Ester Dias da Silva Batista
Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar
Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação e Sociedade/UFSCar (22/04/2026). Por síntese (e por óbvio), entende-se que não é a totalidade, mas sim a essência que me pareceu adequada. A obra analisada refere-se ao livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire[1]. Então, vamos aos tópicos:
- Ensinar exige rigorosidade metódica:
- Isso se chama Ciência;
- Trata-se de reconhecer que o ato de ensinar não se reduz à transmissão ou reprodução de conteúdos, mas envolve processos de organização, sistematização, problematização e validação do conhecimento;
- Nesse sentido, a ciência se caracteriza não apenas por seus conteúdos, mas por seus modos de produção: a construção de hipóteses, o uso de metodologias claras, a possibilidade de replicação e a validação, como ocorre, por exemplo, na avaliação por pares;
- Ensinar com rigorosidade metódica implica, portanto, aproximar os educandos desses modos de pensar, favorecendo a compreensão de que o conhecimento é produzido, testado e constantemente reelaborado;
- O exemplo usado em aula: a adaptação de um rodo por um trabalhador da zeladoria, visando melhorar a retirada de água do piso, não se reduz à mera repetição de práticas já conhecidas, mas envolve observação, experimentação e ajuste, elementos que, ainda que em outro contexto, dialogam com princípios da racionalidade científica;
- Ensinar exige pesquisa
- Isso se chama estudar para investigar: “aprender a aprender”;
- Nesta análise, ensinar exige pesquisa no sentido de ser compreendido como a capacidade de “aprender a aprender”, isto é, investigar de forma intencional e orientada. Não se trata de buscar informações de maneira aleatória, mas de saber o que se procura, com quais critérios e com quais objetivos, articulando rigor metodológico e seleção de fontes confiáveis.
- Nesse sentido, práticas como o uso acrítico de materiais, por exemplo a utilização da Wikipédia sem problematização ou verificação, evidenciam não apenas uma fragilidade na produção do conteúdo didático, mas a ausência da compreensão de que ensinar implica saber pesquisar, avaliar e validar informações;
- Ensinar exige respeito aos saberes dos/as educandos/as
- Isso se chama Bom Senso do senso comum: “educação de berço”;
- Nesta análise, respeitar os saberes dos educandos implica reconhecer que os estudantes chegam à escola portadores de conhecimentos construídos em seus contextos sociais e culturais, como aqueles provenientes de tradições familiares e comunitárias — por exemplo, saberes transmitidos em comunidades indígenas. Esses conhecimentos constituem pontos de partida legítimos para o processo educativo;
- Porém, esse reconhecimento não significa a aceitação irrestrita de todas as concepções prévias. O trabalho pedagógico exige problematização e criticidade, especialmente quando tais concepções envolvem preconceitos ou violem princípios de direitos humanos;
- Ensinar exige criticidade
- Sem a crítica só há a mesmice, a repetição, a ideologia, a ignorância: o senso comum que se apresenta na Educação capitalista (“deixe como está para ver como é que fica”);
- A criticidade constitui um elemento central do ato educativo, na medida em que rompe com a mera repetição e favorece a análise, a interpretação e a problematização da realidade. Sem ela, o ensino tende à reprodução acrítica de conteúdos e à naturalização de visões de mundo;
- Nesse sentido, tanto na produção científica quanto no processo de ensino e aprendizagem, a ausência de análise crítica compromete a validade e o sentido do conhecimento. Como aponta Marilena Chauí, a ideologia pode operar pela universalização de interesses particulares, fazendo com que perspectivas de grupos dominantes sejam apresentadas como universais. A criticidade, portanto, torna-se fundamental para desnaturalizar essas construções e possibilitar a transformação social;
- Ensinar exige estética e ética
- Chamo de valor republicano;
- A dimensão estética do ensino refere-se à forma como a prática educativa se organiza e se apresenta, envolvendo escolhas que favorecem o diálogo, a compreensão e a participação, como a disposição do espaço, o uso de recursos didáticos e a construção de ambientes mais horizontais de interação. Nesse sentido, a estética não se reduz à aparência, mas expressa uma concepção de ensino comprometida com o encontro entre sujeitos;
- A ética, por sua vez, diz respeito à responsabilidade do educador no exercício da docência, implicando o respeito aos educandos, aos direitos humanos e à diversidade. Ensinar eticamente exige evitar a imposição acrítica de visões pessoais, bem como combater práticas discriminatórias, como racismo, misoginia e outras formas de preconceito;
- Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo
- Os cínicos, de todas as idades, não avançam na educação;
- “A palavra convence, mas o exemplo arrasta”;
- A prática educativa exige coerência entre discurso e ação, de modo que aquilo que se ensina seja efetivamente vivido no cotidiano. A corporeificação das palavras implica que valores como respeito, justiça e equidade não permaneçam apenas no plano discursivo, mas se expressem nas práticas concretas do educador;
- Nesse sentido, posturas contraditórias, como defender o combate ao racismo no espaço institucional e reproduzir práticas racistas em outros contextos, fragilizam o processo educativo e comprometem a formação crítica dos sujeitos, ao esvaziar o sentido ético do ensino;
- Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação
- Some-se o preconceito, o racismo, a homofobia, a misoginia;
- O ato de ensinar implica abertura ao novo e disposição para colocar em questão os próprios saberes, reconhecendo-se que o conhecimento é sempre provisório e passível de revisão. Nesse sentido, ensinar e aprender envolvem risco, na medida em que exigem a reconstrução de certezas e a incorporação de novas perspectivas, processo que pode gerar tensões e resistências;
- Paralelamente, essa abertura não se dissocia de um compromisso ético: a rejeição de toda forma de discriminação. Práticas pedagógicas críticas demandam o enfrentamento de preconceitos, como racismo, homofobia e misoginia, reafirmando-se o respeito à diversidade e aos direitos humanos;
- Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática
- Isso é autocrítica e autoeducação política (sem ideologia);
- A prática docente demanda um exercício constante de reflexão crítica, que envolve não apenas a análise do outro, mas também a autocrítica. Nesse sentido, ensinar implica reconhecer os próprios limites, revisar posicionamentos e compreender que a prática educativa é atravessada por dimensões políticas e ideológicas;
- Essa reflexão torna-se ainda mais necessária no contexto acadêmico, em que a produção do conhecimento pode, por vezes, associar-se a relações de poder e à ideia de sua detenção por determinados grupos. Quando o conhecimento se apresenta como verdade incontestável, perde-se o espaço da dúvida e do questionamento, comprometendo-se a própria rigorosidade metódica e favorecendo práticas dogmáticas;
- A ausência dessa reflexão crítica contribui para a reprodução de modelos de ensino. Nessa direção, Durkheim aponta que a educação pode assumir funções de homogeneização e diferenciação social: ao mesmo tempo em que garante uma base comum de formação, também pode reforçar desigualdades ao distribuir de maneira desigual o acesso a diferentes níveis e formas de conhecimento;
- Função de homogeneização, até o fundamental, todos (classe dominante e dominada) teriam acesso à educação básica, à alfabetização, ou seja, todos seriam capazes de ler, não necessariamente de interpretar;
- Função diferenciadora: após esse momento de homogeneização, impõem-se a regra classista, capacitista, de se diferenciar, ou seja, uma diferenciação entre a classe dominante que teria acesso ao ensino superior, a busca pelo conhecimento efetivamente, enquanto a classe dominada, o proletário, teria acesso ao ensino técnico; mas superior não, o que permitiria a leitura, interpretação básica, bem como servir como mão de obra barata e abundante, mas nada muito complexo;
- Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural
- E é o oposto da apropriação cultural;
- A prática educativa demanda reconhecer as diferentes formas culturais, compreendendo-se que o conhecimento é produzido em contextos históricos e sociais específicos. Assumir a identidade cultural significa, portanto, legitimar saberes, experiências e formas de expressão diversas no espaço educativo;
- Apropriação no sentido de deturpação, de modificação;
- Ensinar não é transferir conhecimento
- A IA transfere conhecimento, o/a educador/a não;
- O processo de ensino e aprendizagem, como propõe Paulo Freire, não se baseia no depósito do conteúdo nos estudantes, de forma passiva e acrítica, mas tem a ideia, a marca, a fim de construir esse conhecimento de forma conjunta, não via dicotomia de “amigo/inimigo”, mas via parceria;
- É necessário compreender que o acesso à informação não equivale ao processo educativo, ou seja, ter acesso às informações não transformam essa informação em conhecimento automaticamente, é necessária uma construção conjunta;
- Ensinar exige consciência do inacabamento
- Somos a única espécie com consciência de nossa finitude;
- Entender esse inacabamento permite compreender que não há um conhecimento pronto, uma finalização desse processo, mas uma continuidade, para estudantes e também para os docentes, ambos permanecem sempre em aprendizado;
Vale destacar ainda que essas questões estão dispostas num texto original disponibilizado, no primeiro encontro ou até antes disso, num e-mail coletivo das turmas[1]. Como última menção, é importante destacar que esse texto será disponibilizado aos/às estudantes como “retorno” para leitura futura. De forma que possam organizar um pouco mais suas anotações ou abstrações daquele encontro.
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.




