@viniciocarrilhomartinez
Esse texto é baseado numa atividade pedagógica que vamos realizar em sala de aula. Tem por base o pensamento de Paulo Freire, o nosso Patrono da Educação, e que, a par da sua complexidade filosófica e sociológica, ainda hoje acarreta abordagens ou conclusões profundamente ignorantes dos conceitos.
Paulo Freire teve que sair do Brasil, no início da ditadura de 1964, porque seria morto se ficasse. Então, mesmo para fazer críticas tem que conhecer um pouco. Vou citar apenas dois tipos que cheguei a presenciar, infelizmente, e que se encontraram na reta final:
O primeiro faz uma leitura de esquerda sectária, sem leitura do autor, e conclui que, se ele defende a Liberdade, Paulo Freire é só mais um liberal. A minha pergunta para esse tipo foi direta: além dos tiranos, capitães do mato e supremacistas, quem mais é contra a Liberdade?
O segundo caso, ocorrido em 2021/22, retrata uma senhora que se autointitulava ex-aluna de Paulo Freire, garbosa, e ornamentou o seu estúdio com uma bandeira do bolsonarismo/fascismo. Nesse caso, nem pergunta houve, pois ela foi simplesmente desligada da transmissão.
Como veremos a partir de agora – a atividade que proponho –, nenhum dos dois tipos tem a menor noção do que falam ou pensam, se é que pensam, pois nunca leram ou, se chegaram a ler, não entenderam uma única palavra do que escreveu Paulo Freire.
A atividade segue abaixo.
…
Podemos fazer três leituras e três interpretações de um dos pontos cardeais do livro Pedagogia do Oprimido. Podemos supor muitas outras abordagens, mas essas três são básicas. Aliás, isso já nos lembra de um outro livro de Paulo Freire:
- FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler – em três artigos que se completam. São Paulo: Editora Autores Associados, 1986.
Nossa questão inicial, sobre a qual se sobrepõe todas as demais provocações intelectuais e morais, é a seguinte:
— Como podemos relacionar Liberdade, Autonomia e Emancipação em Paulo Freire?
É nesse ponto que temos três hipóteses centrais:
- A Liberdade do jugo, da opressão, da dominação pela chibata, é o ponto de partida, nada prospera sob o chicote, a não ser o ódio. E, assim, com a libertação (como luta) se afirmam a Autonomia e a Emancipação; sendo equivalentes na luta política que travam.
- A Liberdade está para a Autonomia, assim como a Autonomia está para a Emancipação. No Libertas quae sera tamen está inscrita a Liberdade, ou seja, a escolha, o movimento que se completa na luta pela própria libertação – entendida aqui como Autonomia que luta pela Emancipação do jugo, da tirania, da opressão.
- A Liberdade é fundeada na luta política, então, ninguém é livre para fazer qualquer coisa – só se é livre no processo de luta social e política. Logo, a Autonomia estaria dirigida, restringida, pela lógica afirmativa; qual seja: “Só ´podemos nos dar regras que garantam nossa libertação, participação e capacidade de decisão autônoma”. Inexiste o “direito de ser escravo/a”. Por sua vez, a Autonomia não corresponde ao “direito de comprar um tênis”. Autonomia é consciência e ação a fim de que a Emancipação – libertação, descolonização, independência, afirmação da soberania – possa ser identificada como um constructo coletivo, histórico, institucional, político.
Outra forma de abordagem seria essa: a Liberdade está no começo, no meio ou no final da conjugação política?
- Liberdade → Autonomia → Emancipação
- Autonomia → Liberdade → Emancipação
- Autonomia → Emancipação → Liberdade
Seguindo a Revolução Francesa poderíamos ter mais variações possíveis, no livro Pedagogia do Oprimido: i) a Liberdade é sinônimo de libertação (descompressão do oprimido), portanto, é a origem do processo político; ii) a Liberdade está no meio de todo o processo, como uma referência intermodal para onde devem convergir a Autonomia e a Emancipação; iii) trata-se do todo, esse todo atua medium, um meio que também é catalisador, um encontro entre as três variáveis em busca de uma síntese – assim, só se distinguem Liberdade, Autonomia e Emancipação a fim de se destacar um ou outro fator, a depender do momento histórico em que se encontra a luta política.
—- Porém, para aqueles críticos sem letramento no autor, há mais uma provocação: Vocês deploram a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade? Negam a Revolução Francesa?
Agora você, como relacionaria Liberdade, Autonomia e Emancipação?




