Ester Dias da Silva Batista
Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar
Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação e Sociedade/UFSCar (15/04/2026)[1]. Então, vamos aos tópicos:
- O Mecanismo de Exploração: Mais-Valia e Uberização:
- A extração da mais valia pode ser brevemente definida como a extração do esforço do sujeito (força de trabalho) que não é devidamente remunerado, onde a maior parcela da produção é destinada ao LUCRO da empresa, enquanto o trabalhador/a (proletariado) recebe apenas uma parte.
- No século XXI, essa exploração se modifica, agudiza-se e se torna predatória:
- De um lado, temos o sujeito totalmente uberizado, como no sistema 9-9-6 (trabalho das 9h às 21h, 6 dias por semana, como ocorre na China), onde a vida é reduzida à organização da plataforma.
- No centro (o “cinza”), surge a figura da professora que complementa renda, vivendo uma uberização intermitente. Ela possui um vínculo fixo, mas é atraída para um local sem direitos ou amparo trabalhista, evidenciando-se a fragilidade das garantias e da própria segurança jurídica na atualidade.
- Esse processo caracteriza um servilismo voluntário, onde o motorista ou trabalhador aceita a “mordida” (taxa) da plataforma para poder trabalhar, estabelecendo um paralelo direto com o senhor feudal que cobrava pelo uso da terra mais fértil.
- Na imagem a seguir, essa ideia da exploração do proletariado e lucratividade é retratada.

- Modernidade Líquida e a Insegurança (Bauman):
- Essa ausência de estabilidade é discutida pela modernidade líquida de Bauman.
- Diferente da modernidade “sólida” (período de florescimento industrial, fabril), o tempo atual é marcado pela fluidez das relações, pela fragmentação, volatilidade e por uma incerteza constante, seja nas relações pessoais ou trabalhistas.
- A lógica do consumo imediato substitui a segurança a longo prazo, bem como a substituição da segurança do CLT pela exploração sem regras da “uberização social”.
- A precariedade do trabalho uberizado (seja ele total ou de interface) é um reflexo direto dessa liquidez, onde as conexões são transitórias e o indivíduo nunca está realmente “fora” da rede de exploração, seja por ser o explorado enquanto trabalhador ou então via consumo de trabalhos que utilizam dessas interfaces de exploração.
- Contudo, apesar da condição de uberização, o sujeito pode ainda perceber essa forma de trabalho precária como uma alternativa viável. Em muitos casos, indivíduos que conseguem obter rendimentos significativamente superiores, por vezes mais que o dobro, atuando como motoristas de aplicativo, optam por essa modalidade, mesmo diante da ausência de direitos trabalhistas. Por outro lado, o regime CLT, embora assegure tais direitos, frequentemente oferece remuneração considerada insuficiente, além de demandar elevada carga de tempo e esforço, o que contribui para a preferência por formas de trabalho mais flexíveis.
- Ideologia e Regulação Interna:
- Universalizar o Particular (Chauí): Ao projetar uma visão de mundo específica (a exemplo do “empreendedor de si mesmo”), como uma verdade absoluta ou dogma, o sistema convence o sujeito a aceitar a exploração de forma voluntária.
- Temos, portanto, a ideologia dominante sendo a ideologia de quem manda (a classe dominante);
- Instituições e Viés: O exemplo da “Escola sem Partido” ilustra a tentativa de criar uma neutralidade impossível, pois nada é isento de viés. A ideologia dominante busca mascarar esses vieses para manter o controle sobre o pensamento social e, com isso, ainda se demoniza o pensamento científico: negacionismo.
- O Papel do Pensamento Sociológico:
- Para combater essa manipulação e enxergar além do “dogma”, surge a sociologia como um “desconforto necessário”, bem como uma educação de qualidade também passa por essa perspectiva de transformação do sujeito, para além do “óbvio”, daquilo que lhe é ofertado.
Temos, assim, um pequeno retrato do capital hegemônico na sua fase atual. O que nos leva a refletir sobre o significado do Pensamento Sociológico[2], sempre do presente para o passado, do geral ao particular[3].
[1] Por síntese (e por óbvio), entende-se que não é a totalidade, mas sim a essência que me pareceu adequada. O mapa geral das discussões trata, efetivamente, do que está sinalizado no título.
[2] https://farofafilosofica.blog/2026/04/14/possibilidades-do-conhecimento-sociologico-texto-de-zygmunt-bauman-2/. Acesso em 15/04/2026.
[3] Vale destacar ainda que essas questões estão dispostas num texto original disponibilizado, no primeiro encontro ou até antes disso, num e-mail coletivo das turmas. Como última menção, é importante destacar que esse texto será disponibilizado aos/às estudantes como “retorno” para leitura futura. De forma que possam organizar um pouco mais suas anotações ou abstrações daquele encontro.




