Universidade Federal de São Carlos
Departamento de Biologia
O antropossocial remete ao biológico,
que remete ao físico,
que remete ao antropossocial
Edgar Morin[1]
Proposta de Curricularização da Extensão
com Base em uma Epistemologia Política da Ciência
Proponentes
Vinício Carrilho Martinez – Professor titular do Departamento de Educação/UFSCar
Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar
Objetivo geral
Propomos, sinteticamente, que as ofertas de cursos de extensão a cargo do Departamento de Biologia – se e quando for possível e adequado – procurem uma convergência entre os temas específicos a serem abordados e isso que denominamos de Epistemologia Política da Ciência, especialmente no âmbito da Licenciatura.
Apresentação
Antes de nossa fundamentação, é interessante destacar que a presente proposta já pode ser considerada como um resultado fático, obtido a partir da disciplina obrigatória Ciência, Tecnologia e Sociedade, ofertada no semestre 2026/1, pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade/UFSCar.
Fundamentação
A presente contribuição, à proposta de curricularização das atividades de extensão, construída pelo Departamento de Biologia, fundamenta-se numa Epistemologia Política da Ciência, compreendendo-se o conhecimento científico como uma produção humana, logo, o conhecimento científico é atravessado por relações sociais e historicamente situadas.
- Nesse sentido, não se trata de uma produção neutra, mas, antes, constituída por sujeitos inseridos em determinados contextos sociais, o que demanda práticas baseadas na problematização, e não na mera transmissão de conteúdos (FREIRE, 2023)[2], uma vez que a simples reprodução não é suficiente para a formação dos sujeitos para a vivência social e a continuidade da trajetória acadêmica. Com isto, pode-se dizer que, numa convergência entre Ciência e Educação emancipadora, a comunicação suplanta a extensão[3] – em alcance e fundamentação ontológica, ao se relacionar o “sujeito do conhecimento”, da pesquisa, à pessoa humana: “É a comunicação com base num pensamento complexo” (Morin, 1992, p. 140)[4].
A extensão universitária, nessa perspectiva, deixa de se configurar apenas como espaço de aplicação do saber acadêmico (na pior versão, vem como saber-poder) e passa a se constituir como um campo de produção e de compartilhamento de conhecimentos, sustentando-se pelo diálogo entre universidade e sociedade. Trata-se, também, de um meio de afirmação do compromisso social da universidade pública, ampliando-se o acesso e a relevância do conhecimento produzido.
- Baseando-se em Edgar Morin (1990)[5], a proposta enfatiza a necessidade de superar a fragmentação do conhecimento, valorizando-se abordagens que articulem sociedade, cultura e ciência. Nesse sentido, tais atividades de extensão possibilitam a integração de diferentes dimensões do saber, promovendo-se a contextualização dos conteúdos e a problematização de questões concretas vivenciadas pelos sujeitos envolvidos.
- Associado a isso, Gaston Bachelard (1996)[6] contribui ao propor rupturas com o senso comum (experiência imediata não problematizada), demonstrando-se como a construção do conhecimento demanda também por uma reflexão acerca de suas próprias condições de produção, percebendo-se os obstáculos epistemológicos presentes.
Nesse contexto, a curricularização da extensão orientada por uma Epistemologia Política da Ciência busca promover práticas voltadas ao desenvolvimento do pensamento crítico – do Pensamento Científico que sabe, tem consciência, de ser um Pensamento Sociológico –, a partir da análise de problemas socialmente relevantes, e isso possibilita uma compreensão mais ampla e articulada entre diferentes perspectivas.
Por fim, a proposta reafirma o papel da universidade na formação de sujeitos cognoscentes, mas criativos e críticos, e na promoção da transformação social, articulando-se ensino, pesquisa e extensão. Portanto, a extensão configura-se, nesse sentido, como um espaço de grande relevância para a compreensão da ciência como prática política e social, possibilitando-se intervenções mais conscientes e comprometidas com a realidade dos sujeitos internos da universidade e também como a fluência de um convite aberto para que a sociedade participe.
Como se diz, popularmente, “quem sabe, sabe”; contudo, sempre é preciso afirmar que só se “sabe” quando se “apreende” – tomando-se para si o conhecimento e agindo na forma da práxis (reflexão e ação).
[1] “Portanto, devemos ir do físico ao social e também ao antropológico, porque todo conhecimento depende das condições, possibilidades e limites de nosso entendimento, isto é, de nosso espírito-cérebro de homo sapiens (Morin, 1992, p. 139).
[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 87. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.
[3] FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
[4] “É convidar a pensar-se na complexidade. Não é da a receita que fecharia o real numa caixa, é fortalecer-nos na luta contra a doença do intelecto – o idealismo –, que crê que o real se pode deixar fechar na ideia e que acaba por considerar o mapa como o território, e contra a doença degenerativa da racionalidade, que é a racionalização, a qual crê que o real se pode esgotar num sistema coerente de ideias” (Morin, 1992, p. 139).
[5] MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
[6] BACHELARD, Gaston. Formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. Trechos: p. 7-28 e p. 259-292




