terça-feira, outubro 13, 2026
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Estamos de tangas

 

@viniciocarrilhomartinez

Joaquín é um espanhol que nasceu em outro país.

Joaquín tem algumas parcerias, um é a Pepa – que a história abraçou faz um tempo – e a moça que chama Joaquín de véi: a moça também foi alcançada pela história. Assim eles vão.

Nesta semana os três trocaram opiniões sobre causos daqui. Uns babados, alguns cabeludos, outros não, como se diz. Joaquín mesmo não tem cabelo algum.

Os causos envolvem “otoridades” que se lascaram um tanto. Eram autoridades, por algum motivo meio aleatório do poder e da sorte. Hoje são apenas otoridades, como falam os pobres caipiras e sertanejos.

O trio da amizade, Joaquín, Pepa e a moça, ficou chocado, um pouco mais, um pouco menos, com a sujeira que as otoridades estão fazendo. As estripulias são daquelas que lembram brigas de crianças – quando todas as crianças de tangas apanham, para nenhuma rir da outra.

Joaquín, depois de mastigar a informação malcheirosa, lembrou de outro babado – desses de gente que baba mesmo –, de uns tempos atrás, acontecido nesse país que não é a Espanha. Lá acontece também, mas não foi dessa vez.

Naquele babado antigo, das gentes que babam e não usam babador – iguais a hoje –, um sujeito indignado com tanta baba, pegou um microfone em praça pública e gritou bem alto: “Estamos de tangas!!!”.

“ESTAMOS DE TANGAS!!!”.

As tangas, como todos sabem, simbolizam o causo do indivíduo ser pego de calças curtas, meio arriadas, numa visão de mundo popular. De calças arriadas, normalmente até os joelhos, o sujeito pode fazer muitas coisas, mas não pode correr, nem se defender. E fica preso em sua própria imagem. Convenhamos que não é uma imagem muito agradável.

Joaquín disse – e perguntou – para Pepa e para a moça, que chama ele de véi, se as nossas otoridades não foram, também elas, pegas de calças curtas, arriadas até à canela.

Nesse caso, que a visão de mundo popular não recomenda que se veja, estariam todas essas otoridades de tangas curtas e enlameadas. Parece até que ligaram o ventilador de coisa ruim.

Joaquín pensa que “estamos de tangas”, talvez nem tenhamos trocado de tangas. Talvez ainda sejam as tangas surradas, engomadas pelas coisas feias do passado, lastimosas porque assim não há futuro.

“ESTAMOS DE TANGAS!”.

Não que tenha pesadelos, mas Joaquín acorda com essa frase na cabeça. Diz para a Pepa e para a moça, que atormenta ele chamando de véi, que precisamos de uma Teoria das Tangas.

A explicação sociológica do país passaria pela boa fundamentação dessa Teoria das Tangas, pois seria a história nacional das calças curtas e enlameadas. Isso acontece quando não mais se pode esconder a sujeira dentro dos bolsos. Ou porque a tanga é curta demais.

Nessa cena que desagrada qualquer visão de mundo, o indivíduo fica se parecendo com o Rei nu. (A música diz que está com a mão no bolso – vai saber…).

Em todo caso, Joaquín também acredita que não há tangas para todo mundo e, em algum momento, poderemos ter uma briga de cachorro louco para ver quem domina o mercado das pulgas e das tangas. Há quem prefira tangas com miçangas.

Joaquín, o espanhol que nasceu em país errado, teria uma receita imediatista, paliativa, mas que pode funcionar. Como se fez com o imposto das blusinhas, é preciso fazer com as tangas. É preciso zerar a tributação das tangas, importar algumas da Argentina – lá tem bastante – e abastecer o nosso mercado. Seria tipo zerar, acabar com o “imposto das tangas”.

Não se sabe se essa teoria será algum dia melhor esmiuçada, talvez seja, talvez se desista da empreitada porque haveria muita roupa suja para lavar. Essas roupas dos países baixos são da alcunha de cada ser. Não é razoável que o povo ainda tenha que lavar a sujeira dos outros.

É, pensando bem, talvez não se fale mais da Teoria das Tangas – não há benefícios populares –, mas, uma coisa é certa: o país passou a acordar de tangas e enfezado.

 

 

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