Vinicio Carrilho Martinez – Professor titular da UFSCAR
Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCAR
Izabela Victória Pereira – Graduanda em Filosofia pela UFSCAR
Há dois conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade: o Capitalismo digital e a uberização social. Qualquer decisão institucional ou ação política tem que passar por essa análise. Depois, enquanto esforço docente, por exemplo, nossa obrigação, além de entender melhor a nossa realidade, é pensar na proposição de uma Educação crítica a esses processos, especialmente a uberização social – uma vez que está presente na vida de todos nós, sem que tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o “servilismo voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou quando acessa alguma rede social.
Esses “dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito à perda total de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma de uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e empreendedorismo, e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a autonomia frente à plataforma que também atua como meio de controle social e punição.
Júdice da uberização –, quanto lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje. A margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode facilmente vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em cada corrida ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe 10 reais destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de cancelamento de uma corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se o/a passageiro/a assim o desejar – recebe pouco mais de três reais. Isso a depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela prestação de serviço uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo cancelamento talvez nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas plataformas, todas elas, só vigora porque está listada nas prioridades hegemonizadas do “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.
A maior pesquisa empírica se verifica – e ainda permanecerá por muito tempo, para quem não dirige – nas viagens de Uber, nas conversas insistentes que se tenha com essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade fragmentada). Sempre quando se pergunta sobre as condições de trabalho, destacando-se o quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem nenhuma contrapartida, as respostas são constrangedoras. Neste sentido, um dos apêndices de um livro recém publicado traz precisamente algumas narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de Uber[1], na forma de crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena etnografia nessa conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas histórias narradas no livro são verdadeiras “lições de vida”.
Foi com esse espírito que, no primeiro livro de 2026, esse pequeno livro foi abordado em sala de aula, especialmente esses dois aspectos da realidade, esses dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o Capitalismo digital e a uberização social. Esse livro foi, literalmente, construído em sala de aula. Com a proposição do tema, de algumas intercorrências que vínhamos pensando desde 2025, e com a participação dos alunos e alunas, promovendo-se provocações na forma de pensar, pudemos encontrar pontos que ainda estavam obscuros.
Nas aulas de Licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças entre o capitalismo clássico do pós revoluções industriais, do advento da chamada Maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao Toyotismo – as células de produção, ao invés da linha de produção: o notável Fordismo dos Tempos Modernos, de Charles Chaplin – e os nossos “novos” Tempos Modernos, sempre esteve no repertório conceitual a incidência do Capitalismo de dados: a monetização a partir das redes sociais, a compra e venda de dados pessoais digitalizados. Porém, em seguida, nos deparamos com a insuficiência dessa base analítica. A massa crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o presente, no Brasil, e isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no escopo do capitalismo brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo. Além disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto com o setor financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB (bancadas da bíblia, do boi e da bala), a hegemonia do capital mudou de cara, hoje está assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o novo BBB”).
Da forma como pensamos e tentamos descrever, o livro não se dirige a um público específico, pois pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação, reaparição do passado brasileiro e que sempre atua como fantasma do presente: a mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão (prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao gosto da nossa classe média ou do “novo rico”.
A contribuição do livro para a ciência, além de todo o exposto, está na necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”. Muitos outros aspectos poderiam, deveriam, ser somados a esse conceito (refundado) de Capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados componentes façam parte do corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em termos de Ciência Social dirigida ao século XXI. Comparativamente, não há como tratar o Mundo do Trabalho, na China, sem destacar em primeiro plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6 (trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana). Ironicamente, ao menos partes desse inventário é copiado pelo Anarcocapitalismo de Milei, na Argentina. E o segundo conceito, que é a uberização social. Neste caso, no entanto, abre-se parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o intuito de transcender a exploração brutalizada do Mundo do Trabalho (neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a Ciência Social que se propôs a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um café expresso.
Da fábrica ao algoritmo
Atualmente, a tecnologia encontra-se literalmente na palma das mãos, integrando-se quase de forma simbiótica[1]. Se, no século XX, a mecanização estava no chamado chão de fábrica, hoje ela assume novas configurações mediadas por algoritmos e sistemas automatizados, que extrapolam o ambiente produtivo. No uso de cada aplicativo gratuito, “o produto é você”.
Os algoritmos passam a influenciar decisões relacionadas ao consumo e até mesmo às oportunidades de trabalho. Em muitos processos seletivos, por exemplo, a presença e o comportamento dos candidatos nas redes sociais tornaram-se elementos relevantes na avaliação profissional, evidenciando-se como a lógica algorítmica interfere em diferentes dimensões do cotidiano.
Como mencionado, uma obra clássica que demonstra esse movimento histórico é o filme Tempos Modernos (1936)[1], de Charles Chaplin, cuja narrativa denuncia os efeitos da mecanização industrial, ao evidenciar como a organização mecanizada do trabalho o transforma em uma extensão da máquina, submetendo-o à repetição constante de movimentos e ao controle do ritmo produtivo.
Curiosamente, outra obra de mesmo nome percebe essa relação de uma forma diferente. Enquanto Chaplin evidencia os efeitos da mecanização sobre a condição humana, a canção Tempos Modernos (1982)[2], de Lulu Santos, expressa o otimismo e a expectativa a fim de que o avanço científico e tecnológico conduziria ao progresso social, à liberdade e à melhoria das condições de vida.
Essa dualidade entre o avanço científico e seus impactos sociais permite compreender como isso não ocorre, necessariamente, de forma linear. Uma ideia de que o avanço científico conduziria ao desenvolvimento tecnológico, este produziria crescimento econômico e, consequentemente, maior bem-estar social (PALACIOS et al., 2001)[1], mostra-se insuficiente quando confrontada com a realidade, especialmente ao se comparar as expectativas construídas em torno do progresso tecnológico com o atual contexto[2].
Os meios digitais, por mais inovadores que sejam, se tornaram uma forma de exploração ampliada. Se, no âmbito laboral, a exploração se manifesta pela intensificação da produtividade e pela flexibilização das relações de emprego, no ambiente digital ela alcança o tempo, os dados e as formas de interação social. A exploração deixa de restringir-se à extração da mais-valia e passa a incorporar aspectos da própria experiência humana, transformando elementos da vida privada em recursos economicamente exploráveis.
É nesse contexto cada vez mais predatório que se torna essencial uma educação capaz não apenas de apresentar aos indivíduos o contexto tecnológico, algo que, diga-se de passagem, pouco se faz necessário para uma geração que já nasce imersa nas tecnologias, mas que, sobretudo, seja capaz de problematizar o fato de que as tecnologias não são neutras, nem, por si só, emancipadoras. Para além da formação de sujeitos aptos a utilizar os meios digitais, faz-se necessária uma educação crítica que possibilite compreender e questionar as formas contemporâneas de exploração, controle e desigualdade que permeiam o desenvolvimento tecnológico. Edgar Morin, célebre filósofo da Ciência e da tecnologia, falecido recentemente, merece destaque quanto ao escopo dessa análise[1].
A ilusão do empreendedorismo
Desta forma, a uberização do trabalho nasce durante o século XXI, configurando as relações de trabalho. De forma mais flexível, o indivíduo trabalha conforme a demanda. Entretanto, o sistema vende a ideia de que o trabalhador terá sua emancipação, em que pese se torna uma moeda na relação de trabalho deteriorada. Dialogam com a lógica de estar empreendendo, no entanto, camufla-se a precarização do trabalho. Desse modo, o indivíduo imerso neste cenário não é amparado pela
legislação trabalhista (CLT), por não fazer parte do regime formal de trabalho. Sob a uberização, presta-se serviço às empresas sem atribuir-se valor à mão de obra, que por sua vez é barata: a classe trabalhadora arca com o ônus do trabalho e a transferência de riscos. Um exemplo recente dessa realidade ocorreu durante a pandemia da Covid-19, quando milhares de motoristas de aplicativos continuaram exercendo suas atividades para assegurar sua renda, apesar da elevada exposição ao vírus e da ausência de garantias trabalhistas que lhes permitissem interromper o trabalho com segurança.
Na obra Filosofia, um modo de vida (2025)[1], a filósofa Marilena Chauí apresenta-nos como os valores éticos eram enxergados no pré-capitalismo, o que antes era considerado virtuoso – o indivíduo de coragem e glória –, e, inversamente, na sociedade capitalista é a produção: trabalho e expropriação. A classe trabalhadora é integrada à perspectiva de que o trabalho o engrandece, e com o avanço do capitalismo digital semeia-se a ilusão do empreendedorismo. O que não se revela é a ausência total das garantias políticas, a contínua e acelerada venda da força de trabalho e a dependência economicamente, crônica, da plataforma extratora de mais-valia.
É possível visualizar esse controle social e o rompimento da consciência crítica dos indivíduos diante dos fatos, especialmente quando observamos o enfraquecimento da educação básica pública, subsumida numa condição em que a carga horária de disciplinas da área de ciências humanas foi reduzida, enfraquecendo-se a formação do pensamento crítico, e, de modo contrário, ao passo em que matérias inconsistentes (por exemplo, educação financeira para jovens pobres) e cursos técnicos são implementados e priorizados. A escola passa a priorizar a formação de mão de obra adaptada às exigências do mercado, em vez de promover a reflexão crítica e a capacidade dos indivíduos de compreender e questionar as estruturas sociais que os cercam.
Portanto, aqui vai uma homenagem e dedicação de agradecimento a todos que participaram, no intuito de elevarmos os marcos iniciais dessa discussão.
A referência bibliográfica, para uma leitura mais atenta, segue abaixo:
- MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e da uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
[1] CHAUÍ, Marilena. Filosofia, um modo de vida. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.
[1] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996.
[1] PALACIOS, Eduardo Marino García., et al. (orgs.). Ciencia, tecnología y sociedad: una aproximación conceptual. Madrid: Organización de Estados Iberoamericanos para la Educación, la Ciencia y la Cultura (OEI), 2001.
[2] Outro vínculo havido entre Ciência, tecnologia e condição social, na esteira do pensamento de Morin, está na linha de que é mais complexo explicar a dinâmica da luta de classes, hoje, do que a complexidade do universo observável. Se não houver reducionismo às formulas tradicionais, dos séculos XIX e XX, a missão não é simples, tanto quanto é custoso interpretarmos as principais atribulações entre Ciência e tecnologia na atualidade: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin*: São Carlos: Amazon, 2026. Disponível.
[1] Utiliza-se o termo simbiose para caracterizar a relação de interdependência entre os indivíduos e as tecnologias digitais, na qual as plataformas integram o cotidiano e influenciam comportamentos, ao mesmo tempo em que dependem da atividade constante dos usuários para seu funcionamento.
[1] CHAPLIN, Charles (direção). Tempos modernos. Estados Unidos: United Artists, 1936. 1 filme (87 min.), son., preto e branco.
[2] SANTOS, Lulu. Tempos modernos. In: SANTOS, Lulu. Tempos modernos. Rio de Janeiro: WEA, 1982. Disponível em: https://youtu.be/me2Xv_Np9xA?si=m3zq0l9Flxrm-TeD.




