Vinício Carrilho Martinez
Professor titular da UFSCar
Ester Dias da Silva Batista
Bióloga e Mestranda no PPGCTS/UFSCar
No ambiente escolar, seja no ensino fundamental, médio ou no contexto acadêmico universitário, a compreensão de fenômenos complexos, como os da biologia, pode ser mediada pela chamada transposição didática (CHEVALLARD, 1985)[1]. Esse processo consiste em partir de conceitos mais simples e, a partir deles, construir uma lógica que permita a compreensão de ideias mais complexas e amplas, sendo uma estratégia de aproximação dos conteúdos de forma mais palpável, mas sem eliminar sua complexidade e relevância.
A mutação, por exemplo, pode ser compreendida como alterações no material genético. Um aspecto relevante é que tais alterações não possuem direção pré-estabelecida, podendo resultar em características benéficas, neutras ou prejudiciais ao organismo. Isso evidencia que não há uma finalidade nas mutações, rompendo com a ideia popular de que a evolução ocorre de forma linear e necessariamente progressiva. Assim, as transformações biológicas não estão intrinsecamente associadas à melhoria.
A partir disso, é possível compreender esse processo evolutivo como o resultado do acúmulo de mutações ao longo do tempo, mediado pela seleção natural. Trata-se de um processo contingente, isto é, dependente das condições ambientais e das pressões seletivas, e não de uma trajetória orientada a um fim; logo, não há uma finalidade para isso. Nesse sentido, a evolução expressa transformação, e não aperfeiçoamento contínuo.
Além do conceito evolutivo, é possível analisar também a denominada Teoria da Endossimbiose (MARGULIS, 1970)[2], ao propor que em um determinado momento da história evolutiva, uma célula eucariótica realizou a fagocitose de uma célula procarionte de vida livre. Porém, em vez de ocorrer a digestão, estabeleceu-se uma relação simbiótica entre ambas, originando organelas especializadas, como as mitocôndrias, frequentemente chamadas de “usinas de energia” da célula, devido à sua função e associação.
Enquanto a célula hospedeira passou a dispor de maior eficiência metabólica, a célula fagocitada encontrou proteção e estabilidade, ou seja, algo que poderia configurar um processo de destruição converteu-se em cooperação entre ambas as células.
A distinção entre fagocitose e simbiose evidencia dois modos distintos de relação. Enquanto a fagocitose pode representar um processo potencialmente destrutivo para o organismo englobado, a simbiose baseia-se na coexistência com benefício mútuo. Essa diferenciação permite a construção de uma analogia com as relações sociais. A cooperação entre indivíduos, fundamentada em um espírito de comunidade, pode ser associada à simbiose, marcada pela interdependência e pelo benefício recíproco.
Por outro lado, a fagocitose pode ser compreendida como metáfora de relações sociais marcadas por violência, dominação e exploração, nas quais uma das partes é subjugada enquanto outra exerce poder, como observado nas dinâmicas de classe e em processos históricos atravessados por desigualdades sociais, inclusive de caráter racial. Nesse sentido, a sociedade, especialmente sob determinadas formas de organização econômica, como a capitalista, pode ser interpretada como um campo de tensões entre cooperação e apropriação.
Nesse contexto, emerge a noção de transmutação social, compreendida como o processo pelo qual valores, práticas e significados são apropriados, deslocados e ressignificados ao longo do tempo. Tais transformações não são neutras, pois estão atravessadas por relações de poder. Um exemplo significativo é a incorporação de elementos da contracultura, como o artesanato associado ao movimento hippie, pela lógica de mercado, transformando práticas originalmente contestatórias em produtos de consumo massificado (indústria da bijuteria).
De modo semelhante, disputas interpretativas em torno da Constituição Federal de 1988 evidenciam como princípios jurídicos podem ser tensionados e, em determinados contextos, reconfigurados em sua aplicação, revelando processos de apropriação e distorções dos sentidos originais.
O significado das “revoluções sociais” também pode ser retomado nesse contexto, como ilustração histórica e pedagógica. Revolução é pulsão, paixão, e, ainda que seja emoção e razão, não é institucionalização. Pode e deve criar instituições e institucionalidades, e destruir outras, mas é claro que uma ideia não pode ser retida, confinada, numa instituição. Nem o gênio, liberto, poderá ser colocado de volta na garrafa.
Revoluções sociais são mutações, transformações profundas, mas, podem ocorrer desvios, “cristalizações”, que desvirtuam o sentido original. Como vimos na Revolução Mexicana, depois, transmutada num processo de apropriação que durou 70 anos, sob o domínio do PRI (Partido Revolucionário Institucional).
A racionalidade que havia na luta popular por Justiça Social se transmutou em “racionalização Institucional” (os ideais de liberdade e justiça foram cristalizados em domínio burocrático). Da liberdade à burocracia, da justiça à cristalização do poder.
Contudo, é fundamental reconhecer os limites dessa analogia entre biologia e ciências sociais. Na biologia, embora mutações possam resultar em perda de adaptação ou redução da viabilidade, não há um retorno a estados anteriores, não sendo adequado falar em “involução”. Já nas ciências sociais, processos históricos podem ser interpretados como regressões, especialmente quando envolvem perda de direitos ou consolidação de regimes autoritários. As consequências da Primavera Árabe evidenciam essa complexidade, na medida em que movimentos inicialmente associados à transformação social foram, em alguns contextos, seguidos por cenários de instabilidade ou recrudescimento político (“revoluções coloridas”, como no Brasil do Golpe de 2016).
De forma ainda mais extrema, eventos como o Genocídio Armênio demonstram como processos sociais podem culminar em violência sistemática e extermínio, reforçando-se que, diferentemente da biologia, as transformações históricas não garantem progresso e podem assumir formas profundamente destrutivas. Até os dias atuais, a memória desse genocídio permanece viva e é expressa em produções artísticas, como nas obras de Serj Tankian, vocalista da banda System of a Down, que contribuem para sua denúncia e problematização.
Desse modo, ao articular conceitos biológicos como mutação, evolução, simbiose e fagocitose com interpretações sociais, evidencia-se que os processos de transformação, tanto biológicos quanto sociais, não são intrinsecamente positivos ou progressivos. Pelo contrário, podem assumir diferentes direções, variando entre cooperação e dominação. Reconhecer essa complexidade implica não apenas compreender os fenômenos, mas também problematizar as relações de poder que os atravessam, sem perder de vista os limites entre os diferentes campos do conhecimento.
Esse texto expressa uma modesta contribuição ao debate acerca da complexidade na produção, pesquisa, divulgação científica. Em termos mais técnicos, ainda sinaliza para a continuidade da relação, associação, entre Pensamento Científico e Pensamento Sociológico – como contribuição prática de um processo de simbiose entre duas áreas distintas do conhecimento.
[1] CHEVALLARD, Yves. La transposition didactique: du savoir savant au savoir enseigné. Grenoble: La Pensée Sauvage, 1985.
[2] MARGULIS, Lynn. Origin of eukaryotic cells. New Haven: Yale University Press, 1970.




