domingo, julho 26, 2026
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APRESENTAÇÃO Ideias para uma Educação do século XXI

 

Ler Ideias para uma Educação do século XXI é como acompanhar um pensamento em movimento. Essa é uma característica da escrita do autor Vinício Carrilho Martinez, que descrevi como rizomática no prefácio de Educação e Sociedade (Martinez, 2025). Recorro novamente à formulação de Deleuze e Guatarri (1995) para falar sobre a presente publicação. O livro articula múltiplas ideias que se interconectam; não é um texto linear, mas traz diferentes ângulos de campos distintos do conhecimento que se atravessam continuamente.

A interdisciplinaridade da publicação não é um recurso metodológico apenas, mas constitui a própria condição da proposta. O caminho entre Sociologia, Filosofia, Educação, Direito, Ciência Política e História demonstra uma ruptura do autor com as fronteiras disciplinares. Se a realidade não se organiza de modo estanque, por que a análise sobre ela deveria ser confinada aos limites de uma única disciplina? Contudo, não é uma reflexão dispersa, pelo contrário. Há um eixo que organiza esse percurso: a permanente inquietação frente aos problemas do presente e a convicção de que pensar vem justamente do estabelecimento de relações entre aquilo que, à primeira vista, parecia desconectado.

Martinez conduz o leitor por uma experiência singular de elaboração do pensamento. Conceitos como ciência, pensamento, consciência, política, subjetividade, objetividade, tecnologia e educação reaparecem ao longo da obra não como repetição, mas como um deslocamento do ponto de vista anterior, incorporando novas referências. É esse o movimento que acompanhamos: não um percurso linear, mas um que parece retornar ao mesmo lugar apenas para revelar que esse “lugar” já não é o mesmo.

A noção de consciência, por exemplo, aparece em distintos momentos do livro, retornando sempre com uma ampliação de seu significado; inicialmente, é apresentada como uma exigência ética da atividade científica, para depois reaparecer como consciência histórica, epistemológica, política e crítica, sem, de modo algum, romper com o percurso anterior. Assim como os demais conceitos, não se trata de uma repetição, mas de uma redescoberta. A primeira definição de ciência, de consciência ou de educação já não pode ser lida da mesma maneira, pois o caminho percorrido lhes atribuiu novas camadas de significado.

É essa arquitetura da escrita de Vinício que permite pensar a educação sem isolá-la da política, da ciência, da história, da tecnologia e das formas contemporâneas de produção da vida social. A reflexão proposta é mais sobre as condições atuais da produção do conhecimento do que apenas sobre os rumos da educação. A ciência aparece como uma prática histórica permanentemente atravessada por disputas políticas, compromissos éticos e pelas condições institucionais de sua própria existência, nas quais sociedade, universidade e Estado ocupam papel central.

Embora tenha em Edgar Morin seu principal interlocutor, a obra ultrapassa os limites de uma leitura comentada de Ciência com consciência (Morin, 1996). O diálogo com Morin constitui o ponto de partida de um percurso intelectual autoral sobre a produção de conhecimento na contemporaneidade, mobilizando as categorias do filósofo francês para refletir sobre temas que marcam o século XXI.

A mercantilização da universidade, a financeirização da pesquisa, o predomínio da tecnociência, o avanço da inteligência artificial, o negacionismo científico, os debates sobre soberania e Estado não aparecem isoladamente, mas sim como expressões de uma mesma inquietação: qual lugar pode ocupar uma ciência comprometida com a emancipação humana em uma sociedade orientada cada vez mais pela lógica do mercado e da eficiência técnica?

O argumento que se lê nas próximas páginas é que o acúmulo de conhecimento não necessariamente representa a compreensão crítica da realidade. O conhecimento científico pode permanecer restrito à acumulação de informações, à especialização técnica ou à produção instrumental do saber. No pensamento científico, por seu turno, há outro movimento: a transformação do conhecimento em consciência crítica, da técnica em responsabilidade e da informação em capacidade de compreender historicamente a realidade. A distinção entre conhecimento científico e pensamento científico, apesar de ser um tema já tratado por autores das mais diversas áreas e orientações epistêmicas, é uma das contribuições mais instigantes do livro, pois Martinez a converte em eixo organizador de sua construção analítica.

O caráter rizomático desta obra se manifesta justamente pois cada conceito conduz a outro, cada problema abre novas possibilidades de interpretação e cada retorno amplia aquilo que parecia já compreendido. As ideias de Martinez se multiplicam em inúmeras conexões e, ao final do livro, o leitor terá participado de um exercício de construção do pensamento. Aquele que entra em Ideias para uma Educação do século XXI não é o mesmo que sai. Assim como os conceitos que atravessam a obra, também sua compreensão se desloca. É nesse retorno que se produzem novos sentidos que ampliam o horizonte da reflexão, e é aí que reside uma das maiores potências deste livro.

Tainá Reis

Doutora em Sociologia, Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Professora na Universidade do Estado da Bahia (UNEB)

 

 

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