer pessoas treinadas para acreditar no inacreditável, repetir o absurdo, defender o indefensável e reagir como tropa sempre que o comando ideológico é acionado.

O eleitor não pode descansar. Não pode refletir. Não pode duvidar. Precisa acreditar que está sempre sob ataque: pela China, pelas vacinas, pelas urnas, pelo Supremo, pela imprensa, pela Anvisa, por Lula, pelo comunismo.

É assim que se fabricam votos cativos.

A pessoa deixa de votar por programa, salário, emprego, comida, escola, saúde ou futuro. Passa a votar por pertencimento tribal. Vota para defender “os seus” contra um inimigo imaginário.

Vota contra a realidade. Vota contra a própria proteção. Vota até contra a própria saúde.

A loucura tem função eleitoral

Nada disso acontece no vazio.

O Brasil está em plena campanha eleitoral. A extrema direita tem um candidato competitivo contra Lula. Pesquisas recentes indicam empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em cenários de segundo turno.

É nesse ambiente que a loucura deixa de ser apenas espontânea e passa a ter função eleitoral.

Cada delírio compartilhado nas redes mantém a tropa mobilizada. Cada falso escândalo reforça a sensação de cerco. Cada teoria conspiratória impede que o eleitor bolsonarista olhe para os fatos concretos do país.

A política vira seita. A mentira vira identidade. O voto vira obediência.

Por isso a extrema direita precisa fabricar inimigos todos os dias. Se não há ameaça real, inventa-se uma. Se a Anvisa age tecnicamente, chama-se perseguição. Se há risco sanitário, chama-se comunismo. Se há bactéria, cria-se guerra cultural.

O objetivo não é esclarecer.

É aprisionar.

A máquina continua ligada

O episódio seria apenas ridículo se não fosse perigoso.

Mas é perigoso porque mostra que a extrema direita brasileira continua disposta a transformar qualquer assunto — até uma inspeção sanitária — em prova de fidelidade política.

Não importa se o tema é saúde pública, controle de qualidade, risco microbiológico ou proteção ao consumidor. Tudo precisa ser rebaixado à guerra entre “nós” e “eles”.

O bolsonarismo não produz apenas fake news. Produz uma forma de viver dentro da mentira.

Produz uma militância treinada para reagir antes de pensar, atacar antes de verificar, acreditar antes de saber.

O importante não é a verdade. É a sensação de pertencer a uma tropa em combate permanente.

Por isso o caso Ypê não deve ser tratado como folclore de rede social. Ele é sintoma. É miniatura de um país intoxicado por anos de negacionismo, ressentimento e guerra cultural.

A pandemia revelou o custo humano dessa máquina.

O detergente revela que a máquina continua ligada.

Da cloroquina ao detergente, o Brasil assiste à mesma epidemia: a epidemia política da loucura organizada.

E, em 2026, essa loucura tem objetivo claro: manter cativos os votos necessários para devolver a extrema direita ao Palácio do Planalto.

Do Brasil 247

Estadão aponta “baixa estatura moral” de Flávio Bolsonaro e cobra ruptura da direita com bolsonarismo

Editorial afirma que caso envolvendo Daniel Vorcaro expõe degradação ética do clã Bolsonaro e reforça necessidade de alternativa fora do bolsonarismo

O jornal O Estado de S. Paulo publicou nesta sexta-feira um duro editorial contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmando que o escândalo envolvendo pedidos milionários feitos ao banqueiro Daniel Vorcaro revelou a “baixa estatura moral” do parlamentar e tornou “urgente” que a direita brasileira se liberte do bolsonarismo.

No texto intitulado “O filme de terror de Flávio Bolsonaro”, o Estadão sustenta que o episódio envolvendo a tentativa de captação de recursos para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, não apenas expôs fragilidades políticas do senador, como também evidenciou uma degradação ética incompatível com alguém que pretende disputar a Presidência da República.

“O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência terminou mal”, afirma o editorial. Para o jornal, a revelação de que Flávio cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro recursos equivalentes a US$ 24 milhões “escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República”.

Direita “democrática” deve romper com Bolsonaro, diz jornal

O Estadão defende que o episódio sirva como ponto de inflexão para setores conservadores que ainda orbitam o bolsonarismo. Segundo o jornal, a direita precisa construir uma alternativa “séria” e comprometida com a Constituição.

“Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência”, escreveu o jornal.

Na avaliação do periódico, Jair Bolsonaro e seu entorno político carregam uma trajetória marcada por “vocação antidemocrática”, além de sucessivos escândalos e da “confusão deliberada entre público e privado”.

Relação com Vorcaro amplia desgaste

O editorial destaca as conversas reveladas pelo Intercept Brasil e confirmadas pelo próprio Estadão, nas quais Flávio Bolsonaro aparece negociando diretamente com Daniel Vorcaro, banqueiro investigado pela Polícia Federal.

Segundo os documentos citados, Flávio teria solicitado US$ 24 milhões para financiar o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro, dos quais cerca de US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.

O jornal observa que o senador inicialmente negou a informação e classificou as denúncias como “mentira”, mas depois admitiu que pediu o dinheiro, alegando tratar-se de uma relação privada.

Para o Estadão, no entanto, o problema não é a natureza privada da negociação, mas a origem dos recursos.

“Pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos”, diz o editorial.

O jornal lembra que Daniel Vorcaro é investigado pela PF por supostas fraudes financeiras envolvendo fundos de previdência de servidores públicos e operações ligadas ao Banco de Brasília (BRB).

“Irmão, estou e estarei contigo sempre”

O editorial também enfatiza o conteúdo das mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Em um dos diálogos citados, o senador escreve ao banqueiro:

“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente.”

Segundo o Estadão, a frase demonstra uma relação de proximidade e confiança incompatível com a postura esperada de um pré-candidato à Presidência diante de um empresário investigado.

“A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual ‘gratidão política’ envolvidas naquela negociação”, afirma o texto.

Contradições aprofundam suspeitas

O jornal também critica as explicações dadas por aliados bolsonaristas após a divulgação do caso. O deputado Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do filme “Dark Horse”, afirmou que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”.

Para o Estadão, a declaração apenas agravou as suspeitas.

“Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?”, questiona o editorial.

Suspeitas de caixa dois e lavagem de dinheiro

Embora afirme não antecipar julgamentos, o Estadão sustenta que as circunstâncias do caso levantam suspeitas graves envolvendo possíveis crimes financeiros.

“Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito”, escreveu o jornal.

O editorial conclui afirmando que Flávio Bolsonaro ainda não apresentou explicações convincentes à sociedade e preferiu reagir “mentindo, atacando a imprensa e zombando da inteligência alheia”.

Do Brasil 247

Flávio Bolsonaro virou zumbi e Eduardo Bolsonaro entrou na mira da PF

O navio do bolsonarismo começou a afundar e o naufrágio é irreversível

Por Leonardo Attuch

O bolsonarismo entrou em sua fase terminal. O que se vê agora não é mais um projeto político em expansão, mas um agrupamento em decomposição, corroído por denúncias, disputas internas, dependência financeira obscura e crescente isolamento político. O vazamento das mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma fissura irreparável no núcleo do clã e produziu um efeito devastador: o herdeiro político escolhido por Jair Bolsonaro passou a ser visto, até mesmo entre aliados, como um cadáver eleitoral ambulante. Um zumbi político.

Mas talvez o aspecto mais explosivo dessa crise ainda esteja por vir. Uma investigação séria da Polícia Federal sobre o destino dos recursos transferidos a um fundo texano administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro provavelmente caminhará para um ponto inevitável: descobrir o destino real dos recursos movimentados no entorno do clã. E há fortes razões para supor que Eduardo Bolsonaro esteja no centro dessa engrenagem.

Nos Estados Unidos, Eduardo tem mantido uma vida de luxo e não apenas atuou sistematicamente contra os interesses nacionais como também se transformou em operador de interesses estrangeiros dentro da política brasileira. Enquanto o Brasil buscava preservar relações diplomáticas minimamente equilibradas, o filho de Jair Bolsonaro fazia campanha aberta em favor de tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Mais grave ainda: atuou politicamente para estimular sanções internacionais contra ministros do Supremo Tribunal Federal, defendendo a aplicação da chamada Lei Magnitsky – instrumento utilizado pelos EUA para punir governos e autoridades estrangeiras.

 

Trata-se de um comportamento sem precedentes na história política brasileira recente. Nunca um parlamentar nacional trabalhou de maneira tão explícita para fragilizar instituições do próprio país perante potências estrangeiras. Eduardo cruzou a fronteira da oposição política tradicional e passou a atuar como agente de sabotagem institucional, podendo ter sido financiado por Daniel Vorcaro.

A nota divulgada por Eduardo Bolsonaro, longe de encerrar a crise, ampliou as suspeitas. O texto não explica adequadamente a utilização do fundo criado por seu advogado nem esclarece o destino dos recursos arrecadados. Pior: ao mencionar que o filme Dark Horse envolvia a cessão de seus direitos de imagem, Eduardo praticamente construiu um álibi preventivo para justificar movimentações financeiras que venham a ser eventualmente descobertas.

Ou seja: em vez de afastar dúvidas, a nota parece antecipar uma linha de defesa. E isso, naturalmente, tende a aumentar o interesse investigativo sobre os mecanismos financeiros utilizados pelo entorno bolsonarista.

Enquanto isso, o desespero tomou conta dos aliados de Flávio Bolsonaro. Lideranças do Centrão e setores do mercado financeiro já começaram a discutir abertamente uma alternativa eleitoral para a direita pós-Flávio. A fórmula imaginada é unir o agronegócio ao fanatismo religioso numa chapa formada por Tereza Cristina e Michelle Bolsonaro. Tereza representaria os interesses do agro e do grande capital rural. Michelle entraria como ponte com o eleitorado evangélico radicalizado. A operação revela o grau de pragmatismo – e de cinismo – das forças conservadoras brasileiras, sempre dispostas a reorganizar seus ativos eleitorais quando um projeto entra em colapso.

Mas existe um problema estrutural nessa engenharia: Jair Bolsonaro jamais confiaria plenamente nessa dupla. Porque Bolsonaro nunca enxergou a política como projeto ideológico ou partidário. Para ele, política sempre foi negócio de família. Um empreendimento patrimonial controlado pelo clã. E, nesse modelo, apenas um Bolsonaro pode ocupar o centro do poder.

É justamente aí que surge o drama de Flávio Bolsonaro. O senador vive hoje um dilema de difícil solução. Pode continuar como candidato-zumbi, e manter artificialmente uma candidatura que morreu antes de se consolidar, correndo inclusive o risco de perder o foro privilegiado – o que pode deixá-lo ainda mais vulnerável judicialmente. Ou pode desistir e contribuir, de forma definitiva, para o enterro do bolsonarismo. Nenhuma das alternativas oferece salvação.

O fato incontestável é que o navio começou a afundar. E o naufrágio é inevitável.

Confira a análise em vídeo:

 

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.

Do Brasil 247

Marcelo Freixo destrói Flávio Rachadinha Vorcaro da Nóbrega Bolsonaro

Cara de pau! Foi isso que o ex-deputado federal e ex-superintendente da Embratur, Marcelo Freixo (PT), disse sobre as falas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em entrevista à Globo News. Freixo destruiu o futuro ex-pre-candidato à presidência da República. Flávio Bolsonaro tem histórico de relações com milicianos, inclusive contratado familiares do chefe do crime organizado Adriano da Nóbrega que foi morto na Bahia em circunstâncias não esclarecidas. Freixo disse que Jair Bolsonaro não é herói coisa nenhuma. “Está preso porque cometeu crimes. Flávio Bolsonaro está todo enrolado e terá que explicar muitas coisas”, disse Freixo.

Durante entrevista o senador Flávio Bolsonaro acabou entregando o irmão, Eduardo Bolsonaro, ao tentar explicar na GloboNews o destino dos recursos usados para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio afirmou que os R$ 61 milhões pagos pelo banqueiro Daniel Vorcaro foram destinados a um fundo administrado nos Estados Unidos pelo advogado de Eduardo Bolsonaro. Segundo reportagem do Intercept Brasil, os recursos pagos por Vorcaro passaram pela empresa Entre Investimentos e Participações e pelo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas e representado pelo advogado Paulo Calixto, ligado a Eduardo Bolsonaro.

Assistam ao vídeo na RKTV ou pelo YouTube.

Coluna Zona Franca

Os “novos” tempos modernos

0

No primeiro livro de 2026 abordei dois aspectos da realidade, dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o Capitalismo digital e a uberização social.

Esse livro foi, literalmente, construído em sala de aula, nesse semestre que ainda tem metade do seu andamento pela frente. Com a proposição do tema, de algumas intercorrências que vinha pensando desde 2025, e com a participação dos alunos e alunas, promovendo provocações na forma de pensar, pude encontrar pontos que ainda estavam obscuros para mim.

Portanto, faço aqui uma homenagem e dedico um agradecimento a todos que participaram, no intuito de elevarmos os marcos iniciais dessa discussão.

Na verdade, todos os pontos entre o Capitalismo digital e a uberização permanecem obscuros, mas, hoje, conseguimos ver um pouco melhor. Nessa seara, talvez, nunca estaremos sob o Sol do meio dia – claro e límpido, como um Céu de Brigadeiro –, porém, já posicionamos nosso esforço analítico e político no meio do claro/escuro, do lusco-fusco das dezoito horas em que mal sabíamos se era dia ou noite.

Quanto ao Capitalismo digital entendo, num resumo rápido, haver a presença hegemônica do capital financeiro – com suporte no passado, do Pensamento Escravista atuante, e no presente da economia de dados (monetização digital) – e a constância dos Grupos Hegemônicos de Poder organizados em torno do antigo BBB: bancadas da bíblia, do boi, da bala.

Em relação à uberização social entendo a extrema fragmentação das relações sociais e a brutal precarização no Mundo do Trabalho. Porém, destaco uma imbricação entre a uberização, mas num sentido mais amplo.

Como real captura das subjetividades humanas pelo capital, num profundo estranhamento societal, econômico, social, cultural, político, a uberização social se ajusta perfeitamente à exploração de todos nós que circulamos pelas redes sociais – ou antissociais. Um fenômeno particular dos nossos “novos” tempos modernos conhecido como “servilismo voluntário”.

A dissolução dessas situações de aviltamento social, humano, surgem muito distantes do horizonte, uma vez que vemos atuarem as principais condições e forças do capital, em sua constituição hegemônica, isto é, são condições alçadas como impositivas e determinadas.

Tal como a consciência política de quem se encontre sob os piores tipos de exploração no trabalho, na produção intelectual e ainda na constância da imposta “compra e venda da força de trabalho”, há um campo de luta na Educação Pública que podemos/devemos explorar.

Assim, combater a propagação e a “normalização dos males” impostos pelo Capitalismo digital e pela uberização social se torna uma urgência na Educação Pública, com critérios técnicos – tal como sugerimos alguns no livro –, e um amplo campo de luta política para os/as profissionais da educação.

A uberização social, no espectro de fruto mais recente do Capitalismo digital, fortalece-se também por meio de uma efetiva “normalização da exceção” e, obviamente, sem as regras de segurança jurídica. Essa seguridade está presente nas excepcionalidades resguardas nas políticas públicas, nas Políticas de Estado (saúde e educação), nas ações afirmativas, no conjunto complexo das institucionalidades que ofertam meios de equidade e que promovem a defesa das classes trabalhadoras e a Justiça Social.

Assim, para efeito de maior efeito de clareza conceitual e também como esforço didático, recorto o livro nas sete perguntas listadas abaixo:

Educação crítica à uberização

  1. Do que trata a obra?

O livro, já nos formatos Kindle e impresso (acessível na Amazon: https://a.co/d/0cV60SjP), trata de dois conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade: o Capitalismo digital e a uberização social. O propósito, além de entender melhor a nossa realidade, é pensar na proposição de uma Educação que fosse crítica a esses processos, especialmente a uberização social – uma vez que está presente a vida de todos nós, sem que tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o “servilismo voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou quando acessa alguma rede social. Esses “dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito à perda total de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma de uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e empreendedorismo e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a autonomia frente à plataforma que também atua como meio de controle social.

  1. Como surgiu a ideia de fazer a obra?

Em meados de 2025, nas aulas de Licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças entre o capitalismo clássico (do pós revoluções industriais, do advento da chamada Maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao Toyotismo – as células de produção, ao invés da linha de produção (Fordismo: notável nos Tempos Modernos, de Charles Chaplin) – e os nossos “Tempos Modernos”, sempre esteve no repertório conceitual a incidência do Capitalismo de dados: a monetização a partir das redes sociais, a compra e venda de dados pessoais digitalizados. Porém, em seguida, me deparei com a insuficiência dessa base analítica. A massa crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o presente, no Brasil, e isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no escopo do capitalismo brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo. Além disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto com o setor financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB (bancadas da bíblia, do boi e da bala) a hegemonia do capital mudou de cara, hoje está assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o novo BBB”). Assim começou nossa reflexão, lá em 2025, até chegarmos em ponderações que tudo isso se combina com a uberização social e com o servilismo voluntário, em 2026 – também atuando na Licenciatura.

  1. O que podemos entender por uberização nas relações de trabalho?

Basicamente, trata-se da máxima exploração das classes trabalhadoras (agora, em parte, uberizadas) e da total insegurança jurídica: as plataformas contratantes da mão de obra uberizada não tem nenhum vínculo trabalhista, não se comprometem com nenhum direito assegurado, inclusive, constitucionalmente. É interessante lermos o artigo 7º da Constituição de 1988, na esteira dos direitos sociais fundamentais, e assim compararmos com a realidade laboral, existencial, de qualquer motorista uberizado/a ou entregador/a como mototáxi. Do ponto de vista jurídico e de quem é explorado/a (controlado/a em todos os passos), nossa observação verifica um quadro que poderíamos chamar de “escravidão moderna”. Aliás, não será coincidência a implicância regular, diária, da “exploração do trabalho em condições análogas à escravidão” – como nos diz a mesma Lei Constitucional.

  1. E como as plataformas digitais contribuem com esse cenário?

As plataformas contribuem magistralmente com esse cenário porque foram elas que redigiram ou implementaram os algoritmos que tanto servem ao controle social – no caso específico de quem está sob Júdice da uberização –, quanto lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje. A margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode facilmente vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em cada corrida ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe 10 reais destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de cancelamento de uma corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se o/a passageiro/a assim o desejar – recebe pouco mais de três reais. Isso a depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela prestação de serviço uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo cancelamento talvez nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas plataformas, todas elas, só vigora porque está listada nas prioridades hegemonizadas do “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.

 

  1. A obra possui pesquisa empírica? Se sim, qual foi objeto pesquisado?

A maior pesquisa empírica se deu – e ainda permanecerá por muito tempo, porque não dirijo – nas minhas viagens de Uber, nas conversas insistentes que tenho com essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade fragmentada). Sempre pergunto sobre as condições de trabalho, sempre destaco o quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem nenhuma contrapartida. Aliás, um dos apêndices do livro traz precisamente algumas narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de Uber, na forma de crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena etnografia nessa minha conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas histórias que narrei no livro são verdadeiras “lições de vida”.

  1. A quem essa obra é direcionada?

Não há um público específico, pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação, reaparição do passado brasileiro e sempre atua como fantasma do presente: a mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão (prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao gosto da nossa classe média.

  1. No que ela contribui para a ciência?

Além de tudo que expus, chamaria atenção para a necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”. Muitos outros aspectos poderiam, deveriam, ser somados a esse conceito (refundado) de Capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados componentes façam parte do nosso corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em termos de Ciência Social dirigida ao século XXI. Comparativamente, não há como tratar o Mundo do Trabalho, na China, sem destacar em primeiro plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6 (trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana). Ironicamente, ao menos partes desse inventário é copiado pelo Anarcocapitalismo de Milei, na Argentina. E o segundo conceito, que é a uberização social. Neste caso, no entanto, abro parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o intuito de transcender a exploração brutalizada do Mundo do Trabalho (neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a Ciência Social que me propus a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um café expresso.

A referência bibliográfica correta segue abaixo:

  • MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e da uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.

Fim da linha: Flávio Bolsonaro negociou R$ 134 milhões com Vorcaro para filme sobre Bolsonaro, diz Intercept

Mensagens, áudios e documentos obtidos pela reportagem indicam que dono do Banco Master teria bancado parte da produção internacional de “Dark Horse”

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje pré-candidato à Presidência da República, negociou diretamente com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, um financiamento de 24 milhões de dólares — cerca de R$ 134 milhões à época — para a produção de Dark Horse, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. A revelação foi feita pelo Intercept Brasil, que obteve mensagens, áudios, documentos e comprovantes bancários relacionados ao caso.

Segundo a reportagem, ao menos 10,6 milhões de dólares — aproximadamente R$ 61 milhões, conforme a cotação nos períodos das transferências — teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações. Os recursos teriam sido destinados ao fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro.

Entre os registros obtidos pelo Intercept está uma mensagem enviada por Flávio Bolsonaro a Vorcaro em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão do banqueiro. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador.

Vorcaro foi preso no dia seguinte, acusado de operar um esquema de fraude que teria provocado um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito. Em 18 de novembro, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central.

Mensagens trocadas entre Vorcaro e Flávio Bolsonaro

A reportagem afirma que as negociações envolveram também Eduardo Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias e intermediários como o empresário Thiago Miranda e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro de Vorcaro.

Flávio nega informação e chama acusação de mentira

Questionado presencialmente pelo Intercept nesta quarta-feira, 13, sobre o financiamento de Vorcaro ao filme, Flávio Bolsonaro respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida, riu e deixou o local onde concedia entrevista à imprensa, nas proximidades do Supremo Tribunal Federal.

O senador já havia negado vínculos entre sua família, a extrema direita e o Banco Master. Ao comentar anteriormente uma doação de R$ 3 milhões feita pelo cunhado de Vorcaro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN que a contribuição ocorreu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”. Também afirmou: “Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”.

Áudio cita risco de “calote” em atores e diretor

Em setembro de 2025, segundo o Intercept, Flávio enviou um áudio a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de paralisação da produção. O senador mencionou o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus, os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio.

Em outro trecho, o senador disse: “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”.

Pagamentos teriam sido feitos por empresa ligada à operação

De acordo com os documentos analisados pelo Intercept, parte do dinheiro teria sido transferida pela Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP. Um comprovante de 14 de fevereiro de 2025 registra uma ordem de pagamento internacional de 2 milhões de dólares.

O fundo, segundo documentos societários citados pela reportagem, foi registrado no Texas e tem como agente legal o escritório de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. O corretor de imóveis Altieris Santana também aparece vinculado ao fundo.

“Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”

As mensagens mostram que, em outubro e novembro, Flávio voltou a cobrar Vorcaro sobre o andamento dos repasses. Em 7 de novembro, após enviar ao banqueiro um vídeo de visualização única, escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Vorcaro respondeu: “Que demais” e, em seguida, “Ficou perfeito”.

O Intercept informou que procurou Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Eduardo Bolsonaro, Mario Frias, Thiago Miranda, Fabiano Zettel, Paulo Calixto, Altieris Santana, Jim Caviezel, Cyrus Nowrasteh e Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil. Até a publicação da reportagem, não houve respostas da maioria dos citados.

O ator Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia de Dark Horse para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial que Flávio Bolsonaro pretende disputar.

Do Brasil 247

O Bom Senso e o efeito extrator do senso comum

0

@viniciocarrilhomartinez

 

Esse é um dos temas da aula de hoje, na pós-graduação. Porém, note-se que se trata de um fenômeno social, cultural, que está presente na vida de todos nós. Não se faz distinção quando o tema em pauta é a falta de noção ou de equilíbrio ou, no seu oposto, quando prepondera uma “justa razão”.

Veremos que se alinham, num Pensamento Crítico, a necessária aparição de um determinado Pensamento Sociológico e a obrigatória atuação do Pensamento Cientifico.

Em primeiro lugar, destacamos que alguma diferença há entre o senso comum e o Bom Senso, e o que podemos fazer em relação ao primeiro, sobretudo enquanto profissionais da educação: trata-se de demover o senso comum, a mesmice, a repetição infindável.

Em consequência, em segundo lugar, há que se ressaltar que são condicionantes diferentes, até opostas e excludentes, atuando no âmbito da cultura popular – quando opomos o senso comum diante do Bom Senso. Outrossim, é preciso lembrar que o mesmo indivíduo pode oscilar entre um e outro, do senso comum ao Bom Senso e vice-versa, no decorrer do mesmo dia, no instante da mesma conversa.

Nesse escopo, pode-se trazer a ideia de que o Bom Senso tem um efeito extrator no fluxo comum e contínuo do senso comum: retirando-se do miolo parvo uma sentença de Prudência, cautela, prevenção, razoabilidade, proporcionalidade, isto é, provocando-se o destaque afirmativo da presença atuante da racionalidade (de uma “justa razão”, como se dizia no Renascimento para justificar a Razão de Estado).

Fazer atuar essa “justa razão”, diante dos fatos corriqueiros da vida social, é o principal objetivo desse “efeito extrator do senso comum”: buscar um núcleo de ponderação, de afirmação da própria Inteligência Social.

Vejamos na oposição de dois ditados populares:

  • Senso comum: “Deixar como está, para ver como é que fica”.
  • Bom Senso (extrator de relevância do senso comum): “A palavra convence, o exemplo arrasta”.

Também condiz com o Bom Senso afirmar que: “Quem avisa, amigo é”.

Por outro lado, pelo senso comum (da religiosidade) se diz que: “Deus ajuda a quem madruga”.

  • O que é absurdamente incorreto, diante da imposição da Luta de classes racista e que se apresenta visível tanto ao indivíduo comum quanto ao Cientista Social.
  • E, assim, responderá o Bom Senso (consciente da luta de classes): “Quem trabalha, não tem tempo de ganhar dinheiro”.
  • E ainda que seja o mesmo Bom Senso revelador de outro fato óbvio: “Quem faz o que gosta, não se cansa”.

Por fim, nesse breve escorço conceitual, pensemos numa Provocação:

  • “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.
  • Esse é um Exemplo de Realpolitik.

Esse último ditado popular esconde o senso comum da obediência, mesmo diante das ordens ilegais, das imposições injustas, das determinações ilegítimas.

Esconde-se neste senso comum a passividade, a quase obediência cega, e, do outro lado, normalizam-se o assédio e o abuso de poder.

 

Faculdade Pública

0

Há um senso comum que associa Universidade Pública com “Faculdade pública”, o que não está correto. Além disso, aproveitando-se desse senso comum, é sobre a confusão que atuam os “inimigos combatentes” da Universidade Pública e da Universidade Federal, mais particularmente.

Desse modo, esse texto foi desenvolvido com o objetivo claro, direto, inequívoco, da defesa intransigente da Universidade Pública, e mais especificamente, com enfoque na identificação e afirmação da Universidade Federal – observando-se, por óbvio, que Universidade decorre do Princípio da Universalidade. E o que se universaliza é a formação de sujeitos do conhecimento capazes da luta política em defesa do mesmo conhecimento e de si e das instituições públicas que o promovem livremente, de forma democrática e republicana.

Mas, então, o que é Faculdade pública?

Não se trata aqui da “Faculdade”, como instituição que oferta cursos de graduação, e mesmo que seja regulada pelo Estado. Essa “Faculdade”, via de regra, refere-se a alguma instituição de ensino superior que não tem o lastro da Universidade Pública – e nem mesmo de um Centro Universitário.

Não é disso que tratamos, mas, tem concomitância com a capacidade humana[1], consubstanciada no poder, na legitimidade, na possibilidade efetiva de agir ou de requerer[2]. E como se forma esse ser capaz de agir, na forma de sujeito de direitos, ou melhor, enquanto seja um sujeito do conhecimento e com capacidade jurídica e técnica para se manifestar publicamente?

Da condição para ser

Se fôssemos pensar, inicialmente, numa Epistemologia Política da Educação Básica – além do sentido usual, do início da escolarização – teríamos campo para pensar muito basicamente mesmo, ou seja, aquela formação social, cultural, institucional que nos ensina alguns limites entre o certo e o errado, assim como aprendemos, nessa fase da vida, o que está dentro e o que está fora ou as diferenças entre o alto e o baixo.

Neste caso, a Educação básica teria uma lógica entre a casa e a rua, da casa para o espaço público. Isso é fundamental porque é nessa tenra idade que se forma consciência inata ao sujeito de direitos, como sujeito capaz de agir e de requerer, dotado de clarividência diante dos fatos, com leitura prévia acerca da realidade – por exemplo, isso existe, isso é inexistente. E, desse modo, podemos preliminarmente definir esse conjunto como “Faculdade pública”.

Quem tem a Faculdade pública? São os sujeitos capazes, legitimados, dotados de racionalidade avaliativa que os permite identificar objetos lícitos, por conseguinte

Da descrição básica

As denominadas condições da ação[3] requerem uma “capacidade jurídica para agir”, especialmente se considerarmos a figura do sujeito de direitos (com direitos e obrigações) em concomitância com a afirmação da condição humana – e esta requer observarmos três fontes: razão, liberdade, vontade. Na concepção moderna, valendo-se da perspectiva de uma “personalidade jurídica da natureza” – em que animais são tidos como tutelados por direitos, notadamente os que são portadores de senciência, tanto quanto rios são alçados à condição de sujeitos de direitos[4] – e do desenvolvimento tecnológico (biotecnologias, clonagem, bioética) estão em simbiose de aproximação o “sujeito ético e o sujeito de direitos”[5]. Como se vê, essas condições não dizem mais respeito unicamente à individuação do sujeito de direitos, uma vez que lhe impõe a obrigação de se adequar ao objeto estendido da própria personalidade jurídica – agora, o Humano tem que compartilhar direitos com a obrigação inequívoca de abster-se diante da possibilidade de afetar negativamente os direitos dos animais e da natureza – já se tinha essa mesma pretensão em virtude dos inamovíveis “direitos da humanidade”, consoante a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.

Kant (1990) definiu o Iluminismo como a saída do ser humano do estado de não-emancipação: não-emancipação como sendo a incapacidade de fazer uso de sua razão sem recorrer a outros, condição própria do aneu logou, daquele que é tutelado[6]. Para Kant, têm-se culpa na não-emancipação quando ela não advém de falta da razão, mas sim da falta de decisão e de coragem para usar-se da própria razão sem as instruções ou ordens de outrem. Daí que a maioridade só advém com o Sapere aude! (ouse saber!): “Age sempre de maneira a tratares a humanidade em ti e nos outros sempre ao mesmo tempo como um fim e jamais como um simples meio” (segunda regra).

A capacidade moral para se entender a legitimidade

Um demonstrativo dessa reflexão está posto nas investigações de Jean Piaget. Para o educador suíço, a principal diferença entre moral e direito está no fato de que a primeira se estabelece de pessoa a pessoa e o “jurídico” nos obriga, como seres sociais, a orientar nossos sentimentos e ações a transcender em direção ao impessoal. Trata-se do próprio sentimento de pertencimento à Humanidade, como Princípio Civilizatório, de se reconhecer como membro da sociedade humana apenas se e, tão-só, quando nos reconhecemos como sujeitos de direito a partir da relação que estabelecemos com os demais sujeitos que compõem o meio social. Quando temos a maturidade intelectual e moral para entender que somos sujeitos de direitos apenas se os outros ao nosso redor têm o mesmo status jurídico, ou seja, quando superamos a primeira infância do individualismo jurídico, do egoísmo social e da menoridade moral:

A moral, assim como o direito, supõe um poder ou uma autoridade inicial, com passagem possível desta heteronomia para uma autonomia gradual e, aliás, sempre relativa. Amas repousam sobre uma construção criadora feita ao mesmo tempo de aplicação e de publicação em éditos contínuos das normas. Ambas implicam relações bilaterais imperativo-atributivas e ambas oscilam entre as relações assimétricas ou de hierarquia e as relações simétricas ou de reciprocidade […] Quando […] Gurvitch fala de “emoções-leis”, de “convicções legais” ou de “fatos normativos”, trata-se de sentimentos interindividuais […] o sentimento interindividual mais característico da vida moral é o “respeito” […] O respeito é o sentimento complexo, formado por medo e afeição combinados […] os autores que procuraram descrever as fontes do direito em termos psicológicos ou sociais […] concordam todos ao falar do “reconhecimento” dos direitos, como se o fato de “reconhecer” sua validade constituísse o essencial do respeito à lei […] para uns, é o reconhecimento que acarreta a validade de uma norma e, consequentemente, seu caráter normativo ou obrigatório, enquanto para outros é a norma dada em si mesma que desperta nas consciências o sentimento de seu reconhecimento […] a experiência jurídica imediata deveria ser interpretada não em linguagem individualista, mas em termos de relações comunitárias no sentido da “comunhão” interindividual […] não podemos viver com outra pessoa sem “reconhecer” seus direitos […] O reconhecimento é, pois, o sentimento jurídico elementar; é um “ato intuitivo” e não “refletido”, isto é, um dado e não uma construção […] Em outras palavras, uma coação bruta, que seria força pura, não reveste por si mesma um “valor jurídico” […] O que é, com efeito, uma norma fundamental que assegura sua validade primeira às normas de Estado supremas (às constituições), a não ser justamente a expressão abstrata do fato de que a sociedade “reconhece” válida a ordem jurídica reconhecida?[7]

A partir disso, temos que a conclusão de que reconhecer o direito é a essência da interação social, como reconhecimento da Humanidade.

Regras do jogo

Com o que temos que a Consciência pública decorre da capacidade moral, cognitiva e política, além da competência técnica – porquanto seja o domínio mínimo de conhecimentos universalizáveis –, exatamente, no sentido da ampliação da autonomia individual para sua transposição enquanto emancipação e que, obrigatoriamente, tem que ser pública, social, ampliando-se para além do ser individual. Então, do ponto de vista da maioridade, é obrigatório apresentar credenciais a fim de se interrogar a Universidade Pública.

Enfim e portanto, não se trata de “faculdade pública”, como alguém poderia supor, de alguma instituição confessional, municipal, de ensino – e muito menos da incapacidade moral, cognitiva, política de se atacar a Universidade Pública.

[1] Com significado equivalente à competência para fazer ou requerer: “Capacidade legalmente reconhecida de um sujeito de realizar um ato jurídico, seja esse sujeito uma pessoa do direito público (competência stricto sensu, relativa à criação, à aplicação ou à sanção das regras de direito) ou de direito privado (capacidade, direito, poder). ETIMOLOGIA: Do latim competentia, qualificação” (ARNAUD, André-Jean. Dicionário Enciclopédico de Teoria e de Sociologia do Direito. Rio de Janeiro: Renovar, 1999, 105).

[2] “FACULDADE: Derivado do latim facultas, de facul ou facilis (fácil), possui, ampla e genericamente, o significado do poder que se tem para que se faça alguma coisa, seja de ordem física ou de ordem moral. Nesta razão, em seu conceito jurídico, exprime a possibilidade de poder fazer ou agir, o que se entende ter autoridade para fazer alguma coisa ou agir de certa maneira para defesa ou aquisição de direitos, ou para o exercício de direitos” (SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. 19. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2002, p. 344).

[3] Objeto lícito (possibilidade jurídica do pedido), legitimidade para agir, interesse processual. O que requer, obviamente, a capacidade jurídica de agir do sujeito – e isso nos remete ao que se denominava de “plenas capacidades mentais ou cognitivas”.

[4] A primeira iniciativa legislativa é de Rondônia: https://umsoplaneta.globo.com/biodiversidade/noticia/2023/06/22/primeira-lei-no-brasil-que-da-direitos-a-um-rio-e-aprovada-em-municipio-de-roraima-na-amazonia.ghtml. Acesso em 11/05/2026.

[5] ALLAND, Denis; RIALS, Stéphane. Dicionário da Cultura Jurídica. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 1712- 1716.

[6] […] é perfeitamente possível que um público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase inevitável, se para tal lhe for dada liberdade. Com efeito, sempre haverá alguns que pensam por si, mesmo entre os tutores estabelecidos da grande massa que, após terem arrojado de si o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem para por si mesmo pensar […] um público só muito lentamente pode chegar à ilustração. Por meio de uma revolução poderá talvez levar-se a cabo a queda do despotismo pessoal e da opressão gananciosa ou dominadora, mas nunca uma verdadeira reforma do modo de pensar. Novos preconceitos, justamente como os antigos, servirão de rédeas à grande massa destituída de pensamento. Mas, para esta ilustração, nada mais se exige do que a liberdade… (KANT, I. A paz perpétua e outros opúsculos. Lisboa: Edições 70, 1990, p. 02).

[7] PIAGET, Jean. As relações entre a moral e o direito. In: FALCÃO, Joaquim; SOUTO, Cláudio. Sociologia & Direito. 2. ed. São Paulo: Pioneira, 2001, p. 139-147.

Hugo Motta promete aprovar PEC 6×1 ainda em maio e diz que medida é “defesa da família brasileira”

Presidente da Câmara reforçou aproximação com agenda defendida pelo governo do presidente Lula

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, afirmou neste domingo, Dia das Mães, que pretende aprovar ainda em maio a chamada PEC 6×1, proposta que reduz a jornada de trabalho e amplia o tempo de descanso dos trabalhadores brasileiros. Ao defender a medida, Motta classificou a proposta como uma pauta “humana” e de “defesa da família brasileira”.

A declaração foi feita após o parlamentar compartilhar nas redes sociais o vídeo viral da jovem Maria Luísa, que emocionou milhões de brasileiros ao relatar a rotina exaustiva de sua mãe solo, que acorda às 5h da manhã para trabalhar em eventos e sustentar as filhas.

Ao comentar a repercussão do vídeo, Hugo Motta associou diretamente a realidade vivida por milhares de mães brasileiras à necessidade de mudanças nas regras da jornada de trabalho no país.

“As mães vão ter mais tempo para ficar com os filhos. É uma pauta de defesa da família brasileira”, afirmou o presidente da Câmara.

Pauta é defendida pelo governo do presidente Lula

A proposta da PEC 6×1 vem sendo impulsionada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem defendido medidas voltadas à melhoria das condições de vida dos trabalhadores brasileiros, ao fortalecimento da renda e à valorização do convívio familiar.

Nos bastidores políticos, a sinalização de Hugo Motta em favor da proposta é vista como um gesto importante de aproximação com o Palácio do Planalto. O presidente da Câmara disputa a reeleição para mais um mandato de deputado federal e busca ampliar seu diálogo com o governo Lula em torno de pautas de forte apelo social.

A defesa pública da PEC também ocorre em um momento em que o governo intensifica sua agenda voltada ao trabalho, à proteção social e à recuperação do poder de compra das famílias brasileiras.

PEC 6×1 ganha força no Congresso

A proposta conhecida como PEC 6×1 tem ganhado apoio crescente nas redes sociais e no Congresso Nacional. O texto busca alterar o modelo tradicional de jornada de trabalho, reduzindo a carga semanal e garantindo mais dias de descanso aos trabalhadores.

O debate se intensificou nos últimos meses diante do aumento das discussões sobre saúde mental, qualidade de vida e equilíbrio entre trabalho e convivência familiar.

Ao prometer colocar a proposta em votação ainda em maio, Hugo Motta sinaliza que a Câmara pretende acelerar a tramitação de uma das pautas trabalhistas mais populares do momento.

Vídeo de Maria Luísa mobilizou o país

O vídeo compartilhado por Hugo Motta se tornou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais durante o fim de semana do Dia das Mães. Nele, Maria Luísa relata a rotina sacrificante da mãe, que trabalha diariamente em eventos para garantir o sustento das filhas.

O depoimento provocou forte comoção nacional e reacendeu o debate sobre as condições de trabalho enfrentadas por milhões de brasileiros, especialmente mulheres e mães solo.

A publicação de Motta utilizou o episódio como exemplo concreto da necessidade de mudanças estruturais no mercado de trabalho brasileiro, conectando a emoção gerada pelo relato à discussão política sobre a PEC.

Debate sobre jornada de trabalho cresce no Brasil

Nos últimos anos, experiências internacionais de redução da jornada de trabalho têm sido acompanhadas de perto por especialistas e parlamentares brasileiros. Defensores da PEC afirmam que a medida pode aumentar a produtividade, reduzir o adoecimento mental e fortalecer os vínculos familiares.

Críticos, por outro lado, argumentam que mudanças abruptas podem gerar impacto econômico para empresas e setores produtivos.

Mesmo diante das divergências, a pauta tem conquistado amplo apoio popular nas redes sociais, sobretudo entre trabalhadores que defendem melhores condições de vida e mais tempo de convivência familiar.

Com a declaração de Hugo Motta, o tema deve ganhar ainda mais protagonismo político nas próximas semanas na Câmara dos Deputados.

Do Brasil 247

Detergente mental

@viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga

 

Quando temos indivíduos lavando alimentos com detergente retirado de circulação no mercado porque contém bactérias letais, o negacionismo é absoluto. O indivíduo não nega apenas a informação relevante, ele nega qualquer informação que não esteja previamente programada em sua cabeça: a informação de que a empresa produtora de detergentes é líder de segmento, estando no mercado há décadas, é o que conta para a sua tomada de decisão.

Esse indivíduo está retido no passado, feliz com as informações inválidas que já detinha ou, talvez o pior, acredite em mensagens de outros indivíduos, iguais a ele, que produzem e divulgam informações irreais – sugerindo-se, por exemplo, que a bactéria é invenção de cientistas desocupados.

A semelhança com os que se denominavam de “autoimunes, auto vacinados”, frente ao vírus da COVID-19 não é ocasional, é linear. Não há que se esperar por uma resposta diferente se pensarmos em suscetibilidades e inclinações eleitorais. Esse indivíduo, facilmente, votará em quem o WhatsApp determinar.

É óbvio que há uma programação desde os algoritmos para que circulem determinações ideológicas favoráveis ou desfavoráveis, para este e contra aquele[1]. Esse indivíduo, nem é preciso perguntar, tem sua declaração de voto estampada na cédula do negacionismo.

Um dos problemas decorre das redes antissociais, que não apenas apartam os usuários das conexões sociais relevantes, indutoras da Interação Social, ao promover, financeiramente, os “conteúdos” digestivos da sociabilidade, como também inoculam a difusão de mensagens e postagens racistas, misóginas, fascistas.

A outra linha, que deve ser aprofundada em pesquisas e avaliações científicas, nos leva à educação praticada nessa parte inicial do século XXI. Como parte de uma engrenagem muito antiga, a educação se presta a repetir, decorar, fórmulas e construções verbais. Nada ou pouco que inspire reflexão séria, a partir de conteúdos solidificados pela humanidade por séculos, é ventilado na sala de aula.

Docentes são comemorados por seus slogans, numa mistura de animação, criando músicas para que os alunos decorem e “passem de ano ou no vestibular”. Decorar tabuada já era antiquíssimo há cinquenta anos, tanto quanto as musiquinhas que “animam o conhecimento”. Com a atenção de que são metodologias das mais antiquadas possíveis.

O ensino é inserido em uma espécie de espetacularização, aproximando a educação da lógica do consumo rápido de informações. Reduz-se, assim, a necessidade de construção reflexiva do pensamento, favorecendo a passividade, em uma dinâmica que enfraquece a autonomia crítica dos sujeitos e os acostuma à dopamina barata, em um cenário social que privilegia a reprodução de discursos e a manutenção de estruturas de subordinação intelectual.

Frente ao dinamismo tecnológico atual, com celulares que são computadores de mão – usados para tudo, menos para uma conversa efetiva, real –, aplicar essas metodologias (visando-se atender unicamente a forma, sem conteúdo algum) é pedir e esperar pelo fracasso.

Como se diz popularmente, “o mercado faz as escolhas” e, por certo, um indivíduo jovem que usa detergente contaminado com bactérias mortais para lavar alimentos têm poucas chances. Nesse caso do mercado, a seleção natural se daria a partir do mínimo de conhecimento resistente. Em alguns casos graves, como na COVID-19, o sinal é quebrado, fraco para ser percebido.

Portanto, não há exagero no título que demos: Detergente mental.

Com tantos espaços vazios entre as redes de informação e as redes neuronais, que seriam escolhidas pelas sinapses, o Bom Senso, o senso mínimo, não encontram eco. Essas mentes estão higienizadas, imunizadas diante de qualquer perigo de contágio pelo conhecimento relevante, científico, racional.

[1] https://aterraeredonda.com.br/a-fabricacao-algoritmica-da-vontade-politica/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novos_artigos&utm_term=2026-05-10. Acesso em 10/05/2026.

Farinha do mesmo saco: Flávio Bolsonaro disse que Ciro Nogueira seria seu vice ideal (vídeo)

Ciro foi alvo de operação da PF envolvendo o Caso Master

– O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou em entrevista recente que o senador Ciro Nogueira (PP-PI) seria seu vice ideal na chapa presidencial. Ciro foi alvo da nova etapa da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, nesta quinta-feira (7), em uma investigação contra fraudes envolvendo o Banco Master.

“Em relação à vice, que eu saiba que está ali, que já levantou o dedo e eu acho que tem todas as credenciais para ser, é o Ciro. Mas essa é uma decisão que se toma muito mais na frente. Aí depende da composição partidária, depende do perfil que a gente está buscando. O perfil do Ciro é um bom perfil”, afirmou.

Flavio completou destacando a lealdade de Ciro a Jair Bolsonaro. “É nordestino, é de um partido bem forte, tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério dele. Foi ministro do presidente Bolsonaro. Então, sem dúvida alguma, é o nome que está colocado”, disse.

Segundo as investigações da Polícia Federal, Ciro Nogueira atuava como um “líder político” de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e recebia mesadas do banqueiro que chegavam ao valor de R$ 500 mil.

7Do Brasil 247

Trump classifica reunião com Lula como “muito boa”

Presidente dos EUA classificou Lula como “muito dinâmico” e afirmou que novas reuniões irão acontecer

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou em postagem nas redes sociais que sua reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na Casa Branca, em Washington, foi positiva e tratou de temas como comércio, tarifas e a continuidade do diálogo bilateral entre os dois governos, segundo informações divulgadas pelo próprio líder estadunidense e pela assessora da Casa Branca, Margo Martin, nas redes sociais.

O encontro ocorreu nesta quinta-feira (7) e durou cerca de 90 minutos, três vezes mais do que o tempo inicialmente previsto. A recepção de Lula na Casa Branca foi registrada em vídeo e divulgada por Margo Martin.

Na publicação, Trump classificou Lula como “muito dinâmico” e afirmou que representantes dos dois países deverão se reunir para discutir pontos considerados centrais nas negociações.

“Acabei de concluir minha reunião com Luiz Inácio Lula da Silva, o muito dinâmico presidente do Brasil. Discutimos muitos temas, incluindo comércio e, especificamente, tarifas. A reunião foi muito boa. Nossos representantes estão programados para se reunir para discutir determinados elementos-chave. Reuniões adicionais serão agendadas ao longo dos próximos meses, conforme necessário”, escreveu Trump.

Após a reunião bilateral, Lula e Trump participaram de um almoço. Em seguida, o presidente brasileiro retornou à embaixada do Brasil em Washington.

Do Brasil 247

 

Prólogo de Marcela Schiavi abre o último livro do professor Vinício Carrilho Martinez, da UFSCar

0

O prólogo de Marcela Schiavi, doutora pelo PPGCTS/UFSCar, abre o último livro do professor Vinício Carrilho Martinez, da UFSCar, EDUCAÇÃO CRÍTICA À UBERIZAÇÃO: – A era do Capitalismo digital e da Uberização social, recém postado na Amazon. Com preços muito atrativos, aborda duas questões essenciais para os dias atuais: a Educação e a uberização.

PRÓLOGO

Vivemos um tempo em que a tecnologia ocupa praticamente todos os espaços da vida cotidiana. Pedimos comida por aplicativos, trabalhamos conectados, consumimos informações em fluxo contínuo e, muitas vezes, sequer percebemos o quanto essas relações moldam nossos hábitos, nossas escolhas e até nossa forma de enxergar o mundo.
É justamente sobre esse cenário que esta obra se debruça. Ao discutir o capitalismo digital e a uberização social, Vinício Carrilho Martinez propõe uma reflexão crítica sobre as novas formas de exploração, controle e precarização que atravessam a sociedade contemporânea. Mais do que analisar plataformas ou relações de trabalho, o autor convida o leitor a pensar sobre os impactos humanos, sociais e educacionais desse modelo cada vez mais presente em nosso cotidiano.

Ao longo das páginas, conceitos teóricos se misturam a exemplos concretos, experiências pessoais e provocações necessárias. O resultado é um texto que busca dialogar com quem vive, observa ou participa — consciente ou inconscientemente — dessa lógica que transforma tempo, relações e até subjetividades em mercadoria.
Sem a pretensão de oferecer respostas definitivas, este livro propõe algo talvez mais importante: estimular a reflexão crítica sobre o presente e sobre o tipo de sociedade que estamos ajudando a construir.

No link abaixo você tem acesso direto:

https://a.co/d/0bcFpguL

Marcela Taiane Schiavi
Doutora em Ciência, Tecnologia e Sociedade

Ciência como consequência

0

@viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista – mestranda do PPGCTS/UFSCar

O que fazer para alavancar a pesquisa, o Pensamento Científico, a inclusão, democratização e popularização da Ciência no Brasil?

Em realidade, essa pergunta não deveria ser feita, pois, em condições razoáveis, estaríamos em uma situação, num estágio de desenvolvimento da educação e do conhecimento científico, em que o óbvio não precisaria ser indagado ou dito.

Contudo, se vale uma ponderação diante do nosso atual quadro clínico de desmonte, precarização neoliberal (chamemos de “uberização da vida social”), podemos pensar que se os recursos dissolvidos em orçamento secreto, emendas parlamentares, fundo eleitoral partidário, tivessem o destino da educação e da Ciência essa pergunta estaria 90% respondida.

Como se sabe, no Brasil, a maior parte da pesquisa e da Ciência é produzida por entidades e instituições públicas, sejam estaduais sejam federais. Essa insistência, uma luta política constante, na preservação do pensamento crítico, criativo e propositivo é o próprio DNA, o sentido lapidar de quem se dedica à “construção de um saber” constitutivo, emancipatório, efetivamente societal.

Desse ponto de vista, não é incorreto afirmar que essa escolha (que envolve inúmeras renúncias) envolve dois aspectos essenciais da vida acadêmica e pessoal: a vocação e a profissão. Ninguém passa 30, 40 anos de sua vida num “campo de luta” que o rejeita e despreza; ninguém passa essas mesmas décadas sem lutar por suas condições materiais mínimas, de atuação, sobrevivência e desenvolvimento pessoal, se não houver determinação pela causa. Isso ocorre porque há forte vocação com forte senso profissional.

Podemos levar, esperar, cobrar, consequência numa atividade tão específica como a Ciência?

Para muitos, a Ciência sequer tem uma definição científica. Mas, pode vir a ter?

Digamos inicialmente que a Ciência é um processo de investigação que segue padrões ou modelos específicos (metodologia científica), com destaque para a observação, prospecção (“experimentação”), catalogação, análise (refutação ou confirmação de postulados, teorias anteriores), em que a crítica surge com a insatisfação (incerteza) diante das afirmações predominantes, sem que se anule todas as interferências externas, não cientificas, impostas pela política, economia, cultura, moral e pela própria visão de mundo do sujeito cognoscente sobre o objeto cognoscível (e que pode ser o mesmo sujeito, com “lugar de fala”). Um exemplo disso é verificável quando subsumimos com perspectiva integrada da luta de classe racista, em razão do determinismo identitário – fato amplamente previsto nas Ciências Sociais.

Portanto, como toda produção humana, a Ciência não ocorre de forma isolada, nem está isenta de interferências externas; pelo contrário, a Ciência é atravessada por dimensões políticas, econômicas, sociais e culturais, além da própria visão de mundo dos sujeitos que a produzem e destinada unicamente a atender aos interesses que a patrocinam.

Desse modo, vemos que a não neutralidade da produção científica, dado que as escolhas sobre quais perspectivas serão observadas, as hipóteses formuladas, quais problemas são inventariamos para investigação e tantos outros fatores, tudo isso combinado revela o grau, o tipo, o nível de influência cambiada.

Além de se objetar qualquer pretensa neutralidade, outrossim, demonstra-se como a ação do sujeito na construção desse conhecimento é, ao mesmo tempo, relevante e impactante em sua constituição.

E, neste ponto, podemos indagar: qual é a Ciência que interessa ao Brasil?

Pensemos em três caminhos ou hipóteses já posicionadas:

A primeira, que é uma Ciência express, precisa ser uma produção científica rápida, cada vez mais rápida, que traga resultados no momento desejado – então, aquela percepção de que a Ciência é algo que demora, no sentido de gestar, é cada vez menos respeitada.

A segunda, que seria uma Ciência não necessariamente produtiva, mas que fosse responsiva às demandas da classe dominante e que é rapidamente esquecida. Por exemplo, aquele boom da polilaminina, a galera viu super, a bióloga foi chamada para vários lugares, mas o tempo para que essa pesquisa fosse realmente produzida foi muito criticado (voltando-se àquela ideia da Ciência express).

No fim, foram deixadas pra lá, substancia e pesquisadora, também porque outras coisas “tomaram o lugar”. Como se vê, o modismo consumista, descalibrado como negacionismo ou pseudociência, é uma presença constante.

Assim, chegamos à terceira possibilidade, que deveria ser a primeira, mas que é sempre relegada ao terceiro pavimento: essa perspectiva, que deveria ser nossa premissa, ensina assim: a Ciência relevante a um país é aquela que serve ao seu povo, em primeiro lugar, e, em segunda afirmação, é aquela Ciência que visa combater as desigualdades, as declarações de incapacidade de quem mais necessita de educação e de Ciência, que é o povo pobre, negro e oprimido.

 

1° de Maio pelo fim da 6×1 – É hora de apostar na mobilização

FENAJ e Sindicatos convocam jornalistas à luta contra a pejotização e pela revogação da Lei do “Multimídia

Está na ordem do dia uma reivindicação da classe trabalhadora que pode significar uma vitória histórica e de grandes proporções: o fim da escala 6×1, com redução da jornada e sem redução salarial. Se aprovada, essa mudança vai trazer uma conquista direta para quem ganha menos no país. Será também uma conquista para todas as trabalhadoras e trabalhadores ao estabelecer condições mais positivas que vão elevar os patamares praticados no mercado de trabalho.

Jornalistas profissionais, de acordo com a CLT, têm jornada 6×1. Mesmo nos casos em que as empresas empregam o 6º dia semanal para organizar escalas de plantão aos finais de semana, em que a carga de sábado é usada para cobrir horas extras ou redistribuída pelos outros 5 dias da semana.

Se for aprovado, por exemplo, o Projeto de Lei enviado pelo governo Lula, a mudança na escala deve trazer uma readequação da jornada semanal com base na manutenção da jornada diária já prevista em lei. Isso significa que jornalistas com jornada de cinco horas diárias passariam a cumprir 25 horas semanais em vez de 30, enquanto aqueles com jornada de sete horas diárias (sendo duas horas extras) teriam carga de 35 horas semanais em vez de 42 – sem redução salarial. São especificidades da nossa categoria que o movimento sindical de jornalistas vai atuar para garantir, caso a escala seja reduzida.

O primeiro passo é ajudar a construir uma grande mobilização pelo fim da escala 6×1, seja por meio do PL 1838/2026, do presidente Lula, ou da PEC 8/25, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP).

Sabemos os interesses que são representados pela maioria do Congresso Nacional. É este Congresso que aprovou a Reforma Trabalhista e a PEC da Reforma da Previdência. As elites econômicas vão cobrar seus representantes que não deixem o fim da escala passar. Não aceitaremos, a hora é de avançar a favor do povo!

Ao mesmo tempo, jornalistas precisam ficar alertas a eventuais ataques à nossa jornada especial ou ao esvaziamento dos avanços propostos ao buscar jornadas diárias mais extensas. Este é um intuito recorrente das empresas de comunicação. Lembremos que a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) acompanhou e comemorou a aprovação da criação da Lei do Profissional Multimídia, cujo um dos efeitos mais diretos é o de contornar a jornada especial legal de jornalistas e radialistas.

Por isso, é hora de toda a categoria de jornalistas profissionais brasileiros estar atenta, forte e presente nas manifestações de 1° de maio. A FENAJ orienta seus 31 sindicatos filiados e se somarem e convocarem os trabalhadores e trabalhadoras de sua base.

NÃO À PEJOTIZAÇÃO
Também em pauta está outro tema central para toda a classe trabalhadora brasileira, o combate à “pejotização”, ou seja, a fraude trabalhista pela qual empregadores negam direitos trabalhistas e pisos salariais aos seus empregados.

O tema, que está em julgamento em uma ação com repercussão geral no Supremo Tribunal Federal, representa um risco real de pôr abaixo o conjunto das proteções e garantias legais, ao legitimar que trabalhadores possam atuar sem contrato de trabalho (substituído por um “contrato de prestação de serviços”). Poderá ser criada uma porta pela qual as relações de trabalho passarão ao largo da CLT, das Convenções Coletivas e da Justiça Trabalhista, tudo isso com eventual aval do judiciário.

Por isso, a FENAJ reforça nesse 1° de maio o alerta ao conjunto do movimento sindical e renova, ainda, a luta pela revogação das reformas trabalhista, da Previdência e da Lei das Terceirizações (arcabouço legal que, apesar de não ter legalizado as pejotizações, criou confusão e a “desculpa” ideal para generalização da prática).

REVOGAÇÃO DA LEI DO MULTIMÍDIA
A FENAJ orienta seus sindicatos, ainda, a levarem para as manifestações de 1° de maio a bandeira da revogação da Lei nº 15.325/2026, que regulamenta a chamada profissão de “multimídia” e representa uma ameaça direta às garantias legais, às condições de trabalho e à própria identidade profissional de jornalistas, radialistas e outras categorias.

Jornalistas estão em campanha nacional pela revogação total ou parcial desta lei. A Fenaj tem realizado discussões com o Governo Federal, via Ministério do Trabalho e Emprego, e com membros do Congresso Nacional. Neste 1° de maio, é hora desta campanha ganhar as ruas de todo país.

Por tudo isso, por muito mais, todos às manifestações do Dia do Trabalhador e da Trabalhadora!

Gleisi atribui derrota do governo a senadores que se sentem ameaçados por investigações

A rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado Federal gerou forte reação política. Para a deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-PR), a decisão, que contou com 42 votos contrários e 34 favoráveis, privou o Brasil de uma “pessoa muito qualificada para ser ministro do STF” e representa um risco sobre a votação do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao PL da dosimetria.

“Mais do que uma injustiça contra Jorge Messias, os 42 senadores que rejeitaram seu nome privaram o país de uma pessoa muito qualificada para ser ministro do STF”, afirmou a parlamentar na rede social X, antigo Twitter.

Ainda segundo a parlamentar, o resultado da votação no Senado é fruto de “um grande acordão entre a oposição bolsonarista e outros com objetivos eleitoreiros e pessoais dos que se sentem ameaçados pelas investigações de escândalos financeiros e contra o crime organizado. Votação que amanhã se preparam para repetir na derrubada do veto do presidente Lula na redução/anistia das penas dos condenados pelo golpe.”

Por fim, afirmou que o movimento político observado na votação tem impacto mais amplo no país: “uma aliança vergonhosa que se volta contra o governo, mas é realmente contra a justiça, a democracia e o país.”

A votação no plenário do Senado Federal impôs derrota à indicação de Jorge Messias, que precisava de ao menos 41 votos favoráveis para ser aprovado ao STF. O placar final foi de 42 votos contrários e 34 favoráveis, interrompendo a indicação do atual advogado-geral da União ao Supremo.

Antes disso, Messias havia sido aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) com 16 votos favoráveis, mas não conseguiu manter o apoio no plenário.

Do Brasil

Saberes necessários à prática educativa

0

Ester Dias da Silva Batista – Monitora voluntária da disciplina

 A prática educativa, para Paulo Freire[1], insere-se em contextos que ultrapassam o campo pedagógico, envolvendo dimensões históricas, sociais, políticas e acadêmicas. Nesse sentido, a educação não se apresenta como neutra ou descolada da realidade, mas como uma prática situada, produzida por sujeitos igualmente inseridos em contextos sociais e, portanto, atravessados por estruturas também não neutras.

Diante disso, Freire propõe 29 saberes que orientam a prática educativa, iniciando-se pela compreensão de que ensinar exige rigorosidade metódica e pesquisa. Tais aspectos partem da ideia de que o ato de ensinar, assim como no campo científico, vai muito além da mera transmissão de conteúdos, recusando a chamada educação bancária[2]. O ensino envolve não apenas a transmissão para sujeitos passivos, mas processos de organização, problematização e validação do conhecimento, tal como ocorre na produção científica.

Ensinar implica proporcionar aos estudantes não apenas o acesso aos conteúdos, mas a compreensão de que o conhecimento não surge de forma espontânea, sendo construído, testado, elaborado e reelaborado ao longo do tempo. Nesse sentido, Gaston Bachelard[3] propõe que a compreensão do caráter inacabado da ciência permite seu constante desenvolvimento, uma vez que não há um limite ou “ápice” do conhecimento, mas um processo contínuo de construção e reconstrução.

De forma semelhante, ensinar exige também pesquisa, compreendida como a capacidade de “aprender a aprender”, isto é, investigar de maneira intencional, com critérios e objetivos definidos, em oposição ao uso acrítico de informações e materiais no contexto educativo.

Além disso, a prática docente demanda o respeito aos saberes dos educandos e das educandas. Isso não significa a aceitação irrestrita de concepções equivocadas, mas a utilização do bom senso na análise do senso comum. Não se trata de aceitar passivamente os conhecimentos oriundos das experiências cotidianas dos estudantes, mas de compreender que esses sujeitos são históricos e que tais saberes, como aqueles transmitidos em contextos familiares e culturais, são socialmente construídos e devem ser considerados no processo educativo.

Esse reconhecimento, no entanto, não implica sua aceitação irrestrita, mas sua problematização à luz da criticidade, elemento central no pensamento freireano. Sem a capacidade crítica, o ensino tende à repetição e à naturalização de ideologias, comprometendo-se a compreensão da realidade. Nesse processo, articulam-se também as dimensões estética e ética da educação, que dizem respeito tanto à forma como o ensino se organiza, favorecendo o diálogo e a participação, quanto à responsabilidade do educador em promover práticas comprometidas com o respeito à diversidade e aos direitos humanos.

Ensinar exige também coerência entre o discurso do docente e sua prática, expressa na corporeificação das palavras pelo exemplo. Nesse sentido, torna-se incoerente que um docente proponha discussões relacionadas à luta antirracista e, ao mesmo tempo, reproduza práticas racistas em outros contextos. Associado a isso, ensinar demanda abertura ao risco e ao novo, o que implica a rejeição de toda forma de discriminação e preconceito. A prática educativa exige ainda reflexão crítica constante sobre si mesma, por meio da autocrítica, reconhecendo-se seus limites e seu caráter político, evitando, assim, a reprodução de modelos dogmáticos e acríticos.

Nessa perspectiva, destaca-se também a necessidade de reconhecimento da identidade cultural dos sujeitos, bem como a compreensão de que educar não significa transferir conhecimento, mas construí-lo de forma coletiva e dialógica, visando à emancipação dos estudantes. Ademais, exige-se a consciência do inacabamento humano, reafirmando-se a educação como um processo contínuo, no qual educadores e educandos permanecem em constante formação.

Tal condição articula-se à compreensão dos sujeitos como seres não neutros, assim como os conhecimentos e as ciências, uma vez que são histórica, social e culturalmente situados, sendo, portanto, condicionados, mas não determinados. No campo da biologia, observa-se como essa noção pode ser mal interpretada por meio do determinismo biológico[4], perspectiva que desconsidera as dimensões históricas, sociais e políticas e reduz o desenvolvimento humano a fatores biológicos, resultando em análises reducionistas.

Nesse contexto, o respeito à autonomia dos educandos torna-se central, entendida como um processo construído na prática, que envolve responsabilidade, criticidade e relações de parceria. A autonomia, nesse horizonte, articula-se à emancipação, compreendida como a superação coletiva das formas de alienação e opressão.

Além disso, ensinar exige bom senso, humildade e compromisso com os educandos e com os próprios educadores, estabelecendo-se uma relação de parceria, e não de oposição. Essa perspectiva implica compreender o ensino como um processo no qual todos ensinam e aprendem em diferentes níveis. O bom senso, nesse contexto, consiste em ultrapassar o senso comum acrítico, questionando ideias naturalizadas, enquanto a humildade permite ao docente reconhecer seus limites e potencialidades.

O processo de apreensão da realidade torna-se, portanto, essencial, sendo compreendido não como mera recepção de informações, mas como um movimento ativo de construção do conhecimento, que articula experiência e reflexão e se posiciona criticamente diante de visões negacionistas.

Por fim, Freire afirma que ensinar exige, além dos saberes discutidos, esperança e a convicção de que a mudança é possível, não como uma expectativa passiva, mas como um compromisso ativo com a transformação da realidade. Nesse sentido, a esperança não se reduz à espera, mas ao “esperançar”, verbo entendido como ação voltada à transformação social. Assim, o ensino se afirma como uma especificidade humana, marcada pela intencionalidade, pela linguagem e pela reflexão crítica.

Exige, ainda, competência profissional, generosidade e comprometimento, articulando-se à compreensão de que a educação é uma forma de intervenção no mundo, que demanda liberdade[5] com responsabilidade, tomada consciente de decisões, escuta atenta, reconhecimento de sua não neutralidade e disponibilidade para o diálogo. Trata-se, portanto, de uma prática ética, política e profundamente humana, que envolve também o querer bem aos educandos, reafirmando-se o vínculo afetivo como parte constitutiva do processo educativo.

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

[2] O conceito de Educação Bancária foi desenvolvido por Paulo Freire como forma de criticar esse modelo de ensino no qual o professor deposita conteúdos nos estudantes, considerados sujeitos passivos, algo que se baseia apenas na transmissão, em total oposição a uma educação problematizadora e crítica.

[3] BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Tradução: Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

[4] O determinismo biológico refere-se a concepção na qual comportamentos e capacidades humanas seriam determinados exclusivamente por fatores genéticos, desconsiderando a influência dos contextos históricos, sociais e culturais (GOULD, 1991).

[5] HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

Aprender a aprender

0

@viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista – mestranda do PPGCTS/UFSCar

Beatriz Vitória Vieira de Lima – Monitora da disciplina

            Trazemos, aqui, uma contribuição ao pensamento crítico e necessário à educação pública de qualidade.

Esse texto se baseia em alguns pontos que foram destacados como forma de instigação e de ampliação do debate, na sala de aula, acerca do processo que se denominou de “aprender a aprender”.

Aprender a aprender exige:

  • Aprender a pensar (liberdade: sem dogmatismo)
  • Aprender a identificar (problema relevante)
  • Aprender a selecionar (escolher tema, objeto)
  • Aprender a procurar (fontes, referências)
  • Aprender a pesquisar (metodologia: meios e fins)
  • Aprender a refletir (orientação, foco, mas com intuição)
  • Aprender a organizar (racionalidade, objetividade)
  • Aprender a escrever (“escrita científica”)
  • Aprender a disponibilizar (divulgação científica)
  • Aprender a saber-fazer (praticar o conhecimento, com conhecimento)
  • Aprender a comunicar (conhecimento como comunicação e não extensão)
  • Aprender a Apreender (práxis)
  • Aprender que há Educação Permanente (só deixamos de aprender na morte)

 

No conjunto, temos a articulação de um tipo de epistemologia política, no sentido de que a educação não é um processo neutro, pois, ao contrário, sempre carrega um escopo político.

Como visto, o processo de “aprender a aprender”, aqui trabalhado, busca refletir sobre a prática educativa para além da mera transmissão de conteúdos e da chamada educação bancária[1]. Trata-se de compreender o ensino e a aprendizagem como processos associados ao “tomar para si”, isto é, ao exercício da liberdade necessária para aprender de forma efetiva, ultrapassando-se a aquisição de conteúdos de maneira descontextualizada e, portanto, capaz de promover a formação de sujeitos críticos.

Nesse sentido, aprender a pensar constitui um ponto de partida fundamental, exigindo uma postura crítica e livre de dogmatismos. O conhecimento, conforme apontam autores como Morin[2] e Bachelard[3], não apresenta um ápice ou finalização, mas se desenvolve de forma contínua, por meio de construções e revisões constantes. Associado a isso, destaca-se a capacidade de identificar problemas relevantes da realidade, compreendendo-se que o conhecimento não é dado de forma pronta, mas construído de maneira orientada. Torna-se necessário aprender a procurar, definindo objetivos de estudo e selecionando fontes confiáveis, articulando-se meios e fins.

Esse movimento aproxima-se da noção de práxis em Paulo Freire[4], na qual ação e reflexão (teoria e prática) caminham juntas, o que permite compreender criticamente a realidade e orientar a produção do conhecimento. Logo, aprender a escrever e a comunicar torna-se essencial, uma vez que o conhecimento precisa ser expresso de forma fundamentada, clara e objetiva.

A comunicação, nesse contexto, ultrapassa a ideia de mera transmissão (extensão) e passa a ser compreendida como um processo de construção compartilhada, estabelecendo-se relações de parceria entre docentes e discentes. Da mesma forma, aprender a disponibilizar o conhecimento, por meio da divulgação científica, amplia seu alcance e contribui para romper com sua restrição aos espaços acadêmicos.

Por fim, “aprender a apreender” implica o desenvolvimento do saber-fazer, ou seja, a capacidade de aplicar o conhecimento de forma consciente e intencional, articulando-se teoria e prática. Esse processo reafirma a centralidade da práxis e evidencia que o ensino e a aprendizagem não se configuram como algo finalizado, mas como um movimento contínuo, marcado pelo reconhecimento do inacabamento humano. Assim, a educação se estabelece como um processo no qual os sujeitos encontram-se em constante formação ao longo da vida.

Diante disso, compreende-se que o “aprender a aprender” representa uma perspectiva educacional comprometida com a autonomia responsável, a criticidade, a emancipação social e a transformação social. Mais do que acumular informações, aprender significa desenvolver a capacidade de questionar, interpretar, relacionar ideias e agir conscientemente diante da realidade. Nesse sentido, o estudante deixa de ocupar uma posição passiva e passa a ser sujeito ativo de sua própria formação – há, então, uma autoeducação política.

Tal compreensão também exige uma nova postura do/a educador/a, que deixa de ser apenas transmissor/a de conteúdos para atuar como mediador/a do conhecimento, incentivando a curiosidade, o diálogo e a investigação. A sala de aula, portanto, torna-se um espaço de construção coletiva, no qual ensinar e aprender se estabelecem como processos mútuos e permanentes.

Além disso, em uma sociedade marcada por rápidas transformações científicas, tecnológicas e culturais, torna-se cada vez mais necessário formar sujeitos capazes de aprender continuamente, adaptando-se aos desafios do tempo presente sem perder a capacidade crítica. A educação, nessa perspectiva, contribui para a formação integral do indivíduo, preparando-o não apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida em sociedade, o exercício da cidadania e pondo-o diante do entendimento de que será agente do próprio aprendizado.

Dessa forma, pensar na educação a partir do “aprender a aprender” significa reconhecer que ensinar envolve compromisso ético, político e social com a formação humana. Ao estimular a autonomia intelectual, o diálogo e a capacidade de intervenção na realidade, a escola cumpre seu papel de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e consciente.

Por esse entendimento, educar e aprender tornam-se ações inseparáveis no processo permanente de humanização dos sujeitos. Reafirmando-se a educação como prática libertadora e permanente, fundamentada na ideia de que o ser humano está sempre no mesmo processo de construção. Aprender, portanto, não se limita ao espaço escolar, nem se encerra em etapas formais – ainda que isso seja óbvio e necessário –, mas, sim, acompanha toda a trajetória humana como possibilidade constante de crescimento, emancipação e transformação.

Referências

BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2023

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

 

[1] O conceito de Educação Bancária foi desenvolvido por Paulo Freire como forma de criticar esse modelo de ensino no qual o professor deposita conteúdos nos estudantes, considerados sujeitos passivos, algo que se baseia apenas na transmissão, em total oposição a uma educação problematizadora e crítica.

[2] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

[3] BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2023

PF investiga malas sem inspeção em voo com Motta e Ciro Nogueira em avião ligado a bets

Bagagens não passaram por raio-X após viagem a paraíso fiscal no Caribe; Avião pertence a empresário de bets

A Polícia Federal investiga um episódio envolvendo a entrada de bagagens no Brasil sem inspeção em um voo privado que trouxe parlamentares após viagem ao Caribe, informa a Folha de São Paulo. O caso, que inclui o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), está sob análise do Supremo Tribunal Federal (STF) devido à possível ocorrência de crimes como facilitação de contrabando ou descaminho.

Cinco malas teriam sido liberadas sem passar por raio-X no Aeroporto Executivo Internacional Catarina, em São Roque (SP), em abril de 2024. A investigação aponta que um auditor fiscal autorizou a liberação das bagagens sem inspeção, o que motivou a abertura de inquérito pela Polícia Federal.

Viagem e passageiros do voo

O voo partiu da ilha caribenha de São Martinho, destino conhecido por benefícios fiscais e atrações como cassinos. A aeronave pertence ao empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, ligado ao setor de apostas online.

Além de Hugo Motta e Ciro Nogueira, estavam na lista de passageiros os deputados Dr. Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), ambos líderes partidários na Câmara. A PF obteve a relação de passageiros durante as investigações.

Investigação e envio ao STF

O caso foi inicialmente analisado pela Justiça Federal em São Paulo, mas acabou remetido ao STF por envolver autoridades com foro privilegiado. A relatoria ficou com o ministro Alexandre de Moraes, que determinou prazo de cinco dias para manifestação da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em decisão anterior, a Justiça destacou que caberia ao Supremo avaliar a competência para julgar o caso. O processo segue sob sigilo.

Suspeitas e atuação de auditor

De acordo com a apuração, o auditor fiscal Marco Antônio Canella teria permitido que o piloto José Jorge de Oliveira Júnior transportasse as bagagens sem passar pelo equipamento de inspeção. O episódio ocorreu por volta das 21h do dia 20 de abril de 2024.

A Receita Federal informou que eventuais investigações internas são conduzidas sob sigilo e que, ao identificar possíveis irregularidades, instaura procedimentos administrativos para apuração, garantindo o direito à ampla defesa.

Posicionamento dos envolvidos

Hugo Motta confirmou presença no voo e afirmou que, ao desembarcar, “cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira”. Sua assessoria declarou que o parlamentar aguardará a manifestação da Procuradoria.

Até a publicação da reportagem original, os demais citados —Ciro Nogueira, Dr. Luizinho, Isnaldo Bulhões e o empresário Fernandin OIG— não haviam se pronunciado.

Contexto e desdobramentos

A investigação também considera a possibilidade de envolvimento de passageiros com prerrogativa de foro em eventuais irregularidades. Por isso, o Ministério Público Federal solicitou o envio do caso ao STF.

O episódio ocorre em meio a debates sobre a atuação de empresas de apostas online no Brasil. Fernandin OIG, dono da aeronave, já esteve no centro de discussões no Congresso relacionadas ao setor, incluindo investigações parlamentares sobre possíveis irregularidades.

Do Brasil 247

Com Lula forte no 1º turno e empatado no 2º, pesquisa Atlas aponta disputa acirrada em 2026

Levantamento Atlas/Bloomberg revela liderança de Lula no primeiro turno, empate com Flávio Bolsonaro no segundo e alta rejeição entre principais candidatos

A pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta terça-feira (28) aponta disputa acirrada em 2026 e revela um cenário marcado por polarização persistente, com equilíbrio entre os principais candidatos e elevada rejeição entre os líderes políticos.

infografico

Na avaliação geral do governo, 51,3% classificam a administração como ruim ou péssima, enquanto 42% consideram ótima ou boa, indicando um cenário de desgaste político relevante.

Polarização se mantém

A pesquisa indica que a polarização segue como principal característica do cenário eleitoral. Em uma simulação com os mesmos candidatos de 2022, Lula aparece com 45,2% das intenções de voto, contra 45% de Jair Bolsonaro (PL), configurando empate técnico. Jair Bolsonaro, no entanto, está inelegível e cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.

O dado reforça a manutenção de um cenário dividido entre os dois principais campos políticos do país.

Cenários de primeiro turno

No principal cenário de primeiro turno, Lula lidera com 46,6%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 39,7%. Outros nomes aparecem com percentuais menores, como Renan Santos (5,3%), Ronaldo Caiado (3,3%) e Romeu Zema (3,1%).

Quando o candidato governista é Fernando Haddad (PT), ele registra 40,5%, contra 39,2% de Flávio Bolsonaro, mantendo a disputa em patamar equilibrado.

Disputa no segundo turno

Nas simulações de segundo turno, Lula aparece em empate técnico com Flávio Bolsonaro, com 47,5% contra 47,8%.

Contra Jair Bolsonaro, Lula teria vantagem, com 48% frente a 46,8%. O presidente também venceria outros nomes testados, como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos.

Sem Lula na disputa, Flávio Bolsonaro aparece à frente tanto de Fernando Haddad, com 48,1% contra 44,3%, quanto de Geraldo Alckmin (PSB), por 47,5% a 45,9%.

Alta rejeição entre candidatos

A pesquisa também mostra níveis elevados de rejeição. Lula lidera nesse indicador, com 51%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 49,8%, e Jair Bolsonaro, com 44,9%.

Outros nomes também apresentam rejeição significativa, como Renan Santos (42,2%), Fernando Haddad (41,9%), Romeu Zema (40,9%) e Ronaldo Caiado (38,7%).

Cenário aberto

O conjunto dos dados aponta para uma eleição aberta, com margens estreitas nos principais cenários e forte polarização. A combinação entre competitividade elevada e altos índices de rejeição sugere uma disputa imprevisível e altamente dependente da evolução do cenário político ao longo dos próximos meses.

Metodologia

A pesquisa ouviu 5.008 pessoas entre os dias 22 e 27, com margem de erro de 1 ponto percentual e nível de confiança de 95%, conforme registro no TSE sob o número BR-07992/2026.

Do Brasil 247

EDUCAÇÃO CRÍTICA DA UBERIZAÇÃO

0

– uberização e capitalismo de barbárie

– intuições de um professor

 

@viniciocarrilhomartinez

Tendo-se a clareza de que, todos/as que pedem uma pizza pelo aplicativo estimulam, reproduzem, monetizam a lógica da uberização social, nesse texto, traremos alguns pontos essenciais a uma Epistemologia política crítica ao momento e ao estágio atual da desumanização: uberização social.

A desnaturalização da condição humana

Penso que, quando um professor chega nesse estágio de violência, a ponto de atacar a tiros o presidente dos EUA, ele está subsumido pela mais grave “esquizofrenia social” [1].

Desse modo, esse professor apenas reflete o nível de “doença sistêmica” da sociedade capitalista na qual vive – salvo se sempre teve (tem) algum distúrbio psíquico muito grave.

Pela premeditação, até onde sabemos, parece que estava “conversando” com o seu líder na única linguagem que ele compreende: a violência letal. Neste caso, como resultado de uma sociedade bélica, desorientada, extremamente fragmentada, o professor sinaliza para o que o capitalismo aponta.

Vamos persistir no aspecto de que, se um professor recorre ao uso de arma de fogo para atingir seu líder (e acólitos), a doença do capitalismo chegou no seu extremo.

O capitalismo conseguiu desumanizar por completo quem deveria ensinar crianças e jovens a não praticarem a violência, mas sim o conhecimento. Penso que esse é o estágio mais baixo, virulento, letal, que conhecemos da sociedade capitalista.

Também penso que nossa obrigação, como profissionais da educação, é propormos uma educação anticapitalista, contra a própria violência que o sistema produz reiteradamente.

Contudo, é preciso olhar para o presente, é obrigatório entendermos que o ponto central, a receber o foco da nossa atenção, é a uberização social, a fragmentação, a indiferença, o estranhamento social e a negação ou dissolução de si[2].

De alguma forma bem específica, na condição psíquica (e que não é a minha área), esse professor é apenas uma singularidade do estilhaçamento das subjetividades e das consciências de todo mundo, neste breve 2026.

Esse professor-atirador é uma fagulha da uberização social, essa total desagregação e exclusão do indivíduo pelo sistema produtivo, descartado pelos símbolos de significação, reconhecimento e legitimidade, e que precisamos entender para atuar contra.

 

Da contínua uberização social

O professor, a professora, como parte atuante e decisiva na formação do “novo Homem”, que predizia Paulo Freire n’A Pedagogia do Oprimido[3], precisa ser “educado/a” – como ensinou Marx, na Ideologia Alemã –, para reconhecer a absoluta precarização e o total distrato social em que se encontra.

Somente assim, o/a professor/a poderá atuar para mudar as condições em que se encontra, juntamente com seus alunos e alunas; afinal, são as mesmas condições de negação da existência social, econômica, política, cultural (societal) que atingem a todos.

Esse quadro de uberização social – em situação direta (motorista de aplicativo, entregador freelance) ou indireta (tomador/a de serviços) – não apenas revela o total desamparo e a insegurança jurídica, mas nos coloca no miolo do problema.

Acima de tudo, a uberização social nos revela que ninguém está isento – retirando-se a barbárie do escravismo, antigo e moderno – do maior e mais grave, profundo, estágio de associação do Humano com a mercadoria, com a coisa e, portanto, com a plena identificação com a coisificação (reificação globalizada).

É importante conhecer a Maquinaria por dentro? Sim, é obrigatório, pois é apenas assim que se entende a lógica perversa do capital, na forma da espoliação dos produtores/as, trabalhadores/ras.

Porém, além do entendimento (análise e reconhecimento fático) das condições originárias do capitalismo do século XIX – como promissor resultado das duas revoluções industriais e políticas (americana e francesa) –, é nossa obrigação entender os “tempos modernos” deste início de século XXI (para só então poder atuar).

Diferentemente da classe trabalhadora que dividia o mesmo chão de fábrica, todos os dias, em escalas de trabalho que exauriam qualquer esperança – mas que oferecia um piso onde assentar a consciência de classe –, hoje, o trabalho uberizado interliga o/a trabalhador/a com um algoritmo frio, calculista, capitalista. Não existe mais um Humano na outra ponta da linha, a chefia é uma máquina de moer pessoas e de fazer dinheiro.

Sendo assim, se o filme Tempos Modernos de Chaplin é um clássico do cinema mudo que nos fala até hoje como é a lógica capitalista, por outro lado, um outro filme precisa ser rodado para auxiliar (esteticamente) no entendimento da uberização social – são tempos modernos revirados, são tempos pós-modernos altamente disruptivos, destrutivos, desumanizantes.

Uma das características dessa uberização social, como a descrevemos, se associa bem à fragmentação que perde qualquer filamento social, revelando-se doentia, parasitária, com inoculação absurdamente ativa.

Não temos noção adequada do processo atual, estamos tão-somente nas aparências, nas camadas superficiais, desse avanço da degradação humana; no entanto, é possível visualizar e entender (mais claramente e ainda que não seja conscientemente) que a exceção (uberização) se converteu em regra – ninguém está imunizado ao processo, ao contágio, quer seja pedindo uma pizza quer seja contratando a revisão freelance do seu próprio trabalho.

Há uma “naturalização da exceção[4]” e isso produz um reiterado looping da exceção originária. O que deveria ser exceção – o trabalho terceirizado, o/a uber – tornou-se uma regra.

As motivações podem ser variadas, desde a ausência absoluta de condições de empregabilidade formal, até “usar” a uberização como complemento de renda; esta seria, propriamente, a uberização do Mundo do trabalho[5].

O motivo, no sentido que analisamos agora, não é o mais relevante, mas sim a lógica que o explica, ou seja, ninguém se assusta, muito menos se furta, diante do acesso ou da inclusão na uberização. Quem não quer uma pizza?

Podemos estar presentes, inclusive, numa reunião séria em que se discuta a uberização de forma aprofundada, sociologicamente, e, passado algum tempo, um dos presentes pedir algum serviço de entrega de bebidas e de comidas.

A uberização social se revela, nesse exemplo tão comum da pizza, porque nenhum dos presentes se daria conta de que o “objeto” está indo ao seu encontro para satisfazer suas necessidades primárias: beber e comer.

No exemplo que demos do especialista que pede o serviço uberizado não há desconhecimento, alienação, indiferença diante do/a entregador/a de pizza.  É de se imaginar que esse/a especialista seja capaz de visualizar o entregador/a da pizza e o associar ao motorista do uber, uma vez que a lógica de degradação é a mesma. Então, se não é desconhecimento. O que seria?

 

Quando a exceção vira regra

Atua de forma hegemonizada, como entendemos aqui, uma lógica da “naturalização da exceção”, quando a presença massiva, sistêmica, sistemática da exceção a torna uma regra imperativa. É desse modo que ninguém mais duvida de que seja uma exceção – pois, de tão presente, fez-se uma “regra natural”.

E o que é mais natural do que a classe média pedir uma pizza pelo aplicativo, a ser entregue pelo filho/a das classes subalternizadas, oprimidas e excluídas?

Não se trata somente da informalidade no emprego, como o trabalho nas folgas, ou a prestação de serviço em reparos domésticos (via de regra, provém de contatos diretos), posto que trata do fato de que a plataforma que intermedia a compra e venda da força de trabalho[6] tem uma regra só para si e a faz valer universalmente, globalizando-se a exploração por todos os meios da vida social.

Por isso, ninguém está imune à parasitária fase do capitalismo atual. O que podemos ver é que se trata do capitalismo improdutivo de bens, no ápice da identificação do capital com os serviços, e, desse prisma, também pode valer o acrônimo do “servilismo voluntário”. Quem compra a pizza trabalha para a plataforma que providencia a entrega.

A exploração do trabalho pelo capital sempre foi a principal regra capitalista (Princípio da Hierarquia), não há exceção aqui. A naturalização da exceção se vale da aplicação da lógica segundo a qual, embrenhados nos “nossos” não tão novos tempos modernos, não percebemos o quão profundamente estamos submersos, não só na exploração do capital sobre o trabalho, mas na degradação humana, na mais profunda desumanização: na uberização social.

O looping da exceção, via uberização social, é tão profundo e pernóstico que não nos vemos ativos no processo, a exemplo de quem “apenas compra uma pizza pelo aplicativo”. Pela presença massacrante dos algoritmos de aplicativos de serviços em nossas vidas, a uberização se tornou parte da paisagem natural.

Neste aspecto, vale insistir, o looping da exceção é hoje o motor da uberização social; outrossim, para além da condição laboral, uma vez que a naturalização da exceção alcança todos os níveis da vida social.

Esse looping da exceção é a cadeia de rolagem, na rodagem da política, da cultura, da educação, é o que desmonta as relações sociais pacificadas e leva um professor a atacar a tiros um presidente da República.

Quando chamamos uma corrida uberizada e, pelo menos, indagamos sobre a rotina de trabalho da pessoa, apesar de ser um passo tímido, já é alguma coisa. Ainda que estejamos aprendendo apenas com nossos sentidos (senciência), quem sabe, o fato de o/a motorista falar de si não o/a leve a se escutar. Talvez, assim, a nossa senciência limitada (escutar) seja a motivação da consciência do/a motorista.

De todo modo, se é difícil apontar, diagnosticar “o que” ocorre, definir o “que fazer” – como fazer, “para quem” de modo direto e primário, com quais meios, e quando – é ainda mais nebuloso. Não há muita clareza, certeza, nos tempos atuais, em meio a tantas fragmentações, insuficiências, inconsistências. Mas, é preciso agir.

 

O que fazer?

A premissa tem que ser clara, pois nem todo trabalhador-capitalista, cooptado pela ideologia capitalista, é capitalizado; assim como hoje nem todo mundo está submetido ao trabalho uberizado. Porém, todos nós estamos subsumidos à lógica da “naturalização da exceção” e que monetiza a uberização social.

Se a imposição de uma legislação de segurança no trabalho, propriamente uberizado, tem caráter de urgência/urgentíssima, se é minimamente humanizador pensar-se em formas de políticas públicas protetivas a esses/essas trabalhadores/as, em complemento, a educação crítica seria, além de tudo, uma educação anticapitalista, crítica à uberização social – principalmente porque esse processo de máxima exploração é sinônimo de desumanização (estranhamento de si e da realidade).

Portanto, toda educação crítica ao capital, hoje, deveria partir desse fenômeno atual, de presença sem disfarces na fragmentação humana, na desorganização social, na perda de identidade, uma vez que só assim poderemos pensar em propor alguma reflexão que venha a ocasionar uma ação transformativa.

Então, quais aspectos você destacaria em uma Educação Crítica da Uberização, tendo-se em conta que deveria ter algum significado econômico, político, social, cultural, efetivo, para os mais afetados/as, explorados/as?

[1] Link: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/04/26/policia-identifica-suspeito-de-ataque-em-evento-com-trump.ghtm. Acesso em 26/04/2026.

[2] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/abducao-social-educar-pelo-pensamento. Acesso em 26/04/2026.

[3] https://www.youtube.com/watch?v=2C518zxDAo0. Acesso em 26/04/2026.

[4] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025c, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K.

[5] https://www.intercept.com.br/2019/04/08/uberizacao-das-relacoes-de-trabalho/?utm_source=tp_google_interceptbr&utm_medium=cpc&utm_campaign=trafego_news&gad_source=1&gad_campaignid=23575505167&gbraid=0AAAAA-GeiJfy0LuGI6jtuoNcuHdTME-N_&gclid=Cj0KCQjw77bPBhC_ARIsAGAjjV__OYWJem6nMUQDDGz_jDg7IXSbKWo70zbtAHVVRiAm3xnf3jFRpMUaAnPMEALw_wcB. Acesso em 26/04/2026.

[6] https://www.instasgram.com/reel/DH67w1FPGBi/?hl=pt. Acesso em 26/04/2026.

‘Serei presidente outra vez’, afirma Lula na abertura do Congresso do PT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou na sexta-feira (24) uma proposta de documento apresentada no Congresso do PT, mas ressaltou que a militância do partido precisa levar em conta aquilo que “é possível” de ser implementado.

“É importante que a gente leve com seriedade que a gente leve com seriedade que a gente tem que prometer as coisas que temos facilidade e possibilidade de fazer, porque quem está no governo tem que ter como grande arma para ganhar as eleições mostrar o que fez”, ponderou Lula, em vídeo enviado ao evento em Brasília.

Mais cedo, Lula passou por um procedimento médico simples em São Paulo, mas sua presença no Congresso ainda não foi definida, uma vez que depende de aprovação da equipe médica.

No vídeo, o presidente também expressou confiança de que será reeleito, afirmando: “Preparem-se, pois serei presidente outra vez porque o Brasil precisa de alguém democrático, que saiba ouvir e conversar com o coração das pessoas”.

Do Brasil 247

O uber que interage com o aplicativo

0

@viniciocarrilhomartinez

Disse no título que o uber interage com o aplicativo porque esse motorista realmente interage com o trabalho, com a plataforma: está ligado, como se diz.

Ontem na volta da universidade, o motorista – meia idade, escolarizado, experiente no trabalho – me deu uma aula sobre o Código de segurança. Praticamente voltei quieto, e se fiquei quieto quase a viagem toda é porque estava aprendendo muito – é o único de ficar quieto, quando estou aprendendo.

São tantos detalhes sobre esse Código de segurança que vou me limitar a expressar o básico: obviamente, traz segurança ao motorista e ao passageiro. O curioso é que a maioria das pessoas detesta isso; e mais curioso ainda é que os golpes, as trapaças – de ambos os lados – são infinitas. Ou seja, devemos programar nosso aplicativo para que o Código de segurança seja automatizado – sim, qualquer usuário/a pode/deve fazer isso.

O motorista me disse que, em breve, poderemos fixar um número permanente – com o código em mente, ninguém mais precisará consultar o aplicativo no início de cada corrida. E isso é uma recomendação.

Mas, como falei, esse é o mini resumo da conversa, em que fui basicamente um bom escutador.

Teve uma outra viagem de uber, faz uns 15 dias, quando estava indo para a universidade; porém, teve um enredo bem diferente. O motorista era muito jovem, uns 30 anos no máximo. A fisionomia era de cansaço, muito cansaço, mas percebi que o tom de voz estava embargado.

No meio do caminho, não sei porque, a conversa se desviou para os problemas da vida – do tipo de problemas que todo mundo tem. Falei que ando fugindo de problemas, que tento evitar ao máximo – por exemplo, pouco interagir em grupos políticos de WhatsApp, aos quais estava habituado a militar. As tretas, como dizem os jovens, ficaram pesadas e hoje entro apenas para postar algo que eu tenha escrito, como ocorrerá com essa pequena crônica.

Aí, o motorista falou que o problema dele estava perto, mas indo para longe. Na hora, pensei que era a namorada, companheira, esposa. Em seguida ele sorriu meio amarelo e, então, lhe disse que conheço bem esse sentimento. Passei por algumas.

Resumindo, contei uma passagem que aconteceu comigo e disse que, depois de algum tempo, indo e vindo, conseguimos acertar um pouco os ponteiros. Sugeri, a partir do meu exemplo, duas coisas simples: dar um espaço para a moça, um tempo, mas perguntar todo dia como ela está. Com o passar do tempo, poderão avaliar se compensa tentar novamente ou se cada um deve seguir o seu rumo. O importante, em qualquer das hipóteses, é que manterão o respeito mútuo.

Definitivamente, não posso dar “conselhos sentimentais” a ninguém. E penso que não fiz isso, porque somente contei minha experiencia e sugeri prestar atenção no que eu fiz naquela época: espaço, tempo, atenção. Ele agradeceu e disse que é muito bom conversar com alguém que tenha experiencia de vida.

No meu caso, funcionou em parte. No entanto, a parte que funciona até hoje é muito importante, para mim e para ela.

É mais do que certo que não podemos ter tudo na vida, mas que seja de extrema qualidade o que conseguirmos forjar e manter.

Modelo brasileira Amanda Ungaro implode o cafetão Paolo Zampolli, operador de Donald Trump

Declarações misóginas à TV italiana geram reação no Brasil e ampliam crise com acusações públicas e denúncias graves

 A empresária Amanda Ungaro voltou ao centro de uma controvérsia internacional após tornar públicas uma série de acusações contra o ex-marido, o empresário italiano Paolo Zampolli, envolvendo ainda o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a primeira-dama Melania Trump.

Casados por cerca de duas décadas, Amanda e Zampolli protagonizam agora um embate público que ganhou novos desdobramentos após declarações do empresário à emissora italiana RAI. Na entrevista, Zampolli fez afirmações graves e ofensivas ao comentar o comportamento da ex-esposa. Segundo ele, “mulheres brasileiras são programadas para causar confusão” e “causam confusão com todo mundo”.

As declarações provocaram forte repercussão negativa no Brasil, especialmente após o empresário utilizar termos ainda mais agressivos. Em outro momento da entrevista, ele afirmou que as brasileiras seriam “raça maldita” e que “são todas iguais”, além de dirigir insultos pessoais a Amanda e a pessoas próximas a ela.

A reação foi imediata. O Ministério das Mulheres e a primeira-dama Janja da Silva se manifestaram publicamente, classificando as declarações como ofensivas e atentatórias à dignidade das mulheres brasileiras. As falas também geraram indignação nas redes sociais e entre representantes da sociedade civil.

Em resposta, Amanda Ungaro publicou um longo desabafo nas redes sociais na madrugada de sábado (25), no qual fez duras acusações contra o ex-marido. No texto, ela afirma ter convivido por anos com “uma mente voltada para atividades ilícitas, suborno e bajulação — com apenas um objetivo”, que, segundo ela, seria “a destruição da figura feminina”.

A empresária também acusou Zampolli de tratar mulheres como “moeda de troca” e de desrespeitar sua sexualidade. Em outro trecho, escreveu que ele “vulgariza as mulheres” e “desdenha da feminilidade e da sutileza das mulheres com palavras repugnantes”.

O tom do desabafo se intensifica ao longo da publicação. Amanda afirma: “Eu merecia algo muito melhor do que um verme repulsivo como Paolo Zampolli”. Em seguida, o chama de “mentiroso patológico” e questiona sua trajetória profissional: “Você nunca vendeu um único apartamento — quanto mais um avião 787”.

Além das críticas pessoais, a empresária levanta suspeitas sobre a atuação do ex-marido e menciona possíveis conexões com figuras influentes, sem apresentar provas públicas no conteúdo divulgado. Ela também afirma que Zampolli teria tentado utilizar influência política para promover sua deportação dos Estados Unidos.

Encerrando a publicação, Amanda afirma que o ex-marido “não é real” e o define como “uma mentira patética”. O caso segue repercutindo internacionalmente e pode ter novos desdobramentos à medida que as acusações ganham visibilidade e provocam reações oficiais e institucionais.

Do Brasil 247

 

Rechaçando contrapropaganda ianque, líderes do Irã exaltam coesão interna e unidade da nação

Autoridades da República Islâmica do Irã e comandantes do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) reafirmaram a unidade e a coesão da nação em torno da resistência anti-imperialista contra a guerra de agressão desatada pelo país Estados Unidos (EUA) e seu enclave nazi-sionista “Israel”, alertando aos inimigos que novas agressões serão como a troca de um “olho por cabeça”. As poderosas declarações vêm logo após o canibal Donald Trump e os monopólios de imprensa arautos do imperialismo ianque alardearem uma suposta “divisão interna” do governo iraniano.

Os comandantes das forças aeroespacial e naval do CGRI afirmaram que possuem “uma lista de alvos definidos” e estão com “o dedo no gatilho” caso os agressores ianques e sionistas decidam retomar suas agressões contra a nação iraniana. Os militares iranianos destacaram ainda que o respaldo para realizar duros golpes contra os inimigos é confirmado “pela união das ruas e coesão das autoridades”.

O vice-presidente e chefe da Organização para Otimização e Gestão Estratégica de Energia, Esmail Saghab Esfahani, afirmou que a persistência da agressão por parte de EUA e “Israel” poderia ocasionar uma mudança na doutrina militar iraniana: “Nossa primeira estratégia é ‘olho por olho’, mas se o inimigo cometer um erro novamente, nossa resposta será ‘olho por cabeça’.”

Bloqueio ianque no Golfo Pérsico e ofensiva sionista no Líbano expõem continuidade da guerra durante cessar-fogo – A Nova Democracia
A resistência dos povos do Oriente Médio, principalmente a manutenção do fechamento do Estreito, se mantém como elemento central de enfrentamento, com a luta contra a agressão imperialista sendo travada em múltiplas frentes.

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, o presidente do Parlamento, Mohammad Ghalibaf, e o chefe do judiciário, Gholam-Hossein Ejei, emitiram declarações simultâneas na plataforma X rechaçando a alegação do cabecilha ianque Donald Trump de que setores “moderados” do Irã estariam dispostos a capitular frente às exigências do inimigo.

“Somos todos iranianos e revolucionários”, afirmou Pezeshkian, destacando a unidade política, popular e religiosa em torno da República Islâmica para fazer “o agressor se arrepender”, e Ghalibaf emitiu uma mensagem similar. Ejei, por sua vez, não poupou palavras ao descrever o canibal Trump como o “desprezível presidente do EUA” que deveria compreender que “no Irã todos os grupos estão unidos em total alinhamento com o líder”, se referindo ao líder supremo Mojtaba Khamenei.

Líder supremo destaca unidade iraniana 

O líder supremo da República Islâmica do Irã, Mojtaba Khamenei, emitiu uma declaração ao povo iraniano exaltando a unidade do povo, expressa em constantes manifestações em favor da resistência, e alertando aos operativos de guerra psicológica promovidos pelos ianques e sionistas.

Para Khamenei, as alegações dos líderes do EUA, que frequentemente insinuam a suposta deslealdade e frouxidão de lideranças iranianas, não passam de artimanhas que objetivam arrefecer a unidade da resistência.

“As operações midiáticas do inimigo, ao visarem as mentes e a psique do povo, pretendem minar a unidade e a segurança nacional; que nossa negligência não permita que esses planos sinistros se concretizem”, afirmou a nova liderança máxima do Irã. Além disso, salientou que a real divisão está no seio do Grande Satã: “Devido à notável unidade criada entre os compatriotas, ocorreu uma divisão nas fileiras do inimigo”.

Rejeição a Trump chega a 62% em meio à guerra com o Irã e à crise interna no EUA – A Nova Democracia
Dentre as preocupações demonstradas está o grau de sanidade do presidente ianque em meio ao atoleiro criado com a guerra de agressão contra o Irã e o consequente fechamento do estreito de Ormuz.

Ianques seguem promovendo pirataria

O chefe do Pentágono e secretário de Guerra ianque, o celerado Peter Hegseth, disse em uma coletiva de imprensa que o país Estados Unidos (EUA) está expandindo o bloqueio naval contra embarcações comerciais iranianas e confirmou o sequestro de dois navios que navegavam no Estreito de Ormuz, próximo ao Mar do Irã. Em retaliação, o Irã afirmou a apreensão de dois navios, um deles pertencente à entidade nazi-sionista de “Israel”.

Em uma contumaz confissão de pirataria, Hegseth afirmou que, além do sequestro de embarcações civis iranianas, outros 33 navios chegaram a ser impedidos de navegar e foram forçados a retornar a seus portos. Além do Estreito de Ormuz, a marinha ianque sequestrou dois navios com petróleo iraniano no Oceano Índico e afirmou que expandirá as operações por todo o mundo.

Apesar dos danos econômicos, as embarcações iranianas seguiram desafiando o bloqueio naval e, entre os dias 13 e 21 de abril exportaram ao menos 10,7 milhões de barris de petróleo, segundo dados da empresa de análise marítima Vortexa. Com o aumento das hostilidades da marinha ianque e das represálias iranianas, o tráfego de navios no Estreito de Ormuz caiu para 5 navios em 24 horas.

A Nova Democracia

CAPITALISMO DIGITAL – na era da Sociedade de controle

0

 

@viniciocarrilhomartinez

É oportuno visualizar que, diferentemente do período entre as décadas de 1970 e 1990, até uma parte significativa dos anos 2000, o sistema financeiro, diga-se o capital financeiro, especulativo e improdutivo, liderado pelos grandes bancos, detinha a primazia sobre o poder econômico e, portanto, a hegemonia.

Neste momento em que nós nos encontramos, os bancos sofrem com a ausência evidente de regulamentação das fintechs. Os próprios bancos, além da corrida às criptomoedas, enfrentam ataques diretos em seu projeto de hegemonização pelo novo BBB – Big Techs, Big Datas/Data Centers, Bets – além de disputarem agenda com o modelo mais arcaico: bala, boi, bíblia[1].

Como fenômeno presente, em fazimento, altamente complexo, nuançado, o Capitalismo digital – para quem se sente no olho movediço do furacão – é um atuante Ensaio. Do presente ao passado, temos os dois (o trabalho análogo à escravidão e a IA como negação da condição humana[2]); do geral ao particular, ninguém escapa da uberização social; do complexo, composto, às partes de sua composição, o fenômeno, que revela o atual estágio das forças produtivas e das relações sociais de produção, combina regras do escravismo (9-9-6) com a ausência integral de institucionalidades e da legitimidade democrática (Fascismo tecnológico[3] e “servilismo voluntário”). Mas, tudo aqui ainda é um Ensaio[4], com uma longa história[5].

Desse modo, escanear alguns elementos desse denominado Capitalismo digital lembra um pouco o trabalho que Ianni teve com a exposição da Geração de 30, se observarmos que livro[6], palestras[7] e artigos não são idênticos e que sempre trazem algum ganho, complemento. Citamos isso como referência de que o conhecimento, acerca do conceito de Capitalismo Digital, está se fazendo, não está fechado, sobretudo porque tratamos do presente, sempre em processo dinâmico – e, muitas vezes, com extrema velocidade em produção e também destruição.

 

A sociedade de controle sob o Capitalismo digital

Por Sociedade de controle fixaremos a inspiração originária de Deleuze[8], com aportes mais atuais de Bauman[9] e, por Capitalismo digital, daremos prosseguimento ao nosso intuito inicial de esquadrinhamento de alguns aspectos de edificação da hegemonia capitalista em 2026.

Com a perspectiva de que o conceito está em movimento, numa base material movediça, teremos atenção nesse artigo em dois vetores que se alinham e se ajustam hodiernamente, porém, como se estivéssemos vendo a atualização de um composto do passado (sociedade de controle[10]) no presente (Capitalismo digital). Os aportes do futuro correm por conta da alavancagem dos meios degenerativos da Política e da democracia – como mecanismos de subalternização, exclusão[11] e negação[12]. O que corresponde às “máquinas de guerra” do capital provocador de miséria humana e de uma sociedade altamente controlativa[13].

O conjunto de formas tradicionais e “inovadoras” de embate político e produção de beligerâncias, a serviço do Império e de seus países satélites, também configuram o eixo das modalidades de ação/intenção do que se pode definir com soberania de conquista. Uma requisição sem fim de soberania – num mundo de única potência – só poderia ser efetiva se houvesse uma sociedade altamente de controle: altamente controladora das liberdades dos cidadãos nacionais e da geopolítica internacional. Portanto, a forma-Estado de Exceção[14] está delineada tanto no controle real (da política) quanto nas liberdades interativas que se pudesse visualizar nas redes sociais. “A guerra era um limitado Estado de Exceção”[15].

Também nesse sentido há uma janela epistemológica entre a obra de Foucault[16] e de Deleuze, e que é, mais precisamente, a passagem do estágio capitalista das sociedades disciplinares para a sociedade de controle[17].

Hardt destaca pontos chaves a partir da leitura que apresenta do filósofo francês: pós-modernidade; fim da história; Império; sociedade de controle mundial; biopoder. O conjunto revelaria um tipo de crise de civilização ou, ao menos, de perspectiva. “O ‘espaço estriado’ das instituições da sociedade disciplinar dá lugar ao ‘espaço liso’ da sociedade de controle”[18]. A indistinção entre público e privado, dentro e fora, revela-se em novas formas de opressão e controle, como o racismo que não se baseia na biologia, mas, sim, na cultura.

A privatização do público e a publicização do privado, por sua vez, acarretam uma superexposição das subjetividades. Com isso, é obstaculizada a construção do reconhecimento dos sujeitos e de suas intersubjetividades – não-egoístas, não-consumistas – e do direito porque seria necessário um espaço público não privatizado. “A paisagem urbana não é mais a do espaço público, do encontro casual e do encontro de todos, mas dos espaços fechados das galerias comerciais, das autoestradas e dos condomínios com entrada privativa”[19].

O fluxo, a rotina, é ditada pela rodagem dos algoritmos hegemonizados é a contraprova do alegado, uma vez que as bolhas de referência, acesso e consumo são cada vez mais particularizadas, indutivas de um tipo de auto referenciamento e autoconsumo, porque cada pessoa usuária das redes deverá consumir hoje e amanhã, precisamente, o que consumiu ontem. Não é autoaprendizado do sujeito (apenas do algoritmo), é autoconsumo que nos embota nas mesmas e repetidas preferências e escolhas. O pensamento único é, além de um portal emanado das oligarquias da comunicação global (Big Techs), uma expressão da mesmice, de eterna repetição do que queremos ver e ouvir: a primeira vítima é a diversidade, a segunda é a tolerância e a terceira somos nós.

A partir da Arphanet, a Internet como a conhecemos hoje funcionou como um sistema sinótico[20], fazendo-se interação entre os membros e os grupos integrados; com as redes de comunicação social, virtualiza-se intercalando-se sistemas panópticos[21] e banóticos[22]. Não se poderia retratar o incremento dos novos meios de interação/informação; no entanto, essa proposta analítica de uma sociedade de controle (desde o século XX) se ajusta com perfeição às previsões e realizações que se manifestariam no futuro/presente de 2026.

Celebrizado pelo diagnóstico do “pensamento único” – sem questionamento, ordenado pelos interesses hegemônicos – Ramonet[23] incitava, diante da sociologia do laissez-faire, em que cada um vigia suas intenções/ações, a pensar sob o ângulo do Jus Puniendi Global que nos arboriza como cidadãos de paisagem: chamado ao “servilismo voluntário”[24]. De fato, há um Estado de Vigilância Maciço.

 

Da uberização social

Inicialmente, há que se destacar algumas nuances: terceirizados ou estagiários, por mais precárias que sejam suas relações de trabalho, têm algum vínculo funcional estabelecido por contratos formais. O trabalho autônomo ou freelance, via de regra, intermediam diretamente com o “tomador de serviços” as negociações envolvendo a venda da sua força de trabalho (costumam se abrigar juridicamente no sistema MEI).

Na uberização, as plataformas são intermediárias e retém uma parcela significativa dos valores envolvidos na prestação de serviços – as plataformas que executam essa extração de mais-valia, em determinadas situações, podem reter mais de 50% (cinquenta por cento) dos valores auferidos.

Então, diferentemente dos autônomos, os situados sob a condição da uberização são explorados pelo mediador da relação de trabalho: as plataformas. E, diferentemente dos terceirizados e dos estagiários (precarizados), quem se encontra sujeitado à uberização completa (entre 10 e 12 horas diárias) não tem nenhuma segurança jurídica.

Em síntese, o uberizado não negocia diretamente a venda da força de trabalho (ao contrário do autônomo) e não tem nenhum vínculo formal com o Mundo do Trabalho, como possuem os terceirizados – a não ser de forma punitiva, coercitiva.

Por insegurança jurídica se entende a ausência tanto de regulação das empresas, como a criação de vínculos trabalhistas, quanto a inexistência de qualquer garantia na forma de direitos trabalhistas, decorrente dessa atividade laborativa uberizada.

A própria resposta da Inteligência Artificial (IA), para a uberização, ressalta a informalidade das relações de trabalho, a precarização absoluta e a ausência total de segurança jurídica:

  • “A uberização social é um modelo de trabalho baseado em plataformas digitais que transfere riscos e custos para o trabalhador, caracterizado pela falta de vínculo empregatício, ausência de direitos trabalhistas (CLT), remuneração variável e controle algorítmico. Esse fenômeno gera precarização, insegurança e jornadas exaustivas, mascaradas por uma falsa noção de empreendedorismo e flexibilidade” (Fonte: IA).

 

Ao menos, a resposta programada da IA não falseou quanto à precarização e espoliação das trabalhadoras e dos trabalhadores envolvidos e subjugados. Pode-se dizer que a IA apresentou algum critério técnico e uma noção crítica e realista.

Na prática, esse nível de subalternização é muito mais gravoso à saúde, às condições de vida e de expectativas das pessoas submersas nas relações laborativas, se comparadas à jornada 6-1: em vias de ser ajustada para 5-2, no Brasil. Com esse nível de esgotamento e de estafa, não é impossível dizer que essas pessoas dormem e acordam com o trabalho[25].

A falsa noção de flexibilidade na jornada de trabalho tem que receber outro destaque, uma vez que, pela lógica simples, é facilmente compreensível o fato de que se as jornadas de trabalho extremas e exaustivas (entre 10 e 12 horas diariamente) não podem se configurar como sinônimo de liberdade de horários para trabalhar e flexibilidade: quem tem uma escala, praticamente, igual ou superior à conhecida fórmula do 9-9-1 (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana) não tem liberdade, e muito menos energia, para fazer mais nada que possa lhe desenvolver como pessoa humana.

Porém, com rendimentos muito superiores ao “trabalhador CLT” – com faturamento mensal superior, no montante de até três vezes ao que receberia no emprego formal – é inegável que faça as contas e veja primeiramente a conta bancária. Por isso, pode-se dizer que tenha desenvolvido uma subjetividade de negócios, capitalista, ao mesmo tempo em que está submerso no trabalho mais precarizado que possa haver. Não há exagero em se dizer que a uberização seja um tipo de “escravismo moderno”, com a diferença de que é mais lucrativo (para quem está em estado de uberização) em comparação a quem está relacionado às sujeições da escala 9/9/6 ou sob o completo domínio do trabalho análogo à escravidão.

Destacaremos apenas alguns mecanismos de controle sobre motoristas e usuários de transporte uberizado: ambos recebem notas ao final de cada corrida, mas, com a pontuação abaixo do mínimo esperado, o sistema – movido por algoritmos de vigilância e controle – já não escala mais viagens. Avaliações negativas, repetidamente, assim como os seguidos cancelamentos de viagens ou quebra de procolos e termos podem implicar em punições mais severas, como cancelamento da conta – o fato óbvio é o monitoramento de comportamentos, isto é, o algoritmo que direciona corridas (ou não) atua como forma de controle social.

Portanto, há um severo erro na epistemologia política de quem associa a uberização ao “empreendedorismo” – mormente, porque quem controla os atos laborais são as plataformas e nunca há uma relação negocial direta entre o uberizado e o tomador de serviços – aliás, a pena para isso é a exclusão do trabalhador[26].

O controle é totalmente movido pela punição e a pior delas, como se depreende facilmente, é a exclusão do/a trabalhador/a uberizado/a das plataformas que atuam em forma de monopólio de serviços. O resultado final, como liquidação disruptiva (no grau máximo do banimento), é, como se pode concluir com facilidade, a desmonetização por completo – a perda das piores condições de trabalho (a uberização) é, por fim, exatamente, o fim das expectativas de quem já estava excluído/a, negado/a.

 

 

 

[1] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/capitalismo-digital. Acesso em 19/04/2026. É preciso destacar que as Big Techs formam um oligopólio, uma oligarquia da desinformação que alimenta segundo a segundo as redes antissociais: redes de estímulo ao comportamento antissocial. O Brexit foi dos experimentos iniciais e que revogou – em plebiscito popular distorcido por Fake News – a participação da Grã-Bretanha no Mercado Comum Europeu.

[2] Em essência, a atual fase tecnológica, com imensos impactos sociais e econômicos, nos apresenta inúmeras variações acerca da destruição da Política como espaço público (MARTINEZ, Vinício Carrilho. A destruição da política: a sociedade de controle entre a pandemia e o pandemônio político. Campina Grande: EDUEPB, 2023. Disponível em: https://zenodo.org/records/8298411).

[3] https://www.fcw.org.br/culturacientifica12/vin%C3%ADcio-martinez. Acesso em 19/04/2026.

[4] https://aterraeredonda.com.br/ensaio-sobre-capitalismo-digital-e-tecnofascismo/. Acesso em 19/04/2026.

[5] https://ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/660338-tecnofacismo-do-radio-de-pilha-nazista-as-redes-antissociais-a-transformacao-monstruosa-humana-entrevista-especial-com-vinicio-carrilho-martinez. Acesso em 19/04/2026.

[6] IANNI, Octávio. A ideia de Brasil moderno. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

[7] IANNI, Octávio. Tipos e mitos do pensamento brasileiro.  XXV Encontro anual da ANPOCS, em Caxambu, realizado de 16 a 20 de outubro de 2001.

[8] Gilles. Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

[9] BAUMAN, Zygmunt. Vigilância Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

[10]“Não é de um comitê de sábios, comitê moral e pseudo competente que se precisa, mas de grupos de usuários. É aí que se passa o direito à política” (DELEUZE, 1992, p. 210).

[11] https://www.terra.com.br/noticias/analise-como-o-capitalismo-digital-e-o-tecnofascismo-estao-reproduzindo-antigas-estruturas-de-dominacao,89b81d8bcb31b45180a088eac3ba1004snrjsoxf.html#google_vignette. Acesso em 19/04/2026.

[12] Como se depreende conceitualmente, a mordaz combinação entre subjugação, subalternização, negação e exclusão, resumem-se na imposição da exceção enquanto regra. (MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K).

[13] “No capitalismo só uma coisa é universal, o mercado […]. Não há Estado democrático que não esteja totalmente comprometido nessa fabricação da miséria humana” (Deleuze, 1992, p. 213).

[14] AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

[15] HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. São Paulo: Record, 2005, p. 26.

[16] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes; 1977.

[17] HARDT, Michael. A sociedade mundial de controle. In: Alliez, Éric. Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 357.

[18] HARDT, 2000, p. 358.

[19] HARDT, 2000, p. 360-61.

[20] Apesar de não contar, inicialmente, nem com uma fração dos pontos de acesso (e de fuga) que se verificam na teia de comunicação atual, era um sistema sem controle central e espionagem global, como vemos hoje em dia.

[21] Aqui, temos que ver os controles exercidos pelos grupos de poder hegemônicos responsáveis pela gestão do Estado ou dos interesses corporativos que atuam como Jus Puniendi Global.

[22] Uma das formas de controle social – especialmente dos jovens que têm uma vida digital ativa – é a ameaça de cancelamento. O sistema banótico, portanto, controla pelo medo, pela possibilidade de banimento – o que levaria ao esquecimento.

[23] RAMONET, Ignacio. El Imperio de laVigilancia. Madrid: Clave Intelectual, 2016.

[24] LA BOETIE, Ètienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. Lisboa: Edições Antígona, 1986.

[25] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/capitalismo-digital-mais-valia-onirica. Acesso em 19/04/2026.

[26] “Assim como os passageiros não podem pedir corridas por fora da plataforma, você, como motorista, também não deve oferecer esse serviço. Como parceiro Uber, as viagens devem ser feitas sempre por meio do app, o que também aumenta a sua segurança e a garantia de receber o dinheiro após a corrida”:  https://zarp.localiza.com/blog/post/codigo-de-conduta-para-motoristas-uber. Acesso em 24/04/2026.

SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA EDUCATIVA: NOTAS PARA UMA ANÁLISE

0

Ester Dias da Silva Batista

Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação e Sociedade/UFSCar (22/04/2026). Por síntese (e por óbvio), entende-se que não é a totalidade, mas sim a essência que me pareceu adequada. A obra analisada refere-se ao livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire[1]. Então, vamos aos tópicos:

  1. Ensinar exige rigorosidade metódica:
  • Isso se chama Ciência;
  • Trata-se de reconhecer que o ato de ensinar não se reduz à transmissão ou reprodução de conteúdos, mas envolve processos de organização, sistematização, problematização e validação do conhecimento;
  • Nesse sentido, a ciência se caracteriza não apenas por seus conteúdos, mas por seus modos de produção: a construção de hipóteses, o uso de metodologias claras, a possibilidade de replicação e a validação, como ocorre, por exemplo, na avaliação por pares;
  • Ensinar com rigorosidade metódica implica, portanto, aproximar os educandos desses modos de pensar, favorecendo a compreensão de que o conhecimento é produzido, testado e constantemente reelaborado;
  • O exemplo usado em aula: a adaptação de um rodo por um trabalhador da zeladoria, visando melhorar a retirada de água do piso, não se reduz à mera repetição de práticas já conhecidas, mas envolve observação, experimentação e ajuste, elementos que, ainda que em outro contexto, dialogam com princípios da racionalidade científica;
  1. Ensinar exige pesquisa
  • Isso se chama estudar para investigar: “aprender a aprender”;
  • Nesta análise, ensinar exige pesquisa no sentido de ser compreendido como a capacidade de “aprender a aprender”, isto é, investigar de forma intencional e orientada. Não se trata de buscar informações de maneira aleatória, mas de saber o que se procura, com quais critérios e com quais objetivos, articulando rigor metodológico e seleção de fontes confiáveis.
  • Nesse sentido, práticas como o uso acrítico de materiais, por exemplo a utilização da Wikipédia sem problematização ou verificação, evidenciam não apenas uma fragilidade na produção do conteúdo didático, mas a ausência da compreensão de que ensinar implica saber pesquisar, avaliar e validar informações;
  1. Ensinar exige respeito aos saberes dos/as educandos/as
  • Isso se chama Bom Senso do senso comum: “educação de berço”;
    • Nesta análise, respeitar os saberes dos educandos implica reconhecer que os estudantes chegam à escola portadores de conhecimentos construídos em seus contextos sociais e culturais, como aqueles provenientes de tradições familiares e comunitárias — por exemplo, saberes transmitidos em comunidades indígenas. Esses conhecimentos constituem pontos de partida legítimos para o processo educativo;
    • Porém, esse reconhecimento não significa a aceitação irrestrita de todas as concepções prévias. O trabalho pedagógico exige problematização e criticidade, especialmente quando tais concepções envolvem preconceitos ou violem princípios de direitos humanos;
  1. Ensinar exige criticidade
  • Sem a crítica só há a mesmice, a repetição, a ideologia, a ignorância: o senso comum que se apresenta na Educação capitalista (“deixe como está para ver como é que fica”);
    • A criticidade constitui um elemento central do ato educativo, na medida em que rompe com a mera repetição e favorece a análise, a interpretação e a problematização da realidade. Sem ela, o ensino tende à reprodução acrítica de conteúdos e à naturalização de visões de mundo;
    • Nesse sentido, tanto na produção científica quanto no processo de ensino e aprendizagem, a ausência de análise crítica compromete a validade e o sentido do conhecimento. Como aponta Marilena Chauí, a ideologia pode operar pela universalização de interesses particulares, fazendo com que perspectivas de grupos dominantes sejam apresentadas como universais. A criticidade, portanto, torna-se fundamental para desnaturalizar essas construções e possibilitar a transformação social;
  1. Ensinar exige estética e ética
  • Chamo de valor republicano;
    • A dimensão estética do ensino refere-se à forma como a prática educativa se organiza e se apresenta, envolvendo escolhas que favorecem o diálogo, a compreensão e a participação, como a disposição do espaço, o uso de recursos didáticos e a construção de ambientes mais horizontais de interação. Nesse sentido, a estética não se reduz à aparência, mas expressa uma concepção de ensino comprometida com o encontro entre sujeitos;
    • A ética, por sua vez, diz respeito à responsabilidade do educador no exercício da docência, implicando o respeito aos educandos, aos direitos humanos e à diversidade. Ensinar eticamente exige evitar a imposição acrítica de visões pessoais, bem como combater práticas discriminatórias, como racismo, misoginia e outras formas de preconceito;
  1. Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo
  • Os cínicos, de todas as idades, não avançam na educação;
    • “A palavra convence, mas o exemplo arrasta”;
    • A prática educativa exige coerência entre discurso e ação, de modo que aquilo que se ensina seja efetivamente vivido no cotidiano. A corporeificação das palavras implica que valores como respeito, justiça e equidade não permaneçam apenas no plano discursivo, mas se expressem nas práticas concretas do educador;
    • Nesse sentido, posturas contraditórias, como defender o combate ao racismo no espaço institucional e reproduzir práticas racistas em outros contextos, fragilizam o processo educativo e comprometem a formação crítica dos sujeitos, ao esvaziar o sentido ético do ensino;

 

  1. Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação
  • Some-se o preconceito, o racismo, a homofobia, a misoginia;
    • O ato de ensinar implica abertura ao novo e disposição para colocar em questão os próprios saberes, reconhecendo-se que o conhecimento é sempre provisório e passível de revisão. Nesse sentido, ensinar e aprender envolvem risco, na medida em que exigem a reconstrução de certezas e a incorporação de novas perspectivas, processo que pode gerar tensões e resistências;
    • Paralelamente, essa abertura não se dissocia de um compromisso ético: a rejeição de toda forma de discriminação. Práticas pedagógicas críticas demandam o enfrentamento de preconceitos, como racismo, homofobia e misoginia, reafirmando-se o respeito à diversidade e aos direitos humanos;
  1. Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática
  • Isso é autocrítica e autoeducação política (sem ideologia);
    • A prática docente demanda um exercício constante de reflexão crítica, que envolve não apenas a análise do outro, mas também a autocrítica. Nesse sentido, ensinar implica reconhecer os próprios limites, revisar posicionamentos e compreender que a prática educativa é atravessada por dimensões políticas e ideológicas;
    • Essa reflexão torna-se ainda mais necessária no contexto acadêmico, em que a produção do conhecimento pode, por vezes, associar-se a relações de poder e à ideia de sua detenção por determinados grupos. Quando o conhecimento se apresenta como verdade incontestável, perde-se o espaço da dúvida e do questionamento, comprometendo-se a própria rigorosidade metódica e favorecendo práticas dogmáticas;
    • A ausência dessa reflexão crítica contribui para a reprodução de modelos de ensino. Nessa direção, Durkheim aponta que a educação pode assumir funções de homogeneização e diferenciação social: ao mesmo tempo em que garante uma base comum de formação, também pode reforçar desigualdades ao distribuir de maneira desigual o acesso a diferentes níveis e formas de conhecimento;
      • Função de homogeneização, até o fundamental, todos (classe dominante e dominada) teriam acesso à educação básica, à alfabetização, ou seja, todos seriam capazes de ler, não necessariamente de interpretar;
      • Função diferenciadora: após esse momento de homogeneização, impõem-se a regra classista, capacitista, de se diferenciar, ou seja, uma diferenciação entre a classe dominante que teria acesso ao ensino superior, a busca pelo conhecimento efetivamente, enquanto a classe dominada, o proletário, teria acesso ao ensino técnico; mas superior não, o que permitiria a leitura, interpretação básica, bem como servir como mão de obra barata e abundante, mas nada muito complexo;
  1. Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural
  • E é o oposto da apropriação cultural;
    • A prática educativa demanda reconhecer as diferentes formas culturais, compreendendo-se que o conhecimento é produzido em contextos históricos e sociais específicos. Assumir a identidade cultural significa, portanto, legitimar saberes, experiências e formas de expressão diversas no espaço educativo;
    • Apropriação no sentido de deturpação, de modificação;
  1. Ensinar não é transferir conhecimento
  • A IA transfere conhecimento, o/a educador/a não;
    • O processo de ensino e aprendizagem, como propõe Paulo Freire, não se baseia no depósito do conteúdo nos estudantes, de forma passiva e acrítica, mas tem a ideia, a marca, a fim de construir esse conhecimento de forma conjunta, não via dicotomia de “amigo/inimigo”, mas via parceria;
    • É necessário compreender que o acesso à informação não equivale ao processo educativo, ou seja, ter acesso às informações não transformam essa informação em conhecimento automaticamente, é necessária uma construção conjunta;
  1. Ensinar exige consciência do inacabamento
  • Somos a única espécie com consciência de nossa finitude;
    • Entender esse inacabamento permite compreender que não há um conhecimento pronto, uma finalização desse processo, mas uma continuidade, para estudantes e também para os docentes, ambos permanecem sempre em aprendizado;

Vale destacar ainda que essas questões estão dispostas num texto original disponibilizado, no primeiro encontro ou até antes disso, num e-mail coletivo das turmas[1]. Como última menção, é importante destacar que esse texto será disponibilizado aos/às estudantes como “retorno” para leitura futura. De forma que possam organizar um pouco mais suas anotações ou abstrações daquele encontro.

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

A minha genética é pública

0

Por Vinício Carrilho Martinez

Meus avós mal sabiam assinar o nome. Vindos da Espanha, fugindo do fascismo mortal, apenas um estudou mais e tinha o hábito da leitura. Sempre trabalharam muito, mas sempre foram muito pobres. Um tio já falecido, irmão da minha mãe, fez Medicina na Universidade Federal do Paraná – quando não havia bolsa de estudos, de forma nenhuma. Para se manter, todas as noites trabalhava como “lanterninha de cinema”, e mais ainda nos finais de semana. Há muitas outras histórias ligadas à educação e à universidade pública, derivadas dos quatro avós imigrantes, até chegar à minha história. É por isso que a defesa da universidade pública está na minha genética, antes mesmo da ter nascido.

Para mim, a universidade pública é um patrimônio cultural e científico do Brasil.
As universidades públicas produzem, processam, mais de 90% da pesquisa, de todo o conhecimento e da cultura científica.

Além do acesso mais democrático e da permanência estudantil, com o sistema de cotas e das políticas afirmativas (discriminação positiva: isonomia com mais equidade).
Se é no dourado que se alcança a “cidadania universitária”, porque é quando se obtém, efetivamente, a autonomia intelectual, então, o domínio institucional (público) passa dos 95% de realização.

Há muito o que fazer e melhorar – como aproximar o universal (de onde deriva a universidade) e o social -, mas os números não mentem, e, além disso, o que é público tem que continuar sendo público.

Não é preciso falar, porém, é bom que se saiba: o privado, particular, já diz que não é universal e afirma isso impondo o lucro como sua missão. Se o público é o oposto do privado, é no público que eu encontro a minha afirmação.

A educação no estado de São Paulo 

 

Beatriz Vitória Vieira de Lima – Monitora da disciplina

Ester Dias da Silva Batista – Monitora voluntária da disciplina

Izabela Victória Pereira – Orientanda de TCC

 

O presente artigo é uma contribuição acadêmica à disciplina de Educação e Sociedade, ofertada neste semestre na Licenciatura da UFSCar.

A educação no estado de São Paulo é consolidada pelo novo ensino médio, ampliando a carga horária e a expansão do ensino em tempo integral. A promessa é equilibrar formação sólida, preparação para o mundo do trabalho e desenvolvimento de competências para a vida em sociedade. O resultado concreto dessa reformulação, porém, dependerá da qualidade da implementação nos próximos anos.

No âmbito das políticas educacionais se destaca que, em abril de 2023, a gestão do secretário da Educação Renato Feder, sob o governo Tarcísio de Freitas, passou a orientar a fim de que professores e professoras de todas as séries do ensino fundamental e médio utilizassem materiais digitais em formato de slides (PowerPoint/PDF) produzidos pela Secretaria, funcionando como uma espécie de “roteiro” a ser seguido. É obrigatório o uso das plataformas digitais de ensino, inclusive como avaliação do desempenho de docentes e discentes. Nesse sistema, os professores devem se basear apenas no conteúdo oferecido nas plataformas, e que no final do ano são cobrados nas provas do governo (Saresp e Provão Paulista). A foto abaixo sinaliza claramente o tempo monitorado de permanência em cada slide, como se o raciocínio obedecesse a um cronômetro.

Tempo de permanência em cada slide no canto superior:Pode ser uma imagem de televisão e texto que diz "Ralenbre A "Discrepăncia Promebeica Prome "DisereplrncuiPrometeka elca Günther Anders GüntherAnders(1902 1902- 1992] 1992)argumentavaquea 2jargumentava 모나는 a humanidade desenvolveu tecnologias tào aranc adas que Superam nossa capacidade de compreender asconsequencias, consequentemente, de controla 1550 cria นส descompasso entre que podemos produzir que conseguimos assimilar, C0095o"

Os slides fornecidos apresentam problemas metodológicos, erros conceituais e fazem má contextualização das informações para os alunos. Após uma segunda onda de críticas, o governador Tarcísio de Freitas anunciou que o governo de São Paulo assumiria a impressão dos referidos materiais didáticos, ou seja, poderia optar por ter o material digital ou impresso. Em uma matéria publicada pelo jornal G1[1], no dia 31 de agosto de 2023, vê-se que docentes da rede estadual têm reportado que o material didático digital produzido pela Secretaria da Educação, sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas, e disponibilizado a professores e estudantes do ensino fundamental, apresenta inconsistências significativas em múltiplas áreas do conhecimento, incluindo-se história, biologia e matemática. Alguns conteúdos apresentam erros graves, como afirmar que a cidade de São Paulo tem praia ou sugerir, de forma equivocada, que a doença de Parkinson pode ser transmitida pela água.

O que só evidencia o enfraquecimento e a falha proposital da educação básica pública no estado de São Paulo, pois, as plataformas aumentam a carga de trabalho, reduzem a autonomia dos profissionais da educação e geram resultados pouco significativos em relação à melhoria da aprendizagem dos estudantes. Enquanto uma parcela da sociedade adere ao discurso de “inovação tecnológica e investimento educacional” associado ao uso das plataformas digitais.

O roteiro científico da Wikipédia (sic) – enciclopédia online – permite a qualquer pessoa ler e editar seus conteúdos, o que já destaca alguns problemas, porque, embora a Wikipédia seja uma ferramenta útil, seu uso acrítico, sem aprofundamento ou verificação em bases acadêmicas sólidas, evidencia uma fragilidade na formação científica e no desenvolvimento do pensamento investigativo.

A foto abaixo é reveladora, como fonte usada pelo material do governo de SP:Pode ser uma imagem de texto que diz "prinapais responsáveis pera organização das instituições udo depende não de democráticas do periodo. Reprodução- WIKIPEDIA, 2016 Disponivel em https/wntk.nedia.orpkikiP% C3% A9ncle pedia P% sa/media sEimediaFichero.Pencesp Pendes Acesso em: 8set.2025 8 set. 2025"

Não é difícil, pois, verificar que a educação em São Paulo, nas gestões de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, tem sido marcada por uma combinação de gestão extremada com o discurso dos resultados, com o uso de tecnologia e mudanças estruturais, mas também por críticas sobre precarização e redução de investimentos. A queda de matrículas, cortes, criação sem controle de escolas cívico-militares e avanço de privatização marcam a gestão de Freitas na educação do estado.

Diante desse cenário, a noção de uma “Pedagogia do fracasso” pode ser compreendida como uma crítica às múltiplas fronteiras que atravessam a educação contemporânea, incluindo-se disputas ideológicas, fragilidades na formação crítica e desafios estruturais. No entanto, essa expressão também pode ser ressignificada como um chamado à resistência pedagógica. Professores e professoras, estudantes e comunidades escolares podem atuar na construção de práticas educativas críticas, pautadas no diálogo, na valorização do conhecimento científico e na defesa de uma educação pública de qualidade, que ultrapasse os reducionismos quantitativos e as disputas ideológicas.

Produções cinematográficas como “Brasil paralelo” simplificam ou reinterpretam processos históricos e educacionais. A empresa busca entregar conhecimento com alta qualidade cinematográfica, tratando de temas como história do Brasil, política, segurança pública e filosofia. Produzem documentários com uma perspectiva que diverge de visões predominantes entre intelectuais e jornalistas. Esse tipo de conteúdo pode influenciar a percepção pública sobre a escola, os professores e o papel da educação na sociedade e, ao invés de promover o diálogo, podem aumentar conflitos de opinião sobre a educação. Todavia, os produtores desse tipo cinematográfico têm acesso livre nas escolas do município de São Paulo.

Ademais, é essencial analisar as transformações na educação do Estado de São Paulo não como ações isoladas ou impensadas, mas como parte de um processo histórico mais amplo, que há anos busca reconfigurar a educação como instrumento de manutenção de determinadas formas de poder e organização social. A padronização de materiais, aliada ao uso acrítico das tecnologias, revela apenas a ponta de um problema estrutural mais profundo no contexto educacional brasileiro.

Nesse cenário, os estudantes são progressivamente reduzidos à condição de meros receptores de conteúdos, priorizando-se a transmissão de informações em detrimento da formação de um pensamento crítico, e ao contrário do que quer a chamada Educação Bancária[1]. Tal dinâmica torna-se ainda mais preocupante ao se considerar o ensino médio, etapa em que temas históricos e sociais deveriam ser aprofundados, especialmente diante do fato de que, a partir dos 16 anos, os jovens já podem exercer o direito ao voto. Ao terem contato com conteúdos superficiais, corre-se o risco de formar sujeitos com uma compreensão fragilizada da realidade, que tendem a reproduzir tais perspectivas no campo político e social, contribuindo-se para a manutenção de estruturas de desigualdade já consolidadas.

Esse cenário, embora frequentemente naturalizado ou interpretado de forma simplista em determinados discursos, não se configura como um processo casual, mas como uma crise construída. Nesse sentido, as contribuições de Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido[2], permanecem atuais ao evidenciar que uma formação incompleta pode levar o sujeito não à emancipação, mas à reprodução das estruturas de opressão. Assim, observa-se a constituição de indivíduos que, mesmo inseridos em contextos de exploração, acabam por defender e reproduzir lógicas que lhes são prejudiciais.

Exemplos contemporâneos, como debates em torno das condições de trabalho (escala 6×1), evidenciam como discursos – por exemplo, de que o país irá “quebrar” com uma escala 5×2, bem como na consolidação da CLT e as 44h semanais – que historicamente foram utilizados para frear conquistas sociais continuam sendo mobilizados, muitas vezes sustentados por uma formação educacional que não promoveu o desenvolvimento do pensamento crítico.

O enfraquecimento escolar, por sua vez, não deve ser compreendido apenas como falha pedagógica, mas como expressão de disputas sociais históricas, nas quais o acesso ao conhecimento crítico e científico se torna um campo de tensão e manipulação do lado dominante. O esvaziamento de disciplinas fundamentais (diga-se de passagem, somente na rede pública, já que a rede privada permanece com aulas de História, Sociologia e Filosofia), reforça esse movimento predatório.

Torna-se fundamental reafirmar a escola como um espaço de formação integral, conforme propõe a própria BNCC[3], e que o projeto educacional seja comprometido com o desenvolvimento crítico e emancipador dos sujeitos. Isso implica recolocar o conhecimento científico e social em uma perspectiva problematizadora e socialmente relevante, não somente reprodutiva, em consonância com uma educação que vá além da mera transmissão de conteúdos.

A resistência pedagógica, portanto, não se configura como oposição meramente partidária, mas como prática cotidiana de estudantes e docentes na construção e na defesa de uma educação pública de qualidade. Mais do que adaptar-se às mudanças impostas, trata-se de disputar os rumos da educação, garantindo-se  que ela não se reduza a lógicas instrumentais ou mercadológicas, mas que a educação permaneça comprometida com a formação de sujeitos críticos, capazes de compreender e transformar a realidade em que estão inseridos.

 

[1] Educação bancária, conceito desenvolvido por Paulo Freire, refere-se a um modelo de ensino em que o professor transmite conteúdos, tratando os alunos como receptores passivos, sem diálogo ou construção crítica do conhecimento.

[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

[3] BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018

[1] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/08/31/rede-estadual-de-sp-ensina-que-capital-paulista-tem-praia-e-agua-pode-transmitir-parkinson-secretaria-diz-que-retificou-erros.ghtml.

‘Digna e solidária’: Cuba agradece Brasil, Espanha e México por exigirem fim do bloqueio dos EUA

O governo de Cuba saudou a declaração conjunta emitida pelos governos do Brasil, Espanha e México no sábado (18), na qual exigiram o fim do bloqueio criminoso dos Estados Unidos contra a ilha e a prevenção de uma agressão militar, em meio às ameaças do presidente norte-americano Donald Trump sobre a possibilidade.

“Em meio à difícil situação que Cuba enfrenta, devido à intensificação do bloqueio dos EUA a níveis extremos, ao atual cerco energético e às constantes ameaças do governo dos EUA, reconhecemos a digna e solidária Declaração Conjunta emitida pelos governos do Brasil, Espanha e México”, declarou, em mensagem publicada nas redes sociais, o ministro das Relações Exteriores cubano Bruno Rodríguez.

O chanceler também enfatizou que o comunicado conjunto das nações aliadas “expressa preocupação, apela a evitar ações contrárias ao Direito Internacional que agravem as condições de vida do povo cubano e expõe o respeito à integridade territorial de Cuba”.

“É urgente respeitar a Carta da ONU e o Direito Internacional, em particular os princípios de autodeterminação, respeito à independência e soberania dos povos, e abster-se da ameaça e do uso da força”, concluiu.

A 4ª Cúpula em Defesa da Democracia foi sediada pelo governo espanhol do socialista Pedro Sánchez neste fim de semana, em Barcelona. Os governos do Brasil, Espanha e México reiteraram, em seus discursos, o apelo ao respeito à integridade territorial cubana e se comprometeram a atuar de forma coordenada para aumentar o envio de apoio humanitário à ilha, aliviando o sofrimento do povo, que é vítima do estrangulamento econômico provocado por Washington a Havana.

“Expressamos nossa enorme preocupação com a grave crise humanitária que o povo cubano está enfrentando e pedimos a adoção das medidas necessárias para aliviar essa situação e evitar ações que agravem as condições de vida da população ou contrários ao direito internacional”, afirma o comunicado conjunto divulgado na noite de sábado.

As três nações ressaltaram ainda a necessidade de “respeitar em todos os momentos o direito internacional e os princípios de integridade territorial, igualdade soberana e resolução pacífica de disputas, consagrados na Carta das Nações Unidas”.

México rechaça intervenção militar em Cuba

Durante a sua exposição, a presidenta do México, Claudia Sheinbaum, reforçou sua posição crítica à violação da soberania de outras nações ao repudiar uma possível intervenção militar por parte dos Estados Unidos em Cuba, reiterando o apelo para que “o diálogo e a paz prevaleçam”.

A autoridade mexicana ressaltou a tradição histórica de sua nação na defesa da autodeterminação dos povos, recordando a posição do país contra o bloqueio a Cuba desde a década de 1960. “Nenhum povo é pequeno, e sim grande e estoico quando defende sua soberania e o direito a uma vida plena”, afirmou.

Em seu discurso, também criticou concepções de liberdade baseadas na submissão a interesses externos ou na transformação de países em “colônias modernas”. Para Sheinbaum, a liberdade “é uma palavra vazia se não for acompanhada de justiça social, soberania e dignidade dos povos”.

Espanha e Brasil pressionam ONU

O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez pediu “ação” contra aqueles que tentam “desafiar as regras do direito internacional com o uso da força”, e alertou que o sistema multilateral precisa ser renovado.

“A ONU só pode sobreviver se representar a realidade”, afirmou, destacando para a necessidade de maior diversidade no órgão global.

Por sua vez, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva expressou preocupação referente à situação humanitária enfrentada pela população em Cuba e voltou a exigir o fim do bloqueio histórico dos Estados Unidos à ilha.

“Cuba tem problemas, mas é um problema dos cubanos, não para Lula, Claudia ou Trump. É um problema para o povo cubano”, enfatizou. “Nenhum presidente, de nenhum país, tem o direito de impor regras aos demais […] Não podemos acordar todas as manhãs e ir dormir à noite com um tweet de um chefe de Estado ameaçando o mundo ao declarar guerras”.

Em paralelo às falas de Sánchez, também convocou o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) a organizar reuniões extraordinárias para lidar com as crises globais. Segundo ele, a organização “não pode permanecer em silêncio” diante dos acontecimentos internacionais. “A ONU é um instrumento muito valioso se funcionar bem”, disse.

*Com informações da Telesur

Conteúdo originalmente publicado em: Opera Mundi

Quem é Agustin Fernandez, aliado de Michelle que detonou Flávio e expôs o ódio no clã Bolsonaro

Agustin Fernandez é um maquiador e empresário uruguaio que chegou ao Brasil em 2011, por meio de Florianópolis, e construiu uma carreira como influenciador digital, com milhões de seguidores nas redes, linha própria de maquiagem, cursos e um livro sobre sua trajetória profissional. Ao longo dos anos, ganhou visibilidade também por trabalhos voluntários com pacientes oncológicas, o que ajudou a ampliar sua presença pública para além do universo da estética.

A aproximação com Michelle Bolsonaro ocorreu por meio das redes sociais e evoluiu para uma relação de confiança e convivência frequente. Ele passou a acompanhar a ex-primeira-dama em eventos oficiais, viagens internacionais e compromissos institucionais, além de marcar presença em ocasiões privadas da família. Em determinado momento, chegou a afirmar que Jair Bolsonaro o tratava “como um filho”, evidenciando o nível de proximidade com o núcleo familiar.

Essa relação o colocou em um espaço incomum: alguém de fora da política formal, mas com acesso direto ao cotidiano e às dinâmicas internas de uma família central na política brasileira recente.

É justamente essa combinação de proximidade pessoal, circulação no ambiente de poder e ausência de mandato ou cargo público que dá peso às suas declarações recentes. Ele trouxe à tona o que muitos sabem, mas é difícil provar: o ódio que os Bolsonaros destilam fora de casa é o mesmo que ressoa entre as quatro paredes dessa família disfuncional e cruel.

Durante participação no podcast “IronTalks”, Agustin Fernandez fez críticas diretas à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, questionando sua capacidade de conexão com o eleitorado. “Flávio é engessado, não conecta com a empregada, com o ambulante. O ego e a vaidade são maiores que a própria causa”, denunciou.

Na mesma entrevista, associou o cenário eleitoral a fatores internos da própria família Bolsonaro, apontando o que chamou de “ego” e “vaidade” como elementos que enfraquecem o grupo politicamente. Também declarou que não pretende apoiar publicamente a candidatura, indicando que não vê viabilidade no projeto diante da força de Lula (PT). “Não vou perder meu tempo sabendo que o Lula tem o Judiciário, a máquina e ainda tem carisma, a mídia, e consegue chegar em todo mundo”, disse.

As críticas não se limitaram ao campo eleitoral.

Agustin também mencionou episódios envolvendo Jair Bolsonaro, afirmando que Flávio teve postura “deplorável” ao ler uma carta relacionada ao pai durante um período de internação. Em outro ponto, disse que houve desrespeito aos eleitores ao tratar a disputa política como se a vaga estivesse “à venda”.

O conteúdo das falas chama atenção pelo tipo de crítica: não é uma discordância ideológica tradicional, mas um questionamento sobre comportamento, postura e capacidade de liderança. Ao vir de alguém tão próximo da família, o discurso ganha outra dimensão e aponta para tensões que raramente aparecem de forma pública dentro do grupo.

Na mesma entrevista, Agustin Fernandez também direcionou ataques ao blogueiro Allan dos Santos, aliado histórico do bolsonarismo e alvo de ordem de prisão preventiva no Brasil. Ele utilizou termos duros ao se referir ao comunicador: “Estelionatário, criminoso, foragido” e “um pedaço de merda insignificante”.

As declarações foram reiteradas ao longo da conversa, com novas ofensas e tentativas de desqualificação pessoal. Em outro trecho, afirmou que Allan dos Santos “é um coitado” e “o mais insignificante” entre os nomes citados por ele no campo da direita. As falas passaram a circular em cortes nas redes sociais e ampliaram a repercussão do episódio.

O episódio não só evidencia um cenário de conflitos internos no campo bolsonarista, mas expõe a incapacidade da família de dialogar e conviver pacificamente, dando uma dimensão do que são capazes em cargos cuja tomada de decisão mexe com os destinos de milhões de brasileiros. Sem perceber, o maquiador deu uma enorme contribuição ao país. Ao menos, agora, ninguém mais vai poder dizer que foi enganado.

DCM

Carne de burro ganha espaço na Argentina e senadora de Milei diz que é “plato fino”

A carne de burro passou a ganhar espaço na Argentina em meio à alta do preço da carne bovina e ao fracasso das políticas econômicas de Milei. O produto começou a ser oferecido por cerca de 7.500 pesos o quilo, enquanto cortes bovinos já passaram de 25 mil pesos em parte do comércio.

O tema saiu do mercado e chegou ao debate político. Em discussão no Senado argentino, o ex-deputado Santiago Igón citou a venda de carne de burro para falar da perda de poder de compra e afirmou que o consumo desse produto, na Patagônia, ocorre porque ele custa muito menos do que a carne bovina.

A resposta veio da senadora Vilma Bedia, da “La Libertad Avanza”, partido de Javier Milei. Segundo relatos da imprensa argentina, ela disse: “Você vai a um restaurante da capital e pede um bife de burro, realmente é uma especialidade para o povo europeu, é um prato fino”.

”.

 

No mesmo debate, Bedia também descreveu a carne de burro como “espetacular” e citou supostas qualidades nutricionais do produto, como presença de aminoácidos, fósforo, ferro e cálcio. A fala circulou nas redes e passou a acompanhar a repercussão sobre a alta do preço da carne bovina no país.

O avanço desse tipo de oferta ocorre no momento em que a inflação argentina voltou a acelerar. O INDEC informou que o Índice de Preços ao Consumidor subiu 3,4% em março de 2026, acumulou 9,4% no ano e chegou a 32,6% em 12 meses.

DCM

“Simbioses e fagocitoses sociais”

0

Vinício Carrilho Martinez

Professor titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista

Bióloga e Mestranda no PPGCTS/UFSCar

 No ambiente escolar, seja no ensino fundamental, médio ou no contexto acadêmico universitário, a compreensão de fenômenos complexos, como os da biologia, pode ser mediada pela chamada transposição didática (CHEVALLARD, 1985)[1]. Esse processo consiste em partir de conceitos mais simples e, a partir deles, construir uma lógica que permita a compreensão de ideias mais complexas e amplas, sendo uma estratégia de aproximação dos conteúdos de forma mais palpável, mas sem eliminar sua complexidade e relevância.

A mutação, por exemplo, pode ser compreendida como alterações no material genético. Um aspecto relevante é que tais alterações não possuem direção pré-estabelecida, podendo resultar em características benéficas, neutras ou prejudiciais ao organismo. Isso evidencia que não há uma finalidade nas mutações, rompendo com a ideia popular de que a evolução ocorre de forma linear e necessariamente progressiva. Assim, as transformações biológicas não estão intrinsecamente associadas à melhoria.

A partir disso, é possível compreender esse processo evolutivo como o resultado do acúmulo de mutações ao longo do tempo, mediado pela seleção natural. Trata-se de um processo contingente, isto é, dependente das condições ambientais e das pressões seletivas, e não de uma trajetória orientada a um fim; logo, não há uma finalidade para isso. Nesse sentido, a evolução expressa transformação, e não aperfeiçoamento contínuo.

Além do conceito evolutivo, é possível analisar também a denominada Teoria da Endossimbiose (MARGULIS, 1970)[2], ao propor que em um determinado momento da história evolutiva, uma célula eucariótica realizou a fagocitose de uma célula procarionte de vida livre. Porém, em vez de ocorrer a digestão, estabeleceu-se uma relação simbiótica entre ambas, originando organelas especializadas, como as mitocôndrias, frequentemente chamadas de “usinas de energia” da célula, devido à sua função e associação.

Enquanto a célula hospedeira passou a dispor de maior eficiência metabólica, a célula fagocitada encontrou proteção e estabilidade, ou seja, algo que poderia configurar um processo de destruição converteu-se em cooperação entre ambas as células.

A distinção entre fagocitose e simbiose evidencia dois modos distintos de relação. Enquanto a fagocitose pode representar um processo potencialmente destrutivo para o organismo englobado, a simbiose baseia-se na coexistência com benefício mútuo. Essa diferenciação permite a construção de uma analogia com as relações sociais. A cooperação entre indivíduos, fundamentada em um espírito de comunidade, pode ser associada à simbiose, marcada pela interdependência e pelo benefício recíproco.

Por outro lado, a fagocitose pode ser compreendida como metáfora de relações sociais marcadas por violência, dominação e exploração, nas quais uma das partes é subjugada enquanto outra exerce poder, como observado nas dinâmicas de classe e em processos históricos atravessados por desigualdades sociais, inclusive de caráter racial. Nesse sentido, a sociedade, especialmente sob determinadas formas de organização econômica, como a capitalista, pode ser interpretada como um campo de tensões entre cooperação e apropriação.

Nesse contexto, emerge a noção de transmutação social, compreendida como o processo pelo qual valores, práticas e significados são apropriados, deslocados e ressignificados ao longo do tempo. Tais transformações não são neutras, pois estão atravessadas por relações de poder. Um exemplo significativo é a incorporação de elementos da contracultura, como o artesanato associado ao movimento hippie, pela lógica de mercado, transformando práticas originalmente contestatórias em produtos de consumo massificado (indústria da bijuteria).

De modo semelhante, disputas interpretativas em torno da Constituição Federal de 1988 evidenciam como princípios jurídicos podem ser tensionados e, em determinados contextos, reconfigurados em sua aplicação, revelando processos de apropriação e distorções dos sentidos originais.

O significado das “revoluções sociais” também pode ser retomado nesse contexto, como ilustração histórica e pedagógica. Revolução é pulsão, paixão, e, ainda que seja emoção e razão, não é institucionalização. Pode e deve criar instituições e institucionalidades, e destruir outras, mas é claro que uma ideia não pode ser retida, confinada, numa instituição. Nem o gênio, liberto, poderá ser colocado de volta na garrafa.

Revoluções sociais são mutações, transformações profundas, mas, podem ocorrer desvios, “cristalizações”, que desvirtuam o sentido original. Como vimos na Revolução Mexicana, depois, transmutada num processo de apropriação que durou 70 anos, sob o domínio do PRI (Partido Revolucionário Institucional).

A racionalidade que havia na luta popular por Justiça Social se transmutou em “racionalização Institucional” (os ideais de liberdade e justiça foram cristalizados em domínio burocrático). Da liberdade à burocracia, da justiça à cristalização do poder.

Contudo, é fundamental reconhecer os limites dessa analogia entre biologia e ciências sociais. Na biologia, embora mutações possam resultar em perda de adaptação ou redução da viabilidade, não há um retorno a estados anteriores, não sendo adequado falar em “involução”. Já nas ciências sociais, processos históricos podem ser interpretados como regressões, especialmente quando envolvem perda de direitos ou consolidação de regimes autoritários. As consequências da Primavera Árabe evidenciam essa complexidade, na medida em que movimentos inicialmente associados à transformação social foram, em alguns contextos, seguidos por cenários de instabilidade ou recrudescimento político (“revoluções coloridas”, como no Brasil do Golpe de 2016).

De forma ainda mais extrema, eventos como o Genocídio Armênio demonstram como processos sociais podem culminar em violência sistemática e extermínio, reforçando-se que, diferentemente da biologia, as transformações históricas não garantem progresso e podem assumir formas profundamente destrutivas. Até os dias atuais, a memória desse genocídio permanece viva e é expressa em produções artísticas, como nas obras de Serj Tankian, vocalista da banda System of a Down, que contribuem para sua denúncia e problematização.

Desse modo, ao articular conceitos biológicos como mutação, evolução, simbiose e fagocitose com interpretações sociais, evidencia-se que os processos de transformação, tanto biológicos quanto sociais, não são intrinsecamente positivos ou progressivos. Pelo contrário, podem assumir diferentes direções, variando entre cooperação e dominação. Reconhecer essa complexidade implica não apenas compreender os fenômenos, mas também problematizar as relações de poder que os atravessam, sem perder de vista os limites entre os diferentes campos do conhecimento.

Esse texto expressa uma modesta contribuição ao debate acerca da complexidade na produção, pesquisa, divulgação científica. Em termos mais técnicos, ainda sinaliza para a continuidade da relação, associação, entre Pensamento Científico e Pensamento Sociológico – como contribuição prática de um processo de simbiose entre duas áreas distintas do conhecimento.

[1] CHEVALLARD, Yves. La transposition didactique: du savoir savant au savoir enseigné. Grenoble: La Pensée Sauvage, 1985.

[2] MARGULIS, Lynn. Origin of eukaryotic cells. New Haven: Yale University Press, 1970.

Educação republicana

0

Além de se entender minimamente o que é República, é obrigatório agir como tal.

Um político profissional não pode ter um patrimônio pessoal maior do que foi declarado no Imposto de Renda.

Um estudante não pode ser aprovado/a na pós-graduação e não se matricular. Sem juízo de valor ou subjetividades, há aqui pelo menos dois problemas:
– O programa é prejudicado porque a CAPES avalia, também, comparando o número de vagas abertas e o número de concluintes. Se não faz a matrícula, não se pode chamar outra pessoa para a vaga que esse indivíduo deixou ociosa. O edital não permite uma lista de cadastro reserva ou segunda chamada.
– Ao obter a aprovação, sem efetuar a matrícula e executar sua obrigação de estudante, o indivíduo aprovado (mas, na omissão da inércia) tira completamente a chance de outra pessoa.
– Portanto, provoca dois prejuízos sensíveis: um institucional, outro, além de si mesmo, é individual – mas, afetando terceiros.

O que nos remete ao sentido de responsabilidade (e não só resultados), de autocrítica, autogoverno (para além da autonomia).
Por mais que se julgue ou queira transparecer um certo nível de consciência, alegando que jamais agirá como o político profissional cínico, esse estudante (tanto quanto o político) não participa honestamente (“honeste vivere”) do processo necessário à Educação emanvipadora.
Por essas e por outras, é certo que não se muda nenhum sistema, sem modificar o indivíduo: não existe geração espontânea. Como se sabe o “Homem novo” pode ser o Homem velho, com roupas novas.
Ambos, estudante na inércia e político profissional cínico, tem em comum a ausência do conhecimento específico e geral (moral) do que é a coisa pública.
Também é certo, portanto, que a responsabilidade mora ao lado – em cima, embaixo, dentro e fora.

@viniciocarrilhomartinez

“Prisão do Paulo Henrique Costa vai levar à prisão do Ibaneis e também vai complicar Flávio Bolsonaro”, diz Lindbergh

Deputado aponta esquema ligado ao bolsonarismo no caso Banco Master e afirma que investigações avançaram sob orientação do presidente Lula

A prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), no âmbito das investigações envolvendo o Banco Master, pode atingir diretamente figuras centrais do bolsonarismo, segundo avaliação do deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ). As declarações foram feitas em suas redes sociais.

Para o parlamentar, o caso representa um ponto de inflexão nas investigações sobre supostos esquemas financeiros envolvendo aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Vai levar à prisão do Ibaneis, de muitos aliados do Flávio Bolsonaro e vai complicar a vida do próprio Flávio Bolsonaro”, afirmou.

Esquema no BRB e decisões sob suspeita

Lindbergh destacou que Paulo Henrique Costa, enquanto presidente do BRB, teria sido responsável por autorizar operações consideradas irregulares, incluindo um empréstimo ligado à aquisição de um imóvel de alto valor.

“Foi o próprio presidente do BRB que autorizou aquele empréstimo escandaloso naquela mansão que ele fez de 6 milhões”, declarou o deputado.

Segundo ele, o escândalo também envolve o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, a quem o BRB estava vinculado politicamente. O deputado citou ainda reportagem do Brasil 247 que resgata uma declaração de Ibaneis no dia 3 de setembro, quando o Banco Central decidiu impedir a compra do Banco Master pelo BRB.

Na ocasião, segundo Lindbergh, Ibaneis teria atribuído responsabilidade ao PT e ao PSB. “O que ficou provado hoje é que o presidente do BRB do Ibaneis, com muitos outros apadrinhados, é acusado de ter suborno de 140 milhões”, afirmou.

Papel do governo Lula nas investigações

O deputado também atribuiu o avanço das investigações à atuação do governo do presidente Lula e do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Para ele, a autonomia da Polícia Federal foi determinante para que o caso avançasse.

“Eu tenho dito, pessoal, que essa investigação só foi à frente por decisão do Lula e o Haddad. Você acha se a Polícia Federal fosse do Bolsonaro, teria tido a prisão do Vorcaro? Teria tido essa prisão do presidente do BRB?”, questionou.

Lindbergh reforçou que a orientação do governo é de aprofundar as apurações até as últimas consequências. “A posição do Lula é uma só: você vai ter que ir até o fim e você vai ver a verdade aparecer sobre tudo isso”, concluiu.

Do Brasil 247

Lula critica ‘liberou geral’ de armas no governo Bolsonaro: “beneficiou criminosos”

“Os mesmos que promoveram esta medida irresponsável hoje querem terceirizar o enfrentamento ao crime organizado para outros países”, alfinetou o presidente

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a flexibilização das regras sobre posse de armas no Brasil e afirmou que a política adotada durante o governo Jair Bolsonaro resultou em desvios que beneficiaram criminosos. A declaração foi feita após reunião bilateral com o presidente do governo da Espanha, Pedro Sánchez, em Barcelona, nesta sexta-feira (17).

Segundo trechos da fala oficial à imprensa, Lula associou o aumento da criminalidade à política de liberação de armas e também criticou a postura de setores que, segundo ele, agora defendem soluções externas para o combate ao crime organizado.

Críticas à política de armas

Durante a declaração, o presidente afirmou que a responsabilidade dos governos é garantir a segurança da população. “O papel dos governos é cuidar das pessoas. Isso significa levar a sério uma das preocupações que mais crescem em todo o mundo, o aumento da criminalidade”, disse.

Ele apontou que a flexibilização das regras no Brasil teve efeitos negativos. “No Brasil, o afrouxamento das regras sobre posse de armas levou a desvios que beneficiaram os criminosos. Os mesmos que promoveram esta medida irresponsável hoje querem terceirizar o enfrentamento ao crime organizado para outros países”, afirmou.

Cooperação internacional e ações conjuntas

Lula destacou a importância da cooperação entre países no enfrentamento ao crime organizado, desde que baseada em igualdade. “A cooperação internacional para o combate ao crime organizado precisa ser feita em bases igualitárias”, declarou.

O presidente citou ações conjuntas com a Espanha, incluindo operações contra o narcotráfico. “Realizamos operações conjuntas contra o narcotráfico, que resultaram na apreensão de mais de 10 toneladas de drogas”, afirmou.

Ele também mencionou a integração espanhola em estruturas de cooperação policial no Brasil e a ampliação dessa parceria. A Espanha, segundo Lula, passará a atuar também com países amazônicos e participará de iniciativas multilaterais contra crimes ambientais.

Tecnologia no combate ao crime

O presidente afirmou que a Polícia Federal brasileira está disponível para compartilhar ferramentas tecnológicas. “A Polícia Federal brasileira está à disposição para compartilhar com a Guarda Civil espanhola um software desenvolvido no Brasil chamado ‘Sistema Rapina’, que detecta abusos sexuais cometidos contra crianças e adolescentes na internet”, disse.

Violência de gênero e proteção às mulheres

Lula também destacou a assinatura de um acordo voltado ao enfrentamento da violência contra as mulheres. “Assinamos também um acordo para pôr fim à violência contra as mulheres. Não é possível avançar como sociedade quando metade da população não tem respeitado sequer o direito mais básico de todos, o direito à vida”, afirmou.

Ele acrescentou que o Brasil pode aprender com a experiência espanhola na redução de feminicídios e mencionou iniciativas de proteção às vítimas conhecidas pela primeira-dama. “Minha querida Janja teve a oportunidade de conhecer um sistema espanhol de monitoramento e proteção de vítimas, que queremos levar para o Brasil”, disse.

Discurso de ódio e regulação digital

O presidente relacionou o aumento da violência à disseminação de conteúdos nocivos na internet. “O aumento da violência também está relacionado à propagação de discurso de ódio na internet. O mundo virtual se tornou um ambiente tóxico, que afeta a saúde mental dos nossos jovens”, afirmou.

Ele citou medidas adotadas na Espanha e no Brasil para regulamentar o ambiente digital e o uso de inteligência artificial. “Sem regras, as big techs vão instituir a era do colonialismo digital. Nossos dados são extraídos, monetizados e usados para concentrar poder político e econômico nas mãos de um punhado de milionários”, declarou.

Cooperação tecnológica entre Brasil e Espanha

Lula também anunciou iniciativas conjuntas na área de tecnologia. Segundo ele, haverá cooperação entre centros de pesquisa dos dois países para o desenvolvimento de projetos em inteligência artificial e outras áreas estratégicas.

A parceria, afirmou, busca fortalecer a soberania digital e ampliar a capacidade tecnológica de Brasil e Espanha em um cenário global cada vez mais dependente de inovação.

Do Brasil 247

Proposta de curricularização da extensão com base em uma epistemologia política da ciência

0

Universidade Federal de São Carlos

Departamento de Biologia

O antropossocial remete ao biológico,

que remete ao físico,

que remete ao antropossocial

Edgar Morin[1]

Proposta de Curricularização da Extensão

com Base em uma Epistemologia Política da Ciência

 

Proponentes

Vinício Carrilho Martinez – Professor titular do Departamento de Educação/UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 

Objetivo geral

Propomos, sinteticamente, que as ofertas de cursos de extensão a cargo do Departamento de Biologia – se e quando for possível e adequado – procurem uma convergência entre os temas específicos a serem abordados e isso que denominamos de Epistemologia Política da Ciência, especialmente no âmbito da Licenciatura.

Apresentação

Antes de nossa fundamentação, é interessante destacar que a presente proposta já pode ser considerada como um resultado fático, obtido a partir da disciplina obrigatória Ciência, Tecnologia e Sociedade, ofertada no semestre 2026/1, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade/UFSCar.

 

Fundamentação

A presente contribuição, à proposta de curricularização das atividades de extensão, construída pelo Departamento de Biologia, fundamenta-se numa Epistemologia Política da Ciência, compreendendo-se o conhecimento científico como uma produção humana, logo, o conhecimento científico é atravessado por relações sociais e historicamente situadas.

  • Nesse sentido, não se trata de uma produção neutra, mas, antes, constituída por sujeitos inseridos em determinados contextos sociais, o que demanda práticas baseadas na problematização, e não na mera transmissão de conteúdos (FREIRE, 2023)[2], uma vez que a simples reprodução não é suficiente para a formação dos sujeitos para a vivência social e a continuidade da trajetória acadêmica. Com isto, pode-se dizer que, numa convergência entre Ciência e Educação emancipadora, a comunicação suplanta a extensão[3] – em alcance e fundamentação ontológica, ao se relacionar o “sujeito do conhecimento”, da pesquisa, à pessoa humana: “É a comunicação com base num pensamento complexo” (Morin, 1992, p. 140)[4].

 

A extensão universitária, nessa perspectiva, deixa de se configurar apenas como espaço de aplicação do saber acadêmico (na pior versão, vem como saber-poder) e passa a se constituir como um campo de produção e de compartilhamento de conhecimentos, sustentando-se pelo diálogo entre universidade e sociedade. Trata-se, também, de um meio de afirmação do compromisso social da universidade pública, ampliando-se o acesso e a relevância do conhecimento produzido.

  • Baseando-se em Edgar Morin (1990)[5], a proposta enfatiza a necessidade de superar a fragmentação do conhecimento, valorizando-se abordagens que articulem sociedade, cultura e ciência. Nesse sentido, tais atividades de extensão possibilitam a integração de diferentes dimensões do saber, promovendo-se a contextualização dos conteúdos e a problematização de questões concretas vivenciadas pelos sujeitos envolvidos.
  • Associado a isso, Gaston Bachelard (1996)[6] contribui ao propor rupturas com o senso comum (experiência imediata não problematizada), demonstrando-se como a construção do conhecimento demanda também por uma reflexão acerca de suas próprias condições de produção, percebendo-se os obstáculos epistemológicos presentes.

 

Nesse contexto, a curricularização da extensão orientada por uma Epistemologia Política da Ciência busca promover práticas voltadas ao desenvolvimento do pensamento crítico – do Pensamento Científico que sabe, tem consciência, de ser um Pensamento Sociológico –, a partir da análise de problemas socialmente relevantes, e isso possibilita uma compreensão mais ampla e articulada entre diferentes perspectivas.

Por fim, a proposta reafirma o papel da universidade na formação de sujeitos cognoscentes, mas criativos e críticos, e na promoção da transformação social, articulando-se ensino, pesquisa e extensão. Portanto, a extensão configura-se, nesse sentido, como um espaço de grande relevância para a compreensão da ciência como prática política e social, possibilitando-se intervenções mais conscientes e comprometidas com a realidade dos sujeitos internos da universidade e também como a fluência de um convite aberto para que a sociedade participe.

Como se diz, popularmente, “quem sabe, sabe”; contudo, sempre é preciso afirmar que só se “sabe” quando se “apreende” – tomando-se para si o conhecimento e agindo na forma da práxis (reflexão e ação).

 

 

[1] “Portanto, devemos ir do físico ao social e também ao antropológico, porque todo conhecimento depende das condições, possibilidades e limites de nosso entendimento, isto é, de nosso espírito-cérebro de homo sapiens (Morin, 1992, p. 139).

[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

[3] FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

[4] “É convidar a pensar-se na complexidade. Não é da a receita que fecharia o real numa caixa, é fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto – o idealismo –, que crê que o real se pode deixar fechar na ideia e que acaba por considerar o mapa como o território, e contra a doença degenerativa da racionalidade, que é a racionalização, a qual crê que o real se pode esgotar num sistema coerente de ideias” (Morin, 1992, p. 139).

[5] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

[6] BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. Trechos: p. 7-28 e p. 259-292

EXTRAÇÃO DA MAIS VALIA E O SISTEMA DE SERVILISMO VOLUNTÁRIO

0

Ester Dias da Silva Batista

Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação e Sociedade/UFSCar (15/04/2026)[1]. Então, vamos aos tópicos:

  • O Mecanismo de Exploração: Mais-Valia e Uberização:
  • A extração da mais valia pode ser brevemente definida como a extração do esforço do sujeito (força de trabalho) que não é devidamente remunerado, onde a maior parcela da produção é destinada ao LUCRO da empresa, enquanto o trabalhador/a (proletariado) recebe apenas uma parte.
  • No século XXI, essa exploração se modifica, agudiza-se e se torna predatória:
    • De um lado, temos o sujeito totalmente uberizado, como no sistema 9-9-6 (trabalho das 9h às 21h, 6 dias por semana, como ocorre na China), onde a vida é reduzida à organização da plataforma.
    • No centro (o “cinza”), surge a figura da professora que complementa renda, vivendo uma uberização intermitente. Ela possui um vínculo fixo, mas é atraída para um local sem direitos ou amparo trabalhista, evidenciando-se a fragilidade das garantias e da própria segurança jurídica na atualidade.
  • Esse processo caracteriza um servilismo voluntário, onde o motorista ou trabalhador aceita a “mordida” (taxa) da plataforma para poder trabalhar, estabelecendo um paralelo direto com o senhor feudal que cobrava pelo uso da terra mais fértil.
  • Na imagem a seguir, essa ideia da exploração do proletariado e lucratividade é retratada.Pode ser um gráfico de texto que diz "កាំ A: Total produzido; B: Despesas para manutenção da empresa; C: Salário do empregado; D: Lucratividade obtida pelo patrão."
  • Modernidade Líquida e a Insegurança (Bauman):
  • Essa ausência de estabilidade é discutida pela modernidade líquida de Bauman.
    • Diferente da modernidade “sólida” (período de florescimento industrial, fabril), o tempo atual é marcado pela fluidez das relações, pela fragmentação, volatilidade e por uma incerteza constante, seja nas relações pessoais ou trabalhistas.
  • A lógica do consumo imediato substitui a segurança a longo prazo, bem como a substituição da segurança do CLT pela exploração sem regras da “uberização social”.
  • A precariedade do trabalho uberizado (seja ele total ou de interface) é um reflexo direto dessa liquidez, onde as conexões são transitórias e o indivíduo nunca está realmente “fora” da rede de exploração, seja por ser o explorado enquanto trabalhador ou então via consumo de trabalhos que utilizam dessas interfaces de exploração.
    • Contudo, apesar da condição de uberização, o sujeito pode ainda perceber essa forma de trabalho precária como uma alternativa viável. Em muitos casos, indivíduos que conseguem obter rendimentos significativamente superiores, por vezes mais que o dobro, atuando como motoristas de aplicativo, optam por essa modalidade, mesmo diante da ausência de direitos trabalhistas. Por outro lado, o regime CLT, embora assegure tais direitos, frequentemente oferece remuneração considerada insuficiente, além de demandar elevada carga de tempo e esforço, o que contribui para a preferência por formas de trabalho mais flexíveis.
  • Ideologia e Regulação Interna:
  • Universalizar o Particular (Chauí): Ao projetar uma visão de mundo específica (a exemplo do “empreendedor de si mesmo”), como uma verdade absoluta ou dogma, o sistema convence o sujeito a aceitar a exploração de forma voluntária.
    • Temos, portanto, a ideologia dominante sendo a ideologia de quem manda (a classe dominante);
  • Instituições e Viés: O exemplo da “Escola sem Partido” ilustra a tentativa de criar uma neutralidade impossível, pois nada é isento de viés. A ideologia dominante busca mascarar esses vieses para manter o controle sobre o pensamento social e, com isso, ainda se demoniza o pensamento científico: negacionismo.
  • O Papel do Pensamento Sociológico:
  • Para combater essa manipulação e enxergar além do “dogma”, surge a sociologia como um “desconforto necessário”, bem como uma educação de qualidade também passa por essa perspectiva de transformação do sujeito, para além do “óbvio”, daquilo que lhe é ofertado.

Temos, assim, um pequeno retrato do capital hegemônico na sua fase atual. O que nos leva a refletir sobre o significado do Pensamento Sociológico[2], sempre do presente para o passado, do geral ao particular[3].

[1] Por síntese (e por óbvio), entende-se que não é a totalidade, mas sim a essência que me pareceu adequada. O mapa geral das discussões trata, efetivamente, do que está sinalizado no título.

[2] https://farofafilosofica.blog/2026/04/14/possibilidades-do-conhecimento-sociologico-texto-de-zygmunt-bauman-2/. Acesso em 15/04/2026.

[3] Vale destacar ainda que essas questões estão dispostas num texto original disponibilizado, no primeiro encontro ou até antes disso, num e-mail coletivo das turmas. Como última menção, é importante destacar que esse texto será disponibilizado aos/às estudantes como “retorno” para leitura futura. De forma que possam organizar um pouco mais suas anotações ou abstrações daquele encontro.

Governo Lula lança plano contra crime organizado até o final de abril

Programa prevê cooperação com estados e foco em asfixia financeira de facções

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara o lançamento do programa “Brasil contra o crime organizado”, iniciativa que pretende ampliar o combate às facções no país por meio de cooperação com os estados e foco na asfixia financeira das organizações criminosas. A proposta integra uma estratégia mais ampla para reforçar a segurança pública e responder às pressões internas e externas sobre o tema.

De acordo com o SBT News, o plano está em fase final de elaboração no Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e deve ser anunciado até o fim do mês. A iniciativa é tratada como uma resposta a uma das principais preocupações do eleitorado brasileiro: o avanço do crime organizado.

Integração com a Lei Antifacção

O programa é um desdobramento da Lei Antifacção, sancionada recentemente com vetos presidenciais. A proposta busca transformar a legislação em ações práticas, com mecanismos operacionais voltados ao enfraquecimento das estruturas das organizações criminosas.

Entre os principais eixos estão o combate ao financiamento das facções, o controle de armas, a retomada de territórios dominados e o fortalecimento da vigilância nas fronteiras. A estratégia mira tanto a atuação direta dos grupos quanto suas bases logísticas e financeiras.

Apoio federal e adesão dos estados

A adesão dos estados ao programa será voluntária. As unidades federativas que participarem terão acesso a investimentos federais, incluindo equipamentos, insumos e tecnologias para reforçar as operações de segurança pública.

A proposta prevê maior integração entre os entes federativos, com o objetivo de ampliar a capacidade de resposta das forças locais e padronizar ações de combate ao crime organizado em todo o país.

Impasse sobre recursos e pressão política

Apesar do avanço nas discussões, ainda não há consenso dentro do governo sobre o volume de recursos destinados ao programa. A área econômica avalia os limites fiscais, enquanto o presidente Lula tem defendido a abertura de espaço no orçamento para viabilizar os investimentos.

Em declarações recentes, Lula tem enfatizado a necessidade de enfrentar as organizações criminosas com mais rigor e defende ações que alcancem os níveis superiores dessas estruturas. O presidente também reiterou a proposta de criação de um Ministério da Segurança Pública e de uma Guarda Nacional, medidas que dependem da aprovação de uma Proposta de Emenda à Constituição.

Repercussão internacional e pressão externa

O tema ganhou maior relevância após sinalizações de autoridades dos Estados Unidos sobre a possibilidade de classificar facções brasileiras, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas, o que pode abrir espaço para sanções ou intervenções militares estadunidenses em território brasileiro.

Do Brasil 247

O Uber que faz trading

0

@viniciocarrilhomartinez

Há histórias que ouvimos, de contadores e contadoras de histórias, que duvidamos da sua inteireza, como se mais da metade fosse só de “estórias”, invenções e retoques para ficarem meio parecidas com lendas. Daí também fazer sentido a expressão “lenda urbana”. E há histórias mal contadas, distorcidas, que afundam os fatos no esquecimento e surgem como narrativas. Adoro lenda urbana e detesto as tais narrativas.

A história de hoje, se você não acreditar no que vou contar – porque realmente pode parecer invenção da minha cabeça –, figuraria como uma lenda urbana que acabei de inventar. Mas não é. Penso que sou criativo e gosto de pessoas criativas, mas não seria assim criativo a ponto de inventar essa lenda urbana.

Na volta de hoje da universidade, das aulas na licenciatura em que falei um bocado de tempo sobre o que chamo de “uberização social”, fiz uma viagem com um jovem – uns 35, 37 anos – que se mudou de Salvador, Bahia, para cá, faz cinco anos.

Está radicado. Veio para trabalhar. Esteve empregado numa empresa local, período em que fez boa parte do curso de engenharia de produção – um curso concorrido e difícil. A empresa pagava metade dos custos de sua educação.

Quando saiu desse trabalho, as mensalidades ficaram muitos caras. Teve que parar momentaneamente. Mas, disse que voltará para concluir seu curso. A história, no entanto, não tem apenas esse componente.

O que gravei na mente, e que monopolizou nossa conversa, é o fato de que ele faz Uber no período da tarde, após às 11, 12 horas. Durante a manhã atua no mercado financeiro, na Bolsa de Valores. Como tenho um pouquinho de ações, a conversa fluiu para algumas implicações mais técnicas. Não sou especialista como ele, mas não ignoro tudo.

Contou-me que ganha aproximadamente o mesmo valor, de manhã na B3, e à tarde no Uber. Me pareceu feliz, apesar de não saber se é pelos seus rendimentos ou porque encontrou alguém que conhece um pouco do trabalho dele.

Ele tem ações, reinveste os rendimentos, projeta suas compras no futuro, quando poderá se aposentar do Uber e de qualquer outro emprego, com alguma reserva financeira. Esse raciocínio é curto no Brasil, só uns 5 milhões de pessoas têm essa perspectiva, enquanto, nos EUA, os/as investidores/as passam de 50% da população – mais de 100 milhões de pessoas, portanto.

É claro que são realidades diferentes, ninguém está aqui comparando Brasil e EUA, na economia, na sociedade como um todo, porém, há um componente cultural: no Brasil, há preferência popular pelos “aluguéis de imóveis” ou pela poupança.

O mais curioso, penso eu, é que ele atua fazendo trading de mini dólar. O que, mais uma vez, é uma componente muito curiosa, porque ele faz dinheiro comprando e vendendo dólar. Teve só uma pergunta que ele pulou, quando indaguei se fazia dividendo sintético. Mas tá tudo bem, já nos deu seu exemplo de aprendizado e de superação.

Isso não é lenda urbana, é somente uma história incrível.

 

Antipedagogia e a reprodução das estruturas sociais

0

Ester Dias da Silva Batista

Monitora da disciplina Educação e Sociedade/UFSCar

Beatriz Vitória Vieira de Lima

Monitora da disciplina Educação e Sociedade/UFSCar

 O texto aqui trabalhado trata brevemente sobre a perspectiva utilitarista, instrumental e adaptativa do processo educativo, entendida como resposta à crescente crise educacional no país. Segundo Paulo Freire1, uma pedagogia efetiva entre docentes e discentes pressupõe a compreensão do estudante como sujeito ativo no processo de ensino, e não como um mero receptáculo passivo de conteúdos. Trata- se, portanto, de superar a chamada educação bancária2, na qual o conhecimento é apenas depositado, sem diálogo, reconhecimento do sujeito discente ou construção conjunta no processo de ensino e aprendizagem.

Entretanto, o que se observa na educação brasileira, especialmente quando as escolas passam a ser compreendidas mais como espaços de depósito dos estudantes, do que como instituições educacionais, de fato, há uma expansão da perspectiva antipedagógica. Isso se manifesta em discursos que rejeitam a própria estrutura formadora da pedagogia, organizando-se em duas vias principais. A primeira reduz a educação aos processos utilitários e mecanizados, como o uso de estratégias ilustrativas esvaziadas de sentido, “musiquinhas pedagógicas” ou a ideia, amplamente difundida, de que o professor deve transformar a aula em um espetáculo constante (quase um “circo”), priorizando-se o entretenimento em detrimento do conteúdo.

Em um paralelo biológico, esse processo pode ser comparado à substituição da alimentação completa, que exige digestão, assimilação e transformação dos alimentos consumidos, pela administração direta de nutrientes na corrente sanguínea. Nessa perspectiva, o estudante deixa de elaborar o conhecimento, como indivíduo pensante e em um ambiente formativo, limitando-se a recebê-lo de forma pronta, já processada.

A segunda via, por sua vez, se dá como consequência dessa primeira, correspondendo à desvalorização das teorias e das produções consideradas complexas, academicamente, e reforçando-se uma lógica de simplificação extrema do conhecimento como forma de ensino. Ao invés de se formar sujeitos capazes de compreender e produzir saberes, promove-se a lógica de “dar o peixe”, mas sem ensinar a pescar (que tende a ser reproduzida até alcançar locais de ensino, como a universidade, que, forçadamente, ensinam esses sujeitos a pescar, como um tranco pedagógico e de modo forçado).

Associado a esse cenário, observa-se também o fortalecimento da ideia de meritocracia3 no campo educacional, que desloca para o indivíduo a responsabilidade (e culpabilização) por seu desempenho, desconsiderando-se todos os condicionantes sociais, econômicos e culturais que impactam diretamente o processo de aprendizagem. Esse movimento se articula com propostas de padronização, como a ampliação de escolas cívico-militares, o ensino religioso e a inserção de conteúdos como educação financeira em substituição às disciplinas de caráter crítico, especialmente no contexto da educação pública.

Enquanto isso, grupos sociais privilegiados continuam tendo acesso a uma formação completa e estruturada, incluindo-se áreas como História, Sociologia e Filosofia. Assim, tais propostas não visam à construção do conhecimento, mas à formação de sujeitos adaptados, disciplinados e pouco críticos. Retomando-se a analogia biológica anterior, não apenas se oferece o peixe sem ensinar a pescar, como também se limita a qualidade desse alimento, restringindo-se ainda mais as possibilidades formativas.

Portanto, a educação antipedagógica se apresenta como um mecanismo de manutenção das estruturas sociais de poder, contribuindo para a reprodução das desigualdades e a preservação (via produção de uma crise educacional) do status quo4, uma vez que aqueles que detêm o poder tendem a não abrir mão facilmente de suas posições5.

  • A meritocracia é um conceito que se baseia na ideia de que o sucesso individual é resultado exclusivo do mérito pessoal, como esforço e/ou capacidade unicamente do No campo educacional, essa perspectiva acaba desconsiderando as desigualdades econômicas, sociais e culturais, atribuindo o desempenho dos estudantes apenas a fatores individuais, o que gera, por exemplo, a culpabilização do indivíduo somente.
  • Expressão que significa “estado atual das coisas”, sendo utilizada para se referir à manutenção das estruturas sociais, políticas e econômicas já existentes (e que tendem a se manter).
  • Pensamento discutido na aula de Educação e Sociedade ofertada no semestre 2025/2 no curso de Ciências Biológicas.

Educação antipedagógica e desafios da escola pública

 A educação brasileira tem sido marcada por tensões entre propostas pedagógicas críticas e práticas tradicionais ainda predominantes no cotidiano escolar. Nesse contexto, emerge a discussão sobre a chamada educação antipedagógica, entendida como uma crítica aos modelos tradicionais de ensino, especialmente aquilo que Paulo Freire (1968) denominou de “educação bancária”.

A educação antipedagógica pode ser compreendida como uma perspectiva que se opõe aos métodos tradicionais de ensino baseados na transmissão de conteúdos de forma verticalizada. Na educação bancária, o professor assume o papel de detentor do conhecimento, enquanto o aluno é visto como um sujeito passivo, responsável apenas por receber e reproduzir informações. Em contraposição, a perspectiva freiriana propõe uma educação libertadora, centrada no diálogo, na problematização da realidade e na formação de sujeitos críticos e participativos.

Nesse sentido, a educação deve possibilitar ao educando desenvolver sua capacidade de análise e intervenção no mundo, superando sua condição de alienação. A realidade das escolas públicas revela desafios significativos para a implementação de uma educação crítica7. A pressão pelo cumprimento integral do livro didático, aliada à necessidade de preparação para avaliações, muitas vezes leva professoras e professores a priorizarem a transmissão de conteúdos em detrimento de práticas reflexivas.

Essa lógica contribui para a memorização mecânica dos conteúdos, dificultando-se o desenvolvimento do pensamento crítico. A experiência em estágios em escolas públicas evidencia que, frequentemente, os professores precisam cumprir metas e prazos, o que limita a construção de práticas pedagógicas mais significativas. Além disso, observa-se o aumento do número de alunos com laudos, sem o devido acompanhamento especializado. Em muitos casos, o professor/a professora, diante das condições de trabalho e da diversidade de níveis de aprendizagem em sala, acaba adotando estratégias como a cópia de respostas ou atividades padronizadas, que não atendem às necessidades de todos os estudantes. Essa realidade evidencia os limites estruturais da escola pública para se garantir uma educação inclusiva e de qualidade.

No campo das políticas educacionais, destaca-se o Projeto VOAR, implementado na rede estadual de Ensino de São Paulo, que propõe a separação de estudantes por desempenho com o objetivo de recompor aprendizagens. Embora seus defensores argumentem que essa organização permite adequar o ritmo de ensino, críticas apontam que tal prática pode reforçar desigualdades, rotular estudantes e afetar sua autoestima. Segundo Vygotski8, a aprendizagem ocorre na interação social, especialmente entre sujeitos com diferentes níveis de desenvolvimento, indicando que turmas heterogêneas podem favorecer o aprendizado coletivo.

Outro aspecto relevante é a implementação das escolas cívico-militares que enfatizam disciplina, hierarquia e valores cívicos – como “ordem unida”, militarizada, massificada. Embora possam contribuir para a organização do ambiente escolar, tais modelos podem entrar em conflito com a proposta de educação emancipadora9 defendida por Freire, ao limitar a autonomia, o diálogo e o protagonismo dos estudantes, aproximando-se de práticas mais autoritárias e transmissivas.

A presença do ensino religioso nas escolas públicas também levanta debates importantes, sobretudo no que se refere à laicidade do Estado10 e ao respeito à diversidade cultural e religiosa. É fundamental que essa disciplina, quando ofertada, não imponha crenças, mas promova o conhecimento plural sobre diferentes tradições. A inclusão da educação financeira no currículo, conforme orientações da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tem como objetivo preparar os estudantes para a vida prática, abordando temas como consumo consciente e planejamento. No entanto, é necessário que essa abordagem vá além de orientações técnicas, promovendo uma reflexão crítica sobre as desigualdades sociais e econômicas, evitando a responsabilização individual por questões estruturais.

Por fim, a precarização da educação pública constitui um dos principais entraves para a construção de uma escola democrática e de qualidade. A falta de investimento, os baixos salários docentes, a infraestrutura inadequada e a sobrecarga de trabalho comprometem significativamente o processo educativo. Sem condições adequadas, a escola não consegue cumprir sua função de socialização do conhecimento historicamente produzido, o que pode contribuir para a reprodução das desigualdades sociais.

Diante desse cenário, torna-se fundamental refletir sobre o papel da escola pública e das políticas educacionais na formação dos estudantes. A educação antipedagógica, ao propor uma ruptura com modelos tradicionais, oferece caminhos para uma prática mais crítica e emancipadora. No entanto, sua efetivação depende de mudanças estruturais que garantam melhores condições de ensino, valorização docente e compromisso com uma educação verdadeiramente transformadora.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970 (1ª ed. publicada no México, 1968).

  • O conceito de Educação Bancária foi desenvolvido por Paulo Freire como forma de criticar esse modelo de ensino no qual o professor deposita conteúdos nos estudantes, considerados sujeitos passivos, algo que se orienta apenas pela transmissão, em total oposição a uma educação problematizadora e crítica.

VYGOTSKI, S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2008

  • Educação emancipadora é uma abordagem pedagógica crítica que visa libertar os indivíduos da opressão e da alienação, promovendo autonomia, pensamento reflexivo e consciência social.
  • Significa que o governo é neutro, não adota religião oficial, não financia cultos e garante a liberdade de crença (ou descrença) para todos os cidadãos, tratando todas as fés de forma igualitária.

REFERÊNCIAS

 FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1970 (1ª ed. publicada no México, 1968).

VYGOTSKI, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2008

PORTARIA DO SUBSECRETÁRIO, DE 3 DE FEVEREIRO DE 2026 – Institui o Projeto VOAR.

Disponível       em:

<https://deguaratingueta.educacao.sp.gov.br/portaria-do- subsecretario-de-3-de-fevereiro-de-2026-institui-o-projeto-voar-em-carater-piloto-e-por- adesao-voluntaria-com-o-objetivo-de-promover-a-reducao-das-desigualdades-educacionais- atraves-d/>. Acesso em: 12 abr. 2026.

Ramagem é preso nos EUA após inclusão na lista da Interpol

O ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) foi preso nos Estados Unidos pelo serviço de imigração norte-americano (ICE), após ser incluído na lista da Interpol a pedido do Supremo Tribunal Federal (STF). Condenado a 16 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, ele havia deixado o Brasil de forma clandestina antes do fim do julgamento para evitar a execução da pena.

Ramagem atravessou a fronteira de Roraima com a Guiana e, posteriormente, seguiu para os Estados Unidos. A saída irregular ocorreu em meio ao avanço do processo no STF, que culminou na condenação do ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

O pedido de extradição foi formalizado pelo governo brasileiro no início de 2026. Em janeiro, o Ministério da Justiça informou ao STF que a solicitação havia sido encaminhada às autoridades norte-americanas. A Embaixada do Brasil em Washington já havia enviado a documentação necessária ao Departamento de Estado dos Estados Unidos em 30 de dezembro de 2025.

A inclusão do nome de Ramagem na lista da Interpol foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo. A medida permitiu que autoridades estrangeiras pudessem localizá-lo e efetuar sua prisão fora do território brasileiro.

Aliados do ex-deputado afirmavam que ele pretendia solicitar asilo político nos Estados Unidos, estratégia que poderia dificultar o processo de extradição. No entanto, a detenção pelo ICE ocorre em meio à análise do pedido brasileiro pelas autoridades norte-americanas.

Enquanto permaneceu no exterior, Ramagem também foi alvo de sanções administrativas e políticas no Brasil. Após a cassação de seu mandato, a Câmara dos Deputados cancelou seu passaporte diplomático. Além disso, por determinação do STF, foram bloqueados seus vencimentos parlamentares.

Do Brasil 247

O menino e o desenho

0

Por Vinício Carrilho

Essa narração é um pouco mais antiga, do início de 2025, quando fui para São Paulo-Capital, pela última vez. Nosso objetivo era achar passeios interessantes e, como sempre fazemos, andar pela Liberdade e conhecer algum Museu diferente – e um Shopping diferente, também.

Não chegamos exatamente no mesmo horário, então saí do hotel para encontrar a Fátima num ponto combinado. E aí começa essa nossa história, com a minha conversa com o motorista do Uber.

Como já é uma marca, começo puxando conversa sobre o clima, o trânsito – temos que lembrar sempre que são motoristas com jornadas diárias de 10 a 12 horas – e vou vendo para onde vai o diálogo. Procuro sempre enfocar nas condições de trabalhado, na tal “uberização social” (que afeta todo mundo, de um modo ou de outro), para, quem sabe, levar uma fagulha de crítica ao neoliberalismo.

Nunca falo de política, diretamente, a não ser por vias indiretas – como quando perguntei, em outra viagem, se o motorista conhecia o projeto federal de criação de Pontos de Descanso para os motoristas de Uber. E menos ainda falo sobre partidos políticos – inclusive porque, no Brasil, partido político é um caso que não se fecha na análise apurada da Ciência Política.

Pois bem, naquela última viagem a São Paulo, o motorista – de uns 35 anos – disse-me que deixou o emprego regular (com CLT), que tinha como chefe ou supervisor de logística, sua área de formação, para ser Uber. Achei estranho e perguntei o porquê. Ele contou que fez isso por causa de dinheiro, para terminar a construção de sua casa.

Disse que às vezes virava ajudante de pedreiro na construção da própria casa, junto com a esposa. Contou que, num belo dia, o filho não queria ir para a escola. A mãe disse que iria, brava. Ele disse que poderia faltar, se quisesse, mas teria que ajudar com os tijolos.

A mãe ficou irritada com ambos. Mas, o menino achou ótimo ficar com o pai naquela manhã. E foram transportar tijolos depois do café. O pai, o motorista do Uber, entrou num dos cômodos em construção e disse ao filho para lhe trazer os tijolos, de cinco em cinco. No começo era só festa. Depois de 10 minutos o menino acusou cansaço nos braços de criança. O pai disse: “mais uma hora de trabalho!”.

Por volta da hora do almoço, o pai parou tudo e mandou o menino tomar banho para comerem. Depois do almoço, o pai disse que compraria um desenho que o menino fizesse naquela tarde. E o menino fez, e ganhou 10 reais.

Em seguida, o pai (motorista) lhe disse que todo trabalho é honesto. Porém, ele viu como é difícil o trabalho de pedreiro, quando não se tem muitas oportunidades. E lhe disse que a escola poderia lhe dar aprendizados para trabalhos melhores, como o desenho, as artes, a universidade. O que se chama de trabalho vivo, na Sociologia.

Por fim, chegamos ao meu destino, a Fátima já me espera.

Antes de descer, tirei cinquenta reais da carteira e dei ao pai, para que comprasse um desenho do filho dele para mim. Iria dizer ao menino que quando me encontrasse novamente, numa viagem de Uber em São Paulo, me daria o desenho.

É uma história que me emociona toda vez que lembro.

Uma família simples, pobre, com uma imensa sabedoria que começa, caminha e termina sempre na Educação dos filhos.

Com mais pessoas como eles, o Brasil daria certo.

 

 

 

QUINTA COLUNA – uma pequena história de esquerda torpe

0

 

– ou de “analfabetização política”

@viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista

– Bióloga e mestranda no PPGCTS/UFSCar

Veremos que não existe esquerda da boca pra fora.

Cabem umas poucas explicações: a parte central do texto já foi empregada em outro momento, com outros objetivos, mas sempre é bem vinda na explicação de um fenômeno – infelizmente, sempre atual.

Também é preciso dizer que a expressão “analfabetização” não existe formalmente (é até contrária à lógica), mas aqui é empregada como figura de linguagem; não é conceito sociológico e nem condição pedagógica.

Porém, a “analfabetização” insiste em ser (reaparecer) como fenômeno social e político: à direta se chama negacionismo (de tudo o que for racional e razoável), já, à esquerda, corresponde (essa é só uma faceta) à aceitação de apenas uma parcela do Processo Civilizatório – leia-se cultura, educação, civilidade, conhecimento, Pensamento científico –, enquanto faz escárnio de outras parcelas obrigatórias (pela epistemologia básica) da visão de mundo que seria corresponde à esquerda.

Em contextos semelhantes, tais perfis põem em prática o machismo doméstico – que beira à misoginia –, apregoam o antissemitismo (a guerra com o Irã é apenas uma desculpa), tanto quanto têm a xenofobia e a homofobia pela frente.

Para esses indivíduos a visão de mundo não se fechou por completo, não se alinhou no horizonte dos fatos, não há concordância conceitual. Há um estrabismo, para quem de “esquerda” se autointitular e, ao mesmo tempo, defender que os animais vivam nas ruas – remedando quem os acolha com os próprios recursos – ou, simplesmente, apregoando que sejam todos eliminados e mortos.

Em casos extremados, isso que chamamos de “Esquerda torpe”, é capaz de “criticar a condição do sistema prisional” e, concomitantemente, defender a lisura de uma “festa popular” chamada de A farra do boi – ou simplesmente não ver maldade nas rinhas de galo.

Nesse caso grave, sem aparente remédio político-jurídico (a não ser estudar), o córtex frontal não se ajusta à sensibilidade, a sinapse não encontra teoria e prática: discurso via de regra sem se expor para além das redes antissociais e tóxicas (iguais a esses perfis).

E nisso há falha grave na formação de uma visão de mundo de esquerda, se esperamos pela coerência entre as latitudes e as longitudes políticas, sociais, humanizadas. Não se é de esquerda pela metade e, exatamente por isso, é muito mais difícil entender-se assim do que sentar no sofá como um “sujeito comum de direita”.

Muitas vezes, ambos são “cidadãos de bens” – a exemplo de quando esse “ser de esquerda” mantém em sua residência o famoso “quartinho da empregada”, como reprodução do engenho e da Casa Grande urbana. Alguns desses até podem ser defensores dos direitos humanos, mas não notam os maus tratos aos animais.

Uma esquerda incapaz de ver o Bom Senso

Ainda nessa perspectiva, Gaston Bachelard (1996) discute os chamados obstáculos epistemológicos, caracterizados pela predominância da opinião e do senso comum, que dificultam a construção crítica e da produção racional do conhecimento. Nesse sentido, o autor afirma que “A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião” (Bachelard, 1996, p. 18), indicando que a opinião, enquanto forma imediata de apreensão do real, não se constitui como fundamento válido para o conhecimento científico.

Logo, o senso comum, quando não submetido à crítica e à reflexão efetivas, tende a se reproduzir de maneira acrítica, reforçando-se interpretações já estabelecidas e pouco problematizadas da realidade social, como no caso da dualidade entre a crítica das condições do sistema penal, mas o divertimento e a lucratividade com rinhas de galo, por exemplo; algo que se vê em alguma parcela da esquerda atual, justamente por essa “indução do senso comum” à reprodução desassistida de análise crítica ou cognitivamente fundamentada.

Nesse sentido, o autor também afirma que: “Mesmo na mente lúcida, há zonas obscuras, cavernas onde ainda vivem sombras. Mesmo no novo homem, permanecem vestígios do homem velho.” (Bachelard, 1996, p. 10). Ou seja, mesmo no processo de construção do conhecimento científico persistem elementos do pensamento não elaborado, ligados ao senso comum, quase que intrinsecamente apegados ao sujeito, caracterizando-se a dificuldade de se expurgar tais pensamentos. Em diálogo com essa perspectiva, pode-se relacionar tal movimento à ideia freireana de “novo homem”, compreendido como sujeito crítico em processo de formação (Freire, 2022) , ao indicar que a superação do senso comum não é imediata nem linear.

A permanência de formas de pensamento pouco problematizadas (e incoerentes), por sua vez, acaba por contribuir para análises simplificadas da realidade social, como a presença de animais em situação de rua, frequentemente tratadas de maneira descontextualizada e até normalizada. Isso evidencia a tensão entre uma leitura crítica e histórica da realidade e interpretações baseadas em percepções imediatas do cotidiano – normalmente danosas e tóxicas ao ambiente e ao convívio que se espera para uma visão de mundo de esquerda.

Há muito dessa tipologia, um tipo de espécime político, incapaz, inclusive, de visualizar o “melhor do senso comum”, que podemos chamar de Bom Senso do senso comum: aquela pessoa mais simples que sabe o valor de se aplicar ao Bem e, assim, pela lógica meridiana, apartar-se do Mal.

Para efeito político e didático, veremos a seguir uma resenha retirada da leitura de A quinta coluna, pois nos parece haver a incidência clara da “analfabetização política de esquerda” e a consequente provocação de ações políticas torpes.

A quinta coluna

Madri sofreu um sítio realizado por quatro colunas de fascistas revoltosos por três anos e, além disso, de dento da cidade, outro grupo indicava os alvos que deveriam ser bombardeados: a Quinta Coluna de infratores, infiltrados, traidores e mercenários.

Os personagens centrais representam o povo espanhol – mesmo que ali apareçam como ingleses, americanos e alemães – e todos aqueles que se identificam com a democracia e a liberdade. O retrato é o do horror. Pouco restava de idealismo, nacionalismo, heroísmo. Havia apenas o vazio que corroía a humanidade. Na luta intestina pela sobrevivência, o Bem e o Mal se confundiam. Eram protagonistas desiludidos. Apegava-se à dor e à privação. Na narrativa, as falas aparecem com beligerância, de combatentes desiludidos. Para o autor, a moral da história ilustra a ausência total de “vida particular”. Se é que havia vida.

O primeiro ato já traz um diálogo inicial “educado”, mas áspero na intenção oculta, entre Dorothy e Preston, até aquele momento eram amantes – em que ela traduz o amor de ambos: “É apenas um mau hábito que adquiri” (Hemingway, 2007, p. 17). Em seguida, surge o gerente do hotel em que estão hospedados pedindo comida para sua família…A esta altura os bombardeios já haviam avançado sobre Madri – quando apareceu outro “camarada” de partido. Este camarada se faz acompanhar de uma prostituta Moura e que logo invoca com Dorothy: “Arranco os olhos, se você acha melhor do que eu” (Hemingway, 2007, p. 26). Pouco antes, a Moura estivera indignada com um cartaz que estava fixado à porta, onde se lia: “Trabalhando, não perturbe”.

Em meio a outro diálogo bastante ácido recomeçam os bombardeios. Temos uma reação de Preston e aí segue uma descrição como um aviso de morte: “Há um som como o acorde de um banjo gigantesco e um ruído que se aproxima como um trem vindo na direção da gente” (Hemingway, 2007, p. 33). Philip, o camarada que encanta Dorothy, justifica porque não vai a um abrigo: “Seguro não é bem o termo, mas quem é que se preocupa com segurança” (Hemingway, 2007, p. 36). Philip, totalmente bêbado, bate em Preston e fica com seu quarto e sua mulher. No dia seguinte não se lembra de nada, mas o gerente avisa que dois soldados o esperam. Philip, então, irrita-se porque os dois deixaram alguém fugir: “Há uma única regra quanto ao dever. A gente tem de cumpri-lo. E há somente uma coisa a respeito de ordens. ELAS TÊM DE SER OBEDECIDAS” (Hemingway, 2007, p. 51). Manda prender os dois soldados e reage com sarcasmo: “boa sorte”. É a disciplina da Razão de Estado, para a segurança, em que impera a obediência e a morte.

Em outra cena, Dorothy pede o café da manhã e responde à atendente do hotel, sobre o bombardeio da noite anterior: “Que nada! Foi até encantador” (Hemingway, 2007, p. 56). No diálogo seguinte, entre Philip e Dorothy, sobre Preston, outra vez surge o realismo sarcástico: “DOROTHY – Oh não Philip! Não se preocupe. Ele se foi para sempre. PHILIP – Frase horrível: para sempre” (Hemingway, 2007, p. 60). Depois a moça diz ao policial Philip para que procurasse ser mais sério e honesto – ao que este responde com mais cinismo e desdém: “Não me tente. Não me torne ambicioso […] Não me abra novos horizontes” (Hemingway, 2007, p. 63).

Este sentimento evasivo se acentua quando Dorothy lhe diz que mostraria aos filhos dos dois um mundo maravilhoso, após a guerra. Ele diz que o filho nunca teria visto o pai. A moça insiste e diz que ele escreveria um livro sobre guerras – mas, a resposta é um tiro fatal: “Seria um belo livro. Poderia enriquecê-lo…com ilustrações” (Hemingway, 2007, p. 65). Philip sai do quarto e Dorothy chama Petra e assegura que a criada não deveria ser tão derrotista. A camareira diz brevemente: “Não penso em política. Apenas trabalho” (Hemingway, 2007, p. 70). Era a consciência de classe possível, àquela altura dos acontecimentos.

Quando Preston reaparece há um diálogo seco e este chama o gerente para retirar Philip do seu quarto. Todavia, o gerente implora para que não chame a polícia: “Em assuntos privados, a autoridade pública dá sempre interpretação errada” (Hemingway, 2007, p. 77). Na sequência, um tipo de ajudante de ordens espera Philip que está no quarto de Dorothy e, sentado, recebe um tiro na nuca: a Quinta Coluna.

No segundo ato, Philip interroga o soldado que deixara um o suspeito fugir e, então, diz a seu próprio coronel que “não há ninguém absolutamente certo”. Philip convence o coronel a não executá-lo e o soldado agradece, mas houve que a guerra não tem favores: “Numa guerra, não se diz obrigado” (Hemingway, 2007, p. 94). O soldado é levado e os dois oficiais militares (Philip é meio policial, meio militar) conversam como é que se morre bem em uma guerra daquelas. Philip lembra ao coronel, seu próprio superior, os equívocos cometidos: “Mas, às vezes, matamos por engano, não é Antônio?” (Hemingway, 2007, p. 97). Philip também lhe revela algumas fraquezas da profissão de contraespionagem: “Gostaria de saber quem sou eu ao acordar” (Hemingway, 2007, p. 100).

De novo no bar, Philip conversa com a Moura sobre as virtudes de Dorothy e a prostituta se mostra sagaz: “Que é que você faz durante todo o tempo, nesta guerra, se ainda não sabe o que é ignorância e o que é coragem?” (Hemingway, 2007, p. 115). A guerra parece ser isso, quem engana melhor. Na continuação Dorothy chama a camareira e fica sabendo que o eletricista do hotel fora baleado durante a noite e morrera. A ajudante Petra informa-lhe que os assassinos são franco-atiradores da Quinta Coluna, que atiram a esmo. Contudo, preferem alvejar os inimigos de classe: “Se fosse eu morta, eles ficariam felizes. Pensariam que era uma pessoa a menos da classe trabalhadora” (119). O que já indica um amadurecimento da consciência de classe, se comparada à anterior análise social da própria camareira. A guerra civil revelava a crueza da luta de classes. Petra também diz que Philip é um genuíno filho da guerra: “Não digo que ele não seja um bom homem. Mas é ruim” (Hemingway, 2007, p. 123). Na guerra civil, fratricida, quando se opõem membros da mesma família, não é difícil esquecer o foco e mesmo a identidade.

Dorothy compra um casaco de pele de raposas e Philip não gosta, porque teria usado o mercado negro. Quase brigam ao falar do “moralismo” da guerra. Philip também conversa com outro camarada, Max, e se queixa amargurado do trabalho que fazem juntos. Lamenta o fato de que o soldado tenha morrido no seu quarto, em seu lugar. Max tenta confortá-lo e tem como resposta o non sense da ironia mordaz. Max responde, lembrando o significado da guerra civil espanhola: “Em suma: para que possam viver e trabalhar com dignidade, e não como escravos” (Hemingway, 2007, p. 177). Na guerra civil, irmãos escravizam irmãos.

Sequencialmente, em um posto de observação, um soldado diz a senha para outros três que se aproximam: “a vitória”. E houve a contra senha: “…é para aqueles que a merecem” (Hemingway, 2007, p. 183). Era uma senha fascista que abriria espaço para a entrada de um oficial alemão: os mercenários socorrem aos interesses de classe, em defesa do capital. À meia-noite se deflagra o bombardeio contra Madri – para confirmar, o ajudante de ordens revela que os alemães estão ali a serviço do capital internacional: “Esses marxistas filhos-da-puta! Isso vai apanhá-los em suas trincheiras” (187). Neste momento, as sentinelas são abatidas e Philip dá a ordem de rendição ao general.

De volta a Madri, no interrogatório, fica evidente que o general não os acompanhara como refém, não era o alvo principal; apenas o civil: foi fuzilado no caminho. Antes de iniciar a sessão de tortura, Philip descreve o caráter do alemão prisioneiro: “O homem é como uma fruta madura” (Hemingway, 2007, p. 196). Seria definido como um “político”. Aí se segue um breve diálogo entre invasor e torturador: “CIVIL – Jamais falarei. ANTÔNIO – Falará sim. Você vai ver…” (Hemingway, 2007, p. 198). Como resultado disso, foram presos mais de 300 inimigos-traidores da Quinta Coluna – estampados em todos os jornais, como peça publicitária.

A divulgação do feito foi tanta que o anonimato de Philip se perdera. Para se esconder seria preciso romper com Dorothy. Entretanto, Max lhe adverte: “Para nós, que já passamos por coisas terríveis, a gentileza em tudo o que for possível é de suma importância” (Hemingway, 2007, p. 211). “Há que endurecer; porém, perder a ternura jamais”. Quando Philip termina o relacionamento, ambos se ofendem, chamando-se de mercadorias e de (in)utilidades. Mantiveram uma relação utilitária, em meio a uma guerra sem utilidade social e nem integridade da condição humana.

Por óbvio que nada supera a leitura, essa abaixo:

● HEMINGWAY, Ernest. A Quinta Coluna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

E como resultado final, como desfecho da torpeza da Quinta coluna – e da luta fratricida entre “esquerdas” na Guerra Civil espanhola –, recomendamos tanto o livro quanto o vídeo homônimo, a seguir:

● DEL TORO, Guillermo; FUNKE, Cornelia. O Labirinto do Fauno. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.

Portanto, vimos que não existe esquerda da boca pra fora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais um abandonado por Bolsonaro: ICE de Trump prende playboy que fugiu para os EUA após ter prisão decretada por incitação ao golpe

Esdras Jonatas dos Santos, que liderava ato em frente a quartel de BH, fugiu para a Flórida nos EUA e chegou a encenar que estaria vivendo como mendigo. Advogado vai comunicar ICE de mandado de prisão e pedir extradição ao Brasil.

sdras Jonatas dos Santos, o “playboy” bolsonarista que ficou conhecido em janeiro de 2023 por liderar atos golpistas em frente ao quartel do Exército em Belo Horizonte, foi preso pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), a polícia anti-imigratória de Donald Trump e se encontra no Centro de Detenção do Condado de Glades, na Flórida.

A informação foi revelada pelo advogado Mariel Marra, que desde 2023, encampou uma investigação para localizar, prender e extraditar Santos, e foi confirmada pela Fórum no site do ICE.

image 2026 04 11T081025.197

“Busco sua localização, prisão e deportação desde Março de 2023 para garantir a responsabilização e o cumprimento da lei, afinal, para mim ficou evidente que ele já estava preparado para fugir logo após o dia 08/01. Suspeito que ele tinha informações privilegiadas. Diferente da ampla maioria que foi presa e condenada”, afirmou Marra à Fórum.

O advogado afirma que entrará em contato com a o serviço imigratório dos EUA ainda neste sábado (11) para comunicar sobre o mandado de prisão em aberto no Brasil.

“Estou entrando em contato hoje com o ERO / ICE pra informar que o Esdras está com mandado de prisão aberto no Brasil e precisa ser deportado”, afirmou Marra, que ressalta que o bolsonarista também tem um mandado de prisão por agressão a jornalistas na capital mineira.

De playboy a “mendigo”

Considerado foragido pela Justiça de Minas Gerais desde fevereiro de 2023, quando foi emitido um mandado de prisão pela Vara de Inquéritos da capital mineira, Esdras estaria vivendo em um apart-hotel de alto padrão em Fort Lauderdale, cidade na Flórida, Estados Unidos.

No entanto, nas redes sociais ele passava uma imagem de “perseguido pela Ditadura” e fingia estar vivendo como um mendigo nos EUA.

Em vídeo divulgado nas redes em abril de 2024, Santos aparece com a barba e o cabelo compridos e o rosto sujo e chora ao dizer que está “sendo torturado com a Midia da Globo que não para de falar mentiras”.

“Eu estou aqui para dizer para vocês que estou sendo torturado devido à ditadura, ao comunismo no Brasil”, diz o playboy. Na encenação, o bolsonarista usa o filho de 7 anos para choramingar pelas decisões judiciais, que além da prisão decretaram o bloqueio das contas no nome dele.

“Eu perdi tudo para o comunismo e nessa hora estou aqui, jogado em outro país, com as contas bancárias bloqueadas e documentos bloqueados”, reclama, negando que que tenha liderado os atos golpistas em BH. “Por favor, ajude em nome de Jesus”, finaliza.

 

Entenda

Playboy bolsonarista
Considerado foragido pela Justiça de Minas Gerais desde fevereiro do mesmo ano, quando foi emitido um mandado de prisão pela Vara de Inquéritos da capital mineira, Esdras estaria vivendo em um apart-hotel de alto padrão em Fort Lauderdale, cidade na Flórida, Estados Unidos.

A descoberta foi feita pelo advogado Mariel Marra, que encampou uma investigação independente para localizar Esdras com o objetivo de defender um de seus clientes, que participou de atos antidemocráticos em Belo Horizonte e que, no dia 9 de janeiro, isto é, um dia após a invasão dos bolsonaristas aos prédios dos Três Poderes, foi preso no acampamento que estava instalado em frente ao Quartel General do Exército em Brasília.

Segundo Mariel, seu cliente teria sido atraído para uma “armadilha” de Esdras, já que o líder dos atos golpistas de BH não viajou para Brasília junto aos demais bolsonaristas que compunham o acampamento em frente ao QG do Exército da capital mineira e já estaria de malas prontas para fugir para os Estados Unidos.

Esdras Jonatas dos Santos embarcou rumo aos EUA no dia 10 de janeiro de 2023, tendo passado antes pelo Panamá. Há contra ele um mandado de prisão em aberto por, supostamente, ter incitado agressões a dois jornalistas em um ato golpista na capital mineira.

Além disso, é investigado no inquérito dos atos antidemocráticos conduzido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sendo que o ministro Alexandre de Moraes, ainda em 2023, havia cancelado seu passaporte, bloqueado suas contas bancárias e aplicado multa.

Golpista

Esdras Jonatas dos Santos é empresário do ramo têxtil e ganhou fama em 6 de janeiro ao cair no choro e espernear durante operação da Guarda Civil de Belo Horizonte (MG) para desmontar o acampamento golpista que funcionava em frente a um quartel do Exército na capital mineira.

Considerado um “playboy” por, antes de janeiro de 2023, ostentar vida de luxo através das redes sociais e, depóis, ter circulado pelo acampamento golpista com um carro da marca alemã Porsche, Esdras teve sua prisão decretada pela Justiça de MG sob a acusação de ter incentivado agressões contra repórteres na mobilização golpista de BH no dia 5 de janeiro. A Polícia Civil encampou operação em 15 de janeiro daquele ano para prender o empresário, mas não o localizou.

Segundo Ramon dos Santos, que atuava como advogado do bolsonarista, Esdras havia ido para Miami, nos EUA. O defensor, entretanto, informou por meio de nota, à época, que havia deixado o caso por quebra de confiança por parte do empresário.

Revista Forum

Ex-modelo brasileira promete contar tudo sobre Melania Trump e rede de modelos de luxo nos EUA

Conexões de Donald e Melania Trump com Jeffrey Epstein podem voltar à tona com força total

A ex-modelo brasileira Amanda Ungaro, recentemente deportada dos Estados Unidos, afirmou que pretende expor detalhes sensíveis sobre a trajetória de Melania Trump e os bastidores de uma rede de modelos de luxo ligada a figuras poderosas no país. As declarações surgem em meio a uma escalada de tensões envolvendo o presidente Donald Trump, sua esposa e antigos aliados do mundo da moda internacional.

De acordo com relatos que circulam nas redes sociais e em bastidores políticos, Melania Trump teria iniciado sua carreira como modelo sob a intermediação de Paolo Zampolli, empresário italiano próximo de Donald Trump e figura influente no agenciamento de modelos nos anos 1990 e 2000. Zampolli também foi ex-marido de Amanda Ungaro.

A relação entre Ungaro e Zampolli terminou de forma conturbada, e há alegações de que, durante o processo de divórcio, o empresário teria recorrido à influência de Trump para acionar autoridades migratórias dos Estados Unidos, resultando na deportação da brasileira pelo ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas).

Agora fora do país, Amanda afirma estar disposta a “contar tudo” em uma entrevista programada para este fim de semana. Segundo postagens recentes, ela promete trazer à tona informações envolvendo Melania Trump, Donald Trump, Jeffrey Epstein e o próprio Zampolli, o que pode gerar forte repercussão política e midiática.

Nos bastidores, cresce a avaliação de que a recente aparição pública de Melania Trump, em uma coletiva considerada incomum por analistas, teria sido uma tentativa de antecipar ou mitigar os impactos das revelações iminentes. Interlocutores apontam temor dentro do círculo próximo ao governo de que uma “bomba” midiática esteja prestes a explodir.

O caso já mobiliza intensamente as redes sociais e amplia a pressão sobre a Casa Branca, em um momento delicado para o governo Trump no cenário internacional e doméstico.

Do Brasil 247

 

Histórias de Uber

0

@viniciocarrilhomartinez

O tema da minha aula de ontem deveria ter sido Educação anticapitalista. Era de se esperar que não fosse uma abordagem simples, tão direta ou com respostas prontas. O resultado é que nem entrei no tema.

Chamei o Uber e a moça que me levou estava quieta no início, talvez meio reticente. Dois minutos depois a conversa já ia normal. Raramente entro mudo e fico calado, só se a pessoa realmente for muito chata, antipática. E mesmo assim ainda tento. Em quase 100% (cem por cento) das vezes, puxo papo sobre a rotina, como é o trabalho.

Ela não era chata, muito pelo contrário. Foi extremamente simpática, na viagem toda – e o que mais precisamos atualmente é de simpatia, empatia, um mínimo de Interação Social – aquele algo para além da mera cortesia, das formalidades.

Ou seja, precisamos passar a barreira da civilidade fria, praticamente do “bom dia, boa tarde” – mesmo que isso esteja em desuso. Digo isso como professor de Sociologia – minha disciplina chama Educação e Sociedade.

Então, dois minutos depois de embarcado falamos do caminho até à UFSCar, eram 18 horas, de uma sexta-feira. Quase noite, um claro-escuro, lusco-fusco, meio penumbra, que nunca é adequada para se dirigir – a visão fica presa num zigue-zague entre o dia e noite, assim como todos os demais sentidos. Requer um alerta maior, portanto.

Assim fomos e da metade para o final da viagem já falávamos sobre o ritmo de trabalho dela. Foi quando me disse que também é professora e que tem dois empregos. É concursada em dois municípios. Sim, ela viaja todos os dias, ida e volta para trabalhar.

Sai de casa às 5 horas da manhã e volta às 13 horas, a fim de começar o segundo turno. O tempo de viagem dela é de aproximadamente 50 minutos – são 100 minutos deixados na estrada. E é ela a motorista, faça chuva, faça sol.

Também contou que não para de estudar, fez vários cursos de especialização – dentre eles a Educação Especial. Nesse ponto me disse que retomou esse ritmo de conhecimento aos 30 anos. Foi quando olhei pra ela – eu viajo olhando fixamente para a frente – e lhe disse, sorrindo: então você começou a trabalhar ontem. Ela riu e revelou que tem mais de 40 anos. Sem dúvida, é uma moça de muitas surpresas, porque a jovialidade é parceira da sua simpatia.

Por fim, contei essa história na sala de aula, assim que começamos. Queria compartilhar com eles essa minha aventura. A viagem durou apenas 10 minutos, mas são aquelas situações que você não esquece.

No fim, o que consegui conversar mais longamente foi sobre uma pergunta que um aluno me fez na quarta-feira, às oito horas e trinta minutos: “A moça do Uber – professora concursada duas vezes – tem seu trabalho explorado, mas é no formato de forma de mais-valia, ou segue somente o ritmo factual do ‘Servilismo Voluntário?”.

Todo mundo que está lendo esse texto pelo celular ou notebook, tendo passado pelo algoritmo de vigilância ou de encaminhamento, atua como servo voluntário – eu e você, portanto.

Qual é a educação digital que nos imuniza disso? Como sair desse Capitalismo digital, como enfrentar essa exploração aguda com conhecimento e crítica embasada? Não é tarefa fácil.

Mas, esse é outro tema, que levarei para a sala, na quarta-feira que vem. Depois conto o andamento dessa experiência de fazer educação dentro do Uber, e sempre a caminho da escola.

 

SOCIEDADE CAPITALISTA E A ESTRUTURAÇÃO EM CLASSES

0

Ester Dias da Silva Batista – Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

            Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação e Sociedade/UFSCar (08/04/2026). Por síntese (e por óbvio), entende-se que não é a totalidade, mas sim a essência que me pareceu adequada. O mapa geral das discussões trata, efetivamente, do que está sinalizado no título. Então, vamos aos tópicos:

  • Na sociedade atual, assim como nas mais antigas, apresentam-se algumas estruturas sociais que tendem a ser mantidas e propagadas; no caso da sociedade capitalista, em sua estrutura fundamental de funcionamento, pressupõe-se duas classes, uma classe é dominante, enquanto outra(s) é (são) dominadas.
  • Essa classificação é algo que pode ser caracterizada como um fenômeno social, ou seja, é algo presente em diversas sociedades, mas não é um fenômeno humano; é uma realidade capitalista.
  • Entende-se por fenômeno social aquele que se constitui historicamente a partir das relações coletivas entre os indivíduos, sendo marcado por padrões, instituições e estruturas sociais; já o fenômeno humano é mais amplo, englobando também dimensões biológicas, psicológicas e individuais, não necessariamente vinculadas à organização social; a existência do Direito – enquanto conjunto de normas sociais e de regras jurídicas, como costumes, práticas sociais) – é um exemplo de fato social, uma vez que não há (e nem houve) nenhuma sociedade conhecida sem o acometimento do Direito – e que é, sumariamente, uma tipologia de organização social.
  • Essa organização social em classes, na sociedade capitalista, é organizada, como citado, entre uma classe dominante e outra dominada (como “classes fundamentais”);
  • A classe dominante, para Marx, é caracterizada pela burguesia, a pequena burguesia (chamada pela Marilena Chauí de classe média), e as frações da classe dominante: o 1º setor (agronegócio), o 2º setor (indústria) e os sistemas financeiros. A outra ponta revela as classes trabalhadoras, subalternizadas, tanto as tradicionais (do “chão de fábrica”) quanto às submersas na chamada “uberização social”.
    • Sendo importante destacar que esses setores não constituem classes sociais em si, mas espaços de atuação econômica nos quais essas classes se inserem.
  • A classe dominada, por sua vez, é caracterizada por Marx pelo proletariado e o lumpemproletariado (os inimpregáveis que também poderiam entrar nessa categoria, referenciando sujeitos que não conseguem, por exemplo, se recolocar no mercado de trabalho, como pessoas na terceira idade e os decretados ao desemprego, os viventes nas ruas, os famélicos).
    • Podendo-se relacionar esse grupo ao conceito de “exército industrial de reserva”, composto por indivíduos em situação de desemprego ou subemprego.
  • Nesse sistema capitalista, diferentemente do sistema de castas na Índia, por exemplo, em que não há mobilidade (não apenas por uma organização social, mas também religiosa e cultural), no sistema capitalista há a possibilidade de mobilidade social; é uma condicional que diferencia a classe social, da casta e do estamento.
    • Um indivíduo na chamada classe do proletariado pode (não que ele consiga necessariamente) alcançar ou tentar aspirar ao status de classe média, por exemplo, via uma universidade, um curso de graduação, ou seja, vemos que há essa possibilidade de mobilidade social de uma classe para outra, seja por ascensão; a sociedade capitalista se caracteriza também pelo descenso social (a crise de 29 provou isso).
  • No entanto, essa mobilidade é limitada por fatores estruturais, históricos, culturais e econômicos, não dependendo apenas do esforço individual → é necessário fugirmos da ideia meritocrática que apenas culpabiliza o sujeito e desconsidera as desigualdades sociais.
  • Essa organização pode ser compreendida a partir da dialética, em Karl Marx, na qual a relação entre classe(s) dominante(s) e classe(s) dominada(s) é marcada por contradições e conflitos, sendo essas tensões responsáveis por processos de transformação social ao longo da história – e muito raramente de modo não-violento.
  • Essa organização de dominância, das classe(s) dominante(s) para com a(s) classe(s) dominada(s), se estende não apenas para os meios econômicos e sociais, mas também culturais, institucionais, estruturais e acadêmicos.
  • Por exemplo, as chamadas marcas de grife, como Gucci, Prada ou Louis Vuitton, passam a ser reproduzidas por meio da pirataria ou de versões genéricas, que copiam a marca original e, por sua vez, popularizam o consumo pela população proletária; assim, filhos e filhas de trabalhadores passam a utilizá-las como forma de tentar se encaixar socialmente e, ao mesmo tempo, afastar-se de sua própria condição de classe.
    • A(s) classe(s) dominante(s), por outro lado, passa(m) a evitar o uso dessas marcas ou de roupas que apresentem logos muito visíveis, buscando não se assemelhar à classe proletária que agora passou a ter acesso a essas pseudo marcas.
    • Nota-se, portanto, que, apesar de não haver uma estrutura de castas que classifique determinadas classes como impuras, como ocorre na Índia, no Brasil há esse afastamento intencional: pode-se acrescentar que temos, em razão de nossa formação social, uma “luta de classes racista”.
  • Isso evidencia um processo de distinção social, no qual padrões culturais são constantemente redefinidos como forma de manutenção das diferenças entre as classes e, assim, se perpetue a desigualdade, a subordinação, a subalternização, com crescimento exponencial da “uberização social”. a autocracia de classe e racial é uma constante no Brasil, é uma marca d’água social, política, cultural.
  • Além disso, é importante pensar na ideia da organização social em que pode ocorrer ascensão ou descenso social e também no que Marilena Chauí chama de Pesadelo da classe média, essa quase aversão, relacionada ao medo de perda de posição social: medo, pavor, de se ver sob a proletarização neoliberal.
    • Simplificadamente: a classe dominante teme perder esse status, esse poder e tornar-se classe média (ruína econômica), algo que é possível, por exemplo, em uma crise econômica (vimos algo ocorrer em 2008, com a crise do subprime).
    • A classe dominada, o proletariado, busca esse lugar com as melhores condições em que a classe média se encontra, logo, e assim temos um fogo cruzado, um local onde a classe média se encontra; ocupando uma posição intermediária e contraditória entre as classes.
  • Essa organização central é também associada a um amortecedor social, uma espécie de colchão de molas que se molda conforme as demandas e o que é ofertado socialmente, seja pela exploração da classe dominante que, muitas vezes, é entendida como uma aproximação desses sujeitos da classe média com a classe dominante; fazendo com que a classe média funcione como um elemento de estabilização das tensões sociais, absorvendo conflitos e contribuindo para a manutenção da estrutura do sistema capitalista – ou, nas crises, aprofundando tais conflitos, pelo pavor do empobrecimento a classe média recupera laivos de anacronismo, sectarismo, atuando de forma retrógrada e reacionária;

 

Vale destacar ainda que essas questões estão dispostas num texto original disponibilizado, no primeiro encontro ou até antes disso, num e-mail coletivo das turmas[1].

Como última menção, é importante destacar que esse texto será disponibilizado aos/às estudantes como “retorno” para leitura futura. De forma que possam organizar um pouco mais suas anotações ou abstrações daquele encontro.

[1] https://www.rehcol.com/index.php/rehcol/article/view/82. Acesso em 10/04/2024.

Paulo Figueiredo revela como Michelle e Nikolas sabotam Flávio Bolsonaro e o papel de Eduardo

O empresário golpista Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador João Baptista Figueiredo e aliado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), publicou na última terça-feira (7) um vídeo em que afirma que a ex-primeira-dama e pré-candidata ao Senado Michelle Bolsonaro (PL-DF) “está boicotando a (pré-)candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)”, seu enteado, à presidência da República.

Ainda segundo o amigo de Eduardo, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) decidiu se aliar à madrasta de Flávio e Eduardo para também boicotar o “filho Zero Um” de Jair Bolsonaro em seu intento de vencer a eleição presidencial deste ano.

Figueiredo diz que Eduardo Bolsonaro está se desgastando ao cobrar fidelidade de aliados e familiares à campanha presidencial do irmão, sem que o próprio Flávio dê o devido valor a seu gesto.

“Se o Nikolas sabota a campanha do Flávio e finge que está apoiando, o problema é do Flávio! Mas o Eduardo espera que as pessoas se engajem. E as pessoas que estão sabotando (a campanha de Flávio), como é o caso do Nikolas e da Michelle, acabam sendo expostas pelo Eduardo. Mas para quê, se o Flávio fala que é preciso esperar o tempo de cada um?”, questiona Figueiredo, radicado nos EUA e com uma dívida judicial de mais de R$ 50 milhões no Brasil. Assista ao vídeo, abaixo.

Esta é a primeira vez em que uma pessoa do círculo íntimo da família Bolsonaro acusa com todas as letras a ex-primeira-dama e terceira esposa de Jair Bolsonaro de boicotar a campanha de Flávio à presidência. Veladamente, no entanto, o racha familiar já está há tempos declarado.

Michelle tem utilizado suas redes sociais para marcar posição em favor de todos os políticos do PL que se colocam do lado contrário de seus enteados nas disputas internas do partido.

No último dia 26, por exemplo, ela publicou um vídeo em que, a um só tempo, reforçou seu apoio à deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) – que enfrentou o irmão Carlos Bolsonaro na disputa pela candidatura ao Senado por Santa Catarina – e fez rasgados elogios ao presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, logo depois de Paulo Figueiredo ter dito que o político “está gagá, e todas as vezes que ele abre a por** da boca, é um desastre”. Já para Eduardo Bolsonaro, Valdemar é “uma víbora, um batedor de carteira, um aproveitador de ocasião com as mãos sujas”.

Em postagem elogiosa a Valdemar da Costa Neto, Michelle, é cobrada por uma bolsonarista: “Quanto a seu apoio a Flávio, para isso você não tem tempo?” (crédito: reprodução)

Michelle se alia a Nikolas Ferreira, contra seus enteados

O deputado federal mais votado do Brasil, Nikolas Ferreira (PL-MG), é acusado por Paulo Figueiredo como outro dos sabotadores da campanha de Flávio. Enquanto o parlamentar mineiro se esquiva de apoiar abertamente e fazer campanha para Flávio, o neto do ditador o acusa de “estar em uma egotrip cada vez mais louca”. Já para Eduardo, Nikolas se tornou “uma versão caricata de si mesmo”, cujo “desrespeito pela família Bolsonaro não tem limites”.

Enquanto isso, a madrasta de Flávio e Eduardo segue em lua de mel com o deputado mineiro. No último dia 22, Michelle fez uma festa de comemoração pelo seu aniversário de 44 anos (seu marido tem 71). O evento aconteceu – é claro – em uma igreja evangélica, no Distrito Federal. Nenhum de seus enteados deu o ar da graça, mas quem fez questão de enviar um vídeo, que foi projetado no telão do templo, foi Nikolas Ferreira, que apareceu dizendo: “Tem um Deus que conhece cada sacrifício que você faz para sua família”.

Já no último domingo (5), logo depois de Eduardo Bolsonaro ter atacado o deputado federal nas redes sociais, Michelle compartilhou um vídeo de Nikolas sobre o filme “Paixão de Cristo” (2004), em que o parlamentar discorre sobre como Satanás, com toda sua fúria e maldade, se colocou contra Jesus no deserto.

Vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro em que Nikolas Ferreira discorre sobre a fúria de Satanás, publicado logo após sua briga com Eduardo Bolsonaro (crédito: divulgação)

Em meio à guerra declarada no seio de sua família e grupo político, Flávio Bolsonaro tenta acabar com as agressões mútuas feitas em público, que ele considera “angustiantes”. “Vamos olhar para frente e nos unir”, sugeriu o senador-candidato, em vídeo publicado no último dia 4

Seu apelo, ao que parece, caiu em ouvidos moucos. Em vídeo publicado na noite da última terça-feira (7), o melhor amigo de Eduardo – Paulo Figueiredo – cobrou que Flávio defenda publicamente o irmão, ou “a coisa degringola”: “Eu acho que se alguém vier difamar um irmão meu… é um erro. Daí a coisa degringola”.

DCM

Netanyahu confirma ser a maior ameaça à Paz Mundial ao desafiar Trump e manter agressões contra o Líbano

Após cessar-fogo negociado pelo Paquistão entre Estados Unidos e Irã, premiê israelense confirma ser o inimigo número um da causa da paz

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, voltou a se colocar como um dos principais obstáculos à Paz Mundial e à estabilização do Oriente Médio ao apoiar a pausa de duas semanas anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã, mas deixar claro que o Líbano está fora do entendimento. A informação foi divulgada pela Reuters nesta quarta-feira, em uma notícia que expõe a disposição do governo israelense de preservar a máquina de guerra mesmo diante de uma rara oportunidade diplomática.

Segundo o gabinete de Netanyahu, Israel apoia a decisão de Trump de suspender por duas semanas os ataques contra o Irã, desde que Teerã abra imediatamente o estreito e interrompa ações contra os Estados Unidos, Israel e países da região. Ao mesmo tempo, porém, o governo israelense fez questão de afirmar que o cessar-fogo não se aplica ao Líbano, numa sinalização de que a trégua negociada com mediação do Paquistão está longe de representar pacificação ampla no front regional.

A posição anunciada por Netanyahu escancara uma contradição explosiva. Enquanto Washington fala em desescalada e abertura de uma janela para negociações, o governo israelense preserva um flanco essencial da guerra e insiste na continuidade das operações militares em território libanês. O gesto soa como afronta direta ao esforço diplomático que resultou na suspensão temporária dos bombardeios contra o Irã.

A Reuters informou que dois integrantes da Casa Branca confirmaram anteriormente que Israel aceitou o cessar-fogo de duas semanas e suspenderia sua campanha de bombardeios contra o Irã. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que ajudou a mediar o acordo, chegou a afirmar em publicação na rede X que o entendimento incluía também o fim da campanha israelense no Líbano. A declaração posterior do gabinete de Netanyahu, porém, desmonta essa expectativa e recoloca a região no terreno da instabilidade permanente.

A gravidade da decisão é ainda maior diante da devastação já imposta ao Líbano. De acordo com a própria Reuters, a ofensiva israelense no país matou ao menos 1.500 pessoas e deslocou 1,2 milhão de outras. Trata-se de uma tragédia humanitária de grande escala, agravada agora pela sinalização explícita de que Tel Aviv não pretende interromper sua ofensiva, mesmo quando uma negociação histórica entre Washington e Teerã começa a ganhar forma.

O conflito se ampliou depois que o Hezbollah lançou foguetes contra Israel em solidariedade a Teerã, dois dias após o Irã ter sido atacado por Israel e pelos Estados Unidos. A resposta israelense abriu uma nova ofensiva terrestre e aérea. Ao excluir o Líbano do cessar-fogo, Netanyahu não apenas mantém viva essa frente de guerra, como também esvazia qualquer narrativa de compromisso genuíno com a paz regional.

O gabinete do premiê israelense declarou ainda apoiar os esforços dos Estados Unidos para garantir que o Irã não represente mais ameaça nuclear, de mísseis ou de “terror” aos EUA, a Israel e aos vizinhos árabes de Teerã. Acrescentou também que Washington informou Israel de que está comprometido em alcançar esses objetivos comuns nas negociações previstas. Ainda assim, o anúncio paralelo sobre o Líbano indica que, para Netanyahu, a diplomacia só vale onde não limita sua estratégia militar.

Do lado iraniano, a expectativa é de que as negociações com os Estados Unidos comecem na sexta-feira, 10 de abril, em Islamabad. O simples fato de esse canal ter sido aberto já representa um movimento de peso num cenário marcado por meses de intensificação bélica. Mas a insistência de Netanyahu em manter o Líbano sob ataque lança uma sombra pesada sobre qualquer esperança de distensão mais ampla no Oriente Médio.

Ao reafirmar a continuidade das agressões contra o território libanês logo após a costura de um cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, Netanyahu se projeta mais uma vez como agente central da escalada regional. Em vez de acompanhar a abertura diplomática, opta por preservar a guerra, aprofundar a destruição e sabotar, na prática, um raro esforço de contenção do conflito.

Do Brasil 247

Crônica do Uber

0

O uber pode não ter a mesma informação, conhecimento e consciência que eu tenho, hoje, sobre o que alguém chamou de “uberização social” – irmã gêmea do neoliberalismo: uma chaga, forma cruel de tirar suas energias e capacidades em todos os setores da vida, até sugar tudo e descapacitar por completo, pela exaustão. É praticamente uma sucção da alma.
Mas é exatamente por isso que converso com todos e todas as motoristas de aplicativo – o mesmo vale para o motoboy que trouxe a cerveja hoje. Esse, em especial, é já um chapa: digo toda vez, como se faz com criança: “tenha juízo, ande devagar na moto”. Tenho uma empatia real.

Como histórias de Uber, vou relatar minha ida e vinda de hoje. Não gosto de dirigir, mas adoro andar de carro.

Crônica do Uber I

Só consegui perguntar na volta, porque na ida o cara não parou de falar.
Inclusive, tem uma filha formada pela UFSCar e empregada na área de educação especial.

O da volta tem 22 anos, faz 50 corridas curtas por dia, tira uns 350, 400 reais diariamente.
Faz uber desde os 19 anos, das 6hs às 18hs.
Disse que não quer estudar.
Está juntando dinheiro, há três anos, pra comprar sua casa própria. No final do ano que vem. Não aplica em poupança.
Diz que o pai ensinou assim.

Crônicas do Uber II

Pra ir, era um sujeito aparentemente simples, vindo do Mato Grosso, há 24 anos, sem um centavo pra voltar – se quisesse uma passagem de volta.

Hoje, trabalha 12 horas por dia, diz que não aguenta ficar parado.
Mas, tem uma Hilux, pra fazer gincho de carros. Tinha acabado de voltar do RS.
Tem uma chácara pra lazer, casa própria também.
Outras casinhas de aluguel.
Tem três carrinhos de lanche em parceria com o cunhado.
E um “comércio” em que o irmão é gerente.

Pensei: eu sou muito desorganizado.

O lado muito negativo dessas viagens é que, infelizmente, as meninas, mulheres, acabam se tolhendo de conversar assim.
Porque estão certas em ter o triplo de cuidado.
Os caras podem entender errado, por causa do machismo, sexismo, misoginia Red Pill etc.

O lado sempre positivo, para um professor como eu, é que o diálogo é uma porta aberta, sem trancas.

@viniciocarrilhomartinez

Educação Paulista – projeto de coisificação

0

@viniciocarrilhomartinez

O governo do Estado de São Paulo irá segregar crianças e jovens entre as “melhores e piores”. Certamente, a separação colocará brancos e negros em salas distintas.

Como exemplo concreto, no centro nervoso da Educação Paulista, está um “projeto educacional” do tempo das nossas bisavós[1]. Trata-se de um projeto falangista, racista, altamente segregador e excludente.

Esse suposto projeto guarda um veneno específico, raivoso, uma mistura de elitismo empresarial (financiadores) com capacitismo e meritocracia – sempre com base na segregação e na exclusão.

Como se sabe, a exclusão é o motor da negação.

O que se nega é o conjunto de crianças e de jovens, em “proveito” de uns poucos – que serão cooptados como massa de manobra pelo capital financiador.

Se esse projeto já apresentou resultados desastrosos no passado, basta-nos projetar o seu futuro.

É a reinvenção de uma roda quebrada, quadrada, sem arco, negacionista da inclusão.

É óbvio que o objetivo é a cooptação, “dividindo para conquistar”, e assim negar o que deveria ser a guia central de toda a Educação Pública: a emancipação.

É um projeto de homogeneização que serve aos opressores, negando-se o pluralismo, a diversidade, a própria realidade que cerca a todos nós.

O resultado também virá, além do crescente negacionismo, com a intolerância e com o aumento do ódio social.

No fundo, é mais do mesmo, é uma tática das mais antigas, cheia de anacronismo e indiferença social, essa que parte da segregação, exclusão e da negação final.

O que me faz como professor, muitas vezes, duvidar da humanidade não é o fato de “governantes” pensarem em absurdos ou, simplesmente, serem néscios, mas sim o apoio que recebem de profissionais da educação. Mesmo com todos os descalabros já efetivados por tais indivíduos.

No popular, se os organizadores de tais projetos fossem avaliados hoje, estariam na 5a série F. Peçam para que faça uma redação, nos moldes do Ensino Fundamental II – mas só quem duvida.

Definitivamente, a Educação Paulista afogou num projeto fascista qualquer lampejo de Esclarecimento que um dia teve. O motor agora está na marcha a ré, ligado no reacionário, secretário, no que há de mais embrutecedor.

A Educação Paulista deveria ser impublicável, porque há poucas ações mais antipopulares, antirrepublicanas, antidemocráticas, do que essa. Expressa tão-somente o que pensam e desejam para o povo: o adestramento seletivo e implacável que se abate sobre todos os subalternos, despossuídos e oprimidos.

É um projeto profundamente racista porque, pela força da obviedade, será implacável contra o povo pobre, negro e oprimido.

Alguém lhes diga, na urna também, que não somos coisas que se separam em prateleiras. Somos pessoas, somos um fim em nós mesmos, e não meios de enriquecimento.

[1] https://www.cartacapital.com.br/opiniao/segregacao-por-desempenho-uma-velha-novidade-na-educacao-paulista/. Acesso em 05/04/2024.

Sob Bolsonaro, INSS alterou regra de consignado que impulsionou o banco Master

Mudanças feitas em 2022 permitiram expansão do Credcesta entre aposentados; contratos saltaram e operação passou a ser investigada por irregularidades

O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) promoveu mudanças nas regras do crédito consignado que permitiram a criação e expansão de um cartão de benefícios responsável por impulsionar o crescimento do Banco Master entre 2022 e 2025, período que antecedeu a derrocada da instituição financeira.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, uma dessas alterações ocorreu apenas 16 dias após o recebimento de um ofício do próprio banco solicitando autorização para operar o produto, chamado de cartão consignado de benefício.

A criação de normas específicas no último ano do governo Jair Bolsonaro possibilitou a ampliação das operações do Credcesta, modalidade levada ao Banco Master por Augusto Lima, que posteriormente se tornou sócio do banqueiro Daniel Vorcaro. O produto combinava crédito consignado com serviços adicionais, como descontos em farmácias e auxílio-funeral.

Inicialmente voltado a servidores públicos estaduais e municipais, o Credcesta se expandiu para 24 estados e 176 municípios. Com a mudança nas regras do INSS, passou a atingir também aposentados, pensionistas e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC), ampliando significativamente seu alcance.

Dados compilados pelo INSS, com base em informações da Dataprev, mostram que o número de contratos saltou de 104,8 mil em 2022 para 2,75 milhões em 2024, evidenciando uma rápida expansão após a regulamentação.

A primeira mudança normativa ocorreu em 25 de março de 2022, quando o então presidente do INSS, José Carlos Oliveira, autorizou operações com cartão consignado de benefício, mas sem detalhar seu funcionamento. Em 7 de junho, o Banco Master solicitou formalmente a inclusão do novo produto no acordo de cooperação com o órgão.

Pouco depois, em 23 de junho, uma nova instrução normativa foi publicada com regras mais detalhadas sobre o cartão consignado, assinada pela presidente substituta do INSS, Larissa Mora. O aditivo que incluiu o Credcesta no acordo foi formalizado em 13 de julho daquele ano.

Documentos obtidos pela reportagem indicam que as regras adotadas permitiram o funcionamento do produto ainda em 2022 e sua expansão acelerada nos anos seguintes, o que, segundo a atual gestão do INSS, ocorreu de forma irregular. O acordo com o banco vigorou até 2025 e não foi renovado após suspeitas de fraudes investigadas pela Polícia Federal.

Em nota, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o Banco Master atuou em conformidade com as normas do INSS, “incluindo os requisitos de formalização, identificação do contratante e comprovação de consentimento”.

Já o atual presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior, criticou o modelo de operação do produto. “Quando se faz um [contrato de] Credcesta, ele começa com o empréstimo pessoal. Havendo margem, esse crédito pessoal migra para o crédito consignado. Na visão do INSS, isso é irregular”, disse. “Nosso aposentado e pensionista têm de assinar um crédito consignado do INSS com todas as cláusulas e informações específicas.”

Do Brasil 247

Tony Garcia entra na disputa pelo governo do Paraná e promete confronto direto com Sergio Moro

Empresário se filia ao Democracia Cristã na última hora e aposta na trajetória política e pessoal para desafiar o favorito e reabrir debates sobre a Lava Jato

A entrada do empresário Tony Garcia na disputa pelo governo do Paraná adiciona um elemento inesperado a uma corrida que já se desenhava polarizada. Em uma movimentação de última hora, Garcia oficializou sua filiação ao Democracia Cristã na noite deste sábado (04/04), horas antes do encerramento do prazo eleitoral, gesto que sinaliza tanto urgência quanto determinação.

“Este será o maior desafio da minha vida”, afirmou o empresário, que acumula décadas de atuação pública desde sua entrada na política em 1989. Ex-deputado estadual e candidato ao Senado em duas ocasiões — sempre figurando entre os nomes competitivos —, Tony retorna ao centro do debate político com uma proposta que combina memória pessoal, crítica institucional e enfrentamento direto.

O principal alvo de suas declarações é o ex-juiz e atual figura política Sergio Moro, que também desponta como um dos nomes fortes no cenário eleitoral paranaense. Tony afirma que pretende “mostrar ao eleitor quem é Moro”, resgatando episódios de sua própria trajetória que remontam ao início dos anos 2003, quando foi preso e passou a colaborar com investigações conduzidas pelo então magistrado.

Essas alegações, que incluem críticas à condução de processos judiciais e ao papel de Moro na Operação Lava Jato, fazem parte de um conjunto mais amplo de controvérsias que já foram objeto de debate público e também de decisões judiciais — como o julgamento no Supremo Tribunal Federal que declarou a parcialidade de Moro.

Ainda assim, muitas das acusações mais graves permanecem em disputa no campo político e jurídico, como o vídeo da Festa da Cueca, que mostra desembargadores do TRF-4 em encontro com garotas de programa, vídeo que foi apreendido com ajuda do então agente infiltrado e nunca usado processualmente, o que gera a suspeita de que tenha sido instrumento de chantagem e pressão.

A trajetória de Tony Garcia, por sua vez, mistura política, negócios e episódios de forte exposição midiática. Ao longo dos anos, construiu relações com figuras conhecidas do país, como Ayrton Senna, Pelé e Xuxa, além de manter vínculos sociais que ultrapassaram fronteiras, incluindo a relação de parentesco com Priscilla Presley, que foi sua cunhada e é mãe de seu sobrinho Navarone.

Esses elementos contribuem para uma biografia pouco convencional, marcada por episódios de proximidade com celebridades e momentos de grande visibilidade.

Em 2023, Garcia voltou ao noticiário ao conceder uma entrevista ao portal Brasil 247, na qual fez declarações contundentes sobre sua relação com Moro e sobre bastidores do sistema judicial. As falas repercutiram amplamente, reacendendo debates antigos e provocando reações diversas no meio político e jurídico.

Na disputa eleitoral, Garcia deve integrar uma chapa encabeçada por Aldo Rebelo, que será candidato a presidente da república e já foi presidente da Câmara dos Deputados e ex-ministro, compondo uma aliança que busca dialogar com diferentes espectros do eleitorado.

Ainda é cedo para prever o impacto real de sua candidatura. De um lado, pesa o fato de enfrentar um adversário que lidera pesquisas e já demonstrou seu viés autoritário, o que pode ser interpretado como um perfil fascista.

De outro, sua entrada pode reconfigurar o debate ao trazer à tona temas sensíveis e narrativas pouco exploradas.

Se conseguirá converter essa estratégia em votos, é uma incógnita. Mas uma coisa parece certa: ao retornar à arena política com esse discurso e esse histórico, Tony Garcia reposiciona-se como um elemento disruptivo na eleição paranaense — alguém que aposta no confronto direto e na força de sua própria história para tentar alterar os rumos da disputa.

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Do Brasil 247

Estado, Poder e Desigualdade Social

0

Por Ester Dias da Silva Batista (*)

Em uma perspectiva marcada pela propagação das desigualdades sociais, bem como pela crescente precarização das relações de trabalho, observa-se a tendência de redução do sujeito a uma engrenagem da lógica capitalista. Nesse contexto, evidencia-se a naturalização de discursos que buscam justificar tais problemáticas, como o mito da meritocracia, o que reforça a necessidade de construção de ferramentas que possibilitem uma análise crítica da realidade, para além do senso comum e das bolhas sociais.

Situações cotidianas, como o crescimento da informalidade no ambiente de trabalho, associadas ao processo de uberização, revelam formas de trabalho caracterizadas pela precarização, com pouca ou nenhuma proteção trabalhista e ausência de vínculos formais, contribuindo-se fortemente para a reprodução das desigualdades estruturais. Tais processos não ocorrem de forma isolada e, sob um viés biológico, podem ser compreendidos como uma espécie de “feedback positivo”[1], no qual esse sistema desigual tende a se retroalimentar.

À medida que se expande e se aprofunda, quase como um organismo parasita, é também mascarado por discursos que naturalizam essas dinâmicas e deslocam o foco de suas causas estruturais. Assim, substitui-se uma análise centrada na lógica da lucratividade por narrativas individualizantes, que atribuem ao sujeito a responsabilidade por sua própria condição, reforçando-se a culpabilização dos trabalhadores diante de um sistema estruturalmente desigual e predatório.

Nesse sentido, o mapa conceitual aqui apresentado foi elaborado como uma ferramenta de análise e problematização dessas relações, evidenciando-se suas articulações e formas de organização no interior da sociedade. Sua construção baseia-se no mapa conceitual utilizado em aula na disciplina de Educação e Sociedade, obrigatória para o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, no semestre de 2025/2, e busca organizar e expressar a compreensão dos principais conceitos trabalhados, tomando-se como referência a proposta de organização da Sociologia Geral e Política no século XXI, desenvolvida pelo Profº Dr. Vinício Carrilho Martinez. Como se vê, o mapa foi uma apropriação destinada a uma melhor compreensão de alguns dos nossos maiores problemas:

Fonte: desenvolvida pela autora.

Buscando-se referências no campo educacional e dialogando com Paulo Freire, cuja obra Pedagogia do Oprimido[2] fundamenta a disciplina, parte-se do pressuposto de que compreender a realidade implica ir além de sua aparência imediata, reconhecendo-se os mecanismos que sustentam essa organização social (e suas problemáticas). Nesse sentido, ao apresentar como eixo central a “Lei dos Mais Fortes”, o mapa possibilita analisar como Estado, Sociedade e Capital se estruturam a partir de relações desiguais de poder, fundamentadas na hierarquia e na dominação.

Essa análise, que busca ir além da aparência imediata, fundamenta-se em uma perspectiva que compreende a sociedade como historicamente constituída por relações desiguais de poder. Nesse sentido, as configurações sociais contemporâneas não se estabelecem por processos espontâneos, como em uma analogia à geração espontânea[3], mas resultam de construções sociais, políticas e econômicas que foram produzidas e reproduzidas ao longo do tempo, visando à manutenção de determinadas estruturas de dominação. Assim, assume-se que toda leitura da realidade constitui um ato político, o que implica reconhecer que os elementos representados no mapa, como Estado, Sociedade e Capital, não são neutros, mas expressam disputas, contradições e processos de dominação.

A partir dessa perspectiva, o eixo central da “Lei dos Mais Fortes”, apresentado no mapa como princípio da hierarquia, permite entender como essas relações se organizam (e se reproduzem), estruturando-se uma sociedade marcada por desigualdades que não são ocasionais ou espontâneas, mas constitutivas de sua formação histórica. Essa noção dialoga diretamente com a discussão desenvolvida em um texto denominado As relações de uma sociedade predatória, desenvolvido na disciplina de Educação e Sociedade no semestre 2025/2, no qual se argumenta que a vida social e política se constitui a partir de relações desiguais de poder, historicamente fundamentadas na força, na dominação, na hierarquia e suas consequências nos aspectos educacionais.

A partir desse eixo central, o mapa articula três dimensões fundamentais: Estado, Sociedade e Capital; evidenciando-se suas relações. O Estado é apresentado como a instituição que exerce poder soberano em determinado território, regulando as demais instituições e a vida social, ainda que esse poder, na prática, seja frequentemente atravessado pelos interesses das classes dominantes. Tal aspecto tensiona a própria ideia de democracia, uma vez que o ideal de participação popular nem sempre se concretiza de forma efetiva.

Quando se trata da sociedade, o mapa destaca sua organização em classes sociais marcadas por relações de dominação e subordinação. Nesse sentido, a desigualdade não aparece como uma exceção, mas como um elemento estrutural do sistema capitalista, sendo constantemente reproduzida e naturalizada. Essa estrutura se articula com a perspectiva de que as relações sociais passam a ser mediadas pela mercadoria, atribuindo-se valor de troca às interações humanas e reforçando uma lógica de exploração.

O capital, por sua vez, aparece como elemento organizador dessas relações, orientado pela lógica da acumulação e da exploração se expressa tanto na divisão de classes quanto em fenômenos contemporâneos, como a precarização e a uberização do trabalho. Além disso, o mapa incorpora elementos específicos da formação social brasileira, como o mito da cordialidade e o chamado “jeitinho brasileiro”, que operam como mecanismos de manutenção dessas desigualdades, mascarando-se relações estruturais de poder e de dominação.

Dessa forma, o mapa conceitual não apenas sintetiza os principais conceitos discutidos, como também explicita as interações entre eles, evidenciando-se como Estado, Sociedade e Capital se articulam na reprodução de uma lógica social predatória, sustentada pela hierarquia e pela desigualdade.

Ao incorporar a perspectiva de Paulo Freire, é possível aprofundar a análise do mapa ao compreendermos que essas estruturas não apenas organizam a sociedade, mas também produzem formas de pensar, agir e interpretar a realidade. Elementos como o “jeitinho brasileiro” e o mito da cordialidade, destacados no mapa, podem ser entendidos como expressões do senso comum que contribuem para a naturalização das desigualdades e das relações de dominação. A educação, por sua vez, assume um papel fundamental ao possibilitar a superação dessa leitura ingênua da realidade, promovendo-se a construção de uma consciência crítica.

Portanto, o mapa pode ser compreendido não apenas como uma representação das relações sociais, mas como uma ferramenta de reflexão que permite questionar a aparente naturalidade que mascara as desigualdades e seus processos de construção. Esse movimento possibilita a passagem do senso comum ao Bom Senso, contribuindo-se para processos de emancipação dos sujeitos, na medida em que estes passam a reconhecer-se como parte dessas relações e, potencialmente, como agentes de transformação social, inclusive no âmbito das instituições de ensino, como escolas e universidades.

[1] O feedback positivo refere-se a um mecanismo biológico no qual a resposta de um sistema intensifica o estímulo inicial, promovendo-se sua continuidade e retroalimentação (GUYTON; HALL, 2017).

[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 85. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.

[3] A hipótese da geração espontânea refere-se à ideia de que seres vivos poderiam surgir espontaneamente a partir de matéria não viva, posteriormente refutada com o desenvolvimento da biogênese (REECE et al., 2015). No presente contexto, a analogia busca evidenciar que determinadas relações sociais não surgem de forma “espontânea”, mas são historicamente construídas e orientadas visando à manutenção de estruturas de poder.

 

(*) Ester Dias da Silva Batista  é Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

O Pato Donald – no Planeta dos macacos

0

Vinício Carrilho Martinez

@viniciocarrilhomartinez

Desde ontem que penso no Planeta dos Macacos.

Quem assistiu vai se lembrar que nossos primos símios, do outro Planeta, brigavam entre si pelo controle das “narrativas”, pelo controle do poder. Os cientistas, inteligentes e sensatos, de um lado, e os militares, brucutus, do outro lado.

Não me arrisco a dizer que os cientistas terráqueos são sensatos, sinceros ou sequer inteligentes, como eram (ou são) no Planeta dos Macacos. Pelo nível apresentado em pronunciamento público de muitos, quiçá da maioria, ou por seus feitos, alguns bizarros, ficarei com o pé atrás. Aliás, para mim, PCD, ficar com o pé atrás é um pouco da rotina.

Nossos políticos e governantes, e seus assopradores de conselhos (um tipo de Papagaio de Pirata), certamente não são inteligentes e muito menos têm noção do que fazem. Os Grilos Falantes no Brasil têm ideias muito nocivas.

Tenho pensado de maneira forte sobre isso – quase sentindo, porque acordei com esse sentimento – desde os últimos pronunciamentos de Trump e das replicações nos demais poderes nos EUA. Quando vejo os comentários penso que a Terra foi invadida por reptilianos.

E aí, quando associo o Planeta dos Macacos com a nossa Terra, já vejo – em sonhos com pesadelos – que o Pato Donald está imitando Nero: o tocador de fogo. É claro que o Pato Donald é empregado do Tio Patinhas que mora em Israel, mas quem põe fogo na conexão, na lógica, na sinapse, é esse pato esquisito.

O Pato Donald pós-moderno, só faltam as luzes no cabelo, é uma personagem que faria Tarzan ter medo do inofensivo Mico Leão Dourado. Por falar nesse macaquinho, lembrei de novo do Brasil.

Entre nós, lá no passado de Machado de Assis e de Monteiro Lobato, as Saúvas – que formigas terríveis e ardilosas! – eram as inimigas da Ordem e Progresso. Hoje, as Saúvas estão mais na base da forragem. Tem alguns animais nativos que alimentam essas Saúvas vorazes.

Os animais que alimentam essas formigas, no Brasil de 2026, são também esquisitos: são meio gado, meio chifre – como se dizia no interior de antigamente –, meia sombra, meia pata de um boi de verdade.

Esse gado mirrado sonha com poses taurinas, mas, repelidos pelas cortes dominantes, esses pobres bois – meio chifre – acabam imitando ou tentando imitar (quase sem sucesso) os movimentos do Minotauro.

O que esse gado meio chifre não sabe é que o Minotauro é um touro de verdade, sem meia bomba, colocado num bom pedaço de carne humana. Por isso, sem saber como fazer qualquer conexão, o gado humanoide brasileiro se resume a seguir o Pato Donald, o Malvado.

O mundo atual não tem nem graça.

A Naturalização da Crise

0

Ester Dias da Silva Batista

Licenciada em Biologia e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

A educação ambiental exige o enfrentamento de um fenômeno latente: o negacionismo. Isso não se manifesta apenas como recusa das evidências científicas acerca das mudanças climáticas, mas também se acentua por uma naturalização dos problemas ambientais. Ao tratar eventos extremos como uma consequência inevitável do “progresso”, constrói-se uma narrativa que esvazia a responsabilidade política e social dos modos de consumo e de produção vigentes.

O negacionismo, dessa forma, atua não somente pela recusa da ciência e de suas produções, mas igualmente pela despolitização do debate ambiental, colocando-o no campo das disputas ideológicas e contribuindo para a tentativa de neutralização do papel crítico da escola.

Esse fenômeno articula-se a uma crise epistemológica ainda maior, em que as evidências científicas passam a ser relativizadas e colocadas no mesmo plano que as opiniões individuais. Com o desenvolvimento dos meios digitais, a circulação da desinformação tem fragilizado a autoridade do conhecimento científico, consequentemente diversas dúvidas e questionamentos sobre consensos já estabelecidos no meio científico acabam emergindo. Nesse cenário, a educação ambiental assume ainda a tarefa de fortalecer a compreensão acerca de como o conhecimento científico é produzido e validado.

Toda educação é, em alguma medida, um ato político; não há neutralidade na prática educativa, mas escolhas e oportunidades para se evidenciar uma realidade problemática ou se buscar a transformação de tal cenário (FREIRE, 2019)[1]. A partir dessa perspectiva, a educação ambiental não busca doutrinar os indivíduos, mas promover a interpretação crítica do mundo, possibilitando a compreensão das relações sociais, ambientais, políticas e econômicas.

Enfrentar o negacionismo, portanto, demanda avançar para além da transmissão de conteúdos, pois é clara a exigência de se problematizar a estrutura dominante de desenvolvimento, bem como reafirmar o papel formativo da escola na construção de sujeitos capazes de intervir criticamente na realidade ambiental.

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 67. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

ESTADO – SOCIEDADE – CAPITAL[1]

0

 Ester Dias da Silva Batista – Licenciada em Biologia/UFSCar

Esse texto imita um mapa conceitual, porém, com um aporte maior em redação e subdivisão em grandes tópicos, bem como em alguns períodos históricos distintos. Por isso reflete uma breve comparação – mais livre, intuitiva, do que se fosse numa disciplina de história – entre duas décadas díspares: entre a década de 1990 e o período ilustrado pelo ano de 2026.

  • Pela Tríade Estado – Sociedade – Capital, que organiza as relações sociais ao longo do tempo – por exemplo, a partir dos anos 1990 até os dias atuais (2026) –, é possível construir um panorama relevante e complexo com relação às questões educacionais, sociais e econômicas do país.
  • Economia:
  • Governo Collor (1990 – 1992):
    • Primeira gestão eleita direta no Brasil após a Ditadura Militar.
    • Momento de abertura econômica significativa, com a redução de barreiras à importação e maior entrada de produtos e tecnologias estrangeiras no país: a reserva de mercado destinada aos componentes informáticos também foi desativada.
    • Essa medida buscava modernizar a indústria brasileira, aumentando sua competitividade, embora também tenha exposto empresas nacionais a uma concorrência mais intensa e desleal.
  • Itamar Franco (1992 – 1995):
    • Assumiu com a missão de estabilizar a economia, sendo responsável pelo início do Plano Real.
    • Depois desse período veio o governo FHC.
  • FHC (1995 – 2003):
    • Fernando Henrique Cardoso foi Ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, responsável pela implementação do Plano Real e, devido ao seu sucesso, elegeu-se presidente em 1995 (primeira eleição).
    • FHC é também um dos principais autores da Teoria da Dependência, que explica como países periféricos têm seu desenvolvimento econômico, tecnológico e social condicionado à relação com países centrais.
    • Associado a isso, tem-se o conceito de Capitalismo Tardio, que dialoga com essa dependência estrutural no processo de desenvolvimento.
    • Durante o governo FHC (também na reeleição), houve continuidade da abertura econômica iniciada anteriormente, com maior inserção do Brasil no mercado internacional e com a entrada de tecnologias estrangeiras, contribuindo-se para a modernização da indústria nacional, mas também reforçando-se a dependência tecnológica e impondo um processo degenerativo, com elevada privatização de recursos públicos.
    • Nesse contexto, países como os Estados Unidos tiveram papel central como fornecedores de tecnologia (diferente do cenário atual, em que há maior presença da China).
    • No governo FHC, criado na USP, não houve crescimento das Universidades Públicas e nem dos Institutos Federais.
  • Atualmente (2026):
    • Atualmente essa dependência ainda se manifesta, especialmente na importação de componentes tecnológicos de países como a China.
    • Essa dinâmica evidencia como decisões e relações internacionais podem impactar diretamente a economia nacional, reforçando-se a interdependência entre países no sistema global.
  • Capital:
    • Como desdobramento mais recente dessas transformações no capitalismo, observa-se o fenômeno da uberização do trabalho, caracterizado por relações precarizadas, com menor (ou nenhuma) proteção trabalhista e ausência de vínculos formais.
    • Associado a esse contexto, chegamos à exclusão de que determinados grupos do mercado de trabalho, por vezes considerados “inimpregáveis” (definição dada por FHC), como pessoas mais velhas ou em condições de maior vulnerabilidade, acabam sendo inseridas em formas mais precarizadas de trabalho, como na chamada uberização.
    • Na relação D–D’ (dinheiro–dinheiro), o valor intrínseco é substituído pelo valor simbólico, ou seja, não há mais uma troca direta, como feito no escambo, mas sim o uso de moedas.
    • Por sua vez, as relações humanas tornam-se mediadas pela mercadoria, tudo passa a ter valor de produto, inclusive as pessoas; os produtos que consumimos atualmente, como o YouTube, apesar de gratuito, geram lucro e colocam os sujeitos no local de servilismo voluntário.
    • O servilismo voluntário é uma forma de extração dessa mais-valia, pois as propagandas são inseridas como forma de lucratividade, mesmo que a gente não pague diretamente por isso.
    • Associado a isso, há também o chamado Trabalho morto, o pãozinho, por exemplo, no qual o desgaste pessoal, individual e material para chegar nessa mercadoria, se encerra no produto, não há continuidade; todo o trabalho feito para produzir o pãozinho se finaliza ali, “morre” ali, realiza-se ali.
    • O Trabalho vivo permite continuidade; a pessoa é parte do processo, pois pressupõe o mínimo de interesse do sujeito, alguma autonomia e liberdade; há algo vivo no ciclo que se mantém.
    • Um exemplo desse Trabalho vivo pode ser visto em uma empresa. Num exemplo simples, notou-se que no banheiro feminino havia um grande uso de papel higiênico e, ao colocarem uma caixinha de sugestões para compreender o motivo, foi relatado anonimamente que esse papel era utilizado no lugar de absorventes, devido à falta de condições para adquiri-los. Quando a empresa passou a fornecer absorventes, o uso do papel voltou ao normal, evidenciando como uma mudança pode destravar benefícios permanentes.
    • Servilismo voluntário é então uma forma de extração de mais-valia, uma forma de extrair e produzir, quando o serviço não é pago, e assim acabamos sendo a mercadoria, o produto.
    • Logo, a lucratividade pressupõe exploração:
    • É possível pensar ainda no chamado poder do capital, caracterizado pelas oportunidades e possibilidades que podem ser obtidas e alcançadas quando olhamos os recursos que os sujeitos têm; por exemplo, a diferença entre a formação social, emocional, histórica e cultural entre uma criança que consegue viajar para diversos países todas as férias, enquanto uma criança periférica não tem esse acesso e, consequentemente, tem seu arcabouço cultural limitado pela ausência de recursos.
    • Percebe-se uma saída de pontos diferentes de vivência.
  • Sociedade:
    • Na educação contemporânea (2026), observa-se a persistência de desigualdades entre classes sociais, em que diferentes grupos têm acesso desigual a recursos educacionais e à formação crítica.
    • Enquanto parcelas da elite tendem a ter acesso a uma educação mais ampla e voltada ao desenvolvimento do pensamento crítico, em muitas redes públicas ocorrem mudanças curriculares que, em determinados contextos, reduzem o espaço de disciplinas como História, Filosofia e Sociologia, ao mesmo tempo em que introduzem componentes como “Projeto de Vida”, cuja implementação nem sempre se concretiza como ferramenta efetiva de formação crítica.
    • Esse cenário contribui para a manutenção de desigualdades, em que diferentes grupos sociais têm acesso desigual à produção e à sistematização do conhecimento.
    • Relacionando-se esse contexto ao pensamento de Émile Durkheim, é possível compreender as transformações nas formas de organização social e do trabalho, especialmente a transição para uma maior divisão de funções e interdependência (solidariedade orgânica).
    • No contexto dos anos 1990, observa-se ainda a influência de uma lógica produtivista e voltada à formação para o mercado de trabalho, em diálogo com reformas educacionais e econômicas de caráter neoliberal.
    • Atualmente (2026), o mundo do trabalho apresenta maior instabilidade e efemeridade, e a educação, em certa medida, acompanha essas transformações, refletindo-se em disputas sobre seu papel entre formação crítica e preparação para o mercado de trabalho.
    • Por fim, é válido salientar o chamado princípio da precaução (cautela) que orienta a tomada de decisões diante de incertezas científicas, buscando evitar riscos potenciais, enquanto o princípio da prevenção se aplica a situações em que os impactos já são conhecidos, visando impedir danos comprovados ou projetados.

[1] Esse texto reflete algumas anotações realizadas

‘Não vamos permitir que o preço da guerra chegue ao bolso do caminhoneiro e da dona de casa’, afirma Lula

Presidente anunciou fiscalização reforçada para quem aumentar preços dos combustíveis indevidamente em meio à guerra dos EUA contra o Irã

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concedeu entrevista à TV Record Bahia nesta quinta-feira (2), em Salvador, e prometeu agir com firmeza para proteger o poder de compra dos brasileiros diante da escalada de preços provocada pela guerra no Oriente Médio. O governo federal anunciou um conjunto de medidas que inclui fiscalização intensificada e a atuação da Polícia Federal contra distribuidoras que repassam ilegalmente os efeitos do conflito ao consumidor final. “Nós não vamos permitir que o preço internacional chegue ao bolso do caminhoneiro, chegue ao bolso da dona de casa”, declarou o presidente.

Lula foi enfático ao detalhar as ações em curso. “Nós estamos fazendo todo o esforço possível para não permitir que a guerra irresponsável do Irã chegue ao bolso do povo que vai comprar alface, feijão, arroz, milho, que vai comprar a comida do seu filho”, afirmou.

O presidente acrescentou: “Nós estamos tomando muitas medidas. Estamos com um processo de fiscalização muito sério no Brasil. Nós estamos tentando colocar a Polícia Federal para pegar quem for necessário, a Polícia Rodoviária Federal, para investigar redistribuidoras, porque tem muita gente ganhando dinheiro, roubando o povo. Porque não tinham o direito de ter aumentado, estão aumentando, e nós estamos atrás. O que eu posso te garantir é que nós faremos tudo o que estiver ao alcance do país para não permitir que a guerra do Irã chegue ao prato de comida do povo brasileiro e muito menos chegue ao tanque de combustível do caminhoneiro, que já tem dificuldade com o seu frete.”

A guerra eclodiu em 28 de fevereiro, quando os Estados Unidos lançaram ataques contra o Irã sob a alegação de que Teerã desenvolvia armamento nuclear. A Organização das Nações Unidas contestou a justificativa americana, declarando não existir provas concretas de que o governo iraniano tenha produzido bombas nucleares. Uma das consequências imediatas do conflito foi o fechamento do Estreito de Ormuz, passagem que liga o Golfo Pérsico ao restante do mundo e ocupa posição central no sistema energético global. O preço do barril de petróleo ficou acima dos US$ 100 após o começo do conflito.

Na passagem transitava, antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta, além de uma quinta parte dos embarques de gás natural liquefeito e um terço do fertilizante mais utilizado no mundo. Com a passagem interditada, grandes produtores da Opep — entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait — viram suas exportações represadas, perdendo acesso às rotas que abastecem mercados na Ásia, Europa e Américas.

Bolsa Família

Indagado sobre o Bolsa Família, Lula revelou sua visão de longo prazo para o programa. “O sonho que eu tenho é que um dia o povo esteja tão bem de vida que não precise mais do Bolsa Família. Esse é o objetivo. É uma política de inclusão social para favorecer as pessoas mais carentes, mas eu trabalho com a ideia de que um dia a economia estará tão bem, estaremos gerando tantos empregos, o salário estará tão bem, que ninguém precise mais do Bolsa Família. Não é nós que vamos tirar as pessoas, porque nós não vamos tirar. São as pessoas que pedirão para sair, porque, como o povo pobre e trabalhador é honesto, a hora que ele tiver dinheiro, ele não vai precisar mais de viver de favor do Estado”, disse o presidente.

Os dados reforçam esse movimento. Entre janeiro e outubro de 2025, mais de dois milhões de famílias deixaram de receber o benefício, segundo a Secretaria Nacional de Renda de Cidadania. Das 2.069.776 famílias desligadas, 1.318.214 saíram pelo aumento dos ganhos domiciliares, 24.763 fizeram o desligamento voluntário e 726.799 concluíram o período na Regra de Proteção — mecanismo que permite ao beneficiário receber metade do valor do Bolsa Família por até 12 meses após superar o limite de renda. Em outubro de 2025, o programa atendeu 18,9 milhões de famílias, o menor patamar desde o início do terceiro mandato de Lula.

Inflação

Lula também destacou os avanços no controle da inflação e na renda do trabalhador. “Nós estamos hoje vivendo a menor inflação acumulada em quatro anos na história do Brasil. Os preços dos alimentos tiveram mais caro em 2024, tiveram mais caro até metade em 2025, mas hoje a inflação de alimentos está baixa. As coisas estão melhorando e eu espero que continue baixando, porque nós precisamos baixar a taxa de juros e baixar o preço da comida para o povo poder comer mais, para poder comprar mais e comprar alimentos de melhor qualidade. Eu não quero que o povo fique comprando coisa de segunda. Quero que o povo compre coisa de primeira”, afirmou.

O presidente citou o programa Gás do Povo como exemplo de política complementar à elevação de renda. “Para a gente fazer as coisas acontecerem, uma coisa que podemos fazer é aumentar o salário. Quando você não pode aumentar o salário, você pode aumentar os benefícios. Por exemplo, o Gás do Povo. Nós estamos dando gás gratuito para 15 milhões de famílias nesse país”, disse Lula.

Educação

Na área de educação, Lula apresentou um conjunto de avanços obtidos a partir de 2023. Sobre a alfabetização na idade certa, o presidente destacou que o governo firmou um pacto com prefeitos e governadores para atingir 80% das crianças alfabetizadas até o segundo ano do ensino fundamental até 2030. “Em um ano e meio, nós já chegamos a 66%. Portanto, nós estamos perto de concluir a meta”, disse Lula, acrescentando que 5.565 municípios — 99,9% do total — aderiram ao Compromisso Nacional Criança Alfabetizada.

O presidente também destacou as 8,8 milhões de matrículas em Escola de Tempo Integral e os 5,6 milhões de jovens do ensino médio já beneficiados pelo programa Pé-de-Meia, iniciativa de poupança educacional voltada à permanência e conclusão escolar. “Nós temos o melhor momento de escola integral do tempo do Brasil. Ainda falta muito, mas já fizemos muito. Nós temos um processo de modernização de crianças na idade certa andando muito. Vamos chegar a 800 institutos federais nesse país. Nós herdamos 140 e vamos chegar a 800 institutos. Eu estou convencido de que nós estamos fazendo aquilo que é preciso fazer. Não há exemplo no mundo de nenhum país que deu um salto de qualidade sem antes fazer investimento em educação”, concluiu o presidente.

Energia

Lula encerrou a entrevista falando sobre a matriz energética brasileira e o papel do país como referência global em energia renovável. “Se tem uma coisa que a gente tem perspectiva de ter de sobra, é a chamada energia renovável, seja eólica, seja solar, seja biomassa, seja do hidrogênio verde. Em 2050, a Europa quer chegar a 40% de energia renovável. Hoje, o nosso país já tem 53% de energia renovável. Ou seja, nós já alcançamos hoje o que eles pretendem alcançar em 2050. E, mais importante, do ponto de vista da energia elétrica, nós temos 87% de energia renovável. Portanto, o Brasil é um modelo, é um exemplo a ser seguido”, reforçou Lula.

Do Brasil 247

A rede dos cidadãos – a Ideia de rede

0

Vinício Carrilho Martinez

@viniciocarrilhomartinez

Em 2001 tivemos as torres gêmeas nos EUA, o terrorismo com desfecho trágico, para o mundo, e o início do discurso de intervenção militar em outros países: em seguida vimos o Iraque e o resultado catastrófico para o seu povo, a destruição do país e a mentira do discurso “vamos levar a democracia” se estabelecer como pré-requisito para a destruição do Oriente Médio.

Aliás, depois da Síria, agora temos o Irã: no Iraque eram as armas químicas (de fato, foram usadas contra os curdos, mas na invasão pelos EUA já não existiam) e no Irã a desculpa é o enriquecimento de urânio. O objetivo imediato, como sabemos, é o petróleo. A logística, a médio prazo, visa atingir a economia chinesa – um Império está ruindo e outro está surgindo. O alvo sempre foi a China.

Foi naquele contexto de 2001 que defendi a tese de doutorado na FEUSP, tomando “a ideia de rede” por objeto, sob a orientação da professora Maria Victoria de Mesquita Benevides. Em 2001, as assim chamadas redes sociais, como temos hoje, não existiam, nem seus arremedos – por isso, era só uma ideia de rede. O que tínhamos e cultivávamos como um alento era o princípio ativo, a própria ideia e alguns experimentos que a internet já permitia, por meio de sites ou blogs, além da experiência promissora, revolucionária, dos zapatistas em Chiapas, no México dos anos 1990.

O fenômeno se imortalizou, difundiu-se globalmente, em processo de adaptação e de aprimoramento (conhecimento) da própria forma de comunicação que se avizinhava. Toni Negri apelidou de Multidão, com poucos cliques e muita gente reunida em praça pública lutando por isonomia, equidade, justiça social, paridade. Não sei se falaram para ele ou se inventou a expressão Multidão, no entanto, é o fenômeno social precursor das Primaveras Árabes e o exato oposto das guerras híbridas e de suas revoluções coloridas: padecemos disso no Golpe de 2016.

O autor daquele final de século XX até 2001, de quando escapamos do Bug do milênio, era Pierre Lévy: ninguém lia a Estrada do futuro (1995) de Bill Gates. Que me lembre, Lévy não virou filme, mas era extremamente popular entre os jovens. A Cibercultura (1997) era seu sonho. A realidade, que se modificaria absurdamente poucos anos depois, se mostrou apenas como “O que é o Virtual” (1996), isto é, uma ideia, uma possibilidade que não teve capacidade, nem potência: virtus, virtualis.

A educação que ainda líamos falava um pouco disso, como os 7 saberes que interessam ao futuro (Morin), sem sabermos que o futuro era presente, faltando-lhe apenas saltar à frente da porta: não era Educação digital, como se propaga em 2026, era Educação com ciência e, portanto, com consciência. Ninguém faz ciência, efetivamente, sem consciência do que faz, para o que faz, com quem faz, como e onde faz. Simplesmente porque ciência é o princípio e o resultado de uma forma específica de se pensar (e agir) e tem muito mais a ver com conteúdo do que com forma, com metodologias herdadas do Renascimento, do estranhamento social, engessadas num passo a passo que nos diz o que fazer e como: ciência não é precisão, é crítica e criação; é solução prática e lógica, coerente, condizente, mas é, acima de tudo, a ação do incidental, da aleatoriedade.

Outros autores chamam isso de Serendipidade, Morin dizia da urgência de atender à Educação que se incline ao “pensamento científico sobre o conhecimento científico”. Isso é consciência, pensar cientificamente (e isso é óbvio) é pensar criticamente. Não é por acaso que o Paulo Freire de A pedagogia do oprimido nos ensina que “consciência é a consciência da consciência”.

Esse era mais ou menos aquele mundo, a luta pela Educação da ciência e da consciência. Não se falava como hoje, em termos de educação financeira, ensino religioso e escola cívico-militar. Tudo isso é o antípoda da liberdade, da autonomia, da emancipação, do sentido elementar de práxis. Essa guinada não ocorre por acaso, ao contrário, precisa ser tida como eixo da fase atual do sistema capitalista: a educação financeira cabe hoje porque há hegemonia do capital financeiro e especulativo (bancos, bolsa de valores, fintechs) e porque o neoliberalismo nos presenteou com a uberização e sua meia irmã chamada de pejotização. O que nos traz de volta para o coração desse breve século XXI, que é a digitalização da vida social.

Ninguém está imune ao colonialismo digital, pois o digital ocupou até mesmo o espaço real, sensível, passível de ser especulado por meio dos cinco sentidos. Se o virtual era o complemento do real, e Lévy nos convidava a ler o Tao të King a fim de entendermos o virtual (potência), hoje, o digital – ainda mais com o avanço da Inteligência Artificial (IA) – é o próprio real: por exemplo, não é possível garantir com fé pública as imagens enviadas da guerra Irã x EUA/Israel, tudo ou quase tudo é manipulado (ou escondido pela mídia tradicional).

A ideia de rede se mostrou a que veio, porém, deturpando-se, apropriando-se do mundo real, degradando-se a história de luta, denúncia e de resistência ao capital (desde Chiapas), e se impondo como parte essencial da hegemonia do Capitalismo digital: Bets, Big techs, Big datas/Data centers. É nesse miolo, que ainda conta com os bancos/fintechs, que se impõe a Educação financeira, pois, aí está a hegemonia do capital e a forma mais sutil de captura das subjetividades humanas. O que equivale a dizer que é o avesso do sentido elementar preconizado para a emancipação, visto que esta é obrigatoriamente social, libertária; porém, é o reino do capital especulativo, do mundo sem rédeas de moderação, em que prospera apenas a autonomia do “cada um faz o que quer” (sic) e a capacidade de especular sobre tudo: as redes antissociais estão repletas de doutores sobre o nada, de antivax, de apóstolos da destruição do conhecimento, da lógica e da coerência, da epistemologia.

Efetivamente, de lá para cá, de quando escrevi e defendi a tese “A rede dos cidadãos” para 2026, em que a IA desconhece qualquer noção mínima de responsabilidade, sendo a própria antinomia da honestidade intelectual, muito mudou e muito mais irá mudar. Antigamente, falávamos da mutação, e antes disso Kafka praticamente inventou a Metamorfose, mas hoje temos que buscar outras conexões, inclusive substituindo-se o sentido de conexão, havida na ideia de rede, pela desconexão atual, afastamento, estranhamento, antipatia social. Se antes se cuidava da inclusão, em 2026, com folgas do saber acumulado nessas duas décadas, pode-se dizer que ocorre o oposto, que é a exclusão, o banimento, o que vigora: é o reino da exceção.

Se começamos, lá em 2001, a ver o decréscimo do panóptico, hoje, temos na tela do celular – e nas hegemônicas redes antissociais – o império do banótico, das bolhas; se a ideia de rede criava o ativismo social digital (Multidão nas ruas, ocupando-se do espaço público), hoje vige o “servilismo voluntário” (desde La Boetie e de Bauman). Junto com o final do analógico também se foi a sensação da realidade e veio a fluorescência do Tecnofascismo.

Ainda é tempo, mas temos que querer e fazer, reflexão e ação (práxis) como a gente dizia feliz e sorrindo.

Funcionários da GloboNews “pediram a cabeça” de editor-chefe após PowerPoint

A redação do “Estúdio i”, da GloboNews, está vivendo uma crise interna grave após o PowerPoint que associava o presidente Lula e o PT ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. A arte exibida durante o programa gerou críticas à emissora e motivou a demissão de alguns dos responsáveis.

Segundo o portal Terra, o editor-chefe Rodrigo Caruso correu risco de ser demitido após o episódio e foi alvo de pedidos por “sua cabeça”. A emissora decidiu apenas afastá-lo da atração e dar férias nos próximos dias. Ele deve ser remanejado após a volta.

A editora responsável pela arte exibida pelo “Estúdio i” foi transferida para o “Conexão GloboNews”. Dois editores foram demitidos pela arte e o compliance do canal decidiu fazer uma investigação interna por entender que o conteúdo descumpriu os princípios da empresa.

A emissora não descarta novas mudanças e demissões na equipe do programa. A investigação interna teve acesso a mensagens trocadas entre os profissionais durante a elaboração do material e descobriu que houve divergências entre o que foi solicitado e o produto final.

O PowerPoint da GloboNews. Foto: Reprodução

A relação entre Caruso e Andréia Sadi, que já vinha desgastada antes do caso, piorou após a repercussão. Ela foi detonada nas redes pelo conteúdo e foi a responsável por ler a retratação da emissora ao vivo no “Estúdio i”.

“A gente exibiu aqui uma arte com o objetivo de apresentar as conexões do Vorcaro com políticos e acessos relevantes, como a gente já fez em outras ocasiões. No entanto, o material estava errado, incompleto e também não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”, disse a jornalista no ar.

O PowerPoint foi exibido no último dia 20 e ligava Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao PT e ao presidente Lula, mas ignorava relações do banqueiro com outras figuras, como o ex-presidente Jair Blsonaro, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Ibaneis Rocha (MDB-DF), Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central que ignorou alertas sobre a fraude, e outros aliados do Centrão.

DCM

Petrobras projeta autossuficiência em diesel no Brasil em até 5 anos

Estatal estuda ampliar produção e investimentos para atender 100% da demanda nacional de diesel diante de mudanças no mercado global

A Petrobras avalia ampliar sua atuação no mercado de combustíveis e produzir toda a demanda de diesel consumida no Brasil em até cinco anos. A possibilidade está sendo considerada no planejamento estratégico da estatal, que prevê investimentos para o próximo ciclo quinquenal, em meio a mudanças no cenário internacional do petróleo e seus efeitos sobre o abastecimento. A declaração foi feita pela presidente da companhia, Magda Chambriard, durante um evento em São Paulo, onde destacou que o plano original previa atingir 80% do mercado, mas está sendo revisto.

Atualmente, a Petrobras responde por cerca de 70% do diesel comercializado no país, enquanto a produção nacional total cobre aproximadamente 80% do consumo interno. O restante é complementado por refinarias privadas, como a de Mataripe, operada pela Acelen, e a Ream, do grupo Atem.

Segundo Magda, o novo cenário internacional, influenciado por tensões geopolíticas como a guerra no Irã, abriu espaço para uma revisão das metas. “O nosso plano de negócios fala de um aumento de cerca de 300 mil barris por dia de diesel em 5 anos. E nós estamos revendo esse plano para ir nos perguntando se nós podemos chegar a 100% em 5 anos”, afirmou.

A executiva explicou que a companhia ainda está avaliando a viabilidade da expansão total da produção. “É uma questão que nós estamos nos fazendo. Somos capazes de fornecer nos próximos cinco anos todo o diesel que o Brasil precisa? E eu estou aguardando essa resposta; 80% nós já vemos que somos capazes”, disse.

A discussão interna sobre o tema deve começar em maio, quando a empresa dará início à elaboração do novo plano de negócios. Apesar das possibilidades de crescimento, Magda evitou detalhar se a estatal considera adquirir refinarias privadas para atingir esse objetivo. “Mataripe é uma pergunta difícil”, declarou ao ser questionada sobre o tema.

Entre as alternativas para ampliar a produção, a Petrobras avalia investimentos em suas próprias unidades. A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, deve ampliar sua capacidade para produzir mais 130 mil barris diários de derivados até 2029, sendo 88 mil barris de diesel. Já a Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, pode adicionar mais 76 mil barris diários do combustível com a integração ao Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí.

Para Magda Chambriard, alcançar a autossuficiência plena no diesel pode trazer benefícios tanto para consumidores quanto para investidores. “Para o consumidor, [chegar a 100% do mercado] dará a certeza de que as volatilidades externas não os vão assombrar e, para o nosso acionista, é a garantia de [ter] um mercado que talvez seja o maior consumidor da América Latina”, afirmou.

Do Brasil 247

“Flávio é corrupto na essência”, diz profundo conhecedor do bolsonarismo

O ex-deputado federal Julian Lemos afirmou acreditar no levantamento da AtlasIntel divulgado na quarta-feira (25), que pela primeira vez aponta o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno, indicando uma possível mudança no cenário eleitoral brasileiro, conforme declarou a Diego Amorim, do PlatôBR.

Ex-aliado de Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2018, antes de romper com a família, Lemos passou a adotar posição mais próxima da centro-esquerda na Paraíba e fez críticas contundentes tanto ao bolsonarismo quanto ao atual governo.

Ao comentar uma possível vitória de Flávio Bolsonaro, o ex-parlamentar afirmou que o país correria riscos estratégicos e econômicos. “Ele vai vender terras raras, tudo. Vai vender o Brasil, vai vender até o que não é dele. Flávio não é direita coisa alguma. É um Bolsonaro moderado e entreguista. Ele não sabe o que faz, mas sabe o que quer: entende a diferença? O pai é burro, ele tem um pouco mais de habilidade. E o DNA de corrupção. Ele é corrupto na essência”, declarou.

Julian Lemos também direcionou críticas ao presidente Lula e ao PT, apontando perda de capacidade de mobilização política. “Nada mais que Lula faça daqui para frente dará um voto para ele. Demoraram muito para se movimentar, perderam tempo. Nada mais chega à ponta. Pode o Lula dar uma casa a todo pobre que ele ver pela frente que ninguém liga mais. O Flávio só não ganha se algo muito negativo acontecer do lado dele”, afirmou.

Do Brasil 247

BRASIL COMUNISTA Uma crônica de Uber

0

 

@viniciocarrilhomartinez

 

Hoje, voltando da universidade, puxei conversa com um Uber venezuelano, esse motorista de aplicativo sem direito algum, sem segurança, sem esperança, sem tempo para pensar em nada que não seja o dinheiro daquele dia.

Falamos da condição asfáltica das ruas, cheias de buracos que podem travar a roda de um carro utilitário, comum. Falei que a prefeitura não cuida do povo, aumentam e implementam outros impostos (agora há um imposto para o lixo).

Nesse momento o motorista disse solenemente: “País comunista é assim!”. E colocou uma grande exclamação.

Pois bem, poderia tentar lhe explicar o que é Comunismo – depois de quatro aulas matinais –, mas a paciência do meu fígado estava acabada e, então, preferi falar do clima, da comida brasileira, das festas.

Até porque se fosse lhe explicar, creio eu, não me faria entender – não tenho vocabulário que assalte as Ciências Sociais a ponto dele entender, inclusive, as palavras que viesse a empregar.

Passado o tempo, com algumas colocações que me enviaram pelo WhatsApp – onde é muito mais fácil dizer ao outro o que fazer –, resolvi explicar a esses porta-vozes da militância alheia.

Assim, fiz uma busca muito rápida pela Inteligência Artificial – IA  e formulei uma resposta pessoal (ambas abaixo). Particularmente, penso que 98% da população não conseguem entender o que produziu a IA e mais de 99,99% não entenderiam o que pude pensar como resposta.

Isso não é arrogância, é uma clareza acerca do andamento da Educação no Brasil, sem aulas de sociologia, filosofia, história, e com excesso absoluto de tempo perdido nas redes antissociais, sem aprofundamento, sem leitura. Ainda preciso dizer que não estudo o assim chamado materialismo histórico-dialético, como objeto de pesquisa propriamente dito. Minha resposta é de memória, dos tempos da minha graduação.

Mas, o que nos diz a IA?

Apesar dos pesares, é um modelo de resposta do ensino médio ou do ensino fundamental II.

Abre aspas:

  • “O comunismo é uma ideologia política, socioeconômica e filosófica que busca criar uma sociedade sem classes sociais, sem propriedade privada dos meios de produção e, eventualmente, sem Estado. Baseia-se na igualdade plena, onde os recursos são compartilhados (comunismo deriva de communis, “comum”), geralmente alcançado após uma transição socialista”.

Agora a minha resposta de improviso, sem consultar nenhum escrito, livro ou dicionário, apenas a memória dos tempos em que se estudava na escola:

Comunismo

A célebre frase (sentença histórica) “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” traz a essência do Comunismo, da práxis necessária à hominização e à omnilateralidade.

Portanto, Comunismo é o Modo de produção em que a Socialização dos meios de produção impede a continuidade da principal contradição social, entre classes fundamentais, a divisão social do trabalho, a extração de mais-valia, anulando-se a separação entre o trabalho vivo e o trabalho morto, bem como institui condições materiais de existência em que não seja hegemônica a captura das subjetividades dos reais produtores sociais pelo capital.

Diante dessas duas possibilidades ou apostas, o que eu deveria fazer naquele cenário (ou melhor, o que você faria – caso conversasse com o Uber, porque 99,99% sequer olham para o condutor do carro!?): lhe explicaria o que é Comunismo ou seria mais agradável, empático, buscando pontos de convergência num diálogo?

Caso você julgue interessante, chame um Uber e lhe explique o que é Comunismo. Eu continuarei falando do clima, do quanto ele é explorado pela empresa proprietária do aplicativo. Me parece mais saudável e prático.

(ps: escrevi tantas vezes Comunismo que o motorista passaria mal).

Cidadão Honorário de Rondônia, Nelson Willians pede dinheiro a Mendonça pra pagar impostos

O Cidadão Honorário de Rondônia, advogado Nelson Wilians, afirmou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que enfrenta um cenário que classificou como “deveras calamitoso” depois de ter dinheiro e bens bloqueados no âmbito das investigações sobre a chamada farra dos descontos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Em documento enviado à Corte, ele relata ter adotado medidas de austeridade para manter o funcionamento de seu escritório e afirma acumular cerca de R$ 3,5 milhões em tributos a pagar.

O pedido foi encaminhado ao ministro André Mendonça. Na solicitação, Wilians requer o desbloqueio de todas as contas bancárias e bens em seu nome e também do escritório. Como alternativa, caso a medida não seja concedida, ele pede que parte do valor congelado seja destinada ao governo federal para quitar as dívidas tributárias.

De acordo com a NW Advogados, o volume de bloqueios estaria acima do limite de cerca de R$ 28 milhões estabelecido pela Justiça. A banca afirma que a situação pode gerar consequências legais e até a rescisão imediata de contratos, já que a empresa não consegue emitir certidões necessárias para sua atuação.

No documento, o escritório sustenta que continua operando apenas após cortar gastos considerados não essenciais. Segundo a defesa, a prioridade tem sido o pagamento de salários e de fornecedores básicos, como serviços de água, energia, telefone e internet.

Apesar disso, permaneceram pendências tributárias relevantes. Entre os débitos listados estão contribuições patronais, valores retidos de funcionários e impostos federais. O detalhamento apresentado inclui:

  • CP Patronal: R$ 1.727.576,15
  • CP Segurado: R$ 718.221,49
  • IRRF: R$ 690.010,79
  • Terceiros: R$ 248.908,80
  • CSRF: R$ 133.516,20
  • Cofins: R$ 43.516,49
  • PIS: R$ 8.995,57

O escritório também menciona atrasos no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), parcelas de acordos tributários e outros débitos federais e municipais registrados no sistema e-CAC, o que indica que o valor total devido pode ser maior do que o apresentado no pedido ao STF.

Na petição, a defesa argumenta que medidas de apreensão e bloqueio devem ter relação direta com o resultado do processo. Segundo o texto, quando os valores já garantem eventual ressarcimento acima do limite estabelecido, a manutenção dos bloqueios poderia representar uma espécie de punição antecipada, o que, na visão dos advogados, contrariaria princípios como a presunção de inocência e o devido processo legal.

A defesa de Wilians informou que não comentará o caso publicamente porque os autos tramitam sob sigilo de Justiça e ainda aguardam julgamento. Mesmo assim, declarou confiar na Justiça e afirmou que já apresentou nos autos provas que, segundo os advogados, demonstrariam a legalidade das atividades do cliente.

A investigação que envolve Wilians integra desdobramentos de operações da Polícia Federal voltadas a apurar suspeitas de fraudes em aposentadorias e pensões do INSS. Em setembro, durante a Operação Cambota — uma das fases da Operação Sem Desconto — foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra o advogado e preso o empresário Maurício Camisotti.

Na ocasião, agentes apreenderam obras de arte, carros esportivos e uma coleção de relógios de luxo avaliada em cerca de R$ 15 milhões. Entre as peças estavam modelos de marcas como Richard Mille e Parmigiani Fleurier, com valores que poderiam chegar a R$ 8 milhões.

Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontaram ainda que Wilians teria feito pagamentos que somam R$ 15,5 milhões a Camisotti, investigado como possível beneficiário final do esquema de descontos indevidos ligados ao INSS. O advogado nega irregularidades e sustenta sua inocência.

Folha do Estado

EDUCAÇÃO OMNILATERAL A IA e a Guerra Temporal

 

 @viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista – licenciada em Biologia/UFSCar

Izabela Victória Pereira – estudante de Filosofia/UFSCar

 

Essa Guerra Temporal não é uma Viagem no Tempo, é somente a contação de histórias do passado que invertem o futuro: é pura manipulação, desconstrução do passado para garantir o Predomínio no futuro. Aliás, veja-se com atenção que, primeiro, garante-se o Predomínio, para, só depois, se assegurar o Domínio.

Agora, olhemos bem para o que hoje se chama de Inteligência Artificial (IA), digo atualmente, porque vai mudar muito e para pior. Inclusive, como já querem alguns, vai mudar de denominação. O que será não sabemos, mas como pregam os alvissareiros do amanhã não será mais Inteligência Artificial.

Contudo, para vermos onde queremos chegar, olhemos o passado:

  • A Guerra no Golfo (1991), a primeira a ser transmitida pela TV, nos impactou profundamente.
  • Igual aos filmes, vimos como a realidade se movimentou em ângulos abertos ou fechados. Com dramas reais, a única dúvida – que não nos colocamos, nem ontem, nem hoje – era (é) saber quem movimentava aquilo, quem era o diretor ou quem manipula nos dias iniciais de 2026. Pelo filtro dos nossos olhos, na Guerra do Golfo, atores e plateia eram uma coisa só. Hoje nos perguntamos se há algum filtro remanescente daquele tempo – muitas vezes temos a impressão de que não vemos mais nada.

 

Porém, com a IA atual, a própria realidade se movimentou, deslocou-se e, com ela, a nossa percepção e entendimento acerca do que é real.

Se é fato que na guerra a primeira vítima é a Verdade, agora vemos que a vítima maior é a Humanidade.

  • A Guerra EUA/Israel versus Irã, além de ser teleguiada, com o emprego maciço de tecnologias digitais, em que a IA é a Senhora da Guerra, ainda trouxe de volta o risco do emprego de armas nucleares.

 

Assim, se também é fato que não há volta – com relação à IA – então, ao menos (no mínimo), que possamos discutir e desenhar o processo e a finalidade.

É fato sim, mas é fato que, como está não pode ficar.

Aprendemos com a história (quer dizer, mais ou menos) que o intuito do Revisionismo era (é) inventar o passado e garantir o futuro. A maioria das distopias tem essa premissa.

Pois bem, imaginemos a IA atual reescrever essa mesma história, a nossa história que é alvo de todo tipo de Negacionismo.

O que aconteceria?

Bem, como dizem, o diabo tem ouvidos. Portanto, vamos escrever sem falar nada:

  • Se a chave para entendermos quem somos está na história (passado, portanto), reescrevê-la nos diria qual é o caminho certo – um tipo de presente que assegure o futuro.
  • Desse modo, refazendo a história sutilmente, a IA se apossaria rapidamente do presente.

 

Fazendo a história, sem caos generalizado, sem grandes repressões, sem milhões de mortes, a “nova dominação” – a real dominação da narrativa sobre os fatos – estaria concluída.

A IA, por fim, apresentaria qual é o grupo vencedor dessa Guerra Temporal.

E é claro, é óbvio, que Eichmann seria inocentado.

Porém, seu segundo julgamento seria realizado em Tel Aviv ou na sede da ONU.

O que podemos aprender com esse possível fato futuro (distopia)?

  • Quem domina os fatos impõe sua narrativa?
  • A narrativa vencedora impõe seus fatos?

 

Nesse tempo não distante, entre um passado atuante e um futuro-presente, alguém (a IA) poderá dizer que o Nazismo venceu a 2ª Guerra Mundial?

  • Quando olhamos para o que fizemos no passado, mas, imaginando esse futuro-presente (e olhe que é um presente bem próximo), não se sente muito bem; é como se tivéssemos perdido fragorosamente, como se não existissem alternativas[1].
  • Quando as diferenças somem, quando não vemos distancias, diferenças entre os tempos, quando se normalizam os escrutínios entre os que fizeram o que fizeram e os que farão tudo de novo, nos “novos tempos”, aquilo que os piores fizeram em seu próprio tempo, é equivalente ao tempo ter perdido sentido. Por mais que queiramos o contrário, por mais que lutemos pela não-normalização do pior de ontem[2].

 

Não gostaríamos de ver esse “fato” e menos ainda ouvir sua narrativa, e você?

(obs.: nesse tempo, só havia uma narrativa – e será que já vimos isso antes?[3])

Ou talvez houvesse um caminho, com escolhas mais acertadas, sem apego às distopias do passado e do futuro. Porém, o início de tudo obrigatoriamente teria de ser por meio de uma Educação Omnilateral. Essa escolha é um projeto integral ou não é, uma vez que a desumanização está por toda parte, à vista de quem queira ver, e, no lado oposto está um projeto que nos recupere enquanto processo de hominização. Por isso não há meio termo e nem tempo a perder.

 

EDUCAÇÃO OMNILATERAL

– Não há Educação, se não for para valer

 

Não existe Educação pela metade e malfeita, educando-se hoje e sabe quando será o próximo dia. Ou é um conjunto de valores, investimentos, instrumentos, reflexões efetivas e ações sérias, eficazes, ou é um faz de conta. Esse é o conceito básico em torno da ideia de Educação Omnilateral.

Na verdade, não é faz de conta essa “falha”, descaso, desprezo pela Educação pública. É um projeto. É um projeto político de dominação baseada na religião, nos costumes boquirrotos, hipócritas, na ausência de letramento com base em valores sociais, emancipatórios.

O falhaço da Educação é um dominus que se alimenta da ilusão, da irracionalidade, do questionamento da lógica e da coerência. É um projeto obscurantista, como crime hediondo contra a epistemologia, o raciocínio criativo e crítico e, assim, promove-se a subjugação do povo, das classes trabalhadoras.

É um projeto político de subalternização social, em que a espoliação do trabalho se afirma à medida em que cresce a indignidade das próprias condições sociais de produção, do trabalho.

Nesses momentos – ou eternos momentos, porque no Brasil raramente vimos lastros positivos na Educação – sempre se volta aos clássicos. Porque nos clássicos estão as matrizes, a origem, a originalidade. Clássicos inauguram.

No caso de hoje, cabe perfeitamente recuperar Marx e Engels, do Manifesto Comunista:

Dizeis também que destruímos as relações mais íntima ao substituirmos a educação doméstica pela educação social.

E vossa educação não é também determinada pela sociedade? Pelas condições sociais em que educais vossos filhos, pela intervenção direta ou indireta da sociedade, por meio de vossas escolas? Os comunistas não inventaram a intromissão da sociedade na educação; apenas procuraram modificar seu caráter arrancando a educação da influência da classe dominante.

O palavreado burguês sobre a família e a educação, sobre os doces laços que unem a criança aos pais, torna-se cada vez mais repugnante à medida em que a grande indústria destrói todos os laços familiares dos proletários e transforma suas crianças em simples artigos de comércio, em simples instrumentos de trabalho.

…

Nos países mais adiantados, contudo, quase todas as seguintes medidas poderão ser postas em prática […] 10. Educação pública e gratuita a todas as crianças; abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal como é praticado hoje. Associação da educação com a produção material[4] (Marx & Engels, 2010, p. 55-58 – grifo nosso[5]).

 

Dizeis, então, de qual Educação estamos falando, tratando, no Brasil atual e de sempre?

Este é o sentido mais amplo de uma Educação Omnilateral, em que não separe o trabalho manual do trabalho intelectual, em que os sujeitos sejam atentos à formação integral, tanto física quanto psíquica e intelectual: no estofo de uma Educação pública, gratuita, de qualidade, laica, integral. Quando isso for obrigatório para todos os jovens e crianças, não mais haverá separação entre classe dominante e dominada.

A questão final é: queremos uma Educação Omnilateral ou nos contentamos com educação financeira, escola cívico-militar e ensino religioso?

De modo prático, a educação financeira dirigida para crianças pobres e famélicas deveria ser, imediatamente, naufragada pela educação científica – notoriamente para desarmar os gatilhos negacionistas. Nesse contexto, a defesa da educação científica relaciona-se diretamente com a busca por uma educação omnilateral, que compreenda a escola como espaço de formação integral do sujeito.

A busca por uma educação omnilateral demanda compreender a instituição de ensino como um espaço de formação integral do sujeito, como propõe o documento normativo brasileiro Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018)[6]. Assim, ultrapassar a limitada ideia de educação bancária (FREIRE, 2019)[7], demanda promover a criticidade e as capacidades cognitivas e científicas necessárias para analisar a sociedade.

Quando esse pensamento analítico é incentivado em sala de aula, amplia-se a capacidade para se enfrentar discursos negacionistas e de interpretação crítica acerca do intenso fluxo de informações presentes nos meios digitais. Logo, a valorização da educação científica reforça o papel da escola como espaço de construção coletiva do conhecimento e de diálogo com a vida e os desafios contemporâneos dos estudantes.

Na mesma toada, o ensino religioso de nada nos serve, enquanto hominização e omnilateralidade, porque – em que pese a importância cultural do nosso sincretismo – apenas nos distancia dos pressupostos éticos, filosóficos, políticos inerentes ao mundo moderno.

A escola deve ser concebida como um espaço laico. Desta maneira, em respeito à formação social do povo brasileiro e do seu sincretismo, e se assim alguns departamentos, docentes e discentes se sentirem aptos para tal, devemos elaborar e considerar o ensino religioso como uma matéria científica, em que se estudam as diferentes religiões como manifestações culturais de cada povo, comunidade e sociedade. Como forma de combater, desde a infância, a intolerância religiosa e fortalecer a omnilateralidade.

Por fim, mas sempre com a mesma envergadura, é urgente desbaratar as escolas cívico-militares, porque, por óbvio, o recrutamento obrigatório é a negação da autonomia voluntária, tanto quanto a ordem unida e o adestramento são antagônicos à emancipação. Por certo, levando-se em conta nossa história e formação social seria muito mais adequado dirigir o ensino às questões étnico-raciais do que sobressaltar-se constantemente qualquer tipo de “ordem e progresso”.

 

[1] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Estado de Exceção e Modernidade Tardia: da dominação racional à legitimidade (anti) democrática. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. UNESP/Marília, SP: [s.n.], 2010, 410 páginas.

[2] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025c, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K.

[3] Vimos a história ter que passar pelo juízo da prova, exatamente quando o Revisionismo teve o “direito” de inverter o ônus da “sua prova”. Parece uma piada, mas é fato, que a mentira não tinha que se provar, mas sim o contrário, pois detinha o “direito da dúvida”. Veja-se o filme Negação: https://www.youtube.com/watch?v=GZAafF4r-xY. Acesso em 06/03/2026. No filme, essa exibição nos prova, ainda, que a inteligência pode efetivamente ser bastante artificial. Assim como a desinteligência que, mesmo sob o efeito das provas que deveriam ocorrer em contrário, é profundamente atemporal.

 

[4] Vale destacar a Educação implementada na forma da Politecnia, a partir de 1917, pela Revolução Russa: “14. O ensino geral e politécnico (conhecimento da teoria e da prática de todos os ramos principais da produção) gratuita e obrigatória para todas as crianças de ambos os sexos até os 16 anos; estreita ligação do estudo com o trabalho social produtivo das crianças” (LENIN, V.I. La instrucción pública. Moscú: Editorial Progreso, 1981, p. 68 – tradução livre).

[5] MARX, Karl & ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

[6] BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.

[7] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 66. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

Pressionado e isolado, Trump recua e suspende ataques ao Irã

Presidente dos Estados Unidos relatou “conversas muito boas e produtivas” com Teerã nos últimos dois dias

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Washington e Teerã avançaram em negociações para encerrar as hostilidades no Oriente Médio, após dois dias de conversas classificadas por ele como produtivas. Em meio ao diálogo, Trump decidiu adiar por cinco dias uma possível ofensiva militar contra instalações energéticas iranianas, sinalizando uma tentativa de reduzir a escalada do conflito.

A declaração foi feita pelo próprio presidente em uma publicação nas redes sociais, após reuniões realizadas ao longo do fim de semana. Ele destacou que a decisão foi influenciada pelo tom das negociações em curso.

Em mensagem escrita em letras maiúsculas, Trump declarou: “Tenho o prazer de informar que os Estados Unidos da América e o país do Irã tiveram, nos últimos dois dias, conversas muito boas e produtivas sobre uma resolução completa e total de nossas hostilidades no Oriente Médio”.

O presidente dos Estados Unidos também afirmou que determinou a suspensão temporária das ações militares. “Com base no tom dessas conversas aprofundadas, detalhadas e construtivas, que continuarão ao longo da semana, instruí o Departamento de Guerra a adiar quaisquer ataques militares contra usinas de energia e infraestrutura energética iraniana por um período de cinco dias, sujeito ao sucesso das reuniões e discussões em andamento”, escreveu.

A decisão ocorre após uma escalada de tensões envolvendo o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de petróleo. Trump havia ameaçado lançar ataques já na noite desta segunda-feira (23) caso o Irã não permitisse a reabertura da passagem marítima.

Dias antes, o presidente havia demonstrado resistência à ideia de um cessar-fogo. “Podemos ter diálogo, mas não quero fazer um cessar-fogo”, afirmou na sexta-feira, indicando uma postura mais dura naquele momento.

A mudança de posição, agora condicionada ao avanço das negociações diplomáticas, sugere uma tentativa de abrir espaço para um acordo mais amplo que reduza o risco de confronto direto na região.

Do Brasil 247

EDUCAÇÃO E SOCIEDADE

0

 

Sociedade – Estado – Capital[1]

 

Vinicio Carrilho Martinez – docente responsável

Ester Dias da Silva Batista – monitora da disciplina

O texto a seguir é uma breve aproximação à ementa da disciplina Educação e Sociedade[2]. A primeira observação é de que a ementa contém os sentidos e significados necessários para a formação acadêmica. Porém, podemos/devemos sempre olhar do presente para o passado, do geral ao particular, envolvendo-se constantemente a reflexão e a ação (práxis: mudança fundamentalista), o conhecimento e as perspectivas em sua realidade (chamado de realismo político). Nesse processo se destacam uma mistura de claro-escuro, e muitas frestas, sombras, um cinza mais constante. Além disso, como bem sabemos, o digital vai se assenhorando do analógico, da presença física, da carne-viva como descreviam alguns músicos e artistas do século XX. E neste sentido é preciso ler a ementa com o esforço de se colocar o digital num mapa conceitual, num quadro geral de inspeção – a ementa é marcada pelo século XX e vivemos, para o bem e para o mal, nos marcos do século XXI. Neste ponto vale destacar que faremos a escolha do método a contrapelo, de Benjamin[3], procurando sentidos, sentimentos, fatos, pessoas, conexões que nem sempre se destacam na luz do meio-dia: que seria o método da clareza e da objetividade. Nem sempre há transparência, iluminação sobre os fatos e atores sociais. A publicidade é pouca porque são relações políticas e o consenso não é, necessariamente um desejo compartilhado.

 Notas para uma práxis da descompressão[4]

Vejamos a ementa oficial disponibilizada pela Universidade Federal de São Carlos/UFSCar, para as licenciaturas.

Ementa[5]: Os processos históricos, sociais e culturais de formação da sociedade capitalista[6] serão explorados sob diferentes aspectos de desenvolvimento. Da revolução técnico-científica[7] à constituição das principais tendências políticas[8] e do desenvolvimento de problemas[9] e perspectivas para a sociedade. Esta disciplina se concentrará nos estudos sobre o papel das instituições educacionais, de seus agentes e da formação de novos sujeitos[10] no mundo contemporâneo[11].

Em face da ementa e da abordagem autoral que propomos, o objetivo principal é aprofundar conhecimentos aptos a uma reflexão crítica acerca das condições sistêmicas, estruturas, sistemas, dinâmicas da sociedade capitalista no século XXI[12], sobretudo, a sociedade brasileira – diante da luta de classes racista[13] –, e o possível papel desempenhado pela educação quando se objetiva a Emancipação[14] – aqui entendida enquanto descompressão (práxis)[15].

 O título geral desse texto ainda nos remete à ideia de que a Sociedade nos leva a pensar imediatamente em educação: seja (i) enquanto mecanismos de reprodução social, pacificação e controle social, ou na educação para o trabalho – não há registro antropológico de alguma sociedade que não tenha feito ou que hoje não promova alguma forma de educação para o trabalho – ou, talvez, seguindo-se a moda pós-moderna aplicada à educação financeira (para crianças pobres e famintas); seja (ii) sob a chancela de uma educação crítica, inclusiva, dirigida à liberdade, à autonomia e à emancipação (política); seja (iii) nas polarizações apresentadas entre escolarização e desescolarização ou entre ensino bancário e educação emancipadora. É preciso ter clareza de que emancipação e autonomia se articulam, aproximam-se, podem/devem andar juntas, entretanto, não apenas não são sinônimos como ocorre de se pronunciarem em termos até mesmo antitéticos, opostos, contraditórios.

Pensar é agir

Em termos de educação, é possível dizer-se que nosso objeto de trabalho é baseado, iniciado, em ideias, pensamentos, conceitos, articulações mentais, reflexões, teorias (ou ideologias). Neste sentido, que vale para todas as atividades da vida humana, pensamento é ação. De um modo ou de outro, agindo, interagindo, ou se recusando à ação, como uma forma de inação, é o pensamento quem nos guia. Outra questão a se refletir é sobre as bases materiais que gerem, impulsionam, nossas ideias e reflexões (ações). Quando temos uma obrigação para agir e o fazemos (ou não fazemos) aí está agindo um conjunto de valores, perspectivas, sonhos, objetivos, projeções, conformações sociais, culturais, políticas. Prestar socorro é uma “obrigação de fazer”, não há escapatória, e o crime praticado na recusa (inação) é chamado de “omissão de socorro”[16]. E, então, chamemos isso de ação positiva (prestar socorro se e quando necessário a qualquer pessoa) e de ação negativa (deixar de fazer, quando se é obrigado/a). No mesmo sentido apontado, deve-se entender o ditado popular quando diz: “Em briga de homem e mulher, ninguém mete a colher”. Só que aqui temos que indicar o erro grave e profundo na formulação, pois, ali estaria evidente a ocorrência de violência contra a mulher, a misoginia e talvez até mesmo a tentativa de feminicídio. Logo, a obrigação de fazer, agir, é conjunta a todos os indivíduos presentes, fazendo-se cessar de imediato as agressões (físicas, morais, étnicas) e requisitando o policiamento. A violência contra idosos, crianças, animais, obrigatoriamente, deve seguir o mesmo rito, assim como a denúncia aos órgãos competentes em caso de homofobia, racismo, misoginia, assédios morais ou sexuais. Além do que cabe a todos nós a denúncia da desigualdade, de todas as formas de discriminação, preconceito ou de privilégios (que não se confundem com prerrogativas). Isso nos remete à entropia social, uma vez que, com o aprofundamento disso, é a violência que prospera, bem como a negação dos direitos humanos, o caos e a barbárie social, a menorização da dignidade humana, e a pujança dos meios e dos mecanismos de exceção.

O agir como aprendizagem

Como viemos abordando, no âmbito educacional, a produção do trabalho no ambiente escolar, seja no Ensino Básico (Fundamental e Médio) ou no Ensino Superior (graduação e pós-graduação), ao articular pensamentos com produções mentais e reflexivas, configura-se o conhecimento como um processo efetivamente aplicado. Assim, a produção em sala de aula não se apresenta de forma neutra ou despersonalizada; ao contrário, constitui-se como uma produção humana que reflete ideias, desejos, ambições, crenças e ideologias de quem a realiza. Portanto, a educação não é neutra. A educação é política.

O próprio fato de pensarmos o conhecimento – como, por quem, onde, com quais meios, porque é feito assim e não de outro modo –, per si, notabiliza uma ação política. Todavia, desenvolve-se uma forma de entendimento (não só produção, mas também entranhamento: “trazer, tomar para si”) que nos revela uma visão de mundo: como vemos e a partir do que conseguimos ver. Portanto, “pensar o conhecimento” é uma ação política. Trata-se de transformar o conhecimento em pensamento (“autoconhecimento do conhecimento científico[17]”) e isso nos indica que há uma epistemologia política.

Assim, toda educação é, em alguma medida, um ato político; não há neutralidade na prática educativa, mas escolhas e oportunidades para manter uma realidade problemática ou buscar transformá-la (FREIRE, 2019)[18]. A partir dessa perspectiva, a produção educacional atua como promotora de uma interpretação crítica do mundo, possibilitando-se a compreensão das relações existentes na sociedade.

Nesse mesmo sentido, no momento social e político atual, observa-se o avanço do negacionismo e de outras vertentes que buscam descaracterizar e reduzir a educação e as produções científicas, bem como a despolitização do debate científico, frequentemente deslocado para o campo das disputas ideológicas. Esse movimento contribui para a tentativa de neutralização do papel crítico da escola e da educação.

Percebe-se, portanto, a essencialidade, e a potência, do ambiente escolar (bem como as razões pelas quais esse o sistema educacional tende a ser tão perseguido e desvalorizado de diversas formas ao longo da história brasileira), tanto na educação básica quanto no ensino superior, porque são espaços, campos, de formação e permanência de sujeitos capazes de pensar e analisar criticamente os processos ao seu redor.

Contudo, é justamente essa capacidade crítica, produzida nessas instituições, que também alimenta o combate ao negacionismo, evidenciando-se disputas, lutas políticas constantes em torno da valorização da ciência e da educação. Nesse cenário, torna-se fundamental seguir investindo e produzindo conhecimento científico, não apenas na condição de “estudantes”, mas como cientistas e agentes ativos na construção do saber.

A última consideração a ser feita, por hora, frisa que uma ementa nunca é apenas uma ementa – sempre há rascunhos em meio ao resumo que a ementa nos apresenta. E, por muitas vezes, é para esses rascunhos, as pegadas invisíveis, as marcas embaixo do relevo, que devemos direcionar nossa atenção enquanto educadores, cientistas, pesquisadoras e pesquisadores.

[1] Podemos entender que o subtítulo fornece possibilidades de outras conexões: é óbvio que o Estado está para o Direito, mas também está para a regulação do capital (ou não). Assim como a Sociedade aspira por mais ou menos democracia. Do mesmo modo, seguindo-se essa provocação podemos pensar como o capital (hegemônico em certa época) impõem condições específicas tanto à sociedade quanto à forma política: sob o domínio econômico das Big Techs vemos um Estado-plataforma, com avanço incontrolável da exploração mais brutal da força de trabalho já praticada (da uberização ao regime conhecido como 9-9-6). Exemplos claros estão na análise das Big Techs pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e nos projetos legislativos que visam coibir o fenômeno chamado de “adultização” e de abuso contra menores. Em outra referência, no passado não distante e em parte do presente, temos a atuação do Capitalismo Monopolista de Estado e, no Brasil, especificamente, prolifera um pensamento escravista: racismo lancinante associado à exploração do trabalho análogo à escravidão.

[2] Disciplina ofertada nas licenciaturas da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.

[3] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas – Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

[4] Propomos manter como premissa algum diferencial entre Autonomia (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021) e Emancipação e, para tanto, uma das necessidades indica o entendimento do que é Descompressão: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025d. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.

[5] https://www.ded.ufscar.br/pt-br/disciplinas/educacao-e-sociedade. Acesso em 25/12/2025.

[6] Temos um vídeo aula sobre formação social brasileira e Estado: https://www.youtube.com/watch?v=s8wdN84SCdA&t=712s. Acesso em 25/12/2025.

[7] Esboçamos diferenças iniciais entre técnica e tecnologia, ao menos em três notas: 1) https://aterraeredonda.com.br/ensaio-sobre-capitalismo-digital-e-tecnofascismo/. Acesso em 25/12/2025. 2) https://www.fcw.org.br/culturacientifica10/vin%C3%ADcio-martinez. Acesso em 25/12/2025. 3) https://ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/660338-tecnofacismo-do-radio-de-pilha-nazista-as-redes-antissociais-a-transformacao-monstruosa-humana-entrevista-especial-com-vinicio-carrilho-martinez. Acesso em 25/12/2025.

[8] Aprofundamos essa perspectiva – que denominamos de normalização do looping da exceção – na tese do concurso de titularidade na UFSCar: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025c. Acesso: https://a.co/d/3upl65K (709 páginas).

[9] Uma de nossas mais atuais abordagens conceituais transita pelo conceito de Capitalismo Digital, mas em outra roupagem, mais ampla do que a prevista na economia financeira: 1) https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/conceito-de-capitalismo-digital. Acesso em 25/12/2025. 2) https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/ela-pensa-a-inteligencia-desumana. Acesso em 25/12/2025. 3) https://ademocracia.com.br/2025/10/29/inteligencia-degenerativa/. Acesso em 25/12/2025.

[10] Nos referenciamos pela Pedagogia do Oprimido: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

[11] Nossa abordagem teórica referente à disciplina Educação e Sociedade, acompanhada de mapa conceitual, encontra-se disponível: https://www.rehcol.com/index.php/rehcol/article/view/82. Acesso em 25/12/2025. Martinez, V. C. (2025). EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: SOCIEDADE – ESTADO – CAPITAL SOCIOLOGIA GERAL (E POLÍTICA). REVISTA COLOMBIANA DE CIÊNCIAS E HUMANIDADES (REHCOL), 2(4), 1–22. https://doi.org/10.5281/zenodo.17059742.

[12] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/capitalismo-digital-mais-valia-onirica. Acesso em 25/12/2025. Acesso em 26/12/2025.

[13] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/pensamento-escravista-no-seculo-xxi-exploracao-do-trabalho-e-a-hegemonica-violencia-contra-os-direitos-humanos. Acesso em 26/12/2025.

[14] https://aterraeredonda.com.br/por-uma-educacao-com-partido/. Acesso em 26/12/2025.

[15] https://aterraeredonda.com.br/socialismo-ambiental/. Acesso em 26/12/2025.

[16] Essa obrigação de fazer recai sobre todos os indivíduos presentes, sem exceção – porém, basta que haja uma única iniciativa positiva para que os demais sejam contemplados.

[17] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996. A primeira edição data de 1982.

[18] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 67. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

Globo fdp: Powerpoint tendencioso protege criminosos e culpabiliza Lula

GloboNews omite ligações de Nikolas Ferreira e Ciro Nogueira com Vorcaro e repete estratégia usada na Lava Jato para atacar o atual presidente

A tensão em torno das investigações sobre o Banco Master e seu controlador, o empresário Daniel Vorcaro, ganhou um novo capítulo nesta semana após acusações de parcialidade editorial contra a GloboNews. A emissora divulgou uma apresentação em PowerPoint com o objetivo de direcionar a narrativa do escândalo financeiro ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que minimizou as conexões de figuras da oposição com o banqueiro

A denúncia foi veiculada por um perfil da rede social X, que classificou o material da emissora carioca como uma “manipulação canalha” da GloboNews sobre as relações de Vorcaro com o mundo político. O usuário questionou a seletividade da cobertura ao contrastar as escolhas editoriais da emissora: de um lado, a narrativa de que o presidente Lula teria pedido ao Banco Central uma análise técnica sobre o Master — e que o chefe da instituição, Gabriel Galípolo, teria encaminhado um processo de liquidação da instituição —; do outro, informações que, segundo a publicação, foram deliberadamente silenciadas.

Entre os pontos levantados destacam-se duas conexões envolvendo membros da oposição. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria apresentado um projeto de lei que, supostamente, beneficiaria a instituição financeira. Já o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes do bolsonarismo, teria utilizado uma aeronave pertencente a Vorcaro durante sua campanha eleitoral.

O caso Banco Master tem movimentado Brasília em função da possibilidade de que Vorcaro firme um acordo de delação premiada. Caso confirmado, o empresário poderá revelar detalhes sobre os vínculos entre a instituição e agentes do poder político, o que elevou o nível de atenção de diferentes setores do espectro partidário ao desenvolvimento da crise bancária.

A polêmica sobre a cobertura da GloboNews evidencia um fenômeno recorrente no jornalismo brasileiro: a disputa pela moldura narrativa de crises financeiras com implicações políticas. Quando os fatos envolvem múltiplos atores de campos opostos, a escolha de quem aparece no centro da história — e quem fica nas margens — é, por si só, um ato editorial carregado de consequências. Nesse contexto, a seletividade no uso de dados e conexões passa a ser tão relevante quanto os próprios fatos apurados.

PowerPoint como arma política, uma estratégia que se repete

O recurso ao PowerPoint adotado pela Globo no caso Banco Master não é novidade no cenário político brasileiro — e tampouco parece casual. A mesma ferramenta foi utilizada como peça central de uma das ofensivas mais emblemáticas da história jurídica recente do país: a acusação formulada pela Operação Lava Jato contra o então ex-presidente Lula, em 2016.

Naquela ocasião, foi o Ministério Público Federal do Paraná, sob o comando do procurador Deltan Dallagnol — que atuava como coordenador do grupo de procuradores à frente das investigações — quem lançou mão da apresentação de slides para imputar ao petista o recebimento de um apartamento da construtora OAS como suposto pagamento de propina. A acusação ganhou enorme repercussão midiática, mas carecia de sustentação probatória sólida — fato que o próprio MPF-PR admitiu publicamente.

Foi o procurador Henrique Pozzobon quem verbalizou, sem rodeios, a fragilidade do material reunido contra Lula: “não teremos aqui provas cabais”, declarou, reconhecendo abertamente a ausência de evidências conclusivas para embasar as acusações que haviam sido alardeadas. A confissão, no entanto, não impediu que as consequências políticas e jurídicas recaíssem sobre o líder petista.

O desfecho do processo só viria anos depois. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal declarou a suspeição do então juiz Sérgio Moro, responsável pelas condenações no âmbito da Lava Jato, o que resultou na devolução dos direitos políticos de Lula — reconhecendo, na prática, os vícios que contaminaram aquele processo desde a origem.

Delação, fraude bilionária e escândalo de bens ocultos

A transferência de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal sinaliza que o empresário está em vias de fechar um acordo de colaboração premiada com as autoridades. O movimento representa uma virada significativa em um caso que a própria PF estima ter movimentado entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões em supostas fraudes financeiras.

No âmbito da investigação, os agentes federais passaram a concentrar esforços na análise minuciosa de comunicações e transferências bancárias associadas a Vorcaro e ao seu cunhado, Fabiano Zettel. O foco recai sobre possíveis repasses a figuras do mundo político e sobre irregularidades de natureza financeira que ainda estão sendo mapeadas pelos investigadores.

O histórico recente do empresário é marcado por uma série de episódios polêmicos. Um dos mais impactantes envolve a transferência de um patrimônio superior a US$ 100 milhões — montante que supera R$ 520 milhões na conversão atual — para Martha Graeff, com quem Vorcaro chegou a ser noivo. A movimentação veio à tona a partir de mensagens trocadas entre os dois, cujo conteúdo foi posteriormente encaminhado à CPI do INSS.

O mesmo material trouxe à luz outras revelações graves: registros de ameaças dirigidas tanto a jornalistas quanto a uma funcionária doméstica, além de evidências de que mais de R$ 2,2 bilhões teriam sido ocultados em uma conta bancária aberta em nome do pai do empresário. O peso dessas descobertas foi suficiente para que o Judiciário determinasse o retorno de Vorcaro ao sistema prisional.

Do Brasil 247

CPMI do INSS rejeita todas as oitivas da Igreja da Lagoinha mesmo após sucessivos requerimentos

Os dados reunidos nos requerimentos apresentados à CPMI do INSS mostram um padrão claro e controverso. Foram protocolados diversos pedidos para ouvir representantes ligados à Igreja da Lagoinha, incluindo o pastor André Valadão e estruturas associadas como o Clava Forte Bank. Apesar da quantidade de elementos citados nos relatórios, todas as solicitações de oitiva foram rejeitadas.

A repetição das negativas chama atenção porque ocorre justamente em um dos núcleos mais mencionados nos documentos de inteligência financeira. Nenhum dos pedidos avançou, mesmo com a insistência dos parlamentares responsáveis pelos requerimentos.

Os elementos que motivaram os pedidos de oitiva

Os requerimentos têm como base registros do COAF e apontamentos da Controladoria-Geral da União que identificaram movimentações consideradas atípicas e compatíveis com possíveis práticas de lavagem de dinheiro.

No caso da Igreja da Lagoinha, os dados indicam proximidade com os chamados “Golden Boys” (Felipe Macedo, Américo Monte e Anderson Cordeiro) apontados como centrais nas movimentações suspeitas.

Também é destacado que, em 2024, a igreja recebeu patrocínio de Felipe Macedo para um evento de Réveillon realizado no Allianz Parque, período descrito nos documentos como o auge das irregularidades envolvendo descontos indevidos.

Outro ponto relevante envolve o Clava Forte Bank S/A, ligado a André Valadão. Há questionamentos sobre o possível papel da instituição como intermediadora ou receptora de valores oriundos das fraudes investigadas. O fato de o site da empresa ter saído do ar no mesmo dia da prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, também foi incluído nos elementos apresentados.

Essas conexões fundamentaram os requerimentos que pediam esclarecimentos diretos por meio de oitivas.

André Valadão, líder da Lagoinha, e Nikolas Ferreira em avião de Daniel Vorcaro. Foto: reprodução

Um padrão diferente do restante da investigação

Enquanto os pedidos relacionados à Igreja da Lagoinha foram barrados integralmente, outros alvos com base em movimentações financeiras semelhantes foram incluídos nas investigações e tiveram requerimentos aceitos.

Os dados mostram, por exemplo, que a Sete Church recebeu R$ 370.338,00 de Anderson Cordeiro e mais R$ 124.000,00 de Américo Monte. A Adoração Church movimentou mais de R$ 5 milhões em sete meses. A Igreja Campo de Anotote recebeu R$ 200.000,00 antes mesmo de sua formalização oficial. Já o Ministério do Renovo aparece com movimentações superiores a R$ 500 mil, incompatíveis com a renda declarada de seu dirigente.

Mesmo diante desse conjunto amplo de informações, o caso da Lagoinha seguiu um caminho distinto dentro da comissão.

As justificativas para as rejeições

As negativas às oitivas foram atribuídas, nos debates internos, à ausência de provas conclusivas e à necessidade de priorização de outros alvos. Também foi mencionado que os requerimentos apontariam indícios, mas não elementos suficientes para convocação imediata.

No entanto, os próprios documentos utilizados nos pedidos afirmam que, considerando a natureza das atividades, vínculos operacionais e enquadramento societário, é provável que as movimentações identificadas configurem canais de circulação de valores desviados do esquema do INSS.

Essa avaliação técnica foi um dos principais argumentos para a apresentação das solicitações.

O banqueiro Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel, listado como presidente da Igreja Lagoinha Belvedere na Receita Federal. Foto: reprodução

O pano de fundo financeiro das suspeitas

As investigações se conectam a falhas estruturais identificadas pela CGU no sistema de crédito consignado vinculado ao Auxílio Brasil em 2022.

O relatório aponta que mais de 3,6 milhões de contratos foram firmados em poucos meses, com movimentação de R$ 7,6 bilhões, principalmente pela Caixa. Também foram identificadas falhas na integração entre Dataprev e sistema bancário, erros na averbação de parcelas e descontos indevidos em benefícios de famílias vulneráveis.

A ausência de estudos técnicos para definição de juros e limites de comprometimento da renda agravou o cenário. Em alguns casos, os descontos chegaram a comprometer até 40% do benefício.

O ponto central da controvérsia

Dentro desse contexto, a rejeição total das oitivas ligadas à Igreja da Lagoinha se tornou um dos principais pontos de tensão na CPMI.

Os dados mostram que não se trata de um pedido isolado recusado, mas de uma sequência completa de negativas. Todas as tentativas de ouvir representantes da igreja foram barradas, mesmo com a apresentação de relatórios, registros financeiros e conexões diretas com investigados.

O resultado é que um dos núcleos mais citados nos requerimentos permanece sem esclarecimentos formais na comissão, enquanto outras frentes avançam normalmente.

Mãe de Adriano da Nóbrega, ex-assessora de Flávio é denunciada por lavar dinheiro da milícia

Uma ex-assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) foi denunciada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) sob acusação de participar de um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao miliciano Adriano da Nóbrega, morto em 2022 durante uma operação policial na Bahia. A denúncia foi apresentada nesta quinta (19).

Segundo o MP-RJ, Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano da Nórbrega, integrou uma rede formada por pessoas e empresas usada para “receber, movimentar e ocultar valores oriundos do jogo do bicho”. A investigação aponta que o grupo utilizou negócios de fachada para esconder recursos obtidos com atividades ilegais.

Raimunda trabalhou como assessora de Flávio na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) entre abril de 2016 e novembro de 2018. Ela já havia sido citada no caso das chamadas “rachadinhas” investigadas pelo MP, que acabou arquivado após decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que anularam provas.

O miliciano Adriano da Nóbrega. Foto: Divulgação/Polícia Civil

De acordo com a denúncia, Adriano da Nóbrega controlava pontos de jogo do bicho em Copacabana em associação com o bicheiro Bernardo Bello. As apurações indicam que quatro empresas ligadas ao esquema movimentaram cerca de R$ 8,5 milhões.

“Entre os empreendimentos de fachada constam um depósito de bebida, um bar e um restaurante. Os investigadores se depararam com um quiosque de serviços de sobrancelha localizado em um shopping na zona norte, cuja conta registrou, em seis meses, aproximadamente R$ 2 milhões em créditos”, afirmou o MP.

O órgão também denunciou o deputado federal Juninho do Pneu (União Brasil-RJ), acusado de adquirir bens que pertenciam ao miliciano após sua morte. Segundo a Promotoria, o parlamentar e a viúva de Adriano, Julia Lotuffo, teriam conhecimento da origem ilegal dos recursos envolvidos na negociação.

Ao todo, foram apresentadas três denúncias relacionadas às atividades atribuídas ao grupo. “A terceira ação penal trata dos integrantes que atuavam sob o comando do miliciano e que continuaram em atividade após sua morte. As apurações indicam que o grupo criminoso persistiu e sofisticou sua estrutura mesmo após a morte de Adriano da Nóbrega”, informou o MP.

DCM

Congresso Nacional já teme possível delação de Vorcaro, do Master

Mudanças na defesa de Daniel Vorcaro e diálogo com STF e PF ampliam expectativa por acordo que pode atingir diversas autoridades

As expectativas sobre uma eventual delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, ganharam força no Congresso Nacional após movimentos recentes que indicam mudança de estratégia jurídica. Entre os fatores que impulsionaram esse cenário estão a troca na equipe de defesa e reuniões do novo advogado, José Luís Oliveira Lima, com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e com a Polícia Federal. As conversas incluíram a possibilidade de um acordo de colaboração, segundo o Metrópoles.

A hipótese de delação surge em meio ao avanço das investigações que atingem o empresário, que já é alvo de inquéritos na Polícia Federal, além de apurações conduzidas pela CPMI do INSS e pela CPI do Crime Organizado. Parlamentares que acompanham os trabalhos afirmam que o material obtido por meio de quebras de sigilo aponta para uma suposta “infiltração” do banqueiro em diferentes esferas do poder.

De acordo com relatos de integrantes da CPMI, uma nova leva de dados armazenada em uma sala-cofre revelou registros considerados sensíveis, incluindo documentos e decisões judiciais de interesse do Banco Master que, segundo um parlamentar, teriam caráter sigiloso. Outros congressistas afirmam que Vorcaro mantinha uma ampla rede de contatos com autoridades, incluindo ministros do STF, além de registros fotográficos em eventos sociais com figuras públicas.

O acesso ao material, que soma mais de 400 GB de dados obtidos junto à Apple, foi liberado inicialmente para parlamentares e assessores. No entanto, após suspeitas de vazamentos, o ministro André Mendonça determinou a retirada dos dados da sala-cofre. A Polícia Federal realizou a coleta do material, embora posteriormente tenha informado que parte das informações foi reinserida no sistema do Senado.

O ambiente no Congresso é de apreensão diante do alcance que uma eventual delação pode ter. Parlamentares de diferentes correntes políticas buscam se distanciar de qualquer associação com os fatos investigados. Um líder da Câmara, sob reserva, defendeu o acordo como forma de esclarecer as suspeitas. “Ele tem mais é que delatar mesmo. Os líderes estão evitando tocar nesse assunto, mas acho que é bom porque o CPF tem que pagar; não dá para continuar com essa coisa de responsabilizar o CNPJ, no caso o Congresso”, afirmou.

Por outro lado, há receio de que a colaboração possa gerar instabilidade institucional. Um parlamentar do centrão avaliou que o cenário pode sair do controle. “É complicado, porque ele fala, mas há toda a questão das provas. Ele delata, começam os vazamentos, os dedos são apontados para os citados. E depois? Se isso acontecer, pode virar um furacão. A gente já viu isso em outros escândalos”, disse.

As tratativas para uma possível delação já foram levadas tanto ao STF quanto à Polícia Federal. Ao ministro André Mendonça, o advogado José Luís Oliveira Lima apresentou o acordo como alternativa em análise. Já à PF, indicou a intenção de formalizar uma colaboração que descreveu como “séria e completa”, com disposição do cliente de fornecer todas as informações disponíveis.

Daniel Vorcaro está preso preventivamente na Penitenciária Federal em Brasília, sob suspeita de envolvimento em fraudes financeiras. Ao determinar a prisão, o ministro André Mendonça apontou risco de interferência nas investigações, decisão posteriormente confirmada pela Segunda Turma do STF.

Segundo a Polícia Federal, o Banco Master — liquidado pelo Banco Central — pode ter movimentado cerca de R$ 12 bilhões por meio da emissão irregular de certificados de depósito bancário (CDBs). O Banco Central informou que a instituição descumpriu normas que regem o funcionamento das entidades do Sistema Financeiro Nacional, ampliando a gravidade do caso que agora mobiliza o Congresso Nacional.

Do Brasil 247

Coluna Zona Franca

Por Roberto Kuppê (*)

João Campos fecha chapa

O prefeito do Recife, João Campos (PSB), deu um importante passo na sua candidatura ao governo de Pernambuco nesta quarta-feira, 18, ao fechar acordo com o senador Humberto Costa (PT) a ex-deputada federal Marília Arraes (PDT), para que sejam seus candidatos ao Senado. O movimento foi confirmado para VEJA por fontes ligadas aos políticos e posiciona a chapa mais à esquerda, garantindo total proximidade ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o pleito.

A letargia do PT

O que mais chama atenção neste momento não é o barulho das manchetes… é o silêncio.
As narrativas já estão circulando, os ruídos só aumentam e, mesmo assim, ainda falta alguém aparecer para falar com clareza ao país. Depois de tudo que o Brasil já viveu, ficar calado diante de versões e especulações não é prudência — é abrir espaço para que outros contem a história do jeito que quiserem. Em política, silêncio raramente resolve crise. Muitas vezes, só alimenta ainda mais as dúvidas.

A letargia do PT 2

Lula não vai acordar até perder a eleição, isso dá muita raiva porque ele está resistindo em ir pra cima, usar o horário nobre, lives diárias. O PT tem uma velharia lá que não se ligou na modernidade ainda.

“Greve” criminosa e política

Ninguém gosta de guerras porque provocam mortes e destruição. Mesmo longe, as guerras atingem outros países como o Brasil. Mas, mesmo não afetando direta e potencialmente os combustíveis no Brasil, alguns donos de postos de gasolina resolverem aumentar os preços. Os governadores que poderiam baixar o ICMS não o fizeram por pura politicagem. Afora isso, fake news projetam os preços até 2 reais acima do que está sendo aplicado nos postos. O resultado de tudo isso é a proposta de uma greve ilegal e imoral programada para a partir de hoje. É ilegal, portanto, os mecanismos de controle vão agir.

“Greve” criminosa e política 2

Multas serão aplicadas se interromperem estradas. Os caminhoneiros que aderirem à essa greve ilegal serão punidos com, além de multas, prejuízos de dias sem trabalhar. Muitos falirão ou terão que passar até fome. Essa é a política bolsonarista. Quanto pior, melhor.

BC corta Selic

A guerra no Oriente Médio e seu impacto sobre os preços do petróleo no mercado global fizeram com que o Banco Central mantivesse a cautela e reduzisse a taxa de juros em apenas 0,25 ponto percentual. O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a taxa básica de juros de 15% para 14,75% ao ano. A decisão marca a primeira queda dos juros desde maio de 2024 e é a primeira flexibilização monetária sob o comando de Gabriel Galípolo. No comunicado, o Banco Central justificou o corte ao afirmar que o aumento no preço do petróleo pode ter impactos inflacionários no país. A votação foi unânime. Para o futuro, não há sinalizações claras. O Copom reafirmou que os próximos passos dependerão de novas informações para aumentar a clareza sobre a “profundidade e a extensão dos conflitos” globais e para garantir a convergência da inflação para a meta. (g1)

EUA mantiveram as taxas de juros

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve foi ainda mais conservador. O Banco Central americano manteve as taxas de juros inalteradas, na faixa de 3,5% a 3,75%, pela segunda reunião consecutiva. Ao contrário do que ocorreu no Brasil, a decisão por lá não foi unânime. No colegiado do Fed, um dirigente votou a favor do corte de juros. Projeções atualizadas indicam divisão entre os membros: parte defende ao menos uma redução ainda neste ano, enquanto outro grupo vê manutenção das taxas ao longo de 2026. O quadro ocorre em meio à pressão inflacionária decorrente da guerra no Irã e a sinais de desaceleração do mercado de trabalho. (Axios)

Incertezas com o petróleo

A precaução dos bancos centrais brasileiros e americanos está ligada diretamente às incertezas em relação ao preço do petróleo, que nesta quarta-feira tensa fechou acima dos US$ 110. A alta se intensificou depois que Israel atingiu o campo de gás South Pars — o maior do mundo, compartilhado por Irã e Qatar — e o Irã respondeu com um ataque a um importante centro de combustíveis no território qatari, causando danos significativos. O aumento das tensões pressionou os preços do gás natural na Europa, que é altamente dependente de importações do Oriente Médio. (Wall Street Journal)

Incertezas com o petróleo 2

E a situação tende a piorar. A possibilidade de o petróleo atingir US$ 200 por barril deixou de ser considerada improvável e passou a integrar o cenário central de analistas do mercado internacional, após a escalada das agressões militares lideradas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, contra o Irã. Trump ameaçou destruir completamente South Pars caso o país continue com os ataques à infraestrutura de energia do Qatar. (CNN)

Incertezas com o petróleo 3

Por aqui, as pressões decorrentes do aumento do preço do petróleo não se resumem à política monetária. Caminhoneiros de todo o Brasil ampliaram a pressão sobre o governo federal para que seja encontrada uma maneira de frear o aumento do diesel. Líderes da categoria dizem que só irão descartar uma paralisação nacional se o governo cumprir a promessa de encontrar uma forma de reduzir o preço do combustível. (CNN Brasil)

Incertezas com o petróleo 4

O governo federal, por sua vez, propôs aos estados que zerem o ICMS sobre a importação de diesel até o fim de maio, sendo que metade das perdas de arrecadação seria compensada pela União. De acordo com estimativas do Ministério da Fazenda, a isenção do ICMS na importação de diesel custará R$ 3 bilhões por mês até o fim de maio, dos quais o governo se compromete a ressarcir R$ 1,5 bilhão aos estados por mês. (g1)

Incertezas com o petróleo 5

Em outro front, a Petrobras decidiu suspender o leilão de diesel previsto para esta semana e reavaliar seus estoques, em meio à volatilidade do mercado internacional. Segundo a presidente da estatal, Magda Chambriard, a medida busca evitar o risco de desabastecimento. (Globo)

Delação premiada

O novo advogado de Daniel Vorcaro, José de Oliveira Lima, procurou a Polícia Federal e o STF para sinalizar que seu cliente está disposto a negociar um acordo de delação premiada. A iniciativa ocorre após a formação de maioria na Segunda Turma do STF pela manutenção da prisão do banqueiro. Vorcaro indicou que pretende colaborar amplamente com as investigações, sem restrições quanto a possíveis implicados. O movimento busca abrir caminho para uma negociação formal com a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR). (Globo)

Delação premiada 2

Vorcaro, no entanto, indicou a interlocutores que não pretende envolver ministros do STF em um eventual acordo de delação premiada. A avaliação dele é de que qualquer menção a magistrados da Corte exigiria provas robustas de irregularidades, sob risco de rejeição do acordo pela PGR, pela PF ou pelo próprio Supremo. (Folha)

Prorrogação por 60 dias

E o ministro do STF André Mendonça determinou a prorrogação por 60 dias do inquérito que investiga o caso Banco Master. A decisão atende a um pedido da Polícia Federal, apresentado na véspera, que apontou a necessidade de novas diligências consideradas essenciais para o esclarecimento dos fatos sob apuração. (g1)

Lagoinha recebeu R$ 41 milhões

O pastor Fabiano Zettel, cunhado do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, realizou 54 transferências que somam R$ 40,9 milhões para a unidade Belvedere da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, que teve suas atividades encerradas no último domingo (15). Os repasses ocorreram entre outubro de 2024 e janeiro de 2025 e constam em extratos bancários enviados à CPI do INSS.

Lagoinha recebeu R$ 41 milhões 2

De acordo com informações obtidas pela Folha, o primeiro envio no valor de R$ 2 milhões, foi feito em 17 de outubro de 2024, pouco mais de um mês após a abertura da unidade, registrada em setembro do mesmo ano. Zettel figurava como presidente da igreja no cadastro da Receita Federal e atuava como pastor voluntário até ser afastado em novembro, após a deflagração da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades ligadas ao Banco Master.

Presidente da CPI do INSS defende Lagoinha

O senador bolsonarista Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investiga as fraudes do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), negou que a Igreja Batista da Lagoinha tenha recebido dinheiro proveniente de desvios do esquema. A instituição religiosa é do pastor bolsonarista André Valadão.

Presidente da CPI do INSS defende Lagoinha  2

“Não há até o momento qualquer ligação de que a igreja tenha recebido o dinheiro do INSS. Há um relacionamento de um pastor que tinha uma igreja separada, que ele deixava separado e que estava numa ligação com o Márcio e que teve das explicações já foi convocado e eu espero que ele venha”, declarou Viana a jornalistas.

CPMI focando só no Lulinha

Enquanto isso a CPMI do INSS continua blindando os responsáveis pelo roubo bilionário e focando só no Lulinha. Os verdadeiros ladrões estão no comando da CPMI, inclusive o presidente dela.

Enquanto isso…

O Centrão trabalha para barrar a prorrogação da CPI do INSS. O Centrão quer estancar a CPI antes que ela avance sobre as ligações do Banco Master com as fraudes no INSS. (Globo)

Moro ao governo do Paraná

O senador Sergio Moro acertou sua filiação ao PL e deve disputar o governo do Paraná com apoio do partido e do senador Flávio Bolsonaro. A mudança de legenda viabiliza a candidatura, já que, no União Brasil, Moro enfrentava dificuldades para garantir espaço na eleição estadual, apesar de liderar as pesquisas no estado. (Globo)

 “Ameaça iminente”

A diretora de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, Tulsi Gabbard, afirmou que cabe ao presidente Donald Trump definir o que constitui uma “ameaça iminente”, em meio a questionamentos sobre a justificativa da guerra contra o Irã. A declaração foi feita durante uma audiência no Senado, na qual Gabbard foi pressionada a conciliar a posição do governo com avaliações internas de inteligência que indicavam a ausência de risco imediato por parte de Teerã. Na prática, a fala transfere ao presidente a prerrogativa de interpretar ameaças à segurança nacional, tradicionalmente atribuída à comunidade de inteligência. (New York Times)

Democracia dos Estados Unidos despencou

Pedro Doria: “O relatório V-Dem 2025 traz um dado assustador: a democracia dos Estados Unidos despencou a uma velocidade nunca vista antes, ficando, pela primeira vez, abaixo da democracia brasileira. O que aconteceu com as instituições americanas?”. (Meio)

Saneamento básico

Mais da metade das 100 cidades brasileiras mais populosas investe menos de R$ 100 por pessoa anualmente em saneamento básico. É o que mostra um levantamento realizado com base nas informações mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), referentes a 2024. O valor investido por 51 desses municípios fica muito abaixo dos R$ 225 necessários para garantir acesso amplo à água tratada e coleta de esgoto até 2033. A média de coleta de esgoto entre os 20 municípios mais bem colocados chega a 98,08%, ante 28,06% entre os 20 piores. Já o tratamento chega a 77,97% no primeiro grupo e 28,36% no segundo. (g1)

 Efeito estufa

As emissões brutas de gases de efeito estufa caíram 16,7% no Brasil, a segunda maior redução da série histórica, iniciada em 1990, passando de 2,576 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente em 2023 para 2,145 bilhões de toneladas em 2024. Dados divulgados pelo Observatório do Clima mostram que as emissões líquidas, após descontar o carbono absorvido por vegetações e áreas protegidas, ficaram em 1,489 bilhão de toneladas de gás carbônico equivalente, queda de 22%. A melhora nos índices é associada à diminuição do desmatamento, principalmente na Amazônia e no Cerrado, ainda que o país continue entre os maiores emissores globais por desmatamento. (Um Só Planeta)

Fórmula 1

A nova temporada da Fórmula 1 está trazendo mudanças significativas nos carros, principalmente nos motores, que agora são elétricos e rodam com um “combustível sustentável avançado”. A nova gasolina da competição, também conhecida como e-fuel, é produzida com compostos sintéticos, resíduos urbanos e até restos de algas e florestas. Como a fórmula da gasolina é composta, basicamente, por carbono e hidrogênio, a ideia da versão artificial desse combustível é de separar o carbono do oxigênio e gerar hidrogênio a partir da eletrólise da água, dispensando o uso de petróleo. (UOL)

Breakfast

Por hoje é só. Este é o breakfast, o seu primeiro gole de notícias. Uma seleção com os temas de destaque da política em Rondônia e do Brasil.

(*) Roberto Kuppê é jornalista e articulista político,  com informações do Canal Meio

Contato: rk@ademocracia.com.br
Diretor: Roberto Kuppê

Coluna Zona Franca

Fazenda propõe R$ 3 bilhões aos estados para zerar ICMS do diesel

Governo sugere isenção na importação até maio com compensação de 50% aos estados para tentar ampliar oferta e evitar desabastecimento

O Ministério da Fazenda propôs aos estados zerar o ICMS sobre a importação de diesel por tempo limitado, com compensação federal de 50% das perdas de arrecadação. A medida, que teria custo estimado de R$ 3 bilhões para a União e igual valor para os estados, foi divulgada inicialmente pela Folha de S.Paulo.

A isenção valeria até 31 de maio e teria como foco ampliar a oferta do combustível no país diante de relatos de falta em alguns estados. A proposta foi apresentada pelo secretário-executivo da pasta, Dario Durigan, em reunião virtual com secretários estaduais de Fazenda nesta quarta-feira (18).

Segundo Durigan, o impacto mensal seria de cerca de R$ 1,5 bilhão para cada lado. Os estados pediram prazo para analisar os números, e o governo federal deve formalizar o plano antes da próxima reunião do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), marcada para 27 de março.

Atualmente, o ICMS sobre o diesel é de R$ 1,17 por litro. Pela proposta, os estados zerariam a alíquota na importação, enquanto a União compensaria metade da renúncia por meio de subvenção. “Os estados apurariam qual é a renúncia de cada estado (…) e a gente poderia fazer uma espécie de subvenção direta”, afirmou Durigan. “A proposta é essa, para cada R$ 1,00 que o estado contribua, que a União contribua com R$ 1,00 também”, acrescentou.

O secretário destacou que cerca de 27% do diesel consumido no Brasil é importado e defendeu que qualquer mudança deve ocorrer em acordo com os estados. “Está todo mundo muito ciente do momento delicado que a gente passa no país (…) e nós estamos fazendo o melhor possível”, disse.

Apesar disso, há resistência entre os estados. Técnicos apontam risco jurídico na diferenciação entre diesel importado e nacional, além de possíveis brechas para fraudes na classificação do produto.

Durigan negou que haja discussão para zerar o ICMS de toda a cadeia de combustíveis e criticou reações antecipadas à proposta. Ele também citou que a alta do petróleo pode elevar receitas estaduais via royalties.

Na mesma reunião, os estados se comprometeram a enviar à Receita Federal listas de devedores contumazes e aprovaram acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis para compartilhar, em tempo real, notas fiscais de combustíveis, reforçando a fiscalização do setor.

Do Brasil 247

Lindbergh denuncia “blindagem” a Flávio Bolsonaro e Campos Neto após decisão de Mendonça

Deputado afirma que restrição de acesso da CPMI do INSS ao celular de Vorcaro impede apuração e levanta suspeitas sobre nomes ligados ao Master

O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou nesta terça-feira (17) que há uma tentativa de impedir o avanço das investigações relacionadas à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS. Segundo ele, a decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu o acesso à chamada “sala-cofre” da comissão, levanta suspeitas de proteção a figuras políticas citadas no caso.

A declaração foi feita em publicação nas redes sociais e em vídeo divulgado pelo parlamentar. De acordo com Lindbergh, a medida ocorreu após a divulgação de informações pela jornalista Mônica Bergamo, indicando a presença do nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na lista de contatos de Daniel Bueno Vorcaro, investigado no caso.

Decisão do STF restringe acesso a dados da CPMI

A decisão de André Mendonça determinou o bloqueio imediato do acesso a todo o material armazenado na sala-cofre da CPMI do INSS relacionado a Vorcaro. O ministro também ordenou que a Polícia Federal retire os equipamentos do local para uma nova análise. Segundo o despacho, a medida busca preservar informações de caráter privado. O ministro afirmou que a Polícia Federal deverá realizar uma triagem para separar conteúdos pessoais de dados relevantes à investigação.

Lindbergh aponta contradições e cobra investigação

Lindbergh criticou a decisão e sugeriu que ela impede o esclarecimento dos fatos. “Estão tentando esconder a verdade! Bastou o nome de Flávio Bolsonaro aparecer nos contatos de Daniel Vorcaro e pronto: proibiram o acesso à sala-cofre da CPMI do INSS. Coincidência? Difícil acreditar”, afirmou.

O deputado também mencionou outros nomes que, segundo ele, aparecem nos registros analisados. “Roberto Campos Neto, peça central desse esquema, também surge na lista”, declarou.

No vídeo divulgado, Lindbergh reforçou as críticas à restrição de acesso e detalhou o conteúdo armazenado. “A sala-cofre é uma sala onde ficam documentos ligados à CPMI do INSS. E lá está o telefone, a nuvem do Daniel Vorcaro”, disse.

Ele também questionou declarações do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), citando supostas inconsistências. “O jornalista pegou ele e disse: ‘e aí? Você falou com o Vorcaro? Já falou alguma vez com o Vorcaro?’. Ele disse: ‘não, nunca falei com o Vorcaro’. Aí muda de opinião: ‘mas eu posso ter falado, porque temos um amigo em comum, o André Valadão’”, relatou.

Medida envolve retirada de equipamentos pela Polícia Federal

A decisão do STF prevê que a Polícia Federal recolha os dispositivos armazenados na sala-cofre em cooperação com a presidência da CPMI. O objetivo é realizar uma nova análise dos dados, com foco na separação de informações pessoais.

Segundo Mendonça, a iniciativa busca garantir que conteúdos “exclusivamente à vida privada do citado investigado não sejam compartilhados com a referida Comissão Parlamentar”.

Lindbergh, por sua vez, classificou a situação como uma tentativa de obstrução. “Eles estão atrás de uma ‘operação abafa’, e nós queremos uma apuração de tudo, porque a gente sabe onde é que isso vai cair”, afirmou.

O parlamentar também rebateu críticas sobre a atuação do PT na criação da comissão. “O PT assinou, sim, pedido de investigação. O que não assinamos foi a CPMI do PL feita para confundir e proteger”, declarou.

Do Brasil 247

Supremo condena deputados do PL por corrupção passiva

A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou nesta terça-feira (17) dois deputados federais e um suplente do PL pelo crime de corrupção passiva.Por 4 votos a 0, o colegiado formou placar unânime para aceitar a acusação da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra os deputados Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA), além do suplente Bosco Costa (PL-SE), por cobrança de propina para a liberação de emendas parlamentares.

Conforme a acusação, entre janeiro e agosto de 2020, os deputados solicitaram vantagem indevida de R$ 1,6 milhão para liberação de R$ 6,6 milhões em emendas para o município de São José de Ribamar (MA).

O voto do relator, ministro Cristiano Zanin, prevaleceu no julgamento. Zanin disse que há provas robustas de que os acusados cometeram crime de corrupção passiva ao solicitarem o pagamento de propina ao então prefeito do município José Eudes, que denunciou o caso.

O entendimento foi seguido pelos ministros Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Flávio Dino.

O colegiado também decidiu absolver os réus da acusação de organização criminosa.

A sessão de julgamento prossegue para a definição das penas dos condenados.

Livro de escritor brasileiro previu guerra de EUA e Israel contra o Irã?Obra de 2011 intriga leitores com profecias cumpridas

Anos depois de seu lançamento, o romance “O Pomo de Ouro”, do poeta e escritor Augusto Branco, volta a chamar a atenção de leitores e curiosos. A razão? Mais um de seus enigmáticos textos parece ter encontrado eco na realidade, desta vez no tenso cenário geopolítico do Oriente Médio.

Não é de hoje que a linha entre a ficção e a realidade se mostra tênue na obra de Augusto Branco. Publicado originalmente em 2011, O Pomo de Ouro é um thriller que mistura sociedades secretas, teorias da conspiração sobre o September 11 attacks e uma busca por um objeto místico do qual dependeria o futuro da humanidade.

Mas o que verdadeiramente intriga seus leitores, ano após ano, é a série de profecias descritas em seus capítulos que, segundo eles, vêm se materializando no noticiário global.

A mais recente profecia a ganhar destaque nas discussões online é a sétima, que teria previsto o conflito envolvendo Israel, United States e Iran. No capítulo intitulado “Chi Csi Stigma”, os protagonistas Eva e Henrique se deparam com versos ditados por uma entidade espiritual:

“Jacob voará com a Águia contra o Leão
para aniquilá-lo, mas o Dragão acolherá o
Leão sob suas asas e Jacob, com a Águia,
se afastará. Antes, porém, muita dor,
sangue e lágrimas”

A princípio, a mensagem cifrada poderia passar despercebida. No entanto, é no capítulo “A Sétima Profecia” que os próprios personagens oferecem a chave para a interpretação, ligando os símbolos a atores geopolíticos reais:

“A sétima profecia diz que Jacob voará com a Águia contra o Leão, mas o Dragão acolherá o Leão, e Jacob com a Águia se afastará. Mas antes de se afastarem haverá muito sangue e lágrimas. Jacob só pode ser Israel que tem o apoio dos Estados Unidos, que é a Águia. O Dragão só pode ser a China, que está pedindo o cessar fogo contra o Irã, que tem o Leão como símbolo!”

Para os leitores que acompanham a tensão no Oriente Médio, a interpretação soa familiar. O “Leão” (Irã) e “Jacob” (Israel) estão em rota de colisão, com a “Águia” (EUA) como aliada de Israel, enquanto o “Dragão” (China) atua nos bastidores da diplomacia internacional, pedindo moderação e um cessar-fogo. A descrição de “muita dor, sangue e lágrimas” antes de um possível recuo ressoa com a escalada de violência que domina as manchetes.

Um histórico de previsões polêmicas

Não é a primeira vez que Augusto Branco, que também é colunista de jornais, tem seus escritos revisitados como “profecias cumpridas”. Antes mesmo da publicação do livro, o autor já havia surpreendido seus leitores com previsões sobre o cenário político brasileiro.

Em uma coluna publicada no jornal Diário da Amazônia e no site Pensador, Branco escreveu, antes da primeira eleição de Dilma Rousseff, o seguinte enigma:

A Estrela Vermelha será louvada pelo povo
E a sacerdotisa que traz o molusco em seu brasão receberá a faixa

Mas subitamente o Sol nascente ofuscará a luz da Estrela
e o que virá em seguida será o poder de temer

Anos depois, o próprio autor decifrou o enigma em suas redes sociais, conectando os símbolos aos acontecimentos políticos. Segundo ele, a “Estrela Vermelha” era o Partido dos Trabalhadores, a “sacerdotisa” era Dilma Rousseff, o “molusco” uma referência a Luiz Inácio Lula da Silva, o “Sol nascente” ao Movimento Democrático Brasileiro (que já utilizou o símbolo em sua logomarca) e o verbo “temer” uma clara alusão a Michel Temer, que assumiu a presidência após o processo de impeachment (o Sol ofuscando a luz da Estrela).

Augusto Branco

Afinal, ficção ou realidade?

O Pomo de Ouro é, em sua essência, um romance de aventura. A trama acompanha Henrique, um Mestre Maçom que se isolou do mundo após descobrir informações perturbadoras sobre os atentados de September 11 attacks. Sua rotina de reclusão é quebrada quando a amiga Eva Cristina pede sua ajuda para decifrar um código deixado por seu pai, um arqueólogo falecido.

Juntos, eles embarcam em uma jornada para encontrar e devolver o lendário “pomo de ouro”, um objeto do qual dependeria o destino da humanidade.

Realidade ou ficção, a obra de Augusto Branco cumpre seu papel de provocar e se consolida como uma leitura obrigatória para os amantes de mistérios, conspirações e narrativas que desafiam a fronteira entre a imaginação e a realidade.

Para os interessados em tirar suas próprias conclusões, o livro está disponível para aquisição através da plataforma Clube de Autores.

https://clubedeautores.com.br/livro/o-pomo-de-ouro-2

O mercado só visa lucro!

0

@viniciocarrilhomartinez

O título é óbvio demais, é a obviedade ululante de Nelson Rodrigues. Por isso vou gastar pouquíssima tinta com esse caso.

Fiquei tentando a explicar por meio de uma analogia, que seria dita por algum professor maldoso que já tive. Ele(s) diria(m) assim: “todo ser vivo come, e faz cocô!”. Sim, teria uma exclamação e, por si, te levaria a pensar no quanto você foi esperto.

Pois bem, vamos dar um crédito a quem formulou essa “crítica”, sem a acidez de algum dos meus antigos professores.

Nesse caso, a sentença viria acompanhada de uma conclusão: “O mercado só visa lucro, por isso, a privatização de serviços essenciais não traz benefícios à população”.

Desde aquelas aulas ácidas que tive, e depois estudando bastante, eu concordo com tudo. Primeiro, “o mercado só visa lucro” (sic) porque estamos sob as regras do capitalismo e o mercado é o seu Deus; então, pela lógica, o mercado não visa o prejuízo” – a não ser que seja o prejuízo do patrimônio público, em vias de privatização.

Neste caso, em segundo lugar, é preciso dizer que nem todo serviço público atende à população. O SUS é um exemplo magnífico de prestação de serviços sociais na saúde pública. O SUS é o oposto da saúde privatizada nos EUA e que, sem planos de saúde, põe mais de 50 milhões de pessoas em estado catastrófico, à beira da rua ou da morte. Então, também concordo com a sentença completa: “O marcado só visa lucro, a privatização não é boa”.

Porém, reforço a ideia de que nem todo serviço público presta atenção nas pessoas pobres e que mais necessitam. Diria até que algumas entidades são criadas pelo Poder Público apenas para empregar os parças ou simplesmente desviar, drenar, dinheiro público. Há muitas com esse perfil.

Em todo caso, desde muito jovem fui obrigado – pela lógica e condição cognitiva – a crer, ver (= com teoria) o mercado destruindo ou privatizando o Estado – a indústria de pedágios em São Paulo conta bem essa história –, além de muitas outras vezes em que o mercado fagocitou o aparato público.

A quintessência capitalista é a obtenção de lucro e se faz isso com a exploração da força de trabalho, com a extração de mais valia, combinando-se com o desregulado comércio consumista e a consequente degradação ambiental. A fórmula econômica mágica é D-M-D’ (Marx no Capital). Hoje os nossos dados digitais também são vendidos.

Enfim, o que se apresenta como crítica severa, aguda, altamente chamativa de nossa atenção (“O mercado só visa lucro”), não passa da descoberta de uma criança de cinco anos.

 

 

 

 

 

“Lula está lidando bem com a crise do STF ao se distanciar do caso”, diz Rui Costa Pimenta

Ele afirma que postura do governo diante do escândalo envolvendo o STF é correta, mas alerta para o desgaste político da associação entre PT e Judiciário

O presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está adotando a estratégia correta ao se distanciar do escândalo envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Banco Master, mas alertou que o desgaste político acumulado pela proximidade entre o governo e o Judiciário pode dificultar a dissociação completa entre os dois. A avaliação foi feita em entrevista à TV 247 nesta sexta-feira (13), durante debate sobre o impacto político da crise institucional no cenário eleitoral brasileiro.

Segundo Rui Costa Pimenta, o governo Lula tem adotado a postura adequada ao defender que as denúncias sejam investigadas e evitar uma defesa automática do Supremo. “Eu acho que ele está lidando da melhor maneira possível. Eu vi as declarações inclusive do Edinho tomando distância do escândalo, propondo que o escândalo seja investigado”, afirmou.

Apesar disso, ele ponderou que o problema pode ir além da simples gestão da crise. Para o dirigente do PCO, o histórico recente de apoio político ao STF por parte do governo e do PT cria dificuldades para separar as duas esferas diante da opinião pública.

“Não sei se, nessa altura dos acontecimentos, isso é só um problema de administração da crise, porque é difícil dissociar o governo Lula do STF”, disse.

Associação política pode gerar desgaste

Na análise de Rui Costa Pimenta, durante os últimos anos o governo e setores do PT defenderam o Supremo como uma instituição central para a defesa da democracia, o que agora torna mais difícil evitar que o desgaste do Judiciário respingue também no governo.

“Nós temos três anos em que o governo Lula apoiou o STF em tudo que o STF fez. O PT elogiava o STF como grande baluarte da democracia”, afirmou.

Ele acrescentou que decisões controversas do tribunal também contribuíram para o desgaste institucional, citando, por exemplo, críticas à condução de processos relacionados aos atos de 8 de janeiro.

Segundo ele, esse conjunto de fatores dificulta que o governo consiga se desvincular completamente da crise.

“Mesmo com toda a negativa do governo, vai ser difícil dissociar o governo Lula do STF”, avaliou.

Escândalo do Banco Master amplia crise

Durante a entrevista, Rui Costa Pimenta também comentou o impacto político do escândalo envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro, cuja prisão foi mantida pelo Supremo.

Para ele, o caso tende a crescer e atingir setores cada vez mais amplos da política e das instituições brasileiras.

“O caso Vorcaro vai se ampliando como uma mancha de óleo. Ele não para de crescer”, afirmou.

Na avaliação do dirigente do PCO, uma eventual delação premiada poderia ampliar ainda mais o escândalo e provocar uma crise institucional de grandes proporções.

“Se houver delação premiada, isso pode levar o escândalo a proporções inauditas. É um grande escândalo nacional que compromete as instituições”, disse.

Impacto eleitoral preocupa governo

O debate também abordou o impacto eleitoral da crise institucional. Pesquisas recentes indicam aumento da rejeição ao Judiciário e um cenário mais equilibrado nas projeções eleitorais para 2026.

Segundo Rui Costa Pimenta, a deterioração da imagem das instituições pode favorecer forças políticas de oposição que se apresentam como antissistema.

Ele citou o crescimento da direita em diversos países e afirmou que esse fenômeno também se reflete no Brasil.

“O problema é que o PT aparece como um partido do sistema, enquanto a direita tenta ocupar o espaço de crítica ao sistema político”, afirmou.

Na avaliação dele, esse cenário exige uma redefinição estratégica do campo progressista caso queira enfrentar o avanço da direita.

PT precisaria adotar posição mais combativa

Para Rui Costa Pimenta, uma das alternativas para o campo progressista seria assumir uma postura mais combativa em relação à agenda econômica e social.

Ele defendeu que o PT deveria se apresentar com propostas mais claramente voltadas à ampliação de direitos sociais e trabalhistas.

“Se o PT quiser ganhar a eleição, ele precisa aparecer como um partido mais à esquerda e antissistema”, afirmou.

Entre os pontos mencionados por ele estão a rejeição a reformas trabalhistas e previdenciárias e a defesa de políticas voltadas à ampliação dos direitos dos trabalhadores.

“Ele teria que confrontar diretamente esse programa liberal que está sendo apresentado pela direita”, disse.

Polarização política deve se intensificar

Ao final da entrevista, Rui Costa Pimenta avaliou que o ambiente político brasileiro tende a permanecer marcado por forte polarização nos próximos anos.

Segundo ele, a crise de confiança nas instituições e os escândalos políticos recorrentes alimentam a disputa entre forças políticas que tentam se apresentar como alternativas ao sistema.

“A democracia e as instituições estão muito desgastadas. Isso abre espaço para esse tipo de disputa política”, afirmou.

Apesar das dificuldades, ele reiterou que a postura atual do governo Lula diante da crise do STF é, neste momento, a mais prudente.

“O governo fez o certo ao se distanciar e defender a investigação. Defender o STF neste momento seria um verdadeiro suicídio político”, concluiu.

Do Brasil 247

A evidente psicopatia dos Bolsonaros nos pulinhos de júbilo de Flávio com o pai na UTI

No último sábado (14), Flávio Bolsonaro foi flagrado durante um evento político em Ji-Paraná, Rondônia, pulando e sorrindo em júbilo, atitude reveladora de seu caráter, considerando a gravidade do estado de saúde de seu pai, Jair Bolsonaro, internado na UTI do hospital DF Star, em Brasília.

Enquanto o ex-presidente passa por uma broncopneumonia bacteriana bilateral, com um quadro exigindo cuidados intensivos e acompanhamento médico rigoroso, o comportamento do filho se mostra, no mínimo, indigno.

Durante o evento, promovido pelo PL, Flávio Bolsonaro demonstrava entusiasmo incontido, sorrindo enlouquecidamente. O comportamento do senador e presidenciável repete a falta de empatia e decência que o próprio Jair exibiu no momento em que milhares de brasileiros morriam durante a pandemia de Covid-19.

O 04, Renan Bolsonaro também não está nem aí com o moribundo pai. O vereador está neste momento nos Estados Unidos com o irmão Eduardo Bolsonaro.

Em sua defesa, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais, justificando sua presença no evento como um compromisso político. E daí?

Ele afirmou que, após o evento, foi diretamente ao hospital em Brasília para visitar o velho e dar-lhe boas notícias sobre o lançamento da chapa de pré-candidatos em Rondônia.

Jair Bolsonaro apresentou melhora em sua função renal, mas teve piora nos indicadores inflamatórios e precisou ampliar a cobertura de antibióticos.

Carlos Bolsonaro, irmão de Flávio, se manifestou em defesa do irmão, alegando que o comportamento de Flávio é uma forma de honrar os pedidos de seu pai e manter o ânimo durante um momento difícil.

Na verdade, eles se odeiam e disputam o legado do morto-vivo. De um lado os três irmãos, do outro Michelle com Nikolas Ferreira, parte do Centrão o que restou de Tarcísio de Freitas.

A ex-primeira-dama joga pesado também. Divulgou um vídeo em que uma influenciadora bolsonarista acusa jornalistas de “desejarem” a morte do marido. Os repórteres estavam do lado de fora do hospital para acompanhar as atualizações sobre o estado de saúde do ex-mandatário.

O vídeo, que não mostra os supostos comentários feitos pelos jornalistas, é acompanhado de uma legenda que afirma: “jornalistas reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”. No registro, a influenciadora grita com os repórteres e filma o crachá de uma assessora do hospital, acusando os profissionais de imprensa de “falta de vergonha”.

Dois jornalistas registraram boletins de ocorrência por intimidação. Um deles, que teve seu filho ameaçado, decidiu fechar suas redes sociais. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) se manifestou publicamente, repudiando “veementemente as ameaças, a difamação e a exposição violenta de jornalistas e seus familiares” após a divulgação do vídeo, classificando-o como “irresponsável”.

DCM

VÍDEO Primeira agenda de Flávio Bolsonaro repercutiu mal: dancinha inoportuna

Flávio pula e dança em palanque enquanto Bolsonaro segue internado na UTI

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, participou na tarde deste sábado (14) de um evento partidário em Ji-Paraná (RO), onde celebrou com dancinha “Noiadance”, cujo nome remete à viciados em drogas (noias), a pré-candidatura de Marcos Rogério (PL-RO) ao governo de Rondônia, enquanto seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, permanece internado em estado grave na UTI do Hospital DF Star, em Brasília. Flávio foi visto festejando com apoiadores e expressou confiança no futuro político do grupo.

Durante a cerimônia, que marcou o lançamento da pré-campanha de Marcos Rogério, Flávio destacou que o principal objetivo do evento era fortalecer o partido no estado e apresentar um “caminho diferente” para o Brasil. “Estamos aqui para resgatar o país das mãos sujas do PT”, declarou. O senador também afirmou que o encontro teve como foco filiações e o lançamento de pré-candidaturas, incluindo nomes ao Senado como Fernando Máximo (União Brasil-RO) e Bruno Scheid.

Flávio também comentou sobre a situação de saúde de seu pai, que segue na UTI tratando complicações de um quadro respiratório. O ex-presidente apresentou piora no quadro renal, com uma sobrecarga nos rins e possíveis indícios de insuficiência renal, mas seu estado continua estável. O senador, no entanto, reiterou a resistência do ex-presidente, mencionando que ele sempre teve uma saúde robusta. “Ele sempre teve uma saúde de ferro, por isso ele consegue atravessar essas dificuldades”, declarou Flávio.

 

O evento em Ji-Paraná faz parte do giro de Flávio pelo Brasil, com o objetivo de formar alianças políticas para as eleições de 2026. Ele enfatizou que a mobilização tem como foco construir uma chapa “com mais robustez e musculatura”, principalmente no âmbito estadual e senatorial. O PL, ao longo de sua mobilização, procura consolidar uma base forte para a eleição de governadores e senadores alinhados ao seu grupo político.

A declaração de Flávio sobre o estado de saúde de seu pai gerou reações mistas nas redes sociais. Enquanto parte dos apoiadores do senador exalta o comprometimento político do pré-candidato, outros questionam a situação da saúde de Bolsonaro e a aparente desconexão entre o quadro crítico de saúde do ex-presidente e a celebração do filho em eventos públicos. A divulgação do quadro de saúde de Bolsonaro pela equipe médica, no entanto, reflete a seriedade do momento, com os médicos monitorando sua recuperação.

 

DCM

Líbano denuncia Israel por usar glifosato como arma, e Trump declara agrotóxico como ‘essencial para segurança nacional’

0

O governo do Líbano anunciou que vai apresentar uma queixa na Organização das Nações Unidas (ONU) contra Israel por causa do uso de substâncias químicas em vilarejos fronteiriços. O ataque ocorreu no dia 1º de fevereiro de 2026 e atingiu comunidades rurais. Exames de laboratório feitos em amostras de solo e água revelaram que os níveis de glifosato na região estão entre 20 e 30 vezes acima do que é permitido pelas normas internacionais.

O glifosato é um herbicida que pode causar câncer e danos graves ao meio ambiente. Especialistas afirmam que o uso desse produto em áreas de conflito serve para criar uma “zona tampão” no sul do Líbano. O objetivo seria destruir plantações e matas para facilitar a vigilância militar e afastar o grupo Hezbollah. As autoridades libanesas chamam a ação de “ecocídio”, pois ela acaba com a fertilidade da terra e com a biodiversidade local.

Esse uso de substâncias químicas altamente tóxicas pelo regime israelense não é novo. Silvia Ribeiro, pesquisadora da Alianza Biodiversidad, lembra que a organização Anistia Internacional documentou o uso de fósforo pelas forças israelenses em 2023 nesta mesma região do sul do Líbano. E relaciona essa prática a uma recente ordem executiva do governo dos Estados Unidos, assinada no dia 20 de fevereiro de 2026 pelo presidente Donald Trump, que define o glifosato e o fósforo como material essencial para a segurança nacional.

A nova regra permite que agências estadunidenses ignorem burocracias para garantir a produção e o fornecimento do veneno. O governo alega que o agronegócio depende do produto para manter a produtividade.

A ordem executiva classifica o fósforo elementar e os herbicidas à base de glifosato como materiais essenciais para a segurança nacional dos Estados Unidos. Embora o decreto esteja justificado pela “necessidade de garantir a estabilidade da cadeia de suprimentos de alimentos e a produtividade agrícola do país”, movimentos populares denunciam que a real motivação é a manutenção do maquinário de guerra e o uso dessas substâncias como arma química, violando tratados internacionais sobre o tema.

“O fósforo é usado em parte para o glifosato, mas também é fornecido a duas companhias diretamente bélicas que o utilizam como fósforo branco para fazer munições”, diz Ribeiro. “Com a ordem executiva, Trump garante que se fabriquem as duas substâncias necessárias tanto para fazer glifosato quanto para o uso na guerra”, completa.

“O uso de fósforo branco no Líbano também já foi denunciado por várias organizações internacionais ou comunitárias, entre elas a Anistia Internacional, além do glifosato. Esse uso de tipo bélico está proibido pela convenção sobre o uso de certas armas convencionais”, pontua Ribeiro.

Por sua vez, o ativista alemão, integrante da ONG Coalizão contra os Perigos da Bayer, Jan Pehrke, avalia que, embora o governo dos EUA tenha justificado a “essencialidade” do glifosato com base na “necessidade de garantir a estabilidade da cadeia de abastecimento alimentar e a produtividade agrícola do país”, não há dúvidas quanto ao interesse em incorporar essas substâncias ao arsenal militar do país.

“Atualmente, o glifosato está sendo usado pelo Exército israelense no sul do Líbano para destruir terras agrícolas. O fósforo, base do glifosato, também está sendo usado neste contexto. Não foi à toa que Donald Trump descreveu o fósforo em sua ordem executiva como essencial para a ‘prontidão militar e defesa nacional’. De acordo com o Monitor de Direitos Humanos Euro-Mediterrâneo, 9 mil  hectares de terras agrícolas foram tornados inutilizáveis através de pesticidas ou seus componentes”, relata Pehrke.

Outro aspecto destacado pela pesquisadora Sílvia Ribeiro é a relação econômica de Donald Trump  com a principal empresa produtora das duas substâncias que foram objeto da ordem executiva.

“Por um lado, esta ordem tem relação com garantir os lucros da Bayer, limitando a responsabilidade que a empresa tem pelos processos judiciais nos Estados Unidos e dando-lhe total impunidade para fabricar e vender o produto. É também uma mensagem para todo o continente latino americano de que não podem restringir esta substância, que é um dos principais negócios de lucro da Bayer e de outras empresas. Neste caso, a Bayer é a beneficiada direta e vários estudos e artigos nos Estados Unidos mostraram que o lobby da Bayer levou a esta ordem”, pontua Ribeiro.

Nada novo no front

A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida emitiu nota após a revelação do caso, em que condena os ataques químicos, e compara a situação ao uso do famoso “agente laranja”, substância química empregada pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã.

“O ‘agente laranja’ da vez é o glifosato, agrotóxico amplamente utilizado nas lavouras brasileiras e classificado como ‘potencialmente causador de câncer’ pela Agência Internacional para a Pesquisa do Câncer (Iarc), órgão ligado à Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 2015”, denunciou a campanha.

Sílvia Ribeiro aponta que o desenvolvimento dos agrotóxicos guardou sempre uma relação estreita com a indústria da guerra. “Muitos agrotóxicos têm uma origem bélica, ou seja, basicamente foram usados em conflitos armados e guerras para usos hostis e depois se baixou a dose para usá-los na agricultura”, lembra a pesquisadora. “O que está acontecendo é que esta relação entre os agrotóxicos e seu uso em sentido militar não é nova. Sempre houve uma relação estreita”, avalia Ribeiro.

Na mesma linha, Jan Pehrke rememora episódios históricos em que potências militares fizeram amplo uso de substâncias químicas para enfrentar seus inimigos.

“As forças armadas britânicas desenvolveram a estratégia em 1940 ao utilizar herbicidas e outros pesticidas como armas químicas. No início da década de 1950, testaram este conceito de ‘guerra herbicida’ na luta contra o movimento de libertação da Malásia. Mas foi na Guerra do Vietnã que o potencial destrutivo total desta prática militar se tornou aparente. Os Estados Unidos pulverizaram 80 milhões de litros de venenos agrícolas sobre o país. O Exército utilizou-os para desfolhar as selvas a fim de detectar os Viet Congs escondidos mais facilmente, e também utilizou os produtos químicos para destruir as plantações do inimigo”, lembra o ativista, apontando esse último episódio histórico como o principal motivador da regulação internacional sobre o uso dessas substâncias tóxicas.

“A ‘guerra herbicida’ no Vietnã levou à inclusão na Convenção sobre as Armas Químicas de um ‘Critério de Propósito Geral’, segundo o qual qualquer produto químico pode ser considerado uma arma química se for usado contra civis”, pontua Pehrke.

Glifosato é o mais consumido no Brasil

O glifosato é o agrotóxico mais utilizado nas lavouras brasileiras, sobretudo de milho e soja, respondendo por cerca de 33% do total de venenos no país em 2023. Em dezembro de 2025, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos, em ação conjunta com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), protocolou um ofício dirigido à Agência Nacional de Vigiliância Sanitária (Anvisa) solicitando a reavaliação imediata e suspensão do uso de glifosato no Brasil.

O argumento das entidades para o pedido foi a despublicação de um artigo pela revista Regulatory Toxicology and Pharmacology, utilizado pelas autoridades como referência para a liberação desse veneno no Brasil. A retratação do editorial científico veio após a imprensa britânica revelar a interferência direta de empresas farmacêuticas na elaboração do artigo, que minimizava os efeitos desse veneno.

“A revista reconheceu que este artigo teve ‘significativa influência em decisões regulatórias’. No Brasil, ele subsidiou o parecer técnico contratado pela Anvisa em 2016 e a Nota Técnica nº 12/2020, que culminaram na Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 441, de 2 de dezembro de 2020, estabelecendo a manutenção do glifosato sem alteração na monografia do ingrediente ativo em relação ao seu potencial cancerígeno”, destacaram as entidades, em nota.

Sílvia Ribeiro lembra que em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou a classificação do glifosato, apontando a substância como provável cancerígeno em humanos e animais. “A partir disso, surgiram muitos outros documentos posteriores que mostram a alta toxicidade do glifosato, tanto como cancerígeno quanto como disruptor neurológico e hormonal que afeta outros órgãos”, explica.

Para a pesquisadora, já passou da hora de essa substância ser banida não só no Brasil. “Em todas as partes do mundo se deve proibir o glifosato porque é o agrotóxico usado para matar ervas mais difundido em nível global. Isto afeta não somente onde se usa nas plantas, mas também todos os cursos de água, a fauna, os microrganismos benéficos e, sobretudo, a saúde de toda a população. No Brasil, se comprovou a presença de resíduos de glifosato até no leite materno, em crianças e nas escolas, principalmente nas zonas de uso intensivo, mas também nas cidades. Com esse nível imenso de uso de glifosato, o Brasil deveria deixar de usá-lo, assim como o 2,4-D e outros que possuem toxicidades diferentes, e que são usados como armas de guerra contra a natureza, contra os cultivos e contra as pessoas”, defende Ribeiro.

Brasil de Fato

Declaração de Trump sobre fim da guerra contra o Irã derruba preços do petróleo

O valor do combustível volta a se aproximar de US$ 90 em meio à volatilidade causada pela guerra no Oriente Médio

Os preços do petróleo no mercado internacional recuaram e voltaram a se aproximar do patamar de US$ 90 por barril, em meio à reação dos investidores às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o conflito envolvendo o Irã. O movimento ocorre em um cenário de grande volatilidade no setor de energia, marcado pela intensificação da guerra no Oriente Médio e pelas incertezas sobre a duração das hostilidades.

De acordo com informações divulgadas pelo Financial Times, os mercados reagiram após Trump afirmar que a guerra com o Irã estaria “very complete” (“muito completa”, em tradução livre). A declaração contribuiu para reduzir parte da pressão sobre os preços do petróleo, que vinham registrando fortes altas nos últimos dias devido ao receio de interrupções no abastecimento global.

Dados recentes mostram que o barril do petróleo Brent, referência no mercado internacional, passou a ser negociado abaixo de US$ 90 após ter alcançado níveis mais elevados durante o agravamento do conflito. A oscilação reflete o temor de que os confrontos possam afetar tanto a produção quanto o transporte de energia na região do Golfo, responsável por uma parcela relevante da oferta mundial.

Conflito pressiona mercados de energia

A guerra envolvendo o Irã e seus adversários tem provocado fortes flutuações nos mercados energéticos. Nos últimos dias, o petróleo registrou uma das maiores valorizações semanais em décadas, impulsionado principalmente pelo receio de que o fluxo da commodity pelo Estreito de Ormuz seja interrompido. A passagem marítima é estratégica para o comércio global, já que cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo transita por essa rota.

A tensão geopolítica também afeta o mercado de gás natural e outras cadeias ligadas ao setor energético. Especialistas e autoridades internacionais alertam que eventuais ataques a infraestruturas energéticas ou dificuldades no transporte marítimo podem provocar um choque de oferta, com reflexos diretos sobre inflação, preços de combustíveis e desempenho econômico em diversas regiões do planeta.

Analistas do setor destacam que, apesar da recente retração, os valores do petróleo continuam elevados quando comparados a períodos anteriores e podem voltar a subir caso o conflito se prolongue ou atinja instalações estratégicas.

Temor de impacto global

A instabilidade no Oriente Médio também tem levado grandes economias a discutir possíveis medidas para reduzir os efeitos da crise no mercado energético. Países do G7 sinalizaram a possibilidade de liberar parte de suas reservas estratégicas de petróleo como forma de aliviar a pressão sobre os preços e evitar uma crise mais ampla de abastecimento.

Mesmo diante dessas iniciativas, economistas e analistas alertam que uma guerra prolongada na região pode gerar consequências econômicas relevantes, como aumento da inflação global, encarecimento dos custos de transporte e novas pressões sobre as cadeias produtivas.

Enquanto isso, investidores permanecem atentos a qualquer sinal de agravamento do conflito ou de avanço em negociações diplomáticas, fatores que seguem influenciando as oscilações no mercado internacional de energia.

Do Brasil 247

Quando dizer não pode custar a vida: quatro mulheres por dia

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Tainá Reis – Doutora em Sociologia

Vinício Carrilho Martinez – Doutor em Ciências Sociais

Todos os dias no Brasil quatro mulheres são mortas simplesmente por serem mulheres – inclusive hoje, no Dia Internacional da Mulher. O país registrou em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 1.568 feminicídios – o maior número desde que o crime passou a ser tipificado no Código Penal, em 2015.

Diariamente nos noticiários aparecem casos de misoginia, assédio sexual, violência doméstica e feminicídio. Matérias sobre feminicídio se tornam banais, apresentadas entre a parte meteorológica e a de esportes do jornal. Mas para quem vive neste país como mulher, os crimes hediondos não são apenas estatísticas: são um lembrete constante de que a violência está perto, porque o motivo da violência é ser quem se é, uma mulher. Não se trata de um acidente raro, um acaso que tem acontecido repetidamente, pois, é parte de uma estrutura que continua operando.

Essa estrutura também aparece nos gestos cotidianos, nas piadas, nos vídeos que circulam nas redes sociais. Vamos falar sobre uma trend recente: homens simulam nos vídeos um pedido de namoro ou casamento, ajoelham-se com um olhar aparentemente apaixonado; em seguida, encenam a reação caso recebessem um “não” ao pedido, teatralizam agressões (socos, chutes, facadas ou pauladas imaginárias são representadas como resposta à recusa feminina). Esses vídeos circulam nas redes sociais como algo normal, como brincadeira e contam com milhões de visualizações[1]. Aqui há declaração óbvia de incitação ao crime e que, como é o fato em si, também é crime.

As imagens são difíceis de assistir sem produzir um misto de asco, nojo, indignação e cansaço. Isso que alguns chamam de brincadeira revela a persistência da ideia de que a vontade masculina deve se sobrepor à autonomia das mulheres. A recusa feminina é transformada em motivo de violência. Esse tipo de conteúdo está apoiado em uma cultura muito mais antiga, que tem ensinado há séculos que homens e mulheres estão em lugares sociais diferentes e tem direitos diferentes.

Desde cedo, meninos e meninas são socializados em uma lógica que naturaliza a autoridade masculina e associa as mulheres a posições de subordinação. Esse arranjo social tem sido denominado de patriarcado — um sistema no qual os homens concentram poder político, moral e simbólico, enquanto as mulheres são associadas a papéis considerados secundários ou inferiores. Esse sistema não se sustenta apenas por normas ou expectativas sociais, mantém-se também pela violência, como afirmado por autoras como Silvia Federici (2017) e Heleieth Saffioti (1995).

Então, podemos entender que a violência de gênero não é resultado de comportamentos individuais desviantes, mas de relações sociais de dominação e poder. O agressor é um indivíduo, mas a lógica que legitima a violência é coletiva, é aprendida, reproduzida e naturalizada. A lógica da misoginia é exatamente a mesma, não se trata de um sentimento individual de ódio às mulheres, mas de um sistema social que disciplina e pune aquelas que desafiam papéis tradicionais de gênero (aqueles que foram sendo ensinados aos meninos e meninas desde a infância). É uma das faces do dominus (um domínio total, como se dá na propriedade de algo).

A filósofa feminista Kate Manne (2017) afirma que mulheres que reivindicam participação política, independência financeira ou simplesmente autonomia se tornam alvo desse mecanismo de punição simbólica ou física. Isso pode ser confirmado nas investidas dos chamados red pills[2] contra figuras femininas de destaque; no tipo de perseguição sofrida por mulheres na política[3] (lembremos dos ataques misóginos dirigidos à ex-presidenta Dilma Rousseff durante o período do golpe); nos vídeos que satirizam agressões diante do “não” feminino; e, inclusive, nos altos números de feminicídio e de violência doméstica.

Ainda cabe ressaltar que a violência não atinge todas as mulheres de forma homogênea, é preciso atentar para a intersecção entre gênero, raça e classe. Mulheres negras, pobres ou pertencentes a minorias sexuais enfrentam níveis ainda mais intensos de violência e discriminação, conforme Angela Davis (2016) e Patrícia Hill Collins (2019). Essa realidade foi analisada de forma pioneira no Brasil pela intelectual e ativista Lélia González (2020).  Para a autora, a violência contra as mulheres negras deve ser compreendida conjuntamente com a história escravocrata do país.

Durante séculos, os corpos das mulheres negras foram concebidos como propriedade, submetidos à exploração econômica e sexual. Essa racionalidade escravista permanece na cultura brasileira, contribuindo para a naturalização de estereótipos e para a invisibilização do sofrimento dessas mulheres. É também uma explicação para o fato de mais da metade das vítimas de feminicídio serem mulheres negras (Brasil, 2026).

A partir dessa breve retomada sobre algumas reflexões de diferentes autoras feministas e dessa trajetória histórica do país, entende-se que o feminicídio não é apenas um problema contemporâneo. A violência contra as mulheres acompanha a própria formação social brasileira: esteve presente no período escravista, quando mulheres negras eram tratadas como objetos de trabalho e consumo sexual; passa pela lógica patriarcal do pater familias, em que a autoridade masculina (do pai ou do marido) estruturava a vida familiar e controlava a mulher branca; esteve na ação do próprio Estado, como nas torturas abomináveis especificamente cometidas contra mulheres durante a ditadura militar.

É preciso reconhecer que nos últimos anos, o Brasil avançou, no campo jurídico, no combate a essa estrutura, com a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. Essas conquistas são passos fundamentais no reconhecimento institucional da violência de gênero. Mas os números mostram que as leis não são suficientes – aliás, 13% das mulheres assassinadas em 2025 por feminicídio tinha medidas restritivas urgentes contra os agressores. Ou seja, é preciso mais do que leis para desmontar uma estrutura que se reproduz na cultura, nas relações sociais e nas instituições.

Se entendemos o feminicídio como cristalização de uma estrutura social patriarcal e misógina, a resposta a ele também deve ser estrutural. Mais do que medidas pontuais, o enfrentamento da violência contra as mulheres exige um compromisso político duradouro, com políticas públicas permanentes e coordenação institucional – exige, enfim, uma verdadeira Política de Estado. O fato de quatro mulheres serem assassinadas todos os dias neste país apenas por serem mulheres não é um problema de segurança pública, mas um retrato de relações de poder e hierarquias patriarcais que ainda estruturam a sociedade brasileira.

Referências

Brasil. Senado Federal. Procuradoria Especial da Mulher. Feminicídios crescem 4,7% em 2025; pequenas cidades têm maiores taxas. Brasília, 5 mar. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/institucional/procuradoria/noticias/feminicidios-crescem-4-7-em-2025-pequenas-cidades-tem-maiores-taxas. Acesso em: 8 mar. 2026.

Collins, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução: Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Boitempo, 2019.

Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

Federici, Silvia. Calibã e a bruxa. São Paulo: Elefante, 2017.

Gonzalez, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

Manne, Kate. Down Girl: The Logic of Misogyny. New York: Oxford University Press, 2017.

Saffiotti, Heleith. Violência de gênero. Poder e impotência. Rio de Janeiro: Revinter, 1995.

[1] Vale dizer que quando alguns vídeos foram denunciados, a Meta afirmou que eles não feriam os protocolos da empresa e por isso não seriam removidos da plataforma. Isso leva mais uma vez à discussão da necessidade de regulamentação da internet.

[2] Red pill é um termo que surge a partir do filme Matrix, uma referência a tomar a “pílula vermelha” como um despertar para uma verdade oculta. Na internet o termo tem sido usado por comunidades masculinas de caráter patriarcais, antifeministas e misóginos, que afirma ter “despertado” para a verdade sobre mulheres.

[3] Sobre violência política de gênero, consultar o documentário ELEITAS l Violência Política de Gênero, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ByyeSfF2SgA

Lindbergh pede que PGR investigue Campos Neto por “omissão dolosa” no caso Master

O deputado federal Lindbergh Farias afirmou que apresentará uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o ex-presidente do Banco Central do Brasil, Roberto Campos Neto, seja investigado por “omissão dolosa” no caso envolvendo o Banco Master. A manifestação foi feita após a terceira fase da Operação Compliance Zero, que resultou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo Lindbergh, as informações divulgadas indicam fatos “extremamente graves” relacionados à atuação do grupo investigado. Em publicação nas redes sociais, o parlamentar declarou: “A terceira fase da Operação Compliance Zero, que prendeu hoje o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, revelou fatos extremamente graves sobre a atuação da organização criminosa investigada. As mensagens encontradas no celular do banqueiro indicam a existência de uma espécie de milícia ultraviolenta organizada para intimidar e praticar violência contra jornalistas.”

Lindbergh relembrou que, à época da tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, em abril do ano passado, já havia solicitado providências formais. “À época da tentativa de compra do Banco Master pelo BRB, em abril do ano passado, já havíamos apresentado pedido de apuração à Comissão de Ética da Presidência da República diante de indícios de irregularidades na compra do Master pelo BRB em abril de 2025”, afirmou.

Com a revelação de novas mensagens extraídas do celular de Vorcaro, Lindbergh sustenta que há elementos adicionais a serem apurados. Ele mencionou o envolvimento de Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, apontados como chefe e adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central, que teriam mantido interlocução direta e frequente com o banqueiro. Para o deputado, o cenário “sugere subordinação da autarquia reguladora aos interesses do banco para favorecer as fraudes do Master”, o que, segundo ele, reforça “a necessidade de apurar o envolvimento pessoal de Roberto Campos Neto”.

Ao anunciar a medida, o parlamentar foi direto: “Por isso, estou apresentando uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República para investigar o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, por omissão dolosa na fiscalização bancária e os indícios de que norma editada durante sua gestão teria facilitado fraudes praticadas pelo Banco Master.”

Prisões e decisão do STF

A prisão de Daniel Vorcaro foi determinada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero. A decisão atendeu a pedido da Polícia Federal (PF). O magistrado assumiu a relatoria do caso em substituição a Dias Toffoli, que anteriormente havia decretado a prisão do banqueiro, mas depois a substituiu por medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica.

De acordo com as investigações, Vorcaro manteria uma estrutura voltada à vigilância e intimidação de pessoas consideradas contrárias aos interesses do grupo financeiro. Em decisão, Mendonça apontou a existência de um grupo denominado “A Turma”, descrito como “estrutura utilizada para realizar atividades de monitoramento e coleta de informações de interesse do grupo investigado, bem como pela prática de atos de coação e intimidação de pessoas”.

Entre os alvos das conversas reveladas está o jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo, que declarou ser o destinatário das mensagens mencionadas na decisão. Em diálogos transcritos, Vorcaro afirma: “Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele”, ao que o interlocutor responde: “Vou fazer isto.” Em outra troca, o banqueiro diz: “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, recebendo como resposta: “Pode? Vou olhar isso”, e confirmando em seguida: “Sim.”

Na decisão, Mendonça registrou: “A partir de todos esses diálogos verifica-se a presença de fortes indícios de que Vorcaro determinou a Mourão que forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para prejudicar violentamente o jornalista em questão e, a partir do episódio, calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados.”

As investigações apontam ainda para possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, fraude processual e obstrução de justiça. O Fundo Garantidor de Crédito estima que os ressarcimentos a clientes prejudicados possam ultrapassar R$ 50 bilhões.

Diante desse contexto, Lindbergh sustenta que as revelações exigem apuração também no âmbito das responsabilidades administrativas e institucionais, motivo pelo qual decidiu acionar formalmente a PGR para que investigue a atuação de Campos Neto à frente do Banco Central durante o período mencionado.

Do Brasil 247

Gleisi cobra explicações sobre voos de Nikolas com jato de Vorcaro: “este escândalo é todo de vocês”

Ministra ressalta que campanha de 2022 usou avião vinculado a Daniel Vorcaro sem declarar contribuição ao TSE

A ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, elevou o tom contra o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao comentar as revelações sobre o uso de um jato executivo ligado ao empresário Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master, durante a campanha presidencial de 2022.Em declaração no X, ela questionou a legalidade e a transparência das viagens realizadas em apoio a Jair Bolsonaro no segundo turno .

As críticas surgem após reportagem revelar que Nikolas Ferreira utilizou um Embraer 505 Phenom 300, aeronave vinculada à empresa Prime You — grupo que à época tinha Daniel Vorcaro em seu quadro societário — para cumprir agenda eleitoral da caravana “Juventude pelo Brasil”.

A mobilização percorreu ao menos nove estados e o Distrito Federal entre 20 e 28 de outubro de 2022, com foco em regiões onde Luiz Inácio Lula da Silva (PT) havia vencido no primeiro turno.

Em manifestação contundente, Gleisi declarou:  “Quer dizer então que o deputado Nikolas fez campanha para Bolsonaro em 2022 no avião de Daniel Vorcaro, do banco Master? E a campanha nem declarou essa ‘contribuição’ ao TSE… Foram dez dias voando pelo país nas asas do Master, junto com pastores da Igreja Lagoinha, a mesma do pastor Fernando Zettel, cunhado e sócio de Vorcaro, que foi o maior doador individual das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio. E esse pessoal ainda tem o cinismo de querer jogar no colo dos outros esse escândalo financeiro. Quem fechou os olhos para as falcatruas no Master foi o presidente do BC de Bolsonaro, Roberto Campos Neto. Quem comprou R$ 12 bilhões em papéis podres de Vorcaro foi o BRB do governador Ibaneis, tão bolsonarista como Nikolas. A verdade é que foi somente no governo do presidente Lula que o escândalo foi investigado e desvendado pela PF. E foi a diretoria do BC indicada por Lula que decretou a liquidação do Master. Este escândalo é todo de vocês, deputado Nikolas. A mentira e o cinismo também.”

Entenda o caso – A aeronave utilizada tem capacidade para até dez passageiros. Registros de monitoramento aéreo, com base em sinais ADS-B do transponder do avião, indicam que o jato esteve nos mesmos destinos e datas dos compromissos públicos da caravana eleitoral. Entre os locais identificados estão todas as capitais do Nordeste, além de Brasília, cidades do Vale do Jequitinhonha e do Triângulo Mineiro  Imagens divulgadas nas redes sociais à época mostraram Nikolas ao lado do pastor Guilherme Batista, da Igreja Lagoinha, e de lideranças religiosas em frente à aeronave.

Em uma das publicações, a influenciadora cristã Jey Reis escreveu: “MISSÃO CUMPRIDA!!” e afirmou: “Em cinco dias rodamos todas as capitais do Nordeste com lotação máxima em todos os lugares!!! A oportunidade de viver isso com esse mega time, pregar e mostrar amor pelo nosso país foi inesquecível!!! AMAMOS JESUS E AMAMOS O BRASIL!!”

No plano formal, a proprietária do jato é a empresa Prime You. A defesa de Daniel Vorcaro sustentou que a aeronave “não pertence ao banqueiro”, embora ele fosse sócio da companhia no período. Em nota, a empresa declarou: “A aeronave Embraer 505 Phenom 300 de prefixo PT-PVH opera e já operava em outubro de 2022 como taxi aéreo. Estes foram voos fretados dentro dos moldes tradicionais de uma operação de táxi aéreo do mercado. De acordo com as regras de confidencialidade que regem as operações de táxi aéreo, assim como ocorre na aviação comercial, e, também em respeito à LGPD, a empresa não divulga dados sobre os seus usuários e respectivos destinos”

Procurado, Nikolas Ferreira confirmou ter utilizado o avião, mas negou vínculo com Vorcaro ou o Banco Master. “Eu nunca apertei a mão de Vorcaro, nunca estive com ele e não tenho nenhum tipo de negócio com ele ou o Master”, declarou.

Do Brasil 247

Acorda, BrasiI: Nikolas e pastor usaram jato ligado a Vorcaro na campanha de 2022

Aeronave da Prime You acompanhou caravana pró-Bolsonaro em nove estados e no DF durante o segundo turno das eleições

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou um jato executivo vinculado ao empresário Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master, para cumprir agenda de campanha em favor de Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2022, informa Malu Gaspar, do jornal O Globo. As viagens ocorreram ao longo de dez dias e abrangeram ao menos nove estados e o Distrito Federal, integrando a caravana “Juventude pelo Brasil”, organizada com o pastor Guilherme Batista, da Igreja Lagoinha.

Os deslocamentos coincidem com eventos eleitorais realizados entre 20 e 28 de outubro de 2022, em regiões onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) havia obtido maioria no primeiro turno. O objetivo declarado da mobilização era tentar reverter votos na reta final da disputa presidencial.

A aeronave utilizada foi um Embraer 505 Phenom 300, com capacidade para até dez passageiros. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram Nikolas Ferreira ao lado do pastor Guilherme Batista, da pastora Mariel Batista e da influenciadora cristã Jey Reis diante do avião. Ao publicar uma das fotos, Jey escreveu: “MISSÃO CUMPRIDA!!”. Em outro trecho, afirmou: “Em cinco dias rodamos todas as capitais do Nordeste com lotação máxima em todos os lugares!!! A oportunidade de viver isso com esse mega time, pregar e mostrar amor pelo nosso país foi inesquecível!!! AMAMOS JESUS E AMAMOS O BRASIL!!”.

O histórico de voos foi confirmado por meio da análise de sinais emitidos pelo transponder da aeronave, captados por ferramentas de monitoramento aéreo disponíveis online. Embora plataformas públicas como FlightAware e Flightradar24 não exibam os dados completos — bloqueados a pedido dos proprietários, prática comum na aviação privada —, registros de tecnologia ADS-B indicam que o jato esteve nos mesmos destinos e datas das agendas públicas da caravana.

Entre os trajetos identificados estão voos para todas as capitais do Nordeste, além de Brasília, cidades do Vale do Jequitinhonha e do Triângulo Mineiro. Em 21 de outubro, por exemplo, o avião estava em Salvador, onde Nikolas e o pastor haviam realizado evento na véspera. No mesmo dia, seguiu para Aracaju. Nos dias seguintes, o jato foi registrado em Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Teresina, São Luís e Imperatriz, acompanhando o roteiro de compromissos políticos.

Na reta final da campanha, a aeronave também decolou de Congonhas com destino a Uberlândia (MG), onde ocorreu ato com a presença de Jair Bolsonaro e do governador Romeu Zema (Novo). No dia seguinte, sinais do transponder detectaram o jato sobre o Vale do Jequitinhonha antes de aterrissar em São Paulo. Horas depois, Nikolas e Guilherme participaram de entrevista no programa Pânico, da Jovem Pan News, enquanto o pastor esteve em Brasília em evento evangélico de apoio ao então presidente.

No papel, a proprietária do jato é a empresa Prime You, grupo que detinha outras aeronaves e bens associados a Daniel Vorcaro. À época, o empresário ainda integrava o quadro societário da companhia. A sociedade foi desfeita em setembro de 2025, dois meses antes da liquidação do Banco Master.

A defesa de Vorcaro sustentou que a aeronave “não pertence ao banqueiro”, embora ele fosse sócio da Prime You no período citado. Em nota, a empresa afirmou: “A aeronave Embraer 505 Phenom 300 de prefixo PT-PVH opera e já operava em outubro de 2022 como taxi aéreo. Estes foram voos fretados dentro dos moldes tradicionais de uma operação de táxi aéreo do mercado. De acordo com as regras de confidencialidade que regem as operações de táxi aéreo, assim como ocorre na aviação comercial, e, também em respeito à LGPD, a empresa não divulga dados sobre os seus usuários e respectivos destinos”.

Procurado, Nikolas Ferreira confirmou ter utilizado o Embraer 505 Phenom 300, mas afirmou desconhecer que a aeronave estivesse ligada a Vorcaro. “Eu nunca apertei a mão de Vorcaro, nunca estive com ele e não tenho nenhum tipo de negócio com ele ou o Master”, declarou. Em nota, acrescentou: “Esclareço que o voo em questão ocorreu há 4 anos atrás, durante o segundo turno da campanha eleitoral, quando fui convidado para participar de um evento político ‘Juventude pelo Brasil’ e foi disponibilizada uma aeronave para o deslocamento. À época, não tinha conhecimento sobre quem era o proprietário do avião. Minha presença no voo se deu exclusivamente em razão do convite para a agenda de campanha, sem qualquer vínculo pessoal, comercial ou institucional com o dono da aeronave, que posteriormente se soube tratar-se de Daniel Vocaro. Ressalto ainda que, em 2022, o nome citado não era de conhecimento público nem havia qualquer informação que levantasse qualquer tipo de alerta. Mesmo que houvesse a tentativa de identificar o proprietário da aeronave naquele momento, não existia qualquer elemento que indicasse situação irregular ou que justificasse questionamento”.

A assessoria do pastor Guilherme Batista foi procurada pelo O Globo, mas não se manifestou até o fechamento da reportagem.

Do Brasil 247

Infanticídio: sobe para 180 o número de crianças assassinadas por Trump e Netanyahu no Irã

Ataque atribuído à ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel atinge colégio feminino em Minab e hospital em Teerã, aprofundando crise regional

Subiu para cerca de 180 o número de crianças mortas no ataque contra a escola primária de meninas Shajareh Tayyebeh, em Minab, na província de Hormozgan, sul do Irã. A nova atualização foi divulgada por Hossein Kermanpour, chefe de relações públicas do Ministério da Saúde iraniano, após o bombardeio ocorrido no domingo, no contexto da ofensiva militar conjunta entre Estados Unidos e Israel iniciada no sábado.

Segundo informações publicadas pela Al Jazeera, com base em fontes oficiais iranianas, Kermanpour afirmou que o ataque matou “cerca de 180 crianças”. Ele também declarou que o “mesmo tipo” de míssil foi utilizado horas antes contra o Hospital Gandhi, em Teerã, ampliando o alcance da ofensiva.

A nova estimativa supera os 148 mortos inicialmente confirmados por agências estatais iranianas, como a Mizan News Agency, ligada ao Poder Judiciário do país. As autoridades consolidam os números à medida que avançam os trabalhos de resgate.

Escola atingida diretamente

De acordo com a Mizan, a escola foi atingida de forma direta durante a operação militar. O colégio feminino, localizado em Minab, ficou completamente destruído. Equipes de emergência continuam atuando na remoção de escombros e no atendimento aos feridos.

A agência estatal IRNA informou anteriormente que ao menos 63 pessoas haviam ficado feridas. Com a atualização mais recente, as autoridades indicam que o número de vítimas pode continuar crescendo, diante da gravidade dos danos estruturais e da intensidade da explosão.

Imagens divulgadas por autoridades iranianas mostram o prédio escolar reduzido a destroços. O episódio já é apontado como um dos mais letais contra civis desde o início da nova escalada militar na região.

Hospital também foi alvo

Hossein Kermanpour acrescentou que o “mesmo tipo” de míssil empregado no ataque à escola foi usado contra o Hospital Gandhi, na capital iraniana, poucas horas antes. A informação amplia as acusações de que estruturas civis estariam sendo atingidas na ofensiva.

Até o momento, não há confirmação oficial do número de vítimas no ataque ao hospital. O governo iraniano sustenta que os bombardeios fazem parte de uma operação coordenada entre Washington e Tel Aviv.

Irã denuncia morte de “crianças inocentes”

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, compartilhou imagens do local e afirmou que o ataque destruiu a escola e matou “crianças inocentes”. A declaração reforça a denúncia formal apresentada por Teerã contra os Estados Unidos e Israel.

O episódio aprofunda a crise regional iniciada com a ofensiva militar conjunta e intensifica a pressão internacional por investigações sobre possíveis violações do direito internacional humanitário. O bombardeio contra uma escola primária feminina e contra uma unidade hospitalar coloca no centro do debate o impacto da guerra sobre civis, especialmente crianças.

A consolidação dos números pelas autoridades iranianas ainda está em curso, e novas atualizações podem alterar o balanço final de vítimas.

Do Brasil 247

“Esta noite, o mundo testemunhará o fim da arrogância dos sionistas”, afirma Aiatolá Alireza Arafi

O aiatolá Alireza Arafi foi anunciado como o comandante interino da política do Irã após a morte do líder supremo Ali Khamenei. Ele prometeu uma resposta imediata à agressão de Israele e Estados Unidos.

“Agora estou assumindo o comando da política do Irã”, declarou Arafi em publicação nas redes sociais. Em seguida, afirmou: “A morte de Ali Khamenei será definitivamente vingada o mais breve possível”.

O novo dirigente também elevou o tom contra Israel ao afirmar: “Esta noite, o mundo testemunhará o fim da arrogância dos sionistas”.

O aiatolá Alireza Arafi foi escolhido como líder supremo interino do Irã e passa a comandar o processo de escolha do novo chefe máximo da República Islâmica.

“O Conselho de Discernimento do Interesse do Estado elegeu o aiatolá Alireza Arafi como membro do conselho interino de liderança”, afirmou o porta-voz do conselho, Mohsen Dehnavi, em uma publicação na rede X. Segundo o comunicado, Arafi ficará à frente do país e foi eleito chefe do Conselho interino de liderança iraniano, com a tarefa de comandar o processo de escolha de um novo líder supremo.

Nascido em 1959 na cidade histórica de Meybod, na província central de Yazd, Arafi tem 67 anos e é um clérigo xiita oriundo de uma família de religiosos islâmicos. Seu pai, o aiatolá Mohammad Ibrahim Arafi, é retratado pela mídia estatal iraniana como alguém próximo ao fundador da República Islâmica, o aiatolá Ruhollah Khomeini.

Quando ocorreu a Revolução Islâmica de 1979, Arafi tinha 21 anos e não integrou a chamada “primeira geração de revolucionários”. Seu nome ganhou maior notoriedade após a ascensão de Ali Khamenei ao posto de líder supremo, em 1989.

Do Brasil 247