Ao longo deste livreto, buscou-se discutir algumas das principais reflexões desenvolvidas por Edgar Morin em Ciência com Consciência, obra originalmente publicada em 1990 e posteriormente revisitada em diferentes edições. O percurso aqui realizado procurou ir além de uma simples revisão de conceitos, buscando compreender a ciência como uma atividade profundamente humana, histórica e social, não apenas o conhecimento pelo conhecimento, mas como uma aventura humana, atravessada por escolhas, valores, responsabilidades e consequências.
Reside aí uma das maiores contribuições da obra. Ao questionar a fragmentação do conhecimento, a excessiva especialização dos saberes e a pretensão de neutralidade frequentemente associada ao discurso científico, Morin nos convida a reconhecer que a ciência não se desenvolve à margem da cultura, da política ou da ética. Ciência e sociedade não ocupam territórios distintos; influenciam-se mutuamente, em uma relação contínua de construção, transformação e reinvenção. Nesse sentido, a obra ultrapassa os limites de uma reflexão estritamente epistemológica para propor uma atitude de vigilância crítica sobre os modos pelos quais produzimos, organizamos e utilizamos o conhecimento.
Ao longo das discussões aqui apresentadas, procurou-se destacar justamente essa defesa de uma ciência capaz de refletir sobre si mesma. Não uma ciência sacralizada ou convertida em dogma, mas consciente de seus limites, de suas incertezas e de seus impactos. Em um mundo marcado por problemas cada vez mais complexos e interdependentes, tal perspectiva permanece não apenas relevante, mas necessária.
Após essa breve retomada, parece oportuno compartilhar também algo sobre o próprio processo de elaboração deste livreto. Afinal, assim como a ciência descrita por Morin, este texto também foi construído em movimento, entre leituras, revisões, diálogos e dúvidas. À medida que os capítulos eram produzidos, versões preliminares foram sendo compartilhadas para leitura e discussão, permitindo avaliar não apenas a consistência das interpretações apresentadas, mas sobretudo a clareza do texto e sua capacidade de comunicar ideias complexas a leitores em diferentes estágios de formação.
Tal preocupação surgiu de uma inquietação simples: quantas vezes trabalhos acadêmicos de grande relevância tornam-se inacessíveis justamente pela linguagem que utilizam? Não porque lhes falte qualidade, mas porque acabam aprisionados em uma verdadeira selva de letras, que dificultam sua circulação para além dos espaços especializados. Tornar um texto epistemologicamente rigoroso mais acessível sem reduzir sua complexidade revelou-se um desafio constante ao longo deste percurso.
Durante uma dessas leituras preliminares surgiu um comentário despretensioso: “a ciência vai transparecendo na linguagem”. A observação foi breve, quase casual, mas permaneceu ecoando, talvez por sintetizar algo que o próprio Morin procurou demonstrar em sua obra: a ciência não existe separada dos sujeitos que a produzem. Ela aparece nas palavras que escolhemos, nas perguntas que formulamos, nos silêncios que preservamos e até mesmo na maneira como organizamos nossos pensamentos. A consciência, nesse sentido, não se restringe aos conteúdos científicos, mas atravessa a própria forma de pensar e de habitar o mundo.
Esta experiência esteve diretamente vinculada à disciplina Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS 001), ofertada pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) durante o primeiro semestre de 2026. Ao longo da disciplina, diferentes autores e perspectivas foram mobilizados para discutir as múltiplas relações entre ciência, tecnologia e sociedade.
A leitura da obra desenvolveu-se por meio de seminários e discussões semanais que possibilitaram o diálogo entre as proposições de Morin e outros referenciais estudados ao longo do curso. Mais do que um exercício individual, tratou-se de uma construção compartilhada de interpretações, inquietações e descobertas. Por essa razão, gosto de pensar este livreto como uma obra feita a muitas mãos. O autor do livreto costuma dizer que alguns trabalhos são escritos “a quatro mãos”, quando elaborados por duas pessoas, ou “a seis mãos”, quando construídos por três autores. Este, porém, escapa a qualquer cálculo preciso. Embora a escrita tenha partido de um único autor, suas páginas carregam contribuições de vários diálogos e reflexões compartilhadas ao longo do percurso.
Considerando os aspectos para além do racional, como acontece com muitas experiências intelectuais, a elaboração deste livreto acabou encontrando também a dimensão afetiva. Sua conclusão coincidiu com um momento marcante: o falecimento de Edgar Morin, em maio de 2026. Durante os meses que antecederam esse acontecimento, sua obra esteve presente em leituras, debates e conversas que frequentemente ultrapassavam os limites da sala de aula. Entre cafés, refeições, chocolates e momentos cotidianos, Morin tornou-se uma companhia constante. Por alguns meses, suas ideias passaram a habitar o cotidiano daqueles que se dispuseram a percorrer suas páginas, para pessoas que nem mesmo o conheciam.
A coincidência temporal entre o encerramento desta leitura coletiva e a despedida de seu autor convida à reflexão sobre a permanência das obras para além da existência daqueles que as escreveram. Embora a morte marque o término físico de uma vida, ela não encerra necessariamente os diálogos que um pensamento é capaz de suscitar. Pelo contrário, algumas ideias permanecem vivas justamente porque continuam produzindo questionamentos.
Talvez resida aí uma das maiores contribuições de Ciência com Consciência. Em um mundo atravessado por transformações tecnológicas aceleradas e por disputas em torno da produção e da legitimidade do conhecimento, as reflexões propostas por Morin mantêm sua capacidade de provocar questionamentos e estimular novas formas de compreender a relação entre ciência, sociedade e humanidade.
Nesse contexto, a defesa de uma ciência dotada de consciência permanece como um convite à reflexão crítica, à responsabilidade coletiva e ao compromisso com formas mais integradas e humanas de compreender e transformar realidades. Afinal, a humanidade não se constituiu apenas por sua capacidade de criar ferramentas ou desenvolver técnicas, mas também pela possibilidade de refletir sobre suas próprias criações, reconhecer seus limites e assumir responsabilidade por suas consequências, como uma grande simbiose. Talvez seja justamente essa consciência, em constante construção, que continue representando um dos maiores desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores potencialidades das gerações presentes e futuras.
Ester Dias da Silva Batista – bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar
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