Beatriz Vitória Vieira de Lima – Monitora da disciplina
Ester Dias da Silva Batista – Monitora voluntária da disciplina
Izabela Victória Pereira – Orientanda de TCC
O presente artigo é uma contribuição acadêmica à disciplina de Educação e Sociedade, ofertada neste semestre na Licenciatura da UFSCar.
A educação no estado de São Paulo é consolidada pelo novo ensino médio, ampliando a carga horária e a expansão do ensino em tempo integral. A promessa é equilibrar formação sólida, preparação para o mundo do trabalho e desenvolvimento de competências para a vida em sociedade. O resultado concreto dessa reformulação, porém, dependerá da qualidade da implementação nos próximos anos.
No âmbito das políticas educacionais se destaca que, em abril de 2023, a gestão do secretário da Educação Renato Feder, sob o governo Tarcísio de Freitas, passou a orientar a fim de que professores e professoras de todas as séries do ensino fundamental e médio utilizassem materiais digitais em formato de slides (PowerPoint/PDF) produzidos pela Secretaria, funcionando como uma espécie de “roteiro” a ser seguido. É obrigatório o uso das plataformas digitais de ensino, inclusive como avaliação do desempenho de docentes e discentes. Nesse sistema, os professores devem se basear apenas no conteúdo oferecido nas plataformas, e que no final do ano são cobrados nas provas do governo (Saresp e Provão Paulista). A foto abaixo sinaliza claramente o tempo monitorado de permanência em cada slide, como se o raciocínio obedecesse a um cronômetro.
Tempo de permanência em cada slide no canto superior:![Pode ser uma imagem de televisão e texto que diz "Ralenbre A "Discrepăncia Promebeica Prome "DisereplrncuiPrometeka elca Günther Anders GüntherAnders(1902 1902- 1992] 1992)argumentavaquea 2jargumentava 모나는 a humanidade desenvolveu tecnologias tào aranc adas que Superam nossa capacidade de compreender asconsequencias, consequentemente, de controla 1550 cria นส descompasso entre que podemos produzir que conseguimos assimilar, C0095o"](https://scontent.fmcz3-1.fna.fbcdn.net/v/t39.30808-6/675141337_26574495518870586_6202371697197155311_n.jpg?_nc_cat=110&ccb=1-7&_nc_sid=13d280&_nc_eui2=AeHaT_TIfeOY0-jbFLv71f05eqDO1Vqx8rp6oM7VWrHyurCXtjLtJYe0D-cgfyDFYZIwdxa2erh4oGdvyqGKtKc0&_nc_ohc=hguXchO8wXgQ7kNvwElumen&_nc_oc=AdpAgoabnVZw24E9WTlaKSvIt6SEKJmNH-BVH8gO21JM01E9JmHifR78Wv1RJyHn0jbIrLFK4hFZL09lyCHb85k4&_nc_zt=23&_nc_ht=scontent.fmcz3-1.fna&_nc_gid=kJaqDY0lQJwckq4YnAgrCw&_nc_ss=7a3a8&oh=00_Af2gb0QFEcd_1xB5416qoA4zvCHfv27wCYT8Yh_ffwNVvQ&oe=69ED8DEC)
Os slides fornecidos apresentam problemas metodológicos, erros conceituais e fazem má contextualização das informações para os alunos. Após uma segunda onda de críticas, o governador Tarcísio de Freitas anunciou que o governo de São Paulo assumiria a impressão dos referidos materiais didáticos, ou seja, poderia optar por ter o material digital ou impresso. Em uma matéria publicada pelo jornal G1[1], no dia 31 de agosto de 2023, vê-se que docentes da rede estadual têm reportado que o material didático digital produzido pela Secretaria da Educação, sob a gestão do governador Tarcísio de Freitas, e disponibilizado a professores e estudantes do ensino fundamental, apresenta inconsistências significativas em múltiplas áreas do conhecimento, incluindo-se história, biologia e matemática. Alguns conteúdos apresentam erros graves, como afirmar que a cidade de São Paulo tem praia ou sugerir, de forma equivocada, que a doença de Parkinson pode ser transmitida pela água.
O que só evidencia o enfraquecimento e a falha proposital da educação básica pública no estado de São Paulo, pois, as plataformas aumentam a carga de trabalho, reduzem a autonomia dos profissionais da educação e geram resultados pouco significativos em relação à melhoria da aprendizagem dos estudantes. Enquanto uma parcela da sociedade adere ao discurso de “inovação tecnológica e investimento educacional” associado ao uso das plataformas digitais.
O roteiro científico da Wikipédia (sic) – enciclopédia online – permite a qualquer pessoa ler e editar seus conteúdos, o que já destaca alguns problemas, porque, embora a Wikipédia seja uma ferramenta útil, seu uso acrítico, sem aprofundamento ou verificação em bases acadêmicas sólidas, evidencia uma fragilidade na formação científica e no desenvolvimento do pensamento investigativo.
A foto abaixo é reveladora, como fonte usada pelo material do governo de SP:
Não é difícil, pois, verificar que a educação em São Paulo, nas gestões de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes, tem sido marcada por uma combinação de gestão extremada com o discurso dos resultados, com o uso de tecnologia e mudanças estruturais, mas também por críticas sobre precarização e redução de investimentos. A queda de matrículas, cortes, criação sem controle de escolas cívico-militares e avanço de privatização marcam a gestão de Freitas na educação do estado.
Diante desse cenário, a noção de uma “Pedagogia do fracasso” pode ser compreendida como uma crítica às múltiplas fronteiras que atravessam a educação contemporânea, incluindo-se disputas ideológicas, fragilidades na formação crítica e desafios estruturais. No entanto, essa expressão também pode ser ressignificada como um chamado à resistência pedagógica. Professores e professoras, estudantes e comunidades escolares podem atuar na construção de práticas educativas críticas, pautadas no diálogo, na valorização do conhecimento científico e na defesa de uma educação pública de qualidade, que ultrapasse os reducionismos quantitativos e as disputas ideológicas.
Produções cinematográficas como “Brasil paralelo” simplificam ou reinterpretam processos históricos e educacionais. A empresa busca entregar conhecimento com alta qualidade cinematográfica, tratando de temas como história do Brasil, política, segurança pública e filosofia. Produzem documentários com uma perspectiva que diverge de visões predominantes entre intelectuais e jornalistas. Esse tipo de conteúdo pode influenciar a percepção pública sobre a escola, os professores e o papel da educação na sociedade e, ao invés de promover o diálogo, podem aumentar conflitos de opinião sobre a educação. Todavia, os produtores desse tipo cinematográfico têm acesso livre nas escolas do município de São Paulo.
Ademais, é essencial analisar as transformações na educação do Estado de São Paulo não como ações isoladas ou impensadas, mas como parte de um processo histórico mais amplo, que há anos busca reconfigurar a educação como instrumento de manutenção de determinadas formas de poder e organização social. A padronização de materiais, aliada ao uso acrítico das tecnologias, revela apenas a ponta de um problema estrutural mais profundo no contexto educacional brasileiro.
Nesse cenário, os estudantes são progressivamente reduzidos à condição de meros receptores de conteúdos, priorizando-se a transmissão de informações em detrimento da formação de um pensamento crítico, e ao contrário do que quer a chamada Educação Bancária[1]. Tal dinâmica torna-se ainda mais preocupante ao se considerar o ensino médio, etapa em que temas históricos e sociais deveriam ser aprofundados, especialmente diante do fato de que, a partir dos 16 anos, os jovens já podem exercer o direito ao voto. Ao terem contato com conteúdos superficiais, corre-se o risco de formar sujeitos com uma compreensão fragilizada da realidade, que tendem a reproduzir tais perspectivas no campo político e social, contribuindo-se para a manutenção de estruturas de desigualdade já consolidadas.
Esse cenário, embora frequentemente naturalizado ou interpretado de forma simplista em determinados discursos, não se configura como um processo casual, mas como uma crise construída. Nesse sentido, as contribuições de Paulo Freire, em Pedagogia do Oprimido[2], permanecem atuais ao evidenciar que uma formação incompleta pode levar o sujeito não à emancipação, mas à reprodução das estruturas de opressão. Assim, observa-se a constituição de indivíduos que, mesmo inseridos em contextos de exploração, acabam por defender e reproduzir lógicas que lhes são prejudiciais.
Exemplos contemporâneos, como debates em torno das condições de trabalho (escala 6×1), evidenciam como discursos – por exemplo, de que o país irá “quebrar” com uma escala 5×2, bem como na consolidação da CLT e as 44h semanais – que historicamente foram utilizados para frear conquistas sociais continuam sendo mobilizados, muitas vezes sustentados por uma formação educacional que não promoveu o desenvolvimento do pensamento crítico.
O enfraquecimento escolar, por sua vez, não deve ser compreendido apenas como falha pedagógica, mas como expressão de disputas sociais históricas, nas quais o acesso ao conhecimento crítico e científico se torna um campo de tensão e manipulação do lado dominante. O esvaziamento de disciplinas fundamentais (diga-se de passagem, somente na rede pública, já que a rede privada permanece com aulas de História, Sociologia e Filosofia), reforça esse movimento predatório.
Torna-se fundamental reafirmar a escola como um espaço de formação integral, conforme propõe a própria BNCC[3], e que o projeto educacional seja comprometido com o desenvolvimento crítico e emancipador dos sujeitos. Isso implica recolocar o conhecimento científico e social em uma perspectiva problematizadora e socialmente relevante, não somente reprodutiva, em consonância com uma educação que vá além da mera transmissão de conteúdos.
A resistência pedagógica, portanto, não se configura como oposição meramente partidária, mas como prática cotidiana de estudantes e docentes na construção e na defesa de uma educação pública de qualidade. Mais do que adaptar-se às mudanças impostas, trata-se de disputar os rumos da educação, garantindo-se que ela não se reduza a lógicas instrumentais ou mercadológicas, mas que a educação permaneça comprometida com a formação de sujeitos críticos, capazes de compreender e transformar a realidade em que estão inseridos.
[1] Educação bancária, conceito desenvolvido por Paulo Freire, refere-se a um modelo de ensino em que o professor transmite conteúdos, tratando os alunos como receptores passivos, sem diálogo ou construção crítica do conhecimento.
[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.
[3] BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018
[1] https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2023/08/31/rede-estadual-de-sp-ensina-que-capital-paulista-tem-praia-e-agua-pode-transmitir-parkinson-secretaria-diz-que-retificou-erros.ghtml.




