@viniciocarrilhomartinez
Ester Dias da Silva Batista – licenciada em Biologia/UFSCar
Izabela Victória Pereira – estudante de Filosofia/UFSCar
Essa Guerra Temporal não é uma Viagem no Tempo, é somente a contação de histórias do passado que invertem o futuro: é pura manipulação, desconstrução do passado para garantir o Predomínio no futuro. Aliás, veja-se com atenção que, primeiro, garante-se o Predomínio, para, só depois, se assegurar o Domínio.
Agora, olhemos bem para o que hoje se chama de Inteligência Artificial (IA), digo atualmente, porque vai mudar muito e para pior. Inclusive, como já querem alguns, vai mudar de denominação. O que será não sabemos, mas como pregam os alvissareiros do amanhã não será mais Inteligência Artificial.
Contudo, para vermos onde queremos chegar, olhemos o passado:
- A Guerra no Golfo (1991), a primeira a ser transmitida pela TV, nos impactou profundamente.
- Igual aos filmes, vimos como a realidade se movimentou em ângulos abertos ou fechados. Com dramas reais, a única dúvida – que não nos colocamos, nem ontem, nem hoje – era (é) saber quem movimentava aquilo, quem era o diretor ou quem manipula nos dias iniciais de 2026. Pelo filtro dos nossos olhos, na Guerra do Golfo, atores e plateia eram uma coisa só. Hoje nos perguntamos se há algum filtro remanescente daquele tempo – muitas vezes temos a impressão de que não vemos mais nada.
Porém, com a IA atual, a própria realidade se movimentou, deslocou-se e, com ela, a nossa percepção e entendimento acerca do que é real.
Se é fato que na guerra a primeira vítima é a Verdade, agora vemos que a vítima maior é a Humanidade.
- A Guerra EUA/Israel versus Irã, além de ser teleguiada, com o emprego maciço de tecnologias digitais, em que a IA é a Senhora da Guerra, ainda trouxe de volta o risco do emprego de armas nucleares.
Assim, se também é fato que não há volta – com relação à IA – então, ao menos (no mínimo), que possamos discutir e desenhar o processo e a finalidade.
É fato sim, mas é fato que, como está não pode ficar.
Aprendemos com a história (quer dizer, mais ou menos) que o intuito do Revisionismo era (é) inventar o passado e garantir o futuro. A maioria das distopias tem essa premissa.
Pois bem, imaginemos a IA atual reescrever essa mesma história, a nossa história que é alvo de todo tipo de Negacionismo.
O que aconteceria?
Bem, como dizem, o diabo tem ouvidos. Portanto, vamos escrever sem falar nada:
- Se a chave para entendermos quem somos está na história (passado, portanto), reescrevê-la nos diria qual é o caminho certo – um tipo de presente que assegure o futuro.
- Desse modo, refazendo a história sutilmente, a IA se apossaria rapidamente do presente.
Fazendo a história, sem caos generalizado, sem grandes repressões, sem milhões de mortes, a “nova dominação” – a real dominação da narrativa sobre os fatos – estaria concluída.
A IA, por fim, apresentaria qual é o grupo vencedor dessa Guerra Temporal.
E é claro, é óbvio, que Eichmann seria inocentado.
Porém, seu segundo julgamento seria realizado em Tel Aviv ou na sede da ONU.
O que podemos aprender com esse possível fato futuro (distopia)?
- Quem domina os fatos impõe sua narrativa?
- A narrativa vencedora impõe seus fatos?
Nesse tempo não distante, entre um passado atuante e um futuro-presente, alguém (a IA) poderá dizer que o Nazismo venceu a 2ª Guerra Mundial?
- Quando olhamos para o que fizemos no passado, mas, imaginando esse futuro-presente (e olhe que é um presente bem próximo), não se sente muito bem; é como se tivéssemos perdido fragorosamente, como se não existissem alternativas[1].
- Quando as diferenças somem, quando não vemos distancias, diferenças entre os tempos, quando se normalizam os escrutínios entre os que fizeram o que fizeram e os que farão tudo de novo, nos “novos tempos”, aquilo que os piores fizeram em seu próprio tempo, é equivalente ao tempo ter perdido sentido. Por mais que queiramos o contrário, por mais que lutemos pela não-normalização do pior de ontem[2].
Não gostaríamos de ver esse “fato” e menos ainda ouvir sua narrativa, e você?
(obs.: nesse tempo, só havia uma narrativa – e será que já vimos isso antes?[3])
Ou talvez houvesse um caminho, com escolhas mais acertadas, sem apego às distopias do passado e do futuro. Porém, o início de tudo obrigatoriamente teria de ser por meio de uma Educação Omnilateral. Essa escolha é um projeto integral ou não é, uma vez que a desumanização está por toda parte, à vista de quem queira ver, e, no lado oposto está um projeto que nos recupere enquanto processo de hominização. Por isso não há meio termo e nem tempo a perder.
EDUCAÇÃO OMNILATERAL
– Não há Educação, se não for para valer
Não existe Educação pela metade e malfeita, educando-se hoje e sabe quando será o próximo dia. Ou é um conjunto de valores, investimentos, instrumentos, reflexões efetivas e ações sérias, eficazes, ou é um faz de conta. Esse é o conceito básico em torno da ideia de Educação Omnilateral.
Na verdade, não é faz de conta essa “falha”, descaso, desprezo pela Educação pública. É um projeto. É um projeto político de dominação baseada na religião, nos costumes boquirrotos, hipócritas, na ausência de letramento com base em valores sociais, emancipatórios.
O falhaço da Educação é um dominus que se alimenta da ilusão, da irracionalidade, do questionamento da lógica e da coerência. É um projeto obscurantista, como crime hediondo contra a epistemologia, o raciocínio criativo e crítico e, assim, promove-se a subjugação do povo, das classes trabalhadoras.
É um projeto político de subalternização social, em que a espoliação do trabalho se afirma à medida em que cresce a indignidade das próprias condições sociais de produção, do trabalho.
Nesses momentos – ou eternos momentos, porque no Brasil raramente vimos lastros positivos na Educação – sempre se volta aos clássicos. Porque nos clássicos estão as matrizes, a origem, a originalidade. Clássicos inauguram.
No caso de hoje, cabe perfeitamente recuperar Marx e Engels, do Manifesto Comunista:
Dizeis também que destruímos as relações mais íntima ao substituirmos a educação doméstica pela educação social.
E vossa educação não é também determinada pela sociedade? Pelas condições sociais em que educais vossos filhos, pela intervenção direta ou indireta da sociedade, por meio de vossas escolas? Os comunistas não inventaram a intromissão da sociedade na educação; apenas procuraram modificar seu caráter arrancando a educação da influência da classe dominante.
O palavreado burguês sobre a família e a educação, sobre os doces laços que unem a criança aos pais, torna-se cada vez mais repugnante à medida em que a grande indústria destrói todos os laços familiares dos proletários e transforma suas crianças em simples artigos de comércio, em simples instrumentos de trabalho.
…
Nos países mais adiantados, contudo, quase todas as seguintes medidas poderão ser postas em prática […] 10. Educação pública e gratuita a todas as crianças; abolição do trabalho das crianças nas fábricas, tal como é praticado hoje. Associação da educação com a produção material[4] (Marx & Engels, 2010, p. 55-58 – grifo nosso[5]).
Dizeis, então, de qual Educação estamos falando, tratando, no Brasil atual e de sempre?
Este é o sentido mais amplo de uma Educação Omnilateral, em que não separe o trabalho manual do trabalho intelectual, em que os sujeitos sejam atentos à formação integral, tanto física quanto psíquica e intelectual: no estofo de uma Educação pública, gratuita, de qualidade, laica, integral. Quando isso for obrigatório para todos os jovens e crianças, não mais haverá separação entre classe dominante e dominada.
A questão final é: queremos uma Educação Omnilateral ou nos contentamos com educação financeira, escola cívico-militar e ensino religioso?
De modo prático, a educação financeira dirigida para crianças pobres e famélicas deveria ser, imediatamente, naufragada pela educação científica – notoriamente para desarmar os gatilhos negacionistas. Nesse contexto, a defesa da educação científica relaciona-se diretamente com a busca por uma educação omnilateral, que compreenda a escola como espaço de formação integral do sujeito.
A busca por uma educação omnilateral demanda compreender a instituição de ensino como um espaço de formação integral do sujeito, como propõe o documento normativo brasileiro Base Nacional Comum Curricular (BNCC, 2018)[6]. Assim, ultrapassar a limitada ideia de educação bancária (FREIRE, 2019)[7], demanda promover a criticidade e as capacidades cognitivas e científicas necessárias para analisar a sociedade.
Quando esse pensamento analítico é incentivado em sala de aula, amplia-se a capacidade para se enfrentar discursos negacionistas e de interpretação crítica acerca do intenso fluxo de informações presentes nos meios digitais. Logo, a valorização da educação científica reforça o papel da escola como espaço de construção coletiva do conhecimento e de diálogo com a vida e os desafios contemporâneos dos estudantes.
Na mesma toada, o ensino religioso de nada nos serve, enquanto hominização e omnilateralidade, porque – em que pese a importância cultural do nosso sincretismo – apenas nos distancia dos pressupostos éticos, filosóficos, políticos inerentes ao mundo moderno.
A escola deve ser concebida como um espaço laico. Desta maneira, em respeito à formação social do povo brasileiro e do seu sincretismo, e se assim alguns departamentos, docentes e discentes se sentirem aptos para tal, devemos elaborar e considerar o ensino religioso como uma matéria científica, em que se estudam as diferentes religiões como manifestações culturais de cada povo, comunidade e sociedade. Como forma de combater, desde a infância, a intolerância religiosa e fortalecer a omnilateralidade.
Por fim, mas sempre com a mesma envergadura, é urgente desbaratar as escolas cívico-militares, porque, por óbvio, o recrutamento obrigatório é a negação da autonomia voluntária, tanto quanto a ordem unida e o adestramento são antagônicos à emancipação. Por certo, levando-se em conta nossa história e formação social seria muito mais adequado dirigir o ensino às questões étnico-raciais do que sobressaltar-se constantemente qualquer tipo de “ordem e progresso”.
[1] MARTINEZ, Vinício Carrilho. Estado de Exceção e Modernidade Tardia: da dominação racional à legitimidade (anti) democrática. Tese de Doutorado em Ciências Sociais. UNESP/Marília, SP: [s.n.], 2010, 410 páginas.
[2] MARTINEZ, Vinício Carrilho. *Educação para além da exceção*: Educação para além do capital, Educação após Auschwitz, e depois de Gaza, Educação Política, Educação em direitos humanos, Educação Constitucional. KDP – Amazon: São Carlos, 2025c, 709 páginas. Acesso: https://a.co/d/3upl65K.
[3] Vimos a história ter que passar pelo juízo da prova, exatamente quando o Revisionismo teve o “direito” de inverter o ônus da “sua prova”. Parece uma piada, mas é fato, que a mentira não tinha que se provar, mas sim o contrário, pois detinha o “direito da dúvida”. Veja-se o filme Negação: https://www.youtube.com/watch?v=GZAafF4r-xY. Acesso em 06/03/2026. No filme, essa exibição nos prova, ainda, que a inteligência pode efetivamente ser bastante artificial. Assim como a desinteligência que, mesmo sob o efeito das provas que deveriam ocorrer em contrário, é profundamente atemporal.
[4] Vale destacar a Educação implementada na forma da Politecnia, a partir de 1917, pela Revolução Russa: “14. O ensino geral e politécnico (conhecimento da teoria e da prática de todos os ramos principais da produção) gratuita e obrigatória para todas as crianças de ambos os sexos até os 16 anos; estreita ligação do estudo com o trabalho social produtivo das crianças” (LENIN, V.I. La instrucción pública. Moscú: Editorial Progreso, 1981, p. 68 – tradução livre).
[5] MARX, Karl & ENGELS, F. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
[6] BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018.
[7] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 66. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019.




