quarta-feira, agosto 26, 2026
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FICHAMENTO PEDAGOGIA DO OPRIMIDO

 

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

@viniciocarrilhomartinez

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 14. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

 

A consciência é a consciência da consciência

Paulo Freire

 

Essa leitura, recortada, tem a perspectiva de uma epistemologia mais específica, que é atrelada a uma Sociologia Política da Educação. O Objetivo é destacar a Emancipação. Este fichamento é diferente em alguns aspectos – surgiu para um propósito e agora serve a outro e, por isso, há duas referências, foram utilizadas duas publicações do livro Pedagogia do Oprimido. O fichamento teve por base, originariamente, atender à necessidade de duas pesquisas de pós-doutorado em Ciência Política[1] e, agora, objetiva compor um lastro de material didático na disciplina de Educação e Sociedade. Além disso, não foi realizado por especialista em Paulo Freire, mas sim, por um cientista social.

O fichamento tem palavras-chave como título, as mesmas que orientaram o autor em suas pesquisas iniciais: as citações diretas, os recortes, não seguem a cronologia costumeira, pois estão alinhadas em relação às temáticas das palavras-chave. Procurou-se seguir a lógica da reversão, da negação à negação da negação: do “menos Homem, para o mais Homem”. Por fim, após uma longa citação acerca da ideia da Emancipação, trazemos a sugestão para que se construa um texto autoral, interpretativo e propositivo. Portanto, pode-se dizer que o fichamento é híbrido desde a origem e que foi realizado em vários momentos.

 

Nenhuma ordem opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: “Por quê”? (Freire, 1985)

 

  • Violência societal

“É que, para eles, pessoa humana são apenas eles. Os outros, estes são coisas. Para eles, há um só direito – o seu direito de viverem em paz, ante o direito de sobreviverem, que talvez nem sequer reconheçam, mas somente admitam aos oprimidos” (Freire, 1985, p. 48).

“Esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressores uma consciência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens” (Freire, 1985. p. 48).

 

“Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando” (Freire, 1985, p. 49).

  • Objetificação

“Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo em seu poder de compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal (Freire, 1985. p. 49 – grifo nosso).

 

  • Consciência indireta

“Este fatalismo, às vezes, dá a impressão, em análises superficiais, de docilidade, como caráter nacional, o que é um engano. Este fatalismo, alongado em docilidade, é fruto de uma situação histórica e sociológica e não um traço essencial da forma de ser do povo” (Freire, 1985, p. 52).

 

“Ordem’ que, frustrando-se no seu atuar, muitas vezes os leva a exercer um tipo de violência horizontal com que agridem os próprios companheiros. […] Ao agredirem seus companheiros oprimidos estarão agredindo neles, indiretamente, o opressor também ‘hospedado’ neles e nos outros. Agridem como opressores, o opressor nos oprimidos” (Freire, 1985, p. 53).

 

“Dentro dos marcos concretos em que se fazem duais é natural que descreiam de si mesmos […]. Têm uma crença difusa, mágica, na invulnerabilidade do opressor […]. Nisto reside sua ‘conivência’ com o regime opressor” (Freire, 1985, p. 54-55).

 

  • Contradição insolúvel

“Seria uma contradição se os opressores, não só defendessem, mas praticassem uma educação libertadora” (Freire, 1985, p. 43).

 

  • Da opressão

“A situação de opressão em que se ‘formam’, em que ‘realizam’ sua existência, os constitui nesta dualidade, na qual se encontram proibidos de ser” (Freire, 1985, p. 4 – grifo nosso).

 

“[…] Numa atitude em que manifestaram o seu ‘medo da liberdade’, se referem ao que chamam de ‘perigo da conscientização’. ‘A consciência crítica […dizem…] é anárquica’. Ao que outros acrescentam: ‘Não poderá a consciência crítica conduzir à desordem [?]” (Freire, 1985, p. 19).

 

“Talvez seja eu, entre os senhores, o único de origem operária. Não posso dizer que haja entendido todas as palavras que foram ditas aqui, mas uma coisa posso afirmar: cheguei a esse curso, ingênuo e, ao descobrir-me ingênuo, comecei a tornar-me crítico. Esta descoberta, contudo, nem me faz fanático, nem me dá a sensação de desmoronamento” (Freire, 1985, p. 20).

 

  • Injustiça social/moral

“A ‘ordem’ social injusta é a fonte geradora, permanente, desta ‘generosidade’ que se nutre da morte, do desalento e da miséria” (Freire, 1985, p. 31).

 

“Raros são os camponeses que, ao serem ‘promovidos’ a capatazes, não se tornam mais duros opressores de seus antigos companheiros do que o patrão mesmo” (Freire, 1985, p. 34).

 

“Nos oprimidos, o medo da liberdade é o medo de assumi-la. Nos opressores, é o medo de perder a ‘liberdade’ de oprimir” (Freire, 1985, p. 34).

 

  • Prescrição

Toda prescrição é a imposição da opção de uma consciência a outra […]. Por isto, o comportamento dos oprimidos é um comportamento prescrito” (Freire, 1985, p. 34-35 – grifo nosso).

 

“Não é ideia que se faça mito” (Freire, 1985, p. 35).

 

Querem ser, mas temem ser. São eles e ao mesmo tempo são o outro introjetado neles, como consciência opressora […] Entre seguirem prescrições ou terem opções […]. A libertação, por isto, é um parto. E um parto doloroso […]. A superação da contradição é o parto que traz ao mundo este homem novo não mais opressor; não mais oprimido, mas homem libertando-se” (Freire, 1985, p. 36 – grifo nosso).

 

Não basta saberem-se numa relação dialética com o opressor – seu contrário antagônico – descobrindo, por exemplo, que sem eles o opressor não existiria [Hegel] para estarem de fato libertados. É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora […]. A solidariedade, exigindo de quem se solidariza, que “assuma” a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical” (Freire, 1985, p. 37 – grifo nosso).

 

Da mesma forma como é, em uma situação concreta – a da opressão – que se instaura a contradição opressor-oprimidos, a superação desta contradição só se pode verificar objetivamente também” (Freire, 1985, p. 38 – grifo nosso).

 

“É que a realidade opressora, ao constituir-se como um quase mecanismo de absorção dos que nela se encontram, funciona como uma força de imersão das consciências” (Freire, 1985, p. 39-40 – grifo nosso).

 

“Arquivados, porque, fora da busca, fora da práxis, os homens não podem ser” (Freire, 1985, p. 66).

 

  • Sectarização

“É que a sectarização é sempre castradora, pelo fanatismo de que se nutre […]. A sectarização, porque mítica e irracional, transforma a realidade numa falsa realidade, que, assim, não pode ser mudada. Parta de quem parta, a sectarização é um obstáculo à emancipação dos homens […]. Não são raros os revolucionários que se tornam reacionários pela sectarização em que se deixam cair, ao responder à sectarização direitista” (Freire, 1985, p. 22 – grifo nosso).

 

“E esta não é a dos homens [verdade] na luta para construir o futuro, correndo o risco desta própria construção […] o homem de esquerda que se sectariza e também se encerra, é a negação de si mesmo […]. “Sofrem ambos da falta de dúvida” […]. Se a sectarização, como afirmamos, é o próprio do reacionário, a radicalização é o próprio do revolucionário” (Freire, 1985, p. 23-24 – grifo nosso).

 

  • Dialética

“É que, para ele, o aspecto subjetivo toma corpo numa unidade dialética com a dimensão objetiva da própria ideia, isto é, com os conteúdos concretos da realidade sobre a qual exerce o ato cognoscente. Subjetividade e objetividade, desta forma, se encontram naquela unidade dialética de que resulta um conhecer solidário com o atuar e este com aquele. É exatamente esta unidade dialética a que gera um atuar e um pensar certos na e sobre a realidade para transforma-la” (Freire, 1985, p. 23 – grifo nosso).

 

  • Dialogicidade

O diálogo crítico e libertador, por isso mesmo que supõe a ação, tem de ser feito com os oprimidos, qualquer que seja o grau em que esteja a luta por sua libertação” (Freire, 1985, p. 56 – grifo nosso).

 

  • Hominização

“O problema de sua humanização, apesar de sempre dever haver sido, de um ponto de vista axiológico, o seu problema central, assume, hoje, caráter de preocupação ineludível” (Freire, 1985, p. 29).

 

Mais uma vez os homens, desafiados pela dramaticidade da hora atual, se propõem, a si mesmos, como problema” (Freire, 1985, p. 29 – grifo nosso).

 

“Humanização e desumanização, dentro da história, num contexto real, concreto, objetivo, são possibilidades dos homens como seres inconclusos e conscientes de sua inconclusão” (Freire, 1985, p. 30).

“E aí está a grande tarefa humanista e histórica dos oprimidos – libertarem-se a si e aos opressores” (Freire, 1985, p. 31).

 

  • Ação política

“Estamos convencidos […] de que a reflexão se realmente reflexão, conduz à prática. Por outro lado, se o momento já é o da ação, esta se fará autêntica práxis se o saber dela resultante se faz objeto da reflexão crítica” (Freire, 1985, p. 57).

 

“A ação política junto aos oprimidos tem de ser, no fundo, ‘ação cultural’ para a liberdade, por isso mesmo, ação com eles” (Freire, 1985, p. 57).

 

“Não podemos esquecer que a libertação dos oprimidos é libertação de homens e não de ‘coisas” […]. Não se pode realizar com os homens pela metade” (Freire, 1985, p. 58).

 

“Há uma quase enfermidade da narração. A tônica da educação é preponderantemente esta – narrar, sempre narrar” (Freire, 1985, p. 65).

 

“Há uma quase enfermidade da narração. A tônica a educação é preponderantemente esta – narrar, sempre narrar” (Freire, 1985, p. 65).

 

“Só existe saber na invenção, na reivindicação, na busca inquieta, impaciente, permanente, que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. Busca esperançosa também” (Freire, 1985, p. 66).

 

  • Práxis

“Somente na sua solidariedade, em que o subjetivo constitui com o objetivo uma unidade dialética, é possível a práxis autêntica […]. A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transforma-lo” […]. Por isto, inserção crítica e ação já são a mesma coisa (Freire, 1985, p. 40 – grifo nosso).

 

“O que lhe interessa […] é a permanência delas [pessoas] em seu estado de ‘imersão’ em que, de modo geral, se encontram impotentes em face da realidade opressora, como ‘situação limite’, que lhes parece intransponível” (Freire, 1985, p. 41).

“Mas, a ação só é humana quando, mais que um puro fazer, é um que fazer, isto é, quando também não se dicotomiza da reflexão […] ‘ativar conscientemente o desenvolvimento ulterior da experiência” (Freire, 1985, p. 42).

 

  • Pedagogia libertadora

“Somente na medida em que se descubram ‘hospedeiros’ do opressor poderão contribuir para o planejamento de sua pedagogia libertadora” (Freire, 1985, p. 32).

 

“A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí […]. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção” (Freire, 1985, p. 43).

 

“A pedagogia do oprimido, como pedagogia humanista e libertadora, terá dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão comprometendo-se na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transformada a realidade opressora, esta pedagogia deixa de ser do oprimido e passa a ser a pedagogia dos homens em processo de permanente libertação” (Freire, 1985, p. 44).

 

“Quem inaugura a negação dos homens não são os que tiveram a sua humanidade negada, mas os que a negaram, negando também a sua. Quem inaugura a força não são os que se tornaram fracos sob a robustez dos fortes, mas os fortes que os debilitaram” (Freire, 1985, p. 45).

 

“Não haveria oprimidos, se não houvesse uma relação de violência que os conforma como violentados, numa situação objetiva de opressão” (Freire, 1985, p. 45).

 

“Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão. Por isso é que, somente os oprimidos, libertando-se, podem libertar os opressores” (Freire, 1985, p. 46).

 

  • Revolução

“Implica na revolução que, estagnando-se, volta-se contra o povo, usando o mesmo aparato burocrático, repressivo do Estado, que devia ter sido radicalmente suprimido, como tantas vezes salientou Marx” (Freire, 1985, p. 47).

 

Citando a nota de rodapé: “Implica na revolução que, estagnando-se, volta-se contra o povo, usando o mesmo aparato burocrático, repressivo do Estado, que devia ter sido radicalmente suprimido, como tantas vezes salientou Marx” (Freire, 1985, p. 47).

 

“Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser […]. No momento, porém, em que o novo poder se enrijece em ‘burocracia’ dominadora, se perde a dimensão humanista da luta e já não se pode falar em libertação” (Freire, 1985, p. 47).

 

  • Educação e sociedade

“Pelo contrário, refletindo a sociedade opressora, sendo dimensão da ‘cultura do silêncio’, a ‘educação’ ‘bancária’ mantém e estimula a contradição” (Freire, 1985, p. 67).

 

“Daí que tal forma de educação implique na superação da contradição educador-educandos, de tal maneira que se façam ambos, simultaneamente, educadores e educandos” (Freire, 1985, p. 67).

 

“Como marginalizados, ‘seres fora de’ ou ‘à margem de’, a solução para eles estaria em que fossem ‘integrados’, ‘incorporados’ à sociedade sadia de onde um dia ‘partiram’, renunciando, como trânsfugas, a uma vida feliz […]. Na verdade, porém, os chamados marginalizados, que são os oprimidos, jamais estiveram fora de. Sempre estiveram dentro de. Dentro da estrutura que os transforma em ‘seres para outro” (Freire, 1985, p. 69).

 

“Por isso mesmo é que reagem, até institivamente, contra qualquer tentativa de uma educação estimulante do pensar autêntico, que não se deixa emaranhar pelas visões parciais da realidade, buscando sempre os nexos que prendem um ponto a outro, ou um problema a outro” (Freire, 1985, p. 69).

 

“Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos […]. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador” (Freire, 1985, p. 71).

 

“Sua ação, identificando-se, desde logo, com a dos educandos, deve orientar-se no sentido da humanização de ambos […]. Sua ação deve estar infundida da profunda crença nos homens. Crença no seu poder criador” (Freire, 1985, p. 71).

 

  • Alienação

“Sugere uma dicotomia inexistente homens-mundo. Homens simplesmente no mundo e não com o mundo e com os outros. Homens espectadores e não recriadores do mundo” (Freire, 1985, p. 71).

 

  • Superação

Sem esta [superação], não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em torno do mesmo objeto cognoscível” (Freire, 1985, p. 78- grifo nosso).

 

  • Libertação

A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica na ação e na reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo […] a consciência é consciência da consciência (Freire, 1985, p. 77 – grifo nosso).

 

  • Libertação/emancipação

“Neste sentido, em si mesma, esta realidade é funcionalmente domesticadora. Libertar-se de sua força exige, indiscutivelmente, a emersão dela, a volta sobre ela” (Freire, 1985, p. 40).

 

  • Emancipação

“Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora?” (Freire, 1985, p. 32).

 

“No primeiro momento, por meio da mudança da percepção do mundo opressor por parte dos oprimidos; no segundo, pela expulsão dos mitos criados e desenvolvidos na estrutura opressora e que se preservam como aspectos míticos, na estrutura nova que surge da transformação revolucionária” (Freire, 1985, p. 44).

 

“A luta por esta reconstrução começa no auto reconhecimento de homens destruídos” (Freire, 1985, p. 60).

 

“Não podem perceber, na situação opressora em que estão, como usufrutuários, que, se ter é condição para ser, esta é uma condição necessária a todos os homens […]. Por isso tudo é que a humanização é uma ‘coisa’ que possuem como direito exclusivo, como atributo herdado. A humanização é apenas sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão” (Freire, 1985, p. 49 – grifo nosso).

 

“Se a humanização dos oprimidos é subversão, a sua liberdade também o é” (Freire, 1985, p. 50).

 

“Daí que vão se apropriando, cada vez mais, da ciência também, como instrumento para suas finalidades. Da tecnologia, que usam como força indiscutível de manutenção da ‘ordem’ opressora, com a qual manipulam e esmagam. Os oprimidos como objetos, como quase ‘coisas’, não têm finalidades. As suas, são as finalidades que lhes prescrevem os opressores” (Freire, 1985, p. 50).

 

“Fazer esta adesão e considerar-se proprietário do saber revolucionário, que deve, desta maneira, ser doado ou imposto ao povo, é manter-se como era antes” (Freire, 1985, p. 51).

 

“Isto implica no reconhecimento crítico, na ‘razão’ desta situação, para que através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra” (Freire, 1985, p. 35).

 

É como homens que os oprimidos têm de lutar e não como coisas” (Freire, 1985, p. 60 – grifo nosso).

 

Os freios que os antigos oprimidos devem impor aos antigos opressores para que não voltem a oprimir não são opressão daqueles a estes […]. Por esta razão, estes freios, que são necessários, não significam, em si mesmos, que os oprimidos de ontem se tenham transformado nos opressores de hoje” (Freire, 1985, p. 46-47 – grifo nosso).

 

A seguir tentaremos indicar a construção da ideia de Emancipação, não muito bem distinta por Paulo Freire em relação à Liberdade e à Autonomia, a partir de uma longa citação do próprio autor.

 

  • A emancipação é humana e processual

Ao se instalarem na quase, senão trágica, descoberta do seu pouco saber de si, se fazem problema a eles mesmos. Indagam. Respondem, e suas respostas os levam a novas perguntas […]. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos […]. Só o poder que nasça da liberdade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos […]. Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegaram pelo acaso, mas pela práxis de sua busca: pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela […]. Ninguém tem liberdade para ser livre; pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem […]. Daí a necessidade que se impõe de superar a situação opressora. Isso implica o reconhecimento crítico, a ‘razão’ desta situação, para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais […]. Descobrem que, não sendo livres, não chegam a ser autenticamente […]. Sua luta se trava entre serem eles mesmos ou serem duplos […]. Entre seguirem prescrições ou terem opções. Entre serem espectadores ou atores […]. A libertação, por isso, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos […]. É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora […]. A solidariedade, exigindo de quem se solidariza que ‘assuma’ a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical […]. Roubados na sua palavra, por isto no seu trabalho comprado, que significa a sua pessoa vendida […]. Da mesma forma como é em uma situação concreta – a da opressão – que se instaura a contradição opressor-oprimidos, a superação desta contradição só se pode verificar objetivamente também […]. Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Não há uma sem a outra, que não podem ser dicotomizadas […]. A realidade social, objetiva, que não existe por acaso, mas como produto da ação dos homens, também não se transforma por acaso. Se os homens são os produtores desta realidade e se esta, na ‘inversão da práxis’, se volta sobre eles e os condiciona, transformar a realidade opressora é tarefa histórica, é tarefa dos homens […]. A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo […]. Desta forma, esta superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela. Por isto, inserção e ação já são a mesma coisa […]. Quanto mais as massas populares desvelam a realidade objetiva e desafiadora sobre a qual elas devem incidir sua ação transformadora, tanto mais se ‘inserem’ nela criticamente […]. De qualquer forma, o dever que Lukács reconhece ao partido revolucionário de ‘explicar às massas a sua ação’ coincide com a exigência que fazemos da inserção crítica das massas na sua realidade através da práxis, pelo fato de nenhuma realidade se transformar a si mesma. A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí […]. Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção […] No primeiro momento, por meio da mudança da percepção do mundo opressor por parte dos oprimidos; no segundo, pela expulsão dos mitos criados e desenvolvidos na estrutura opressora e que se preservam como espectros míticos, na estrutura nova que surge da transformação revolucionária […]. Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão […]. Os oprimidos de ontem, que detêm os antigos opressores na sua ânsia de oprimir, estarão gerando, com seu ato, liberdade, na medida em que, com ele, evitam a volta do regime opressor. Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que o cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser […]. Se a humanização dos oprimidos é subversão, sua liberdade também o é […]. Os que passam têm de assumir uma forma nova de estar sendo; já não podem atuar como atuavam; já não podem permanecer como estavam sendo […] ninguém se liberta sozinho […]. Nenhuma ‘ordem’ opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: ‘Por que?’ […]. No processo revolucionário, a liderança não pode ser ‘bancária’, para depois deixar de sê-lo […]. Mas, se os homens são seres do quefazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo […]. O que fazer é teoria e prática […]. O que não se pode realizar, na práxis revolucionária, é a divisão absurda entre a práxis da liderança e a das massas oprimidas, de forma que a destas fosse a de apenas seguir as determinações da liderança […]. Estamos convencidos de que o diálogo com as massas populares é uma exigência radical de toda revolução autêntica. Ela é revolução por isto […]. Se, na educação como situação gnosiológica[2], o ato cognoscente do sujeito educador (também educando) sobre o objeto cognoscível não morre, ou nele se esgota, porque, dialogicamente, se estende a outros sujeitos cognoscentes, de tal maneira que o objeto cognoscível se faz mediador da cognoscibilidade dos dois, na teoria da ação revolucionária se dá o mesmo […]. É que a liderança não pode pensar sem as massas, nem para elas, mas com elas […]. A revolução se gera nela como ser social e, por isto, na medida em que é ação cultural, não pode deixar de corresponder às potencialidades do ser social em que se gera […]. É que todo ser se desenvolve (ou se transforma) dentro de si mesmo, no jogo de suas contradições (Freire, 2022, p. 39-183).

 

Uma experiência pedagógica e necessária, neste momento, levaria à construção de um texto autoral, como reflexão pessoal de quem se apoderou do fichamento; se não fosse do fichamento todo, já seria muito válido refletir e escrever sobre a emancipação nesta última e mais longa citação de Paulo Freire. A chave de toda a compreensão está na passagem em que afirma que “a consciência é a consciência da consciência” (Freire, 2022, p. 94). Ou, como diz longamente Paulo Freire, trata-se de uma epistemologia política da Emancipação:

 

Os temas, em verdade, existem nos homens, em suas relações com o mundo, referidos a fatos concretos […]. A investigação temática se faz, assim, um esforço comum de consciência da realidade e de autoconsciência, que a inscreve como ponto de partida do processo educativo, ou da ação cultural de caráter libertador […]. A investigação temática, que se dá no domínio do humano e não no das coisas, não pode reduzir-se a um ato mecânico […]. Não posso investigar o pensar dos outros, referido ao mundo, se não penso. Mas, não penso autenticamente se os outros também não pensam. Simplesmente, não posso pensar pelos outros nem para os outros, nem sem os outros. A investigação do pensar do povo não pode ser feita sem o povo, mas com ele, como sujeito do seu pensar (Freire, 2022, p. 137-141).

 

Este é o convite, pensar o povo com o povo.

E você, qual pergunta faria ao povo brasileiro? O que lhe diria?

[1] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Educação e Sociedade. São Carlos: Amazon, Ebook Kindle, 2025a. Disponível em: https://a.co/d/393SyBS.

MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025b. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.

[2] Como teoria do conhecimento de forma irrestrita – no sentido de Educação Permanente –, a gnosiologia não se limita ao conhecimento científico (epistemologia).

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