Ester Dias da Silva Batista
‘Sonhar mais um sonho impossível’, essa foi a música que me veio à mente quando li a carta pela primeira vez. Na voz de Maria Bethânia, mas marcada na por tantas histórias, dentre elas a minha, várias vezes cantarolei essa canção enquanto fazia os quadros com equações e desenhos biológicos. Acredito que essa seja uma das formas pelas quais mais enxergo a educação e a docência em si: “lutar quando é fácil ceder, voar no limite improvável”. Em sala de aula, em alguns momentos, conseguimos voar e chegar a limites até então improváveis.
Conheci o termo esperançar, de Freire, na minha turma de Educação e Sociedade, em meados de outubro ou novembro de 2025, quando ainda cursava a disciplina como aluna. Me lembro de como esse termo entrou na minha mente e me marcou tão profundamente que foi parar nas últimas páginas do meu TCC, intitulado Afetividade e ensino de Ciências: o papel dos vínculos na formação e na aprendizagem de licenciandos, defendido em 10 de dezembro de 2025, quando, finalmente, me formei em Ciências Biológicas pela UFSCar.
Ser docente está infinitamente lon5ge de ser algo fácil ou trivial. Aprendemos constantemente, a cada turma, a cada olhar, a cada conversa e a cada dia como docentes. Fiz e me refiz durante toda a graduação, ao longo de três anos de PIBID e dois anos de estágios obrigatórios. Esses dois espaços, que buscam nos formar enquanto docentes, já demonstram o desmonte educacional. Muitas vezes, somos questionados pelos professores mais antigos se temos certeza de que queremos isso para a nossa vida. Dizem que ainda há tempo para desistir. Mas eu não estaria ali se não tivesse certeza da importância da educação na vida de cada pessoa, de cada aluno e aluna.
Pensando na minha vida pessoal, aprendi a ler, escrever e contar com minha mãe aos 2 ou 3 anos e entrei alfabetizada no pré-escolar. Ali, aos seis anos, antes mesmo de ter uma noção concreta de quem eu era como pessoa, tirei meu RG e assinei meu nome por extenso. Naquele momento, compreendi um milésimo da importância de ser alfabetizada e de poder exercer minha cidadania. Estar em sala de aula definitivamente não se trata apenas de cumprir tabela ou completar horas de aula, mas de formar pessoas, indivíduos que em breve estarão na sociedade exercendo sua função como cidadãos, mas que, antes de tudo, são pessoas, com seus desejos e anseios.
Hoje, mais precisamente no dia 17 de outubro de 2026, às 20h02, repenso toda a minha formação, minha trajetória acadêmica e as noites em claro estudando e elaborando planos de aula. Estamos em um momento político em que ter capacidade crítica e sair do chamado senso comum, assim como fugir de uma educação bancária, parece quase improvável, quase um crime. Ser docente em meio a tudo isso nos leva a mais uma das funções da docência: a resistência.
A práxis exige isso: pensar antes de agir, refletir sobre as desigualdades sociais e sobre como grande parte da população é constantemente desumanizada. Lutas como a defesa de uma escala de trabalho minimamente humana, de 5×2, ainda são questionadas e extremamente refutadas. Até mesmo o que será feito nesse dia a mais de folga pelo trabalhador é colocado em questão, demonstrando a força e a ação das elites para esmagar a classe trabalhadora nos mínimos detalhes.
Ainda pensando na obra de Freire, reflito sobre como nós, professores, estamos em constante formação e sobre como esperançar não significa ignorar as dificuldades que encontramos pelo caminho. Pelo contrário, significa reconhecer os desafios e, ainda assim, agir para transformar aquilo que nos cerca. É compreender que a esperança não se sustenta apenas no desejo de que as coisas sejam diferentes, mas também nas ações que realizamos para construir essa possibilidade.
Nesse sentido, a dimensão coletiva da libertação que está presente no pensamento de Paulo Freire: ninguém se liberta sozinho, ninguém liberta ninguém, nos libertamos em comunidade, torna-se um mantra. A formação docente, portanto, não acontece de maneira isolada. A comunidade escolar, pedagógica ou acadêmica é essencial para que possamos aprender, questionar, construir e resistir juntos. Digo isso principalmente por ter tido uma turma infinitamente acolhedora e participativa, a eterna Bio Lic 021.
Talvez seja justamente nisso que eu encontre sentido para continuar sonhando esse sonho impossível: compreender que, embora os desafios sejam grandes, a docência não precisa ser uma caminhada solitária. Esperançar, para mim, também passa por reconhecer as pessoas que fizeram e fazem parte da minha formação e por continuar acreditando nas possibilidades da educação, não apesar da realidade que enfrentamos, mas a partir dela. É necessário então, vencer o inimigo invencível.




