terça-feira, outubro 13, 2026
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Uma tradução da Teoria das Tangas – Algumas das nossas piores chagas

@viniciocarrilhomartinez

 

O Brasil tem muitas chagas e uma delas é o atuante, reincidente diário, Pensamento escravista; aqui o racismo se nutre na sociedade, ganha impulso no capital e se aninha no Estado. Florestan Fernandes, o criador da sociologia brasileira, nos contou isso.

O Capitão do Mato é a história viva, assim como os feitores pós-modernos e os seus senhores pré-modernos. Qualquer pessoa vê isso, abrindo sua janela, tendo ensolarado um pouco sua própria visão de mundo: tirando as viseiras e fugindo das falácias do “mata-burro”, mesmo que por alguns segundos.

No Brasil, o passado é presente. Os jecas, o povo humilhado por Monteiro Lobato, têm mais direitos hoje, mas nunca teve garantido o direito de pensar. Aliás, com a educação pública que serve à rotina da opressão, nem pensar nessa história de que o povo possa pensar por si.

Aptos à formação capitalista muito pouco pura, mais parecida com um Ornitorrinco (na análise de Francisco de Oliveira) e que passa a “navalha na carne” dos rebeldes (no teatro de Plínio Marcos), capitalismo e escravismo sempre foram tipicidades alvissareiras.

No meio, no entrechoques, o coronelismo se afirmou como ponta de lança, ferina e mortal. Jorge Amado não fez apenas Meninos de Areia – ainda que seja lapidar sua contação de histórias sobre o abandono classista, racista, institucional, medíocre, na condução pública da vida popular.

Esse é o Ornitorrinco brasileiro.

Nosso Ornitorrinco é uma Hydra que Abaporu revelou em partes. Tem a cabecinha amassada pela opressão e os pés enterrados no chão escaldante da fábrica de moer ossos, porém, tem outra cabeça pontiaguda: provinda e provedora das saliências nada pudicas das hostes hostis do poder. Dos dois modos, o público é privatizado e colonizado. O efeito é o Patrimonialismo, no entanto, essa é somente a crista da onda: o redemoinho da submissão está submerso.

O corporativismo é outra das chagas históricas do estamento estatal brasileiro, também responsável pela síndrome do pequeno poder: servidores do baixo clero se julgam donos daquela minúscula parcela do negócio público que lhes cai às mãos e ali colocam seus pequeninos polegares. Suas digitais criam rotinas sem sentido, para se sentirem empoderados.

O Corporativismo torna o Estado empoeirado, atrasado, atendente apenas dos interesses escusos dos donos do poder. Dono das paróquias do pequeno poder, o Judiciário é inabalável na condução paroquial, provinciana, cartorial, da desmotivação republicana nacional.

Temos Raimundo Faoro (jurista clássico) para entender isso.

No caso do Judiciário, pensamos que é pior; pois, as posições são mantidas como nas castas, com tudo que o sistema de castas permite. Especialmente o foro privilegiado, apaniguado pelos amigos num eterno “toma lá, dá cá”.

Portanto, no miolo de uma das piores crises morais do Supremo Tribunal Federal, hoje, nós só fulanizamos o que é uma das piores e mais densas distorções institucionais geradas por séculos de escravismo institucional, ao longo da formação social brasileira.

O foro privilegiado, assim como os penduricalhos judicados, não funciona como foro das garantias constitucionais, protetivas em favor do juízo republicano, mas, sim, instituem o seu oposto, mantendo-se a rotina da distorção funcional, os abusos de poder, o enriquecimento ilícito.

Essa é uma explicação conceitual da Teoria das Tangas[1], muito evidenciada desde a permissiva reeleição de FHC e a negação da fruição dos direitos sociais fundamentais: o primeiro golpe à Constituição (veja-se o iluminado Paulo Bonavides).

Depois, seguimos pela Lava Jato e o Golpe de 2016: o ápice da quietude incondicional do mesmo STF (cúpula da casta) e que agora se arrasta na lama do julgamento popular.

Afinal, amigos que julgam amigos mantém os rabos presos.

A identidade desses podres poderes sempre vem depois da célebre frase: “Sabe com quem está falando?”. É claro que, quem nunca fala é o povo ou, quando fala, é absolutamente ignorado.

Pois bem, assim vigora a sina do “Sabe com quem está falando?”. O reverso dessa frase é o “salve-se quem puder”. Porque, é óbvio, a regra de ouro do Estado de Direito que nunca existiu ensina que, “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”.

Machado de Assis sempre nos disse que este é o lema da nossa inabalável “Sereníssima república” (paródia antirrepublicana) e prestadora de serviços indizíveis publicamente. Mas que são comezinhos no antepasto da antessala de qualquer julgador sem honra, escrúpulos e princípios.

Os marajás e os “caçadores de maracujás” sempre existiram, com ou sem impeachment, e sempre existirão, enquanto vigorar o “Espírito Público” de que: “Se a regra é dura, passo por baixo; se a regra é frouxa, passo por cima”.

Não é difícil ver, de modo mimético ao boi e à gadaiada quando furam as pastagens, que o Brasil vai na contramão e ladeira abaixo.

Por fim, na saideira de quem é o último a apagar as luzes, fiquemos com a maestria da canção de Zé Ramalho:

“Oh, boi!

Vocês que fazem parte dessa massa

Que passa nos projetos do futuro

É duro tanto ter que caminhar

E dar muito mais do que receber

           …

           Eh, oh, oh, vida de gado

Povo marcado, eh!

Povo feliz!”

(Admirável Gado Novo)

 

E também a nossa, que é do Povo – prescrito para ser proscrito: https://www.youtube.com/watch?v=wHB53O_MPI8.

 

[1] https://ademocracia.com.br/2026/09/04/estamos-de-tangas/.

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