É um escárnio. O presidente da Marcha para Jesus no Brasil, Apóstolo Estevam Hernandes, admitiu nesta quinta-feira que o maior evento evangélico do país funciona, na prática, como plataforma política para os Bolsonaros.
Ao declarar que sua “tendência natural” é apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em função do “quadro polarizado que temos hoje”, Hernandes desmontou o discurso de que a Marcha seria um espaço exclusivamente religioso.
O que há de “natural” em um líder religioso antecipar apoio a um candidato a meses da eleição? E o que a suposta “polarização” tem a ver com um evento que deveria ter caráter de fé?

A legislação eleitoral brasileira impõe limites claros ao uso de espaços de uso comum para propaganda política. Igrejas, templos e eventos religiosos não podem ser transformados em instrumentos de campanha eleitoral. A própria Justiça Eleitoral reconhece a figura do abuso de poder religioso quando a influência de lideranças de fé é utilizada para favorecer candidaturas.
Apesar disso, Flávio Bolsonaro ocupa posição de destaque na Marcha para Jesus, cercado por aliados políticos como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o prefeito Ricardo Nunes, deputados bolsonaristas e outras lideranças conservadoras.
Hernandes tentou negar o óbvio. Disse que Flávio não estaria em um “palanque político”, mas apenas participando do trio elétrico como qualquer cristão.
Ao Valor, o religioso também minimizou os questionamentos envolvendo a proximidade deFlávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, afirmando que cabe ao senador explicar à sociedade o que considerar conveniente.
Talvez a declaração mais reveladora tenha sido outra. Ao destacar o peso eleitoral dos evangélicos, Hernandes reconheceu que o segmento “decide eleições” e ajuda a definir posicionamentos políticos associados ao conservadorismo.
Mais uma vez, Jesus não foi convidado para a patacoada.




