sexta-feira, setembro 18, 2026
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PELÊ Um livro-cordel sobre o Brasil

Neste texto, postado abaixo, você terá um pouco de Brasil:

– MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Pelê Um Livro-Crônica do Brasil:* Crônica, Saga, Conto, Mito, Lenda, Autobiografia, Artigo, Narrativa, Cordel Urbano ou Retrato da Vida do Pobre no Brasil. São Carlos: KDP, 2026. Disponível em:https://a.co/d/03Zh7ksm

No livro, você não verá respostas prontas sobre o pior escândalo moral do STF, não encontrará respostas prontas para entender o pior Congresso Nacional da nossa história, não terá respostas prontas acerca das bombas detonadas todos os dias em Brasília. Porém, poderá ler algo sobre os vírus que infestam a Formação social brasileira e que sempre eclodem no miolo da política nacional.

Como se sabe, não há geração espontânea ou autocombustão, porque tudo é processual. Para o bem e para o mal, como um pharmakón (remédio ou veneno), a política está no centro da sociabilidade humana e nada vem pronto e acabado. Como nos ensinaram os mais antigos, para melhorar, é preciso ir melhorando, melhorando-se. Este é o papel da Educação, “fazendo-se ação transformadora”.

Fique agora com o Prefácio.

PREFÁCIO

Há livros que a gente lê para aprender alguma coisa. Outros, para lembrar. E há aqueles que nos fazem parar no meio da leitura e pensar: “Eu conheço essa gente”.

Este é um desses livros.

PELÊ não é apenas um personagem. Ele é uma mistura de muitas pessoas, de muitos lugares e de muitas histórias que fazem parte do Brasil. É o sujeito da rua, da ladeira, do interior, da praia, do trabalho, da conversa, do cordel e da vida simples. É aquele que sabe muito sem necessariamente ter passado pelos livros. E talvez seja justamente por isso que tenha tanto a dizer.

Ao longo destas páginas aparecem PELÊ, João Grilo, Pedro Malazarte, Mazzaropi e tantos outros. Aparecem também escritores, personagens, ditados, histórias populares, lembranças e situações que parecem pequenas, mas que acabam dizendo muito sobre quem somos. O livro mistura tudo isso sem muita cerimônia, como acontece na própria vida.

Há humor, mas não é apenas humor. Há lembranças, mas não é apenas memória. Há literatura, mas não é somente literatura. Há reflexão sobre o Brasil, sobre o povo, sobre a pobreza, sobre a cultura, sobre a política, sobre a esperteza, sobre a cordialidade e, principalmente, sobre a capacidade de continuar vivendo apesar das dificuldades.

Talvez essa seja uma das maiores riquezas deste livro: olhar para o Brasil por meio daqueles que muitas vezes não aparecem nos grandes retratos. Gente comum, trabalhadora, sofrida, alegre, esperta, contraditória. Gente que inventa palavras, conta causos, faz graça, enfrenta a vida e encontra um jeito de seguir em frente.

PELÊ nasceu dessa mistura. Por isso, não é fácil dizer exatamente o que ele é. Talvez seja mesmo melhor não tentar. O próprio livro nos convida a aceitar essa mistura e a caminhar por ela.

Aqui, o leitor encontrará um Brasil contado de um jeito muito particular: com seriedade quando é preciso, mas sem abandonar o bom humor; com referências aos grandes intérpretes do país, mas também com a sabedoria das ruas; com literatura e memória, mas sempre com os pés no chão.

E talvez, no fim, a maior surpresa seja perceber que PELÊ não está tão distante de nós.

Ele pode estar no amigo, no vizinho, no trabalhador que passa todos os dias, naquele personagem que conhecemos desde criança ou até em nós mesmos.

É por isso que este não é apenas um livro sobre PELÊ.

É um livro sobre gente.

Sobre o Brasil.

E sobre as histórias que, de tanto serem contadas, acabam contando também quem somos.

E agora conclua sua leitura inicial com o Posfácio.

Posfácio

Este texto se constrói como um livro-crônica, ou Cordel Urbano, a partir de um olhar universitário que busca pensar a cidade e a cultura popular com afeto. Nele, os ditados, o humor e o folclore surgem não como elementos menores, mas como afirmação do “direito à cultura do bom humor” da gente simples e desafetada. Essa perspectiva se aproxima da apresentada por Luís da Câmara Cascudo, para quem o folclore é a psicologia coletiva e a verdadeira “História Normal do Povo”, construída paralelamente ao pensamento intelectual letrado.

É nesse contexto que surge PELÊ, apresentado como um novo tipo social e uma “miscigenação melhorada desde Macunaíma”. Essa tal “melhoria” não deve ser compreendida como uma virtude moral ingênua, mas como uma forma de evidenciar como a própria estrutura social condiciona e limita as possibilidades dos sujeitos. Se em Macunaíma a preguiça acabou se sobrepondo à astúcia, levando à vadiagem, PELÊ se consolida como um “trabalhador-batalhador”, marcado pela lida dura da rua e pela entrega de jornais na “Vila sem Vintém”.

Ao lado de João Grilo e Pedro Malazarte, a ginga de PELÊ e sua esperteza de “mussum ensaboado” funcionam como uma espécie de “método” de sobrevivência social diante das desigualdades. A partir disso, a obra tensiona a ideia de “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, evidenciando o conflito entre o afeto pessoal e a impessoalidade das instituições. Essa contradição ajuda a compreender a permanência de práticas como o autoritarismo e o nepotismo, sintetizados no adágio de Graciliano Ramos: “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei!”.

Frente a esse cenário, destaca-se também a resistência da população trabalhadora, mais do que esperar passivamente por mudanças, trata-se de projetar possibilidades, persistir diante das dificuldades e construir uma perspectiva de dignidade. É uma prática que não ignora as dificuldades e a fome, mas recusa que essas condições definam por completo o futuro.

Assumido pelo autor como o “xodó do Brasil”, PELÊ se apresenta como uma criação marcada pelo afeto e pela identificação com a gente comum. Sua trajetória evidencia como a cultura popular também produz conhecimento sobre a própria realidade, mostrando que a simplicidade da fala cotidiana não significa ausência de profundidade. Pelo contrário, é também nessa linguagem que aparecem formas de compreender o país, suas desigualdades e suas contradições. Para quem desejar aprofundar essa leitura, a bibliografia a seguir funciona como um convite para continuar pensando as raízes da formação social brasileira.

Leitura Complementar

ALENCAR, José, de Alencar. Iracema. 2. ed. Fortaleza-CE: ABC editora, 2001.

CALLADO, Antonio. Quarup. 11. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

CHACON, Vamireh. A construção da brasilidade: Gilberto Freyre e sua geração. São Paulo : Marco Zero, 2001.

COUTINHO, Carlos Nelson. Cultura e sociedade no Brasil: ensaios sobre idéias ideias e formas. Belo Horizonte : Oficina de Livros, 1990.

DAMATTA, Roberto. A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil. São Paulo : Brasiliense, 1985.

DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? 11. ed. Rio de Janeiro : Rocco, 2000.

FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio. 4. ed. São Paulo: Globo, 2001.

FAUSTO, Boris. A revolução de 1930: historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1986.

IANNI, Octávio. Ensaios de sociologia da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991.

LIMA, Barreto. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo : Objetivo, s/d.

MACHADO, de Assis. A sereníssima República e outros contos. São Paulo: FTD, 1994.

NAVARRO, Fred. Dicionário do Nordeste. São Paulo : Estação Liberdade, 2004.

REIS, João José. Rebelião Escrava no Brasil: a história do levante dos Malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

SILVA JUNIOR., Hélio. Anti-racismo: coletânea de leis brasileiras (federais, estaduais, municipais). 1. ed. São Paulo: Oliveira Mendes, 1998.

 

Marcela Schiavi

Doutora em Ciência, Tecnologia e Sociedade/UFSCar

Ester Dias da Silva Batista

Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 

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