A obsolescência política (desumanização)
Ester Dias da Silva Batista, acadêmica do curso de Biologia da UFSCar
Como a expansão das tecnologias e inteligências artificiais, apresentadas como avanços revolucionários, coexistem com a intensificação das violências sociais, especialmente de gênero, revelando a abdicação da autonomia humana e a transformação da ação coletiva em tendências virais?
Apesar da propagada “revolução” das tecnologias digitais, o que vemos efetivamente é a permanência das estruturas sociais, uma reprodução dos desejos e anseios vigentes, utilizando-se da tecnologia como meio de propagação dessas concepções. Nos últimos dias, os inúmeros casos de violência contra as mulheres têm demonstrado isso: nas redes, a violência é normalizada, e mesmo em publicações que buscam denunciá-la, a culpabilização da vítima permanece frequente, evidenciando-se que o avanço técnico não é acompanhado por desenvolvimento ético ou político. Como propõe Rita Segato[1], a violência de gênero é uma mensagem social, um sintoma da fragilidade das instâncias de proteção e da permanência do patriarcado. Ao mesmo tempo, a aparente neutralidade das máquinas mascara o fato de que elas apenas reproduzem decisões e omissões humanas. Por tal razão, a tecnologia não supera a falha humana, ela apenas a automatiza.
Paralelamente a isso, práticas sociais que antes mobilizavam sujeitos politicamente engajados, como as lutas estudantis históricas do Brasil, que, de fato, sabiam por quais motivos estavam lutando e não seguiam modismos apenas para ganhar curtidas, são agora substituídas por dinâmicas virais, pautadas muito mais pela busca de pertencimento ao ambiente das redes sociais, do que por movimentos efetivamente coletivos de transformação. Como observa Byung-Chul Han[2], a cultura digital estimula uma participação acelerada e pouco reflexiva, produzindo “modinhas revolucionárias” que esvaziam o sentido histórico de revolução. Nesse cenário, a delegação da responsabilidade política às máquinas não anuncia uma revolução, mas sim a obsolescência política, uma vez que as instituições se tornam incapazes de enfrentar violências estruturais e sujeitos cada vez menos conscientes de seu próprio papel histórico.
[1] SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.
[2] HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.




