“Vocês conhecem a LCP tão bem quanto eu”: autoproclamado “05” do clã Bolsonaro, Scheid revive sua suposta “história de superação” de 2018, chama a LCP de “facção criminosa” e prega cadeia para camponeses pobres.
O latifundiário bolsonarista Bruno Scheid (PL-RO) publicou, em 15 de junho, um vídeo em que reencena, diante de latifundiários de Rondônia, o que apresenta como o grande trauma de sua vida: uma suposta ação da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), em 8 de agosto de 2018, na fazenda de sua família, em Alvorada do Oeste (RO). Segundo o valente, ele e sua esposa chegavam à propriedade às 17h30 quando teriam se deparado com “15 caras encapuzados portando fuzil, pistolas, tudo que vocês possam imaginar”.
“Vocês conhecem a LCP tão bem quanto eu. Tá aqui, ó, atuando nessa região aqui há muitos anos”, afirmou Scheid, dirigindo-se a outros latifundiários que também têm dores de cabeça com a LCP. Segundo ele, os supostos homens armados “entraram numa propriedade que eu jamais imaginei que fossem entrar”, renderam ele e sua esposa e o mantiveram “sob cárcere”.
A apresentação avançou para o dramalhão: “Ali, naquele dia, quando fizeram aquilo comigo, me mataram”. Mas a plateia de latifundiários não precisava se preocupar: “No dia 8 de agosto mataram um cara e pariram o outro no dia 9. Fui eu que tô aqui hoje”. A frase de efeito, do tipo ensaiada, foi o ápice do vídeo, divulgado nas plataformas digitais de Scheid.
O “novo” Scheid, segundo ele mesmo, acordaria diariamente pensando no que faria para “defender pessoas como vocês”, em referência aos latifundiários presentes, homens acostumados a proporcionar violência e toda sorte de ilegalidade contra posseiros em Rondônia. Logo depois, explicou como pretende defendê-los: “Como é que eu vou fazer pra pisar no pescoço de vagabundo como a LCP fez comigo?”.

‘Cárcere de tortura, humilhação e medo’
Scheid já havia recitado o mesmo drama no Podcast Resenha Política, onde apareceu como pré-candidato ao Senado pelo Partido Liberal (PL). Com mais floreios, afirmou que passou “quase 20 horas num cárcere privado” por obra da LCP.
“Ali eu sofro um cárcere privado pesado de uma história que marcou a minha vida, marcou a memória da minha família. Um cárcere de tortura, um cárcere de humilhação, um cárcere praticado com o intuito único de ferir na alma e por medo, impor medo”, afirmou. No relato, Scheid disse ter sido “amarrado, despido, torturado” e ameaçado “psicologicamente, fisicamente durante a madrugada inteira”, causando incredulidade em que ouve a estória. Disse ainda que tudo teria ocorrido diante de “funcionário, mãe, filho, esposa”.
Nas gravações, Scheid não apresenta qualquer prova de suas acusações contra a LCP, nem mesmo que tenha ocorrido tais torturas por obra de outro agente. O latifundiário, contudo, aproveitou o relato para louvar a Polícia Militar de Rondônia (PM-RO), que realizou a “reintegração de posse” e devolveu a fazenda ao bolsonarista no dia seguinte. “Graças à honrosa Polícia Militar”, disse. Para ele, a PM-RO tem “um peso para a sociedade muito grande no ponto positivo” e seria “uma das mais confiáveis do Brasil”. Há controvérsias.

Realmente, para latifundiários como Scheid, o serviço tenaz e subserviente das forças oficiais vem muito bem a calhar. Na Área Tiago Campin dos Santos, camponeses denunciam ameaças da PM-RO e paramilitares a soldo de latifundiários contra famílias, destruição de ponte construída coletivamente, ataques à balsa usada pelas famílias e tiros disparados para aterrorizar mulheres e crianças. Policiais de uma corporação que que aterroriza os pobres do campo também servem como seguranças privados de latifundiários como João Martins – sobrinho de “Galo Velho”, acusado formalmente de ser de uma organização criminosa para grilagem de terras no estado –, que admitiu, em entrevista ao AND, contratá-los para proteger seus patrimônios.
Ademais, o recente Tribunal Popular Contra os Crimes do Latifúndio em Rondônia, realizado em março deste ano, condenou uma série de outros delitos no estado, como a apropriação de terras públicas por fraude, violência e grilagem, além de responsabilizar coronéis da PM-RO por crimes contra camponeses. Dias depois, PF e MPF abriram investigação sobre o assassinato de oito trabalhadores rurais e lideranças camponesas, entre 2009 e 2016, bem como sobre a atuação de “milícias privadas” (paramilitares) do latifúndio no estado.
‘Isso é movimento social ou facção criminosa?’
Em nova rodada de assaques, a “imprensa lixo” O Observador reproduziu a gritaria do caudatário rondoniense do clã Bolsonaro, Scheid, segundo o qual a LCP “porta fuzil em Rondônia”. O bolsonarista perguntou: “Isso é movimento social?”. E respondeu ele próprio, colérico: “Isso é facção criminosa”. No mesmo berreiro, Scheid atacou os camponeses que lutam pela terra: “Mas estes vagabundos que vivem da invasão de propriedades, todos têm que é ‘puxar’ cadeia”. Irônico é que tal frase, disparada por Scheid, se levada “ao pé da letra”, conduziria à cadeia não os camponeses, mas sim os latifundiários ladrões de terras da União.
O alarido de Scheid acompanha a campanha da extrema direita latifundista para enquadrar a luta pela terra no vocabulário de “facções” e “terrorismo”. Em maio, o latifundiário Ronaldo Caiado, ex-dirigente do grupo paramilitar de extermínio União Democrática Ruralista (UDR), defendeu classificar Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como “organizações terroristas” para viabilizar o emprego permanente das Forças Armadas reacionárias na Amazônia, sem decreto de Garantia da Lei e da Ordem, enquanto a PM-RO e seus delatores (alguns dos quais da falsa esquerda oportunista) normalizam a retórica da LCP como “organização criminosa ligada ao CV”, acusando-a de não ser movimento camponês, etc., no sonho podre de destruir a organização camponesa.

No Senado, tramitam medidas tipicamente fascistas, peças do arcabouço jurídico punitivo da contrarrevolução. Entre elas está o projeto apresentado por Eduardo Girão (Novo-CE), que dispensa a decretação de Garantia da Lei e da Ordem para mobilizar tropas contra o chamado “domínio de áreas urbanas ou rurais”, fórmula que coloca na mira ocupações camponesas, comunidades indígenas e quilombolas.
A ofensiva recebe a bênção da falsa esquerda oportunista no governo: além de declarar que “facções e milícias” praticam “terrorismo” e de afirmar que “qualquer colaboração internacional” para combatê-las será bem-vinda, o governo de Luiz Inácio (PT) propôs endurecimento penal contra grupos que supostamente “dominem territórios”. Não por acaso, serviçais do latifúndio em Rondônia, como o ex-comandante da PM-RO Régis Braguin, já tentam aplicar a mesma fórmula à LCP, acusando a organização camponesa de “controlar territórios” nas áreas tomadas do latifúndio.

Amor platônico pelo capitão do mato
Scheid afirma que a suposta ação da LCP de 2018 foi sua porta de entrada no bolsonarismo. Segundo ele, um ex-assessor de Jair Bolsonaro entrou em contato para perguntar se o então candidato à Presidência poderia usar o caso na campanha.
“Ali nasceu o primeiro contato com o presidente Bolsonaro”, afirmou Scheid, em tom romântico, quase adolescente. Para o tiete, aquele telefonema de campanha virou uma espécie de certidão de batismo político. Desde então, ele se agarra ao episódio como quem exibe uma migalha de curiosa intimidade com o clã Bolsonaro.
Segundo ele, Bolsonaro pediu que relatasse o caso e enviasse imagens. “Ele usou isso em algumas campanhas”, vangloriou-se. Scheid diz que Bolsonaro explorava seu caso como exemplo de “superação” à violência no campo: “Esse caso aqui lá de Rondônia, esse cara aqui, quase mataram esse cara, é isso que eu defendo, que não aconteça mais”.
Bolsonaro também fez da LCP alvo de palanque. Em outubro de 2020, publicou imagens de confrontos entre camponeses e policiais em Rondônia e escreveu: “Tenho a minha opinião, qual a sua?”. A publicação serviu de senha para nova ofensiva reacionária contra a LCP. Em 1º de maio de 2021, diante de uma plateia formada por latifundiários e bois zebus, durante a abertura da 86ª ExpoZebu, voltou a atacar os camponeses pobres e a organização.
Desde então, Scheid passou a autointitular-se o “05” do clã Bolsonaro, tornou-se vice-presidente do PL em Rondônia e tenta converter sua fidelidade rastejante à família de bandidos em cacife político e eleitoral para o Senado. Recentemente, foi autorizado a visitar Bolsonaro na Papudinha, onde o ex-presidente genocida e golpista está preso, e apresenta-se como seu assessor.
Quando vieram a público os áudios e mensagens sobre as relações do clã Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, Scheid apressou-se a defender seus amores. Em maio, atacou os que chamou de “oportunistas” e “falsos bolsonaristas”, acusando-os de “correr da canoa” nos momentos de crise e depois tentar “reescrever a história”. O chilique ocorreu quando o caso Master expunha as relações de Flávio “Rachadinha” Bolsonaro com Vorcaro e o financiamento milionário de uma operação de propaganda eleitoral de extrema direita para reabilitar a imagem do capitão do mato.
Batalhas do Norte fizeram latifúndio tremer
A cruzada de Scheid contra a LCP recicla a mesma gritaria que tomou conta do latifúndio em 2021, quando os camponeses das Áreas Tiago Campin dos Santos, Dois Amigos e Ademar Ferreira enfrentaram a operação de guerra “Nova Mutum”. A ofensiva foi lançada pelo governo militar de Bolsonaro e generais, por meio da Força Nacional, e pelo governo de Rondônia, com a PM-RO, contra cerca de 800 famílias que vivem e produzem nas áreas. Mais de 3 mil homens foram mobilizados para desalojar as famílias numa operação que consumiu mais de R$ 1 milhão por dia para sustentar o cerco policial e militar contra os camponeses pobres.
As forças de repressão cercaram os acampamentos, atacaram famílias, destruíram casas e lavouras e buscaram impedir o abastecimento das áreas. Os camponeses resistiram com destruição de pontes e armadilhas para impedir o avanço das tropas, promoveram resistência política, enfrentaram a operação de guerra e retomaram seus lotes. Em 27 de novembro de 2021, as famílias retornaram às áreas de onde haviam sido expulsas.

Em maio deste ano, a campanha contra a Área Tiago Campin dos Santos voltou a se intensificar após a execução de dois camponeses pela PM-RO nas imediações da área. A LCP afirmou que os dois “não são e nunca foram da LCP” e denunciou o caso como “queima de arquivo” ligada ao chamado “bando do Jed”, ao ex-comandante da PM-RO Régis Braguin e ao superintendente do Incra-RO, Flávio.
Já em 1º de junho, uma decisão da 2ª Unidade de Conflitos Agrários de Porto Velho suspendeu a reintegração de posse coercitiva que ameaçava cerca de 400 famílias dos Acampamentos Tiago Campin dos Santos 1 e 2. A medida foi obtida após pedido de reconsideração da Associação Brasileira dos Advogados do Povo – Gabriel Pimenta (Abrapo), e o conflito foi remetido à Comissão Regional de Soluções Fundiárias.

LCP responde: ‘Não vão conseguir parar a luta pela terra’
Em maio de 2021, antes das Batalhas do Norte, a Comissão Nacional das LCP divulgou uma nota em resposta aos ataques de Bolsonaro contra a luta pela terra. O texto destacou quem são os verdadeiros responsáveis pelo terror no campo: “Terroristas são os latifundiários ladrões de terra”, que agem com bandos de pistoleiros ou utilizam “as próprias forças policiais a seu serviço”, causando “verdadeiro terror no campo, cometendo toda sorte de crimes e atrocidades, assassinando impunemente camponeses e demais lutadores do povo”.
A nota afirmou que, para os camponeses pobres, sobreviver significa conquistar um pedaço de terra para trabalhar. Reafirmou que a LCP não é contrária à pequena e média propriedade, ao contrário, defende “a entrega das terras dos latifúndios para os camponeses pobres sem terra ou com pouca terra”. Ao mesmo tempo, denunciou a concentração fundiária, a grilagem e o roubo de terras da União, de indígenas, posseiros e camponeses em benefício dos grandes latifundiários.

Em outubro de 2024, a LCP apontou que a reação latifundiária bolsonarista organiza bandos paramilitares financiados pelo latifúndio e amparados pelo “suporte militar das PMs e Polícias Civis”. O texto recordou que a extrema direita bolsonarista criou o “Invasão Zero” depois das derrotas impostas pela LCP em Rondônia e advertiu: “Esta horda paramilitar bolsonarista está levando sua guerra covarde ao campo, é guerra que eles vão ter!”.
Mais recentemente, em novembro de 2025, a organização respondeu à mesma cantilena ventilada hoje por Scheid. Afirmou que a LCP “não é organização criminosa, muito menos terrorista”, mas “organização classista e combativa dos camponeses pobres do Brasil”. Reafirmou a luta pela Revolução Agrária, pela entrega da terra aos camponeses pobres e pela autodefesa das massas diante da violência reacionária e terrorista do velho Estado.




