Editorial afirma que caso envolvendo Daniel Vorcaro expõe degradação ética do clã Bolsonaro e reforça necessidade de alternativa fora do bolsonarismo
O jornal O Estado de S. Paulo publicou nesta sexta-feira um duro editorial contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), afirmando que o escândalo envolvendo pedidos milionários feitos ao banqueiro Daniel Vorcaro revelou a “baixa estatura moral” do parlamentar e tornou “urgente” que a direita brasileira se liberte do bolsonarismo.
No texto intitulado “O filme de terror de Flávio Bolsonaro”, o Estadão sustenta que o episódio envolvendo a tentativa de captação de recursos para o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, não apenas expôs fragilidades políticas do senador, como também evidenciou uma degradação ética incompatível com alguém que pretende disputar a Presidência da República.
“O primeiro teste de estresse da campanha do senador Flávio Bolsonaro à Presidência terminou mal”, afirma o editorial. Para o jornal, a revelação de que Flávio cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro recursos equivalentes a US$ 24 milhões “escancarou a sua baixa estatura moral, deficiência que o torna absolutamente indigno de ser presidente da República”.
Direita “democrática” deve romper com Bolsonaro, diz jornal
O Estadão defende que o episódio sirva como ponto de inflexão para setores conservadores que ainda orbitam o bolsonarismo. Segundo o jornal, a direita precisa construir uma alternativa “séria” e comprometida com a Constituição.
“Esse episódio torna ainda mais urgente que a direita democrática se empenhe em construir uma alternativa conservadora séria, comprometida com a Constituição e com padrões mínimos de decência”, escreveu o jornal.
Na avaliação do periódico, Jair Bolsonaro e seu entorno político carregam uma trajetória marcada por “vocação antidemocrática”, além de sucessivos escândalos e da “confusão deliberada entre público e privado”.
Relação com Vorcaro amplia desgaste
O editorial destaca as conversas reveladas pelo Intercept Brasil e confirmadas pelo próprio Estadão, nas quais Flávio Bolsonaro aparece negociando diretamente com Daniel Vorcaro, banqueiro investigado pela Polícia Federal.
Segundo os documentos citados, Flávio teria solicitado US$ 24 milhões para financiar o longa-metragem sobre Jair Bolsonaro, dos quais cerca de US$ 10 milhões já teriam sido pagos ao longo de 2025.
O jornal observa que o senador inicialmente negou a informação e classificou as denúncias como “mentira”, mas depois admitiu que pediu o dinheiro, alegando tratar-se de uma relação privada.
Para o Estadão, no entanto, o problema não é a natureza privada da negociação, mas a origem dos recursos.
“Pouco importa se o dinheiro era privado ou público. O busílis é a origem dos recursos”, diz o editorial.
O jornal lembra que Daniel Vorcaro é investigado pela PF por supostas fraudes financeiras envolvendo fundos de previdência de servidores públicos e operações ligadas ao Banco de Brasília (BRB).
“Irmão, estou e estarei contigo sempre”
O editorial também enfatiza o conteúdo das mensagens trocadas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Em um dos diálogos citados, o senador escreve ao banqueiro:
“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente.”
Segundo o Estadão, a frase demonstra uma relação de proximidade e confiança incompatível com a postura esperada de um pré-candidato à Presidência diante de um empresário investigado.
“A frase não deixa margem para dúvidas sobre a relação de proximidade, confiança e eventual ‘gratidão política’ envolvidas naquela negociação”, afirma o texto.
Contradições aprofundam suspeitas
O jornal também critica as explicações dadas por aliados bolsonaristas após a divulgação do caso. O deputado Mário Frias (PL-SP), produtor-executivo do filme “Dark Horse”, afirmou que “não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”.
Para o Estadão, a declaração apenas agravou as suspeitas.
“Ora, se não havia dinheiro do banqueiro na produção, para onde iria a dinheirama cobrada pelo senador?”, questiona o editorial.
Suspeitas de caixa dois e lavagem de dinheiro
Embora afirme não antecipar julgamentos, o Estadão sustenta que as circunstâncias do caso levantam suspeitas graves envolvendo possíveis crimes financeiros.
“Não cabe a este jornal antecipar julgamentos. Mas tampouco se pode condenar quem acredite que a relação entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro envolva suspeitas de lavagem de dinheiro, formação de caixa dois ou enriquecimento ilícito”, escreveu o jornal.
O editorial conclui afirmando que Flávio Bolsonaro ainda não apresentou explicações convincentes à sociedade e preferiu reagir “mentindo, atacando a imprensa e zombando da inteligência alheia”.




