@viniciocarrilhomartinez
Se para a microgeração “Zillennials” [1], entre o adulto e o jovem demais, tem uma conta que não fecha, imagine para quem tem mais tempo de vida analógica do que digital…
É o meu caso.
Não se trata exatamente da diferença ou discrepância tecnológica, eu nunca tive todos os equipamentos do passado, por exemplo, mas sim o estranhamento com a cultura gerada.
De vez em quando, talvez por masoquismo da curiosidade que parece querer comprovar seu argumento, vejo algum comentário nos chats.
Mesmo que sejam desdobrados de material jornalístico, com certa seriedade na apuração de fatos, ou científicos, sempre estará presente o show de horrores.
Essa “necessidade de exposição”, uma tentativa de sair do anonimato, do limbo social, talvez explique esse tipo de manifestação digital cheia de total ignorância, insignificância, educação básica, e, certamente, desinteresse moral em passar vergonha.
Umberto Eco, grande pensador italiano do século XX, nos dizia que antigamente a estupidez ficava na mesa de bar e, com as redes antissociais, a mesma boçalidade migrou para o Instagram e quetais.
Isso reforça a ideia de que o espaço público não existe mais, como invasão do privado, mas a exposição ao ridículo, à mentira deslavada, a adesão ao falso e à falsificação (falsidade, enfim), é algo que provoca muito estranhamento.
E digo isso vendo indivíduos da direita para a esquerda, de todas as idades, profissões, sexos, etnias e cores.
Na verdade, não suporto muito sequer escrever sobre isso.
Provavelmente seja o meu tempo de vida analógica se manifestando, porém, não sei se é somente uma questão geracional.
Como disse, não me refiro hoje às tecnologias, mas sim às pessoas – no que se tornaram, sem a presença e atuação de qualquer “freio de contenção”.
O digital e sua sociabilidade ácida, corrosiva, é esse mato alto.
Usei a expressão mato alto no sentido de se perder, sem uma ideia do que está ali, do perigo que realmente pode ameaçar.
Na infância brinquei em área rural, sítio.
Aliás, esse é um dos temas de muita saudade – se fosse escrever sobre saudade.
A fadiga digital eu também sinto.
Por outro lado, há uma Ironia da história.
Por tudo que de mais lastimável que tenha sido a pandemia, incluindo o período pós, até 2023, foi uma fase de extrema produção.
Conheci pessoas, digitalmente, que são amigas e parceiros até hoje.
Tive dias trabalhando em três períodos, em três situações remotas.
Era tudo muito estimulante, empolgante.
Agora, voltando àquele lado obscuro, na volta ao presencial, encontrei pessoas com quem convivi desde 2017 e que hoje prefiro tomar café em lugares diferentes.
Não sei muito bem se avançaram nas análises do tal “novo normal” – falei disso naquela época –, mas, sinto que perdemos algo de nós nesse retorno.
Um exemplo dessa “anormalidade” vem da Copa: um advogado de mais de 40 anos, de esquerda, sendo racista contra a Argentina, e sem pudor nenhum para expor a própria “ignorância futebolística” – no Whatsapp. Não sabe nada de futebol, nem o que é jogar entre linhas (Messi, com 40 anos, no caso), mas o advogado virou analista, especialista em xenofobia e etarista.
Esse típico comportamento também me leva a desfazer o convite para um café e qualquer tentativa de outra conversa. Como se diz, não tenho tempo, paciência e nem idade para esse tipo desviante.
Além disso, é também um ótimo case de “analfabetização”. Dia desses voltarei a esse “analfabetismo especial”, quando o indivíduo é alfabetizado, estuda, aprende e, em seguida, promove, ele próprio, uma perda significativa de sua alfabetização, dos ganhos cognitivos, morais e sociais.
É óbvio que se vê aí um retrocesso, mas não deixa de ser uma situação auto infligida. É certo, numa tipificação bem simples, que o advogado citado recebeu dos pais a educação básica, “do berçário”, para respeitar os mais velhos – ainda mais porque não é um jovenzinho. Voltarei a isso.
Enfim, estamos falando de esquerda em 2026. Exemplos da direita e de sua extremadura, então, são de arrepiar os mais finos filamentos de inteligência.
Por essas e por outras, é fácil dizer que nos falta o Direito ao Estranhamento, de achar muito sem noção a falta de Bom Senso. Além da revolta cognitiva diante de um suposto “direito de falar abobrinha”.
Será que estou viajando?
Em todo caso, se for uma viagem, garanto que é desbravando lugar inóspito, tipo uma festa estranha, com gente muito esquisita.
Então, se for viagem, é muito bom voltar bem rápido à racionalidade meridiana.
[1] https://www.correiobraziliense.com.br/cidades-df/2026/07/7464311-o-limbo-dos-zillennials.html. Acesso em 21/07/2026.




