quarta-feira, agosto 26, 2026
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A Naturalização da Crise

Ester Dias da Silva Batista

Licenciada em Biologia e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

A educação ambiental exige o enfrentamento de um fenômeno latente: o negacionismo. Isso não se manifesta apenas como recusa das evidências científicas acerca das mudanças climáticas, mas também se acentua por uma naturalização dos problemas ambientais. Ao tratar eventos extremos como uma consequência inevitável do “progresso”, constrói-se uma narrativa que esvazia a responsabilidade política e social dos modos de consumo e de produção vigentes.

O negacionismo, dessa forma, atua não somente pela recusa da ciência e de suas produções, mas igualmente pela despolitização do debate ambiental, colocando-o no campo das disputas ideológicas e contribuindo para a tentativa de neutralização do papel crítico da escola.

Esse fenômeno articula-se a uma crise epistemológica ainda maior, em que as evidências científicas passam a ser relativizadas e colocadas no mesmo plano que as opiniões individuais. Com o desenvolvimento dos meios digitais, a circulação da desinformação tem fragilizado a autoridade do conhecimento científico, consequentemente diversas dúvidas e questionamentos sobre consensos já estabelecidos no meio científico acabam emergindo. Nesse cenário, a educação ambiental assume ainda a tarefa de fortalecer a compreensão acerca de como o conhecimento científico é produzido e validado.

Toda educação é, em alguma medida, um ato político; não há neutralidade na prática educativa, mas escolhas e oportunidades para se evidenciar uma realidade problemática ou se buscar a transformação de tal cenário (FREIRE, 2019)[1]. A partir dessa perspectiva, a educação ambiental não busca doutrinar os indivíduos, mas promover a interpretação crítica do mundo, possibilitando a compreensão das relações sociais, ambientais, políticas e econômicas.

Enfrentar o negacionismo, portanto, demanda avançar para além da transmissão de conteúdos, pois é clara a exigência de se problematizar a estrutura dominante de desenvolvimento, bem como reafirmar o papel formativo da escola na construção de sujeitos capazes de intervir criticamente na realidade ambiental.

[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 67. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.

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