Faz muito tempo que não jogo, muito tempo, mas, penso agora que o jogo foi decisivo para ser quem sou.
Se você continuar a ler, vou te contar o início dessa parada: a minha história junto com o xadrez, que, em si, é história pura.
Não sei o que me trouxe a compulsão para escrever. Não vejo um dia ou um fato específico. Sei que às vezes é só um fardo, por exemplo, quando quero dormir e a ideia não sai da cabeça – ou quando estou conversando ou em aula e não posso parar para anotar um assunto qualquer que brotou na cabeça. Já fiz isso, algumas vezes: parei de falar e fiz uns garranchos.
Talvez o histórico da família, talvez a querida Tia Cármen (bibliotecária de formação) nos estimulando numa feliz competição para escrevermos um pequeno conto, numa tarde, em São Paulo. Talvez tudo isso junto, com algo mais.
O que me lembro, parecido nessa história “duas coisas que me educaram para a escrita”, é de uma infância doída, indo e vindo ao Hospital do Servidor Público, na capital, aos cinco anos.
Igual à história “duas coisas que me…”, foi literalmente doído, depois, quando me quebrei sozinho também.
Porém, não tive uma infância infeliz, a imaginação não permitiu. Mesmo no hospital.
Aos seis anos aprendi a jogar xadrez, com gesso até o peito. Um enfermeiro ensinou a todas as crianças daquele pavilhão, e eram muitas, essa nobre arte da logística e da conquista de território: xadrez é política e poder. Não é à toa que tem Rei, Rainha, bispo e torre – e peões. Aliás, xadrez também é luta de classes – com seus peões descartáveis.
O lado mais legal dessa história, mais criativo, muito mais, está no “como” aquele enfermeiro fazia as peças do xadrez. Cada quarto de crianças tinha seu conjunto.
Ele reutilizava, depois de totalmente higienizadas, seringas plásticas. Cortava para que se parecessem com Reis ou cavalos, Rainhas ou peões.
Por causa das idas e vindas, fui alfabetizado aos 8 anos. Mas, com tantas aventuras de Reis e Rainhas na cabeça, não percebi que o tempo tinha passado. Eu estava jogando, brincando, viajando. As crianças jogaram e brincaram, construindo seus próprios castelos imaginários e no tabuleiro.
Fui alfabetizado em dois meses, novembro e dezembro, quando estava em casa, mas com tantas histórias tudo já parecia velha companhia.
Acho que o enfermeiro enxadrista é o culpado da minha escrita.
Dedico essa breva crônica a ele, e a todos que fizeram ou fazem a vida de crianças serem uma feliz e interminável aventura.
De lá pra cá, escrevendo isso no WhatsApp, acho que posso dizer: a vida é um eterno jogo de xadrez. E nesse jogo começa a ganhar quem cuida e protege melhor os seus peões. Contra bispos, Reis e Rainhas. E assim o xadrez vira Sociologia e História.
@viniciocarrilhomartinez




