Por Ester Dias da Silva Batista (*)
Em uma perspectiva marcada pela propagação das desigualdades sociais, bem como pela crescente precarização das relações de trabalho, observa-se a tendência de redução do sujeito a uma engrenagem da lógica capitalista. Nesse contexto, evidencia-se a naturalização de discursos que buscam justificar tais problemáticas, como o mito da meritocracia, o que reforça a necessidade de construção de ferramentas que possibilitem uma análise crítica da realidade, para além do senso comum e das bolhas sociais.
Situações cotidianas, como o crescimento da informalidade no ambiente de trabalho, associadas ao processo de uberização, revelam formas de trabalho caracterizadas pela precarização, com pouca ou nenhuma proteção trabalhista e ausência de vínculos formais, contribuindo-se fortemente para a reprodução das desigualdades estruturais. Tais processos não ocorrem de forma isolada e, sob um viés biológico, podem ser compreendidos como uma espécie de “feedback positivo”[1], no qual esse sistema desigual tende a se retroalimentar.
À medida que se expande e se aprofunda, quase como um organismo parasita, é também mascarado por discursos que naturalizam essas dinâmicas e deslocam o foco de suas causas estruturais. Assim, substitui-se uma análise centrada na lógica da lucratividade por narrativas individualizantes, que atribuem ao sujeito a responsabilidade por sua própria condição, reforçando-se a culpabilização dos trabalhadores diante de um sistema estruturalmente desigual e predatório.
Nesse sentido, o mapa conceitual aqui apresentado foi elaborado como uma ferramenta de análise e problematização dessas relações, evidenciando-se suas articulações e formas de organização no interior da sociedade. Sua construção baseia-se no mapa conceitual utilizado em aula na disciplina de Educação e Sociedade, obrigatória para o curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, no semestre de 2025/2, e busca organizar e expressar a compreensão dos principais conceitos trabalhados, tomando-se como referência a proposta de organização da Sociologia Geral e Política no século XXI, desenvolvida pelo Profº Dr. Vinício Carrilho Martinez. Como se vê, o mapa foi uma apropriação destinada a uma melhor compreensão de alguns dos nossos maiores problemas:
Fonte: desenvolvida pela autora.
Buscando-se referências no campo educacional e dialogando com Paulo Freire, cuja obra Pedagogia do Oprimido[2] fundamenta a disciplina, parte-se do pressuposto de que compreender a realidade implica ir além de sua aparência imediata, reconhecendo-se os mecanismos que sustentam essa organização social (e suas problemáticas). Nesse sentido, ao apresentar como eixo central a “Lei dos Mais Fortes”, o mapa possibilita analisar como Estado, Sociedade e Capital se estruturam a partir de relações desiguais de poder, fundamentadas na hierarquia e na dominação.
Essa análise, que busca ir além da aparência imediata, fundamenta-se em uma perspectiva que compreende a sociedade como historicamente constituída por relações desiguais de poder. Nesse sentido, as configurações sociais contemporâneas não se estabelecem por processos espontâneos, como em uma analogia à geração espontânea[3], mas resultam de construções sociais, políticas e econômicas que foram produzidas e reproduzidas ao longo do tempo, visando à manutenção de determinadas estruturas de dominação. Assim, assume-se que toda leitura da realidade constitui um ato político, o que implica reconhecer que os elementos representados no mapa, como Estado, Sociedade e Capital, não são neutros, mas expressam disputas, contradições e processos de dominação.
A partir dessa perspectiva, o eixo central da “Lei dos Mais Fortes”, apresentado no mapa como princípio da hierarquia, permite entender como essas relações se organizam (e se reproduzem), estruturando-se uma sociedade marcada por desigualdades que não são ocasionais ou espontâneas, mas constitutivas de sua formação histórica. Essa noção dialoga diretamente com a discussão desenvolvida em um texto denominado As relações de uma sociedade predatória, desenvolvido na disciplina de Educação e Sociedade no semestre 2025/2, no qual se argumenta que a vida social e política se constitui a partir de relações desiguais de poder, historicamente fundamentadas na força, na dominação, na hierarquia e suas consequências nos aspectos educacionais.
A partir desse eixo central, o mapa articula três dimensões fundamentais: Estado, Sociedade e Capital; evidenciando-se suas relações. O Estado é apresentado como a instituição que exerce poder soberano em determinado território, regulando as demais instituições e a vida social, ainda que esse poder, na prática, seja frequentemente atravessado pelos interesses das classes dominantes. Tal aspecto tensiona a própria ideia de democracia, uma vez que o ideal de participação popular nem sempre se concretiza de forma efetiva.
Quando se trata da sociedade, o mapa destaca sua organização em classes sociais marcadas por relações de dominação e subordinação. Nesse sentido, a desigualdade não aparece como uma exceção, mas como um elemento estrutural do sistema capitalista, sendo constantemente reproduzida e naturalizada. Essa estrutura se articula com a perspectiva de que as relações sociais passam a ser mediadas pela mercadoria, atribuindo-se valor de troca às interações humanas e reforçando uma lógica de exploração.
O capital, por sua vez, aparece como elemento organizador dessas relações, orientado pela lógica da acumulação e da exploração se expressa tanto na divisão de classes quanto em fenômenos contemporâneos, como a precarização e a uberização do trabalho. Além disso, o mapa incorpora elementos específicos da formação social brasileira, como o mito da cordialidade e o chamado “jeitinho brasileiro”, que operam como mecanismos de manutenção dessas desigualdades, mascarando-se relações estruturais de poder e de dominação.
Dessa forma, o mapa conceitual não apenas sintetiza os principais conceitos discutidos, como também explicita as interações entre eles, evidenciando-se como Estado, Sociedade e Capital se articulam na reprodução de uma lógica social predatória, sustentada pela hierarquia e pela desigualdade.
Ao incorporar a perspectiva de Paulo Freire, é possível aprofundar a análise do mapa ao compreendermos que essas estruturas não apenas organizam a sociedade, mas também produzem formas de pensar, agir e interpretar a realidade. Elementos como o “jeitinho brasileiro” e o mito da cordialidade, destacados no mapa, podem ser entendidos como expressões do senso comum que contribuem para a naturalização das desigualdades e das relações de dominação. A educação, por sua vez, assume um papel fundamental ao possibilitar a superação dessa leitura ingênua da realidade, promovendo-se a construção de uma consciência crítica.
Portanto, o mapa pode ser compreendido não apenas como uma representação das relações sociais, mas como uma ferramenta de reflexão que permite questionar a aparente naturalidade que mascara as desigualdades e seus processos de construção. Esse movimento possibilita a passagem do senso comum ao Bom Senso, contribuindo-se para processos de emancipação dos sujeitos, na medida em que estes passam a reconhecer-se como parte dessas relações e, potencialmente, como agentes de transformação social, inclusive no âmbito das instituições de ensino, como escolas e universidades.
[1] O feedback positivo refere-se a um mecanismo biológico no qual a resposta de um sistema intensifica o estímulo inicial, promovendo-se sua continuidade e retroalimentação (GUYTON; HALL, 2017).
[2] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 85. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2023.
[3] A hipótese da geração espontânea refere-se à ideia de que seres vivos poderiam surgir espontaneamente a partir de matéria não viva, posteriormente refutada com o desenvolvimento da biogênese (REECE et al., 2015). No presente contexto, a analogia busca evidenciar que determinadas relações sociais não surgem de forma “espontânea”, mas são historicamente construídas e orientadas visando à manutenção de estruturas de poder.
(*) Ester Dias da Silva Batista é Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar




