quinta-feira, outubro 15, 2026
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Macaquices na política – vote certo!!

 

Sim, já tivemos um macaco politizado – ou mais de um. O caso mais célebre ocorreu no Rio de Janeiro. O macaco Tião foi candidato a prefeito, em 1988, e teve mais de 400 mil votos[1].

…

Hoje temos o Fascismo na rota da proa. No mundo, no Brasil.

Não faça como o Macaco Tião, não dê uma banana para o povo. Vote em defesa da nossa Constituição, da Democracia, vote a favor do povo pobre, negro e oprimido. Vote com lucidez, sem ressentimentos!

…

Talvez venha desse ressentimento a expressão “macaquices na política”. Exemplo notável disso nós verificamos entre candidatos que misturam religião e política, fé e poder temporal. Nem mesmo a outrora famosa Antropologia Filosófica, ou algo do gênero, chegaria a essas investidas desajustadas.

Por definição biológica, os chipanzés são muito parecidos com os humanos, com um antepassado em comum – algo como um primo distante na longa evolução das espécies.

Essa observação e mesmo o uso de analogias biológicas com relação às Ciências Sociais não podem ser tomadas sem consequências, indevidamente, pois, há o risco atual e crescente de naturalizarmos certos determinismos, como vimos com o “geneticismo” e como vemos com a neurociência.

O humano não se resumisse ao cérebro, órgão, dispendido da outra metade dessa equação: a mente. Não há cérebro sem mente, e vice-versa. Ou seja, não existe com validação científica algum tipo de Sociologia biológica. São construções antitéticas.

Portanto, o emprego dessa analogia de hoje não é pitoresca, nem é “biologicista”. É tão-somente um recurso didático, assim como ocorre com a licença poética, a liberdade criativa e com as figuras de linguagem. Porém, é um tema sério, tão sério quanto as “macaquices desenfreadas” de muitos políticos atuais.

Com essas observações em mente, passaremos a outras indagações acerca de alguma similitude que possamos ter com os nossos primos chipanzés – mais especificamente entre a política e a guerra.

A guerra é a continuação da política por outros meios? Essa questão não é nova, muito menos é uma ilação. É uma das afirmações clássicas da Ciência Política: Carl von Clausewitz, no livro Da guerra.

Neste sentido, foi registrada a primeira guerra civil entre chipanzés.

A reportagem retrata a primeira guerra civil entre primatas, registrada por cientistas, em Ngogo em Uganda. Em 2015, um grupo de mais de 200 chimpanzés começou a se dividir em dois grupos, que inicialmente ainda conviviam e caçavam juntos. A separação se intensificou até 2018, quando passaram a ocupar territórios distintos. Entre 2018 e 2024, foram registrados 24 ataques, que causaram a morte de mais de 20 chimpanzés, incluindo filhotes[2].

Os pesquisadores utilizaram o termo “guerra civil” como uma metáfora devido ao conflito por território através de uma violência letal, mas um elemento que merece destaque é o fato de que a divisão dos grupos precedeu o surgimento dos conflitos. Ou seja, com a polarização como premissa para desencadear conflitos, sendo compreendida como uma condição que favoreceu, é possível estabelecer uma aproximação à condição geopolítica humana durante a guerra fria, marcada pela oposição entre capitalismo e socialismo, e bem como observada durante o século XXI, sobretudo, com a crescente polarização político-partidária entre esquerda e direita.

Numa releitura provocativa, se a guerra é a continuação da política, ao fazerem guerra, os chimpanzés fazem política?

E se fazem política, os chimpanzés têm consciência de que são chimpanzés?

Não. Eles têm a consciência física de si, há testes com espelhos sobre isso, e até respondem de forma agressiva. Entretanto, a consciência “humana”, por exemplo, de autoconsciência, de projeção e afins, talvez ainda não ou, se a tem, nós não sabemos.

Essa verificação da guerra civil entre os chipanzés seria muito mais uma resposta “natural”, por impulso pra ter parceiras reprodutivas, ambiente com alimentos e questões de dominância, e não necessariamente passaria pela apresentação de projetos, transformações, embate de valores díspares ou por uma “melhoria social”. Portanto, essa verificada guerra civil é algo mais rompante.

A leitura sobre a política humana, sobre nossa condição humana de “fazer-se política” está indicada por Aristóteles (A Política)[3] e, mesmo que não se duvide muito dessa condição impositiva da política, sobre nós, transformando-nos de seres sociais em animais políticos, mesmo assim, é preciso temperarmos qualquer afirmação posterior com O Príncipe, de Maquiavel[4], e com a Antropologia Política, de Balandier[5]. E isso não é fácil, porque são referências distantes no tempo e na metodologia: não têm uma construção orgânica entre si.

A última consideração ocorre em função do Fascismo, uma vez que a primeira ação desse tipo de controle do poder é a desumanização, os ataques violentos ao “fazer-se política” e que, não poucas vezes, levam à guerra civil – como visto na Guerra Civil Espanhola.

Enfim, como aprendemos com o Macaco Tião, macaquices na política custam muito caro, seus efeitos são sentidos por décadas. O Macaco Tião passou, mas o Fascismo está aí, remando contra nós outra vez.

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

Izabela Victória Pereira – Orientanda de TCC/Filosofia/UFSCar

[1] https://super.abril.com.br/sociedade/um-macaco-ja-foi-candidato-a-prefeitura-do-rio-e-recebeu-mais-de-400-mil-votos/. Acesso em 29/09/2026.

[2] https://www.bbc.com/portuguese/articles/cpvp09dyeljo. Acesso em 29/09/2026.

[3] ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

[4] MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe: Curso de Introdução à Ciência Política. Brasília-DF: Universidade de Brasília, 1979.

[5] BALANDIER, Georges. Antropologia Política. São Paulo: Difusão Europeia do Livro & Editora da Universidade de São Paulo, 1969.

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