domingo, abril 5, 2026
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ESTADO – SOCIEDADE – CAPITAL[1]

 Ester Dias da Silva Batista – Licenciada em Biologia/UFSCar

Esse texto imita um mapa conceitual, porém, com um aporte maior em redação e subdivisão em grandes tópicos, bem como em alguns períodos históricos distintos. Por isso reflete uma breve comparação – mais livre, intuitiva, do que se fosse numa disciplina de história – entre duas décadas díspares: entre a década de 1990 e o período ilustrado pelo ano de 2026.

  • Pela Tríade Estado – Sociedade – Capital, que organiza as relações sociais ao longo do tempo – por exemplo, a partir dos anos 1990 até os dias atuais (2026) –, é possível construir um panorama relevante e complexo com relação às questões educacionais, sociais e econômicas do país.
  • Economia:
  • Governo Collor (1990 – 1992):
    • Primeira gestão eleita direta no Brasil após a Ditadura Militar.
    • Momento de abertura econômica significativa, com a redução de barreiras à importação e maior entrada de produtos e tecnologias estrangeiras no país: a reserva de mercado destinada aos componentes informáticos também foi desativada.
    • Essa medida buscava modernizar a indústria brasileira, aumentando sua competitividade, embora também tenha exposto empresas nacionais a uma concorrência mais intensa e desleal.
  • Itamar Franco (1992 – 1995):
    • Assumiu com a missão de estabilizar a economia, sendo responsável pelo início do Plano Real.
    • Depois desse período veio o governo FHC.
  • FHC (1995 – 2003):
    • Fernando Henrique Cardoso foi Ministro da Fazenda no governo Itamar Franco, responsável pela implementação do Plano Real e, devido ao seu sucesso, elegeu-se presidente em 1995 (primeira eleição).
    • FHC é também um dos principais autores da Teoria da Dependência, que explica como países periféricos têm seu desenvolvimento econômico, tecnológico e social condicionado à relação com países centrais.
    • Associado a isso, tem-se o conceito de Capitalismo Tardio, que dialoga com essa dependência estrutural no processo de desenvolvimento.
    • Durante o governo FHC (também na reeleição), houve continuidade da abertura econômica iniciada anteriormente, com maior inserção do Brasil no mercado internacional e com a entrada de tecnologias estrangeiras, contribuindo-se para a modernização da indústria nacional, mas também reforçando-se a dependência tecnológica e impondo um processo degenerativo, com elevada privatização de recursos públicos.
    • Nesse contexto, países como os Estados Unidos tiveram papel central como fornecedores de tecnologia (diferente do cenário atual, em que há maior presença da China).
    • No governo FHC, criado na USP, não houve crescimento das Universidades Públicas e nem dos Institutos Federais.
  • Atualmente (2026):
    • Atualmente essa dependência ainda se manifesta, especialmente na importação de componentes tecnológicos de países como a China.
    • Essa dinâmica evidencia como decisões e relações internacionais podem impactar diretamente a economia nacional, reforçando-se a interdependência entre países no sistema global.
  • Capital:
    • Como desdobramento mais recente dessas transformações no capitalismo, observa-se o fenômeno da uberização do trabalho, caracterizado por relações precarizadas, com menor (ou nenhuma) proteção trabalhista e ausência de vínculos formais.
    • Associado a esse contexto, chegamos à exclusão de que determinados grupos do mercado de trabalho, por vezes considerados “inimpregáveis” (definição dada por FHC), como pessoas mais velhas ou em condições de maior vulnerabilidade, acabam sendo inseridas em formas mais precarizadas de trabalho, como na chamada uberização.
    • Na relação D–D’ (dinheiro–dinheiro), o valor intrínseco é substituído pelo valor simbólico, ou seja, não há mais uma troca direta, como feito no escambo, mas sim o uso de moedas.
    • Por sua vez, as relações humanas tornam-se mediadas pela mercadoria, tudo passa a ter valor de produto, inclusive as pessoas; os produtos que consumimos atualmente, como o YouTube, apesar de gratuito, geram lucro e colocam os sujeitos no local de servilismo voluntário.
    • O servilismo voluntário é uma forma de extração dessa mais-valia, pois as propagandas são inseridas como forma de lucratividade, mesmo que a gente não pague diretamente por isso.
    • Associado a isso, há também o chamado Trabalho morto, o pãozinho, por exemplo, no qual o desgaste pessoal, individual e material para chegar nessa mercadoria, se encerra no produto, não há continuidade; todo o trabalho feito para produzir o pãozinho se finaliza ali, “morre” ali, realiza-se ali.
    • O Trabalho vivo permite continuidade; a pessoa é parte do processo, pois pressupõe o mínimo de interesse do sujeito, alguma autonomia e liberdade; há algo vivo no ciclo que se mantém.
    • Um exemplo desse Trabalho vivo pode ser visto em uma empresa. Num exemplo simples, notou-se que no banheiro feminino havia um grande uso de papel higiênico e, ao colocarem uma caixinha de sugestões para compreender o motivo, foi relatado anonimamente que esse papel era utilizado no lugar de absorventes, devido à falta de condições para adquiri-los. Quando a empresa passou a fornecer absorventes, o uso do papel voltou ao normal, evidenciando como uma mudança pode destravar benefícios permanentes.
    • Servilismo voluntário é então uma forma de extração de mais-valia, uma forma de extrair e produzir, quando o serviço não é pago, e assim acabamos sendo a mercadoria, o produto.
    • Logo, a lucratividade pressupõe exploração:
    • É possível pensar ainda no chamado poder do capital, caracterizado pelas oportunidades e possibilidades que podem ser obtidas e alcançadas quando olhamos os recursos que os sujeitos têm; por exemplo, a diferença entre a formação social, emocional, histórica e cultural entre uma criança que consegue viajar para diversos países todas as férias, enquanto uma criança periférica não tem esse acesso e, consequentemente, tem seu arcabouço cultural limitado pela ausência de recursos.
    • Percebe-se uma saída de pontos diferentes de vivência.
  • Sociedade:
    • Na educação contemporânea (2026), observa-se a persistência de desigualdades entre classes sociais, em que diferentes grupos têm acesso desigual a recursos educacionais e à formação crítica.
    • Enquanto parcelas da elite tendem a ter acesso a uma educação mais ampla e voltada ao desenvolvimento do pensamento crítico, em muitas redes públicas ocorrem mudanças curriculares que, em determinados contextos, reduzem o espaço de disciplinas como História, Filosofia e Sociologia, ao mesmo tempo em que introduzem componentes como “Projeto de Vida”, cuja implementação nem sempre se concretiza como ferramenta efetiva de formação crítica.
    • Esse cenário contribui para a manutenção de desigualdades, em que diferentes grupos sociais têm acesso desigual à produção e à sistematização do conhecimento.
    • Relacionando-se esse contexto ao pensamento de Émile Durkheim, é possível compreender as transformações nas formas de organização social e do trabalho, especialmente a transição para uma maior divisão de funções e interdependência (solidariedade orgânica).
    • No contexto dos anos 1990, observa-se ainda a influência de uma lógica produtivista e voltada à formação para o mercado de trabalho, em diálogo com reformas educacionais e econômicas de caráter neoliberal.
    • Atualmente (2026), o mundo do trabalho apresenta maior instabilidade e efemeridade, e a educação, em certa medida, acompanha essas transformações, refletindo-se em disputas sobre seu papel entre formação crítica e preparação para o mercado de trabalho.
    • Por fim, é válido salientar o chamado princípio da precaução (cautela) que orienta a tomada de decisões diante de incertezas científicas, buscando evitar riscos potenciais, enquanto o princípio da prevenção se aplica a situações em que os impactos já são conhecidos, visando impedir danos comprovados ou projetados.

[1] Esse texto reflete algumas anotações realizadas

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