@viniciocarrilhomartinez
Ao contrário do que acontece nas famílias atuais, filhos e filhas, genros e noras, disputavam a presença do Seu João. Ele amava os netos e as netas. Vivia inventando brincadeiras que a sua idade permitia.
Seu João passara a vida toda cuidando do seu pequeno roçado, com a esposa Maria. Quando ela se foi, ele se mudou para uma cidade pequena, onde tivesse mais filhos e filhas.
Um ano depois da mudança, após se ambientar um pouco, aceitou a insistência dos filhos, de uma filha em especial, para que fosse à escola. Ali conheceria o alfabeto escrito da língua portuguesa.
Não demorou muito e Seu João já conseguia ler textos pequenos. Escrevia o nome com o maior capricho possível, esse agora seria o seu legado. Todos os dias “tomava a lição” das crianças menores.
Nem tudo foi fácil e colorido, porque, quando chegou na sala de alfabetização, Seu João estava convicto – pela negação da vida – de que não iria muito longe. Sentia que o seu lugar não era ali. Dizia que não dava para aquilo, que ele “não pensava”.
Foi criado assim, com a dureza da roça: “Trabalhe João!”. Era praticamente o único verbo que já tinha ouvido. Portanto, na sua cabeça, “ele não pensava”. O Seu João pensava, que não pensava. Assim é até hoje, com a maioria do povo brasileiro, descrente, desestimulado a pensar.
Só que isso foi se apagando da memória do Seu João.
Começou a mudar mesmo com a ação de uma professora muito jovem, recém formada na capital, cheia de esperanças. Ela provocou a todos, logo no início da semana. Estava um dia meio nublado, sem calor e muito bom para se pensar.
Ela foi direto ao ponto: “A vida lhes ensinou a não esperar muito de si, mas isso começa a mudar hoje, a partir de agora”. E continuou: “Vou ler uma frase para vocês e me digam o que acham: ‘Ele pensa, que não pensa’. Pensem nisso que falei, podem conversar entre si. Eu já volto, vou tomar água”.
A professora saiu da sala de aula, mas não para tomar água. Queria dar um tempo para que confabulassem. Quando voltou, disse logo: “E então, pensaram no que falei?”. Todos disseram que sim, que tinham pensado. E ela foi direta, novamente: “Oras, se vocês pensaram sobre isso, vocês são capazes de pensar sobre qualquer coisa”. E foi além: “Se vocês pensaram, então, não existe a possibilidade de ‘alguém pensar que não pensa”.
Seu João nunca mais foi o mesmo depois disso. Esse pensamento nunca lhe abandonou enquanto viveu. Quando faleceu, na presença de toda a família, na casa da filha mais nova – onde passara a residir mais definitivamente –, Seu João estava olhando fixamente para o teto.
Eu imagino que estivesse vendo, recordando o rosto daquela jovem professora, porque o Seu João partiu assim, sorridente, quase feliz. Era o Dia das Professoras e dos Professores.




