segunda-feira, maio 18, 2026
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EDUCAÇÃO E SOCIEDADE

 

Sociedade – Estado – Capital[1]

 

Vinicio Carrilho Martinez – docente responsável

Ester Dias da Silva Batista – monitora da disciplina

O texto a seguir é uma breve aproximação à ementa da disciplina Educação e Sociedade[2]. A primeira observação é de que a ementa contém os sentidos e significados necessários para a formação acadêmica. Porém, podemos/devemos sempre olhar do presente para o passado, do geral ao particular, envolvendo-se constantemente a reflexão e a ação (práxis: mudança fundamentalista), o conhecimento e as perspectivas em sua realidade (chamado de realismo político). Nesse processo se destacam uma mistura de claro-escuro, e muitas frestas, sombras, um cinza mais constante. Além disso, como bem sabemos, o digital vai se assenhorando do analógico, da presença física, da carne-viva como descreviam alguns músicos e artistas do século XX. E neste sentido é preciso ler a ementa com o esforço de se colocar o digital num mapa conceitual, num quadro geral de inspeção – a ementa é marcada pelo século XX e vivemos, para o bem e para o mal, nos marcos do século XXI. Neste ponto vale destacar que faremos a escolha do método a contrapelo, de Benjamin[3], procurando sentidos, sentimentos, fatos, pessoas, conexões que nem sempre se destacam na luz do meio-dia: que seria o método da clareza e da objetividade. Nem sempre há transparência, iluminação sobre os fatos e atores sociais. A publicidade é pouca porque são relações políticas e o consenso não é, necessariamente um desejo compartilhado.

 Notas para uma práxis da descompressão[4]

Vejamos a ementa oficial disponibilizada pela Universidade Federal de São Carlos/UFSCar, para as licenciaturas.

Ementa[5]: Os processos históricos, sociais e culturais de formação da sociedade capitalista[6] serão explorados sob diferentes aspectos de desenvolvimento. Da revolução técnico-científica[7] à constituição das principais tendências políticas[8] e do desenvolvimento de problemas[9] e perspectivas para a sociedade. Esta disciplina se concentrará nos estudos sobre o papel das instituições educacionais, de seus agentes e da formação de novos sujeitos[10] no mundo contemporâneo[11].

Em face da ementa e da abordagem autoral que propomos, o objetivo principal é aprofundar conhecimentos aptos a uma reflexão crítica acerca das condições sistêmicas, estruturas, sistemas, dinâmicas da sociedade capitalista no século XXI[12], sobretudo, a sociedade brasileira – diante da luta de classes racista[13] –, e o possível papel desempenhado pela educação quando se objetiva a Emancipação[14] – aqui entendida enquanto descompressão (práxis)[15].

 O título geral desse texto ainda nos remete à ideia de que a Sociedade nos leva a pensar imediatamente em educação: seja (i) enquanto mecanismos de reprodução social, pacificação e controle social, ou na educação para o trabalho – não há registro antropológico de alguma sociedade que não tenha feito ou que hoje não promova alguma forma de educação para o trabalho – ou, talvez, seguindo-se a moda pós-moderna aplicada à educação financeira (para crianças pobres e famintas); seja (ii) sob a chancela de uma educação crítica, inclusiva, dirigida à liberdade, à autonomia e à emancipação (política); seja (iii) nas polarizações apresentadas entre escolarização e desescolarização ou entre ensino bancário e educação emancipadora. É preciso ter clareza de que emancipação e autonomia se articulam, aproximam-se, podem/devem andar juntas, entretanto, não apenas não são sinônimos como ocorre de se pronunciarem em termos até mesmo antitéticos, opostos, contraditórios.

Pensar é agir

Em termos de educação, é possível dizer-se que nosso objeto de trabalho é baseado, iniciado, em ideias, pensamentos, conceitos, articulações mentais, reflexões, teorias (ou ideologias). Neste sentido, que vale para todas as atividades da vida humana, pensamento é ação. De um modo ou de outro, agindo, interagindo, ou se recusando à ação, como uma forma de inação, é o pensamento quem nos guia. Outra questão a se refletir é sobre as bases materiais que gerem, impulsionam, nossas ideias e reflexões (ações). Quando temos uma obrigação para agir e o fazemos (ou não fazemos) aí está agindo um conjunto de valores, perspectivas, sonhos, objetivos, projeções, conformações sociais, culturais, políticas. Prestar socorro é uma “obrigação de fazer”, não há escapatória, e o crime praticado na recusa (inação) é chamado de “omissão de socorro”[16]. E, então, chamemos isso de ação positiva (prestar socorro se e quando necessário a qualquer pessoa) e de ação negativa (deixar de fazer, quando se é obrigado/a). No mesmo sentido apontado, deve-se entender o ditado popular quando diz: “Em briga de homem e mulher, ninguém mete a colher”. Só que aqui temos que indicar o erro grave e profundo na formulação, pois, ali estaria evidente a ocorrência de violência contra a mulher, a misoginia e talvez até mesmo a tentativa de feminicídio. Logo, a obrigação de fazer, agir, é conjunta a todos os indivíduos presentes, fazendo-se cessar de imediato as agressões (físicas, morais, étnicas) e requisitando o policiamento. A violência contra idosos, crianças, animais, obrigatoriamente, deve seguir o mesmo rito, assim como a denúncia aos órgãos competentes em caso de homofobia, racismo, misoginia, assédios morais ou sexuais. Além do que cabe a todos nós a denúncia da desigualdade, de todas as formas de discriminação, preconceito ou de privilégios (que não se confundem com prerrogativas). Isso nos remete à entropia social, uma vez que, com o aprofundamento disso, é a violência que prospera, bem como a negação dos direitos humanos, o caos e a barbárie social, a menorização da dignidade humana, e a pujança dos meios e dos mecanismos de exceção.

O agir como aprendizagem

Como viemos abordando, no âmbito educacional, a produção do trabalho no ambiente escolar, seja no Ensino Básico (Fundamental e Médio) ou no Ensino Superior (graduação e pós-graduação), ao articular pensamentos com produções mentais e reflexivas, configura-se o conhecimento como um processo efetivamente aplicado. Assim, a produção em sala de aula não se apresenta de forma neutra ou despersonalizada; ao contrário, constitui-se como uma produção humana que reflete ideias, desejos, ambições, crenças e ideologias de quem a realiza. Portanto, a educação não é neutra. A educação é política.

O próprio fato de pensarmos o conhecimento – como, por quem, onde, com quais meios, porque é feito assim e não de outro modo –, per si, notabiliza uma ação política. Todavia, desenvolve-se uma forma de entendimento (não só produção, mas também entranhamento: “trazer, tomar para si”) que nos revela uma visão de mundo: como vemos e a partir do que conseguimos ver. Portanto, “pensar o conhecimento” é uma ação política. Trata-se de transformar o conhecimento em pensamento (“autoconhecimento do conhecimento científico[17]) e isso nos indica que há uma epistemologia política.

Assim, toda educação é, em alguma medida, um ato político; não há neutralidade na prática educativa, mas escolhas e oportunidades para manter uma realidade problemática ou buscar transformá-la (FREIRE, 2019)[18]. A partir dessa perspectiva, a produção educacional atua como promotora de uma interpretação crítica do mundo, possibilitando-se a compreensão das relações existentes na sociedade.

Nesse mesmo sentido, no momento social e político atual, observa-se o avanço do negacionismo e de outras vertentes que buscam descaracterizar e reduzir a educação e as produções científicas, bem como a despolitização do debate científico, frequentemente deslocado para o campo das disputas ideológicas. Esse movimento contribui para a tentativa de neutralização do papel crítico da escola e da educação.

Percebe-se, portanto, a essencialidade, e a potência, do ambiente escolar (bem como as razões pelas quais esse o sistema educacional tende a ser tão perseguido e desvalorizado de diversas formas ao longo da história brasileira), tanto na educação básica quanto no ensino superior, porque são espaços, campos, de formação e permanência de sujeitos capazes de pensar e analisar criticamente os processos ao seu redor.

Contudo, é justamente essa capacidade crítica, produzida nessas instituições, que também alimenta o combate ao negacionismo, evidenciando-se disputas, lutas políticas constantes em torno da valorização da ciência e da educação. Nesse cenário, torna-se fundamental seguir investindo e produzindo conhecimento científico, não apenas na condição de “estudantes”, mas como cientistas e agentes ativos na construção do saber.

A última consideração a ser feita, por hora, frisa que uma ementa nunca é apenas uma ementa – sempre há rascunhos em meio ao resumo que a ementa nos apresenta. E, por muitas vezes, é para esses rascunhos, as pegadas invisíveis, as marcas embaixo do relevo, que devemos direcionar nossa atenção enquanto educadores, cientistas, pesquisadoras e pesquisadores.

[1] Podemos entender que o subtítulo fornece possibilidades de outras conexões: é óbvio que o Estado está para o Direito, mas também está para a regulação do capital (ou não). Assim como a Sociedade aspira por mais ou menos democracia. Do mesmo modo, seguindo-se essa provocação podemos pensar como o capital (hegemônico em certa época) impõem condições específicas tanto à sociedade quanto à forma política: sob o domínio econômico das Big Techs vemos um Estado-plataforma, com avanço incontrolável da exploração mais brutal da força de trabalho já praticada (da uberização ao regime conhecido como 9-9-6). Exemplos claros estão na análise das Big Techs pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e nos projetos legislativos que visam coibir o fenômeno chamado de “adultização” e de abuso contra menores. Em outra referência, no passado não distante e em parte do presente, temos a atuação do Capitalismo Monopolista de Estado e, no Brasil, especificamente, prolifera um pensamento escravista: racismo lancinante associado à exploração do trabalho análogo à escravidão.

[2] Disciplina ofertada nas licenciaturas da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar.

[3] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas – Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

[4] Propomos manter como premissa algum diferencial entre Autonomia (FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021) e Emancipação e, para tanto, uma das necessidades indica o entendimento do que é Descompressão: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação e Sociedade*: Sociologia Política da Educação. São Carlos: Amazon, 2025d. Disponível em: https://www.amazon.com.br/dp/B0FXSXHN7R.

[5] https://www.ded.ufscar.br/pt-br/disciplinas/educacao-e-sociedade. Acesso em 25/12/2025.

[6] Temos um vídeo aula sobre formação social brasileira e Estado: https://www.youtube.com/watch?v=s8wdN84SCdA&t=712s. Acesso em 25/12/2025.

[7] Esboçamos diferenças iniciais entre técnica e tecnologia, ao menos em três notas: 1) https://aterraeredonda.com.br/ensaio-sobre-capitalismo-digital-e-tecnofascismo/. Acesso em 25/12/2025. 2) https://www.fcw.org.br/culturacientifica10/vin%C3%ADcio-martinez. Acesso em 25/12/2025. 3) https://ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/660338-tecnofacismo-do-radio-de-pilha-nazista-as-redes-antissociais-a-transformacao-monstruosa-humana-entrevista-especial-com-vinicio-carrilho-martinez. Acesso em 25/12/2025.

[8] Aprofundamos essa perspectiva – que denominamos de normalização do looping da exceção – na tese do concurso de titularidade na UFSCar: MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025c. Acesso: https://a.co/d/3upl65K (709 páginas).

[9] Uma de nossas mais atuais abordagens conceituais transita pelo conceito de Capitalismo Digital, mas em outra roupagem, mais ampla do que a prevista na economia financeira: 1) https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/conceito-de-capitalismo-digital. Acesso em 25/12/2025. 2) https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/ela-pensa-a-inteligencia-desumana. Acesso em 25/12/2025. 3) https://ademocracia.com.br/2025/10/29/inteligencia-degenerativa/. Acesso em 25/12/2025.

[10] Nos referenciamos pela Pedagogia do Oprimido: FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.

[11] Nossa abordagem teórica referente à disciplina Educação e Sociedade, acompanhada de mapa conceitual, encontra-se disponível: https://www.rehcol.com/index.php/rehcol/article/view/82. Acesso em 25/12/2025. Martinez, V. C. (2025). EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: SOCIEDADE – ESTADO – CAPITAL SOCIOLOGIA GERAL (E POLÍTICA). REVISTA COLOMBIANA DE CIÊNCIAS E HUMANIDADES (REHCOL), 2(4), 1–22. https://doi.org/10.5281/zenodo.17059742.

[12] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/capitalismo-digital-mais-valia-onirica. Acesso em 25/12/2025. Acesso em 26/12/2025.

[13] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/pensamento-escravista-no-seculo-xxi-exploracao-do-trabalho-e-a-hegemonica-violencia-contra-os-direitos-humanos. Acesso em 26/12/2025.

[14] https://aterraeredonda.com.br/por-uma-educacao-com-partido/. Acesso em 26/12/2025.

[15] https://aterraeredonda.com.br/socialismo-ambiental/. Acesso em 26/12/2025.

[16] Essa obrigação de fazer recai sobre todos os indivíduos presentes, sem exceção – porém, basta que haja uma única iniciativa positiva para que os demais sejam contemplados.

[17] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1996. A primeira edição data de 1982.

[18] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 67. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

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