Tem reações, comportamentos ou gestuais, que são típicos. Vou pelo exemplo: chamei um Uber para voltar do shopping. Apesar de ser o santuário do consumismo – bem destoante de comunismo –, vou nos dias e horários em que não tem quase ninguém.
O piso sem desnível, sou PCD, o acesso rápido e prático ao que procuro, sempre bons cafés, a disponibilidade de comer algo e tomar um chope, é o que me leva lá umas poucas vezes por ano.
A primeira observação mais séria é de que não é possível tolerar a falta de educação.
Pois bem, na última viagem de Uber me atendeu um jovem de 20 e poucos anos. Falei que sentaria no banco da frente, por causa da minha perna. Tinha um casal na porta e pôde ouvir o diálogo – monólogo. O motorista não disse nada, mas “o corpo fala”, como se diz.
Antes de entrar, entrando, perguntei mais alto se estava incomodado. O casal ouvindo, o motorista os viu. Colocando o sinto, já em andamento, perguntei num tom que não gosto se ele é da chamada Geração Z. Estava na cara que sim, mas, queria que respondesse com um “sim”.
Foi a minha deixa para dizer que essa geração tem que aprender a conviver, que quem lida com público tem que ser mais, digamos, educado e gentil. Em seguida, falei que tenho inúmeros estudantes na mesma idade ou menos do que isso. E que, com o tempo, vão tomando jeito na vida, quando “abaixam a bola” – é assim que se falava até a pouco tempo.
Deixei o silêncio tomar o espaço por uns minutos e voltei a puxar conversa, agora sim, no ânimo de uma conversa. Antes fora apenas um discurso breve. No fim da história, acabou contando um bocado da sua vida, o drama que vive hoje – depois de ter sofrido um “golpe de amigo” –, até o quanto fatura por mês e o fato de não gostar da cidade, mesmo tendo nascido aqui. Falei que também não gosto: me incomoda bastante o provincianismo. Enfim, ao final, houve tolerância de parte a parte. Não ficamos amigos, mas não somos inimigos.
Dois dias depois, hoje, precisamente, ao (ou para) rabiscar essa crônica, pensei no que pode, deve ser a tolerância. Vi aqui na minha estante uma Pedagogia da Tolerância, de Paulo Freire, lembrei de alguns detalhes dessa viagem de Uber e pensei no traumatismo político, com as entranhas expostas, que vivemos atualmente.
Porém, pensei um pouco mais sobre a intolerância que vemos e sentimos. Agora, me refiro à incapacidade generalizada de convivermos com as diferenças, com a diversidade e a pouca, ou nenhuma, vontade de ouvir mais, ver mais, saber mais, conhecer melhor, antes de emitir opiniões e julgamentos.
Refiro-me a todos nós, mal-educados e emborcados nas nossas verdades, meias verdades, e comodismos em obter informação (ou mais claramente desinformação) nas redes sociais.
Na prática, atuam como redes antissociais porque só nos apresentam o que queremos ver, ouvir ou ler. O algoritmo foi treinado para nos enviar apenas o que não nos incomoda e, como sabemos, a diferença nos cansa e desarruma por demais.
Lembrei-me também do famoso Paradoxo da Tolerância e que, de forma absurdamente sábia, nos ensina a “não tolerar o intolerável”. Sendo este intolerável a violência (de qualquer tipo), os maus tratos com animais, os golpismos – maiores ou menores –, a desonestidade, os crimes, o dolo, a mentira política, a desigualdade, o racismo, a miséria humana, a opressão, a subjugação. Essa lista é infinita.
Não é fácil a tolerância, sem dúvida, porém, reparei no subtítulo do Pedagogia da Tolerância, que citei, um complemento obrigatório ao nosso raciocínio: A Tolerância Legítima me ensina que só consigo aprender, de fato, com a diferença.
Isso é óbvio, e ainda que o óbvio só seja óbvio depois que alguém o diga; pois, com a mesmice, a minha réplica quase perfeita, replicando o copia e cola de mim mesmo, tal qual o treinamento dos algoritmos, irei aprender o quê?
Nada, além de repetir os próprios erros, os mesmos erros, num looping infinito.
Com certeza vem daí uma parte da avaliação de especialistas em aprendizagem, concluindo que a “Humanidade está emburrecendo”. E, na segunda conclusão, digo que eu não quero isso para mim. Por isso fiz questão, insisti, em conversar com o jovem motorista de aplicativo.
Parece missa encomendada, só que não é: acabei de ganhar um voucher do Uber, da gerente do Banco do Brasil. O que me leva à terceira conclusão: Talvez seja merecimento por insistir na tolerância, ao que pode e deve ser tolerado e ensinado.
@viniciocarrilhomartinez




