@viniciocarrilhomartinez
Meu pai!
Escrevo esta pequena carta para você, mas é para que outras pessoas te conheçam um pouco.
Anos depois da sua partida, soubemos que tinha uma ficha no DOPS (a Gestapo nazista brasileira, da ditadura militar). Desde criança ouvimos – eu e o Wagner – a história de que jogaram seus livros num poço seco, abandonado, para que a polícia não tivesse mais nada contra você.
Não vou contar todas as nossas histórias, porque não teria fim. Nem a carta será extensa porque conversamos sempre, por sentimentos, pensamentos, mentalmente. Como estou fazendo agora, nessa intuição de que deveria escreve dessa maneira.
Hoje me lembrei de que você foi o criador e o primeiro dirigente do PDT, em Marília. Você sempre foi Brizola. Nos contava de quando esteve com ele, às vésperas do exílio forçado para o Uruguai.
Me lembrei que, quando ensinava num curso de Filosofia, em 1989, te levei para falar sobre os CIEPS – a escola carioca pioneira em ensino com tempo integral, e de qualidade. Me lembro de como foi aplaudido, mesmo falando em tom normal. Você não gritava, apenas convencia.
Também me lembrei de como nos provocava, invertia nossos argumentos em prol do Lula – você adorava o Lula Lá – e dizia o oposto do que queríamos ouvir. Sempre fez isso comigo, mais do que com o Wagner – que era pacífico, menos fleumático.
Como você, Saturnino Martinez, penso que também vim de Saturno, porque sou agarrado no seu Sagitário – no DNA e no nascimento –, você é de 29 de novembro e eu de 27. Nossos gênios eram (são) idênticos, só trocamos de bandeira uma vez, em 1989: você com Brizola, no primeiro turno, e eu com Lula.
Outra cena que não tiro da cabeça é te ver avançando na pista de pouso em Marília/SP, no segundo turno daquele mesmo 1989. Você dirigente do PDT indo receber o Lula, antes das portas do avião se abrirem. Lembro disso – e te lembro sempre – porque eu estava contigo.
Você sempre soube o caminho correto das coisas, nunca admitiu um erro dos filhos para com a nossa mãe. Jamais deixou de combater a luta justa, jamais teve dúvidas sobre o Mal, a corrupção, o Fascismo.
Por isso você retrucava tudo o que eu dizia, ainda jovem de 16, 17 anos. Você me instigava a estar pronto para a vida adulta. Nunca passou pano, nunca passou a mão na cabeça.
Era o seu jeito antigo de ensinar, e te agradecerei eternamente. Apesar de todas as nossas diferenças, de sempre, não tenho como não te agradecer.
Essa carta jamais seria como a de Kafka, porque eu escrevo com o coração. O coração que, mais tarde, aprendi que vem de esperançar – da esperança de quem age, de Paulo Freire.
Você me ensinou Paulo Freire, na essência e não nos modos, com décadas de antecedência.
Como fizeste em 1989, hoje você faria o mesmo, não teria a mínima dúvida sobre o seu voto; abnegado em derrotar o Fascismo. Outra vez.
E eu te seguirei.
Mais uma vez.
Neste momento, sinto que você não está escrevendo junto, mas lendo comigo.
Vamos vencer!
Na minha lembrança mais antiga, de criança de 3 ou 4 anos, você foi o primeiro a se levantar contra o Fascismo e o último a se deitar, quando te vi pela última vez.
Tanto lá, quanto agora, a lição dada foi aprendida.
Vamos vencer o Fascismo, outra vez!!




