sexta-feira, outubro 9, 2026
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A Luta de classes na atual Sociedade de Controle

(leia-se Deleuze)[1]

– entre símios e sapiens

 

Vinício Carrilho Martinez – Professor Titular da UFSCar

Ester Dias da Silva Batista – Bióloga e mestranda pelo PPGCTS/UFSCar

 

Macunaíma nos trouxe até aqui, além de eleitoreiro é um embuste completo. Quer nos presentear com o fim do Heliocentrismo, se é que sabe o que é isso.

Afinal, o estágio atual da Sociedade de Controle contaria com sociedades sem classes sociais.

Essa é uma tese corrente, que faz certo sentido, mas que não desenvolvo e deprecio em seu desenvolvimento e, em especial, na conclusão que distorceu as premissas.

Parte de uma premissa histórica correta, porém, a distorce na primeira conjugação. Procede desse modo porque avalia com sectarismo e reducionismo – como se a premissa não devesse ser lida ao longo da história.

Vejamos: a premissa acertada por Marx & Engels sempre nos ensinou que no capitalismo há duas classes fundamentais: Burguesia e Proletariado. Penso que ainda sejam.

O que ocorre, e não é marca exclusiva desse século, é o esvaziamento da atividade fabril; também pode ser descrito como desindustrialização. No caso brasileiro, ainda temos que contabilizar o longo histórico da informalidade no Mundo do Trabalho.

Somente mais recentemente o trabalho informal ganhou certa visibilidade por causa da legislação e dos incentivos à criação da Pessoa Jurídica (PJ), para pessoas comuns: a chamada pejotização, que, por sua vez, trará problemas gigantescos à Previdência Pública.

Pois bem, com o crescimento da pejotização e da uberização, os idealizadores (reformistas) da “nova tese” passaram a entender que a “classe trabalhadora” – sinônimo engessado do Proletariado da Segunda Revolução Industrial – se desfez como as brumas.

Os sindicatos sumiram, o movimento estudantil inexiste, os movimentos sociais populares foram sequestrados pelos shoppings de lazeres atuais.

O sequestro pelos lazeres e distrações digitais faz todo sentido.

Esta é uma relação instada na Modernidade Líquida, como ensina Bauman, fase em que as relações líquidas causam uma organização social que tende, apesar do que se esperava há décadas, ao aprofundamento deníveis assustadores de Estranhamento. Há pouco mais de 15 anos, pensava-se que as redes sociais trariam uma aproximação tamanha que os sujeitos se manteriam conectados e acessados; hoje, pelo contrário, vemos relações de distanciamento.

As relações são mantidas via redes antissociais; e, consequentemente, temos pessoas conectadas e distantes simultaneamente, algo incoerente, mas que ocorre diariamente: pode-se pertencer a nichos, bolhas, mas nenhuma delas promove reconhecimento.

Outras consequências desse mundo conectado são a crescente ansiedade e a perda da capacidade de autonomia. Atualmente, quando mandamos um e-mail ou um WhatsApp, a ansiedade por uma resposta, que seja o mais rápido possível, nos torna, mesmo nos momentos de lazer, reféns de um mundo digital que cobra presença e responsividade e, ao mesmo tempo, demoniza o tal ócio, seja o ócio criativo ou apenas o descanso naturalmente necessário.

Basta lembrar do que prega o Marketing digital, com suas regras de engajamento, seja para as pessoas comuns ou influenciadores (a praga que acabou por demonizar a Educação e a Ciência) seja para políticos envolvidos em processo eleitoral.

O mundo digital nos é assemelhado a uma fonte de dopamina, portanto, nada soa melhor do que, deslizar infinitamente nas/para as redes antissociais e, assim, obter migalhas de dopamina e serotonina ao final de um dia cansativo e esgotante que cobra coisas sub-humanas. E isso nos oblitera a percepção e a persecução da consciência de que tratamos.

Sendo assim, o que não faz parte do roteiro é nivelar a atividade laboral pela mão de obra industrial e sindicalizada. No Brasil mesmo, quando foi que trabalhadoras e trabalhadores começaram a se organizar efetivamente?

Dá para dizer com segurança que os direitos trabalhistas básicos começaram a se desmantelar na Era FHC e de forma violenta – José Serra pondo cavalos e cães em cima de professoras em greve foi e é um ícone disso.

Em resumo, a classe trabalhadora mudou de perfil, não é agro (todo mecanizado) e nem fabril. A classe trabalhadora foi uberizada ou pejotizada.

Isso desconstrói a consciência de classe? Por óbvio que sim, o chão de fábrica sumiu, virou assoalho de automóvel usado.

Todavia, o que não mudou? Não mudou a relação entre as classes.

E aqui fica clara a distorção da análise baseada na inexistência de classes sociais. Pois, as classes dominantes – dos Capitães da Indústria, da Burguesia tradicional, ao rentismo – e as classes dominadas – sofrendo os mais graves abusos na exploração de mais valia uberizada –, essas apenas trocaram de roupa, mudaram seu perfil, mas permanecem mais vivas do que nunca. A relação é orgânica.

Tenho aqui uma breve discordância com o grande mestre Florestan Fernandes, pois entendo que nossas classes dominantes sempre rejeitaram o Estado de Direito – desde o golpe imposto na Declaração da República – e, assim, ao invés da precisão conceitual de uma Autocracia de classe (que é óbvia em sua existência), proponho pensarmos nossa atualidade com base na “Dominação de Elites Plutocráticas, mas ignorantes” (em sua oclocracia também) –, pois são as mesmas que elegeram Collor e Bolsonaro e que se associam ao crime organizado.

Portanto, neste caso, prefiro adotar a plutocracia e a oclocracia de Bobbio, à Autocracia de classe – se for tomar como conceito fechado.

Desse modo, se a consciência de classe regrediu, pela pulverização social e laboral das classes trabalhadoras, o mesmo não se verifica com a ação repressiva e letal das classes dominantes sobre as classes dominadas, subalternizadas.

Isto é, uma sociedade sem consciência de classe – ou em estágio de redução, bem à feição do capital especulativo, improdutivo – não é sinônimo de uma sociedade sem classes sociais.

A dominação, como dominus, nunca foi tão severamente imposta.

O contrário, se a premissa tivesse sido seguida com respeito à lógica (menos ideológica) e à História (que é vivência do presente e a construção da sua Ciência) nos traria a conclusão (posta na premissa válida) de que: “as sociedades divididas em classes sociais, por óbvio (quer dizer, logicamente), são sociedades em que há classes dominantes que se impõem às classes dominadas”. E o fazem com coerção ou coação.

Se temos maior ou menor consciência disso, se as classes dominadas (subalternizadas) são assim ou assado, sob o passar do tempo e das mudanças ocorridas no miolo do próprio modo de produção capitalista, esse é outro ponto. Se há mais ou menos consciência de classe na atualidade da Sociedade de Controle, do que no século XIX, esse também é outro ponto.

O ponto central segue validado pela lógica vista à luza de quem abre a janela de casa, voltada para a rua, e é decorrente da premissa válida, bem como se confirmaria em sua conclusão: Todas as sociedades divididas em classes sociais são, obrigatoriamente, organizadas em torno de classes dominantes e de classes dominadas.

Negar isso é tolice, equivalente do campo CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) produzir e praticar a anticiência. É o mesmo que defender tese divulgando o negacionismo, a fraude científica.

É importante observar o perfil, mas é fundamental olhar a essência da relação entre as classes sociais.

Isso não se modificou, do século XIX para cá.

E não se modificará enquanto houver Capitalismo – ou enquanto este for dominante, determinante.

Enfim, qual é a conclusão lógica que retiramos dessa “nova” tese?

Oras, se não há mais classes sociais, por óbvio, não há mais Luta de classes e, sem Luta de classes, nos rendemos ao capital, prontamente.

O que os defensores dessa tese desconhecem – ou preferem desconhecer, por causa da sua identificação ideológica – é que 90% da Ciência brasileira decorre da Luta de classes. Se deixássemos o capital para nos promover enquanto país, ainda estaríamos no plantation.

As universidades públicas foram a resposta encontrada por pessoas inteligentes. Assim como o SUS, pois, sem a pressão da Luta de classes, metade da população já teria morrido nas sarjetas.

No Brasil do patriarcado, a situação sempre foi pior.

Temos até hoje uma luta de classes e que é de gênero. Diz-se, pela força da misoginia, que o lugar da mulher é na cozinha da submissão.

Não sendo titular, é vice de qualquer poder inexistente.

Se tivermos o mínimo cuidado com a realidade, de todos os tempos, saberemos que na Oikós (como diziam os gregos) o poder nunca foi masculino.

O lugar da casa, que se irradia pra rua, nunca foi alfa.

É a mulher quem escolhe, quem define. Isso está na natureza que expulsa o macho alfa dentre os chimpanzés, tanto quanto é a regra entre nós.

Prestem atenção na frase:

“Aconteça o que acontecer, volte pra casa!”.

Quem estará te esperando, o pai ou mãe?

Aliás, quem disse essa frase?

Mas, tenho mais uma coisa a dizer:

Quando as regras da Oiķós são desrespeitadas é porque ali impera o pior machismo (nunca visto pela minha avó), a misoginia ou o feminicídio.

Esse é o Brasil de sempre.

Mas, quando elas se cansam da deseducação, acontece o quê?

Uma das formas de corroer a organização social ou as institucionalidades é agir por dentro delas, pelas suas próprias entranhas, contra elas. É sinônimo de reproduzir a opressão nas relações cotidianas, transformar a desigualdade em norma e fazer com que as próprias mulheres sejam levadas a reproduzir discursos que as oprimem. Não estará distante do que Arendt chamou de Banalização do Mal – ou apenas Normalização do Mal, como nós chamamos – com certa diferenciação conceitual.

Somos moléculas dispersas em tecidos disruptivos, o que também se vê em expressões mais antigas, mas que se ajustam aos dias atuais, como a famosa “ruptura do tecido social”, fato ou fenômeno que se observa quando uma crise muda de escala, numa “quebra institucional”. Estamos na beirada disso.

É este o preciso momento que estamos vivendo.

Esse Poder Nu – Einstein nos diria hoje -, sem o controle do pudor, despido de honra, validade, dignidade, nos choca e afronta desde 1500, indo e vindo.

Hoje estamos quase no marco zero do seu retorno.

Nessa última fase em que vivemos da Sociedade de Controle, não contam apenas os meios tecnológicos (materialidade), sem precisar repetir que contam muito mais as tecnologias sociais de controle absolutista.

Esse também é o caso em que a antiga piada diabólica parece nos cutucar, de forma letal, bem no fundo da nossa subjetividade:

  • “A maior expertise do Diabo foi fazer com que todos acreditassem que ele não existe”.

Assim ocorre com a Sociedade de Controle, só meia dúzia acredita em sua existência.

Penso, por fim, que esse texto é próprio das Ciências Sociais – e que, como vemos, é uma Ciência, um tanto diferenciada das demais.

Mas, com encaixe perfeito no campo CTS.

Aliás, é a Ciência que lhe deu origem, lá nos idos da Sociologia da Ciência e da Tecnologia.

Então, façamos bom uso desse conhecimento a fim de que o absolutismo não nos governe, não guie nossas ações, não se apodere de nossa alma.

 

[1] DELEUZE, Gilles. Conversações, 1972-1990. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

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