terça-feira, agosto 25, 2026
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Ideologia da Opressão – a negação do pensamento inclusivo

@viniciocarrilhomartinez

A ideologia tem muitos significados, e um deles se confirma como um pensamento intrusivo e inconclusivo. Como intruso, esse pensamento vem sendo depositado há séculos; ou é admitido, aceito pacificamente, como pensamento egoísta.

É um pensamento inconclusivo porque nunca se fecha em torno do que efetivamente interessa à “verdade dos fatos”; sempre girando em torno de si, consegue emitir alguma claridade, entretanto, é sempre insuficiente para iluminar os “sentidos dos fatos”.

O pensamento do oprimido[1], neste cenário, também é ideológico, ou seja, intrusivo (importado do opressor) e inconclusivo – ao menos inicialmente –, porque quase nunca põe a si no centro dos problemas que são de todos. Consegue-se compartilhar os dilemas, mas, sem se organizar e expandir os efeitos comuns à intrusão e opressão.

O pensamento do oprimido, quando se põe nesse circuito, círculo vicioso, gira em torno de si, aparece isolado ou pouco conectado aos problemas e dilemas de tantos outros indivíduos afetados pelo mesmo pensamento ideológico: intrusivo e inconclusivo.

Trata-se de um pensamento importado, porém, não é apenas isso, aleatório e externo a si, pois, é importado de quem traz a opressão. É um pensamento inconclusivo porque raramente chega à raiz dos fatos, das origens e das maquinações da opressão. É um pensamento que não se conclui, girando em círculos cada vez menores e sem que se veja qualquer ponto de partida (denúncia) ou de chegada (superação).

A descompressão, então, passa necessariamente por entendermos essa primeira dinâmica, esse primeiro elo do ciclo que leva à negação do sujeito e das condições reais da opressão. É claro que estamos tratando de um aspecto do pensamento, da subjetividade do indivíduo num estágio inicial e também inercial: o círculo de intrusões e de incompletudes e de como é recebido e reproduzido pelo oprimido. As condições materiais em que se encontra o ser oprimido, as décadas ou séculos de opressão, a materialidade de sua vida concreta, compõem a outra contraparte.

Hoje, nos deteremos a esse tipo específico de pensamento obstruído (também obliterado), circundante, aprisionado, redundante – pensamento circular, mas sem circular. Por ser intrusivo e inconclusivo, esse pensamento sinaliza o limite do ser restrito, do “ser menos do que si”. Não é que não se some, apenas que se soma numa conta que pouco sobressai ao zero.

Não é que não se sonhe, o fato é que não se sonha fora da circunscrição negadora de si. Não é que não se projete, apenas não se projeta para além do círculo vicioso em si. Não é que não se navegue, só não é navegante para além do que está ali. É um pensamento reprimido, comprimido e pouco complexo.

Também é conhecido como senso comum, uma vez que não se alcança nenhum senso que se manifeste de maneira incomum. O juízo dos fatos, da realidade, não é seu. O senso comum não vê como suas limitações não são incomuns, celulares, mas sim coletivas, difundidas entre outros seres negados pelos pensamentos intrusivos da opressão. O senso comum não se vê preso ao círculo da negação e da exclusão.

Por isso, o pensamento intrusivo é um pensamento negado – ao oprimido; também por isso, o pensamento inconclusivo é um pensamento reduzido – ao círculo do oprimido. Portanto, jamais será, dentro desse círculo de negação, um pensamento inclusivo.

O pensamento inclusivo é aquele que se desvencilhou da condição concêntrica da opressão e da negação. Por óbvio, o pensamento inclusivo é aquele capaz de incluir a quem sempre esteve excluído e, assim, se inclui no processo comum de desobstrução e descompressão. Quem inclui, por certo, já está incluído.

O pensamento inclusivo é próprio da capacidade do “ser mais”. No entanto, como vimos, não é um pensamento isolado, concêntrico, uma vez que se inclui no mesmo processo que desobstrui a exclusão dos demais. O pensamento inclusivo, por definição, é um pensamento coletivizado, expansivo, capaz de romper o círculo impostor do pensamento intrusivo.

Desse modo, o pensamento inclusivo, além de humanizador, é dotado de um saber especial, emancipador, e, assim, é conflitante ao pensamento intrusivo. É este o saber militante.

É um saber que, como outro qualquer que mereça essa denominação, sendo liberto dos limites impostores, é militante a fim de que muitos outros e outras participem de sua construção – enquanto saber que é de interesse de todos. É um saber liberto – sendo liberto da ideologia que infesta o pensamento intrusivo.

O saber militante é exportador. É o saber que se exporta para além dos casos incomuns, das condições incomuns, do senso comum, importando-se prioritariamente com o que há de comum na opressão, exclusão, negação; ocupando-se, basicamente, com os meios de desopressão, inclusão e Emancipação, este saber só pode ser militante e emancipador.

O pensamento intrusivo é simples. O pensamento inclusivo é complexo. O pensamento intrusivo é concêntrico: “não sai de si”. O pensamento inclusivo é expansivo: “faz de si o Outro”. E é daí que vem a súmula do saber militante: é um saber conclusivo acerca existência da opressão e é expansivo quanto à urgência da Emancipação.

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

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