terça-feira, outubro 13, 2026
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Quando o mau-caratismo vira profissão

Ester Dias da Silva Batista

No ano de 2025, a divulgação de casas de apostas e jogos de azar, apesar das restrições legais, tornou-se cada vez mais comum nas redes sociais, especialmente em plataformas de consumo rápido, como o Instagram. A facilidade de acesso e a exposição contínua a esse “conteúdo” revelam uma distorção ética preocupante: práticas visivelmente nocivas passaram a ser socialmente interpretadas como uma profissão legitimada.

A lógica de influenciar é antiga, mas nesse contexto, foi profundamente modificada. Se antes estava associada ao compartilhamento de rotinas pessoais, nos chamados vlogs, hoje molda as decisões de consumo. Reviews, publicidades e recomendações atravessam quase tudo o que consumimos, inclusive comportamentos de risco. Assim, a divulgação de jogos de azar deixa de ser uma ação individual e passa a produzir efeitos coletivos.

Tais jogos não são neutros e configuram-se como um problema de saúde pública, sobretudo no campo da saúde mental. O vício em jogos envolve mecanismos psicológicos e biológicos semelhantes aos observados na dependência de álcool, por exemplo, podendo ser desencadeado por predisposições até então desconhecidas. Embora o discurso da auto responsabilidade seja frequentemente mobilizado, ele não dá conta da complexidade deste problema. Jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica são especialmente impactados pela exposição contínua a conteúdos que glamourizam apostas, sem alertas efetivos das consequências dessa prática.

Os relatos de famílias destruídas e casos de suicídio relacionados a apostas têm se tornado mais frequentes. Há iniciativas de denúncia que transformam o luto em ativismo, demonstrando como este problema ultrapassa o âmbito individual e atinge o aspecto social. Quando lucrar passa a ser sinônimo da exploração de fragilidades, a influência é transformada em desinfluência. Questionar esse modelo não trata-se de um moralismo, mas responsabilidade social: em que momento foi normalizado que o mau-caratismo se tornasse profissão?

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