Crônica, Saga, Conto, Mito, Lenda, Autobiografia, Artigo, Narrativa, Cordel Urbano ou Retrato da Vida do Pobre no Brasil
Por Vinício Carrilho Martinez
O texto é um livro-crônica, nem livro nem crônica, um tipo de Cordel Urbano, quer dizer, foi escrito por alguém que nasceu urbano e só conhece a cidade, e mais, por alguém que vê e pensa a cidade e sua cultura urbana pelos olhos universitários – certamente, isso não é pouca coisa, porque o Brasil tem muitos hábitos rurais e é claro que eles me escapam em inúmeros detalhes. Mas, foi feito de coração e ainda que o próprio autor nem sempre concorde ou aplique adequadamente essa coisa da cordialidade (cordis). Para convencer você a ler tudo, pensei em dizer o seguinte: Nos vemos ou lemos pelo Brasil.
No texto, de modo geral, tomaremos o cordel, o folclore, os ditados e a vivência pessoal como uma alegação popular do direito à cultura. É uma alegação de gente pobre, simples, humilde, não-empoada, mas é verdadeira, original e, o melhor, é sempre bem-humorada. O melhor, então, seria dizer do “direito à cultura do bom humor” — esse humor que é dialético, como todos sabem.
Nosso cordel ou saga (que também lembra sagacidade) é diferente dos demais porque procuramos tirar uma lição de vida da história desse cotidiano. Na verdade, a lição deve contar um pedaço de nossa cultura e, até certo ponto, de nossa psicologia social — especialmente de toda a “gente desafetada”. Não é um trabalho autobiográfico, porém, tem alguma experiência pessoal, do que vi, ouvi e vivi por aí.
Uma Crônica Brasileira: O Direito à Cultura com Bom Humor
O cordel e o folclore simbolizam aqui a sagacidade que está por trás dos “tipos nacionais” imortalizados pela cultura popular, pelo folclore e assim retratados pelos Contos Populares. Este nosso relato, meio em prosa, meio metido a acadêmico, nada mais é do que uma tentativa ou justificativa sociológica e cultural da galhardia que se revela na prosa do narrador popular. Mas o que é e para que serve o conto popular, o folclore. Qual seria a sua relevância cultural? Qual é o sentido desta literatura?
Vejamos com Luís da Câmara Cascudo:
Nenhuma ciência como o Folclore possui maior espaço de pesquisa e de aproximação humana. Ciência da psicologia coletiva, cultura do geral no Homem, da tradição e do milênio na Atualidade, do heroico no quotidiano, é uma verdadeira História Normal do Povo […] Ao lado da literatura, do pensamento intelectual letrado, correm as águas paralelas, solitárias e poderosas, da memória e da imaginação popular […] O conto popular revela informação histórica, etnográfica, sociológica, jurídica, social. É um documento vivo, denunciando costumes, ideias, mentalidades, decisões e julgamentos[1].
Neste caso, nossa história deveria ir se enredando e, para isso, vamos iniciar criando um novo tipo social a que chamaremos PELÊ, um misto de tudo o que vamos ver, uma simbiose, uma mistura nativa, o resultado da miscigenação melhorada desde Macunaíma.
De certo modo, PELÊ será o típico narrador social da cultura continental brasileira, dessa brasilidade que invade a todos. Disso resultou um texto que não é puro, mas que, diferente disso, está invadido de expressões próprias e regionais, no melhor sentido indicado por Cascudo:
Conservei a coloração do vocabulário individual, as imagens, perífrases, intercorrências. Impossível será a ideia do movimento, o timbre, a representação personalizadora das figuras evocadas, instintivamente feita pelo narrador. Os colaboradores tinham os níveis culturais mais diversos. Foram desde a senhora do ginasiano, da cozinheira à ama analfabeta, da velha mãe de criação ao jardineiro efêmero, com as idades de doze a setenta e cinco anos, Frenado-Luís e Manuel Galdino Pessoa[2].
Contudo, PELÊ não conheceu a academia, só a gente da rua, da ladeira, do barraco, do pesqueiro, do cordel, do cortiço, do puteiro, das esquinas, do meio-fio da vida, desse tipo comum que tem muito nas cidades, nas muitas (em demasia) vilas sem Vintém. PELÊ nasceu na Vila sem Vintém e depois fez rastro no mundo, conheceu tudo o que é quebrada e encruzilhada – viu muita farinha d’água, frango e cachaça. Diz que nunca mexeu em nenhum pertence que não era seu, mas não sei não…
A família era típica; o retrato da vida de todos à volta era como o de PELÉ – sempre se resumiam mais ou menos assim: “era uma gente ‘esgaldida’, que via a saúde de tudo e de todos ‘destiorada’”. O Estado era como o Diali (Diabo), “o sujo”, porque pegava o povo na maldade, “de corrupção”: “num bando que vinha de monte”. Na linguagem de sua gente: “a maldade tinha tomado conta do Estado”. PELÊ não tinha maldades demais, mas nada afastava o preconceito contra a “burrice” – dizia assim: “esse é jegue de pai e mãe”. Com o pai aprendeu a não desejar o que não convinha, ou seja, cresceu detestando a corrupção e a avareza.
Porém, fora disso ou além da “estripulia da política”, PELÊ era um sujeito matuto e do brejo, do interior e da roça, mas não era Jeca Tatu, nem “abestado” – aliás, PELÊ era muito esperto como “mussum ensaboado” (um cara escorregadio, de quem não se extrai nem opinião), era um cabra de quem se dizia que “não vale merda!” (um legítimo e simpático cafajeste), na opinião de especialistas em cearês[3]. Outra coisa engraçada que diziam era “bizorro” no lugar de besouro — ninguém sabe se era gíria ou defeito da língua local.
PELÊ não teve muita escola na infância, mas era do tempo em que um dos castigos era “segurar um ponto imaginário, na parede, com o dedo indicador”. Nesse tempo e muito tempo depois, conheceu gente que não acreditava que o homem tinha ido à Lua: “era coisa de cinema americano”, diziam. Em muitas de suas andanças por aqui e por lá, conheceu de perto essa tal de “miscigenação”, essa troca de gente de um lugar para outro, em que se casam tipos bem diferentes. Conheceu um mais de perto que chamava de gringo: o sujeito era dono de uma loja no mercado central e se dizia meio-espanhol, porque todos os seus avós teriam vindo da Espanha (Sevilha, Galícia, Almeria). O curioso é que adorava as morenas e as mulatas — “têm uma pele firme”, dizia para quem quisesse ouvir.
Mas sua maior herança familiar e cultural consta que veio de um lugarejo chamado “A Volta” ou só “Volta”, um distrito de uma cidade maior, a cidade dos “bons ventos”. Diz o povo que esse estranho nome se deve aos tempos em que o Divino criou tudo, quando ia passando pelos lugares e ia soltando apelidos regionais. Portanto, conta a cantiga popular que, ao passar por aquelas bandas, o Divino nem notou esse lugar: é tão pobre que se diz, até hoje, abandonado por Deus. Mas o mesmo povo que ali vivia logo notou o descuido e, então, fez o pedido de um nome de referência. Mais para enfastiado com a tagarelice, o Divino teria se desculpado: “ — Na volta eu dou”. E como não houve retorno, o nome A Volta foi dado logo na ida mesmo. Desconfiados disso, dessa “arrumação”, o povo criou um provérbio e ainda se diz assim: “Rápido no fiofó no padre”. “Em menos de fósforo” era o sinal de que devia ser rápido na saída, porque já tinha reinado demais. O Divino parece não ter perdoado esse povo que tomou tantas liberdades com o padre.
Então, quem foi esse diabo de gente?
PELÊ: como nasce o mito brasileiro
Alguns amigos diziam que PELÊ tinha um talento nato, um tino, uma sina, um quê muito especial para inventar modas, coisas e verbos. Era uma criação que não tinha fim, adorava trocadilhos, piadas, contos e causos do povo, histórias dos confins e ainda gostava muito de criar, só por criar (procriar também) – sabia que não ia vender nada daquilo. Quem sabe um dia, pensava sozinho em casa, pudesse publicar um cordelzinho, uma historieta lá da sua terra.
Com isso, com suas criações (malcriações só com gente casca mesmo) e, mesmo sem querer, PELÊ ia ajudando a definir o tipo social do brasileiro da caatinga, do mangue, do interior, do sertão, o caipira, o cabra marcado, o amarelo, o vaqueiro, o calango, o caboclo, o pescador, o roceiro, o peão, o trabalhador que vivia da boia-fria e ainda aquele outro que virou catador e já nem lembra mais do próprio nome – esse tipo que vai e se esvai pela rua da ladeira da vida — só para baixo.
Esse tipo PELÊ também conhecia; até esteve à beira de estar com eles na lida do dia a dia do desempregado. Não se sabe como, era tudo gente feliz, talvez até onde desse para ser, não é mesmo? Talvez fossem felizes porque não tinham medo de assalto à mão armada…PELÊ dizia meio ao léu que o importante era enredar a vida e olhar firme para o destino, para o destino se lembrar de você na hora certa de se apresentar o novelo de tudo o que se fez de bom e de mal: a soma ou negação é que é o fim do destino. PELÊ também era desse tipo que não enjeitava nenhum tipo de trabalho, mas se pudesse deixava a sombra pegar, é lógico, porque não era bobo nem nada. Mas, no fim da vida, esses amigos sumiram porque a fome esqueletizou todos.
Teve um tempo em que PELÊ foi ser entregador de jornal. Cá entre nós, penso que não é um trabalho fácil, nem prazeroso, nem de enorme remuneração ou reconhecimento, nem mesmo do público leitor, ainda que seja uma profissão digna, como tantas outras. Somemos ao caso específico o fato de que ele deveria subir uma ladeira que fica quase em pé, a Avenida Santo Antônio, nas bandas da Serra do Berimbau. A tal rua, avenida ou alameda era uma rampa infernal, mas lá vinha PELÊ com muitos quilos de encomenda e ainda encontrava fôlego para assobiar, cantarolar e ver algo de bom na vida.
Acho que não teríamos essa galhardia toda, pois por muito menos já estamos reclamando, resmungando e, dependendo de casos ou situações mais graves, já vamos logo xingando, gritando, espumando. Mas nosso grande companheiro de madrugada, ao entregar o jornal, vinha feliz com sua vida, com sua meta e seu destino à frente.
Longe de se fazer apologia desse tipo de trabalho – manual, embrutecedor, limitado –, é de se reconhecer que, se você ouve esse assobio há anos a fio, isso é mais do que uma circunstância. É preciso estar de bem com a vida, feliz com algo que muitas vezes é muito simples, como acordar cedo e ver o dia clarear. Todavia, é preciso esse algo a mais que, admitamos, particularmente não temos, e não teremos.
Bom, como não é o caso de fazer apologia à vida simples, sem luxo, de sofrimento, de privações, de restrições, porque um trabalho como esse não pode oferecer muito mais; um dia, quem sabe, consigamos perguntar ao nosso amigo o que se passa. Aliás, se um dia o nosso entregador perceber que há luzes acesas ou barulho por perto, que dê uma pausa, um alô e veja se tem alguns minutos para explicar o que é esse sentimento, do que é feita a alegria de algumas coisas simples da vida. É muito bom aprender com alguém que tem um quê a mais do que você. É o que o povo sempre achou.
PELÊ era simples, até demais, mas alguns de preconceito em punho não gostavam dele: sempre faziam algum tipo de objeção. Mas, PELÊ era confuso? Não, nadinha, em nada mesmo (nem em “mulher-embrulhada”, como ele dizia). Era bom de bola e de capoeira – só não gostava de almofadinha (hoje se diz Patricinha e Mauricinho) ou cabra metido a besta. Para algum valentão, ia logo dizendo que conhecia um ainda mais valente, logo ali, na rua de cima (e não é que era verdade??). Com isso, tirava a rinha de cima da conversa. E quem queria brigar com um cara assim? Era um gente-boa, sarrista, mas respeitador da dor do amigo. Como todo o povo, PELÊ era valente, mas não era valentão. A versão feminina desse tipo de valentia era chamada por PELÊ de “mulé-macho matador”. Para todo tipo de valentão, PELÊ dizia que “se não voasse dali, ia pedalar pra dentro do cabra”. PELÊ era um craque na defesa e mais ainda quando partia para o ataque.
PELÊ só conhecera um amigo diferente, um que ele fazia uma forcinha para ser amigo, porque o sujeito era Doutor das Letras e PELÊ tinha um pé atrás com essa gente. O “doutorzinho”, que PELÊ também chamava de “sinhozinho”, para provocar, era simples e não aparentava os títulos, mas para PELÊ e seu povo, era gente de outro mundo. PELÊ não via gente que não fosse a sua; tinha um “quê” que o atraiam. Mas, o que é esse “quê” em comum, do povo?
PELÊ sempre ouvira dizer que era “quebradeira no corpo e alguma fome no estômago”. Geralmente quem dizia isso era quem entendia do “riscado”: “mulher-mãe de 11 ou 12, avô ou avó de não sei bem quantos, trabalhador que veve com muita precisão”. É um povo de luta que só vendo: “Ora, ora, Pedrina também é Pedra de nascença, com ‘e’ fechado. E pedra, com ‘e’ aberto, quando atola o sapato dos poderosos”[4]. Um povo, esse do PELÊ, que já se vendo parte do século XXI, começa a pressionar para ter melhor educação, para não ficar confinado na mesmice ou não ter vida miserável na cidade grande. Alguns ou muitos são quilombolas, gente astuta e pronta para se defender com cara de “mico-leão-da-cara-preta”.
Dessa relação entre os dois, o que restou foi uma carta que o “doutorzinho” lhe enviou e algumas lembranças da água fria do mar e da areia bem quente. De vez em quando, PELÊ relia a cartinha tentando entender melhor aquele amontoado de nomes difíceis — e é aí que se perguntava por que se escrevia difícil uma coisa fácil: ora, à praia ia qualquer um, não tem dono. Por que dificultar? Até há pouco tempo, PELÊ tinha a carta consigo e dizia mais ou menos assim…
A Literatura que Cansa a Consciência
“PELÊ, sei que não gosta de gente muito boa, mas sou doutor e escrevi para você, que posso eu fazer? Não posso mudar o que sou. Por favor, meu caro amigo, leia isto como uma lembrança de um grande amigo, de alguém que lhe quer muito bem, mesmo quando dá uma de moleque travesso (mesmo velho) e “começa a reinar”. Pense em mim como amigo e não como Doutor, está bem? Espero que goste e que lhe sirva para matar as saudades do bom amigo…
Muitas vezes levei “O Poço”, de Mário de Andrade, para ler na praia. Li aqui, antes de ir até você, PELÊ, e aí reli umas duas vezes completas (a terceira foi parcial). Penso: seria uma tentativa inconsciente de levar água doce para a beira-mar? Não sei ao certo se é para matar a sede, mas digo com certeza que voltava para casa com a consciência cansada.
Não que me torturasse com as imagens ou com a ideia de que muitos trabalhadores morreram e morrem naquelas condições desprezíveis de trabalho. Não traçava esse raciocínio, essa comparação tão evidente e clara. Não tinha uma leitura premeditada, engajada, tão politicamente correta, apenas me recostava na cadeira, abria a cerveja e me punha a ler. Ou seja, nada de cansaço à vista, pois à frente estava o mar limpo, cheio de ondas e uma brisa que me faz inveja até agora – quando me aposentar, é para aí que vou. Aí só falo com o povo daqui por e-mail. (Como mando e-mail com sotaque?).
Quer dizer, não me importunava com nada – nem dinheiro, nem o tempo, nem a memória dos que ficaram me chateava, porque o sol e a brisa não deixavam. Mas assim mesmo tinha a mente cansada, os parafusos sem eixo ou em rota de colisão com o frescor do mar. Hoje penso que era consciência pesada – mas a leitura é leve, quase macia, você viaja naquele regionalismo do Mário de Andrade e pensa que está em Minas. Aliás, estava lendo o texto no Ceará e me sentia em Minas. Será que é por isso que ficava cansado? A distância teria importância neste caso? Seria um tipo de distância literária?
Depois dessa minha tentativa de retratar o mar, o cotidiano, as tardes intermináveis em que apenas observava os jangadeiros apontando para o continente e vindo em nossa direção, ao final do dia ou da semana de pesca, penso na distância dos três mundos: o daí, o do Mário e o meu de hoje. Escolhi uma passagem que descreve bem o autoritarismo, o mando dos coronéis que ainda estão de vigília – aqui e aí – para você sentir o drama:
“Joaquim Prestes era assim. Caprichosíssimo, mais cioso de mando que de justiça, tinha a idolatria da autoridade. Pra comprar o seu primeiro carro fora à Europa, naqueles tempos em que os automóveis eram mais europeus que americanos. Viera uma “autoridade” no assunto. E o mesmo com as abelhas de que sabia tudo. Um tempo até lhe dera de reeducar as abelhas nacionais, essas “porcas” que misturavam o mel com a samora […] Mas se mandava nos homens e todos obedeciam, se viu obrigado a obedecer às abelhas que não se educaram um isto”[5].
A certeza que tenho é que Mário de Andrade foi um modernista com muita densidade/profundidade de sentimentos, e talvez seja esse o choque com os dias atuais. Como se diz, é muita nuance entre política social e sentimentalidade. Agora, imagine você que eu lia esse Mário de Andrade e em seguida ia comprar camarão direto do pescador, sem intermediários ou que fossem camarões de criação. Será que essa contradição é que me deixava com as pálpebras e com o senho pesado? (Mas, não pense nisso como vista cansada ou sono). Ainda estou pensando nas hipóteses, mas certamente Hemingway estava mais à vontade nas praias de Cuba do que me senti ao fazer essa leitura.
De certo modo, isso pode ser uma demonstração do descompasso que temos no Brasil? Nossa alienação é tão grande que o choque cultural traz dor de consciência, quase dor de cabeça? Parece que as ironias da vida não fazem muito bem à saúde…
PELÊ, confesso, de novo, a você e aos amigos que fizemos juntos, que não tenho respostas prontas – vou ficar aqui pensando nisso por muito tempo. Esta semana quero ler Iracema (ainda não li), que é a própria saga do Estado do Ceará. Agora vou para o romantismo. Será que o herói nordestino é capaz de enfrentar o Joaquim Prestes?”
PELÊ não entendia esse negócio de dor de cabeça se a cabeça realmente não doía. Como era então? Dor de cabeça sem ter cachaça ou mulher encrencada era algo de novo para aquela gente e, certamente, para PELÊ também.
Longe disso de “cabeça inchada por nada”, sem dúvida, PELÊ era um trabalhador-batalhador, então, nada dessa coisa de classe média que só fica sentada, lendo e escrevendo… do tipo do “Doutor das Letras”, da carta. PELÊ era forte e queria ação. Seus amigos também não eram diferentes.
PELÊ, assim como João Grilo e Pedro Malazarte, fazia bem o papel de tipo social do brasileiro — alguns ainda diziam que ele se parecia com um personagem da TV: Mazzaropi. Mas o que é esse tipo social que PELÊ encarnava?
Tipo social é um tipo de gente que quer dar conta do Brasil. Vive não se sabe muito bem onde, mas sabe-se que vive. Também é social porque não é um só. É um tipo que tem aqui e acolá, está por aí, como se diz no interior. É um explicador das coisas e conta tudo em histórias que muitos outros também contam. É um tipo misto de gente, nem quente, nem frio, nem chique, nem brega — não é um tipo puro. Na prosa do povo, é gente de “sangue bom”, mas que ferve se invocar: “dá um boi pra não entrar numa briga e uma boiada pra não sair”. Tem um jeitão comum, nada disso de “estilo ou design”, como fala o gringo americano. O tipo social é mais homem, mas a mulher tinha lá o seu lado bem forte. Basta ver como eram a mãe e a esposa de PELÊ.
PELÊ era meia-feição do pai e meia da mãe. Antes, poderia ter dez filhos, agora só quatro. O pai era muito simples, muito humano – dizia-se dele, quando vivo e mesmo depois de morto – e a mãe levava tudo em conserva, parece que nem mudava as panelas de lugar – “para c o n s e r v a r”, frisava ela, soletrando a palavra chique que conhecera faz pouco.
Assim, nessa conversa, a mãe (sogra) dizia à mulher de PELÊ (que acreditava): “Mulé-mãe tem de prendê as filhas-cabra, proquê os bode-macho tão sorto”. Mas a mulher de PELÊ já lhe ralhava quando este bolia com as filhas-meninas e mimava demais os filhos-homens: “era a mudança”, dizia ela. PELÊ tinha um drama na vida, e esse drama de PELÊ se fez quando conheceu e perdeu a paixão de sua vida: foi um grande amor na vida e na morte, da Severina.
Também foi nessa época que PELÊ ganhou o apelido de amarelo (só amarelo, porque “soldado amarelo” era de outras bandas, era gente do seu Graciliano). Mas era amarelo de amarelidão mesmo, nada de roupa nova, iluminada de amarelo. Nessa época quem o conheceu bem foi o João Cabral:
O cassaco de engenho
É o amarelo tipo:
— É amarelo de corpo
e de estado de espírito.
— De onde a calma que às vezes
parece sabedoria:
— Mas não é calma, nada,
é o nada, é calmaria[6]
De onde veio, tinha parentes, amigos, e de onde vinha esse “conhecimento” afinal? É claro que PELÊ também conhecera Grilo.
Um pouco mais de imaginário
Antes dessa história, porém, vamos relembrar um pesadelo que PELÊ teve, quando sonhou com o dia do seu julgamento final. Pois bem, no dia do seu julgamento final, nos autos, como se dizia entre os bacharéis presentes — PELÊ já havia sido julgado mil vezes, mas sem sucesso para seu advogado ou para a promotoria —, acabou que foi dito que:
“Era negro, mas não muito” (branco, mas não alvo): “certo que era o amarelo dos amarelos”, gostava muito de futebol (batia com as duas, na bola e na capoeira), seus dentes eram como pérolas (guardava os poucos), sambava mais do que a mulher e tinha gingado para ensinar a qualquer gaiato (vendendo, é claro, mas para a mulher do cara era de graça). Não era alto, nem magro, nem gordo, nem faminto, um tipo do meio a meio, mais para o “quase lá em cima” (se visto do alto, é lógico). Ler, até que lia para o gasto, mas separava o que gostava e pulava o resto; agora, o que mais gostava mesmo de fazer eram cinco coisas: fazer promessas para os outros cumprirem; beber e dar para o santo; rezar para “Padre Ciço”; botar gambiarra em todo bico de luz, da casa e da vizinhança; “dar um jeitinho nas obrigações, junto aos conhecidos e conhecimentos que tinha e que vinha curtindo há séculos”.
NÃO SE SABE BEM POR QUE, MAS SEU NOME (PELÊ) FOI GRAFADO EM CAIXA ALTA, QUANDO DO BATISMO. COISA ESTRANHA…
Mas, o mais estranho é que, depois disso, nós é que ficamos imaginando como é ver o mundo em caixa alta… será que se tem a sensação de grandeza, um nome continental, apesar de pequeno, como um país continental: BRASIL!!!
Vem daí a ideia de que “Deus é brasileiro, o país do futuro, o maior e melhor país do mundo”? Ou será só o país do futebol?
Por outro lado, sua acusação real fora emprestada de outros autos, de outra pessoa, lá do Auto da Compadecida, e estava escrito (inspirando o juiz de PELÊ) que:
João Grilo
Porque…não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado […]
Manuel
Muito obrigado, João, mas agora é sua vez, você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido preto. Para mim, tanto faz um branco como um preto. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?[7]
Nesta chicana, se um era racista, o outro era meio, só meio preconceituoso.
Também ficamos sabendo nesses autos (ou arautos?) que PELÊ tinha um jeito carinhoso, tinhoso, até prudente (se dizia) de ser machista. Aquele machismo que se esconde na galhofa, no falso elogio, prontamente disparado para apenas satisfazer o jogo da sedução. PELÊ conhecera um gringo do sul que lhe dizia assim: “tiquitito, pero rompedor”.
PELÊ, porém, tinha sua própria versão e andava cantarolando, para cima e para baixo, essa sua bravata para toda “dona que desse mole, menos as casadas…” (é o que ele dizia, mas quem confia?). Vamos à conversa mole:
PELÊ (O Arauto do Sertão)
Mulher deveria ser como frasco de perfume; dos miúdos, os melhores. Nós as guardaríamos no bolso do casaco, estariam perto dos nossos olhos; nunca estaríamos sós e sempre nos dariam o melhor cheirinho. Quando estivéssemos com saudades, era só dizer e abrir a tampinha que elas voltariam ao tamanho normal, fresquinhas, adoráveis e prontas para beijar – e dizia mais: “— que mulher não nasceu para beijar?”. Depois, quando estivessem falando mais alto do que nossa resistência auricular (era metido a letrado), aí era só colocar no frasquinho de volta, fechar bem, para nada se perder, nem uma só gota do perfume de amor de nossa querida. Quem não quer o amor e o perfume de uma mulher amada?
Safado como só, tinha sempre um perfume consigo… e olha que se viu, por aí, muita gente providenciando, e era homem e mulher… Que mulher aguentaria esse chamego???
PELÊ dizia isso, em verso e prosa, porque, como poeta-cantador e seresteiro, era encantado pela “vida bela, boa e barata”.
Mas, do mesmo modo como João Grilo, PELÊ é tido como o mais brasileiro dos brasileiros, um tipo puro-sangue, da gema, com tudo que tem de direito – está com tudo e não está prosa. Era um desses caras que tinham “sesteza” do que vinha depois de amanhã.
Só vendo para crer, como diz Suassuna, que, aliás, os conheceu bem:
Severino
Chega então agora a vez de Sua Desgracência, o Senhor João Grilo, o amarelo mais amarelo que já tive a honra de matar. Pode ir, a casa é sua[8].
Agora, toda a sorte de reinações e traquinagens, João Grilo aprendera com o Saci, do Seu Monteiro Lobato:
O saci … é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. A força dele está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda vida senhor de um pequeno escravo. Mas que reinações ele faz? Quantas pode…Azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça[9].
Quando ouvia essa estória de gente pobre e crente do interior, PELÊ dizia: “nada é bom por natureza, então, é preciso cuidado”. Mas, o que de mais importante João Grilo aprendera foi a virtude sem fim de ter astúcia e inteligência, e isso também aprendera com o saci:
Os que não conseguem ser fortes, tratam de ser espertos. Na maior parte dos casos, a esperteza vale mais do que a força. Os sacis, por exemplo, não são fortes — mas ninguém os vence em esperteza … A astúcia, principalmente, é uma grande coisa na floresta[10].
Quando se tratava da Cuca, bicho feio-peçonhento, saci vivia aconselhando João Grilo, que era temente aos mistérios da vida:
O que é preciso é não desanimar. Se ela é poderosa, eu sou mais astucioso. A astúcia inúmeras vezes vence a força[11].
O povo sabido chamava isso de virtú, e que era uma virtude bem grande.
Ou então, como nos dirá Paulo Dantas (na capa de fundo, desta edição citada), João Grilo aprendeu tudo com o Saci, mas esse é gente mesmo, e não diabinho, como o outro: “O tipo de João Grilo, ‘amarelo’, nordestino, cujas proezas são contadas em abc. Dentro da peça de Ariano Suassuna simboliza e representa muito bem o engenho popular da nossa raça, gente intuitiva e telúrica, imaginosa e sofrida”[12].
Nessa sabedoria de gente comum, PELÊ ouvira desde sempre que a experiência vinha com a vida: “que era um jeito de gente velha, que ia ficando mais velha”.
Já sabemos muitas coisas dessa gente bem normal, mas podemos perguntar a quem os conheceu em outros carnavais.
Revelação: “Um casal de velhos possuía dois filhos homens, João e Pedro, este tão astucioso e vadio que o chamavam Pedro Malazarte […] João trabalhou quase um ano e voltou quase morto. O patrão tirara-lhe uma tira de couro desde o pescoço até o fim das costas e nada mais lhe dera. Pedro ficou furioso e saiu para vingar o irmão”[13].
Realmente, para qualquer brasilianista que vem a ter no Brasil, sobre o que é ou foi o Brasil, de sua origem até hoje, nenhum que seja sério deixará de mencionar a amizade nutrida por esses três companheiros. Mas, agora falemos mais de PELÊ.
PELÊ
Para o bem e para o mal, PELÊ representa nossa “brasilidade”. A “(ir)racionalidade brasileira” que seria formada pela somatória de esperteza, destreza, sagacidade (criatividade) e resistência ou, como se diz tecnicamente, “vontade de justiça”. Neste sentido, a malandragem (essencial como a ginga) não equivale a banditismo, é uma máscara individual (um kit, uma caixa de ferramentas) para a sobrevivência social, assim como a tão falada “cordialidade”. Quase sempre sofrendo do racismo, tinha dia que PELÊ era miscigenado, meio cafuzo, meio mameluco.
Nesta cordialidade (cordis = coração), não há real solidariedade social, mas sim “efêmeros e passageiros acessos de fraternidade”. Para os mais ácidos não se trata de outra coisa que não a tão conhecida hipocrisia social (pequeno-burguesa) daqueles meias-caras: “Faça o que falo; mas não faça o que faço” Essa cordialidade não é exatamente uma coisa boa, nem mesmo virtuosa por excelência (ou é virtuosa como mecanismo de defesa), porque tem lá seus lados bem ruins:
Formado nos quadros da estrutura familiar, o brasileiro recebeu o peso das “relações de simpatia”, que dificultavam a incorporação normal a outros agrupamentos. Por isso, não acha agradável as relações impessoais, características do Estado, procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afetivo. Onde pesa a família, sobretudo em seu molde tradicional, dificilmente se forma a sociedade urbana de tipo moderno […] O “homem cordial” não pressupõe bondade, mas somente o predomínio dos comportamentos de aparência afetiva, inclusive suas manifestações externas, não necessariamente sinceras nem profundas, que se opõem aos ritualismos de polidez. O “homem cordial” é visceralmente inadequado às relações impessoais que decorrem da posição e da função do indivíduo, e não da sua marca pessoal e familiar, das afinidades nascidas na intimidade dos grupos primários[14].
Como quase-todo bom brasileiro, PELÊ é esse tipo cordial e esperto, faz aquele tipo retratado por João Grilo e Pedro Malazarte: “enegrecido” pelo preconceito social e racial (tão ao estilo da “democracia racial”: “no Brasil, não há preconceito de cor”). PELÊ devia muito de si a Malazarte.
O que se diz de Malazarte, encaixa nesse veio da “brasilidade”, no jeitinho que dá em tudo (ou quase tudo)[15]. (Ter astúcia é, justamente, o que recomendava Maquiavel ao Príncipe). No Brasil, faz o típico “herói sem fronteiras”, certamente, mas que também forma um par muito bom com o herói sem caráter — tal qual PELÊ. Malazarte, Grilo e PELÊ são os arautos e os príncipes do sertão, do interior, da periferia e do centro velho, da lateral e da casa dos fundos, do litoral que vive do que pesca. Um clichê afirmava que é gente que detesta política ou que, pelo menos, tem memória curta: “— Nem sabem em quem votaram”, era a alegação mais comum.
Só para comparar com os demais “heróis sem fronteira”, PELÊ era muito cordial e, também muito “bonzinho”, nem desejava mal a qualquer um ou sequer praguejava em voz alta. Porém, ainda meio racista, nem custava para cuspir e lascar: “seu coiso tá na minha lista negra”. Era destemido como só; dizia não temer nada, nem ninguém, principalmente “coisa feia”: “cara feia é assombração com fome”, disparava. As crianças que o conheceram, por outro lado, talvez por verem tanta valentia num só, diziam corriqueiramente, a toda hora: “medi, tem medi”. E Pedro Malazarte, seu amigo, é quase um eco disso tudo, para o bem e para o mal, é lógico.
Pedro Malazartes é figura tradicional nos contos populares da Península Ibérica, como exemplo de burlão invencível, astucioso, cínico, inesgotável de expedientes e de enganos, sem escrúpulos e sem remorsos […] É o tipo feliz da inteligência despudorada e vitoriosa sobre os crédulos, os avarentos, os parvos, os orgulhosos, os ricos e os vaidosos, expressões garantidoras da simpatia pelo herói sem caráter […] O episódio mais tradicional é a venda de uma pele de cavalo, de urubu ou outro pássaro vivo, tido como adivinho, por anunciar o jantar escondido pela adúltera e expor o amante como sendo um demônio[16].
A maldade de Malazarte, por exemplo, deve servir de compensação financeira ao trabalho do irmão, este que não fora pago e que ainda teve “uma lasca de couro tirada do lombo”. A atitude malsã, na primeira crônica sobre Malazarte, é ainda uma resposta à humilhação sofrida no trabalho, em razão do princípio da hierarquia e da subordinação (quanto a este princípio, não se sabe se mudou da escravidão, para cá).
Por isso tudo, PELÊ representa mais do que um hiato, é uma certa mistura (bem-sucedida) entre Homem Cordial (Sérgio Buarque de Holanda) Macunaíma (Mário de Andrade), Pedro Malazarte (Luís da Câmara Cascudo), João Grilo e Jeca Tatu (Monteiro Lobato).
Alguns estudos e algumas narrativas são bastante representativas dessas inquietações e interrogações. Vale a pena relembrar alguns: Tavares Bastos, A Província; Silvio Romero, História da Literatura Brasileira; Joaquim Nabuco, O Abolicionismo; Raul Pompéia, O Ateneu; Euclides da Cunha, Os Sertões; Lima Barreto, Triste Fim de Policarpo Quaresma; Oliveira Vianna, Evolução do Povo Brasileiro; Mário de Andrade, Macunaíma; Paulo Prado, Retrato do Brasil; Graciliano Ramos, Vidas Secas; José Lins do Rego, Fogo Morto; Caio Prado Jr., Evolução Política do Brasil; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil; Gilberto Freyre, Interpretação do Brasil; Raimundo Faoro, Os Donos do Poder; Florestan Fernandes, A Revolução Burguesa; Clovis Moura, Rebeliões da Senzala; Antonio Candido, Formação da Literatura Brasileira; Alfredo Bosi, Dialética da Colonização; Celso Furtado, Brasil: A Construção Interrompida[17].
Certamente, não é tarefa simples nem pode haver uma simples justaposição, por exemplo, entre as Vidas Secas de Gaciliano Ramos e o Macunaíma de Mário de Andrade – essa mistura da miscigenação não é uma mera justaposição de personagens e/ou de atores sociais. Em Graciliano, o que está em foco é o atraso político (coronelismo) e a desigualdade social (miséria do povo). Sua análise se iniciou muito cedo, desde que fora prefeito de Palmeira dos Índios e enviara relatórios de sua administração ao Governo do Estado. É um verdadeiro raio X sucinto, direto, de escrita limpa e muito bem humorada: “Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam”[18].
Agora, o humor também sempre estivera presente: “No cemitério enterrei 189$000 — pagamento ao coveiro e conservação”[19]. É curioso notar que investira mais em música do que na polícia, coisa de gente de coração bom. Enfrentou uma mini Revolta da Vacina, quando obrigou a limpeza pública e o recolhimento dos bichos: “Houve lamúrias e reclamações por se haver mexido no ciclo preciosamente guardado em fundos de quintais; lamúrias, reclamações e ameaças porque mandei matar algumas centenas de cães vagabundos; lamúrias, reclamações, ameaças, guinchos, berros e coices dos fazendeiros que criavam bichos nas praças”[20].
Sempre se colocara contra o nepotismo e a corrupção: “Convenho em que o dinheiro do povo poderia ser mais útil se estivesse nas mãos, ou nos bolsos, de outro menos incompetente do que eu; em todo o caso, transformando-o em pedra, cal, cimento, etc., sempre procedo melhor que se o distribuísse com os meus parentes, que necessitam, coitados”[21].
Sem dúvida, é um retraso do atraso que aguardava a modernidade, como na queixa de que não encontrou nada parecido com o Estado de Direito: “Em janeiro do ano passado não achei no Município nada que se parecesse com lei, fora as que havia na tradição oral, anacrônicas, do tempo das candeias de azeite. Constava a existência de um código municipal, coisa inatingível e obscura. Procurei, rebusquei, esquadrinhei, estive quase a recorrer ao espiritismo, convenci-me de que o código era uma espécie de lobisomem”[22]. Também percebia que o povo não admira demais o princípio da probidade administrativa: “…há quem não compreenda que um ato administrativo seja isento de lucro pessoal…”[23].
A educação, quiçá como a de hoje, era uma lástima: “As aspirantes a professoras revelaram, com admirável unanimidade, uma lastimosa ignorância […] Não creio que os alunos aprendam grande coisa. Obterão, contudo, a habilidade precisa para ler jornais e almanaques, discutir política e decorar sonetos, passatempos acessíveis a quase todos os roceiros”[24]. Com a educação recebida, o povo correspondia à cultura da mediocridade: “E o palmeirense afirmava, convicto, que isto era a princesa do sertão. Uma princesa, vá lá, mas princesa muito nua, muito madraça, muito suja e muito escavacada”[25]. Porém, é certo que mais alguém nesse país imenso deveria ter sua sina de honestidade, mesmo que pagando um preço alto: “Esforcei-me por não cometer injustiças […] se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcar-me”[26].
Os dois relatórios foram produzidos entrando nos anos 30, quando, por fim, Graciliano Ramos renunciou ao cargo de prefeito.
Em sentido diverso, e para uma leitura torta, Macunaíma, em outro exemplo, só teria revelado alguns dos preconceitos do brasileiro: a preguiça que destronou a astúcia; a opção deliberada pela vadiagem[27]; a exuberância (extremada) da sensualidade, como mera veneração sexual da mulata (objeto); o mesmo e velho machismo que impede a ascensão social e profissional do negro (dos mais pobres).
Uma explicação do Brasil
Para Oliveira Vianna, por exemplo, não se formou um sentido de urbanidade nem um sentimento comunitário e solidário no Brasil. Nossas aldeias, vilas ou cidades foram formadas por imposição do Estado ou da corte. Seus moradores eram aqueles vadios (no sentido empregado por Lúcio Kowarick) ou inúteis à república: “Era o que se chamava uma ‘convocação’. Na Vila de Lages, por exemplo, os ‘convocados’ foram os carijós infixos e vagabundos, que erravam pela Capitania…”[28].
Ao primeiro instante de descuido, por parte de seu “capitão-mor regente”, os povoadores voavam de volta a seus sítios e lugares de origem. Este patamar de organização social e de urbanização pressupunha um sentimento de cidadania que não poderia ser forjado onde não houvesse um sentido de comunidade ou de Estado-aldeia, como definia Vianna. Daí a própria atividade política ser definida como um atributo essencialmente urbano, ainda que a política fosse aplicada em pequenas aldeias ou vilas.
A diversidade de nossa formação fica ainda mais evidente quando comparada aos Estados-aldeia portugueses, espanhóis ou suíços, que elevaram a iniciativa política de seus povos, pela chamada democracia direta dos cantões. Entretanto, o que importa ressaltar é a desenvoltura popular na área da administração pública, na atividade judiciária, na organização política, na economia escravista e segregadora. A esta altura, no Brasil, o citizen inglês era só um sonho — e que no futuro traria pesadelos.
Assim, no Brasil, ao revés da lógica, por disposição legal e política, desde a colonização, fomos instados à ordem por latifúndios que se distanciavam uns dos outros em muitas léguas e sem que pudessem ser habitadas. Esta opção de colonização acabava por inibir qualquer aglomeração humana e forçava seus proprietários a se distanciarem “politicamente” uns dos outros. Como se vê em Vianna[29]:
Concediam-se quadras de 3 léguas, mas com uma intermediária, dentro da qual era proibido construir moradias ou residências: — ‘De 3 léguas das sesmarias — diz o escritor anônimo do Roteiro do Maranhão a Goiás — forma uma fazenda: na dita légua entram igualmente vizinhos à procura dos seus gados, sem contudo poderem nela levantarem casas e currais.
A dispersão obrigatória seria a responsável pelo diminuto espírito público naquele momento, criaria um ser arredio, dispersivo, aclimatado às matas e florestas e repulsivo à cidade. Além de um espírito individual e personalista, e que nem mesmo em proveito próprio poderia se aliar a outro:
De onde nasce que nenhum homem nesta terra é Repúblico, nem vela ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras cousas públicas, é uma piada, porque atendo-se uns aos outros, nenhum as faz, ainda que bebam água suja, e se molhem ao passar os rios e se orvalhem ao passar os caminhos’, já dizia, há trezentos anos, o cronista Simão de Vasconcelos[30].
O velho espírito individualista ainda seria observado por Vianna em 1949 (data de publicação de Instituições políticas Brasileiras):
O retrato de Simão de Vasconcelos, desenhado há trezentos anos, ainda está perfeito e os traços descritos estão vivos ainda” […] Nosso complexo cultural e político era atomista: “E criou o homo colonialis, amante da solidão e do deserto, rústico e antiurbano, fragueiro e dendrófilo, que evita a cidade e tem o gosto do campo e da floresta. Homem de que a expressão mais acabada e representativa é o paulista do bandeirismo — telúrico, eruptivo, abrupto, tal como as rochas de gnaisse e manganês do meu habitat formador[31].
O homo colonialis, o cidadão brasileiro, o nosso PELÊ, tinha por referência de sociabilidade o próprio núcleo em que vivia. Cada família era uma república, mas uma república que já nascera partidária, privatizada. Os poucos exemplos de organização espontânea eram exceções para confirmar a regra, e a cada dia era mais vibrante no interior da sociedade a cultura clânica. O cidadão grego não era conhecido nem mesmo na literatura: “No Brasil, só o indivíduo vale e, o que é pior, vale sem precisar da sociedade — da comunidade”[32].
O sentimento que Vianna buscava no povo, mas que encontrou nas elites, era o de um “complexo democrático de nação”. No entanto, excluindo-se os pequenos grupos, no restante, sempre houve um sentimento satrapista, ou seja, senhorial e patriarcal, também responsável pela paralisia da história política brasileira:
São estes, com efeito — ainda hoje, como outrora — os elementos fundamentais da nossa vida política. Sem eles, é-nos impossível compreender e explicar a realidade do funcionamento das nossas três estruturas democráticas: — a local, a provincial e a nacional. Clãs e partidos não diferem substancialmente uns dos outros: nem uns, nem outros representam, do ponto de vista do Estado, organizações ou estruturas para fins de interesses coletivos, ao modo das pequenas organizações administrativas das ‘aldeias agrárias’[33].
Para poucos é revelado o verdadeiro lado negro da escravidão, a luta feroz contra o coronelismo e o mandonismo que nos habitam até hoje: “amém e sempre”, dirão algumas pobres almas, para quem é melhor deixar como está, para ver como fica! Sempre no sentido de dar uma justificativa para o fisiologismo e nepotismo (especialmente o filhotismo). Porém, além da tal pacificação social, deveríamos ver nisso uma profunda sátira: uma rotinização da mentira e um deboche constante da formalidade vazia. Pode-se dizer que tivemos muito dessa mesmice burocrática e vazia na Proclamação da República e depois na Revolução de 1930 – a revolução dos mesmos. Nessa nossa história de faz de conta, já havíamos visto isso em 1822 e em 1888. Conhecemos bem essa forma de dominação do mesmo, que é política, social, econômica, cultural, mental e que se poderia chamar de “dominação tradicional-legal”. Essa corruptela das formas de dominação sugeridas pelo sociólogo alemão Max Weber foi muito compreendida por PELÊ, quando sentiu na pele o vigor do adágio popular: “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei!”.
Não se vê que nossas elites tinham (ou têm) modelos de urbanidade tradicional, com interiores ainda pré-modernos, convivendo com enormes áreas de fronteira (bem devastadas e como terra sem-lei). O que se esconde, via de regra, é que (sobre)vivemos num modo de vida dissoluto: uma mistura de muitos preconceitos sociais e culturais. Esse samba do crioulo doido encobre nossa visão para a negação sistemática de acesso aos principais equipamentos sociais. Sobrevivemos imersos nessa negação sistemática, estrutural, enraizada e que gera a sensação de que somos muito mais que imperfeitos, míseros resultados de uma cultura mutilada. Outro clichê, então, dirá que por aqui só globalizamos a miséria, mas o certo é que o pobre honra seus compromissos, até porque só conta com sua palavra — sem o crédito na “praça” não lhe resta mais nada, isto é, para estes vales o ditado de que é melhor amigo na praça, do que dinheiro no bolso. Aliás, quando o assunto é pobreza e miséria sempre está interposto um “isto é….”.
Mudando o disco
Mas não teremos tido alguma expressão de resistência, além desse realismo político chocante? Na certa que sim.
Um baiano lendário é Jorge Amado — não há brasileiro que não tenha lido ou assistido a algo baseado em sua extensa obra (por isso, até repetitiva), assim como é clássico na literatura de resistência e de denúncia um escritor como Graciliano Ramos e seu Vidas Secas[34]. Mesmo após a fase considerada comunista, Jorge Amado (que escrevera Os subterrâneos da Liberdade) continuou a defesa da “causa social” e, como consequência, teve livros queimados, como Capitães de Areia, no ano de sua publicação, em 1937[35].
Histórias de resistência e de revolução semelhantes nós lemos, em outro exemplo, em Osório Alves de Castro[36] — um alfaiate-escritor-comunista e baiano, que fugiu da morte certa pelo coronelato, passou pelo Rio de Janeiro e se viu radicado em Marília —, em romances como Porto Calendário. Nesta cidade do Estado de São Paulo, entre tantas coisas, pode constatar que os chamados pioneiros exterminaram todos os índios (coroados) da região.
Nossa cultura é realmente esse cadinho de falas, afazeres, cores e gostos que só a miscigenação pode produzir — ou samba do crioulo doido, para os mais elitistas, racistas. Entretanto, para poucos, esse carnaval cultural sinaliza uma possibilidade de metamorfose, se não na vida real, ao menos no imaginário. Roberto Damatta (em Carnavais, malandros e heróis) analisa esse momento como um processo de “sátira social”, em prol da trégua e do contrato social:
Essa teatralização salienta o caráter domesticado da transmutação de pobre em nobre, quando essa transmutação é realizada em momentos programados, tal como ocorre no Carnaval. Assim, os ricos (dominantes) não são vistos como ricos […] mas como nobres. Se fossem olhados como ricos (ou seja, burgueses), seriam satirizados e o desfile provavelmente perderia seu caráter domesticado, sinal de fato de uma trégua entre dominados e dominantes […] Abandona-se, como consequência, a sátira para se permanecer na trégua e na inflação do bom comportamento[37].
Vimos um milagre cultural ocorrer com o carinhosamente chamado Velho Osório, um alfaiate-escritor, e PELÊ também imagina que isso pudesse lhe ocorrer. Inclusive disse que queria ler todos esses explicadores do Brasil com afinco. PELÊ também queria reler Teresa Batista Cansada de Guerra (Jorge Amado) porque se dizia amargamente, amarguradamente envolvido, enlutado, apaixonado pela personagem — a personagem que criara vida após a tristeza do despertar da sexualidade da menina-moça e que não passava de valor de uso. Nesse esforço cultural, PELÊ certa vez ficou extasiado, contemplando um quadro muito belo, inusitado, forte e engraçado, em uma exposição que achou por acaso. Tempos depois, viria a saber que se tratava do famoso Abaporu[38], de uma moça de nome também bonito: Tarsila do Amaral[39]. É curioso, mas PELÊ tanto pode ser explicado pela formação da cultura brasileira quanto é um tipo de explicador popular do Brasil.
Mas quem são esses explicadores do Brasil, além de PELÊ, Grilo e Malazarte…??
A história é de longa data, mas sempre que se pensa nas origens, pensa-se nos clássicos e nos porquês de serem relidos constantemente. Descrevendo a publicação de outros livros de origem, a historiadora Mary Del Priore é enfática:
A historiadora diz que o objetivo principal é o de fisgar o leitor não acadêmico, convidá-lo a conhecer uma história do Brasil além dos livros didáticos. ‘É uma estória de amor pela história’, resume. ‘Penso que os livros podem ser uma porta de entrada para qualquer pessoa que não tenha intimidade com a história do país[40].
Na famosa introdução (O significado de ‘Raízes do Brasil’, de 1967) ao livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, Antonio Cândido cita os clássicos da chamada “Geração de 30” como os grandes explicadores do Brasil, como os responsáveis pelos fundamentos analíticos da política e da sociedade brasileira. Para Antonio Candido, são três os autores e três são os livros que marcaram essa geração:
Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre, publicado quando estávamos no ginásio; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado quando estávamos no curso complementar; Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Pardo Júnior, publicado quando estávamos na escola superior. São estes os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalidade intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930 e não foi, apesar de tudo, abafada pelo Estado Novo[41].
Antonio Cândido, analisando a Casa Grande, destaca o tratamento da vida sexual do patriarcalismo e a importante participação do escravo no modo de ser brasileiro. Diz que: “é uma ponte entre o naturalismo dos velhos intérpretes da nossa sociedade, como Sílvio Romero, Euclides da Cunha e mesmo Oliveira Vianna, e os pontos de vista mais especificamente sociológicos que se imporiam a partir de 1940”[42]. Gilberto Freyre[43], porém, ainda estaria restrito aos aspectos biológicos, como raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilíbrio ecológico e alimentação. Freyre, assim como os demais autores de 1930, carrega a marca do clássico, o tipo genial, inaugural de suas análises revolucionárias do cotidiano:
É possível dizer do passado o mesmo que Proust escreveu sobre o mundo: ele está sendo sempre recriado pela arte. E, assim como a arte, a história que Gilberto Freyre conta tem muito de narrativa, estética, impressão, memória e romance […] jeito de palpite, adivinhações e poesia […] um autor que dá a seus textos um ar de cinema, tal a quantidade de imagens que vão sendo evocadas[44].
O livro Raízes do Brasil surgiu 3 anos depois de Casa Grande e, como “clássico de nascença”, identificava a necessidade de novas soluções de entendimento para as posições políticas da época, movido pela descrença no liberalismo tradicional ou simplesmente pela busca do novo: à direita, com o integralismo; à esquerda, com socialismo e comunismo. A abordagem trazida pelo livro estava respaldada na nova história social dos franceses, na sociologia da cultura alemã e em certos elementos teóricos da sociologia e etnologia ainda desconhecidas no Brasil. Para Octávio Ianni (em A ideia de Brasil moderno), a formação de Sérgio Buarque de Holanda contrasta com a de Caio Prado Júnior — este marxista:
A interpretação de Sérgio Buarque de Holanda tem raízes no pensamento alemão moderno, principalmente Dilthey, Rickert e Weber. Desenvolve-se em um conjunto de tipos ideais, configurando épocas, estilos de sociabilidade. Percebe de modo aberto a sociedade civil e o Estado, no passado e no presente. O ‘homem cordial’ sintetiza uma parte expressiva da forma pela qual apanha momentos da história, em moldes supra-históricos. Uma interpretação bastante presente em meios universitários e artísticos […] E a interpretação de Caio Prado Júnior tem raízes no pensamento marxista. Analisa a formação social brasileira em termos de forças produtivas e relações de produção, expropriação do trabalho escravo e trabalhador livre, desigualdades sociais e contradições de classes. Apanha a história como um caleidoscópio de ‘ciclos’ e épocas, diversidades e desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais, complicadas pelas diversidades e desigualdades raciais e regionais. Desvenda as lutas, as reformas e rupturas que demarcam épocas e perspectivas da história social brasileira[45].
Apesar da controvérsia em torno dos representantes do pensamento político brasileiro a partir de 30, os três autores mencionados são tratados como unanimidades nessa representação. Octávio Ianni, por exemplo, apenas acrescenta outros dois nomes, sem questionar os anteriores:
Uma síntese das interpretações desenvolvidas por esses autores se encontra nos seguintes livros: Evolução do Povo Brasileiro, de Oliveira Vianna; Interpretação do Brasil, de Gilberto Freyre; A Evolução Industrial do Brasil, de Roberto C. Simonsen; Evolução Política do Brasil, de Caio Prado Júnior; e Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. A despeito da ênfase social, econômica, política ou cultural, evidente em cada um, empenharam-se em apresentar explicações abrangentes, globalizantes […] suas interpretações do Brasil tornaram-se paradigmáticas […] Conservadores, autoritários, liberais, democratas e socialistas já têm ao seu dispor um esquema básico, uma referência coerente, um paradigma para pensar e agir. Assim, Oliveira Vianna, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Roberto C. Simonsen e Caio Prado Júnior adquirem a aura de clássicos[46].
É oportuno destacar também que, todos os clássicos justificam-se porque surgem sempre em momentos de grandes e graves transformações, crises sociais, revoluções e grandes descobertas no nível do conhecimento analítico, com as consequentes mudanças de rumo nos paradigmas analíticos, alterando as relações sociais e as visões de mundo. De acordo com Ianni, no caso do pensamento político brasileiro, a transformação histórica manteve a mesma ordem de fatores. O que denota um significado especial para a análise desses clássicos, ressaltando-se a ótica da história política que os pressupunha, isto é, as transformações advindas da Revolução de 30:
Foi na década de 30 que se formularam as principais interpretações do Brasil Moderno, configurando ‘uma compreensão mais exata do país’. Muito do que se pensou antes se polariza e se decanta nessa época. E muito do que se pensa depois arranca das interpretações formuladas então […] Mas naquela época formularam-se algumas matrizes do pensamento social brasileiro, no que se refere a questões básicas: a vocação agrária e as possibilidades da industrialização, o capitalismo nacional e associado, o federalismo e o centralismo, o civilismo e o militarismo, a democracia e o autoritarismo, a região e a nação, a multiplicidade racial e a formação do povo, o capitalismo e o socialismo, a modernidade e a tradição […] Uns preconizam a modernização em moldes democráticos; outros em termos conservadores, ou simplesmente autoritários. Há aqueles que reivindicam reformas sociais amplas; outros até mesmo a revolução social. Um outro chega a idealizar o escravismo, o regime monárquico, o colonialismo lusitano, o alpendre da casa grande[47].
Como se vê, não é possível alcançar um plano mais generalista da época do que o fornecido pelos clássicos da Geração de 30.
Então, o que se queria alcançar neste texto, com essa mistura de estilos (nem literatura, nem depoimento, nem ciência social), é exemplificar a ideia de que a cultura é uma mescla, uma sopa de letrinhas com algum sentido — mas não um sentido pronto e acabado, simplesmente porque é resultado atual da miscigenação secular. O que se procurou relatar foi a ideia de que aí se forma um misto, porque em PELÊ há o bom brasileiro e o mau brasileiro também: há uma livre troca de caráter, como aqui há uma livre troca de estilos, no melhor sem estilos que se pode almejar. Pois, mesmo que PELÊ “tenha dado certo” dentro de campo (foi mais do que um “saci-pererê” com a bola nos pés), infelizmente, tem histórias bem ruins sobre sua ética pública e privada. Aliás, esse é um poderoso traço da cultura nacional, misturam-se a ética privada com a pública e arruínam-se as duas.
Sim, o que se depreende dos múltiplos tipos que povoam o pensamento social brasileiro, em suas versões científicas, literárias e dos diferentes setores sociais, em suas atividades e fabulações, é que levam consigo uma forte conotação cultural, com acentuados ingredientes psicossociais. Aí entra o “homem cordial”, no sentido de fortemente determinado pelas emoções, a subjetividade, o coração (córdis), um tanto alheio ou mesmo avesso ao “racional”. Aí também entram o “bandeirante”, o “índio, o “negro”, o “imigrante”, o “gaúcho”, o “sertanejo”, o “seringueiro”, o “colonizador”, o “desbravador”, o “aventureiro”, “Macunaíma”, “Martim Cererê”, “João Grilo”, a “preguiça”, a “luxúria”, “Jeca Tatu”, as “três raças tristes”, a política de “conciliação”, a tese das “revoluções brancas”. Assim também florescem as figuras e as figurações, os mitos e as mitificações de “Lampeão”, “Padre Cícero”, “Antonio Conselheiro”, “Tiradentes”, “Zumbi” e outros, reais e imaginários. São muitos os tipos e os mitos que povoam os estudos e as narrativas, as realidades e as fantasias, compondo uma vasta cartografia[48].
Como explicadores populares do brasileiro, PELÊ, Grilo e Malazarte não deixam de expressar a cultura de modo estranho, porque, além de atores, também são porta-vozes de uma cultura muito mais contraditória do que coerente. São atores que expressam uma cultura complexa, sem dúvida, mas igualmente esquisita, para o bem (como dizem os espanhóis) e para o mal.
Com tudo isso, às vezes mais para o mal do que para o bem, PELÊ era um cara muito cordial; no carnaval, usava uma máscara estranha, mas que dizia ser a cara do brasileiro. Mas será que nossa história só é feita dessas caras que se escondem em máscaras sociais? Não, felizmente, há outras histórias de Pedro Malazarte e de João Grilo, aliás, bem próximas de todos nós…
Outras Proezas de João Grilo
Agora, sem as máscaras ou não apenas como sombras de si mesmos, quem são ou podem ser PELÊ, João Grilo, Malazarte, Mazzaropi?
Pode ser muita gente, mas certamente são José, Pedro, Paulo, Wagner, Célia, Nilva, Dalva, Fátima, Vinício, alguns dos seus/meus amigos(as), inimigos(as), você, todos nós que nos percebemos e nos vimos revelados nos relatos e nas crônicas de nossas vidas.
Mas vamos pensar na crônica/saga do João Grilo, do sertanejo, do caranguejeiro, da gente pobre, do chamado Zé Ninguém, da Maria Trabalhadora (que, de tanto trabalhar, incorporou o trabalho ao nome). Agora, trabalho é o seu nome, Trabalho é nome próprio.
O João Grilo, como todo e qualquer João Ninguém (de acordo com os dicionários), significa exatamente “gente da gente”, gente como você e eu, isto é, se você se considera gente simples – do tipo sem milongas e sem dinheiro.
João Grilo é uma das histórias mais antigas da Literatura de Cordel, do Nordeste brasileiro – remonta aos idos de 1940-1950. A saga narra aventuras de um pobre miserável que faz da esperteza, da sagacidade, da desconfiança do formal excessivo o meio de vida ou o melhor jeitinho brasileiro que lhe garante a sobrevida. Sua sobrevivência se dá tripudiando o autoritarismo, o servilismo, o coronelismo, todos os “ismos” da opressão.
Mas quem foi João Grilo? João Grilo não é bonito, nem feio; nem branco, nem negro; mais pobre do que remediado; não é homem-gabiru, mas não é alto. João Grilo é homem médio, mas grande na alma. João Grilo é gente encantada com o que restou de bom, esquecendo-se por um minuto do que há de mau.
João grilo foi um cristão/Que nasceu antes do dia/Criou-se sem formosura/Mas tinha sabedoria/E morreu depois das horas/Pelas artes que fazia…Assim mesmo ele criou-se/Pequeno, magro e sambudo/As pernas tortas e finas/A boca grande e beiçudo/No sítio aonde morava/Dava notícia de tudo[49].
A saga de João Grilo combate a ideia da fraternidade ou da solidariedade vazia, porque essa cordialidade é só um faz de conta para prejudicar a Casa Grande e/ou os sobrados. As Proezas de João Grilo é o título do livreto que deveríamos (re)ler, assim como o Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna – obra claramente inspirada nesse cordel. Aliás, devemos lembrar que a Compadecida é Nossa Senhora, entoada como a advogada dos pobres, na oração Salve-Rainha.
Há muito que se procura entender melhor essa tão rica e bela cultura popular brasileira. Muitos são admiradores de sua “literatura dos varais”, dos cordelistas que nos ensinam tão alegremente o real significado de tudo o que é sem eira, nem beira. A visão dessa “eira”, uma saliência na parte superior dos sobrados dos coronéis, ainda sinaliza seu poderio econômico.
Enfim, essa é uma das leituras que se pode fazer nas férias, nas praias em que João Grilo se banha. Esse João Grilo que sintetiza a inteligência, a criatividade, a imaginação, o conhecimento natural do mundo que o nosso povo tem. É como ter na memória, sentir a intensidade da cultura, ter sempre perto a beleza do bronzeado natural da cor jambo, as cores, o cheiro, o sabor das coisas comuns e simples da vida que se leva naquela região.
À beira-mar, o sonho é doce e não há outra brisa que nos traga maior conforto. E quem mais gosta disso? Raquel de Queiroz também…
“Futurar o Direito”
Na última conversa/entrevista com PELÊ, aprendi algumas novas expressões – como ditos populares – que, além de típicas, parecem revelar significados e sentidos da vida do povo. Tempos depois, fui ler “O Quinze” de Rachel de Queiroz e penso que é possível reunir todas essas imagens em um texto que nos falasse dos “direitos do povo”.
Só que, com referência a PELÊ, trata-se mais do povo trabalhador, oprimido, sofrido, que passa fome, morre de quase tudo e “vive cheio de precisão”. Não precisamos ir tão longe e basta lembrar que a maioria de nós só viu esse quadro social à distância – larga distância.
Nessa história de vida, é fácil perceber que o sofrimento faz perseverar, isto é, insistir, continuar, lutar, persistir – e este é o verbo mais comum da região Nordeste, interior e sertanista. Dentre o povo, alguns dos mais desesperados, sem perspectivas, sedentos de ventos melhores (Aracati), lotam os caminhos rumo ao Sul e ao Sudeste – não há novidade nisso que é “o êxodo rural e regional”. Aliás, até presidente já arribou de lá em pau de arara. Mas a expressão mais interessante que se ouve, dizia que fulano “rompeu desembestado de lá pra cá”. Pois bem, esta é a força real e semântica da migração.
Porém, se o futuro se fecha de vez, sem que haja um mísero clarão a irradiar um caminho menos abrasivo, o que resta é “maldar o que não ocorreu como esperado”. Ou seja, os que trabalham podem maldar o chefe e a burocracia; os demais devem maldar o insucesso, o infortúnio, as injustiças sociais, o desemprego, a periferia da vida e a fome. Neste caso, que é o pior dos casos, só restaria “futurar pelo destino”.
Como se diz por lá, quem não espera pelo desamparo sai em busca de “futurar pelo direito”, isto é, lançar os dados; sondar e manter vivas e acesas as expectativas; projetar para além do imediato. No mau sentido, alguém poderia lembrar que isso é “jogar o verde, para colher o maduro”. Mas não é bem assim, porque se trata de supor, desejar e promover ações em prol do objetivo. O verbo combina com perseverar, que é se manter firme no caminho proposto, tomando atalhos, mas sem perder o prumo.
Nesta busca, primeiro devem-se “futurar as possibilidades”, “perquirir as chances”, para só depois, aí sim, “perseverar pelas finalidades” mais viáveis e previamente erigidas. Vemos claramente que são verbos próprios de quem tem de lutar incessantemente pela vida; verbos intransigentes com a dureza da vida; verbosidade cujas diversidades vêm sempre antes das oportunidades – esta que lhes é uma lei quase inexorável, irredutível. São verbos que combinam com quem tem uma força para viver igualmente inexorável. Na saga d’O Quinze, Raquel de Queiroz (2002) é genial ao resumir em quatro linhas o mesmo sentido.
Em sua clarividência de clássico da literatura, Raquel de Queiroz parece dizer a todos nós, ainda hoje: “A gente precisa criar seu ambiente, para evitar o excessivo desamparo…Suas ideias, suas reformas, seu apostolado…Embora nunca os realize… nem sequer os tente…, mas ao menos os projete e mentalmente os edifique…”[50].
Por fim, ao contrário do que também se possa pensar, futurar o direito é mais do que a “expectativa do direito”; pois, é a demonstração de uma gana suficiente para a fruição (acontecimento) do próprio direito. Trata-se de esperar, mas esperar pondo-se em movimento, promovendo ações em busca do fim que se requer. Portanto, é um propósito, uma crença mais do que razoável, é a saga de um povo na luta contra sua realidade. Como nos diz Raquel de Queiroz, é a gramática dos que não admitem que “o comer era quando Deus fosse servido”. Esse é o próprio sentido de fome eterna ou eternamente miserável.
Além disso tudo, PELÊ repetia um bordão francês (não sabia o nome do “caboclo”[51]) e dizia que “o Brasil não é um país sério”. Repetia isso, mas logo dizia que o brasileiro é um povo alegre e feliz — talvez até demais[52] —, mas não achava que todos fossem bobos. Agora, uma coisa o deixava muito irritado, quando diziam que “o povo corrupto merece o governo que tem”. Aí se enfezava e rebatia dizendo que: “são os pobres que pagam suas contas em dia ou, então, não dormem — cadê que o rico perde seu sono com as dívidas?”.
Nesse sentido, estava certo, porém, acabaria por dar vazão a outro adágio: “o povo brasileiro tem memória curta” (especialmente em política). No geral é isso mesmo, como diz o ditado dos ignorantes: “história é coisa de museu”. O próprio Graciliano Ramos e sua obra brasileiríssima não escapariam a essa regra antissocial brasileira, como retrata Audálio Dantas no livro O chão de Graciliano: “Na vida de Quebrangulo, a escola, cujo nome antes homenageava seu filho mais ilustre, foi renomeada de Escola Mirta Correia da Costa, tributo a uma professora local. Enquanto parentes de Graciliano se revoltaram, os mais novos demonstraram não ter a mais vaga ideia de quem seja o escritor […] A falta de conhecimento se estende para os adultos também, até daquele que ocupa hoje a casa que já foi moradia do escritor”[53]. Deve-se ter claro que esta falta de memória não é uma espécie de vingança ou de desleixo do povo em relação a sua própria cultura. Na verdade, o que ocorre é que aí também se verifica o acento do elitismo cultural e da ausência do Estado nas regiões empobrecidas do país. Mas, tanto lá, quanto cá, o povo segue firme em sua maneira de ser genuína e culta: “Todos os personagens me sensibilizaram, eles têm uma maneira de falar simples, mas uma forma de pensar erudita”[54].
Contudo, quando se trata de política e de eleição, não é tão simples como parece, pois o povo se habituou a ser mineiro, revelando-se mais sábio do que os poucos ditados malfalados: “em eleição e mineração, é melhor esperar a apuração”.
Por fim, vimos com Ianni e, de certo modo, com Cascudo, que Grilo e Malazarte são tipos explicativos da formação da cultura e da sociedade brasileira. Ambos serão, também, uma versão popular do que já foi indicado como os “explicadores do Brasil”.
E PELÊ? Bem, esse é ainda mais achegado, porque agora, no fim da crônica alongada, considero-me seu criador, tenho-o como filho, nesse “matriarcado invertido” também é condição – e é?
Como disse no começo, trata-se de Crônica, Saga, Cordel ou o Retrato da Vida , mas também pode ser um conto: O Conto de PELÊ. Tudo bem, não importa em demasia, desde que você não pense que se trata de mais um conto do viário.
Aliás, você reparou como a história do povo é cheia de “mas” e de “aliás”?
De qualquer modo, a partir de já, PELÊ é o xodó do Brasil: “ame-o ou deixe-o”.
O povo brasileiro me emociona sempre, quando fiz esses rabiscos mais de uma década passada, e hoje, em 2026.
Leitura Complementar
ALENCAR, José, de Alencar. Iracema. 2. ed. Fortaleza-CE: ABC editora, 2001.
CALLADO, Antonio. Quarup. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.
CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.
CHACON, Vamireh. A construção da brasilidade: Gilberto Freyre e sua geração. São Paulo : Marco Zero, 2001.
COUTINHO, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre idéias ideias e formas. Belo Horizonte : Oficina de Livros, 1990.
DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo : Brasiliense, 1985.
DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 11. ed. Rio de Janeiro : Rocco, 2000.
FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 4. ed. São Paulo: Globo, 2001.
FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1986.
IANNI, Octávio. Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.
LIMA, Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo : Objetivo, s/d.
MACHADO, de Assis. A sereníssima República e outros contos. São Paulo: FTD, 1994.
NAVARRO, Fred. Dicionário do Nordeste. São Paulo : Estação Liberdade, 2004.
REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SILVA JUNIOR., Hélio. Anti-racismo: coletânea de leis brasileiras (federais, estaduais, municipais). 1. ed. São Paulo: Oliveira Mendes, 1998.
[1] CASCUDO, Luís da Câmara. Contos Tradicionais do Brasil. 13. ed. São Paulo: Global, 2004, p. 11-12.
[2] Id., 2004, p. 16,
[3] GADELHA, Marcus. Dicionário de Cearês: termos e expressões populares do ceará. 3. ed. Fortaleza: RBS, 2003.
[4] GREENHALGH, Laura. Pedrina, a quilombola. Jornal O Estado de S. Paulo, São Paulo, 2007, p. j8. Disponível em: https://acervo.socioambiental.org/acervo/noticias/pedrina-quilombola. Acesso em: 9 set. 2026.
[5] ANDRADE, Mário de. Contos Novos. 17. ed. Belo Horizonte : Rio de Janeiro : Itatiaia, 1999.
[6] MELO NETO, João Cabral. Morte e vida Severina. 7. imp. 4. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 98.
[7] SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 34. ed. Rio de Janeiro : Agir, 2002, p. 148-149
[8] Id., 2002, p. 121.
[9] LOBATO, Monteiro. O saci. São Paulo : Brasiliense, 2005, p. 14.
[10] Ibid., 2005, p. 22.
[11] Id., p. 37.
[12] Suassuna, op. cit.
[13] Cascudo, op. cit., 2004, p. 174.
[14] CANDIDO, Antonio. O significado de Raízes do Brasil. In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 16-17.
[15] Cascudo, op. cit., 2004, p. 174.
[16] CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. 10. ed. São Paulo: Global, 2001, p. 351-352.
[17] Ainda podemos lembrar que: “Drumond e Murilo Mendes tiveram poemas publicados na Revista de Antropofagia, de Oswald de Andrade e Alcântara Machado, em 1928 e 1929 […]A literatura de 30 teve caráter néo-realista e voltou-se principalmente para os temas regionais, mas não deixou de chegar também às grandes cidades que começavam a se esboçar como metrópoles. A linguagem ousada dos modernistas foi sendo substituída pela direta, com ênfase ao coloquial e popular. Grandes romancistas dessa geração: José Américo de Almeida, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Rachel de Queiroz, Cyro dos Anjos e Jorge Amado”. Veja-se em: http://www.folhetim.com.br/geracaode30.php. IANNI, Octávio. Tipos e mitos do pensamento brasileiro. Sociologias, Porto Alegre, v. 7, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1517-45222002000100008&script=sci_arttext. Acesso em: 9 set. 2026.
[18] RAMOS, Graciliano. Relatórios do prefeito de Palmeira dos Índios. Col. Entre Livros. São Paulo: Record: Duetto, 2006, p. 24.
[19] Ibid., p. 27.
[20] Id., p. 30.
[21] Id., p. 34-35.
[22] Id., p. 36.
[23] Id., p. 37.
[24] Id., p. 50-51.
[25] Id., p. 55.
[26] Id., p. 57.
[27] KOWARICK, Lúcio. Trabalho e vadiagem: a origem do trabalho livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.
[28] VIANNA, Oliveira. Instituições Políticas Brasileiras. (2 volumes). Belo Horizonte : Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Niterói, RJ : Editora da Universidade Federal Fluminense, 1987, p. 95.
[29] Ibid., p. 100.
[30] Id., p. 110.
[31] Id., 102.
[32] Id., p. 110.
[33] Id., p. 254.
[34] Publicado em 1936. AMADO, Jorge. Capitães da Areia. 110. ed. Rio de Janeiro: Record, 2003. ; RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 91. ed. São Paulo: Rio de Janeiro : Record, 2003.
[35] Mais uma publicação da chamada Geração de 30, como se poderá ver a seguir.
[36] CASTRO, Osório Alves de. Porto Calendário. São Paulo: Livraria Francisco Alves, 1961.
[37] DAMATTA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro : Zahar Editores, 1983, p. 46.
[38] Em 1928, em seu atelier de São Paulo, Tarsila esboça uma grande tela (Abaporu), com uma figura solitária, esquisita, pés imensos, sentada numa planície verde.
[39] Não por acaso, o livro estampa a capa de Raízes do Brasil.
[40] VILLALBA, Patrícia. Um Brasil repassado em detalhes. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno D, p. D8, 2007.
[41] É preciso frisar que esta década é a mais rica da história brasileira, uma “década clássica”, que ainda contaria com a chamada Revolução de 1930, com a ascensão de Getúlio Vargas. É desse período, por exemplo, a inauguração do Aeroporto de Congonhas (1936). Na educação é lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (Candido, op. cit., 1995, p. 9).
[42] Candido, op. cit., 1995, p. 10.
[43] FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. In: Intérpretes do Brasil. v. 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2002.
[44] SCHWARCZ, Lillia Moritz. Sobrados e Mucambos – obra para ser lida comendo pipocas. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno D, p. D11, 2007.
[45] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 41-42.
[46] IANNI, Octávio. A ideia de Brasil moderno. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 41.
[47] Id., p. 29-47.
[48] Ianni, op. cit., 2002.
[49] LIMA, João Ferreira de. Proezas de João Grilo. Fortaleza/CE: Academia Brasileira de Cordel: Ban Gráfica, 2002, p. 1.
[50] QUEIROZ, Raquel de. O quinze. 73. ed. São Paulo: ARX, 2002, p. 125.
[51] Foi o general francês Charles De Gaulle.
[52] Aqui adora-se o sexo, o carnaval e o futebol. Aliás, não haveria problema nenhum nisso, desde que também adorássemos a Justiça, a Ética, a Educação…
[53] DEL RÉ, Adriana. Seguindo os passos de Graciliano. Jornal O Estado de S. Paulo, Caderno D, p. D6, 2007.
[54] Ibid.




