@viniciocarrilhomartinez
O tema da minha aula de ontem deveria ter sido Educação anticapitalista. Era de se esperar que não fosse uma abordagem simples, tão direta ou com respostas prontas. O resultado é que nem entrei no tema.
Chamei o Uber e a moça que me levou estava quieta no início, talvez meio reticente. Dois minutos depois a conversa já ia normal. Raramente entro mudo e fico calado, só se a pessoa realmente for muito chata, antipática. E mesmo assim ainda tento. Em quase 100% (cem por cento) das vezes, puxo papo sobre a rotina, como é o trabalho.
Ela não era chata, muito pelo contrário. Foi extremamente simpática, na viagem toda – e o que mais precisamos atualmente é de simpatia, empatia, um mínimo de Interação Social – aquele algo para além da mera cortesia, das formalidades.
Ou seja, precisamos passar a barreira da civilidade fria, praticamente do “bom dia, boa tarde” – mesmo que isso esteja em desuso. Digo isso como professor de Sociologia – minha disciplina chama Educação e Sociedade.
Então, dois minutos depois de embarcado falamos do caminho até à UFSCar, eram 18 horas, de uma sexta-feira. Quase noite, um claro-escuro, lusco-fusco, meio penumbra, que nunca é adequada para se dirigir – a visão fica presa num zigue-zague entre o dia e noite, assim como todos os demais sentidos. Requer um alerta maior, portanto.
Assim fomos e da metade para o final da viagem já falávamos sobre o ritmo de trabalho dela. Foi quando me disse que também é professora e que tem dois empregos. É concursada em dois municípios. Sim, ela viaja todos os dias, ida e volta para trabalhar.
Sai de casa às 5 horas da manhã e volta às 13 horas, a fim de começar o segundo turno. O tempo de viagem dela é de aproximadamente 50 minutos – são 100 minutos deixados na estrada. E é ela a motorista, faça chuva, faça sol.
Também contou que não para de estudar, fez vários cursos de especialização – dentre eles a Educação Especial. Nesse ponto me disse que retomou esse ritmo de conhecimento aos 30 anos. Foi quando olhei pra ela – eu viajo olhando fixamente para a frente – e lhe disse, sorrindo: então você começou a trabalhar ontem. Ela riu e revelou que tem mais de 40 anos. Sem dúvida, é uma moça de muitas surpresas, porque a jovialidade é parceira da sua simpatia.
Por fim, contei essa história na sala de aula, assim que começamos. Queria compartilhar com eles essa minha aventura. A viagem durou apenas 10 minutos, mas são aquelas situações que você não esquece.
No fim, o que consegui conversar mais longamente foi sobre uma pergunta que um aluno me fez na quarta-feira, às oito horas e trinta minutos: “A moça do Uber – professora concursada duas vezes – tem seu trabalho explorado, mas é no formato de forma de mais-valia, ou segue somente o ritmo factual do ‘Servilismo Voluntário?”.
Todo mundo que está lendo esse texto pelo celular ou notebook, tendo passado pelo algoritmo de vigilância ou de encaminhamento, atua como servo voluntário – eu e você, portanto.
Qual é a educação digital que nos imuniza disso? Como sair desse Capitalismo digital, como enfrentar essa exploração aguda com conhecimento e crítica embasada? Não é tarefa fácil.
Mas, esse é outro tema, que levarei para a sala, na quarta-feira que vem. Depois conto o andamento dessa experiência de fazer educação dentro do Uber, e sempre a caminho da escola.




