quinta-feira, junho 25, 2026
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Ciência como consequência

@viniciocarrilhomartinez

Ester Dias da Silva Batista – mestranda do PPGCTS/UFSCar

O que fazer para alavancar a pesquisa, o Pensamento Científico, a inclusão, democratização e popularização da Ciência no Brasil?

Em realidade, essa pergunta não deveria ser feita, pois, em condições razoáveis, estaríamos em uma situação, num estágio de desenvolvimento da educação e do conhecimento científico, em que o óbvio não precisaria ser indagado ou dito.

Contudo, se vale uma ponderação diante do nosso atual quadro clínico de desmonte, precarização neoliberal (chamemos de “uberização da vida social”), podemos pensar que se os recursos dissolvidos em orçamento secreto, emendas parlamentares, fundo eleitoral partidário, tivessem o destino da educação e da Ciência essa pergunta estaria 90% respondida.

Como se sabe, no Brasil, a maior parte da pesquisa e da Ciência é produzida por entidades e instituições públicas, sejam estaduais sejam federais. Essa insistência, uma luta política constante, na preservação do pensamento crítico, criativo e propositivo é o próprio DNA, o sentido lapidar de quem se dedica à “construção de um saber” constitutivo, emancipatório, efetivamente societal.

Desse ponto de vista, não é incorreto afirmar que essa escolha (que envolve inúmeras renúncias) envolve dois aspectos essenciais da vida acadêmica e pessoal: a vocação e a profissão. Ninguém passa 30, 40 anos de sua vida num “campo de luta” que o rejeita e despreza; ninguém passa essas mesmas décadas sem lutar por suas condições materiais mínimas, de atuação, sobrevivência e desenvolvimento pessoal, se não houver determinação pela causa. Isso ocorre porque há forte vocação com forte senso profissional.

Podemos levar, esperar, cobrar, consequência numa atividade tão específica como a Ciência?

Para muitos, a Ciência sequer tem uma definição científica. Mas, pode vir a ter?

Digamos inicialmente que a Ciência é um processo de investigação que segue padrões ou modelos específicos (metodologia científica), com destaque para a observação, prospecção (“experimentação”), catalogação, análise (refutação ou confirmação de postulados, teorias anteriores), em que a crítica surge com a insatisfação (incerteza) diante das afirmações predominantes, sem que se anule todas as interferências externas, não cientificas, impostas pela política, economia, cultura, moral e pela própria visão de mundo do sujeito cognoscente sobre o objeto cognoscível (e que pode ser o mesmo sujeito, com “lugar de fala”). Um exemplo disso é verificável quando subsumimos com perspectiva integrada da luta de classe racista, em razão do determinismo identitário – fato amplamente previsto nas Ciências Sociais.

Portanto, como toda produção humana, a Ciência não ocorre de forma isolada, nem está isenta de interferências externas; pelo contrário, a Ciência é atravessada por dimensões políticas, econômicas, sociais e culturais, além da própria visão de mundo dos sujeitos que a produzem e destinada unicamente a atender aos interesses que a patrocinam.

Desse modo, vemos que a não neutralidade da produção científica, dado que as escolhas sobre quais perspectivas serão observadas, as hipóteses formuladas, quais problemas são inventariamos para investigação e tantos outros fatores, tudo isso combinado revela o grau, o tipo, o nível de influência cambiada.

Além de se objetar qualquer pretensa neutralidade, outrossim, demonstra-se como a ação do sujeito na construção desse conhecimento é, ao mesmo tempo, relevante e impactante em sua constituição.

E, neste ponto, podemos indagar: qual é a Ciência que interessa ao Brasil?

Pensemos em três caminhos ou hipóteses já posicionadas:

A primeira, que é uma Ciência express, precisa ser uma produção científica rápida, cada vez mais rápida, que traga resultados no momento desejado – então, aquela percepção de que a Ciência é algo que demora, no sentido de gestar, é cada vez menos respeitada.

A segunda, que seria uma Ciência não necessariamente produtiva, mas que fosse responsiva às demandas da classe dominante e que é rapidamente esquecida. Por exemplo, aquele boom da polilaminina, a galera viu super, a bióloga foi chamada para vários lugares, mas o tempo para que essa pesquisa fosse realmente produzida foi muito criticado (voltando-se àquela ideia da Ciência express).

No fim, foram deixadas pra lá, substancia e pesquisadora, também porque outras coisas “tomaram o lugar”. Como se vê, o modismo consumista, descalibrado como negacionismo ou pseudociência, é uma presença constante.

Assim, chegamos à terceira possibilidade, que deveria ser a primeira, mas que é sempre relegada ao terceiro pavimento: essa perspectiva, que deveria ser nossa premissa, ensina assim: a Ciência relevante a um país é aquela que serve ao seu povo, em primeiro lugar, e, em segunda afirmação, é aquela Ciência que visa combater as desigualdades, as declarações de incapacidade de quem mais necessita de educação e de Ciência, que é o povo pobre, negro e oprimido.

 

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