Fichamento comentado
Pedagogia do Oprimido
Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar
@viniciocarrilhomartinez
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
“A consciência é a consciência da consciência”
Paulo Freire
O principal objetivo desse texto é visualizar algumas passagens do livro Pedagogia do Oprimido que nos enderecem à ideia da Emancipação – e não somente à Liberdade e à Autonomia. Temos duas premissas que se conectam: (i) A Autonomia é individual e a Emancipação é humana e processual; (ii) O Homem é o único animal social sensível à política. Desconsiderando-se, no fichamento, os perigos da Inteligência Artificial (IA) à condição humana, na fase final do processo de hominização o Homo Sapiens – sobretudo, no Neolítico – é a conclusão da síntese entre sociabilidade e politicidade. Nesse escopo, nossa compreensão tem por base a lógica de que se trata de Emancipação social[1], enquanto a Autonomia pode estar restrita ao âmbito individual; uma condição que visualizamos nesta outra afirmação: Autonomia sem auditoria é autocracia. Neste sentido amplo da Emancipação social, também podemos entender a afirmação de Paulo Freire de que “consciência é a consciência da consciência”. Ou seja, entre objetividades (condições materiais de vida) e subjetividades (o “ser mais”, em Paulo Freire), há Emancipação social quando se tem consciência de que “consciência é a consciência da consciência” e, assim, a práxis é efetiva. O fichamento segue uma perspectiva das Ciências Sociais e não da Pedagogia, mais especificamente de uma Sociologia Política da Educação[2].
Tese I: A Autonomia é individual e a Emancipação é humana e processual
→ “Ao se instalarem na quase, senão trágica, descoberta do seu pouco saber de si, se fazem problema a eles mesmos. Indagam. Respondem, e suas respostas os levam a novas perguntas” (Freire, 2022, p. 39).
- Comentário do professor: Trata-se da primeira consciência, do primeiro estágio, quando “acordamos” com um entendimento novo, diferente, muito mais claro, sobre nós mesmos. Assim nos colocamos problemas fundamentais: “Quem sou eu, o que estou fazendo!?”. Certamente, esse questionamento levará a outros, como: “Diante de tais fatos, o que posso fazer?”. “Fazer-se problema”, sem dúvida, é parte inaugural do “fazer-se política” – e que, resumidamente, entendemos como o Processo Civilizatório (hominização) em que o ser isolado na incompreensão de si se torna social, por força da necessidade, e em sequência se organiza para decidir. A política está presente nesses dois atos, na organização e na capacidade de decidir. O “fazer-se política” é a expressão do zoon politikón. O Homem é o único animal social sensível à política. É essa compreensão da ontologia que começa a se avolumar no indivíduo oprimido, pois, não se trata de casos isolados, mas sim do andamento da longa história de formação da Humanidade. “Fazer-se política”, então, é também ver-se como parte da história humana. Portanto, o conhecimento político é essencial ao esforço da Emancipação social (humana).
→ “Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos” (Freire, 2022, p. 41).
- Comentário do professor: Se o “ser mais” é o espectro ou conjunto social que unifica a Liberdade, a Autonomia e a Emancipação, a sua distorção é tudo o que provém do “ser menos”. Desse modo, é partindo-se do “ser menos” (a realidade em si, as coisas como são) que se vai agir em razão do “ser mais”. A negação da negação é uma afirmação (menos com menos, nos dará um ser mais).
→ “Só o poder que nasça da debilidade dos oprimidos será suficientemente forte para libertar a ambos” (Freire, 2022, p. 41).
- Comentário do professor: Como se mede o poder, a força, a energia social dispendida por um movimento social, radical, com profunda consciência de si, trazendo-se visibilidade, aptidão e disposição para agir? Como se mede a capacidade da transformação total quando são milhões que se põem em marcha não somente para denunciar, mas, sim, para exigir e praticar a transformação do status quo opressor? Não há outra força (reacionária) que segure a força revolucionária. Veja-se a Revolução Francesa, a Revolução Mexicana, a Revolução Russa, a Revolução Chinesa. Num sentido cultural, podemos ver a luta antirracista, antimachista, a cultura Wolke e os fluxo dos direitos civis.
→ “Quem melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? […] Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegaram pelo acaso, mas pela práxis de sua busca: pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela” (Freire, 2022, p. 42-43).
- Comentário do professor: A consciência não segue um receituário médico à espera de um especialista, de um “profissional da política”, a nos dizer o que devemos ou não pensar e fazer. A Política (Polis) é a própria condição humana; portanto, quem terá maior consciência – no andamento do processo de libertação e de afirmação – do que quem se vê atado/a aos grilhões da negação? É quando o “ser menos” (oprimido/a) ganha consciência e força na luta política para “ser mais” (afirmativo em sua omnilateralidade). A Política é o palco do humano-genérico e não reduto de interesses privados do “político profissional”. Aliás, a corrupção política começa na adulteração interpretativa do seu vocabulário. Quando o chamado “político profissional” toma a política para si, apropriando-se, em conclusão lógica, estará nos desapropriando da condição humana, que é o “fazer-se política”. Portanto, a apropriação da política é a sua deturpação.
→ “Muitos dos oprimidos que, direta ou indiretamente, participaram da revolução, marcados pelos velhos mitos da estrutura anterior, pretendem fazer da revolução a sua revolução privada. Perdura neles, de certo modo, a sombra testemunhal do opressor antigo” (Freire, 2022, p. 45).
- Comentário do professor: Muitos, movidos pelo desejo de vingança, vendetta – uma consciência incompleta, quase primitiva –, podem permanecer limitados no sentido da “ação pela ação”, sem análise ou reflexão necessária e, desse modo, os oprimidos de ontem podem se tornar os opressores de amanhã.
→ “Um dos elementos básicos na mediação opressores-oprimidos é a prescrição. Toda prescrição é a imposição da opressão de uma consciência a outra. Daí o sentido alienador das prescrições que transformam a consciência recebedora no que viemos chamando de consciência “hospedeira” da consciência opressora. Por isso, o comportamento dos oprimidos é um comportamento prescrito. Faz-se à base de pautas estranhas a eles – as pautas dos opressores” (Freire, 2022, p. 46 – grifo nosso).
- Comentário do professor: Toda organização social conhecida na história da Humanidade – e, muito provavelmente, toda formação social que ainda surgirá também – tem (teve) um tipo de dominação (controle social). a questão sempre foi sabermos de qual tipo de dominação estamos tratando, se é justa e legítima ou, ao contrário, se é opressora e abusiva. A dominação que se presta a oprimir (a prescrição da dor) nós a chamaremos, no sentido do antigo Direito Romano, de dominus. É sob o ideal da desarticulação dos efeitos do dominus, contrato de posse e propriedade de alguém (como coisa), que estamos falando da proscrição da prescrição.
→ “Ninguém tem liberdade para ser livre; pelo contrário, luta por ela precisamente porque não a tem” (Freire, 2022, p. 46).
- Comentário do professor: O mesmo raciocínio se aplica ao Direito, afinal, se tivéssemos a fruição das condições essenciais à Liberdade, à Autonomia e à Emancipação, o Direito não teria que ser promulgado, declarado. Pensemos na punição a quem pratica o crime hediondo da exploração do trabalho em condições análogas à escravidão. A Constituição assim define esse crime hediondo porque isso ocorre na realidade de milhares de pessoas – ou milhões, se pensarmos a uberização do trabalho, mais amplamente, como negação dos direitos básicos ao Mundo do Trabalho. Do mesmo modo, defende-se as regras do jogo democrático porque a democracia é sempre ameaçada – e é preciso conhecer as regras para poder participar e defender o jogo e os participantes: qualquer jogo tem regras a serem seguidas. Em suma, a liberdade só se faz concreta com o “ser mais”, ninguém é liberto sendo menos.
→ “Daí a necessidade que se impõe de superar a situação opressora. Isso implica o reconhecimento crítico, a ‘razão’ desta situação, para que, através de uma ação transformadora que incida sobre ela, se instaure uma outra, que possibilite aquela busca do ser mais” (Freire, 2022, p.46).
- Comentário do professor: Neste momento da consciência, já amplamente política – no sentido de se buscar meios de afirmação, da tomada de decisões, enquanto encaminhamento de outra práxis (reflexão e ação) –, a crítica social se faz presente quanto ao organograma de poder prescrito para as classes sociais (“razão desta situação”) e, por meio dessa crítica que tende a ser avassaladora, a transformação social mais profunda tende a ocorrer. É oportuno destacar que consciência e práxis caminham em reto sentido, não são um duplo e, por isso, ambas devem ser radicais, indo à raiz dos fatos, dos problemas mais contundentes das “coisas como são”. A revolução é razão (consciente, engendrada, articulada) do “ser mais” – tendo-se que o “ser menos” é o indivíduo alienado (de si), oprimido, subalternizado. No Brasil, pode-se dizer que o Pensamento escravista tenha se perpetuado na opressão do povo negro, pobre e oprimido. Entendendo-se o Pensamento escravista como a somatória entre racismo e exploração do trabalho mantido em condições análogas à escravidão.
→ “Descobrem que, não sendo livres, não chegam a ser autenticamente” (Freire, 2022, p. 47).
- Comentário do professor: Sem a Liberdade, sem opções, meios de escolhas e de afirmação, por óbvio, não podem ser senão aquilo que os meios de exclusão/negação lhes determinaram ser. Refere-se à dialética do senhor-servo (escravo).
→ “Sua luta se trava entre serem eles mesmos ou serem duplos” (Freire, 2022, p. 47-48).
- Comentário do professor: Quem são eles mesmos? São oprimidos/as que descobriram o peso da opressão, da negação, das prescrições excludentes dos significados da vida sem Liberdade, Autonomia e Emancipação. Por que seriam indivíduos duplos? Porque ainda não encontram condições para serem o que o “ser mais”, colocando-se entre a sociedade organizada pelo capital, pelo poder do senhorio, das classes dominantes (o próprio não-ser), e são apenas o que “conseguem ser” diante da prescrição da negação (o “ser menos”).
→ “Entre seguirem prescrições ou terem opções. Entre serem espectadores ou atores” (Freire, 2022, p. 48).
- Comentário do professor: trata-se das prescrições do status quo, das imposições de senhorio, como oprimidos, sem direitos, garantias, possibilidades, opções. Diante desse quadro, ter a “consciência em si”, e que é o primeiro estágio da “lucidez” – quem se é, como se vive, o que encontra disponível para si –, é essencial para se dirigir as ações, mudar o enfoque no que se refere ao como “se vinha sendo, fazendo até então”. Portanto, é a passagem da consciência e da ação, para quem quer definir-se enquanto espectador/a (sobrevivente) ou ator social efetivo/a.
→ “A libertação, por isso, é um parto. E um parto doloroso. O homem que nasce parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos” (Freire, 2022, p.48 – grifo nosso).
- Comentário do professor: O Homem novo é praticamente um degrau afirmativo no evolutivo processo civilizatório e não se verá essa transformação de maneira passiva, contemplativa, como mera aquiescência. É necessário que se interponham e se integrem a consciência profunda e o agir radical. Esse Homem político é, quase, um Homem antropológico, uma vez que seria a primeira vez que esses seres seriam libertos, colocando-se mais próximos da condição humana. Seria o Homo sapiens liberto e politizado, visto como ser social pleno de significado. Porém, o parto dolorido virá com a ressignificação.
→ “É preciso, enfatizemos, que se entreguem à práxis libertadora” (Freire, 2022, p.49).
- Comentário do professor: Trata-se da força política descomprimida, da regra histórica que se viu mobilizar para a ação, desde, por exemplo, a revolta dos escravos na Roma antiga liderada por Spartacus. Diante da brutal opressão restam dois caminhos: encolher-se diminutamente enquanto ser ou organizar-se para a luta política emancipatória. Ou humanizar-se pela práxis, pela política organizada, ou se ajustar à negação, tal qual uma “abdução social”.
→ “A solidariedade, exigindo de quem se solidariza que ‘assuma’ a situação de com quem se solidarizou, é uma atitude radical” (Freire, 2022, p.49).
- Comentário do professor: Ninguém poderá ocupar o “lugar de fala” do oprimido/a, isso está pacificado. O que se requer, além disso, é que quem tomou (para si) consciência da negação de outrem se coloque ao seu lado como ator social que faz a política da libertação e da afirmação. Ao nos repostarmos ao lado de outrem (violentado/a na condição de “ser mais”), agindo em sua função, na descompressão de outrem, nos colocamos no “lugar do Outro”, isto é, vemos a Humanidade, por meio da Alteridade. E isto é profundamente radical, revolucionário, pois, em outro exemplo, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”.
Tese II: O Homem é o único animal social sensível à política
→ “Roubados na sua palavra, por isto no seu trabalho comprado, que significa a sua pessoa vendida” (Freire, 2022, p.50).
- Comentário do professor: Fazer a si, enquanto se pratica o fazimento de outrem. “Fazer-se política”, fazer-se na/pela política, fazer-se humano enquanto se faz política; fazer a si, humanizar-se, enquanto se faz a política; fazer-se enquanto se faz. Fazer a si, enquanto se é atuante no cenário político em que o Outro também é feito. Por isso, A Emancipação é inerente à condição humana, assim como é resultante do “fazer-se política”, no bojo do milenar e contínuo processo de hominização, e não sendo pacífico é resultado de forças contraditórias, opostas, excludentes. A questão é: A consciência possível em determinada época, em um contexto delimitado, será determinante ao “ser mais” ou ao “ser menos”? A resposta a essa questão é o resultado final da luta política.
→ “Da mesma forma como é em uma situação concreta – a da opressão – que se instaura a contradição opressor-oprimidos, a superação desta contradição só se pode verificar objetivamente também” (Freire, 2022, p.50).
- Comentário do professor: É uma constatação histórica. Nunca houve uma transformação societal aguda sem que as condições, os meios, as contradições sistêmicas não fossem convulsionadas na sua infraestrutura: historicamente, implica em dizer que a revolução deve se opor às condições materiais de vida em que os meios de produção e de opressão se mantiveram até então.
→ “Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Não há uma sem a outra, que não podem ser dicotomizadas” (Freire, 2022, p.50).
- Comentário do professor: Por uma constatação lógica, óbvia, se as condições materiais de opressão, os grilhões, já não existem ou estão sendo convulsionados pela imposição de forças decisivas da libertação, isso implica em dizer que está em curso um processo de autoafirmação: objetividade e subjetividade.
→ “A realidade social, objetiva, que não existe por acaso, mas como produto da ação dos homens, também não se transforma por acaso. Se os homens são os produtores desta realidade e se esta, na ‘inversão da práxis’, se volta sobre eles e os condiciona, transformar a realidade opressora é tarefa histórica, é tarefa dos homens” (Freire, 2022, p.51).
- Comentário do professor: A tarefa histórica é a da libertação do jugo opressor, é a tarefa histórica de homens e mulheres que se querem como seres livres e, sendo livres, não veem os demais de modo não-livre. Novamente, impõe-se a regra de ouro do “fazer-se política”, pois, em se fazendo, se faz à imagem do Outro. A realidade não é imaginária, é objetiva, e ainda que possa ser ilusória.
→ “A práxis, porém, é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (Freire, 2022, p.52).
- Comentário do professor: Não haveria melhor definição do que é “fazer-se política”: a força da práxis, da revolução que transforma o/a oprimido/a no Outro (afirmado em si, com a força da Alteridade).
→ “Desta forma, esta superação exige a inserção crítica dos oprimidos na realidade opressora, com que, objetivando-a, simultaneamente atuam sobre ela. Por isto, inserção e ação já são a mesma coisa” (Freire, 2022, p.53).
- Comentário do professor: Trata-se da inserção consciente na mesma realidade que, até pouco tempo, era desconhecida; trata-se de voltar para agir, exigindo-se que se supere a fase da denúncia: é ação não apenas convincente (que convence da lisura), mas, além disso, é ação que impõe reconhecimento. É o momento do “concreto-pensado”.
→ “Quanto mais as massas populares desvelam a realidade objetiva e desafiadora sobre a qual elas devem incidir sua ação transformadora, tanto mais se ‘inserem’ nela criticamente” (Freire, 2022, p.54).
- Comentário do professor: É o famoso “conhecer para mudar”, é o momento do encontro profícuo entre reflexão e ação, do conhecimento à práxis, da investigação à reinvenção. É a fase em que o “saber militante” se instaura com acurácia, a par da “rigorosidade metódica”. Neste caso, é a ação, a práxis, advinda do método do Materialismo Histórico-dialético (não ortodoxo).
→ “De qualquer forma, o dever que Lukács reconhece ao partido revolucionário de ‘explicar às massas a sua ação’ coincide com a exigência que fazemos da inserção crítica das massas na sua realidade através da práxis, pelo fato de nenhuma realidade se transformar a si mesma. A pedagogia do oprimido que, no fundo, é a pedagogia dos homens empenhando-se na luta por sua libertação, tem suas raízes aí” (Freire, 2022, p.55).
- Comentário do professor: A questão passa por definir o que é, e qual é a função da vanguarda, da direção: o movimento social de libertação atua em compasso com o partido revolucionário, nem à frente e nem muito atrás. Atua em conformidade, em que as “massas” não estejam massificadas, distantes, das lideranças e nem se sobrepondo às mesmas lideranças.
→ “Os oprimidos hão de ser o exemplo para si mesmos, na luta por sua redenção” (Freire, 2022, p.56).
- Comentário do professor: Quem poderá descrever melhor quem é oprimido/a e o que é a opressão? Guardadas as proporções das naturezas e dos significados específicos, trata-se de constar o óbvio, uma vez que ninguém dirá melhor o que é uma situação de racismo do que quem a sofreu, tanto quanto o PCD poderá lhe dizer com propriedade o que é a acessibilidade ou a sua restrição, negação.
→ “No primeiro momento, por meio da mudança da percepção do mundo opressor por parte dos oprimidos; no segundo, pela expulsão dos mitos criados e desenvolvidos na estrutura opressora e que se preservam como espectros míticos, na estrutura nova que surge da transformação revolucionária” (Freire, 2022, p.57).
- Comentário do professor: Diria que são três momentos e não apenas dois: o primeiro quando se percebe parte da realidade opressora; o segundo quando se consegue vislumbrar uma realidade de coisas não opressivas; o terceiro quando se denuncia a primeira realidade e se age para a consecução da segunda. Isso também é se afastar dos mitos: por exemplo, o Mito da cordialidade, o Mito da democracia racial (miscigenação pacífica).
→ “Os opressores, violentando e proibindo que os outros sejam, não podem igualmente ser; os oprimidos, lutando por ser, ao retirar-lhes o poder de oprimir e de esmagar, lhes restauram a humanidade que haviam perdido no uso da opressão” (Freire, 2022, p.59).
- Comentário do professor: Novamente, está atuando a dialética senhor-servo (escravo), uma vez que ninguém é por inteiro se depende a sua vida da ação de outrem. O senhor opressivo, neste sentido, depende muito mais do servo (escravo) do que o contrário. Na verdade, sem o senhor opressivo o servo não é mais servo, é liberto. Porém, o senhor deixa de viver enquanto tal, porque depende totalmente da servidão de outras pessoas. Sem a opressão, opressores e oprimidos deixam de ser o que são, e passam a ser o que devem ser: homens e mulheres livres.
→ “Os oprimidos de ontem, que detêm os antigos opressores na sua ânsia de oprimir, estarão gerando, com seu ato, liberdade, na medida em que, com ele, evitam a volta do regime opressor. Um ato que proíbe a restauração deste regime não pode ser comparado com o que o cria e o mantém; não pode ser comparado com aquele através do qual alguns homens negam às maiorias o direito de ser” (Freire, 2022, p.60).
- Comentário do professor: Historicamente, as ações por libertação foram violentas: o opressor não deixa de sê-lo (enquanto classe dominante) por vontade própria. A libertação do jugo é uma conquista da luta política, da ação humana construtora do “ser mais”. E, tal qual a mudança subjetiva de cada um(a), essa mudança objetiva, revolucionária, terá de se impor aos opressores. É a negação da negação e isso não se viu, historicamente, por meio de resultado pacífico. É a ação violenta da Libertação, Emancipação, dirigida contra as ações violentas da opressão.
→ “É que, para eles, pessoa humana são apenas eles. Os outros, estes são ‘coisas’ […] Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando […] Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal” […] Por isso tudo é que a humanização é uma “coisa” que possuem como direito exclusivo, como atributo herdado. A humanização é apenas sua. A dos outros, dos seus contrários, se apresenta como subversão” (Freire, 2022, p.62-63 – grifo nosso).
- Comentário do professor: É a descrição da própria prescrição, em que o dominus prescreve quem é e quem não é, impondo-se o pior resultado possível do processo de coisificação.
→ “Se a humanização dos oprimidos é subversão, sua liberdade também o é” (Freire, 2022, p.64).
- Comentário do professor: A lógica, como cursor consequencial, nos impõe uma sequência inevitável: a Liberdade se fará Autonomia na práxis e esta será materializada na Emancipação (global, sistêmica, completa, omnilateral). Num pensamento extremo, a Emancipação somente será completa quando se alcançar todo o humano-genérico.
→ “…visão necrófila do mundo. Por isso é que o seu amor é um amor às avessas – um amor à morte e não à vida […] Os oprimidos, como objetos, como quase ‘coisas’, não têm finalidades. As suas, são as finalidades que lhes prescrevem os opressores” (Freire, 2022, p.64 – grifo nosso).
- Comentário do professor: Como a desumanização não é unilateral, o dinheiro acaba por tomar o lugar de todas as coisas, colocando-se como a medida entre as pessoas. Esta é a linha de frente da objetificação.
→ “Os que passam têm de assumir uma forma nova de estar sendo; já não podem atuar como atuavam; já não podem permanecer como estavam sendo” (Freire, 2022, p.66-67).
- Comentário do professor: “Os que passam” a linha contingenciada da consciência insegura, limitada, reduzida, a uma faixa de consciência ampliada pelos reais problemas da Humanidade, é lógico, não serão mais os mesmos e nem seus pensamentos e ações serão como eram, antes disso. Ninguém será o mesmo que era, se já viu (viveu) diferente.
→ “…ninguém se liberta sozinho…” (Freire, 2022, p.74 – grifo nosso).
- Comentário do professor: Trata-se da luta política, em que a Emancipação não será construída por uma única pessoa, menos ainda por quem foi alforriado e logo se tornou amigo próximo do escravizador.
→ “A libertação autêntica, que é a humanização em processo, não é uma coisa que se deposita nos homens. Não é uma palavra a mais, oca, mitificante. É práxis, que implica a ação e a reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo” (Freire, 2022, p.93 – grifo nosso).
- Comentário do professor: Além de ser um processo, portanto inconcluso, a humanização – só possível com a libertação, autoafirmação – é coincidente com a Emancipação. Não só libertação do jugo, mas construção constante da humanização, porquanto seja processo consequente da afirmação da Emancipação.
→ “…a consciência é consciência de consciência…” (Freire, 2022, p.94 – grifo nosso).
- Comentário do professor: Essa é uma das afirmações mais enigmáticas que podemos depreender do texto. Como tal, não é facilmente apreendida. Por um lado, não é difícil apelarmos para a ideia de que nem sempre – ou mais raramente – temos consciência sobre nossos atos, interesses, motivações. Com isso, também não é difícil remontar às memórias pessoais a fim de encontrarmos ações, decisões, que não foram devidamente ponderadas. De certa forma, portanto, o Princípio da Racionalidade está presente nessa argumentação – “a consciência é a consciência da consciência –, porque nos remete ao constructo da racionalidade como processo humano-genérico.
→ “Como situação gnosiológica, em que o objeto cognoscível, em lugar de ser o término do ato cognoscente de um sujeito, é o mediatizador de sujeitos cognoscentes, educador, de um lado, educandos de outro, a educação problematizadora coloca, desde logo, a exigência da superação da contradição educador-educados. Sem esta, não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes, em torno do mesmo objeto cognoscível” (Freire, 2022, p.94-95).
- Comentário do professor: Além de se inserir a dialogicidade como eixo do processo dialético, afirma-se a superação da dicotomia, contradição, apontada pela educação bancária – e pelo Positivismo – em que sujeito e objeto são apartados entre si, diante da mesma realidade que lhes dá forma. Pois, na realidade processual, sujeito cognoscente (mais consciente de si e do entorno) e objeto cognoscível – a ser desvendado, como elo com o sujeito que lhe conhece – pertencem ao mesmo plano, ao mesmo contexto. Ninguém, nada, nesse processo de afirmação do conhecimento – e da consciência – está pairando nas nuvens ou é soterrado demais no mundo concreto.
→ “Nenhuma ‘ordem’ opressora suportaria que os oprimidos todos passassem a dizer: ‘Por quê?” (Freire, 2022, p.106).
- Comentário do professor: “O por que?” nos traz diretamente ao porquê da situação e nos leva a questionar se não haveria um porque diferente.
→ “No processo revolucionário, a liderança não pode ser ‘bancária’, para depois deixar de sê-lo” (Freire, 2022, p. 106).
- Comentário do professor: O processo precisa ser coerente, do começo ao fim. Se é certo que, na revolução, alguns têm de ser convencidos de sua necessidade, legitimidade – “forçar à liberdade”, como se dizia –, a política do fazer-se liberto tem que vir da práxis e não de algum receituário. A revolução social não segue cartilhas.
→ “Os temas, em verdade, existem nos homens, em suas relações com o mundo, referidos a fatos concretos” (Freire, 2022, p. 137).
- Comentário do professor: É bastante comum, ao menos nas Ciências Sociais não reféns do Positivismo (separação entre sujeito e objeto), a ideia de que “a pergunta traz a resposta”. Isso implica em dizer que estamos sempre imersos na realidade que nos provoca com temas e dificuldades.
→ “Não posso investigar o pensar dos outros, referido ao mundo, se não penso. Mas, não penso autenticamente se os outros também não pensam. Simplesmente, não posso pensar pelos outros nem para os outros, nem sem os outros. A investigação do pensar do povo não pode ser feita sem o povo, mas com ele, como sujeito do seu pensar” (Freire, 2022, p. 140-141).
- Comentário do professor: Inclusive, ou especialmente, para que as vanguardas não tenham descolamento de retina, a ponto de não mais enxergarem a cultura, o povo, a própria realidade que os dá métrica e forma. Por outro lado, é obrigatório, essencial, saber que o “pensar o povo, com o povo e para o povo” – Como diria Cícero – traz a certeza gnosiológica de que o senso comum precisa ser ultrapassado, a fim de se reconstruir como Bom Senso.
→ “Mas, se os homens são seres do quefazer é exatamente porque seu fazer é ação e reflexão. É práxis. É transformação do mundo” (Freire, 2022, p. 167).
- Comentário do professor: O que é o quefazer? É práxis, ação transformadora radical. É ação (consciente, fértil) e reflexão (rigorosamente metódica: sem espaços para o espontaneísmo ou o sectarismo).
→ “O que fazer é teoria e prática” (Freire, 2022, p. 168 – grifo nosso).
- Comentário do professor: É a própria síntese da ideia de Práxis, a articulação, o vínculo inquebrável entre teoria e prática.
→ “O que não se pode realizar, na práxis revolucionária, é a divisão absurda entre a práxis da liderança e a das massas oprimidas, de forma que a destas fosse a de apenas seguir as determinações da liderança” (Freire, 2022, p. 169).
- Comentário do professor: Se as massas oprimidas são apenas lideradas na sua libertação, sem Autonomia, sem que sejam participantes ativas, o próprio processo de afirmação perde o seu sentido. É preciso que da consciência da opressão, por parte de quem é oprimido/a, advenha a ação política organizada para a afirmação: Emancipação.
→ “Estamos convencidos de que o diálogo com as massas populares é uma exigência radical de toda revolução autêntica. Ela é revolução por isto” (Freire, 2022, p. 172).
- Comentário do professor: Ninguém será mais revolucionário/a, exigente transformador da realidade opressiva, do que o/a oprimido/a. Por isso, no diálogo sobre as condições de opressão, a revolução será autêntica. Pelo viés da epistemologia política, a consciência social se fará ação política.
→ “Se, na educação como situação gnosiológica[3], o ato cognoscente do sujeito educador (também educando) sobre o objeto cognoscível não morre, ou nele se esgota, porque, dialogicamente, se estende a outros sujeitos cognoscentes, de tal maneira que o objeto cognoscível se faz mediador da cognoscibilidade dos dois, na teoria da ação revolucionária se dá o mesmo” (Freire, 2022, p. 173).
- Comentário do professor: Observa-se a superação imperiosa do senso comum, em transformação na forma do Bom Senso. O efeito extrator da lucidez processual faz convergirem objeto e sujeito: o objeto entendido, apreendido, e a ser transformado sucessivamente. De tal forma que, na ação revolucionária se transformem tanto o objeto (a realidade) quanto o sujeito da ação. Percebe-se que o Positivismo não é o método analítico adequando, porquanto se apartam sujeito e objeto.
→ “É que a liderança não pode pensar sem as massas, nem para elas, mas com elas” (Freire, 2022, p. 176).
- Comentário do professor: A melhor liderança do amanhã (visionários, utópicos no melhor sentido) é aquela que surgirá das massas, as lideranças da libertação que sabem perfeitamente o que é a opressão, por terem sido, precisamente, os oprimidos e oprimidas de ontem.
→ “A revolução se gera nela como ser social e, por isto, na medida em que é ação cultural, não pode deixar de corresponder às potencialidades do ser social em que se gera” (Freire, 2022, p.183).
- Comentário do professor: A ação consciente, política – diretiva, organizada – é ação cultural, sob o escopo de que a mudança radical impõe a ultrapassagem das condições de negação/opressão e, no seu revés, são construídas as bases de uma “cultura libertária”, verdadeiramente humanista.
→ “É que todo ser se desenvolve (ou se transforma) dentro de si mesmo, no jogo de suas contradições” (Freire, 2022, p. 183 – grifo nosso).
- Comentário do professor: Somos seres sociais incompletos, em contínuo aprendizado e transformação, quer seja de nós mesmos, quer seja do ambiente e do entorno. É em torno do Outro que cada um/a faz o melhor de si. A transformação é de dentro para fora, de baixo para cima.
[1] Estágios muito avançados da consciência, neste sentido, nós veríamos em ações como Médicos Sem Fronteira, Cruz Vermelha, Greenpeace e outros.
[2] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.
[3] Como teoria do conhecimento de forma irrestrita – no sentido de Educação Permanente –, a gnosiologia não se limita ao conhecimento científico (epistemologia). É a parte ativa (consciente) do que conhecer-se, para, então, reconhecer o próprio conhecimento.




