Num gesto bem humorado, ex-candidato do Missão mandou fazer cortinas vermelhas para seu apartamento, mas o PT, até agora, despreza aceno da janela e não o chama para a rua
‘Outsider’, arrivista, oportunista, classifique-se como se queira. O certo é que, em número de votos – a questão central deste momento -, o ex-candidato a presidente Renan Santos teve 2.675.887 no mesmo primeiro turno em que a diferença a favor de Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula foi de 2.224.965. O capital eleitoral do empresário de 40 anos, um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre), tem uma sobra de 405.922 votos sobre o que teria sido necessário para empatar a disputa na primeira rodada da eleição. Em tese, Santos teve sobrando o que ficou faltando para o candidato à reeleição.
Nesta primeira semana de segundo turno, Renan trocou as cortinas de seu apartamento, renovando-as em vermelho. Foi um sinal claro e bem-humorado, admita-se, do desejo dele em anunciar o apoio ao líder popular. Para consumar o gesto, seria preciso apenas que algum representante do PT o procurasse, em nome da campanha, para discutir bases comuns e definir com ele um papel a cumprir no segundo turno.
Quem se habilita? Até agora, infelizmente, ninguém. O ex-candidato do Missão foi à janela se oferecer para apoiar Lula, mas a caravana do segundo turno está passando pela rua lá embaixo sem fazer qualquer chamado para que ele desça e reforce a marcha.
Está errado. Uma declaração formal de apoio de Renan Santos a Lula-Alckmin, neste momento, seria um fato político positivo e de ampliação da candidatura. Significaria, na prática, a quebra do paradigma ‘nós conosco’, que em tese muito criticam, mas que na prática não é praticado. Enquanto Flávio Bolsonaro vai amealhando apoios entre partidos que, inclusive, fazem parte do governo, a campanha ainda não conseguiu anunciar nenhum ganho de peso para o lado do presidente e do vice. As manifestações individuais que têm sido feitas até aqui, como a festejada declaração favorável do jurista Miguel Reale Jr., têm sido pontuais e, reconheça-se, escassas.
Está na hora de o PT romper com antigos dogmas. Da cúpula à militância, o partido precisa entender, neste momento dramático e, de preferência, de uma vez por todas, que simplesmente não detém a hegemonia política sobre a sociedade brasileira. A importância de compor com quadros que, em tese, situam-se à direita da agremiação, é vital para a democracia brasileira.
O paradoxo é que, para abrir espaço à esquerda, a grupos de plataformas confusas, com discurso arcaico e excludente, as portas do partido já se escancararam mais de uma vez. Mas quase em toda situação na qual um sinal surge do outro lado da mesa, a postura é de desprezo, ironia e rechaço. A prolongar esse comportamento histórico no momento que é o mais decisivo da vida nacional, quando o pior do que já foi produzido pela política brasileira está a um passo de assaltar o poder, corremos o risco, facilmente perceptível, de perder
Do Brasil 247




