Um chamado diante da emergência climática
À Ordem Constitucional Ambiental e às instâncias do Estado,
Escrevo em nome de uma Terra que já não consegue sussurrar. Seus rios transbordam, suas florestas ardem, seus oceanos fervem e seus manguezais agonizam sob o peso de uma civilização que confundiu desenvolvimento com destruição, progresso com exploração e humanidade com domínio sobre todas as formas de existência.
A Terra está ferida, mas não silenciada. Ela grita nas tempestades, chora nas secas, geme nas raízes arrancadas e respira, cada vez mais profundamente, por entre as últimas florestas que resistem.
As catástrofes climáticas não são apenas acontecimentos extremos: são feridas abertas na pele do planeta, cicatrizes de uma história que transformou rios em mercadorias, florestas em números, animais em objetos e territórios ancestrais em fronteiras de exploração.
Há uma contradição profunda em uma humanidade que escreve direitos enquanto destrói as condições que tornam a própria vida possível. Protegemos a Natureza como recurso, mas ainda hesitamos em reconhecê-la como existência, como comunidade, como sujeito de direitos.
Os povos originários sabem que a Terra não é propriedade: é parentesco, memória, pertencimento e continuidade. Seus territórios não são vazios a serem ocupados, mas mundos vivos, onde a água guarda histórias, as árvores testemunham gerações, os ventos carregam ensinamentos e cada raiz conhece o caminho de seus ancestrais.
Não se trata de conceder dignidade à Terra. Ela jamais precisou de nossa autorização para existir, florescer, criar e sustentar a vida. Trata-se de reconhecer nossa própria pequenez diante da grandeza de tudo aquilo que nos antecede e nos mantém vivos.
Os movimentos pelos Direitos da Natureza e a proposta constitucional impulsionada pela deputada Célia Xakriabá convocam o Brasil a imaginar outro horizonte: um Direito que não coloque a humanidade acima da vida, mas dentro dela; uma Constituição que não proteja apenas aquilo que nos serve, mas também aquilo que existe independentemente de nossa utilidade.
Que os rios tenham o direito de correr sem venenos, as florestas de permanecer sem medo, os oceanos de respirar suas marés e os manguezais de pulsar suas raízes. Que cada espécie possa cumprir seu destino, cada ecossistema preservar seus ciclos e cada semente guardar a promessa de um amanhã.
Que o vento não precise carregar cinzas, que a chuva possa beijar a terra sem encontrar destruição, que a lua continue bordando caminhos de prata sobre águas vivas e que nenhuma criança precise herdar um mundo onde a primavera seja apenas lembrança.
Uma Constituição da Vida precisa reconhecer que não somos senhores do planeta, mas fios de uma imensa teia de existências. Se um rio adoece, algo em nós adoece. Se uma floresta desaparece, uma biblioteca de mundos se perde. Se um povo é arrancado de seu território, rompe-se também uma relação ancestral entre humanidade e Natureza.
Não podemos continuar escrevendo direitos sobre as ruínas de mundos que permitimos destruir.
Que a Constituição Federal seja também território de escuta: onde o vento tenha o direito de cantar, os rios de contar suas histórias, as florestas de respirar seus sonhos, os oceanos de dançar suas marés e os manguezais de pulsar suas raízes.
Porque a Terra fala, sente, cria, transforma e guarda, em cada ser, a memória ancestral da vida. Não lhe falta voz: falta-nos escuta. Não lhe falta força: falta-nos respeito.
E talvez a maior revolução do nosso tempo não seja conquistar o mundo, mas aprender, finalmente, a não destruí-lo.
Que a lei aprenda a ouvir aquilo que a vida sempre soube: nenhum direito será verdadeiramente pleno enquanto a Terra não tiver o direito de florescer.
Márcia Camargo – Doutora pelo PPGCTS/UFSCar




