É deseducado e pouco científico dizermos que praticamos uma Ciência boquirrota e rega bofe, porém, é urgente provarmos ao povo que a Ciência não se limitou ao antepasto.
Sendo assim, que se prove que o poder estabelecido – o poder da prescrição e do status quo – não é o antepasto da Ciência e dos seus glorificados atos elitistas.
Se a Ciência produzida não atende aos interesses populares, da sociedade, então, satisfaz a quem?
Quem pode se dizer satisfeito, por exemplo, com o desenvolvimento atual da Inteligência Artificial?
Qual Ciência é desenvolvida se não granjeia simpatias do mercado e aportes do capital?
Aliás, será que temos a devida percepção (honestidade intelectual) de que existem Humanidades, Ciências Sociais, e não somente a visão hegemônica das rubricas robóticas que estimulam as chamadas “Ciências duras”?
Como é de se esperar que a resposta seja não, pois, socialmente, o capital vem se encarregando há séculos em desfazer o status da Filosofia e da Sociologia – talvez remonte até mesmo à Física Social, de Comte –, no Brasil, o médico e o advogado viraram doutores, sem sequer terem feito mestrado.
Esse é, sem dúvida, um status advogado pelo poder e, o mais sintomático, é um status nobiliárquico atribuído a pessoas que jamais fizeram uma pesquisa científica – ou minimamente honesta e condizente com os requisitos científicos
Já quem tem doutorado em Humanidades ou Ciência Social se mantém com empregos uberizados, com salários sucateados, afinal, para o Brasil de 2026, fechando o primeiro quarto do século XXI, a Ciência Social não é científica. E por mais que o título (Doutor em Ciências Sociais) teime em provar o contrário.
Outra forma de explicar isso é pela metodologia, porque o Positivismo (“ordem e progresso”) se ajusta, sempre se justou, muito bem ao controle social e à extração de mais valia: alguém é o sujeito do mando, enquanto outros são objetos da produção. Um “cientista” da produção está na bancada, ao passo que outros são experimentos.
Não foi assim com o taylorismo?
Não fomos e somos objetos de experimentação social?
Então, qual cientista sente valorização, dignidade no esforço do seu talento e trabalho, se temos 40 mil doutores desempregados ou em caráter de subemprego?
Qual Ciência chega até às nossas escolas públicas, se do outro lado do balcão está a educação financeira, o ensino religioso e a motivação cívico-militar?
Esta será a Ciência da ordem unida?
Existirá algo mais ideológico e menos científico – pela força conceitual – do que essa “ordem unida” nas origens do pensamento (e que deveria ser livre)?
Diante da nossa sociedade de classes (“autocracia de classe”), quantos negros, indígenas, quilombolas chegam à universidade?
O quanto dessa vivência, história, cultura, conhecimento, de quem consegue furar a bolha eurocêntrica, é minimamente escutado, recebido, pensado?
Quantas mulheres negras são doutoras?
Quantas mulheres negras são docentes em universidades públicas?
Quantas doutoras negras completam a progressão da carreira docente?
Quantas doutoras negras ocupam postos de chefia nos centros de pesquisa, nos institutos federais e nas universidades públicas?
Quantas PCDs têm acessibilidade, inclusão e permanência, no ambiente acadêmico?
Quantas PCDs fazem doutorado e quantas conseguem furar o funil capacitista para se tornarem docentes em universidades públicas?
Se o conhecimento, a massa crítica da Ciência, requer inteligência, criatividade, astúcia e crítica capaz, por que a dupla excepcionalidade é punida, abafada, excluída?
É possível que a universidade pública tenha medo da inteligência? Ou será pavor diante da neurodivergência ao reprodutivismo, aliado do capital degenerativo?
Como é que cientistas brancos (escolarizados, elitizados), com algum bônus social, cultural e econômico, em sã consciência – no sentido de ethos, convivialidade –, podem se satisfazer (“cientificamente”) sendo mero reprodutores da Sociedade de Controle?
Não seria essa a mais descontrolada das Ciências, sem sociabilidade alguma?
E não advirá daí, também, a falta de entendimento mediano de sua importância social e que resulta na ausência de confiança popular nas universidades públicas?
O que fazer?
A primeira constatação está no reconhecimento (validação) das Ciências Sociais e da sua natural complexidade investigativa e analítica. Apartando-se do acolchoado positivista e complacente, determinado unicamente pelos ganhos de capital.
Definitivamente, não faremos Ciência sem entender as contradições processuais, as negações sistêmicas, as exclusões sistemáticas.
Pois, é neste sentido que se instituiu a ideia (dialética) de que uma Tese em Humanidades ou em Ciências Sociais só poder – por obrigação à lógica – ser uma antítese.
No popular, entendemos que não haverá uma “Ciência Social de direita”.
Mas, isso é no popular, uma vez que pela epistemologia meridiana, de alcance normal, não há Ciência que se justifique (valide-se) se continua a operar na sintonia da misantropia.
Tanto quanto, de modo específico, não haverá Ciência Social digna desse diploma se recebe em contentamento a injustiça social, a segregação, a negação do ser social. O racismo e todos os demais ismos entram aqui.
Portanto, estaríamos tratando da formação dos cientistas, das mulheres cientistas, e isto nos remete à educação de base – se não do berço. Falamos da Educação, maiúscula, destinada à Emancipação (maiúscula), e que não se contenta com a autonomia cognitiva de cientistas que, livremente, optam pelo desenvolvimento do capital, em negação à sociedade cindida em profunda luta de classes – e pressionada pela sobrevivência da imensa maioria do povo negro, pobre e oprimido.
É claro que estamos no campo da luta política.
A luta política pela descompressão não tem fronteiras e se apresenta como campo de luta (com suas especificidades) nos universos da Ciência, tanto quanto está nos espaços da Educação libertária e no Legislativo. Aliás, é no Legislativo que se destinam recursos (ou não) à Ciência e à Educação.
Portanto, é fácil perceber que se trata de uma única luta política. Foi apresentada em partes apenas para contribuir com o entendimento.
@viniciocarrilhomartinez




