sexta-feira, maio 15, 2026
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Flávio Bolsonaro virou zumbi e Eduardo Bolsonaro entrou na mira da PF

O navio do bolsonarismo começou a afundar e o naufrágio é irreversível

Por Leonardo Attuch

O bolsonarismo entrou em sua fase terminal. O que se vê agora não é mais um projeto político em expansão, mas um agrupamento em decomposição, corroído por denúncias, disputas internas, dependência financeira obscura e crescente isolamento político. O vazamento das mensagens envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro abriu uma fissura irreparável no núcleo do clã e produziu um efeito devastador: o herdeiro político escolhido por Jair Bolsonaro passou a ser visto, até mesmo entre aliados, como um cadáver eleitoral ambulante. Um zumbi político.

Mas talvez o aspecto mais explosivo dessa crise ainda esteja por vir. Uma investigação séria da Polícia Federal sobre o destino dos recursos transferidos a um fundo texano administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro provavelmente caminhará para um ponto inevitável: descobrir o destino real dos recursos movimentados no entorno do clã. E há fortes razões para supor que Eduardo Bolsonaro esteja no centro dessa engrenagem.

Nos Estados Unidos, Eduardo tem mantido uma vida de luxo e não apenas atuou sistematicamente contra os interesses nacionais como também se transformou em operador de interesses estrangeiros dentro da política brasileira. Enquanto o Brasil buscava preservar relações diplomáticas minimamente equilibradas, o filho de Jair Bolsonaro fazia campanha aberta em favor de tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Mais grave ainda: atuou politicamente para estimular sanções internacionais contra ministros do Supremo Tribunal Federal, defendendo a aplicação da chamada Lei Magnitsky – instrumento utilizado pelos EUA para punir governos e autoridades estrangeiras.

 

Trata-se de um comportamento sem precedentes na história política brasileira recente. Nunca um parlamentar nacional trabalhou de maneira tão explícita para fragilizar instituições do próprio país perante potências estrangeiras. Eduardo cruzou a fronteira da oposição política tradicional e passou a atuar como agente de sabotagem institucional, podendo ter sido financiado por Daniel Vorcaro.

A nota divulgada por Eduardo Bolsonaro, longe de encerrar a crise, ampliou as suspeitas. O texto não explica adequadamente a utilização do fundo criado por seu advogado nem esclarece o destino dos recursos arrecadados. Pior: ao mencionar que o filme Dark Horse envolvia a cessão de seus direitos de imagem, Eduardo praticamente construiu um álibi preventivo para justificar movimentações financeiras que venham a ser eventualmente descobertas.

Ou seja: em vez de afastar dúvidas, a nota parece antecipar uma linha de defesa. E isso, naturalmente, tende a aumentar o interesse investigativo sobre os mecanismos financeiros utilizados pelo entorno bolsonarista.

Enquanto isso, o desespero tomou conta dos aliados de Flávio Bolsonaro. Lideranças do Centrão e setores do mercado financeiro já começaram a discutir abertamente uma alternativa eleitoral para a direita pós-Flávio. A fórmula imaginada é unir o agronegócio ao fanatismo religioso numa chapa formada por Tereza Cristina e Michelle Bolsonaro. Tereza representaria os interesses do agro e do grande capital rural. Michelle entraria como ponte com o eleitorado evangélico radicalizado. A operação revela o grau de pragmatismo – e de cinismo – das forças conservadoras brasileiras, sempre dispostas a reorganizar seus ativos eleitorais quando um projeto entra em colapso.

Mas existe um problema estrutural nessa engenharia: Jair Bolsonaro jamais confiaria plenamente nessa dupla. Porque Bolsonaro nunca enxergou a política como projeto ideológico ou partidário. Para ele, política sempre foi negócio de família. Um empreendimento patrimonial controlado pelo clã. E, nesse modelo, apenas um Bolsonaro pode ocupar o centro do poder.

É justamente aí que surge o drama de Flávio Bolsonaro. O senador vive hoje um dilema de difícil solução. Pode continuar como candidato-zumbi, e manter artificialmente uma candidatura que morreu antes de se consolidar, correndo inclusive o risco de perder o foro privilegiado – o que pode deixá-lo ainda mais vulnerável judicialmente. Ou pode desistir e contribuir, de forma definitiva, para o enterro do bolsonarismo. Nenhuma das alternativas oferece salvação.

O fato incontestável é que o navio começou a afundar. E o naufrágio é inevitável.

Confira a análise em vídeo:

 

Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.

Do Brasil 247

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