domingo, maio 17, 2026
spot_img
spot_img

A cadeirada tirou Marçal do páreo

O “comedor de açúcar” derrubou o “ironman”

Por Alex Solnik (*)

Pablo Marçal entrou na campanha usando e abusando de sua autoconfiança, preparadíssimo para atacar todos os outros, que passou a desqualificar colocando apelidos pejorativos.

Nunes virou “Bananinha”; Boulos, “Aspirador de pó”; Datena, “Comedor de açúcar” e Tabata, “Chatabata”. A sua colega da direita não apelidou.

Induzido e iludido pelos números das pesquisas, que o colocavam ao lado dos dois favoritos, dobrou a aposta, além dos apelidos passou a acusá-los de crimes inexistentes (menos a sua colega de direita), forçando-os a se defender e não tem coisa mais complicada que se defender de algo que não existe.

Tentou forjar uma realidade paralela, na qual todos seus oponentes são as piores pessoas do mundo e ele é o único virtuoso, apesar de a realidade mostrar que ele era o único condenado e preso aos dezoito anos por integrar uma quadrilha que roubava clientes de bancos via internet e integrantes de seu partido são investigados por laços com o PCC.

Confiou que, ocupando seus adversários em se defender dele, não teriam tempo para atacá-lo. Ou julgou que era tão poderoso e mau, que ninguém ousaria atacá-lo, sua resposta seria ainda mais maligna. Apostou que seu comportamento extremamente agressivo geraria medo nos demais e ele, por ser o mais forte, os esmagaria, como geralmente acontece nas fábulas de La Fontaine, e eles passariam por covardes. E ninguém quer um covarde no comando de uma metrópole violenta e insegura.

A sua aposta na hostilidade, na vileza e no mau caratismo estava dando certo até o dia em que ele percebeu que sua única chance de desbancar o candidato oficial do bolsonarismo e chegar ao segundo turno era tirar do páreo o candidato que estava caindo pelas tabelas, mas ainda mantinha um eleitorado conservador significativo, o Datena, a quem passou a fustigar sem dó nem piedade, contando que ele ficaria acuado no canto do ringue, fugiria do embate, jogaria a toalha. Era, afinal, um “comedor de açúcar” e ele, o “ironman”.

Só que o imprevisível Datena respondeu com um argumento até então inédito em debates eleitorais: sentou-lhe uma cadeirada nas costas ao vivo e a cores.

E aí o Marçal, sempre tão assertivo, tão ego-centrado, pela primeira vez na campanha, hesitou. Vacilou. Pego de surpresa, não soube responder. A princípio quis continuar no debate, mas em seguida decidiu embarcar numa ambulância, a caminho da UTI, abandonou o script do homem indestrutível para o de vítima de uma “tentativa de homicídio”, copiando a historinha da bolinha de papel na cabeça que José Serra tentou transformar em atentado, numa campanha do passado.

E aí o Marçal que achou que se vitimizar seria o atalho mais rápido para o segundo turno levou uma tremenda invertida tanto do público interno, que já está com ele, quanto daquele que planejava arrancar do “Comedor de açúcar”.

Os eleitores e eleitoras normais e tradicionais perceberam rapidamente que era uma farsa, na qual só imbecis cairiam, e eles, além de não serem idiotas como ele supõe, não querem um farsante na cadeira de prefeito; e seus admiradores esperavam que ele reagisse à cadeirada com outra cadeirada, ou sem dar a menor importância, por ser superior ao agressor, ou porque o homem é intrinsecamente violento, como ele prega em seus cursos, e não fugisse numa ambulância, provavelmente com medo de tomar outra cadeirada, o covarde ficou sendo ele, e seus admiradores não querem um covarde na cadeira do prefeito.

Pode parecer insólito, e é, mas o fato é que todas as pesquisas depois da cadeirada mostraram Marçal estacionado em terceiro lugar, descolado dos dois primeiros, e Datena, que estava quase pedindo para sair e voltar logo à TV, de repente ganhou fôlego, praticamente carregado nos ombros pelo povo, e agora fica mesmo até o fim, segurando os votos tão decisivos para Marçal.

E Marçal, que no debate do SBT confessou que nessa campanha mostrou a sua “pior parte”, praticamente saiu do páreo, porque ninguém quer ver a sua apavorante “pior parte” na prefeitura.

Moral da história: nunca menospreze um “comedor de açúcar”, nem que você seja um “ironman”.

(*)  Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais “Porque não deu certo”, “O Cofre do Adhemar”, “A guerra do apagão” e “O domador de sonhos”

Fonte: Brasil 247

Compartilhe

Related Articles

- Advertisement -spot_img

Colunas

A epidemia de loucura da extrema direita bolsonarista

Depois de atacar vacinas, o bolsonarismo transforma uma decisão técnica da Anvisa sobre produtos Ypê em conspiração política — e revela sua fábrica de...

Estadão aponta “baixa estatura moral” de Flávio Bolsonaro e cobra ruptura da direita com bolsonarismo

Editorial afirma que caso envolvendo Daniel Vorcaro expõe degradação ética do clã Bolsonaro e reforça necessidade de alternativa fora do bolsonarismo O jornal O Estado...

Flávio Bolsonaro virou zumbi e Eduardo Bolsonaro entrou na mira da PF

O navio do bolsonarismo começou a afundar e o naufrágio é irreversível Por Leonardo Attuch O bolsonarismo entrou em sua fase terminal. O que se vê...

Marcelo Freixo destrói Flávio Rachadinha Vorcaro da Nóbrega Bolsonaro

Cara de pau! Foi isso que o ex-deputado federal e ex-superintendente da Embratur, Marcelo Freixo (PT), disse sobre as falas do senador Flávio Bolsonaro...

Os “novos” tempos modernos

No primeiro livro de 2026 abordei dois aspectos da realidade, dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o Capitalismo digital...