terça-feira, dezembro 16, 2025
spot_img
spot_img

Quem será o próximo?

Por Ronald Pinto

Nas últimas duas décadas, os movimentos sociais globais passaram por uma transformação radical. A militância territorial e as organizações de base cederam espaço a uma ecologia informacional dominada por grandes corporações digitais – as Big Techs – que hoje hospedam e condicionam a vida pública. Essa transição é particularmente relevante para as gerações Millennials e Z, nativas digitais que dependem quase que integralmente das redes sociais para consumo de informação, sociabilidade e ação política.

Ao se conectar com teorias clássicas de ação não violenta, como as de Gene Sharp, essa infraestrutura privada criou um ambiente superpotencializado para a eclosão de revoltas. No entanto, o paradoxo é evidente: tais levantes frequentemente emergem sem um conteúdo de classe definido, despolitizados e marcados por identidades fluidas – um terreno fértil para manipulações externas e narrativas virais. Enquanto isso, os Estados nacionais, como o Brasil, permanecem aferrados a lógicas tradicionais, como as pesquisas de opinião, ignorando que o verdadeiro campo de batalha se deslocou para o interior das plataformas digitais, onde ferramentas de mobilização pré-política fermentam em silêncio.

Plataformas como Facebook, Instagram, TikTok, X/Twitter, YouTube e Telegram converteram-se nas arenas centrais do debate político. Apesar da percepção de que são espaços abertos, são, na prática, propriedades privadas regidas por algoritmos opacos que determinam:

  • O que se torna viral,
  • Quem ganha alcance,
  • Quais temas ascendem à prioridade,
  • E como as emoções coletivas são amplificadas ou suprimidas.

Para as gerações Y e Z, hiperconectadas e habituadas ao zapping digital, esses ambientes não são apenas fontes de conteúdo, mas o próprio meio onde sua consciência política é formada – moldada por sistemas que filtram e hierarquizam informações conforme interesses comerciais e geopolíticos. Assim, as Big Techs tornam-se os novos mediadores da consciência coletiva, capazes de modular indignações e canalizar frustrações difusas em comportamentos de massa.

Gene Sharp teorizou sobre a erosão do poder por meio da retirada do consentimento popular, usando ações não violentas, boicotes e desobediência civil. O que ele não previu foi que seus princípios seriam, nas redes sociais:

  • Amplificados por algoritmos,
  • Organizados em tempo real,
  • Replicados em ondas virais,
  • Disseminados sem qualquer estrutura organizacional formal.

Se antes a difusão de métodos de resistência dependia de sindicatos e partidos, hoje esse papel é desempenhado pelo feed. Quando a teoria de Sharp encontra o TikTok, surge um novo tipo de mobilização: espontânea, descentralizada, emocional e impulsionada por símbolos da cultura pop (como as bandeiras de One Piece no Nepal e no México). A ação coletiva deixa de ser uma estratégia política deliberada para se tornar um efeito de rede – um enxame digital guiado por impulsos e afetos amplificados algoritmicamente.

Um traço estrutural das chamadas revoluções coloridas e dos levantes da Geração Z é a ausência de um conteúdo de classe claro. Esses movimentos evocam valores como anticorrupção, transparência e renovação política, mas raramente aprofundam debates sobre:

  • Relações de produção,
  • Desigualdade estrutural,
  • Reformas econômicas,
  • Soberania nacional,
  • Políticas distributivas.

Esse vazio ideológico não é acidental; é funcional para o modelo das Big Techs e para a lógica difusa dos próprios movimentos. A disputa deixa de ser sobre o modelo de sociedade e se concentra no ato de mobilizar-se, na dramaturgia da revolta e na performance da insatisfação. Por não possuírem um epicentro político sólido, tornam-se alvos fáceis de apropriação por potências estrangeiras, ONGs ou partidos, configurando-se como revoltas de alta energia e baixa direção – simultaneamente potentes e frágeis.

Os Estados nacionais ainda acreditam que a temperatura social pode ser aferida por pesquisas de opinião tradicionais. No entanto, a dinâmica digital escapa completamente a esse paradigma. Enquanto governos moderam suas ações com base em números estáveis a partir de institutos de pesquisa como o Datafolha ou Ipec, as redes sociais, sob o controle das Big Techs, estão gerando:

  • Comunidades paralelas,
  • Bolhas inflamadas,
  • Sentimentos de injustiça viralizados,
  • Afetações súbitas que explodem em mobilizações massivas.

Eis o ponto crítico: a Geração Z não precisa estar politizada para derrubar um governo. Basta estar conectada.

Assim como no Nepal, onde o simples bloqueio de redes sociais detonou uma revolta que derrubou o primeiro-ministro, no Brasil ou em qualquer outra democracia, um gatilho banal – uma fala mal interpretada, um vídeo viral, um caso de corrupção superdimensionado – pode gerar uma mobilização monstruosa, despolitizada e imprevisível. O México acaba de ingressar neste mapa de risco. No dia 15 de novembro, manifestações da Geração Z, usando como pretexto o assassinato de uma liderança política, levaram milhares às ruas. O evento rapidamente escalou para a ação de grupos mascarados que tentaram incitar a invasão do Palácio Nacional, em um atentado explícito ao governo de Claudia Sheinbaum – que é alvo de ataques frontais do governo Trump. Este episódio é a materialização do risco: uma centelha de legitimidade (a indignação com um crime) é capturada e direcionada para uma tentativa de desestabilização de um governo soberano.

Estamos, portanto, diante de uma nova forma de poder social: o poder algorítmico de massas conectadas, sem mediação política, sem elaboração ideológica e sem horizonte organizativo.

A combinação entre o controle informacional das Big Techs, a aplicação viral dos métodos de Gene Sharp, a natureza despolitizada dos movimentos e o engajamento emocional da Geração Z cria um ambiente onde mobilizações capazes de desestabilizar governos podem eclodir de forma súbita e incontrolável, como visto recentemente no México.

No entanto, é ingênuo ver essa força como um mero fenômeno espontâneo. A presença dos donos dos algoritmos – os bilionários das Big Techs – no centro de poder dos EUA, inclusive na posse de figuras como Donald Trump, evidencia seu alinhamento orgânico aos interesses do capitalismo global por eles defendido. O Nepal serve como caso paradigmático de um regime substituído para atender a desígnios geopolíticos específicos. O Brasil, por sua vez, já experimentou esse mecanismo em seus estágios iniciais em 2013, um processo que, 12 anos depois, encontra-se drasticamente mais refinado e potente.

A pergunta que se impõe, portanto, deixa de ser se novas tempestades se formarão, mas quem serão os próximos alvos. Governos democráticos que insistem em ler a realidade pelas lentes anacrônicas das pesquisas de opinião ignoram que a verdadeira disputa migrou para o interior das plataformas. É ali, sob seu próprio nariz, que se forjam as crises do futuro, usando a energia genuína de uma geração para promover uma agenda de poder que lhe é, na maioria das vezes, completamente alheia.

Compartilhe

Related Articles

- Advertisement -spot_img

Colunas

PF prende desembargador relator do caso TH Joias no TRF-2

Operação investiga vazamento de informações sigilosas que teriam beneficiado o Comando Vermelho no Rio de Janeiro A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira (16), no Rio...

Lula diz que decisão sobre PL da dosimetria será tomada com foco no Brasil e no momento adequado

Presidente afirma que analisará texto aprovado pela Câmara apenas quando chegar à sua mesa e reafirma apoio a Jorge Messias para o STF O presidente...

Redução das penas do 8 de janeiro e Orçamento de 2026 dominam pauta do Congresso

Os senadores poderão votar nesta terça-feira (16) a atualização das custas judiciais da Justiça Federal (JF) e a criação de fundos especiais da JF...

10 motivos para ser de esquerda

@viniciocarrilhomartinez Porque lutamos pela Liberdade, Autonomia e Emancipação Sistêmica – com mudanças significativas, radicais, na raiz dos males sociais, econômicos, culturais, políticos, jurídicos,...

Reforço positivo da democracia

Ester Dias da Silva Batista Na madrugada do dia 10 de dezembro de 2025, enquanto o país dormia, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto...