domingo, agosto 16, 2026
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”VOCÊ SÓ DÁ AULA?” Licenciatura para que?

Vinicio Carrilho Martinez – Bacharel em Ciências Sociais e Professor titular da
UFSCAR
Ester Dias da Silva Batista – Licenciada em Biologia e mestranda pelo
PPGCTS/UFSCAR

O texto a seguir não foi confeccionado por especialistas. É uma
provocação no melhor sentido, uma vez que recupera e procura relacionar
conhecimentos mais técnicos, teóricos, com experimentações de vida pessoal
ou profissional. Também ganha destaque a sua feitura de forma livre, não-
individual e sem instrumentalização. Com esse intuito, listamos algumas
questões iniciais relacionadas à formação em Licenciatura e algumas
reflexões que já iniciamos, além de outras 40 perguntas que se
complementam.

Vejamos algumas:
● O que é Licenciatura?
É claro que se trata de uma questão complexa e, por isso
mesmo, deve ser o ponto de partida na reflexão de quem se
abriga nessa conjuntura. De todo modo, a reflexão deve estar
além das formalidades ou tecnicalidades.
● Qualquer pessoa pode cursar Licenciatura?
Se cumpridas as condições formais, sim. Contudo, qualquer
pessoa pode exercer a medicina, praticar o Direito ou a
engenharia, como profissionais? Todo mundo se dá bem criando
gatos ou cachorros?
O que podemos esperar é que cada ator social, profissional da
Educação ou em formação, formule suas reflexões, reflita sobre o nosso
arrazoado e faça da sua práxis um campo de luta política ainda mais eficaz.

1. As ementas das disciplinas são revistas ou, pelo menos, atualizadas na
sala, no início do semestre?
– A realidade, os contextos, a carga de trabalho docente e as condições em
que ocorrem são muito distintas, desiguais, pelo país afora – especialmente
para docentes que são horistas em instituições de ensino privadas, sem
estabilidade alguma. Portanto, não se pode exigir e nem esperar que se
responda positivamente. Porém, nas instituições públicas esse seria o
desejado. Neste sentido, listamos em rodapé uma reflexão que fizemos no
início de 2026 1 .

2. Qual é a principal função discente, na construção das práticas e saberes
técnicos e teóricos envolvidos na formação em Licenciatura?
– A principal função discente, pensamos, é aquilo que se pode denominar
como “estar atento e disponível”. Se buscarmos nos meios digitais,
provavelmente encontraremos como resposta mais recorrente a ideia de
“participar ativamente”. Entretanto, compreende-se a participação como uma
ação que pressupõe outra anterior: estar atento e disponível para aquilo que
está sendo trabalhado. Antes de participar, formular questionamentos ou
realizar intervenções, o indivíduo, enquanto estudante, precisa estar
disponível para que o conhecimento seja percebido, elaborado e incorporado
à sua experiência. A mobilização desses aprendizados, seja em uma
avaliação ou na vivência efetiva das práticas, constitui um momento ainda
posterior. São dimensões que nem sempre acontecem simultaneamente:
atenção/disponibilidade → participação/ação → mobilização dos
conhecimentos → aprendizagem. A função discente nessa perspectiva não se
resume à participação, mas envolve também a disposição para estar
presente, escutar, observar, elaborar e, posteriormente, mobilizar aquilo que
foi construído ao longo do processo formativo.

3. Qual é a principal função docente, na construção das práticas e saberes
técnicos e teóricos envolvidos na formação em Licenciatura?

– De modo direto, prático, inclusive noticiando tratativas pessoais, é possível
recortar em dois planos que se complementam: levar adiante a seriedade com
que se deve tratar o conhecimento (político, científico, social, ético) e as
experiências pessoais docentes e discentes. O objetivo, por óbvio, é fazer
todas as experiências intelectuais, funcionais, pessoais, ultrapassarem a
barreira do “experimentado senso comum”.

4. Pensando-se em “boas práticas“, como deve ser a relação entre
docentes e discentes?
– Não há espaço para preconceito, discriminação, soberba, ego frustrado,
Bullying. Isso já sabemos, ainda que na vida prática a falta de Educação, de
respeito (inclinando-se muitas vezes para formas de violência), não sejam
ocasionais ou exceções. Precisamos estar vigilantes quanto às macro e
microagressões 2 .

5. Qual é o conhecimento científico, teórico, educacional, ético, filosófico
que o discente almeja ao cursar as disciplinas de Licenciatura?
– Essencialmente, não sabe se grande parte dos estudantes que estão na
Licenciatura sabe porque está ali, especialmente nas Ciências da Natureza.
Pode-se ver diferenças na nota de corte entre Licenciatura e Bacharelado em
Ciências Biológicas, e muitos acabavam ingressando na Licenciatura sem
necessariamente desejarem a docência, mas sim porque “foi o que deu”. Isso
se reflete no envolvimento com as disciplinas educacionais e com projetos
como o PIBID, que muitas vezes enfrentavam dificuldade para encontrar
participantes justamente por envolverem a sala de aula. Assim, acaba-se
construindo um conhecimento científico bastante significativo, especialmente
por meio dos laboratórios e das iniciações científicas, enquanto os aspectos
educacionais, filosóficos e pedagógicos podem permanecer em segundo
plano.

6. Pensando-se em liberdade, autonomia, Emancipação, o que a
Licenciatura deveria oferecer em termos gerais e específicos?
– Esse questionamento jamais terá respostas objetivas, conclusivas, uma vez
que nos remete ao âmago da Educação. Num aspecto mais político e jurídico,
pouco explorado, temos uma contribuição não recente sobre alguns pontos, como se vê no rodapé 3 . No entanto, é preciso destacar que esse sempre foi o
maior esforço de Paulo Freire 4 , o nosso Patrono da Educação, em toda a sua
vida.

7. Docentes sem formação em pedagogia e nem licenciados, apenas
bacharéis, não deveriam receber instruções gerais das instituições?
Quais, por exemplo?
– Muitos docentes não tem a formação pedagógica necessária, tendo cursado
somente o Bacharelado. Esse não é um impeditivo, se o/a docente bacharel
se dispõe a se qualificar minimamente para atividades de ensino. De modo
prático, é muito inusual que alguma instituição de ensino, pública ou privada,
tenha demonstrado interesse em levar reflexões, diretrizes, estímulos às/aos
docentes bacharéis. São tão raros os casos que merecem destaque positivo.

8. O que podemos entender como “boas práticas“ no âmbito da Educação
e da Licenciatura, especificamente?
– Dada a diversidade cultural, social, econômica do país, entre suas próprias
regiões, é absolutamente natural que as respostas, ponderações, sejam muito
diversas. No nosso caso, movidos por uma necessidade de urgência, em
determinado momento, organizamos um pensamento básico que se encontra
no rodapé 5 .

9. Seria possível priorizar entre conhecimento científico, técnico, prático e
ético?
– Não é possível estabelecermos um corte ou recorte desse modo. O que os
nossos tempos hiper conectados, digitalizados, imediatistas nos oferecem,
por seu lado, é uma formação cada vez mais rápida, pragmática,
mercadológica, de resultados. O que desejamos, por nosso turno, é uma
formação que sempre pactue com a práxis, entre reflexão e ação, teoria e
prática, de forma criativa, investigativa, crítica.

10. O que podemos entender por Ética na formação em Licenciatura?
– Sempre é viável, desejável ou obrigatório, recorrermos um pouco aos
clássicos. Neste caso, tomemos de empréstimo que Ética provém de ethos,
do grego antigo, e nos é traduzido por Costumes. Entendendo-se como práticas sociais reiteradas, socialmente construídas, podemos associar com o princípio sociológico da Interação Social e, assim, chegaríamos a um sentido
generalista de algumas condições para a incidência e o aprofundamento de
um mínimo de sociabilidade, convivência e ajuda mútua.

11. Mais claramente, do seu ponto de vista, as disciplinas relacionam
Política e Educação?
– De modo geral, as disciplinas relacionam Política e Educação, mesmo que
de forma implícita. A disciplina de Metodologia para o Ensino de Biologia, por
exemplo, embora não tenha “política” em seu nome, atravessa questões
relacionadas às práticas e metodologias de ensino, bem como às ações
políticas que cercam a estrutura educacional. Uma instituição de ensino não
se constitui apenas por docentes e estudantes, mas também por estruturas
sociais e políticas, tornando esses aspectos indissociáveis. A própria práxis
em Paulo Freire (ação + reflexão) pode remeter a isso, a reflexão produzida
em sala de aula precisa também encontrar possibilidades de ação, inclusive
por meio das políticas públicas.

12. Como podemos definir, inicialmente, o que seria o conteúdo político da
Educação?
– Toda ação humana, por definição aristotélica – feita à base da Condição
Humana – é política, carregada de intencionalidades, propósitos e
proposições políticas. A política é aqui entendida enquanto ação formativa da
nossa espécie, pois somos os únicos animais sociais que se afirmam por
meio do “fazer-se política”: zoon politikón. A Educação, portanto, seja
libertária ou bancária, terá os mesmos registros políticos, porque toda ação
humana é política. Resta-nos saber onde estamos e para onde queremos ir.
Como ensinou Paulo Freire: “É esse o momento também em que o educador
progressista percebe que a claridade política é indispensável, necessária,
mas não suficiente, como também percebe que a competência científica é
necessária, mas igualmente não suficiente“ 6 .

13. Como podem ser descritos, mesmo que genericamente, os principais
pontos de contato entre Educação e Sociedade?

– A primeira noção a se retirar daqui é: de qual sociedade estamos tratando,
qual é a sua forma básica, quais as forças sociais e os agentes, instituições,
constructos sociais e institucionais em vigência e de maior incidência social e
política? A partir daí veremos o papel esperado e desempenhado pela
Educação no escopo da sociedade em questão. Temos um mapa, um tanto
mais complexo do que esse texto, que nos remete a questões gerais e mais
específicas 7 .

14. Há alguma disciplina que procure promover uma reflexão atual e
aprofundada acerca da Filosofia e da Sociologia, no século XXI?
– Disciplinas como Educação e Sociedade têm ou devem ter esse objetivo;
porém, é preciso destacar que nada substituirá as tradicionais (pela força dos
clássicos) Sociologia Geral e Sociologia da Educação.

15. Quais as características mais evidentes que a Licenciatura deveria
demonstrar, na formação de jovens do século XXI?
– É igualmente impossível restringir ou listar o que interessaria ou deveria
interessar, sobremaneira. Do ponto de vista sociológico, as relações postas
pelo Capitalismo digital e pela inesgotável uberização social, por certo,
ganham relevo 8 .

16. O que é Política, o que é Educação?
– Não é plausível buscarmos respostas prontas, simples. Nem a Política
(prática política na Pólis) e nem a Educação são traduzíveis de imediato,
contudo, podemos sugerir referências que buscam facilitar a compreensão
popular como associar a Política ao poder, à governança, à negociação, à
direção 9 . Da mesma forma, quantas perspectivas podem ser apontadas ou
destacadas acerca da Educação? Não há listagens, mas há remédios, guias,
nortes 10 .

17. O que é Sociedade?
– É adequado pensarmos em termos de um conjunto social complexo,
orgânico, mais ou menos organizado, em constante transformação, maior ou
menor mutação, considerando-se a forma política determinante, a cultura
prevalecente. É possível dizer-se que as sociedades modernas são contraditórias, industriais ou pós-industriais, em que se praticam formas de
exploração, expropriação capitalista mais ou menos acentuada. Neste sentido
geral e inicial é correto pensarmos que a Sociedade é composta por
comunidades, estratos, grupos, camadas e classes sociais. Para quem teve
apenas pouco contato com esse tipo de reflexão, o auxílio de um dicionário
especializado é sempre proveitoso 11 .

18. O quanto e de que modo a formação de cada pessoa envolvida nos
processos de formação em Licenciatura deve se apresentar na sala de
aula?
– Essa sempre será uma questão central, porém, nunca esperemos por
respostas ou soluções mágicas e definitivas, assim como nós estamos em
constante processo de ensino-aprendizagem. Dito isso, devemos ter clareza
meridiana que se ficarmos narrando somente nossas experiências o curso
mais se assemelharia a uma “roda de conversa”, com História de Vida (aliás,
trata-se de um método e não é exatamente sinônimo de Memorial). Não é
isso que se espera, diante de todo o conteúdo mínimo que a formação exige.
Outro ponto essencial a se indicar aqui é a obrigatória – como objetivo central
– ultrapassagem do senso comum.

19. Em tempos de total digitalização, como é que podemos, devemos pensar
o princípio da honestidade intelectual?
– Não se resume à discussão da inclusão, usos e abusos, da Inteligência
Artificial (IA) no ambiente escolar; entretanto, é certo que atualmente se usa
de modo errado, sem nenhuma consideração com a chamada honestidade
intelectual e, por derivação, assim também caminham os princípios
republicanos (da coisa pública). Não só no Brasil, mas aqui, sobretudo, em
razão de nossa formação social.

20. O projeto da Licenciatura, em si, está ajustado com as necessidades,
objetividades, subjetividades postas no século XXI?
– Questões pungentes como aquecimento global, mudanças profundas no
Mundo do Trabalho – uberização, pejotização – e nas formas acirradas da
exploração social, da força de trabalho, certamente, tem grande inflexão na
vida de todos. Salvo poucas exceções, que apenas confirmam a regra geral, não há refúgio ou formas de vida social que estejam imunes a esses
processos.

21. Os discentes são convocados para participar dos processos
institucionais que envolvem a reformulação dos cursos e da
Licenciatura?
– As estruturas burocráticas da atualidade são cada vez mais
horizontalizadas, fechadas em torno de grupos de poder – com interesses
específicos – e seguem refratárias a proposições que não sejam
mecanizadas, memorizadas desde sempre por quem cria e dita normas e
padrões. A universidade pública, ainda em 2026, tem enorme dificuldade em
lidar efetivamente com a acessibilidade, inclusão e permanência. A paridade
da universidade segue sendo um tabu, em sequência ao movimento que
redimensionou a burocracia de um meio, a um fim em si mesma.

22. Os discentes compreendem a amplitude de não participar ou participar
de forma incoerente nos processos que tratam da reformulação dos
cursos de Licenciatura?
– Possivelmente não. Assim como grande parte das pessoas não compreende
a relevância da participação política, a participação nos processos
acadêmicos também parece ser, para muitos estudantes, um grande
nevoeiro. A academia muitas vezes se apresenta como um sistema deslocado
da realidade dos estudantes e, por isso, a não participação ou a participação
incoerente nos processos decisórios acaba sendo pouco compreendida.
Quando um estudante não participa das decisões internas do seu curso, mas
posteriormente reclama da falta de recursos para determinado laboratório ou
da ausência de incentivos a uma pesquisa, também demonstra
desconhecimento sobre os próprios processos institucionais. Os centros
acadêmicos evidenciam essa contradição: há mobilização enquanto ela não
exige participação efetiva e contínua. Há um certo nível de incoerência entre
cobranças e ações com relação à participação dentro da universidade.

23. Há uma clareza sobre a condição profissional de quem faz Licenciatura?
– Ainda podemos constatar duas percepções bastante (de)marcadas sobre o
profissional da Licenciatura. De um lado, está a figura do “coitado” que ingressa em um sistema educacional considerado colapsado e sem futuro.
Muitas experiências em sala de aula só podem ser descritas preconceituosas,
referindo-se a “pibidianos/as”, (participantes do projeto PIBID), quando era
comum ouvir frases como “passou na federal, pena que escolheu ser
professora” ou “tem certeza que vai conseguir trabalhar nesse caos até se
aposentar?”. Por outro lado, quando observamos a relação com os
estudantes, especialmente no ensino fundamental, a professora muitas vezes
é colocada no lugar de “mãe” ou “tia”, associada a papéis de cuidado e
carinho. Assim, somos desvalorizadas pelo aspecto profissional e, ao mesmo
tempo, reduzidas pelo aspecto pedagógico a papéis que não correspondem à
complexidade da atuação docente.

24. Os espaços destinados à Licenciatura e ao Bacharelado são os
mesmos? Poderiam ou deveriam ser diferentes, apropriados a cada
formação específica?
– Sem contar a exigência, por exemplo, de laboratórios específicos, se são
construções teóricas distintas, então, conclusivamente, Bacharelado e
Licenciatura podem compartilhar alguns momentos, mas é claro que exigem
espaços especializados.

25. Como podemos formar licenciandos/as que sejam mais engajados/as
nas práticas pedagógicas?
– Inicialmente, seria importante compreender porque a Licenciatura ainda é
vista como demérito em muitos contextos, seja pela deterioração do sistema
de ensino, seja pela falta de reconhecimento social da Educação como
elemento fundamental para o desenvolvimento do país. O engajamento nas
práticas pedagógicas, nesse caso, precisa ser construído desde o ingresso na
universidade, por meio de projetos e oportunidades que aproximem os
estudantes da área. Em cursos como Biologia, por exemplo, a área
laboratorial costuma receber maior procura e reconhecimento, inclusive pelas
oportunidades de iniciação científica, enquanto iniciativas voltadas à
docência, como o PIBID, nem sempre possuem as mesmas condições de
financiamento. Há, portanto, um duplo movimento: os estudantes são pouco
incentivados a se aproximar da área pedagógica e, simultaneamente, ela
ainda é historicamente menos valorizada no campo acadêmico.

26. A Licenciatura pode ser obrigatória em determinados cursos ou sempre
deveria ser optativa?
– Essa também será uma questão em aberto, muitas vezes a depender dos
grupos de poder envolvidos e do corpo gestor em ação – quer sejam
instituições públicas, quer sejam privadas – ou a depender das necessidades
trazidas pelo mercado de trabalho. O ideal, por outro lado, estaria na oferta
das duas modalidades e que fossem de livre escolha discente 12 .

27. A Licenciatura deveria ser oferecida no final da formação, no início, ou
isso não importa?
– Quem já teve a experiência do acesso à Licenciatura ocorrer no início ou no
final do ciclo de formação discente, como profissionais da Educação, muito
provavelmente dirá que o impacto é muito diferente, a depender de onde seja
ofertado. Na fase final da formação discente é correto esperar por uma
maturidade maior, com experiências agregadas e que contribuam para um
melhor posicionamento no decorrer da fase final de formação em
Licenciatura.

28. Em tempos de Fake News e negacionismo, há discussões, debates,
aulas sobre Educação em Ciências?
– Atualmente é difícil afirmar, mas, no pós-pandemia, em grande parte das
disciplinas educacionais e pedagógicas, as discussões sobre negacionismo e
Fake News apareciam como um nevoeiro passageiro dentro de algumas
temáticas, mas não como questões efetivamente desenvolvidas. Em uma aula
sobre vacinas, por exemplo, o negacionismo aparecia associado ao
movimento antivacina ou, historicamente, à Revolta da Vacina, mas
geralmente como consequência ou contexto, e não como objeto de discussão.
Pouco se discutia sobre os processos de construção e propagação das Fake
News, suas razões de permanência e suas dimensões sociais e políticas. Ou
seja, o tema aparece, porém, raramente ocupa um lugar central na formação
em Educação em Ciências.

29. Os cursos de Licenciatura na área de ciência da natureza são vistos com
o mesmo status dos cursos de Bacharelado?

– Vindo de um curso de Licenciatura em Ciências Biológicas e tendo convivido
com ambos os cursos por quatro anos, pode-se dizer que não. As diferenças
entre Licenciatura e Bacharelado não estão apenas na grade curricular, como
também nas condições de formação. Enquanto a Licenciatura frequentemente
apresenta uma carga horária extensa, que dificulta a participação em
laboratórios, a produção científica, publicações e atividades extracurriculares,
essas mesmas experiências são cobradas como diferenciais importantes para
a formação. Há, portanto, uma contradição entre aquilo que é exigido e as
condições oferecidas para que os estudantes possam realizar essas
atividades. Essa diferença também aparece na valorização das próprias
experiências formativas. No PIBID, por exemplo, não é incomum ouvir que a
experiência “não chegava aos pés” de uma iniciação científica. Isso evidencia
uma problemática mais ampla: a prática docente ainda é menos valorizada
dentro da própria universidade. O “só dar aula” permanece como um rastro
dessa desvalorização, embora se tenha algo que a docência não faz, é “só
dar aula”.

30. Por que, via de regra, as mulheres se dirigem mais à formação em
Licenciatura, do que os homens?
– Porque, simplificadamente, essa prática social reflete a formação social do
patriarcado: no limite está a ideia de que a criação dos filhos é tarefa
doméstica (Oikós) e cabe às mulheres a sua execução. Obviamente, trata-se
de um recorte machista, pois, as tarefas externas, políticas (Pólis) caberiam
aos homens.

31. A formação em Licenciatura é valorizada da mesma forma que a
formação em Bacharelado?
– Definitivamente não possuem o mesmo status. A desvalorização da
Educação claramente desemboca na formação em Licenciatura. Sem
contabilizarmos a inclinação do Bacharelado para atividades profissionais
“mais rentáveis”, além da ocorrência do machismo na esteira da herança
sistêmica do patriarcado, é preciso vermos a crescente automação,
digitalização dos processos educacionais. Portanto, é incrível pensarmos que
D. Pedro II teve mais clareza do que a maioria dos governantes, quanto ao
papel da Educação e da Ciência.

32. A formação oferecida nos cursos de Licenciatura em Ciências da
Natureza prepara os estudantes para lidar com os desafios concretos da
prática docente?
– No momento atual, talvez nem mesmo parte dos docentes universitários
conheça suficientemente as problemáticas e os desafios concretos da prática
docente na Educação básica. Não se diz como uma crítica individual aos
docentes, mas como reflexo de uma formação acadêmica que, muitas vezes,
leva diretamente da graduação ao mestrado, doutorado e à universidade, sem
uma experiência efetiva na escola pública. Isso pode produzir tanto
preconceitos sobre a realidade escolar quanto dificuldades para compreender
a complexidade de uma escola e de uma turma da Educação básica. Há um
certo deslocamento entre universidade pública e escola pública. Nesse
sentido, os estágios obrigatórios acabam sendo tão formativos quanto às
disciplinas teóricas. São desafios que, muitas vezes, nem mesmo os
estudantes, estando inseridos nas escolas, imaginam que poderiam existir.

33. Há uma preocupação, maior atenção, com os clássicos na atualidade, ou
somente se apresentam como realidades e tempos desconexos?
– Certamente, temos de refletir seriamente se os chamados clássicos ainda
são revisitados. Normalmente escritos, formulados em outras épocas, em
tudo díspares da modernidade atual, e em atendimento ao pensamento que
tudo deve ser facilitado, não é incomum que surjam formulações modistas,
passageiras, simplificadoras, porque não nos exigem maiores reflexões. É o
equivalente a perguntarmos se todo mundo lê ou já leu Machado de Assis.

34. Pensar algumas questões gerais relativas à Licenciatura é equivalente à
reflexão sobre a função social de professoras e de professores no
Brasil?
– Não há dúvidas quanto a essa questão: a resposta é sim. Levando-se em
séria consideração as condições ofertadas para a efetivação da formação em
Licenciatura. Além disso, deve estar no nosso horizonte de eventos as
condições de trabalho, o esforço docente, as garantias e os direitos dos
profissionais em Educação, a luta política em torno do campo da Educação.

35. O que, efetivamente, o país, as políticas públicas, os governos, os
poderes constituídos, devem ofertar para uma mudança significativa na
Educação e na formação em Licenciatura?
– Em decorrência da questão anterior, a resposta a esse questionamento
advém da visão de mundo que tenhamos. De modo direto e simplificado,
podemos pensar que a Educação Pública deve ser gratuita, de qualidade,
laica, republicana, emancipadora, em período integral, com vistas a aproximar
o Homo sapiens do Homo faber.

36. Por que a ideia de apenas “dar aula” ainda é uma expressão recorrente,
inclusive dentro da própria academia?
– Também em decorrência da questão anterior, a pergunta já traduz o que a
cultura nacional pensa sobre a Educação. A pergunta associa a Educação a
práticas de hobby, complemento de salários, vaidade intelectual. Se a
Educação fosse levada a sério no país, pelos governantes de forma geral,
esse tipo de pergunta sequer seria feita.

37. O que o país, historicamente, reserva (reservou) para os professores e
professoras?
– Como dizia o antropólogo e senador da República, Darcy Ribeiro: “a crise da
Educação não é uma crise, é um projeto”. O projeto de país herdado da
formação colonial, patriarcal, coronelista, senhorial e elitista, tem na Educação
um projeto de dominação que passa a milhares de quilômetros de distância
da Emancipação social.

38. A Licenciatura permite refletir de modo aprofundado a Educação como
luta política no bojo da luta de classes?
– A primeira questão que devemos ter em mente seria assim: todo mundo
sabe o que é luta de classes? Estamos aptos a ensinar o que é luta de
classes e a função motriz dos meios de produção na relação entre a luta de
classes? Quanto a vivenciarmos, cotidianamente, as forças e as implicações
derivadas da luta de classes, nisso não há dúvida.

39. Inspirando-se em Morin 13 e Paulo Freire, quais seriam os 10 saberes
necessários (obrigatórios) ao futuro?

– É muito difícil limitar a um número mágico, tantas são as necessidades,
entretanto, por outro lado, não é fácil escolher a primeira sugestão. Como
temáticas gerais, poderíamos pensar num alinhamento claro, estruturado,
entre a Educação e o Pensamento científico: teórico, técnico, ético, político,
emancipador. De modo elementar listaríamos disciplinas como Sociologia,
Filosofia, História, Geografia, Matemática, língua portuguesa, Ciências e
Biologia. E de forma mais diretiva podemos limitar a algumas entradas,
especialmente se tratarmos da escola pública em tempo integral, como:
Educação ambiental, Educação digital, Educação constitucional.

40. A Licenciatura no século XXI tem lugar para “tia ou professora“?
– O Paulo Freire referido na bibliografia, em rodapé 14 , não deixa dúvidas para
essa pergunta?– O Paulo Freire referido na bibliografia, em rodapé[14], não deixa dúvidas para essa pergunta?

[1] Acesso em 11/08/2026: https://ademocracia.com.br/2026/03/21/educacao-e-sociedade/.

[2] Acesso em 15/08/2026: https://diplomatique.org.br/as-microagressoes-chegam-as-universidades-brasileiras/.

[3] Acesso em 11/08/2026: https://jus.com.br/artigos/73306/dicionario-politico-juridico-da-educacao-publica.

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

[5] Acesso em 11/08/2026: https://jus.com.br/pareceres/70016/orientacoes-e-boas-praticas-contra-a-censura-previa-em-sala-de-aula.

[6] FREIRE, Paulo. Política e Educação. São Paulo: Cortez, 1993, p. 54.

[7] Acesso em 11/08/2026: https://www.rehcol.com/index.php/rehcol/article/view/82.

[8] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e uberização social. São Carlos: KDP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.

[9] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Manual de autoajuda política*: ou como ajudar você mesmo (a) na arena. Campina Grande: EDUEPB, 2022.

[10] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.

[11] OUTHWAITE, William; BOTTOMORE, Tom. Dicionário do pensamento social do século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996.

[12] – Ester: Complementando, acredito que a oferta aberta das duas modalidades fosse o ideal, dando a oportunidade de escolha, como ocorre na UFSCar. Mas me lembro de algo que ouvi de um colega de profissão antes mesmo de entrar na universidade, enquanto ainda estava em dúvida sobre qual área seguiria, Licenciatura ou Bacharelado. Em uma conversa, ele disse: “Ambos são essenciais, mas a Licenciatura tem algo a mais, ela pode formar seres humanos.” Ao final de quatro anos de curso, consegui entender o que ele quis dizer. Não se trata de melhor ou pior, mas de como a Licenciatura nos leva aos extremos: nos leva a disciplinas das 08h00 às 23h00, mas também a escolas e salas de aula em que a preocupação nem sempre era se o estudante havia feito a tarefa do dia anterior, mas o suspiro de alívio ao abraçá-lo e sentir o cheiro de amaciante em sua blusa, o que significava que ele havia conseguido tomar banho e trocar a roupa por uma limpa. Não é apenas formar profissionais; a Licenciatura também forma humanos.

[13] A título de exemplificação, indicamos uma produção de 2026, nascida das necessidades e do aprofundamento de experiências em sala de aula: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Ideias para uma Educação do século XXI: Edgar Morin*: São Carlos: Amazon, 2026.

[14] FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar. Olho d’Água, 1997.

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