quinta-feira, abril 2, 2026
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Entre estar e pertencer

Ester Dias da Silva Batista

 Dizem que a arte imita a vida e, às vezes, é justamente em filmes e séries que encontramos verdades que nos atravessam de forma inesperada. Em Uma Advogada Extraordinária (2022), uma fala da protagonista surge durante o julgamento de um caso envolvendo um jovem autista acusado de matar o irmão. No elevador, a advogada lembra que, há poucas décadas, pessoas autistas eram consideradas “indignas de viver”. Ouvir isso, sendo também uma pessoa com TEA, foi como encarar uma história que ainda ecoa: a ideia de que algumas vidas precisam provar constantemente sua “viabilidade” para serem reconhecidas como dignas.

“… mesmo há apenas 80 anos, o autismo era uma doença que não valia a pena ser vivida, mesmo há apenas 80 anos. Inclusive agora centenas de pessoas vão ler o comentário ‘não é uma perda nacional um aluno de medicina morrer e uma criança autista viver?’ e vão clicar no botão like. Esse é o peso que carregamos do nosso obstáculo”[1]

 Essa frase reverbera porque não pertence apenas à ficção — ela atravessa a experiência de muitas pessoas com TEA e outras deficiências. Apesar de conquistas importantes, a invisibilização persiste, como se fosse preciso um desempenho extraordinário para sermos considerados legítimos nos espaços que ocupamos. Na universidade, o paradoxo se aprofunda: políticas de inclusão marcam a entrada, mas se desfazem no cotidiano. Pessoas com deficiência ingressam todos os anos, mas sem acompanhamento e acolhimento, a permanência se torna frágil e, muitas vezes, solitária. Surge então um silêncio institucional que não acolhe nem sustenta trajetórias.

Essa falta de estrutura isola, porque estar dentro da universidade não significa ser visto. E é por isso que a frase da Sr. Woo continua ecoando: ela lembra que a vivência de pessoas com deficiência vai muito além do acesso físico, é sobre não precisar provar, a cada passo, a própria dignidade. Escutar essas pessoas, incluí-las na construção das políticas e romper com esse silêncio é o que transforma inclusão formal em pertencimento real.

[1] EXTRAORDINARY ATTORNEY WOO (Uma Advogada Extraordinária). Episódio 3. Direção: Yoo In-shik. Roteiro: Moon Ji-won. Coreia do Sul: AStory/Netflix, 2022. Drama televisivo.

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