quinta-feira, maio 14, 2026
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Os “novos” tempos modernos

No primeiro livro de 2026 abordei dois aspectos da realidade, dois enormes problemas sociais e econômicos que se comunicam em perfeição: o Capitalismo digital e a uberização social.

Esse livro foi, literalmente, construído em sala de aula, nesse semestre que ainda tem metade do seu andamento pela frente. Com a proposição do tema, de algumas intercorrências que vinha pensando desde 2025, e com a participação dos alunos e alunas, promovendo provocações na forma de pensar, pude encontrar pontos que ainda estavam obscuros para mim.

Portanto, faço aqui uma homenagem e dedico um agradecimento a todos que participaram, no intuito de elevarmos os marcos iniciais dessa discussão.

Na verdade, todos os pontos entre o Capitalismo digital e a uberização permanecem obscuros, mas, hoje, conseguimos ver um pouco melhor. Nessa seara, talvez, nunca estaremos sob o Sol do meio dia – claro e límpido, como um Céu de Brigadeiro –, porém, já posicionamos nosso esforço analítico e político no meio do claro/escuro, do lusco-fusco das dezoito horas em que mal sabíamos se era dia ou noite.

Quanto ao Capitalismo digital entendo, num resumo rápido, haver a presença hegemônica do capital financeiro – com suporte no passado, do Pensamento Escravista atuante, e no presente da economia de dados (monetização digital) – e a constância dos Grupos Hegemônicos de Poder organizados em torno do antigo BBB: bancadas da bíblia, do boi, da bala.

Em relação à uberização social entendo a extrema fragmentação das relações sociais e a brutal precarização no Mundo do Trabalho. Porém, destaco uma imbricação entre a uberização, mas num sentido mais amplo.

Como real captura das subjetividades humanas pelo capital, num profundo estranhamento societal, econômico, social, cultural, político, a uberização social se ajusta perfeitamente à exploração de todos nós que circulamos pelas redes sociais – ou antissociais. Um fenômeno particular dos nossos “novos” tempos modernos conhecido como “servilismo voluntário”.

A dissolução dessas situações de aviltamento social, humano, surgem muito distantes do horizonte, uma vez que vemos atuarem as principais condições e forças do capital, em sua constituição hegemônica, isto é, são condições alçadas como impositivas e determinadas.

Tal como a consciência política de quem se encontre sob os piores tipos de exploração no trabalho, na produção intelectual e ainda na constância da imposta “compra e venda da força de trabalho”, há um campo de luta na Educação Pública que podemos/devemos explorar.

Assim, combater a propagação e a “normalização dos males” impostos pelo Capitalismo digital e pela uberização social se torna uma urgência na Educação Pública, com critérios técnicos – tal como sugerimos alguns no livro –, e um amplo campo de luta política para os/as profissionais da educação.

A uberização social, no espectro de fruto mais recente do Capitalismo digital, fortalece-se também por meio de uma efetiva “normalização da exceção” e, obviamente, sem as regras de segurança jurídica. Essa seguridade está presente nas excepcionalidades resguardas nas políticas públicas, nas Políticas de Estado (saúde e educação), nas ações afirmativas, no conjunto complexo das institucionalidades que ofertam meios de equidade e que promovem a defesa das classes trabalhadoras e a Justiça Social.

Assim, para efeito de maior efeito de clareza conceitual e também como esforço didático, recorto o livro nas sete perguntas listadas abaixo:

Educação crítica à uberização

  1. Do que trata a obra?

O livro, já nos formatos Kindle e impresso (acessível na Amazon: https://a.co/d/0cV60SjP), trata de dois conceitos, que são fatos e fenômenos hegemônicos na atualidade: o Capitalismo digital e a uberização social. O propósito, além de entender melhor a nossa realidade, é pensar na proposição de uma Educação que fosse crítica a esses processos, especialmente a uberização social – uma vez que está presente a vida de todos nós, sem que tenhamos consciência disso. A uberização social, assim como o “servilismo voluntário”, é fato notório para quem pede uma pizza em casa – ou quando acessa alguma rede social. Esses “dados” estão interligados. Uma observação essencial diz respeito à perda total de autonomia e liberdade, por quem trabalha sob alguma plataforma de uberização. Confunde-se, pelo sentido pejorativo da ideologia, uberização e empreendedorismo e isso é um erro absurdo, uma falha total na epistemologia diante desses processos, uma vez que a pessoa uberizada perde totalmente a autonomia frente à plataforma que também atua como meio de controle social.

  1. Como surgiu a ideia de fazer a obra?

Em meados de 2025, nas aulas de Licenciatura, por necessidade de explorar algumas diferenças entre o capitalismo clássico (do pós revoluções industriais, do advento da chamada Maquinaria e até mesmo com referência à automação e ao Toyotismo – as células de produção, ao invés da linha de produção (Fordismo: notável nos Tempos Modernos, de Charles Chaplin) – e os nossos “Tempos Modernos”, sempre esteve no repertório conceitual a incidência do Capitalismo de dados: a monetização a partir das redes sociais, a compra e venda de dados pessoais digitalizados. Porém, em seguida, me deparei com a insuficiência dessa base analítica. A massa crítica já sinalizava que o passado sempre acompanha o presente, no Brasil, e isso fomentou o ingresso do Pensamento escravista no escopo do capitalismo brasileiro – e que sempre combinou capitalismo com escravismo. Além disso, a atuação do “novo” BBB já bateu em nossa porta. Em conjunto com o setor financeiro (Bancos e fintechs), em parceria com o antigo BBB (bancadas da bíblia, do boi e da bala) a hegemonia do capital mudou de cara, hoje está assentada nas Big Techs, nas Big Datas/Data Centers e nas Bets (“o novo BBB”). Assim começou nossa reflexão, lá em 2025, até chegarmos em ponderações que tudo isso se combina com a uberização social e com o servilismo voluntário, em 2026 – também atuando na Licenciatura.

  1. O que podemos entender por uberização nas relações de trabalho?

Basicamente, trata-se da máxima exploração das classes trabalhadoras (agora, em parte, uberizadas) e da total insegurança jurídica: as plataformas contratantes da mão de obra uberizada não tem nenhum vínculo trabalhista, não se comprometem com nenhum direito assegurado, inclusive, constitucionalmente. É interessante lermos o artigo 7º da Constituição de 1988, na esteira dos direitos sociais fundamentais, e assim compararmos com a realidade laboral, existencial, de qualquer motorista uberizado/a ou entregador/a como mototáxi. Do ponto de vista jurídico e de quem é explorado/a (controlado/a em todos os passos), nossa observação verifica um quadro que poderíamos chamar de “escravidão moderna”. Aliás, não será coincidência a implicância regular, diária, da “exploração do trabalho em condições análogas à escravidão” – como nos diz a mesma Lei Constitucional.

  1. E como as plataformas digitais contribuem com esse cenário?

As plataformas contribuem magistralmente com esse cenário porque foram elas que redigiram ou implementaram os algoritmos que tanto servem ao controle social – no caso específico de quem está sob Júdice da uberização –, quanto lucram absurdamente com a total desregulamentação como temos hoje. A margem de lucro (ou extração de mais-valia) das plataformas pode facilmente vencer a barreira de 60% (sessenta por cento) dos valores pagos em cada corrida ou entrega. Num exemplo simples, uma corrida de Uber que nos custe 10 reais destina seis reais (ou mais) para a plataforma. No caso de cancelamento de uma corrida acionada, o/a motorista de Uber – mas, somente se o/a passageiro/a assim o desejar – recebe pouco mais de três reais. Isso a depender da gentileza ou consciência de quem tomou aquela prestação de serviço uberizado, e se for mototáxi a taxa de “compensação” pelo cancelamento talvez nem chegue a um real. Essa lógica imposta pelas plataformas, todas elas, só vigora porque está listada nas prioridades hegemonizadas do “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers e Bets.

 

  1. A obra possui pesquisa empírica? Se sim, qual foi objeto pesquisado?

A maior pesquisa empírica se deu – e ainda permanecerá por muito tempo, porque não dirijo – nas minhas viagens de Uber, nas conversas insistentes que tenho com essas pessoas escravizadas pela modernidade (ou pós-modernidade fragmentada). Sempre pergunto sobre as condições de trabalho, sempre destaco o quanto as plataformas se apropriam do trabalho delas, e sem nenhuma contrapartida. Aliás, um dos apêndices do livro traz precisamente algumas narrações de viagens pessoais e conversas: Histórias de Uber, na forma de crônica articulada a um evento real. Pode-se dizer que há uma pequena etnografia nessa minha conversação com os/as motoristas de Uber. Algumas dessas histórias que narrei no livro são verdadeiras “lições de vida”.

  1. A quem essa obra é direcionada?

Não há um público específico, pode ser lido – como dizia João Ubaldo Ribeiro – por estudantes, docentes, mas também pelo motorista uberizado, pela diarista. Essa diarista que, na imensa maioria das vezes, é outra notável encarnação, reaparição do passado brasileiro e sempre atua como fantasma do presente: a mulher negra, pobre, uberizada (oprimida), que, “com sorte”, encontrará algum abrigo no famoso “quartinho de empregada” – numa verdadeira provisão (prescrição, diria Paulo Freire) advinda diretamente da Casa Grande e tão ao gosto da nossa classe média.

  1. No que ela contribui para a ciência?

Além de tudo que expus, chamaria atenção para a necessidade de aproximarmos os dois conceitos básicos, se queremos uma leitura científica, não sectária ou reacionária, acerca do atual “estado de coisas”. Muitos outros aspectos poderiam, deveriam, ser somados a esse conceito (refundado) de Capitalismo digital. Porém, sem que esses mencionados componentes façam parte do nosso corpus teórico, aí sim, não há como falarmos em termos de Ciência Social dirigida ao século XXI. Comparativamente, não há como tratar o Mundo do Trabalho, na China, sem destacar em primeiro plano a fadiga imposta pela conhecida jornada 9-9-6 (trabalho das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana). Ironicamente, ao menos partes desse inventário é copiado pelo Anarcocapitalismo de Milei, na Argentina. E o segundo conceito, que é a uberização social. Neste caso, no entanto, abro parênteses, pois a adjetivação de “social” tem o intuito de transcender a exploração brutalizada do Mundo do Trabalho (neoliberalismo extremado), se observarmos que o “servilismo voluntário” atinge a todos que vivem sob as bolhas digitais. Essa é a Ciência Social que me propus a esboçar nesse pequeno livro. E que custa um dólar apenas, menos do que um café expresso.

A referência bibliográfica correta segue abaixo:

  • MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação crítica à uberização*: – A era do capitalismo digital e da uberização social. São Carlos: DP (https://a.co/d/0cV60SjP), 2026.
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