Ester Dias da Silva Batista – Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar
Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação e Sociedade/UFSCar (08/04/2026). Por síntese (e por óbvio), entende-se que não é a totalidade, mas sim a essência que me pareceu adequada. O mapa geral das discussões trata, efetivamente, do que está sinalizado no título. Então, vamos aos tópicos:
- Na sociedade atual, assim como nas mais antigas, apresentam-se algumas estruturas sociais que tendem a ser mantidas e propagadas; no caso da sociedade capitalista, em sua estrutura fundamental de funcionamento, pressupõe-se duas classes, uma classe é dominante, enquanto outra(s) é (são) dominadas.
- Essa classificação é algo que pode ser caracterizada como um fenômeno social, ou seja, é algo presente em diversas sociedades, mas não é um fenômeno humano; é uma realidade capitalista.
- Entende-se por fenômeno social aquele que se constitui historicamente a partir das relações coletivas entre os indivíduos, sendo marcado por padrões, instituições e estruturas sociais; já o fenômeno humano é mais amplo, englobando também dimensões biológicas, psicológicas e individuais, não necessariamente vinculadas à organização social; a existência do Direito – enquanto conjunto de normas sociais e de regras jurídicas, como costumes, práticas sociais) – é um exemplo de fato social, uma vez que não há (e nem houve) nenhuma sociedade conhecida sem o acometimento do Direito – e que é, sumariamente, uma tipologia de organização social.
- Essa organização social em classes, na sociedade capitalista, é organizada, como citado, entre uma classe dominante e outra dominada (como “classes fundamentais”);
- A classe dominante, para Marx, é caracterizada pela burguesia, a pequena burguesia (chamada pela Marilena Chauí de classe média), e as frações da classe dominante: o 1º setor (agronegócio), o 2º setor (indústria) e os sistemas financeiros. A outra ponta revela as classes trabalhadoras, subalternizadas, tanto as tradicionais (do “chão de fábrica”) quanto às submersas na chamada “uberização social”.
- Sendo importante destacar que esses setores não constituem classes sociais em si, mas espaços de atuação econômica nos quais essas classes se inserem.
- A classe dominada, por sua vez, é caracterizada por Marx pelo proletariado e o lumpemproletariado (os inimpregáveis que também poderiam entrar nessa categoria, referenciando sujeitos que não conseguem, por exemplo, se recolocar no mercado de trabalho, como pessoas na terceira idade e os decretados ao desemprego, os viventes nas ruas, os famélicos).
- Podendo-se relacionar esse grupo ao conceito de “exército industrial de reserva”, composto por indivíduos em situação de desemprego ou subemprego.
- Nesse sistema capitalista, diferentemente do sistema de castas na Índia, por exemplo, em que não há mobilidade (não apenas por uma organização social, mas também religiosa e cultural), no sistema capitalista há a possibilidade de mobilidade social; é uma condicional que diferencia a classe social, da casta e do estamento.
- Um indivíduo na chamada classe do proletariado pode (não que ele consiga necessariamente) alcançar ou tentar aspirar ao status de classe média, por exemplo, via uma universidade, um curso de graduação, ou seja, vemos que há essa possibilidade de mobilidade social de uma classe para outra, seja por ascensão; a sociedade capitalista se caracteriza também pelo descenso social (a crise de 29 provou isso).
- No entanto, essa mobilidade é limitada por fatores estruturais, históricos, culturais e econômicos, não dependendo apenas do esforço individual → é necessário fugirmos da ideia meritocrática que apenas culpabiliza o sujeito e desconsidera as desigualdades sociais.
- Essa organização pode ser compreendida a partir da dialética, em Karl Marx, na qual a relação entre classe(s) dominante(s) e classe(s) dominada(s) é marcada por contradições e conflitos, sendo essas tensões responsáveis por processos de transformação social ao longo da história – e muito raramente de modo não-violento.
- Essa organização de dominância, das classe(s) dominante(s) para com a(s) classe(s) dominada(s), se estende não apenas para os meios econômicos e sociais, mas também culturais, institucionais, estruturais e acadêmicos.
- Por exemplo, as chamadas marcas de grife, como Gucci, Prada ou Louis Vuitton, passam a ser reproduzidas por meio da pirataria ou de versões genéricas, que copiam a marca original e, por sua vez, popularizam o consumo pela população proletária; assim, filhos e filhas de trabalhadores passam a utilizá-las como forma de tentar se encaixar socialmente e, ao mesmo tempo, afastar-se de sua própria condição de classe.
- A(s) classe(s) dominante(s), por outro lado, passa(m) a evitar o uso dessas marcas ou de roupas que apresentem logos muito visíveis, buscando não se assemelhar à classe proletária que agora passou a ter acesso a essas pseudo marcas.
- Nota-se, portanto, que, apesar de não haver uma estrutura de castas que classifique determinadas classes como impuras, como ocorre na Índia, no Brasil há esse afastamento intencional: pode-se acrescentar que temos, em razão de nossa formação social, uma “luta de classes racista”.
- Isso evidencia um processo de distinção social, no qual padrões culturais são constantemente redefinidos como forma de manutenção das diferenças entre as classes e, assim, se perpetue a desigualdade, a subordinação, a subalternização, com crescimento exponencial da “uberização social”. a autocracia de classe e racial é uma constante no Brasil, é uma marca d’água social, política, cultural.
- Além disso, é importante pensar na ideia da organização social em que pode ocorrer ascensão ou descenso social e também no que Marilena Chauí chama de Pesadelo da classe média, essa quase aversão, relacionada ao medo de perda de posição social: medo, pavor, de se ver sob a proletarização neoliberal.
- Simplificadamente: a classe dominante teme perder esse status, esse poder e tornar-se classe média (ruína econômica), algo que é possível, por exemplo, em uma crise econômica (vimos algo ocorrer em 2008, com a crise do subprime).
- A classe dominada, o proletariado, busca esse lugar com as melhores condições em que a classe média se encontra, logo, e assim temos um fogo cruzado, um local onde a classe média se encontra; ocupando uma posição intermediária e contraditória entre as classes.
- Essa organização central é também associada a um amortecedor social, uma espécie de colchão de molas que se molda conforme as demandas e o que é ofertado socialmente, seja pela exploração da classe dominante que, muitas vezes, é entendida como uma aproximação desses sujeitos da classe média com a classe dominante; fazendo com que a classe média funcione como um elemento de estabilização das tensões sociais, absorvendo conflitos e contribuindo para a manutenção da estrutura do sistema capitalista – ou, nas crises, aprofundando tais conflitos, pelo pavor do empobrecimento a classe média recupera laivos de anacronismo, sectarismo, atuando de forma retrógrada e reacionária;
Vale destacar ainda que essas questões estão dispostas num texto original disponibilizado, no primeiro encontro ou até antes disso, num e-mail coletivo das turmas[1].
Como última menção, é importante destacar que esse texto será disponibilizado aos/às estudantes como “retorno” para leitura futura. De forma que possam organizar um pouco mais suas anotações ou abstrações daquele encontro.
[1] https://www.rehcol.com/index.php/rehcol/article/view/82. Acesso em 10/04/2024.




