quarta-feira, abril 29, 2026
spot_img
spot_img

CAPITALISMO DIGITAL – na era da Sociedade de controle

 

@viniciocarrilhomartinez

É oportuno visualizar que, diferentemente do período entre as décadas de 1970 e 1990, até uma parte significativa dos anos 2000, o sistema financeiro, diga-se o capital financeiro, especulativo e improdutivo, liderado pelos grandes bancos, detinha a primazia sobre o poder econômico e, portanto, a hegemonia.

Neste momento em que nós nos encontramos, os bancos sofrem com a ausência evidente de regulamentação das fintechs. Os próprios bancos, além da corrida às criptomoedas, enfrentam ataques diretos em seu projeto de hegemonização pelo novo BBB – Big Techs, Big Datas/Data Centers, Bets – além de disputarem agenda com o modelo mais arcaico: bala, boi, bíblia[1].

Como fenômeno presente, em fazimento, altamente complexo, nuançado, o Capitalismo digital – para quem se sente no olho movediço do furacão – é um atuante Ensaio. Do presente ao passado, temos os dois (o trabalho análogo à escravidão e a IA como negação da condição humana[2]); do geral ao particular, ninguém escapa da uberização social; do complexo, composto, às partes de sua composição, o fenômeno, que revela o atual estágio das forças produtivas e das relações sociais de produção, combina regras do escravismo (9-9-6) com a ausência integral de institucionalidades e da legitimidade democrática (Fascismo tecnológico[3] e “servilismo voluntário”). Mas, tudo aqui ainda é um Ensaio[4], com uma longa história[5].

Desse modo, escanear alguns elementos desse denominado Capitalismo digital lembra um pouco o trabalho que Ianni teve com a exposição da Geração de 30, se observarmos que livro[6], palestras[7] e artigos não são idênticos e que sempre trazem algum ganho, complemento. Citamos isso como referência de que o conhecimento, acerca do conceito de Capitalismo Digital, está se fazendo, não está fechado, sobretudo porque tratamos do presente, sempre em processo dinâmico – e, muitas vezes, com extrema velocidade em produção e também destruição.

 

A sociedade de controle sob o Capitalismo digital

Por Sociedade de controle fixaremos a inspiração originária de Deleuze[8], com aportes mais atuais de Bauman[9] e, por Capitalismo digital, daremos prosseguimento ao nosso intuito inicial de esquadrinhamento de alguns aspectos de edificação da hegemonia capitalista em 2026.

Com a perspectiva de que o conceito está em movimento, numa base material movediça, teremos atenção nesse artigo em dois vetores que se alinham e se ajustam hodiernamente, porém, como se estivéssemos vendo a atualização de um composto do passado (sociedade de controle[10]) no presente (Capitalismo digital). Os aportes do futuro correm por conta da alavancagem dos meios degenerativos da Política e da democracia – como mecanismos de subalternização, exclusão[11] e negação[12]. O que corresponde às “máquinas de guerra” do capital provocador de miséria humana e de uma sociedade altamente controlativa[13].

O conjunto de formas tradicionais e “inovadoras” de embate político e produção de beligerâncias, a serviço do Império e de seus países satélites, também configuram o eixo das modalidades de ação/intenção do que se pode definir com soberania de conquista. Uma requisição sem fim de soberania – num mundo de única potência – só poderia ser efetiva se houvesse uma sociedade altamente de controle: altamente controladora das liberdades dos cidadãos nacionais e da geopolítica internacional. Portanto, a forma-Estado de Exceção[14] está delineada tanto no controle real (da política) quanto nas liberdades interativas que se pudesse visualizar nas redes sociais. “A guerra era um limitado Estado de Exceção”[15].

Também nesse sentido há uma janela epistemológica entre a obra de Foucault[16] e de Deleuze, e que é, mais precisamente, a passagem do estágio capitalista das sociedades disciplinares para a sociedade de controle[17].

Hardt destaca pontos chaves a partir da leitura que apresenta do filósofo francês: pós-modernidade; fim da história; Império; sociedade de controle mundial; biopoder. O conjunto revelaria um tipo de crise de civilização ou, ao menos, de perspectiva. “O ‘espaço estriado’ das instituições da sociedade disciplinar dá lugar ao ‘espaço liso’ da sociedade de controle”[18]. A indistinção entre público e privado, dentro e fora, revela-se em novas formas de opressão e controle, como o racismo que não se baseia na biologia, mas, sim, na cultura.

A privatização do público e a publicização do privado, por sua vez, acarretam uma superexposição das subjetividades. Com isso, é obstaculizada a construção do reconhecimento dos sujeitos e de suas intersubjetividades – não-egoístas, não-consumistas – e do direito porque seria necessário um espaço público não privatizado. “A paisagem urbana não é mais a do espaço público, do encontro casual e do encontro de todos, mas dos espaços fechados das galerias comerciais, das autoestradas e dos condomínios com entrada privativa”[19].

O fluxo, a rotina, é ditada pela rodagem dos algoritmos hegemonizados é a contraprova do alegado, uma vez que as bolhas de referência, acesso e consumo são cada vez mais particularizadas, indutivas de um tipo de auto referenciamento e autoconsumo, porque cada pessoa usuária das redes deverá consumir hoje e amanhã, precisamente, o que consumiu ontem. Não é autoaprendizado do sujeito (apenas do algoritmo), é autoconsumo que nos embota nas mesmas e repetidas preferências e escolhas. O pensamento único é, além de um portal emanado das oligarquias da comunicação global (Big Techs), uma expressão da mesmice, de eterna repetição do que queremos ver e ouvir: a primeira vítima é a diversidade, a segunda é a tolerância e a terceira somos nós.

A partir da Arphanet, a Internet como a conhecemos hoje funcionou como um sistema sinótico[20], fazendo-se interação entre os membros e os grupos integrados; com as redes de comunicação social, virtualiza-se intercalando-se sistemas panópticos[21] e banóticos[22]. Não se poderia retratar o incremento dos novos meios de interação/informação; no entanto, essa proposta analítica de uma sociedade de controle (desde o século XX) se ajusta com perfeição às previsões e realizações que se manifestariam no futuro/presente de 2026.

Celebrizado pelo diagnóstico do “pensamento único” – sem questionamento, ordenado pelos interesses hegemônicos – Ramonet[23] incitava, diante da sociologia do laissez-faire, em que cada um vigia suas intenções/ações, a pensar sob o ângulo do Jus Puniendi Global que nos arboriza como cidadãos de paisagem: chamado ao “servilismo voluntário”[24]. De fato, há um Estado de Vigilância Maciço.

 

Da uberização social

Inicialmente, há que se destacar algumas nuances: terceirizados ou estagiários, por mais precárias que sejam suas relações de trabalho, têm algum vínculo funcional estabelecido por contratos formais. O trabalho autônomo ou freelance, via de regra, intermediam diretamente com o “tomador de serviços” as negociações envolvendo a venda da sua força de trabalho (costumam se abrigar juridicamente no sistema MEI).

Na uberização, as plataformas são intermediárias e retém uma parcela significativa dos valores envolvidos na prestação de serviços – as plataformas que executam essa extração de mais-valia, em determinadas situações, podem reter mais de 50% (cinquenta por cento) dos valores auferidos.

Então, diferentemente dos autônomos, os situados sob a condição da uberização são explorados pelo mediador da relação de trabalho: as plataformas. E, diferentemente dos terceirizados e dos estagiários (precarizados), quem se encontra sujeitado à uberização completa (entre 10 e 12 horas diárias) não tem nenhuma segurança jurídica.

Em síntese, o uberizado não negocia diretamente a venda da força de trabalho (ao contrário do autônomo) e não tem nenhum vínculo formal com o Mundo do Trabalho, como possuem os terceirizados – a não ser de forma punitiva, coercitiva.

Por insegurança jurídica se entende a ausência tanto de regulação das empresas, como a criação de vínculos trabalhistas, quanto a inexistência de qualquer garantia na forma de direitos trabalhistas, decorrente dessa atividade laborativa uberizada.

A própria resposta da Inteligência Artificial (IA), para a uberização, ressalta a informalidade das relações de trabalho, a precarização absoluta e a ausência total de segurança jurídica:

  • A uberização social é um modelo de trabalho baseado em plataformas digitais que transfere riscos e custos para o trabalhador, caracterizado pela falta de vínculo empregatício, ausência de direitos trabalhistas (CLT), remuneração variável e controle algorítmico. Esse fenômeno gera precarização, insegurança e jornadas exaustivas, mascaradas por uma falsa noção de empreendedorismo e flexibilidade” (Fonte: IA).

 

Ao menos, a resposta programada da IA não falseou quanto à precarização e espoliação das trabalhadoras e dos trabalhadores envolvidos e subjugados. Pode-se dizer que a IA apresentou algum critério técnico e uma noção crítica e realista.

Na prática, esse nível de subalternização é muito mais gravoso à saúde, às condições de vida e de expectativas das pessoas submersas nas relações laborativas, se comparadas à jornada 6-1: em vias de ser ajustada para 5-2, no Brasil. Com esse nível de esgotamento e de estafa, não é impossível dizer que essas pessoas dormem e acordam com o trabalho[25].

A falsa noção de flexibilidade na jornada de trabalho tem que receber outro destaque, uma vez que, pela lógica simples, é facilmente compreensível o fato de que se as jornadas de trabalho extremas e exaustivas (entre 10 e 12 horas diariamente) não podem se configurar como sinônimo de liberdade de horários para trabalhar e flexibilidade: quem tem uma escala, praticamente, igual ou superior à conhecida fórmula do 9-9-1 (das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana) não tem liberdade, e muito menos energia, para fazer mais nada que possa lhe desenvolver como pessoa humana.

Porém, com rendimentos muito superiores ao “trabalhador CLT” – com faturamento mensal superior, no montante de até três vezes ao que receberia no emprego formal – é inegável que faça as contas e veja primeiramente a conta bancária. Por isso, pode-se dizer que tenha desenvolvido uma subjetividade de negócios, capitalista, ao mesmo tempo em que está submerso no trabalho mais precarizado que possa haver. Não há exagero em se dizer que a uberização seja um tipo de “escravismo moderno”, com a diferença de que é mais lucrativo (para quem está em estado de uberização) em comparação a quem está relacionado às sujeições da escala 9/9/6 ou sob o completo domínio do trabalho análogo à escravidão.

Destacaremos apenas alguns mecanismos de controle sobre motoristas e usuários de transporte uberizado: ambos recebem notas ao final de cada corrida, mas, com a pontuação abaixo do mínimo esperado, o sistema – movido por algoritmos de vigilância e controle – já não escala mais viagens. Avaliações negativas, repetidamente, assim como os seguidos cancelamentos de viagens ou quebra de procolos e termos podem implicar em punições mais severas, como cancelamento da conta – o fato óbvio é o monitoramento de comportamentos, isto é, o algoritmo que direciona corridas (ou não) atua como forma de controle social.

Portanto, há um severo erro na epistemologia política de quem associa a uberização ao “empreendedorismo” – mormente, porque quem controla os atos laborais são as plataformas e nunca há uma relação negocial direta entre o uberizado e o tomador de serviços – aliás, a pena para isso é a exclusão do trabalhador[26].

O controle é totalmente movido pela punição e a pior delas, como se depreende facilmente, é a exclusão do/a trabalhador/a uberizado/a das plataformas que atuam em forma de monopólio de serviços. O resultado final, como liquidação disruptiva (no grau máximo do banimento), é, como se pode concluir com facilidade, a desmonetização por completo – a perda das piores condições de trabalho (a uberização) é, por fim, exatamente, o fim das expectativas de quem já estava excluído/a, negado/a.

 

 

 

[1] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/capitalismo-digital. Acesso em 19/04/2026. É preciso destacar que as Big Techs formam um oligopólio, uma oligarquia da desinformação que alimenta segundo a segundo as redes antissociais: redes de estímulo ao comportamento antissocial. O Brexit foi dos experimentos iniciais e que revogou – em plebiscito popular distorcido por Fake News – a participação da Grã-Bretanha no Mercado Comum Europeu.

[2] Em essência, a atual fase tecnológica, com imensos impactos sociais e econômicos, nos apresenta inúmeras variações acerca da destruição da Política como espaço público (MARTINEZ, Vinício Carrilho. A destruição da política: a sociedade de controle entre a pandemia e o pandemônio político. Campina Grande: EDUEPB, 2023. Disponível em: https://zenodo.org/records/8298411).

[3] https://www.fcw.org.br/culturacientifica12/vin%C3%ADcio-martinez. Acesso em 19/04/2026.

[4] https://aterraeredonda.com.br/ensaio-sobre-capitalismo-digital-e-tecnofascismo/. Acesso em 19/04/2026.

[5] https://ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/660338-tecnofacismo-do-radio-de-pilha-nazista-as-redes-antissociais-a-transformacao-monstruosa-humana-entrevista-especial-com-vinicio-carrilho-martinez. Acesso em 19/04/2026.

[6] IANNI, Octávio. A ideia de Brasil moderno. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

[7] IANNI, Octávio. Tipos e mitos do pensamento brasileiro.  XXV Encontro anual da ANPOCS, em Caxambu, realizado de 16 a 20 de outubro de 2001.

[8] Gilles. Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

[9] BAUMAN, Zygmunt. Vigilância Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

[10]“Não é de um comitê de sábios, comitê moral e pseudo competente que se precisa, mas de grupos de usuários. É aí que se passa o direito à política” (DELEUZE, 1992, p. 210).

[11] https://www.terra.com.br/noticias/analise-como-o-capitalismo-digital-e-o-tecnofascismo-estao-reproduzindo-antigas-estruturas-de-dominacao,89b81d8bcb31b45180a088eac3ba1004snrjsoxf.html#google_vignette. Acesso em 19/04/2026.

[12] Como se depreende conceitualmente, a mordaz combinação entre subjugação, subalternização, negação e exclusão, resumem-se na imposição da exceção enquanto regra. (MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K).

[13] “No capitalismo só uma coisa é universal, o mercado […]. Não há Estado democrático que não esteja totalmente comprometido nessa fabricação da miséria humana” (Deleuze, 1992, p. 213).

[14] AGAMBEN, Giorgio. Estado de Exceção. São Paulo: Boitempo, 2004.

[15] HARDT, Michael; NEGRI, Antonio. Multidão: guerra e democracia na era do império. São Paulo: Record, 2005, p. 26.

[16] FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes; 1977.

[17] HARDT, Michael. A sociedade mundial de controle. In: Alliez, Éric. Gilles Deleuze: uma vida filosófica. São Paulo: Ed. 34, 2000, p. 357.

[18] HARDT, 2000, p. 358.

[19] HARDT, 2000, p. 360-61.

[20] Apesar de não contar, inicialmente, nem com uma fração dos pontos de acesso (e de fuga) que se verificam na teia de comunicação atual, era um sistema sem controle central e espionagem global, como vemos hoje em dia.

[21] Aqui, temos que ver os controles exercidos pelos grupos de poder hegemônicos responsáveis pela gestão do Estado ou dos interesses corporativos que atuam como Jus Puniendi Global.

[22] Uma das formas de controle social – especialmente dos jovens que têm uma vida digital ativa – é a ameaça de cancelamento. O sistema banótico, portanto, controla pelo medo, pela possibilidade de banimento – o que levaria ao esquecimento.

[23] RAMONET, Ignacio. El Imperio de laVigilancia. Madrid: Clave Intelectual, 2016.

[24] LA BOETIE, Ètienne de. Discurso sobre a servidão voluntária. Lisboa: Edições Antígona, 1986.

[25] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/capitalismo-digital-mais-valia-onirica. Acesso em 19/04/2026.

[26] “Assim como os passageiros não podem pedir corridas por fora da plataforma, você, como motorista, também não deve oferecer esse serviço. Como parceiro Uber, as viagens devem ser feitas sempre por meio do app, o que também aumenta a sua segurança e a garantia de receber o dinheiro após a corrida”:  https://zarp.localiza.com/blog/post/codigo-de-conduta-para-motoristas-uber. Acesso em 24/04/2026.

Compartilhe

Related Articles

- Advertisement -spot_img

Colunas

Aprender a aprender

@viniciocarrilhomartinez Ester Dias da Silva Batista – mestranda do PPGCTS/UFSCar Beatriz Vitória Vieira de Lima – Monitora da disciplina             Trazemos, aqui, uma contribuição ao pensamento...

PF investiga malas sem inspeção em voo com Motta e Ciro Nogueira em avião ligado a bets

Bagagens não passaram por raio-X após viagem a paraíso fiscal no Caribe; Avião pertence a empresário de bets A Polícia Federal investiga um episódio envolvendo...

Com Lula forte no 1º turno e empatado no 2º, pesquisa Atlas aponta disputa acirrada em 2026

Levantamento Atlas/Bloomberg revela liderança de Lula no primeiro turno, empate com Flávio Bolsonaro no segundo e alta rejeição entre principais candidatos A pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada...

EDUCAÇÃO CRÍTICA DA UBERIZAÇÃO

- uberização e capitalismo de barbárie - intuições de um professor   @viniciocarrilhomartinez Tendo-se a clareza de que, todos/as que pedem uma pizza pelo aplicativo estimulam, reproduzem, monetizam...

‘Serei presidente outra vez’, afirma Lula na abertura do Congresso do PT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou na sexta-feira (24) uma proposta de documento apresentada no Congresso do PT, mas ressaltou que a...