Por Vinício Carrilho
Essa narração é um pouco mais antiga, do início de 2025, quando fui para São Paulo-Capital, pela última vez. Nosso objetivo era achar passeios interessantes e, como sempre fazemos, andar pela Liberdade e conhecer algum Museu diferente – e um Shopping diferente, também.
Não chegamos exatamente no mesmo horário, então saí do hotel para encontrar a Fátima num ponto combinado. E aí começa essa nossa história, com a minha conversa com o motorista do Uber.
Como já é uma marca, começo puxando conversa sobre o clima, o trânsito – temos que lembrar sempre que são motoristas com jornadas diárias de 10 a 12 horas – e vou vendo para onde vai o diálogo. Procuro sempre enfocar nas condições de trabalhado, na tal “uberização social” (que afeta todo mundo, de um modo ou de outro), para, quem sabe, levar uma fagulha de crítica ao neoliberalismo.
Nunca falo de política, diretamente, a não ser por vias indiretas – como quando perguntei, em outra viagem, se o motorista conhecia o projeto federal de criação de Pontos de Descanso para os motoristas de Uber. E menos ainda falo sobre partidos políticos – inclusive porque, no Brasil, partido político é um caso que não se fecha na análise apurada da Ciência Política.
Pois bem, naquela última viagem a São Paulo, o motorista – de uns 35 anos – disse-me que deixou o emprego regular (com CLT), que tinha como chefe ou supervisor de logística, sua área de formação, para ser Uber. Achei estranho e perguntei o porquê. Ele contou que fez isso por causa de dinheiro, para terminar a construção de sua casa.
Disse que às vezes virava ajudante de pedreiro na construção da própria casa, junto com a esposa. Contou que, num belo dia, o filho não queria ir para a escola. A mãe disse que iria, brava. Ele disse que poderia faltar, se quisesse, mas teria que ajudar com os tijolos.
A mãe ficou irritada com ambos. Mas, o menino achou ótimo ficar com o pai naquela manhã. E foram transportar tijolos depois do café. O pai, o motorista do Uber, entrou num dos cômodos em construção e disse ao filho para lhe trazer os tijolos, de cinco em cinco. No começo era só festa. Depois de 10 minutos o menino acusou cansaço nos braços de criança. O pai disse: “mais uma hora de trabalho!”.
Por volta da hora do almoço, o pai parou tudo e mandou o menino tomar banho para comerem. Depois do almoço, o pai disse que compraria um desenho que o menino fizesse naquela tarde. E o menino fez, e ganhou 10 reais.
Em seguida, o pai (motorista) lhe disse que todo trabalho é honesto. Porém, ele viu como é difícil o trabalho de pedreiro, quando não se tem muitas oportunidades. E lhe disse que a escola poderia lhe dar aprendizados para trabalhos melhores, como o desenho, as artes, a universidade. O que se chama de trabalho vivo, na Sociologia.
Por fim, chegamos ao meu destino, a Fátima já me espera.
Antes de descer, tirei cinquenta reais da carteira e dei ao pai, para que comprasse um desenho do filho dele para mim. Iria dizer ao menino que quando me encontrasse novamente, numa viagem de Uber em São Paulo, me daria o desenho.
É uma história que me emociona toda vez que lembro.
Uma família simples, pobre, com uma imensa sabedoria que começa, caminha e termina sempre na Educação dos filhos.
Com mais pessoas como eles, o Brasil daria certo.




