quarta-feira, junho 17, 2026
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Aprender a aprender

@viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista – mestranda do PPGCTS/UFSCar

Beatriz Vitória Vieira de Lima – Monitora da disciplina

            Trazemos, aqui, uma contribuição ao pensamento crítico e necessário à educação pública de qualidade.

Esse texto se baseia em alguns pontos que foram destacados como forma de instigação e de ampliação do debate, na sala de aula, acerca do processo que se denominou de “aprender a aprender”.

Aprender a aprender exige:

  • Aprender a pensar (liberdade: sem dogmatismo)
  • Aprender a identificar (problema relevante)
  • Aprender a selecionar (escolher tema, objeto)
  • Aprender a procurar (fontes, referências)
  • Aprender a pesquisar (metodologia: meios e fins)
  • Aprender a refletir (orientação, foco, mas com intuição)
  • Aprender a organizar (racionalidade, objetividade)
  • Aprender a escrever (“escrita científica”)
  • Aprender a disponibilizar (divulgação científica)
  • Aprender a saber-fazer (praticar o conhecimento, com conhecimento)
  • Aprender a comunicar (conhecimento como comunicação e não extensão)
  • Aprender a Apreender (práxis)
  • Aprender que há Educação Permanente (só deixamos de aprender na morte)

 

No conjunto, temos a articulação de um tipo de epistemologia política, no sentido de que a educação não é um processo neutro, pois, ao contrário, sempre carrega um escopo político.

Como visto, o processo de “aprender a aprender”, aqui trabalhado, busca refletir sobre a prática educativa para além da mera transmissão de conteúdos e da chamada educação bancária[1]. Trata-se de compreender o ensino e a aprendizagem como processos associados ao “tomar para si”, isto é, ao exercício da liberdade necessária para aprender de forma efetiva, ultrapassando-se a aquisição de conteúdos de maneira descontextualizada e, portanto, capaz de promover a formação de sujeitos críticos.

Nesse sentido, aprender a pensar constitui um ponto de partida fundamental, exigindo uma postura crítica e livre de dogmatismos. O conhecimento, conforme apontam autores como Morin[2] e Bachelard[3], não apresenta um ápice ou finalização, mas se desenvolve de forma contínua, por meio de construções e revisões constantes. Associado a isso, destaca-se a capacidade de identificar problemas relevantes da realidade, compreendendo-se que o conhecimento não é dado de forma pronta, mas construído de maneira orientada. Torna-se necessário aprender a procurar, definindo objetivos de estudo e selecionando fontes confiáveis, articulando-se meios e fins.

Esse movimento aproxima-se da noção de práxis em Paulo Freire[4], na qual ação e reflexão (teoria e prática) caminham juntas, o que permite compreender criticamente a realidade e orientar a produção do conhecimento. Logo, aprender a escrever e a comunicar torna-se essencial, uma vez que o conhecimento precisa ser expresso de forma fundamentada, clara e objetiva.

A comunicação, nesse contexto, ultrapassa a ideia de mera transmissão (extensão) e passa a ser compreendida como um processo de construção compartilhada, estabelecendo-se relações de parceria entre docentes e discentes. Da mesma forma, aprender a disponibilizar o conhecimento, por meio da divulgação científica, amplia seu alcance e contribui para romper com sua restrição aos espaços acadêmicos.

Por fim, “aprender a apreender” implica o desenvolvimento do saber-fazer, ou seja, a capacidade de aplicar o conhecimento de forma consciente e intencional, articulando-se teoria e prática. Esse processo reafirma a centralidade da práxis e evidencia que o ensino e a aprendizagem não se configuram como algo finalizado, mas como um movimento contínuo, marcado pelo reconhecimento do inacabamento humano. Assim, a educação se estabelece como um processo no qual os sujeitos encontram-se em constante formação ao longo da vida.

Diante disso, compreende-se que o “aprender a aprender” representa uma perspectiva educacional comprometida com a autonomia responsável, a criticidade, a emancipação social e a transformação social. Mais do que acumular informações, aprender significa desenvolver a capacidade de questionar, interpretar, relacionar ideias e agir conscientemente diante da realidade. Nesse sentido, o estudante deixa de ocupar uma posição passiva e passa a ser sujeito ativo de sua própria formação – há, então, uma autoeducação política.

Tal compreensão também exige uma nova postura do/a educador/a, que deixa de ser apenas transmissor/a de conteúdos para atuar como mediador/a do conhecimento, incentivando a curiosidade, o diálogo e a investigação. A sala de aula, portanto, torna-se um espaço de construção coletiva, no qual ensinar e aprender se estabelecem como processos mútuos e permanentes.

Além disso, em uma sociedade marcada por rápidas transformações científicas, tecnológicas e culturais, torna-se cada vez mais necessário formar sujeitos capazes de aprender continuamente, adaptando-se aos desafios do tempo presente sem perder a capacidade crítica. A educação, nessa perspectiva, contribui para a formação integral do indivíduo, preparando-o não apenas para o mercado de trabalho, mas para a vida em sociedade, o exercício da cidadania e pondo-o diante do entendimento de que será agente do próprio aprendizado.

Dessa forma, pensar na educação a partir do “aprender a aprender” significa reconhecer que ensinar envolve compromisso ético, político e social com a formação humana. Ao estimular a autonomia intelectual, o diálogo e a capacidade de intervenção na realidade, a escola cumpre seu papel de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, democrática e consciente.

Por esse entendimento, educar e aprender tornam-se ações inseparáveis no processo permanente de humanização dos sujeitos. Reafirmando-se a educação como prática libertadora e permanente, fundamentada na ideia de que o ser humano está sempre no mesmo processo de construção. Aprender, portanto, não se limita ao espaço escolar, nem se encerra em etapas formais – ainda que isso seja óbvio e necessário –, mas, sim, acompanha toda a trajetória humana como possibilidade constante de crescimento, emancipação e transformação.

Referências

BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2023

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

 

[1] O conceito de Educação Bancária foi desenvolvido por Paulo Freire como forma de criticar esse modelo de ensino no qual o professor deposita conteúdos nos estudantes, considerados sujeitos passivos, algo que se baseia apenas na transmissão, em total oposição a uma educação problematizadora e crítica.

[2] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.

[3] BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

[4] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2023

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